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PIQUETE -
CIDADE PAISAGEM |

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Padre Juca Padre Juca era
de uma humildade acabrunhante. Incomodava a gente vê-lo tão oprimido
diante de nossa natural maneira de viver em sociedade. No tempo em que
convivemos na mesma cidade, quando éramos então bem moços, e gostávamos de
nos sobressair na roda de amigos, quer contando piadas, quer comentando as
últimas da terra com todo o sarcasmo possível, ou criticando atos do
governo, aquele exemplo de despretensão jamais nos serviu de modelo.
Nós o admirávamos, mas não queríamos ser como ele. No entanto quanta
bondade para ser imitada, quanta lição nos dava pelo exemplo e quanto
desprendimento a ser copiado! Alma boa, sorrindo para pobres e ricos,
dando de si tudo o que tinha, passando para outras mãos aquilo que
recebia, fazendo mesmo questão de andar sem um tostão, parece que se
sentia mal quando pegava dinheiro... Muitas vezes encontrei-o remexendo os
bolsos fundos da batina, procurando o que já não tinha, porque havia dado,
pouco antes, ao primeiro pobre que encontrara. Era o comum de sua vida o
"viver pronto". Os três votos solenes de castidade, obediência e
pobreza ele os cumpria por natureza, espontaneamente e por forte
convicção. Certo dia recebeu um telefonema urgente, para ir à
Queluz, ouvir em confissão um velho amigo, e seu profundo admirador, que
estava nas últimas, mas só se confessaria com ele. Não havia tempo a
perder, era preciso salvar aquela alma, mesmo porque se tratava de um
herético blasfemador, que abandonara a religião há muito tempo. Padre Juca
saiu apressado do Centro Telefônico. Havia um trem aquela hora e não podia
perde-lo. Quando entrou na gare foi cumprimentado pelo maquinista, que
tomava um cafezinho no botequim da Estação, e que foi logo dizendo:
"Vamos embora que já estou atrasado". Padre Juca nem
pensou em passagem: foi subindo para o vagão de 2ª classe, sentando-se num
banco duro e pensando no amigo de Queluz, pedindo a Deus que tivesse
misericórdia e o fizesse esperar. O trem deu um solavanco e partiu. Antes
de chegar em Lavrinhas, o Chefe veio pedindo as passagens. Quando ele
chegou ao padre, criou-se o caso: não tinha bilhete. "Então tem
que pagar aqui mesmo, e com multa". "Pagar como, meu filho? Não
tenho dinheiro. O senhor não podia fazer a caridade de me levar de
graça?" "Não posso", respondeu o Chefe, meio irritado. "Não
vê que sou empregado e que tenho responsabilidade? Ou o senhor paga, ou
desce na primeira estação". Padre Juca, um tanto envergonhado, remexeu
os bolsos, virou-os pelo avesso, abriu e fechou a carteira rústica, e
sacudiu a cabeça. Nem um níquel adormecido, nem uma nota velha e
amassada. E agora, o que fazer? O remédio era apear em
Lavrinhas. E o homem de Queluz, morrendo sem o consolo de
perdão? "Seja o que Deus quiser", balbuciou o padre, juntando
a batina e descendo do trem. Decepcionado, abatido, sofrendo as penas
de um desespero mudo, pos-se a andar pela gare, pensando ainda
na discrição do Chefe, que, afinal de contas, não fez escândalo
nem desandou em xingamento. "Deus que o abençoe, coitado". E
tornou a pensar em Queluz. E continuou andando, para cá e para lá ao longo
da estação. O Chefe sacudiu uma bandeirinha, deu um apito e subiu no
seu vagão especial. O maquinista, alheio a tudo o que se passara, deu
força à caldeira, desceu o breque e impulsionou a locomotiva. Mas, qual
nada. A máquina deu um arranco, a caldeira bufou como uma fera ofendida
por uma lança, e o trem parou. Não rodou um metro siquer. Cabeças
puseram-se fora das janelas em toda extensão do comboio. Que será? O
maquinista estranhou. Repetiu a manobra, deu novo impulso e nada. O mesmo
soco, o mesmo barulho de vagões e a máquina segura aos trilhos como se
completamente pregada ali. O maquinista desceu, chamou o foguista e o
guarda-freios e foram olhar as rodas, os êmbolos e os trilhos.
Tudo normal, nada havia de visível que estivesse impedindo a partida. O
Chefe veio ver o que havia. Os encarregados de fazer o trem andar coçavam
a cabeça e faziam gestos de quem não sabia o que estava acontecendo.
Tornaram a subir, tentaram a marcha e outra vez a máquina não
obedecia. Foi quando o Chefe se lembrou do Padre Juca... Quem
sabe?... E abrindo caminho entre os passageiros que observavam a máquina
gritou: "Padre, entre no trem. Vamos embora..." Padre Juca
pequenino, humilde e sorridente como se nada de anormal estivesse
acontecendo, subiu na 2ª classe, sentou-se, abriu o breviário e pos-se a
ler. O trem, dando um longo apito, mansamente foi deslizando pelos trilhos
e rodando para Queluz. |

Basílica de Nossa
Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil
Aparecida do Norte, SP
Foto de
Ellah
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Padre Juca O Padre Juca ficou muito tempo entre nós. Seu nome era José Francisco Von Atinzingen. Chegou pobre e saiu pobre. Sua bagagem: alguns livros de devoção, o breviário, duas batinas e a mala de roupas. Nada mais. Uma vida franciscana. Ingressou no seminário após a visita da viuvez. Consagrou-se à Igreja e foi-lhe fiel até a morte. Nas missas de domingo, a singeleza era a marca das suas prédicas. Para os amantes de ostentação e arroubos oratórios ele assemelhava-se a um espelho sem brilho. Mas Deus sempre se manifestou através dos humildes e dos simples. Sofria de varizes, as pernas inflamadas envoltas em panos. Esse era o seu calvário no dia a dia. Mas não reclamava nem esmorecia. Lentamente subia a ladeira da velha matriz de São Miguel e enclausurava-se no confessionário a ouvir as mazelas e os desabafos dos paroquianos. A cavalo ia para a zona rural e lá ficava dias em convivência com lavradores. Voltava cansado, suarento, a batina empoeirada, o corpo dolorido, um guarda-chuva aberto para se proteger do sol. O cavalo vinha passo a passo, sem pressa de chegar. Lembrava um avô muito querido que gosta de agradar às crianças: fazia caretas, franzia os sobrolhos e movimentava a testa e a calva para frente e para trás. Sua cabeça parecia de borracha. A garotada ria e em vão tentava imitá-lo. Famosas as romarias a Aparecida. Era uma festa: sinos, foguetes e os apitos do trem espantando o silêncio da madrugada. Faixas, insígnias, bandeiras. A estação, pequena para tanta gente: velhos, moços, crianças sonolentas... e o cuidado com as sacolas e as bolsas recheadas de bolos e salgados. A cidade quase vazia. Nossa Senhora, num andor, entre filós e flores de pano, imantava os cânticos e as preces. O Padre Juca percorrendo as classes, abençoando e ungindo a todos com palavras de vida eterna. Todas as vezes que vejo um circo, lembro-me dele. Certo dia chegou um a Piquete, armado na Praça Leonor Guimarães, pertinho da casa paroquial. Circo pobre, muito pobre; a lona remendada e uma infinidade de furos por remendar. Os artistas, sem talento e criatividade. O palhaço, sem graça; ria-se das suas piadas mais por piedade do que por prazer. A equilibrista, um tanto gordota, vestida de verde, subia no trapézio, com medo, sem agilidade. Nada de macacos ou leão. Apenas uns cachorros magrinhos que davam uns pulinhos desajeitados e latiam fora de hora. A má fama do circo logo correu de boca em boca: circo ralé, sem vergonha, mixuruca. Contavam-se nos dedos os espectadores. Na igreja, o Padre Juca, condoído da penúria dos pobres artistas, falou ao povo e concitou-o à solidariedade. Num sábado, à noite, após a reza, ao circo afluíram filhas de Maria, congregados marianos, senhoras das irmandades e crianças do catecismo. Todos felizes: o pessoal do circo, pelas moedas que tilintavam na bilheteria, e os fiéis pela pratica da caridade. Palmas e risos, balas e pirulitos vendidos na arquibancada. Até fotografias do palhaço e da trapezista eram oferecidas como lembrança. O dinheiro arrecadado serviu para muitas coisas, inclusive para a gasolina do caminhão. Na segunda-feira os circenses partiram, agradecidos. Não sei onde foram armar a sua tenda e exibir a pobreza da sua arte. Comentava-se que um rapaz, apaixonado pela trapezista, acompanhou a troupe. Dele não se teve mais notícia. Ficou gravado na memória o Padre Juca sentado na primeira tábua da arquibancada, batina preta, todo sorrisos, as pernas envoltas em faixas. Quem imaginaria que muitos anos depois, no dia 20 de dezembro de 1957, ele seria brutalmente assassinado por um jovem ladrão, com quinze punhaladas, na Santa Casa de Misericórdia de Cachoeira Paulista, onde seria capelão? Sua sepultura está sempre coberta de flores. Coluna do
Chico Máximo |

Romaria Ciclística
"Padre Juca"
Imagem escaneada do jornal "O Estafeta"
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Romaria
Ciclística Padre Juca Texto publicado no Jornal "O Estafeta" - julho de 2004 |

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