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O FEITIÇO CONTRA O FEITICEIRO |

José Arigó na
prisão
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"O curandeirismo é punido para se resguardar a incolumidade pública. O indivíduo que, sem ser médico, faz a determinação de uma doença ou enfermidade pelos sintomas; que, sem ser médico, faz operações; que, dizendo-se um 'aparelho' de um espírito, em transe, receita ou opera, ou fornece 'garrafadas', 'raízes de mato'; que usa 'passes', atitudes, posturas, palavras, rezas, encomendações, benzeções, esconjuros, ou qualquer outro meio para facilitar partos, curar a tosse rebelde, mordeduras de cobra, câncer, debelar a febre, tuberculose, hemorragia, espinhela caída, catarata, surdez etc. - esse cidadão representa um tremendo perigo para a saúde de um indeterminado número de pessoas, cuja tutela incumbe, inquestionavelmente, ao Estado."
Dito
isto, o escrivão Osório, da Comarca de Congonhas do Campo, prosseguiu a
leitura da sentença do Juiz Márcio Aristeu Monteiro de Barros, informando
ao réu, "Zé Arigó", a pena de dezesseis meses de prisão que lhe foi
imposta pelo crime de curandeirismo, figura delituosa que é prevista no
art. 284 do Código Penal Brasileiro.
Essa era a segunda vez que o conhecido médium enfrentava a Justiça. Pelo mesmo delito já havia sido condenado (e indultado pelo Presidente Kubitschek) em 1956.
A sentença,
proferida naquela tarde de sexta-feira, colheu de surpresa os habitantes
de Congonhas, onde Arigó, modesto funcionário público, é estimado e
admirado por muitos. Ele, porém, recebeu resignado a notícia desfavorável.
Afirma-se convencido de que cumpre na Terra uma missão sobrenatural:
"Agora vou ter muito tempo para ler o Evangelho" - disse, a caminho
da prisão.
Contra o mago de Congonhas - cidade que se transformou, nestes últimos dez anos, na Meca de doentes das mais distantes origens - já havia sido encaminhado à Delegacia de Vigilância mandado de prisão. O patrono de José Pedro de Freitas dirigiu-se, imediatamente, àquela cidade, onde nem mesmo o acusado e seus familiares sabiam da decisão. Arigó voltava do seu sítio vestindo, como de seu hábito, calça e camisa-esporte, quando foi informado da sentença. Dispôs-se a se apresentar ao Juiz, o que fez em seguida. A poucos passos de sua residência, dez minutos mais tarde, Arigó subia as escadas do Foro, em companhia do pai, Sr. Antônio de Freitas, e de seu filho Tarcísio. Populares aproximaram-se, perguntando: "Que aconteceu?" À chegada do Juiz, instantes depois, disse-lhe o defensor do médium: "Meritíssimo, tomando conhecimento de que meu cliente foi condenado, e sendo certo que não quer ele fugir à ação da Justiça, aqui está para apresentar-se a Vossa Excelência!" Após a prolongada leitura da sentença, que ocupava várias páginas datilografadas em espaço dois, o réu levantou-se e agradeceu ao Juiz e ao Promotor Marcelo José de Paula. Nessa altura, já havia gente chorando no recinto do tribunal. Parentes e amigos do réu. A emoção redobrou, quando uma tia de Arigó, entrando na sala de audiências, bradou em pranto convulsivo: "Conforme-se, meu filho, porque até Jesus foi condenado!" Como a delegacia de Congonhas não dispõe de veículo para conduzir presos, Arigó foi para o xadrez dirigindo seu jipe, acompanhado por dois soldados da Força Pública e pelos filhos e irmãos (ele tem seis filhos). O jipe era seguido por numerosos automóveis, cujas buzinas soavam lugubremente, expressando a fé de alguns adeptos nos misteriosos poderes do médium, os quais, para seu infortúnio, não bastaram para comover a Justiça. Texto de JOSÉ FRANCO - Fotos de LUIZ
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