GERALDO SÍLVIA MOTA
Um Herói nunca morre...

 

Origem

No final do século XIX, numa ilha da Sicília chamada Pantelleria, nasceu em 18 de março de 1888 Salvatore Silvia, filho do vinicultor Pietro Silvia e de sua esposa Melchiora Belvisi.

A ilha de Pantelleria está localizada no Estreito da Sicília, no Mar Mediterrâneo, 85km a sudoeste da extremidade da Sicília ocidental e 70km a leste da costa africana. Pertence à província siciliana de Trapani. Administrativamente, tem apenas um município, que leva o mesmo nome da ilha (Comune de Pantelleria). A ilha é inteiramente de origem vulcânica, sendo seu ponto mais alto uma cratera vulcânica extinta que se eleva a 836 metros acima do nível do mar. Fontes de água mineral quente e ebulições de vapor ainda denunciam a presença de atividade vulcânica, assim como as pedras negras de suas praias, evidenciam os resquícios desse permanente risco. Em dezembro de 1891, logo após o nascimento de Salvatore Silvia, uma erupção submarina a partir de um respiradouro ao largo da costa noroeste foi a última grande atividade vulcânica conhecida. Pantelleria conecta-se com a ilha-mãe por barcos que partem de Trapani ou Agrigento. É através do transporte marítimo que a ilha exporta sua produção vinícola. Uma das principais atrações da ilha são os dammusi, pequenas casas rurais feitas em pedras lávicas em formato cúbico, com aberturas em arco e tetos brancos em cúpula. Reza a tradição que Ulisses, o rei aventureiro de Itaca, após a Guerra de Tróia, teria ali permanecido por sete anos, encantado pela deusa Calypso.

Criados na ilha, Salvatore e seu irmão Francesco serviram ao exército do Reino da Itália, no 22º Reggimiento Artiglieria de Palermo, no período de 15/10/1908 a 31/08/1910. Durante os terríveis terremotos de 1908/1909, em Messina, Salvatore prestou auxílio à população vitimada, fato que impressionou de forma marcante o jovem insular. Essa experiência traumática despertou nele o desejo de correr o mundo e viver de forma diferente antes de retornar à sua ilha.

O Estreito de Messina é uma estreita faixa de mar que separa a Itália da ilha da Sicília. Um lugar tranqüilo, lar de pescadores e antigas cidades portuárias. Essa tranqüilidade foi abalada as 5h25 da manhã de 28 de dezembro de 1908, quando o primeiro de uma série de terremotos começou a demolir tudo o que estava em pé na região. Como geralmente acontece, os terremotos causaram um tsunami de 15 metros de altura que tornou a destruição ainda mais terrível. Entre as cidades afetadas estavam Reggio di Calabria, Cosenza e Catânia. Mas a cidade mais atingida foi Messina. Boa parte das construções da cidade ruíram como se fossem feitas de papelão. Os incêndios tomaram conta da cidade. Cães e ratos comiam os corpos dos mortos. Pessoas presas nos escombros mastigaram os dedos até atingir os ossos antes de morrerem de inanição. Saqueadores agiam impunemente roubando os mortos e feridos. Algumas imagens da destruição são impressionantes.

http://www.youtube.com/watch?v=PsDCwhwpioo&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=bZ9SAlmrlUc&feature=related

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http://www.youtube.com/watch?v=VzazfSMx6a4&feature=related

A economia de Pantelleria girava em torno da pesca, do cultivo da azeitona, da uva e da fabricação de vinhos. Salvatore aprendeu marcenaria e carpintaria no Exército; seu irmão Francesco tornou-se ferreiro, profissões necessárias na sua ilha. Francesco, tão logo se viu livre de suas funções no exército, retornou a Pantelleria, mas Salvatore adiava sempre o seu retorno. Vários recados recebeu de seu pai exigindo sua volta, mas o jovem resistia. De agosto de 1910 a abril de 1911 Salvatore não deixou o continente. Resolveu, por fim, "fazer a América", contrariando o desejo de seu pai. Com um passaporte datado de 06/04/1911, registrando o Rio de Janeiro como seu destino, válido por três anos, Salvatore ingressou no navio "Prince Udine", saído de Genova. O jovem acreditava estar se dirigindo para os Estados Unidos da América, mas desembarcou no porto do Rio de Janeiro em 16 de junho de 1911. Já no Brasil, Salvatore lembrou-se de um seu amigo que morava em São João de Nepomuceno-SP, e para lá se dirigiu. Este amigo, Marciano Carias, era eletricista, mas trabalhava em uma fazenda. Casado com Sarah Gotte Carias, o jovem Marciano foi, posteriormente, padrinho de casamento de Salvatore. O jovem insular trabalhou na fazenda enquanto aprendia rudimentos da língua portuguesa e verificava em que poderia trabalhar no Brasil. Desta fazenda ele seguiu para Caxambu - MG, então pouco mais que uma vila, onde atuou como carpinteiro e marceneiro na confecção de móveis para os primeiros hotéis da cidade. Salvatore desejava melhores oportunidades e deixou Caxambu por um centro maior. Escolheu Baependi, uma das treze primeiras vilas de Minas Gerais.

No final do século XVII, por volta de 1692, transpondo os contrafortes da Serra da Mantiqueira, os paulistas Antonio Delgado da Veiga, seu filho João da Veiga e o capitão Manoel Garcia Velho, partindo de Taubaté (SP), alcançaram um sítio que chamaram de Maependi, do tupi-guarani: mbaé-pindi cujo significado é "clareira aberta". Esta foi a primeira referência ao nome da cidade. A primeira casa foi construída em 1717, na margem esquerda do rio, pelo português Capitão-Mor Tomé Rodrigues Nogueira do Ó, Provedor dos Quintos do "Registro da Mantiqueira".  Posteriormente, na margem direita, surgiu um pequeno povoado, sendo ali construída, no ano de 1754, uma capela em honra à santa espanhola Nossa Senhora de Montserrat, hoje Igreja Matriz de Baependi. Em 1752, o pequeno povoado tornou-se Freguesia; em 1814, Vila; em 1855, passou a ser sede da comarca, separando-se da Comarca do Rio das Mortes. No dia 2 de maio de 1856, finalmente, Baependi foi elevada à categoria de cidade. Os bandeirantes que chegaram na região, buscavam ouro, mas foi a agricultura que dominou a economia local. Cidade remanescente do Ciclo do Ouro em Minas Gerais, Baependi se desenvolveu ao longo do caminho da Estrada Real - a primeira grande via de comunicação regular no Brasil -, que ligava a região das minas a Paraty (RJ), porto de onde saía o ouro em direção à Europa. A mineração foi, aos poucos, substituída pela agricultura e pela criação de gado. Destacou-se a grande lavoura do tabaco e ao final do século XVIII, Baependi já era o maior centro produtor da Província de Minas Gerais, representando importante fonte de riqueza até meados do século XIX. Em 1911, a cidade inaugurou a Usina Ribeirão, uma usina hidrelétrica cujo prédio histórico encontra-se, hoje, tombado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural. Para esta usina em formação Salvatore se dirigiu, em busca de trabalho.

Já morando em Baependi, na procissão da Semana Santa, Salvatore encantou-se com a jovem que representava Maria, a mãe de Jesus e disse aos seus amigos: "Encontrei a moça com quem vou me casar". A jovem que o encantara possuía a pele clara, cabelos negros e lindos olhos verdes. Silvina da Conceição Motta, filha do sacristão da Matriz de Nossa Senhora de Montserrat, Joaquim das Dores Motta e de sua esposa Auta Felippa da Conceição Motta, era exímia violinista e esta qualidade mais encantou ao jovem italiano.

Joaquim das Dores Mota, mais conhecido como Joaquim Zeferino, era tenente da Guarda Nacional, além de escultor e pintor. Ainda hoje, suas maravilhosas obras são encontradas nas igrejas do Sul de Minas. Entre elas, destaca-se o Nosso Senhor Morto, em tamanho natural, conservado na Matriz de Baependi, além das estátuas dos apóstolos e outras esculturas e pinturas nesta mesma igreja. Joaquim das Dores Mota trabalhava em osso, cobre, madeira, qualquer material que se lhe apresentasse. Seus descendentes conservaram um violino esculpido por ele, que se encontra hoje em meu poder.

O jovem italiano casou-se com Silvina em 23/05/1914. Desta união nasceram 21 filhos, dos quais apenas dez atingiram a idade adulta: Geraldo, Pedro, João, Salvador, Luiz (Lulu), Antônio (Bibiu), Judith (Lolita), Maria, Terezinha e Joaquim. Geraldo era o primogênito do casal. Louro, olhos azuis, inteligente, nascido em 26/05/1916, Geraldo desde pequeno destacou-se entre os irmãos. Acompanhava o pai em suas lides de carpinteiro e marceneiro, tentando imitá-lo em seu trabalho. Quando contava oito anos de idade, seu pai apresentou uma febre que o deixou por mais de seis meses sem poder trabalhar, com parte do corpo paralisado. Silvina, quituteira conhecida e de mão cheia, sustentava a família com seus doces, biscoitos e pães. Geraldo, filho mais velho, era o responsável pela venda dos tabuleiros de guloseimas. Silvina fornecia doces para uma senhora que os colocava em caixas de papelão, revendendo-os para os hotéis da região do circuito das águas. Geraldo era sempre solicitado a conseguir estas caixas para ela. Um dia perguntou-lhe porque não colocava os doces em caixas de madeira. Desafiado pela senhora a construí-las, o pequeno garoto desenhou a caixa e a foi montando, sob o olhar curioso e impotente, mas orgulhoso de seu pai. A caixa fez um sucesso tão grande que mesmo depois do pai recuperado a família continuou a produzi-las.

A Música

Aos quatorze anos, trabalhando sempre com seu pai e ajudando-o a cuidar da numerosa prole, Geraldo decidiu estudar música e o instrumento escolhido foi o piston. Todas as noites, após o trabalho, o rapazinho dirigia-se ao seu aprendizado musical. Aos dezoito anos, marceneiro competente e requisitado, chefe de uma oficina que comandava ao lado de seu pai, solicitado pelo padre local, esculpiu uma fortíssima e bela porta de madeira, em peça única, que ainda hoje permanece no mesmo local, em Baependi. Seus irmãos também estudaram música e com eles e alguns amigos, Geraldo montou um conjunto de jazz que tocava nas festas e bailes que sempre aconteciam pelos hotéis e cassinos locais. Como esporte, Geraldo praticava a canoagem pelas corredeiras da região.

Sobre a música, sempre presente na vida destes homens, existe toda uma história familiar. A avó materna de papai, D. Auta Motta, era flautista, violinista e regia o coro da Igreja Matriz de Nossa Senhora de Montserrat. Maestrina, apresentava-se pelas cidades do Sul de Minas. Ensinou violino à sua filha Silvina, que ensurdeceu logo após a terceira gravidez, deixando de lado o instrumento. Quando do falecimento de seu pai Pietro Silvia, em Pantelleria, em 1925, juntamente com a herança recebida, Salvatore recebeu um bandolim, que Silvina tocou algumas vezes, deixando-o logo de lado, em função de sua surdez. A quem pertencera anteriormente este bandolim? Esta informação nunca tivemos...
Papai e seus irmãos cresceram sem suspeitar dos conhecimentos musicais de sua mãe. Ele contava que, certa feita, já adulto, ensaiava para as apresentações de seu conjunto de jazz. Havia recebido algumas músicas dos Estados Unidos e ao vê-la folheando-as, disse-lhe: "Sai prá lá velha, que você não entende disso". Silvina, ofendida, respondeu: "Ah, não entendo, é? Pois vai ver só"... Entregando o violino a seu filho Luiz, mandou que ele o afinasse. Perante os filhos atônitos, executou as peças musicais em primeira leitura e com perfeição. Silvina detestava fotos. Só se conhece duas fotos dela. Na última, um instantâneo colhido, de surpresa, por seus filhos, num domingo, quando ela preparava os "quitutes" para a família, deixou gravado para a posteridade um OH! contrariado...

Todos os irmãos de Geraldo dedicaram-se à música, paralelamente às suas outras funções. Lulu, o mais bonito entre eles, fascinava com seu clarinete e também com seu desempenho ao violino; João era baterista; Antônio com seu trombone de vara encantava nas noites de carnaval e durante toda a sua vida participou da Corporação Musical Piquetense, preenchendo o amanhecer da cidade com seus dobrados. Dentre eles, Pedro foi o que mais se destacou. Acordeonista, pianista e violinista, Pedro da Motta Silvia fundou, no Instituto Abel, em Niterói-RJ, a Orquestra Típica La Salle. Seu filho Henrique Manso Silvia o sucedeu e seu neto Henrique Manso Silvia Júnior também seguiu sua trajetória musical. Mas estes sucessos ainda não podiam ser previstos na época.

De Baependi para Piquete

Geraldo tornara-se um homem adulto, trabalhador e responsável. Alguns de seus irmãos já se dirigiam para São Paulo. Uma pequena cidade do Vale do Paraíba - Piquete - onde funcionava uma fábrica de armamentos do Exército, parecia ser promissora e, para lá, aqueles belos homens de cabelos louros e olhos azuis se encaminhavam... Geraldo, filho mais velho, não podia se aventurar. Precisava de uma renda fixa que lhe garantisse a possibilidade de ajudar seu pai a educar os irmãos ainda menores. Trabalhando como carpinteiro, chefe de sua oficina, recebia proventos razoáveis. Segundo ele contava, o seu ganho mensal era em torno de dezoito contos de réis. Seu irmão Pedro, estabelecido no Vale do Paraíba, insistia em levá-lo para lá. O objetivo era a participação na "Orquestra Estrela do Norte" e numa banda de música da Fábrica Presidente Vargas em Piquete-SP. Atuaria como músico, mas se tornaria um funcionário público federal. Na ocasião, ser funcionário público era uma segurança irrecusável. Disso fala em seus escritos o "maldito" Plínio Marcos, que foi convidado a tornar-se, também, funcionário da Fábrica Presidente Vargas, mas para atuar como jogador de futebol, no seu time "Estrela Futebol Clube". Geraldo seguiu para um teste em Piquete. O maestro João Evangelista apresentou-lhe algumas músicas para tocar, uma das quais com um solo para piston. Vaidoso, Geraldo nem leu as partituras, sabendo que estava sendo observado. O ensaio começou e ele tocou de forma perfeita as peças apresentadas. Ao término, o maestro disse-lhe que o seu conjunto precisava dele. Mas estava difícil um acordo financeiro. Geraldo deixou bem claro que só aceitaria o emprego se houvesse um salário superior ao que obtinha em Baependi, em sua oficina. Um mês depois recebeu em sua cidade a resposta de que tinha sido contratado, segundo ele por vinte e dois contos de réis, o maior salário pago a um músico na região. Ele mesmo contava: "Eu era um músico muito bom; em pouco tempo de estudo era melhor que os antigos. Eu dava para aquilo; nasci músico. Acho que era o que se chama de talento... Do mesmo jeito que o Geraldo Luiz. Quando eu o vi tocando piano pela primeira vez, ainda no comecinho, percebi que aquele era o destino dele. Mesmo que se formasse em outra coisa ou se empenhasse em outra profissão"... A guerra grassava na Europa e, embora seu pai fosse italiano, aqueles homens não se incomodavam com ela. Hitler e Mussolini, nazismo e fascismo estavam muito distantes de sua realidade.

A Convocação
para a FEB

Um dia, Geraldo recebeu a convocação para participar da FEB. Nada disse a sua mãe. Agiu como se fosse partir para uma viagem qualquer. Deixou tudo acertado: nada faltaria aos seus pais e irmãos menores na sua ausência. No Rio de Janeiro permaneceu em treinamento, juntamente com outros jovens convocados. A incerteza da partida, o que poderia lhe acontecer, nada disso ele dividiu com os pais. Aceitou o destino, ele que durante toda a sua jovem vida só fizera lutar. Seria uma luta a mais, apenas.

O velho Salvatore guardou desse episódio uma grande mágoa, que repassou a todos nós, seus netos. Nunca se naturalizara mas considerava este país como seu. Aqui trabalhava, constituíra família; neste país cresciam seus filhos, todos brasileiros. No entanto, mesmo com seu primogênito lutando na Itália como soldado brasileiro, ele continuava sendo visto como estrangeiro, necessitando de salvo conduto para locomover-se entre Piquete e Baependi, além de apresentar-se mensalmente à Delegacia de Polícia. "Foi por causa dos quintas-colunas", dizem-me toda vez que levanto este assunto, mas o pobre velho com seus olhos azuis tão ternos e sua doçura nata, jamais seria um traidor de quem quer que fosse. E isso o magoou muito. Meu querido avô... que deixou a sua ilha e seus vinhedos e veio para esta terra que tanto amou... Que saudade tenho ao lembrá-lo com seus queijos ou trazendo para nós os primeiros cachos de seu parreiral. Se existe para mim uma imagem de paz, esta é a lembrança da sombra fresca daquelas latadas carregadas de uvas roxas, perdida em minha recordação, que ainda ouve o rumor do ribeirão ao fundo de seu quintal, o badalar de seu relógio carrilhão e o som de seu realejo, misturado ao "Sole Mio" que ele cantava, lacrimejante e saudoso... Ainda hoje, tantas décadas depois, pode-se ler o poema da vida de meus avós, rabiscado nas rachaduras velhas daquela casa!...

Geraldo, músico sensível, assumiu na guerra a função de mineiro sapador, do 9º Batalhão de Engenharia. Corajosos homens voluntários formaram esse "esquadrão suicida" da FEB. Geraldo tornou-se um deles, retirando minas alemãs das áreas por onde os batalhões deveriam passar. Anos mais tarde, contaria aos seus filhos que se era para atravessar um campo minado, preferia que fosse um campo que ele mesmo tivesse desarmado, do que morrer por uma possível falha dos outros. Geraldo escreveu um diário, destruído depois por sua esposa, durante todo o tempo que viveu, desde a convocação até o retorno da Itália. "Até em papel higiênico eu escrevi", contaria ele anos mais tarde. Trouxe muitas fotos também desaparecidas. A única foto que se conhecia de sua atuação na FEB, foi conservada por sua sogra, que a escondeu da filha, somente entregando-a anos mais tarde. Recentemente, seu filho Miguel Ângelo encontrou em um cofre, escondidas num envelope entre documentos, quatro outras fotos inéditas e um pedaço de sua farda. Entre essas fotos, alguns colegas do 9º B.E. com a bandeira nazista aprisionada, quando da rendição dos alemães à Força Expedicionária Brasileira. Também preservada por nossos avós, chegou-nos recentemente, através de uma prima, uma foto dele ainda na Itália, endereçada a sua mãe. A força e angústia do seu olhar conduziu-nos às lágrimas, tão visível o sofrimento nele registrado. Pareceu-nos que ele desejava enviar essa imagem aos seus pais, como uma despedida, caso desaparecesse nas encontas geladas dos Apeninos, como acontecera com tantos jovens companheiros. Geraldo relembrava sempre um amigo expedicionário: Iorio Adami, jovem estudante de engenharia, filho único, noivo, inconformado por ter sido convocado. Uma inconformação natural numa pessoa que perdia tantas coisas. Vivia repetindo que, tinha certeza, morreria na guerra. Geraldo aproximou-se do rapaz, tentando ajudá-lo a superar aqueles momentos difíceis. Iorio Adami afeiçoou-se aquele homem sem estudos regulares (Geraldo só cursara até o primário), mas cuja sensibilidade e inteligência refulgiam. Como forma de distração, começou a ensinar matemática a Geraldo e empolgou-se com o desempenho do amigo. Este, que durante toda a sua vida conservara o desejo oculto e impossível de ser realizado, por ser arrimo de família, de formar-se engenheiro, vibrava com as aulas de Iorio. Assim os dois passavam o tempo que lhes sobrava de suas lides, numa troca de conhecimentos, apoio, amizade. Talvez em dias comuns jamais as suas vidas se cruzassem. A Guerra igualava a todos, expondo suas vulnerabilidades...

Em 2001, papai demonstrou-me o desejo de saber algo de seu amigo de lutas. Ingressando num site de veteranos da FEB, obtive a informação que Iorio Adami havia falecido no ano anterior, que morara em São Paulo e sempre estivera atuante nos movimentos em benefício dos ex-combatentes. Consegui o endereço de sua família, mas papai não quis comunicar-se com ela. "Não tem sentido", respondeu-me. "Se Iorio fosse vivo eu gostaria de falar com ele, mas a família que eu nem conheci, não me interessa."

A vida pode continuar!

Finda a guerra, os pracinhas brasileiros foram autorizados a percorrer a Itália, mas apenas dentro do continente. Geraldo tentou ir até Pantelleria, transformada em posto avançado do Exército Americano, mas não conseguiu. Conheceu as belas obras de arte da Itália, a Capela Sixtina, o colosso do Moisés de Michelangelo. Lamentaria, posteriormente, a falta de cultura na época, que não lhe permitira aproveitar mais o que vira. Apenas sua sensibilidade artística apreendera o que havia conhecido. Contava que no retorno ao Brasil, no desfile dos pracinhas vitoriosos, no Rio de Janeiro, a multidão avançava sobre eles tentando arrancar-lhes um souvenir. Ao ver aquilo, ele retirou do uniforme o seu emblema da "Cobra Fumando", um dos objetos mais roubados pela população, e o escondeu em seu bolso. "Veja como está arranhado. Esteve comigo em todos os momentos difíceis que eu vivi na Itália. Não ia deixar que me roubassem", contou ele certa feita.

Geraldo não seguiu carreira militar. Tinha pressa em voltar para sua vida comum, suas partituras, seu piston, para os quitutes da dona Silvina. Já em Piquete, Geraldo apaixonou-se por uma quase menina, recém saída do Colégio do Carmo, em Guaratinguetá, filha de um fazendeiro e chefe político da região, Horácio Pereira Leite e de sua segunda esposa, Maria de Lourdes Alves Beraldo Leite. A bela Maria Augusta, Mariinha como era conhecida por todos, que no início de sua vida desejava ser freira, apaixonou-se pelos olhos azuis e pelo lindo sorriso do "expedicionário". O velho Horácio bem que relutou em entregar sua filha a um homem mais velho, experiente, filho de um imigrante e músico. A persistência do rapaz fez com que ele cedesse. Após Geraldo construir a casa na qual viveria nos primeiros anos de união com o amor de sua vida, o casamento realizou-se em 30 de setembro de 1947, na Igreja Matriz de São Miguel, em Piquete. Mariinha era apenas uma menina ciumenta de 17 anos. A intelectual e escritora em que ela se tornaria anos mais tarde ainda não desabrochara. Ao ler o diário de Geraldo, enciumada por seus encontros amorosos com as italianas, ao final da guerra, não percebeu o valor histórico de seus relatos e os queimou... Hoje em dia temos certeza que ela se arrependeu deste impensado e infantil ato, no qual destruiu uma fonte de informações históricas de enorme valor. Geraldo iniciou sua família. Cinco filhos Deus lhes deu e um desses Ele mesmo levou, aos dez anos de idade, com um osteossarcoma.

Eu cursava o primeiro ano da faculdade de Medicina, no Rio de Janeiro. Filha mais velha, sempre presente nos momentos importantes da família, desta vez, ninguém havia me dito nada. Salvador Augusto, meu irmãozinho caçula estava adoentado - era só o que eu sabia. Após os exames de julho, voltei para Piquete, em busca do repouso que teria após um ano inteiro de vestibular e seis meses de faculdade. Seriam as minhas primeiras férias, após muito tempo. Quando entrei em casa, papai puxou-me pelo braço dizendo que precisava falar comigo. Levou-me para a copa, nos fundos da casa: "Dora, seu irmão está com câncer e tem muito pouco tempo de vida", disse-me com firmeza e dor. "Mas a gente tem esperança", contrapôs minha mãe. "Eu fui ao Arigó, ao Chico Xavier"...
Papai segurou forte em meu braço e disse: "Veja você mesma". Conduziu-me ao quarto onde meu irmãozinho jogava víspora com os outros dois mais velhos. Acredito ter herdado de meu pai a capacidade de encarar a realidade. Quando eu vi o meu "Dozinho", que há apenas dois meses deixara gordinho, com a face longa e magra, onde só brilhavam seus olhos esverdeados, compreendi que nós iríamos perde-lo. Sei que a fé e a esperança da minha mãe ajudaram-na a enfrentar esse momento, mas meu pai esteve sempre lúcido e consciente do que aconteceria, embora uma tristeza e dor enorme o envolvessem. Acho que nenhum deles foi mais a mesma coisa depois da morte do filho caçula. No entanto, papai sofreu com muito mais intensidade porque compreendeu tudo desde o primeiro instante. Nestes anos como médica, convivendo de perto com a dor, o sofrimento e a morte, pude observar como os homens, em geral, enfrentam o desaparecimento de um filho com uma dor mais profunda e intensa. E eu me indago se isso não acontece porque eles não puderam como nós, mulheres, sentir o filho entranhado em seu ventre desde os primeiros espasmos de vida embrionária; não amamentaram, não sentiram tanto quanto nós o calor daquele corpinho. Acho que porisso eles sofrem mais. Nós tivemos mais o filho como nosso, do que eles... Mamãe sofreu - e muito, mas o papai ardeu na dor da consciência da perda, mesmo antes dela ter se completado...

Pouca coisa Geraldo relatou a sua família sobre o que vivera na Itália. Mariinha postava-se sempre contra estas recordações, zangando-se quando via os filhos desejando saber mais sobre a história de seu pai na FEB. Do pouco que contou dava para se notar que havia muita dor e que presenciara muito sofrimento... Geraldo não participou de nenhum movimento de ex-combatentes. Nunca desfilou nas paradas, nunca ostentou no peito suas medalhas. Sempre considerou o ex-pracinha um injustiçado pelo país e esquecido pelo governo.

Eu me orgulho dele nunca ter se contentado com as escassas palmas que os sobreviventes da FEB recebem nas paradas de Sete de Setembro. Não me conformo quando leio sobre as indenizações milionárias e benefícios oferecidos aos familiares dos desaparecidos e aos perseguidos pela ditadura militar - concedidas por presidentes e políticos que também se beneficiam com estas medidas, sem importar-se com o destino do restante do povo brasileiro. Comparo com a vida miserável que eu vi, não meu pai, felizmente, mas muitos companheiros seus atravessarem desamparadamente, esquecidos pela Pátria e por seus sucessivos governos. Aos convocados da FEB não foi concedida opção: se não participassem da Segunda Guerra, seriam considerados desertores e penalizados porisso. Quantos brasileiros inocentes ficaram enterrados no Cemitério de Pistóia... Quantos jovens bravos tombaram sob as balas alemãs na conquista estratégica do Morro de Monte Castelo... Aquela não era a sua luta mas não fugiram do que lhes reservara o destino. Brasileiros souberam ser, cumprindo o que lhes pedia a Pátria, na verdade o que lhes determinava o ditador Getúlio Vargas. Vítimas, estes sim, de uma ditadura que para defender os seus interesses internacionais e econômicos convocara os jovens brasileiros sem o direito de protesto, os pracinhas da FEB pagaram com a sua vida ou comprometeram sua integridade física e mental. Nem todos, como meu pai, retornaram inteiros e saudáveis; todos eles ficaram marcados pela Guerra. E nada receberam deste país... Enquanto isso, quem empunhou armas, seqüestrou, roubou, em nome de uma ideologia que quando chega ao poder se percebe bem semelhante a todas as demais, foi PAGO pelo governo, com um dinheiro que falta para o pão e o remédio dos demais brasileiros... Aqueles que lutaram contra o governo militar estavam conscientes do que desejavam e dos riscos que enfrentariam. Era a sua ideologia, a sua luta. Diferentemente daqueles pobres homens convocados, que deixaram suas famílias, seus amores, sua inconseqüência juvenil, sem nem mesmo saberem para que nem para onde iam, qual o objetivo daquela guerra, porque foram escolhidos para enfrentar este risco. Se os presos políticos, os perseguidos e torturados pela ditadura militar de 1964  têm direito à indenização, o que dizer de nossos pobres febianos? Porque dois pesos e duas medidas? Os ex-combatentes da FEB foram esquecidos, tornaram-se incômodos ao Brasil; Mascarenhas de Morais foi temido - e porisso colocado no ostracismo ao final da guerra -; pela força que poderia representar por ter vitoriosamente comandado um contingente de 25 mil homens, lutando na Europa pela democracia e pela liberdade que não existia em seu próprio país... Por décadas, os pracinhas foram humilhados, chamados de loucos, de neuróticos de guerra. Amargaram sozinhos a desordem que a convocação provocou em suas jovens e inocentes vidas. Eles não pediram, não queriam, não precisavam e, muitos deles, nem entendiam aquilo que lhes acontecera. Recentemente, ofereceram algumas vantagens aos heróis da FEB, mas quanto sofrimento eles não passaram antes e quantos deles já mesmo estavam desaparecidos, sem usufruir das poucas regalias que tardiamente o país lhes ofereceu. Meu pai precisou desistir de uma aposentadoria que possuía, para a qual trabalhara e contribuíra, para obter a concessão deste benefício. Ao falecer, como se tratava de uma "pensão especial", um "prêmio" do governo brasileiro ao ex-combatente, minha mãe - que também possuía sua própria aposentadoria, por igualmente haver trabalhado e contribuído durante toda uma vida - precisava, para recebê-la, desistir de seus próprios direitos. E não pensem que se trata de um provento milionário. Insignificante face aos benefícios dos anistiados... Claro que o caso foi aos tribunais. Não poderíamos permitir que essa afronta acontecesse mais uma vez. Meu irmão Miguel Ângelo advogado, assumiu a contestação desta injustiça e a sua vitória abriu precedentes para outras viúvas de ex-pracinhas que se encontrem nesta mesma situação.  Muitas outras histórias poderia contar, como a de uma amiga, que como eu desejava cursar medicina. Sua capacidade intelectual assemelhava-se à minha. Poderia ter sido uma excelente médica. Seu pai, ex-combatente, pobre alfaiate autônomo do interior de São Paulo, não pôde bancar-lhe um cursinho preparatório para o vestibular e nem poderia mantê-la por seis anos numa faculdade tão cara e de retorno em longo prazo. Ela arquivou seu sonho e, professora, prestou um concurso para o Banco do Brasil, onde recentemente aderiu ao plano de demissão voluntária. Investiu em um pequeno restaurante o que recebeu do Banco e, falida, não sabe atualmente como sobreviver. Esta a realidade de um país que não valorizou os seus heróis e nem respeita os seus filhos, mesmo os concursados...

Geraldo voltou a estudar com o incentivo de sua esposa que também retornara aos bancos escolares. Concluiu a Escola Normal, mas nunca exerceu a função de professor. Aposentou-se como funcionário público e investiu no comércio. Não abandonou sua música. Tocava todos os instrumentos de sopro, principalmente o piston, compunha belas canções e com a sua esposa, professora e poetisa Mariinha Mota, criou seus filhos num ambiente de música, poesia, literatura e cultura... E, principalmente, com muito amor e respeito.
Meu irmão Geraldo Luiz descreveu bem outro dia, o que foi o lar que nos proporcionaram, em resposta a um e-mail sem texto, onde apenas a saudade teria voz, no qual coloquei um acordeon em movimento e, como fundo musical "La Cumparsita", um dos temas musicais mais executados em nossa casa, nos nossos momentos de ternura:

"Zi, foi a mensagem mais completa que você já mandou. Vendo o acordeon e ouvindo o tema musical, já trouxe-me saudades da meninice, quando a Sílvia, majestosamente, 'empunhava' o instrumento e dele tirava lindas melodias, não só pelo virtuosismo, mas pela sensibilidade expressada naqueles momentos. Me lembro da Mamãe assando pães de queijo, prenunciando o sarau de logo mais à noite, quando em casa se reuniam artistas do gabarito do Prof. Lauro (Lembra-se dele? Tocava qualquer instrumento de corda, principalmente o violão; foi o primeiro professor do Dilermando Reis). Lembro-me de uma época, não de grandes regalias materiais, mas de grande riqueza espiritual, ambiente de gente culta e generosa. Graças a tudo isto, somos o que somos!!! Lembro-me com carinho do querido tio Lulu, que me presenteou com um álbum completo das valsas de Strauss, que até hoje guardo com carinho. Lembro-me do tio Antônio com seu trombone de vara magnífico, nas noites de carnaval. Lembro-me do tio Pedrinho que tirava um som deslumbrante do violino, de uma cultura musical fora do comum. Traz-me saudades de 'nosso conjunto familiar': você no acordeon, Sílvia na clavieta, eu no piano, papai com seu som insuperável ao piston, Miguel na flauta, Dozinho no bongo, Nancy no chocalho e Lili nas maracas. QUE SAUDADES!!!!! Como são doídas estas lembranças e ao mesmo tempo tão agradáveis! Saudades do entes queridos que se foram, saudades de épocas tão felizes, coisas tão distantes no tempo e tão próximas do coração. Beijos!"

Continua

 

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