PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
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Hugo Germano Dias

 


Hugo na sala de curativos onde, ainda hoje, aos 70 anos de idade trabalha diariamente.

HUGO E THEREZINHA

 Hugo Germano Dias nasceu em Piquete, em 12 de maio de 1934. Filho de Pedro Dias e de Maurília Amélia Dias, estudou no Grupo Escolar Antônio João e, posteriormente no Ginásio da FPV. Iniciou sua vida profissional como estagiário de enfermagem, em 1963, no Hospital da FPV. Submeteu-se a provas de avaliação, obtendo o Certificado de Auxiliar de Enfermagem. O exame prático aconteceu no Hospital das Clínicas de São Paulo. Hugo continuou a trabalhar no hospital da cidade, auxiliando cirurgias e atuando na parte clínica. Aposentou-se em 1991, pelo INSS. Através de concurso, foi contratado pela Prefeitura Municipal e continuou no Hospital ao qual dedicou toda sua vida. Eleito vereador de Piquete, atuou na Câmara Municipal por seis anos, exercendo o cargo de Presidente da Comissão de Finanças e Obras da Prefeitura Municipal. Casou-se em 25 de dezembro de 1965 com Thereza Ribeiro Dias. O casal tem duas filhas - Zilma e Zilmara - e quatro netos: três meninas e um garotinho.


Therezinha e Hugo na sacada do Hospital de Piquete

Therezinha, como é conhecida, nasceu em Piquete, em 11 de janeiro de 1942, filha de João Theodoro Ribeiro e de Antônia Fonseca. Estudou no Grupo Escolar Antônio João e é um exemplo vivo da realidade de nosso país, onde as escolas técnicas e profissionalizantes são escassas. As dificuldades de cada região conduzem ao treinamento das pessoas no dia a dia de suas atividades, qualificando-as ao exercício de uma profissão. Neste Brasil de pés descalços, cada vez mais são utilizados os leigos, no trabalho de multiplicadores e agentes de saúde. E que seria de nossa população sem a dedicação e empenho desses brasileiros... Therezinha não cursou enfermagem; aprendeu na prática, usando sua sensibilidade e capacidade de doação aos pacientes internados no Hospital da FPV. Uma semana após Hugo assumir seu posto, ela iniciou sua trajetória na pediatria desse hospital. Discretos, seu namoro era desconhecido de todos e as freiras salesianas que dirigiam o nosocômio só tomaram conhecimento da ligação quando de seu noivado. Como seu marido, Therezinha dedicou sua vida ao exercício dessa digna profissão, aposentando-se em 1989. Em maio de 2004, Hugo completou 70 anos. Um data show foi montado em sua homenagem e suas fotos ainda se encontram registradas no computador do Hospital. Nessa seção que tenta resgatar os nossos valores anônimos, Hugo e Therezinha não poderiam faltar. O casal é tratado por todos na cidade com muito carinho e respeito. Quem não necessitou dos cuidados de Hugo? Quem não teve familiares socorridos por Therezinha?


O casal no corredor da Maternidade desativada do Hospital de Piquete

Hugo tem muitas histórias para contar. Relata que, certa feita, um avião "teco-teco" originário do Rio caiu na Serra da Mantiqueira, perto da Fábrica Peixe. Designado pelo General Martins para prestar socorro aos acidentados, preparou a viatura e chamou o Dr. Luiz Salomão para acompanhá-lo. Ao chegarem ao local do acidente a cena o deixou abalado: tudo destruído, todos mortos e muitos brinquedos e presentes de Natal espalhados pelo chão... Lembra também do Vitinho, um menino franzino cuja família morava muito longe. Como não podia estar com seus pais, pois fora submetido a uma colostomia, o garoto ficou morando no Hospital, enquanto aguardava a correção cirúrgica. Hugo e Therezinha, penalizados com a solidão da criança, levavam-no para sua casa nos fins de semana, ministrando-lhe carinhos e cuidados. Os momentos de fé e emoção também aconteceram nestes muitos anos de trabalho. Um menino, filho único, estava muito mal. O médico dissera que não havia possibilidade de cura. A mãe, desesperada, rezou fervorosamente, chorando, diante de uma imagem de Nosso Senhor. Voltando ao quarto do filho, este abriu os olhos e sentou-se. Hugo, ao ver a mãe abraçando o filho, procurou o Dr. Messias e contou o fato. "Impossível", disse o médico. Mas foi ao quarto do menino e teve que acreditar: "Milagres existem".


Imagem do Menino Jesus, em destaque no centro de uma sala do hospital

Fui testemunha da dedicação desse casal e do carinho com que tratavam seus pacientes, qualquer que fosse a sua situação socioeconômica. Uma história eu não poderia deixar de relatar sobre estes queridos conterrâneos. Em 1968, uma terrível situação envolveu minha família. Meu irmão caçula, Salvador Augusto, o Dozinho, aos dez anos de idade, recebeu o diagnóstico de osteossarcoma, um tumor invasivo em estágio avançado. Não havia tratamento. As metástases já se espalhavam por todos os seus órgãos vitais. Desenganado em São Paulo, o garoto foi devolvido ao seio da família, pois o Hospital da FPV possuía recursos para minorar seu sofrimento, sem afastá-lo de seus entes queridos. Dozinho estava consciente de sua situação. Percebendo que vivia seus últimos momentos, internado no Hospital, despediu-se de todos que estiveram ao seu lado: dos médicos, das freiras, dos familiares. Horas antes de entrar em coma, chamou Hugo e deu-lhe, agradecido por seus cuidados carinhosos, doces, lápis de cor e outros mimos com os quais tentavam distrai-lo, dizendo-lhe que os levasse para sua família, pois não mais serviriam para ele. Todos choraram pela força e lucidez daquela criança maravilhosa. Sempre fui grata a essas pessoas desprendidas que haviam cuidado com tanta ternura de meu irmãozinho. Na ocasião, eu cursava o primeiro ano da Faculdade de Medicina. Os anos passaram... Mais adiantada nos estudos, freqüentava nas férias escolares o Hospital da FPV. Encontrava-me sempre com Hugo e Therezinha e me incomodava o fato dele nunca me olhar de frente. Um dia, perguntei a ela se havia, de alguma forma, magoado seu marido. Therezinha respondeu que Hugo me evitava, pois toda vez que me via, lembrava-se do Dozinho. Esse fato significou muito para mim, pois revelava a grandeza e a ternura deste homem. Dozinho era apenas mais um paciente, uma criança sim, mas quantas crianças e que numero de dores esse enfermeiro dedicado não viu desfilar por sua vida. E ele sofria pela lembrança do Dozinho com a mesma humanidade que o fez conduzir Vitinho ao aconchego de seu lar...


Hospital de Piquete

Muita coisa mudou na vida da cidade e no tipo de atendimento do hospital. A Fábrica Presidente Vargas, hoje IMBEL, não é mais sua mantenedora. Entregue à municipalidade o Hospital agoniza, ainda imponente, mais um triste exemplo do descaso dos políticos brasileiros com o patrimônio público e a saúde da população. Para o povo de Piquete resta a saudade do seu tempo glorioso, sob o comando de médicos incomparáveis como os doutores Djalma Barros Passos e Leopoldo Wanderley. O carinho desses médicos que chegaram a nossa cidade jovens, no início de sua carreira, ofertando-nos os melhores anos de suas vidas, jamais esqueceremos. Profissionais amigos, conselheiros e mestres inesquecíveis... Registramos em placa de agradecimento na porta do Centro Cirúrgico do Hospital a nossa imorredoura gratidão.

As freiras não mais estão lá, com suas vestes imaculadas e sua gentileza. Mas Hugo e Therezinha permaneceram... Sem nada reclamar, apenas cumprindo o seu dever. Das dedicadas irmãs salesianas, os sinais de religiosidade ainda são encontrados nas imagens espalhadas pelos corredores e salas.


Crucifixo da Sala de Curativos

Numa época em que todos buscam uma forma de levar vantagem, quando valores morais e éticos são publicamente achincalhados, num país em que a mentira, a corrupção e a ganância caracterizam o sucesso, homens como Hugo, destacam-se e tem que ser valorizados por quem ainda tem algum bom senso. Minha homenagem sincera ao casal. Meu carinho, Therezinha. Meu agradecimento, Hugo, por você representar ainda um resquício de humanidade neste Brasil que cada vez mais perde seus valores. Ao entrevistá-lo, a meu pedido, Arlete Monteiro Ribeiro anotou que, quando você vai ao cemitério, olha a foto de meu irmãozinho e pede a ele que interceda por você, junto a Deus, acreditando que Dozinho, por sua inocência e pureza, possa ser atendido. Mas você não necessita de intermediário, Hugo. Sua vida lhe dá crédito suficiente para ser ouvido pelo Criador. Obrigada por existir. Que Maria, Mãe de Jesus, acolha este querido casal em seu manto de luz...

 

Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira
Página formatada em 25 set 2004
Fotos e dados fornecidos por Lety

 

 

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