PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
SUA GENTE

Profª. Leonor Guimarães

Grupo Escolar Antônio João - 1949


Profª Leonor Guimarães
Foto enviada por Lety

Mestra e Missionária

Cabelos bem esticados, rematados em coque, vestido de tricoline, mangas compridas, meias de algodão. Adereços - apenas um modesto relógio de pulso, o anel de professora primária e uma corrente ao pescoço, com a efígie de Nossa Senhora, a quem se consagrara. Assim ela se apresentava no dia-a-dia, na escola e na igreja, para onde sempre direcionou a vida. Jovem ainda, por sugestão de uma professora que lhe percebera a inteligência privilegiada, cursou a Escola Normal do Instituto de Educação "Conselheiro Rodrigues Alves", em Guaratinguetá, para onde se mudara, apesar dos parcos recursos financeiros. Confidenciou-me, certa vez, que, não tendo condições para comprar os livros adotados, valia-se de folhas de papel pardo usadas para embrulhar pães; recortava-as e com elas fazia cadernos na máquina de costura, em que copiava, nos fins de semana, os textos gentilmente emprestados por uma das colegas. Sua mãe, para equilibrar o orçamento familiar, recorria à culinária e esmerava-se em doces e quitutes para atender a uma vasta freguesia. Em 1927, nomeada professora efetiva do antigo Grupo Escolar de Piquete, aqui chegou com 22 anos de idade, após algumas experiências em escolas rurais. Piquete era como uma aldeia, as famílias formando uma grande família. O trenzinho dos operários nosso único meio de transporte. Desfile de burros e mulas pelas ruas poeirentas, com lenha, sacos de carvão e jacás de frutas e frangos. Boiadas vindas das Gerais atravessavam a cidade, de ponta a ponta, deixando no ar um cheiro adocicado de capim. O Hotel das Palmeiras, com o requinte dos cristais e porcelanas, polarizava a atenção dos visitantes exigentes. Os velhos casarões ainda persistiam de pé e, nas calçadas, ao cair da noite, as famílias, acomodadas em cadeiras de palhinha, tagarelavam sobre o cotidiano. No coreto da pracinha, em frente à Matriz de S. Miguel, as retretas musicalizavam as festas e a vida de cada um. A professora recém-chegada deve ter se encantado com a nova terra - sua simplicidade provinciana, o verdolengo das encostas, o azulado sinuoso da Mantiqueira, a transparência das manhãs, as noites povoadas de galos e, acima de tudo, a bondade do povo a amaciar as asperezas da vida. Logo se fez amada e respeitada. Aqui ficou e ajudou a escrever a nossa história. 

Desempenhou, entre nós, o trabalho de mestra e missionária. Seu aluno, testemunhei-lhe a estatura moral, o equilíbrio, o bom senso, os gestos comedidos, a voz baixa, às vezes quase sussurrada, nada de grandes expansões.  A tarde, no silêncio de sua casa reunia "os alunos de raciocínio mais lento", como eufemísticamente dizia, para aulas gratuitas de reforço - semeava a palavra e investia no futuro de cada um. Ficou-me esculpida na memória a imagem de uma mulher de físico frágil, acometida de bronquite asmática, a subir morosamente a ladeira da Rua Cel. José Mariano, a bolsa recheada de cadernos, em direção ao Grupo Escolar "Antonio João". Animada, porém, de fortaleza interior, capaz de grandes decisões. A serviço do Cristianismo, soube conjugar contemplação com ação. Foi um dos esteios da vida religiosa de Piquete. Uma religião isenta de sentimentalismo. Falava do sagrado com unção e alegria, como quem saboreia uma guloseima ou uma fruta apetitosa. Nas aulas de catecismo, ao discorrer sobre as passagens bíblicas, fazia-o com tal emoção, que nós, crianças, visualizávamos as "Bodas de Caná", a "Multiplicação dos Pães", a "Pesca Milagrosa"... e nossas vidas, bafejadas pelo Evangelho, ficavam mais leves, como que transcendentalizadas. Ao se referir à Mãe de Cristo, e com muito carinho, reconstituía a casinha de Nazaré e a pobreza de Maria afeita aos trabalhos domésticos, e nós a imaginávamos tecendo, varrendo, lavando, transportando água e cozinhando, sem idealizações românticas, quase palpável, bem próxima de nossas mães mergulhadas no anonimato e na rotina do lar. Durante toda a vida foi consultora da comunidade piquetense: orientava, dirimia dúvidas e apontava direções. Sabia compreender e desculpar. Alegrava-se com as nossas pequeninas vitórias e nos estimulava a fazer do tempo uma espécie de construção. 

Sem se abater diante das dificuldades e sem se deixar transviar no pessimismo, soube dignificar o trabalho da mulher, revelando que esta é capaz de transpor os limites de uma vida acanhada e sem perspectivas. A saúde precária obrigou-a, infelizmente, a nos deixar. O clima úmido e a topografia acidentada de Piquete impeliram-na a buscar Lorena, sua terra natal, onde morreu no dia 26 de maio de 1955, após muito sofrimento, assistida por três sacerdotes.  Interessante que ela sempre nos dizia que uma das grandes graças concedidas a um católico é poder contar com um padre à cabeceira, à hora extrema da vida.

O filósofo Teilhard de Chardin classifica os seres humanos em três categorias: os desanimados, os boas-vidas e os entusiastas. Para ele, os entusiastas são ardentes porque queimam como chama, nunca se desanimam, lançam-se na vida e acreditam na dimensão do próprio vôo. São nobres, têm Deus dentro de si. Leonor Guimarães, mestra e missionária, foi uma entusiasta porque acreditava na utopia e na ação silenciosa de Deus nos corações dos homens. Nós a perdemos no tempo, mas ganhamos na espiritualidade. O importante é que ela nos ensinou a amar o bem e crer na santidade.

Coluna do Chico Máximo - Jornal "O Estafeta"
Página formatada em 12 out 2004

OBS. As fotos coloridas são de Lety e revelam algumas escolas de Piquete que se apresentaram no desfile de 15 de junho de 2004, aniversário da cidade.
Estas crianças simbolizam a continuidade da educação de nosso povo, meta de vida de Dona Leonor Guimarães, que atualmente nomeia uma das nossas escolas.
A foto antiga do Grupo Escolar Antonio João foi escaneada do Jornal "O Estafeta".

 

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