PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
SUA GENTE

Euclides Martins de Camargo

Euclides Martins de Camargo, ou "Seu Quido", nasceu em Piquete, a 4 de fevereiro de 1920, filho de João Martins de Camargo e Cecília Maria de Jesus. Sempre morou no bairro da Raia. Da infância tem boas recordações, principalmente das festas e do pacto de fidelidade selado com os amigos. Ainda criança, tempo em que a bola ainda era costurada a mão e ensebada, o futebol já fazia parte de seus pensamentos, e continuaria por toda a vida. Como integrante da Associação Atlética Piquetense, treinava dando chutes no barranco do campo, com o pé esquerdo, com o qual não tinha habilidade alguma. Passava pelo menos uma hora dando "bicudas" para melhorar seu desempenho. Estudou no antigo Grupo Escolar de Piquete, onde foi alfabetizado pela Profª Leonor Guimarães. Porém, logo percebeu que não levava muito jeito para os estudos. Cursou até a terceira série do primário, segundo ele não por culpa de seus pais, mas sim por sua própria negligência. Preferia gastar seu tempo à caça de pássaros e preás. Começou a trabalhar vendendo vidros à farmácia do Sr. Manoel Viana, além de garrafas e litros aos armazéns. Comprava e revendia frutas, limpava quintais, carregava malas na estação Rodrigues Alves. Assim ia ganhando seus "réis" para algumas despesas "essenciais", como entradas de cinema... Com tudo isso, ainda lhe sobrava tempo para traquinagens. Certa vez, ele e mais dois amigos perceberam que o Pe. Arthur de Moura e o sacristão haviam saído e deixado a sacristia aberta. Não tiveram dúvidas: entraram sorrateiramente e tomaram do vinho do padre... Que pecado!... Ainda bem que Deus perdoa às crianças. Aos 17 anos ingressou na Fábrica de Pólvora sem Fumaça, com uma diária de 4000 réis, para prestar serviços no Laboratório Central. Em seguida foi para o Laboratório de Controle do 5º Grupo (TNT). Em maio de 1939 foi transferido para o Hospital, a pedido do Capitão Chefe do Serviço de Saúde, Frederico Eisenholn, para a vaga de Auxiliar de Enfermagem, como o fora seu pai. Esse serviço de atendimento era interno e externo, isto é, caso algum paciente não pudesse se locomover, em qualquer canto do município, lá estaria o "Seu Quido" para atendê-lo com dedicação. Após o período do serviço militar, em 1942, foi readmitido na Fábrica Presidente Vargas, para trabalhar no 5° Grupo, dirigido então, pelo Engenheiro Químico Major Raimundo dos Santos Frota. Logo passou a encarregado de Laboratório. Na década de 40, através do Sr. Carlos Vieira, durante um "bailinho", conheceu aquela que passaria quarenta e dois anos ao seu lado, Dona Judite Silvia de Camargo. Dessa união resultaram seis filhos e 16 netos. Apaixonado pelo futebol, sempre acompanhou os jogos do Esporte Clube Estrela. Em 1943 passou a integrar a equipe. Jogou sempre na defesa. Nunca teve, de acordo com suas próprias palavras, muita habilidade técnica, porém o preparo físico para "piques" era excelente, o que o ajudava a desarmar muitas jogadas de cruzamento dos "ponteiros". Sua garra, fibra e desejo de crescer como esportista e pessoa eram suas maiores armas. Jogou pelo Esporte Clube Estrela, mais conhecido na época como "Leão do Norte", até o ano de 1952, período no qual conquistou vários títulos e medalhas. Hoje, aposentado da FPV, vive cercado do carinho de seus familiares, mantendo sua horta e, sempre que possível, como um bom piraquara, sai com amigos para uma boa pescaria.

Coluna "Gente da Cidade"
Jornal "O Estafeta" de outubro de 1998

 


Esporte Clube Estrela - 1948
Quido é o segundo da esquerda para a direita, na fila da frente

Quido, o Craque da Vontade, em dois tempos

1º tempo - Uma apresentação

Euclides Martins de Camargo, 80 anos, nascido em Piquete a 4 de fevereiro de 1920, é um dos mais antigos, conhecidos e admirados moradores da cidade. Filho de João Martins de Camargo e dona Cecília Maria de Jesus, teve, como irmãos, Odete e Antônio, já falecidos, e Iolanda (Landa), moradora em Lorena. Diva, outra irmã do primeiro casamento do pai, morreu ainda criança. Do segundo casamento paterno com dona Rosemira Maria da Conceição nasceram mais cinco filhos: Maria, Elza, José, Tereza e Marlene, dos quais Maria e Tereza já são falecidas. Quido e a família são moradores da Raia desde que para lá se mudaram, vindos do Largo da Cadeia, hoje Praça 15 de Junho, quando nosso entrevistado tinha apenas quatro anos. Passaram a incorporar a população residente e permanente desse bairro da cidade, nas sucessivas gerações. Quido vive ali até hoje, onde o trabalho e o empenho lhe garantiram a bela e espaçosa moradia, substitutiva da pequena casa original. Ali desfruta da companhia da filha Cecília e marido, dos netos e da presença constante de amigos, companheiros de pescaria e conversas prazerosas. A prática de esportes, a vida sadia do trabalho, os hábitos de exercícios físicos, o cultivo da horta e do pomar garantem-lhe um físico bem cuidado, a voz firme e os olhos vividos. Aposentado da Fábrica Presidente Vargas depois de atingir o último nível funcional e receber gratificação pelos serviços prestados aos esportes, levar a vida digna de um homem trabalhador.

2º tempo - O casamento

Casou-se com Judite Mota Silvia a 27 de Julho de 1946 e com ela permaneceu por quarenta e dois anos, quando a esposa faleceu. Gosta de lembrar os tempos felizes do casamento, o empenho, o amor e a dedicação da companheira, hoje de saudosa memória e homenagem. Os filhos em número de seis: Luiz Carlos Sílvia de Camargo, Euclides Martins de Camargo Filho, Cecília Maria Sílvia Camargo, Maria Auxiliadora Sílvia de Camargo, Gabriel da Sílvia Camargo e Ivan da Sílvia Camargo trouxeram-lhe a alegria da vida familiar, acrescida de 17 netos. Uma bisneta, Ramona, teve vida curta. Faleceu muito criança, aos quatro anos, desabrochando para a vida. 

Quido na memória da Raia 

"Raia querida, falar de tua nobreza, tua fidalguia, é desnecessário ! Tu sempre foste e sempre serás aquela que possui o poder e o charme para envolver a todos que a cerquem", são palavras do emocionado morador do bairro. No dizer dele, a "estrutura urbana da Raia era composta de aproximadamente vinte e cinco residências, em sua maioria construídas de pau-a-pique e cobertas de sapé". Afirma ainda ele que o importante sempre foi "a união e o espírito de solidariedade por todos, que, de mãos dadas se anelavam em torno dos mesmos desejos e falavam a mesma língua". Completa dizendo que de comércio nada havia, "nem sequer botequim". Gosta muito de lembrar que os quintais possuíam árvores frondosas e frutíferas e hortas para suprir as necessidades familiares. Segundo Quido, "ruas não existiam, somente estreitos caminhos contornados por capoeiras e espinhadeiros de caraguatá. Um frondoso bambual completava a harmonia de tudo o que era belo, e hoje são só saudades". As festas, antecipadas pelos terços religiosos, tinham na seqüência "os bailinhos ao ar livre e a tradicional dança do jongo, com horário para iniciar, mas não para terminar". Tudo isso acompanhado de farta distribuição de doces, canelinha, quentão, batata-doce e mandioca assadas acompanhadas de melado. As fogueiras e o pau de sebo garantiam os folguedos de crianças e adultos. Quido está, assim, relembrando as festas juninas. Gosta de frisar que está se referindo à década de 20 deste nosso século XX, acrescentando que, se hoje a Raia se apresenta coroada de pleno progresso, este se deve ao empenho dos moradores do passado, aos quais devemos reverenciar agradecidos. Não deixa de homenagear o trabalho de Armando de Castro Ferreira na instalação da rede de água, trabalho que se mostra eficiente até hoje. Vai se lembrando das melhorias na vida dos habitantes da Raia, do arruamento, da distribuição de energia elétrica e das obras de saneamento. Quido, ao referir-se ao seu bairro de moradia, pelo qual dedica afeição total, remete-nos à história de Piquete e à evolução dos serviços urbanos na cidade, responsáveis pela transformação da Raia em lugar privilegiado de investimentos imobiliários nos dias de hoje. 

Dóli de Castro Ferreira
Jornal "O Estafeta", julho de 2000.


Quido, sua família e alguns amigos na comemoração de seu 25º aniversário de casamento, organizada por seus filhos.


Homem caridoso e de fé, participava de todas as atividades do Centro Espírita "Deus e Caridade". Nessa foto, ao lado de sua esposa Lolita
(respectivamente quinto e sexta da direita para a esquerda), no almoço oferecido aos carentes, no Natal.

MINHA HOMENAGEM

Pouca coisa a acrescentar após estes textos acima. Apenas afirmar que meu querido tio Quido, para mim, sempre simbolizou a meiguice e ternura em forma humana.
SAUDADES!!!

 

 

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