PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
SUA GENTE

Maria de Lourdes Brito Villar
Dona Milita

 


Dona Milita junto às crianças do G. E. "Antonio João ao lado das quais labutou por toda a sua vida,
forjando caráteres e espalhando ternura.
Foto enviada por Lety

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Dona Milita e seu piano

Calou-se a voz do piano de minha mãe, há 24 anos. Se estivesse viva, faria, no próximo 14 de julho, 100 anos. Filha do Cap. José Monteiro de Brito e D. Honorina de Brito, muito cedo destacou-se dos demais irmãos pela inteligência, e principalmente, pelo gosto pela música. Exímia pianista, também tocava acordeão e arranhava o violão. Mas era ao piano que extravasava suas alegrias e tristezas, e, segundo meu tio Juca Brito, tocava com a alma. Fico a refletir como ela, miúda, franzina, conseguia conciliar seus afazeres de casa à profissão de  professora primária, além de dar aulas de piano em casa aos filhos de famílias tradicionais de Piquete. Entre eles, minha saudosa comadre Arlete Ferreira, seus irmãos Mariinha e José Rosalvo, Célia e Celeste filhas do Sr. Cristiano Alves da Rosa, Regina Nader, Vera Senne, cujas mãozinhas de 6 anos não conseguiam abrir do “dó ao sol”. E tudo isso com nove filhos ao seu redor. Acho que de tanto ouvir o som maçante dos exercícios musicais de seus alunos, somente uma de minhas irmãs teve o privilégio de aprender a tocar piano. Bom mesmo era quando nos juntávamos a meu pai, para ouvi-la tocar: La Cumparsita, Volta, Tão Longe e outras músicas que ecoavam na casa saindo pelas janelas pra deleite de nossos vizinhos da Rua São Miguel. Sentíamos muito orgulho pelo fato de nossa mãe e seus irmãos serem professores, razão pela qual nós quatro suas filhas mulheres seguimos a mesma profissão e nela nos aposentamos. D. Milita, como era conhecida, chegou a dar aulas na roça, no Bairro do Itabaquara, aonde ia à cavalo, e na Tabuleta, aonde chegava de charrete. Mas foi no Grupo Antonio João, escola construída no terreno doado por seu pai, na época prefeito da cidade, sua trajetória maior no magistério. Lá também deram aulas seus irmãos Professores Durvalina Brito, Dario Brito, Conceição e Elza Brito, além do cunhado Prof. João Cardoso, esposo de sua irmã precocemente falecida, Tita Cardoso. À frente da criançada era ela quem ao piano preto com teclado amarelado dava o tom para as festas cívicas, aniversários e outras comemorações. Também tinha orgulho de ter como diretor um seu ex-aluno, o Prof. Osmar Simas.


Dona Milita, quinta da esquerda para a direita entre suas amigas professoras do G. E. "Antonio João", em festa junina; presente na foto o diretor Osmar Rocha Simas.
Foto do Arquivo Mariinha Mota

Foi nessa Escola que minha mãe fez amizades que a acompanhariam por toda sua vida pessoal como: Profs. Leonor Guimarães, Maria do Carmo Paschoal, Maria Vicentina Cipoli, Maria Aparecida d’Aléssio, Marizinha Peixoto, Conceição Godoy Soares, Mariinha Mota, Ruth Brasil, Yolanda Luz. Mais tarde foram chegando as mais novas como Eneida Dionísio Ferreira, Olga Eklund, Dorothéa, Mirthes Chaves, Eunice Fernandes, Vanda Mota e outras mais que também se tornaram amigas pessoais.

Minha mãe viveu o tempo áureo da riqueza do café, das grandes festas, quando as porteiras da fazenda eram abertas à população piquetense para fartos comes e bebes, nas alforrias de escravos, aniversários de meu avô, que também foi prefeito desta cidade quase 20 anos. Com a queda de Getúlio Vargas e a recessão, a vida voltou à rotina de sempre.

Casou-se com meu pai Alcides Villar, homem honesto e trabalhador, com ampla atuação nos meios esportivos e social como Diretor do Esporte Clube Estrela, Presidente do Grêmio General Carneiro etc. Dessa união nasceram os nove filhos, cinco homens e quatro mulheres, que herdaram do casal a dignidade, os valores éticos e morais que procuram passar aos filhos e netos.


Flashs da bela família constituída por Milita e Alcides

Há alguns anos, a rua onde fica o fórum de Piquete recebeu a denominação de Profª Maria de Lourdes Brito Villar (D. Milita). 

Neste ano de seu centenário, fazemos nossa as palavras do Poeta Carlos Drumond de Andrade: “Por que Deus permite que as mães vão-se embora?”


O saudoso casal Milita e Alcides

Suely Brito Villar Torino
JORNAL CIDADE PAISAGEM
Piquete, junho de 2010


Dona Milita, Alcides Villar e Dona Angelina Villar, acompanhados dos netos Marcelo, Cláudia, Marcos, Celsino, Elaine e Kátia.

MINHA HOMENAGEM

 

Inesquecível mestra! Dona Milita sempre fez parte de minha vida, por conta de sua amizade com Mariinha Mota, minha mãe. Aluna do G. E."Antonio João", fascinava-me com seu piano. Dona Milita possuía uma sala especial para ela. As outras professoras todo ano ocupavam salas diferentes. Dona Milita não. Permanecia no mesmo local, numa sala especial situada bem no centro da escola. A sala da Dona Milita! Deveriam colocar lá uma placa assim denominada, homenageando a mestra querida, senhora absoluta do espaço e correspondendo magnificamente ao privilégio concedido. Lá se entronizava o seu piano (ainda existe?), entre as cadeirinhas e mesas pequeninas das crianças do Jardim da Infância. Quando estudante da Escola Normal "Duque de Caxias", o maior prazer para mim e minhas colegas era participar das aulas de Dona Milita, mais uma festa diária do que aula mesmo. Ela encantava as crianças e as adolescentes professorandas, empolgadas com a profissão escolhida.

Dona Milita também foi minha professora de piano. Freqüentei sua casa e tive a oportunidade de conviver mais de perto com sua família linda e alegre, fruto de um casal carinhoso e íntegro. Família que possuía os olhos azuis mais bonitos que encontrei pela vida. Esse azul estendeu-se pelas gerações seguidas. Recordo-me certa feita quando levei meus filhos, meninos ainda,  até Piquete. Meu primogênito ao conhecer dois priminhos, netos de Dona Milita (em Piquete as famílias todas acabam se aparentando), ficou encantado com os olhos dos "alemãezinhos", como ele chamou os priminhos e me perguntou porque não tinha pintado os olhos dele também dessa cor.

Dona Milita era ternura, educação, tradição, história: legítima representante de um clã destacado na cidade. Grafou, no entanto, a sua imagem em nossas lembranças, principalmente pela sua doçura e gentileza. Saudades! Muitas saudades mesmo do tempo em que a vida era repleta de música, cor e dignidade.

Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira



Milita e Alcides em dia de gala: casamento da filha Suely com Celso Torino.

 

Obs: As fotos dessa página foram gentilmente cedidas por Celso Villar Torino

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