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Luiz Arantes Júnior - "Seu" Zizinho

 


Luiz Arantes Júnior inaugura, em 1958, o marco da cidade, existente até hoje à Rua do Piquete
Foto publicada no Jornal "O Estafeta"

"Seu" Zizinho

Ainda com a sensação do calor que irradiava de sua mão febril, há pouco mais de 24 horas, sentindo ainda o seu olhar, de quem se acha em paz com Deus e com os homens, com  a alma em confusão pelas diversas emoções vividas e sentidas no dia de ontem, como fui indicado, pela grande amizade que nos unia, como jornalista, a prestar nessa página, uma sincera homenagem, assim o faço, em meu nome e em nome de todo o corpo redatorial d'A Cidade, ao meu grande amigo "Seu" Zizinho.

Sim, ao "Seu" Zizinho, tratamento que carinhosamente lhe dava toda a população de Piquete e pelo qual era conhecido em várias outras cidades. Era assim que o povo o conhecia e talvez, no íntimo, fosse assim que ele gostasse de ser chamado. Ontem, em Lorena, cumpria o desagradável dever de entrar em uma casa funerária, para providenciar três coroas com as quais a Prefeitura, a Câmara e os funcionários do Executivo e do Legislativo prestaram-lhe a derradeira homenagem, quando uma senhora entrando no estabelecimento perguntou quem falecera. Respondi-lhe: "O Sr. Luiz Arantes Júnior, em Piquete". Disse-me que não conhecia. Informei-lhe quem era: "Não conheceu 'Seu' Zizinho?" Imediatamente exclamou: "O 'Seu' Zizinho? Tão bom, coitado! Conhecia-o muito!" Era portanto assim que todos nós o chamávamos.

Era também por essa qualidade, dentre as muitas que possuía, que era mais identificado por todos os conhecidos, por todos aqueles que conviviam com ele e mesmo por aqueles que sem conhecê-lo, dele precisavam para um favor. E por falar em favor quem, morador em Piquete nestes últimos 40 anos, não lhe deve algum? Quantas vezes em nossas palestras costumeiras no Zé do Bar, não éramos interrompidos por alguém que vinha pedir um conselho, uma orientação, de como deveria agir nisso ou naquilo, de como resolver este ou aquele negócio, como deveria proceder para passar uma escritura e muitas vezes, mesmo depois que deixou a política, em quem deveria votar. Era assim o "Seu" Zizinho, atencioso para com todos, desde o mais humilde até a mais alta autoridade. E como sabia cativar as amizades com seu sorriso franco e como alegrar o ambiente, quando alguém da nossa "turminha" se encontrava mais ou menos contrariado. Nunca lhe faltava um dito espirituoso que fazia sorrir a todos.

Dizer aqui que o "Seu" Zizinho era bom esposo, bom pai de família, honrado, honesto, inteligente, instruído, correto, leal, sociável, filantropo, amoroso e carinhoso, principalmente com seus netinhos, que prezava as amizades, que era discreto e que por mais íntimo que fosse de uma pessoa nunca se imiscuía em seus assuntos particulares, mas aplaudia ou condenava com franqueza as suas atitudes caso lhe pedissem sua opinião. Citar que ele foi Conferente da Estação, Escrivão de Polícia, Contínuo, Fiscal, Zelador do Cemitério e, pouco depois, com seu próprio esforço, Secretário da Prefeitura. Que mais tarde foi Prefeito, depois Vereador, quando elaborou o Regimento Interno da Câmara, Líder de sua bancada, Presidente de Diretórios Partidários, Sócio Fundador da Sociedade Beneficente do Pessoal da FPV, da Associação Comercial, da Associação Atlética Piquetense, do Grêmio General Carneiro, da Sociedade Amigos de Piquete, da Comissão Pró Construção da Santa Casa, Presidente da Corporação Musical, etc. seria repetir o que todos sabem e dizem. Porisso desejamos fixar uma parte de sua personalidade ligeiramente abordada na Sessão da Câmara, do dia 31 de outubro pp, inteiramente dedicada a sua memória, pelo vereador José Gomes de Siqueira: o seu bom humor, a sua alegria contagiante. Esse traço característico de sua personalidade durou até os momentos finais da sua existência, não o abandonou um momento sequer.

Nós que nos tornamos seu amigo, desde que chegamos, tivemos oportunidade de conhecê-lo bem e de compreender o espírito de suas frases, por mais sisuda que estivesse sua fisionomia. E foi porisso que ontem, ao visitá-lo no Hospital da FPV, ficamos inibidos e quase nada pudemos falar, porque entendemos pelo rápido diálogo mantido com ele, que o prezado amigo esperava o seu desenlace para qualquer momento. Quando lhe fizemos a clássica e inevitável pergunta, se se sentia melhor, respondeu-nos: "Hoje estou com mais esperança" e depois de silenciar por uns momentos: "Dizem que a esperança é a última que morre"...

Entendemos naquele momento que a sua vida já estava se esvaindo, mas que a esperança continuaria na vida eterna, de lá fazer ainda um benefício: conseguir junto ao Todo Poderoso o consolo para os seus parentes, para que não sofressem muito com a sua ausência sempre presente. E nestas duas simples frases percebi ainda uma vez o seu espírito, a sua alegria por antever que iria conseguir de Deus Misericordioso aquilo que mais almejava naquele momento: a resignação para os seus e a paz eterna para a sua alma, que a estas horas já deve estar rodeada de amigos nos páramos celestiais. Era essa esperança última a que se referiu.

Aqui fica pois, "Seu" Zizinho, a nossa homenagem imediata, após o seu falecimento, não a última porque sabemos que enquanto não se extinguir completamente a atual geração, muitas outras lhe serão prestadas.

Piquete em 1-XI-960
Mário Geraldo Piquet
Texto transcrito de "A Cidade" - 06/11/1960


Pedra marco de Piquete
Foto de Lety

Ruas da cidade: Rua Luiz Arantes Júnior

Luiz Arantes Júnior ou "Seu Zizinho", como era mais conhecido, nasceu em Lorena, SP em 22 de janeiro de 1891 e faleceu em Piquete, SP na madrugada do dia 31 de outubro de 1960. Descendente de tradicional família de tabeliães portugueses oriundos de Braga, seu Zizinho se fixou em Piquete por volta de 1894 e aqui viveu até o final de seus dias. Em 06 de outubro de 1915, casou-se com Ana Eulália da Encarnação Arantes (D. Nica), com quem teve 4 filhos: Luiz Arantes Neto, José Carlos Arantes, Nair Cecília Arantes Dipp e Nadyr Célia Arantes Pauli. Vários de seus netos e bisnetos ainda residem em Piquete. No funcionalismo municipal, exerceu vários cargos: Guarda Fiscal, Secretário da Câmara e Secretário da Prefeitura. Foi ainda Escrivão de Polícia, Presidente de Diretórios Partidários, Sócio Fundador da Sociedade Beneficente da FPV, da Associação Comercial de Piquete, do Grêmio General Carneiro, da Sociedade Amigos de Piquete, da Comissão Pró Construção da Santa Casa, Presidente da Corporação Musical Piquetense, entre outras atividades... Foi como Tabelião do Cartório de Piquete que se tornou mais conhecido de toda a população, onde com sua alegria contagiante e seu fino senso de humor se firmou pela seriedade nos negócios e simpatia no trato. Num período conturbado da história mundial, exerceu o cargo de Prefeito Municipal (30/11/1943 a 25/03/1947), tendo sido eleito vereador na gestão seguinte. Em sociedade com Christiano Alves da Rosa construiu a Vila Célia.

A Av. Luiz Arantes Júnior (antiga Av. Prof. Lucas Nogueira Garcez) tem início junto ao Pórtico da FPV e termina encontrando-se com a Américo Brasiliense num dos vértices da praça 9 de julho.

Celeste Aida Rosa
"A Cidade" - Piquete - Dezembro de 2002 Ano I nº 6



Avenida Luiz Arantes Júnior (rua de cima) na esquina com a Rua Expedicionário Genésio Valentim Correa.
Foto de Lety

DESTAQUES

Transformada em Sessão de Homenagem Póstuma a Sessão Ordinária do Legislativo do dia 31-X-60

Ao serem abertos os trabalhos da Sessão Ordinária de segunda feira p.p. o vereador Gabriel Benfica Nunes requereu e o Plenário aprovou a suspensão dos trabalhos ordinários em homenagem póstuma ao Sr. Luiz Arantes Júnior, cujo falecimento ocorrera naquela data. Fez o Sr. Benfica Nunes um rápido necrológio do falecido, tendo ainda usado da palavra os vereadores José Armando de Castro Ferreira, Geraldo Ferreira Pinto, José Gomes de Siqueira e o presidente Alony O. Soares.

NOTA DE FALECIMENTO

Com grande pesar registramos o falecimento dia 31 p.p. pela madrugada, nesta cidade, do Sr. Luiz Arantes Júnior - Zizinho - com a idade de 69 anos. O ilustre extinto, figura de grande destaque na vida pública piquetense, deixa viúva D. Ana Eulália da Encarnação Arantes e quatro filhos, todos casados, além de vários netos. O sepultamento verificou-se à tarde do mesmo dia, havendo missa de corpo presente. O enorme acompanhamento disse bem do grande conceito e estima que desfrutava "Seu" Zizinho. Eram parentes e amigos que pranteando acompanharam-no à última morada. Todo o corpo redatorial de "A Cidade" apresenta à família enlutada, suas sinceras condolências.

Jornal "A Cidade" - 06/11/1960



Família Arantes em Aparecida. Os homens dobraram as calças para cumprimento de promessa.
Da esquerda para a direita, na fila da frente: o menino Milton e seus pais Iracema e Luiz Arantes
Neto; José Carlos Arantes, Wair Beraldo, Nilze Beraldo e Álvaro Dantas. Na fila de trás: Ângela Arantes,
Iná Beraldo, Nair Arantes Dipp e Godofredo Dipp.
Foto publicada no Jornal "O Estafeta" e identificada por Milton Reis Arantes.

MINHA HOMENAGEM

"Seu" Zizinho e Dona Nica foram figuras marcantes em minha vida. Ele, por sua atuação em nossa comunidade como homem de bem,  chefe de um clã familiar decente e destacado na cidade. Como político, "Seu" Zizinho pertencia a uma plêiade de homens honestos, dedicados, íntegros e responsáveis, mantenedores da ordem e respeitadores da verdade.

Dona Nica, mesmo após deixar o cargo de primeira dama da cidade, não desceu do pedestal de matrona digna, representante das senhoras mais distintas de nossa sociedade. Como presidente da Assistência Social local organizava eventos beneficentes e empenhava-se nos cuidados ao nosso povo mais carente. Recordo-me de um desses eventos, talvez o primeiro show a que tenha comparecido, menina ainda, onde se apresentaram ao vivo, no prédio de nosso cinema, os comediantes José Trindade e Zezé Macedo. Dona Nica comandou a festa, com sua sempre presente classe e postura elegante.

Aplaudi, já adolescente, a mudança de nome da principal avenida da cidade para Luiz Arantes Júnior. Não podemos deixar no esquecimento as pessoas que tanto lutaram pela melhoria de nossa terra e de nosso povo. Em seu texto acima, Mário Piquet registra que "enquanto não se extinguir completamente a atual geração", "seu" Zizinho seria lembrado. Pertenço à geração seguinte referida por ele, mas acredito que se não relembrarmos e preservarmos nossas origens e a história de nossa gente, não teremos passado, nem futuro, nem dignidade.

Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira


 

 

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