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Josefa Moreira de Andrade (Dona Finoca)

 


Dona Finoca, Sr. Bili e seus quatro filhos

Dona Finoca

Josefa Moreira de Andrade nasceu no Bairro do Rodeio, em São José do Barreiro, SP, em 30/01/1895. Filha de Manoel Antonio de Andrade Filho e Rita Maria Marques, viveu dos cinco aos doze anos de idade, em Resende, com sua avó Maria Francisca Conceição. Dona Finoca veio para Piquete aos 22 anos de idade, acompanhando sua irmã Francisca (Chiquinha) quando da transferência de seu cunhado João Henrique, de Resende para a cidade. Casou-se em Guaratinguetá, SP em 28/07/1921 com Benedicto Mariano da Costa Júnior (Bili). Tiveram quatro filhos: Geraldo, Antonio Carlos, Rita e Jorge, muitos netos e bisnetos. Faleceu em Guaratinguetá, SP em 11/11/1974 aos 79 anos de idade. Seu esposo Bili, faleceu em Lorena, SP em 02/01/1988, aos 93 anos de idade, mas também foi enterrado, juntamente com Dona Finoca, num jazigo em Piquete.

Dona Finoca foi parteira prática em Piquete, trazendo ao mundo um sem número de piquetenses. As parteiras práticas eram conhecidas no passado como mulheres simples, de lenço na cabeça, avental muito limpo e que por sua disposição e conhecimento eram chamadas nos momentos de parto para auxiliarem outras mulheres, detentoras de um conhecimento e de uma prática muito antiga. Alguém para se admirar e respeitar! Uma figura bondosa e sábia que inspirava cumplicidade, uma "igual" que aparecia em momentos difíceis e íntimos, para socorrer mulheres e bebês. Com a construção de maternidades e aumento no número de médicos disponíveis à população essa profissão quase desapareceu. Prossegue, no entanto, nos recantos mais distantes, onde a população ainda não pode contar com a medicina moderna. Ainda hoje, em alguns locais do país, as mulheres continuam sendo assistidas por parteiras e benzedeiras. Na década de 70, a visão da realidade do Brasil fez com que o professor de Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará, Dr. Galba de Araújo, desenvolvesse um processo de treinamento das parteiras e benzedeiras das comunidades. Em seu livro "Ideal Clube - História de uma Sociedade" o autor Vanius Meton Gadelha Vieira assim relata esses acontecimentos:

"Diretor da Maternidade Escola quando de sua inauguração, o prof. José Galba de Araújo nasceu em Sobral, no Ceará, em 1917. Formou-se em medicina na Bahia, especializando-se nos Estados Unidos. No Ceará, adaptou o conhecimento científico adquirido, à necessidade da mulher nordestina. Defendia o tratamento diferenciado às gestantes, respeitando a cultura e as peculiaridades de cada região. Defensor do parto natural, procurou a melhoria da qualidade do parto domiciliar. Atento à necessidade de identificação e encaminhamento das gestantes de risco, além do acompanhamento do recém-nascido que, na maioria das vezes, falecia por desinformação e ausência de cuidados básicos, Galba de Araújo investiu na manutenção orientada dos costumes da população. Valorizou e respeitou o trabalho das parteiras das comunidades, instruindo-as e oferecendo a elas, condições para continuarem conduzindo suas atividades, com o amparo da Universidade nos casos mais graves. Significativo o seu trabalho com as 'rezadeiras', às quais ele sempre dizia que poderiam benzer com o raminho de arruda, contanto que também oferecessem às crianças desidratadas, o soro caseiro. Com sua equipe, orientou e treinou essas mulheres, que possuíam enorme ascendência sobre suas comunidades, para executarem procedimentos simples, mas fundamentais à saúde da mulher e do recém-nascido. Entendendo a cultura popular e aliando-a ao conhecimento técnico e científico o médico criou o embrião dos agentes de saúde, hoje reconhecidamente úteis e necessários. Governos adotaram este procedimento, mas os créditos não são dados ao seu criador. Somente nos meios acadêmicos se reconhece que esta importante ação social do trabalho dos agentes comunitários de saúde, formou-se graças à visão pioneira deste médico cearense."

Assim agiu por toda a sua vida abnegada a nossa homenageada. Ninguém melhor do que nosso escritor maior Chico Máximo para traçar sua trajetória, por ele descrita no texto "Semeadoras de Vidas".



Os filhos Jorge e Rita


Os filhos Geraldo, Jorge, Rita e Antonio Carlos

Semeadoras de Vidas

Dia 12 de novembro, pela manhã, recebemos a notícia da morte de Dona Finoca e, à tarde, assistimos às núpcias do seu corpo, quase octogenário e exaurido, com a terra, sempre antiga e sempre jovem. Dona Finoca, cujo nome de batismo desconheço, foi gente do nosso Piquete antigo, amiga íntima dos nossos pais e avós, pessoa de respeitosa e conceituada tradição. Seu nome - um símbolo, e o barulho de seus passos - anúncio de vida e criança pra chegar. Foi parteira do nosso povo naqueles dias em que maternidade e obstetra eram, para nossos ancestrais, coisas ainda distantes, coisas da capital e cidades adiantadas. Ela pertence a uma série de mulheres-heroínas já desaparecidas no tempo, incumbidas de colocar vidas dentro da Vida. Era uma sombra amena que atravessava as solidões noturnas e as madrugadas com respingos de estrelas ou fios de chuva, sem inspirar medos fantasmais, pois levava nas mãos notícias alvissareiras de recém-nascidos. Pelas suas mãos deslizaram dezenas de crianças, embrulhadas ainda na paz uterina e quentinhas do aconchego materno. As suas mãos contiveram, dezenas de vezes, o mistério extraordinário da vida e os segredos palpitantes e insondáveis do novo ser. As suas mãos, dezenas de vezes, foram a caixa de ressonância dos primeiros sussurros e dos primeiros choros ante o impacto da nova realidade. As suas mãos, dezenas de vezes, tocaram a intimidade e sacralizaram-se com o indelével perfume da vida. As suas mãos, dezenas de vezes, apararam a criança frágil e delicada e a transportaram para o mundo cá de fora.

Há profissões que trazem "a marca do sagrado" e merecem, nesse mundo tão dessacralizado, respeito e admiração. O grave e solene oficio de parteira, como o de enfermeiro e médico, situa-se numa dimensão que transcende o meramente material, pois além das feridas, do pus e do sangue, mora a dor, a expectativa de morte ou a perspectiva de vida. Há pessoas que passam pelo mundo e conosco convivem no dia-a-dia, no vida-a-vida e, infelizmente, não temos o dom de sentir com os olhos do espírito a elevada missão que resolveram abraçar. Por coincidência, naquele dia dos funerais, veio ao meu encontro uma crônica de Carlos Drumonnd, intitulada "A lixeira", em que o escritor fala de uma menina encontrada numa lixeira de apartamento, ali jogada para morrer, sem qualquer cuidado higiênico ou resquício de conforto. Chegou o faxineiro e, segundo o escritor, "tirou daquelas entranhas estranhas a recém-nascida, como o obstetra faz o parto".

A volta de Dona Finoca para ser sepultada aqui em Piquete e o relato do cronista itabirano contêm verdades que servem para motivo de reflexão - "a lição de respeito à vida" -, numa época em que o aborto, a eutanásia e os atos similares estão se tornando lugares-comuns na linguagem dos homens. Uns semeiam a morte, outros semeiam a vida. Dona Finoca passou por nossa gente humilde e simples, como semeadora de vidas, vulto bom e amigo, "madrinha-avó" daqueles que sentiram o toque dos dedos quentes de amor e ansiedade. Nem todos compareceram, dispersos por aí. Mas carregam no corpo as lembranças do primeiro tapa provocador do choro, da água morna escorrendo na pele macia e tenra, do contacto da velha tesoura cortando o cordão umbilical, das carícias envolventes das fraldas virginais... Eu quis revê-la, naquela tarde de muito sol, ao lado dos seus filhos, meus amigos. Impressionou-me a beleza da paz no seu rosto. Não parecia morta. Parecia sonhar com todas as vidas que tivera nas mãos.

Chico Máximo
Texto publicado no jornal da cidade de Piquete em 15/12/1974, fazendo alusão à morte de Josefa Moreira de Andrade - Dona Finoca


Dona Finoca e suas três irmãs: Maria Rita (Sinhazinha), Francisca (Chiquinha)
e Ana Rita (Aninha), na década de 50.

Fotos e dados informativos retirados do livro "Genealogia da Família Moreira de Andrade" 
de Jorge de Andrade Costa, gentilmente cedido por Nelson Andrade


 

 

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