PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
SUA GENTE

Diocesano Ramos da Silva
"Joãozinho da Farmácia"


Diocesano Ramos da Silva, o "Joãozinho da Farmácia" e sua esposa Dona Terezinha.

 

Infância pobre na rua da Estação em Canas, de onde contemplava os trens com destino a São Paulo e ao Rio de Janeiro. Ninguém o chamava de Diocesano, nome de batismo e cartório, mas de Joãozinho. Qual a explicação? No ato da crisma, o bispo resolveu consagrá-lo à um santo da Igreja. Ou mudaria de nome ou não seria crismado... O santo escolhido, num átimo, pelo pai, foi São João. E o menino foi crismado com o nome de João. Carinhosamente e até por brincadeira passaram, em casa e na escola a chamá-lo de Joãozinho, para muitos simples apelido. O nosso Joãozinho, menino ainda, trabalhava para a conquista de algumas moedas. Catava carvão no leito da estrada-de-ferro e o vendia a uma das cerâmicas de Canas, para aquecer os fornos de produção de telhas. Foi também estafeta: às horas da passagem do trem, pontual na estação, pegava as "malas de correspondência" atiradas pelo cobrador e as levava à agência dos Correios e Telégrafos. Aos treze anos de idade sua vida tomou novo rumo. Foi trabalhar na Farmácia Nossa Senhora Auxiliadora, em Lorena, executando tarefas bem simples: serviço de limpeza e entrega de remédios em domicílio. Três anos mais tarde, balconista. Aprendeu a aplicar injeções e a fazer curativos. O mais importante - iniciou-se na arte da manipulação. Com vinte e quatro anos veio para Piquete, com o objetivo de progredir. E o conseguiu. Comprou, em sociedade, graças a um empréstimo, a Farmácia São Miguel, na esquina da rua Américo Brasiliense. Em 1950 já era proprietário único, ostentando o título de farmacêutico provisionado ou prático de farmácia, com muito conhecimento e habilidade. Uma pequena imagem de São Miguel, aprisionada numa redoma de vidro, abençoava a vida do nosso jovem, que aqui ficou e constituiu família. A farmácia, à sua chegada, conservava certos objetos que lhe seriam de grande utilidade: um almofariz, copos graduados, uma balancinha com dois pratos e vidros de pós medicinais. Foi com esses objetos que ele deu continuidade ao trabalho de manipulação. De avental branco, como um alquimista, pesava cuidadosamente os pós medicamentosos, misturava-os e pacientemente macerava-os no almofariz - surgiam as poções e as pomadas para o milagre das curas. Um receituário, velho caderno manchado pelo tempo e por respingos de remédios é guardado com carinho. Das mãos do nosso farmacêutico surgiam cápsulas, soro, ungüentos, xaropes, bálsamos, pomadas, talcos, desodorantes, dentifrícios, cremes, loções, licores e conhaques. Remédios para todos os males. Até baraticida e goma arábica se produziam. Vidros bojudos, de tamanhos vários, enfileirados em prateleiras, ainda com pós, sais, ervas medicinais, parecem velhos guerreiros aposentados de tantos combates às doenças. Exibem rótulos com letras esmaecidas e nomes exóticos e sonoros: Aristol, Atofan, Luminal, Penacetina, Aristoquina, Tanalbina... Hoje são apenas relíquias coloridas a sugerir antigos rituais e perfumes adocicados. Lembro-me, eu ainda meninão, do Joãozinho percorrendo de bicicleta as ruas poeirentas ou barrentas de nossa cidade, para atendimentos domiciliares. Passava feito uma bala, as mãos coladas ao guidão, exímio equilibrista, numa bolsa de couro simples estojo de metal com agulhas e seringas. Desdobrava-se para atender com eficiência. Como a penicilina devia ser aplicada de quatro em quatro horas, pernoitava nas casas dos pacientes. Aos poucos foi conquistando a simpatia de todos. Admiravam-lhe a dedicação, a responsabilidade e a determinação. Amável com velhos e crianças. Suas mãos tinham a leveza da cura e as injeções ficavam menos dolorosas. Foi, entre nós, uma espécie de médico em quem se confiava cegamente. Com o passar do tempo, a pequena farmácia tornou-se ponto de encontro. Para lá convergiam, à noite, respeitáveis cidadãos, para bate-papos; comentários sobre a política e os acontecimentos do dia-a-dia. Alguns até lhe confiavam problemas e pediam orientação.

Em 1960 a farmácia ganhou nova residência e nova roupagem, com ares de modernidade, à avenida Luiz Arantes Júnior, mas continuou ponto de encontro, e a pequena imagem de São Miguel em lugar de destaque, para continuar abençoando e protegendo. O Joãozinho da Farmácia conheceu de perto o mundo das dores e angústias humanas e tentou suavizá-las. No silêncio, fez do tempo uma espécie de construção. Ajudou, durante quarenta e oito anos, a escrever a nossa História. Por isso oferecemos-lhe o título de "Cidadão Piquetense". Infelizmente ele não concretizou um dos seus sonhos - o de assistir ao cinqüentenário da farmácia ocorrido no ano passado. Comemorou-se a data sem aparatos, muita gente nem ficou sabendo. Se ele estivesse vivo, talvez idealizasse uma bela festa. Esta não houve, pois sem a sua presença faltaria o encantamento. Somos-lhe gratos pelas dores mitigadas, pelas vidas salvas, pelo bem semeado.

Chico Máximo
Publicado no Jornal "O Estafeta"
Página formatada em 10 set 2004

Fotos gentilmente cedidas por Luciano Ramos da Silva

 

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