PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
SUA GENTE



MARIA JOSÉ MACHADO

 


"A que sempre guardou no sangue a memória da
travessia da Calunga Grande (o Oceano Atlântico)"

Dóli de Castro Ferreira



Dona Zezé e seu filho
Foto de Lety

 

Maria José Machado nasceu em Piquete, em 1924, filha dos antigos jongueiros Pedro Ramos e Maria da Conceição Aparecida Rosa, popularmente conhecida como Conceiçãozinha. Dona Zezé conta-nos que sua mãe tinha um gosto especial pelo Jongo. Desde pequena conviveu com essa dança e, por isso, sempre participou das rodas. Recorda-se de antigos jongueiros que dançavam com sua mãe: Lico Teodoro e o casal Benedito e Rosa Generoso - pais de outra afamada jongueira, Terezinha Generoso. Sua família morou por um tempo no cruzamento da Rua São José com a Rua dos Operários, numa casa de pau-a-pique, em frente da qual havia um grande terreiro. Esse terreiro era referência do jongo na cidade. Com freqüência, ali se acendia uma fogueira e, logo após as primeiras batidas dos tambores, jongueiros de vários lugares iam chegando. "Mamãe era uma ótima repentista", diz Dona Zezé. "Era considerada a rainha do jongo, pois nunca ficava 'amarrada' em nenhum ponto...". Boa cozinheira, trabalhou na Vila Militar da Estrela e tornou-se conhecida por seus dotes culinários. Fazia questão de lembrar sempre, com orgulho, a ocasião em que cozinhou para Getúlio Vargas, quando de sua visita à Fábrica, em 1939. Dona Zezé recorda-se de que eram muitos os jongueiros em Piquete e de que havia grandes festas com rodas de jongo nos bairro da Raia e da Estrela, no campo de futebol e no Portão da Limeira, locais onde a mãe, Conceiçãozinha, sempre brilhava. Na década de 1950, muitas festas aconteciam em Piquete, ocasião em que vinham jongueiros até de Minas. "Quem trazia esses jongueiros era o Roberto da Silva, filho do João Adão, de Itajubá,MG", afirma. Emocionada, Dona Zezé lembra a passagem da morte de sua mãe: "Faleceu em Lorena, por volta de 1966... Quase foi enterrada como indigente naquela cidade. Somente sete anos depois seus ossos foram trazidos para Piquete. Eu e meu filho, Dito Machado, conseguimos essa bênção." Sempre alegre, terminou a entrevista com um ponto de jongo:

Galo velho tem catinga
Tem catinga caringá
Galo velho tem catinga, povaria
Tem catinga caringá.

Aos 83 anos, saúde delicada, Dona Zezé resume-se em poucas palavras: "Minha ida é boa... Tenho minha família... Tenho minhas recordações... Sou muito feliz!". Viúva desde 1990, de José Machado, com quem se casou em 21 de agosto de 1947, teve 3 filhos, 6 netos e 7 bisnetos. Memória viva do jongo em Piquete, Dona Zezé emociona com sua simplicidade, seus gestos que extravasam sinceridade e seu olhar carinhoso.


Dona Zezé Machado e o Prof. Gil
Foto de Lety

Na Vila Eleotério há "muitos e muitos anos", é respeitada como mestra na comunidade negra piquetense. O pouco estudo é compensado pela intensa procura pelo saber; à liderança nata soma-se a experiência de vida, resultando em bons conselhos e exemplos, que distribui aos que a procuram. Dona Zezé, certamente tem muito a ensinar. E o faz com prazer.

"Gente da Cidade" - Novembro de 2007
Jornal "O Estafeta" - Piquete, SP

 


Dona Zezé Machado, a mais antiga dançarina de jongo de Piquete, 
acompanhada pelo Prof. Gil
Foto de Lety

Para Zezé

No céu brilha, fulgurante, uma nova estrela. Ela é emblemática de Zezé - nossa Zezé Machado, que subiu às alturas celestes pelos caminhos dos anjos. De lá emite, livre, a luz, da qual, portadora como jóia rara, Zezé nos brindava com sua presença mansa e cheia de de encanto. Luz que permanece agora difundida do alto para orientar, animar, acalentar e embalar os sonos nas noites frias ou aquecidas. E também para inspirar os bons espíritos, cantando os estribilhos do jongo ou batendo nos pés cadências da Escola de Samba Império do Brás. Na Império, ela, soberana, alteada no carro alegórico, será sempre memória nossa - baiana de muitas saias, babados, colares, pulseiras, balangandãs, ritmos, beleza, sorrisos... Zezé, cujos ancestrais africanos lhe deram linda pele acetinada, doçura nos traços, traços da arquetípica mama africana, sempre solícita, fala mansa, musical e gestos delicados. Zezé dos tradicionais moradores da Raia, da comunidade de origem, da ligação parental e do compadrio. Zezé, ilustre dama da nobreza da Raia, vestida com capricho e cuidados, rodeada de admiradores. Elegante e requintada. Zezé, cultora de nossas mais caras tradições e memórias. Mestra nos seus muito saberes. Plena da sabedoria de nossas origens e bases. Rebatam o tambu, o caxambu e todas as percussões do canto, da dança da roda do jongo em homenagem a Zezé.

 

Nossa Zezé, aguardada pela Rosa na porta do Paraíso, e mais com a Conceiçãozinha, a Terezinha Generoso, o João Tijoleiro, o Jacó e toda aquela gente da Raia e da Vila Eleotério, e tantos outros que se confundiam no bloco ondulante da ginga do ritmo do jongo e repercutiam nas caladas da noite, nas dobras dos morros, nos fluxos dos vales, uma mensagem para ser decodificada - a de que um coração puro, cheio de paz, melodias e amor jamais se extingue. Revive como brasa conservada na boa cepa de que se formou. Não nos esqueçamos dessas ilustres senhoras da Raia, cuja presença marcante moldou o jeito de ser piquetense. E se nos esforçarmos em ouvi-las, elas estão para os corações sensíveis sempre dispostas a iluminar e dialogar. A dar luz e calor. Deixem os ventos, as águas correntes, as aves e as encostas dos morros repetirem suas litanias. Os sons dos ngomas (tambores de jongo) em homenagens de estilo se fixem no tempo, para ecoar no vento, os estribilhos. Para não morrer...

Dóli de Castro Ferreira
Jornal "O Estafeta" - fevereiro de 2009
Piquete, SP

 

Fundo Musical - Mãe Preta: Jongo do Tamandaré

 

 

 

Envie esta página para:

Digite o seu e-mail

Coloque seu nome

E-mail de quem a receberá

 

Voltar