FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

 


Pracinha Luiz Carvalho no topo do Monte Castello após a vitória

 

Monte Castello! Monte Sinistro, onde o sangue brasileiro jorrou intensamente; onde as derrotas consecutivas não abalaram o ânimo dos pracinhas que, finalmente, em épica e histórica arrancada conseguiram dominá-lo.
João Steudel Areão


Soldados da infantaria, desembarcando dos caminhõess em C. Viteline, antes de ataque a Monte Castello.
Foto escaneada do livro "Cinqüenta Anos Depois da Volta" - Octávio Costa

Noite de Angústias e de Glórias

A manhã de 22 de novembro de 1944 despontou calma e cheia de esperanças em toda a frente do 1º RI, não obstante as preocupações que atormentavam os que velavam pela sua sorte. Todos, sem exceção, aguardavam expectantes e temerosos, as primeiras reações do inimigo que, por certo, viriam inquietá-lo. A sensação de vazio para os que se encontravam isolados à frente, era enervante, pois nada viam e muito pouco ouviam que revelasse a presença do inimigo, embora soubessem que estava a poucos passos dos seus abrigos, gerando um clima de insegurança e de intranqüilidade. Cada homem vivia o seu drama íntimo. Os mais tímidos agarravam-se ao solo com receio, inclusive, de descortinar o horizonte em volta, enquanto os mais prudentes mantinham-se cautelosos e vigilantes nos abrigos, e os mais confiantes e afoitos aguardavam, apenas, melhor oportunidade para manifestar desprezo pelo inimigo. De fato, tão logo se sentiram encorajados, passaram a expor-se num extravagante e até, de certa forma, criminoso exibicionismo, revelando, inconscientemente, o dispositivo da tropa tomado com tanta cautela, na noite anterior. Não foram só estes, porém, os que quebraram a segurança da operação. Muitos outros, no exercício inadiável dos seus deveres, como mensageiros, telefonistas e padioleiros, também contribuíram para revelar as posições ocupadas. A situação, antes tranqüila, foi-se aos poucos transmudando como se aquele imenso deserto se visse, de súbito, invadido por uma meia dúzia de irrequietos viandantes. O alemão, experiente e astuto, observava, atentamente, todos esses desusados movimentos, que a vigilância e as repetidas recomendações dos oficiais não puderam evitar. A despeito dessas falhas, próprias de unidades inexperientes que entram em linha pela primeira vez, o dia 22 decorreu relativamente calmo. Apenas um bombardeio mais sério, por volta das 11,30 horas, quebrou a quietude reinante. Ao cair da tarde, entretanto, quando os batalhões concluíam os derradeiros preparativos e os últimos homens do 6º RI, que aí permaneceram como orientadores, deixavam as posições, começaram a cair novos tiros de artilharia e de morteiros, alguns de fumígeno, particularmente na cota 670 e ao sul de Torre di Nerone, dando a impressão que se tratava de uma regulação. Instantes depois, começou a escurecer, tornando o ambiente mais inquietador e excitante, exigindo de todos a mais absoluta vigilância. De repente, novos bombardeios, que se prolongaram por quase uma hora, sacudiram a terra, desta feita com violência e estrépito. A 8ª Cia, que se encontrava na cota 670 e mais para o sul, foi a que mais sofreu os seus efeitos. No afã para deterem o inimigo, que supunham estivesse avançando na sua direção, tanto ela como as demais companhias desencadearam as barragens de fogo. As linhas telefônicas romperam-se, dando oportunidade aos telefonistas para exibirem tanto o seu aprimoramento técnico, como as suas virtudes de audazes combatentes. Alguns mensageiros seguiram-lhes os exemplos, tentando restabelecer as ligações entre os batalhões e as companhias e entre o regimento e os batalhões. Os rádios foram postos a funcionar, porém não corresponderam ao que deles se esperava, devido às más condições atmosféricas e à natureza acidentada do terreno. Durante muito tempo a situação permaneceu neste estado, suscitando duvidas quanto aos verdadeiros destinos que aguardavam os batalhões. Todavia, aos poucos, o silêncio e a ordem foram se restabelecendo, para tranqüilidade de todos. Os prejuízos materiais foram, felizmente, reduzidos, porque a essa altura todos já estavam mais ou menos convencidos que de nada valiam exibições pelas cristas descobertas ou outras demonstrações semelhantes. Uma das passagens mais lamentáveis ocorridas nesse período, foi o impacto de um tiro de morteiro que incidiu caprichosamente no centro de uma posição de morteiro da CPP.2, matando o cabo Fleury, chefe da peça, e ferindo gravemente os demais homens da guarnição. As 20 horas, após alguns momentos de calmaria, novas concentrações de artilharia e morteiros cobriram outra vez a 8ª Cia e, parcialmente, a 9ª Cia, reproduzindo-se o mesmo quadro anterior, com as companhias a replicar o fogo inimigo. Três quartos de hora durou este novo drama, intensamente vivido não só pelos pelotões à frente como por todos quanto tinham responsabilidades no sub-setor. A meia noite, outras concentrações quebraram, pela terceira vez, a quietude, apenas perturbada pelas ambulâncias que conduziam feridos para a retaguarda e pelos caminhões que transportavam munições para frente. Ora recaindo sobre uma companhia, ora sobre outra, os bombardeios continuaram pela madrugada a dentro até às primeiras horas da manhã quando passou a reinar completo silencio em toda a frente do regimento, como se a exaustão houvesse dominado agressores e agredidos. Ao clarear, ao verificar-se o último bombardeio, observadores do 3º BI, instalados em Torre di Nerone, assinalaram na meia encosta da elevação em que se encontravam, pequeno grupo de alemães, contra o qual fizeram desencadear alguns tiros de morteiro, dispersando-o. Quer tenham sido golpes de mão de vaivém, destinados a fazer prisioneiros e colher informes, quer tenham sido simples bombardeios de inquietação, a verdade é que o regimento portou-se à altura do seu prestígio, mantendo rigorosamente o terreno que lhe fora confiado. E a sua resistência foi ainda mais significativa porque, na ocasião, a Task Force 45 ultimava os preparativos para o ataque ao maciço M. Belvedere-M. Castello-M. della Torraccia-M. Terminale, a realizar-se na manhã de 24. Houvesse sido ele recalcado das suas posições, essa operação teria sido forçosamente adiada ou definitivamente suspensa. Para uma unidade nova e inexperiente, como o 1º RI, que recebia o encargo de manter posições delicadas. como as de Affrico, Torre di Nerone e Turziano, todas essas peripécias tiveram muitas significações, revelando, a par da serenidade dos homens e da confiança nos seus superiores, elevado espírito de cooperação e de solidariedade das subunidades. O trabalho desenvolvido por todos infantes, artilheiros, telefonistas, mensageiros, padioleiros, municiadores e estados-maiores, foi extraordinário, embora devamos destacar o relevante papel desempenhado pelas guarnições na manutenção do terreno e dos graduados e oficiais na coordenação das ações. Foi realmente uma noite de glórias para o regimento, intensamente vivida dentro de um clima de angústias e expectativas. Ele, que já gozava de grande prestígio no seio da FEB, crescera na admiração dos seus pares pela firmeza com que se conduzira nesta noite de estréia. A atitude custou-lhe caro em vidas, pois só o 3º BI perdeu 19 homens, dos quais 4 mortos. Entre os feridos, cumpre-nos ressaltar a conduta do 2º Sgt. Waldomiro Bento de Faria que se negou a abandonar a sua unidade, dando extraordinário exemplo de desprendimento e espírito de sacrifício. Rasgos de heroísmo como este, foram comuns, denotando que o soldado brasileiro é tão capaz quanto os demais, bastando que se lhe dêem exemplos, como ocorreu nesta consagradora noite, em que todos, oficiais e graduados, quer pertencessem às companhias, batalhões ou regimento, foram os primeiros a cumprir as suas missões.

" O Brasil na II Grande Guerra"
Ten. Cel. Manoel Thomaz Castello Branco


Cel. Aguinaldo Caiado de Castro, Cmt. do 1º RI, logo após a conquista de Monte Castello,
dirigiu-se a esta região, em visita de inspeção à sua unidade.
Foto escaneada do livro " O Brasil na II Grande Guerra" - Ten. Cel. Manoel Thomaz Castello Branco

A TOMADA DE MONTE CASTELLO

Apesar do muito que já se disse e se escreveu, a história de Monte Castello continua controvertida, chegando mesmo a dar a nítida impressão de que passou a se constituir em autêntico tabu. Em verdade, nada há de certo e de positivo quanto aos verdadeiros culpados - se é que os houve - pelos primeiros fracassos. Há os que culpam o nosso comando; outros afirmam que ninguém teve culpa de coisa alguma; pretendeu-se, ainda, creditar à inclemência do inverno, a total responsabilidade. O real, no entanto, apesar de passados muitos anos, teima em não vir à tona. Afirma o então tenente coronel Thomas Castello Branco, em seu muito apreciado trabalho O BRASIL NA II GRANDE GUERRA: "O general Mascarenhas mostrou-se muito apreensivo com a sorte dos seus elementos sem, contudo, poder afastá-los desta situação porque além das exigências de ordem tática apresentadas pelo Cmt. do IV Corpo de Exército, havia os aspectos políticos e psicológicos a encarar, talvez mais significativos do que aqueles, impelindo-o para a frente, não obstante as dificuldades e tropeços que antevia..."
Pelo que se depreende, além do inimigo bem armado e decidido, os problemas políticos e psicológicos, para complicar a situação. Alia-se a tudo isso a vaidade pessoal e a inveja, que se terá, então, a real e difícil situação de uma frente de batalha, verdadeiro coquetel de intrigas e disse-me-disse. Acompanhe-se a história das guerras e se verá como essas coisas aconteceram desde o primeiro combate, desde o primeiro duelo, desde Abel e Caim! Afinal, de quem a culpa dos rotundos fracassos em Monte Castello? Do comando brasileiro? Do comando norte-americano? Do comando aliado? Do inverno rigoroso ou do espírito de luta dos alemães? Onde a resposta certa, exata, capaz de satisfazer a todos, mesmo com demérito para alguém ou alguns? Conversamos com oficiais, sargentos, cabos e soldados que conseguiram safar-se com vida da verdadeira tragédia que foram as duas primeiras batalhas pela conquista do Castello, ponto geográfico sem a menor expressão para os italianos, mas que ficou para sempre gravado na memória dos nossos pracinhas, como verdadeiro sorvedouro de vidas humanas. De todas as versões, duas ganham destaque, sendo bem provável que uma delas, pelo menos, satisfaça em parte:
1º - Pretendendo demonstrar a superioridade do soldado brasileiro, nosso comando ordenou a conquista da posição inimiga a qualquer preço e de qualquer maneira, obrigando a tropa cansada de outras jornadas a vencer, a pé, largas distâncias em terreno extremamente difícil, debaixo de frio inclemente. Além de extenuadas, nossas tropas encontravam-se mal dormidas e pior alimentadas.
2º - Desenrolava-se o ataque, protegido por pesada cerração matinal, quando, inesperadamente, a artilharia norte-americana, contrariando os planos pré estabelecidos, abriu fogo contra a crista do morro, alertando o inimigo. Bem plantados em Abetaia, Valle, Cavrullo, Mazzancana e outras posições, os tedescos cruzaram seus fogos sobre a encosta do Castello, frustrando a possibilidade de a tropa atacante prosseguir rumo ao objetivo, sobrevindo a catástrofe. E para piorar a situação dos nossos pracinhas, a Task Force 45, que apoiava um dos flancos, ao ver as coisas pretas, "deu no pé"! Não menos desastrosa foi, também a atuação dos tanques norte americanos, encarregados da cobertura. Quando a situação agravou-se, todos, sem exceção, acusaram defeitos mecânicos e procuraram abrigar-se da chuva de projéteis que vinha de todos os lados e altitudes. Essa soma de erros ou enganos ou seja lá o que quiserem, redundou na morte de cento e oitenta e três brasileiros, preço demasiadamente alto para uma vitória que só viria mais tarde, quando a neve deixara de cair e do solo brotavam as primeiras folhas da primavera, enfeitando a terra salpicada de sangue.

"A Neve foi Testemunha"
João Steudel Areão


Gen. Mascarenhas com seus ajudantes de ordem e motorista, durante a defensiva do inverno.
O jipe Liliana foi o primeiro veículo da FEB.
Foto escaneada do livro "Cinqüenta Anos Depois da Volta" - Octávio Costa

A noite vinha chegando mansa e medrosa. O viandante que por ali passasse não diria que pisava um campo de batalha, o front da convulsão humana, tal era o silêncio que imperava de lado a lado. Contudo, se ele mais se aprofundasse pelo mato, mais se abeirasse das escavações do terreno, não deixaria de ver que, aproveitando os acidentes dos morros, as ravinas e os caminhos desenfiados, lá estava um pracinha, filho do Brasil, empunhando sua arma, atento, olhar de lince, pronto para o ataque! Esse pracinha viera de longe. Deixara a sua Pátria onde corações amantes e saudosos viviam em constante agonia, pedindo a Deus que o protegesse. A seu País, em que tudo é belo e onde há praias tropicais, ele mantinha a firme convicção de voltar, rever a terra natal, os amigos, a família, que era uma partícula do seu coração. O pracinha dos nossos campos não esquecia o sítio rodeado de plantação, o canavial, o engenho, as estradas que percorrera quando menino, a cabocla rosada e bonita que deixara, o gado sadio e vistoso. Agora ele era a sentinela avançada do Brasil e, nas suas investidas furiosas, não cessava de repetir baixinho, como numa prece: Não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá! Ia longe a madrugada. O frio cada vez mais forte era prenúncio de que a neve não tardaria a aumentar de intensidade. Nem uma estrela, nem um sinal do céu, a não ser o farol das baterias antiaéreas dos ingleses à nossa retaguarda, a espera do inimigo. Aproximavam-se os primeiros albores da manhã. Toda a tropa estava em posição. A artilharia, que martelara horas seguidas, em preparativo para o ataque e que se fizera silenciosa, já recomeçara o bombardeio do sinistro Monte Castello. Era a barragem. Os relógios foram acertados. Nem um minuto a mais, nem a menos. O avanço seria iminente e o ataque se desencadearia a um só tempo...

"De São João Del Rei ao Vale do Pó"
Gentil Palhares



Pintura a óleo "Os 17 de Abetaia" - Otton Arruda Lopes
Exposto no Museu da FEB - Belo Horizonte, MG.

Eram 18 horas do dia 21, quando os primeiros elementos do 1º RI conseguiram finalmente alcançar o ponto 977, onde ficava o marco trigonométrico de Monte Castello. Depois de cinco ataques caira o sinistro reduto alemão. Na crista do morro, esses primeiros elementos encontraram, aqui e acolá, inúmeros corpos insepultos de brasileiros, semi-conservados pela neve, que testemunhavam a audácia dos ataques anteriores. Na manhã do dia seguinte, o Pelotão de Sepultamento e mais o Reverendo Soren cumpriam a missão de recolher e dar sepultura condigna aos corpos dos nossos heróicos pracinhas que tombaram em combate. Quando palmilhavam a área conquistada, em terreno minado e ainda sujeitos a bombardeios inimigos, encontraram em Abetaia, denominada "o corredor da morte", outros 17 corpos insepultos de brasileiros desaparecidos no ataque do dia 12 de dezembro. Recolheram os corpos, inclusive os do inimigo, que foram colocados em sacos individuais, para depois serem levados à sepultura no cemitério de Pistóia.

"Nós Estivemos Lá"
José Dequech

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
l 1 l 2 l 3 l 4 l 5 l 6 l 7 l 8 l 9 l 10 l 11 l 12 l 13 l 14 l 15 l 16 l 17 l 18 l 19 l 20 l
l
21 l 22 l 23 l 24 l 25 l 26 l 27 l 28 l 29 l 30 l 31 l 32 l 33 l 34 l 35 l 36 l 37 l 38 l 39 l 40 l
l
41 l 42 l 43 l 44 l 45 l 46 l 47 l 48 l 49 l 50 l 51 l 52 l 53 l 54 l 55 l 56 l 57 l 58 l 59 l 60 l
l
61 l 62 l 63 l 64 l 65 l 66 l 67 l 68 l 69 l 70 l 71 l 72 l 73 l 74 l 75 l 76 l 77 l 78 l 79 l 80 l
l
81 l 82 l 83 l 84 l 85 l 86 l 87 l 88 l 89 l 90 l 91 l 92 l 93 l 94 l 95 l 96 l 97 l 98 l 99 l 100 l
Homenagens aos Heróis
Saudade
A vida felizmente pode continuar... 

Voltar

| Home | Contato | Cantinho Infantil | Cantinho Musical | Imagens da Maux |
l
Recanto da Maux | Desenterrando Versos | História e Genealogia l
l
Um Herói nunca morre l Piquete - Cidade Paisagem l
MAUX HOME PAGE- designed by Maux
2003 Maux Home Page. Todos os direitos reservados. All rights reserved.