FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

A FORMAÇÃO DA FEB


20/04/1944 - Primeira reunião do Estado Maior da FEB, Rio de Janeiro. Da esquerda para a direita:
Maj. Osmar Dutra, Ten.Cel. Senna Campos, Ten.Cel. Thales Ribeiro da Costa, Ten.Cel. Humberto de Alencar
Castelo Branco, Ten.Cel. Amaury Kruel, Cel. Lima Brayner.
Foto escaneada do livro "
A Verdade sobre a FEB", de Floriano de Lima Brayner

O pequeno Estado-Maior de uma Divisão é estritamente operacional. O Ministro da Guerra sentiu o acúmulo de problemas e decidiu sabiamente a constituição de um novo órgão, o Estado-Maior da FEB no interior, para um conjunto de atividades sobre organização e aparelhamento, visando a possível constituição de um corpo de exército de três Divisões. Se a FEB tivesse chegado a possuir a envergadura que lhe pretendiam dar, o seu Estado-Maior, no interior, estaria habilitado a se converter no próprio Estado-Maior do Corpo de Exército. Enquanto isso, procurava o órgão divisionário se firmar na sua missão, para dar unidade espiritual à Grande Unidade, cuja característica era a heterogeneidade. Somente a 18 de outubro de 1943 foi expedido o Documento Reservado contendo as primeiras prescrições para a transformação das unidades constitutivas da Nova Divisão tipo americana, que passaríamos a chamar tipo FEB. A recomendação mais absurda era a que a transformação das unidades estivesse terminada em 15 de novembro, isto é, em menos de um mês. Nem varinha de condão o conseguiria. O meu Estado-Maior, com um mês de vida exclusivamente no papel, praticamente ainda não existia. Não se reunira, nem tomara pé na situação. A Grande Unidade nascente ainda não podia contar com a assistência do chamado espírito divisionário que emana, justamente, do Estado-Maior da Divisão, oficina de trabalho intelectual que fecunda e desenvolve as idéias. Tudo estava desajustado. Não tinham a vivência em comum, em tempo de paz. Difícil seria o entendimento. A estrutura das unidades das armas sofrera profundas modificações, principalmente na Infantaria e na Engenharia. Aquela, passando a dispor de uma potência de fogo excepcional; esta, com o nome de Engenharia de Combate, passando a ter um aparelhamento inteiramente desconhecido dos nossos oficiais e soldados. Em todas as armas, o armamento se modificara completamente, visando a alcançar o máximo de potência de fogo. A maioria das armas era completamente desconhecida no Brasil. E se não as possuíamos, muito menos as respectivas munições, isso significava dizer que seu emprego e utilização tão cedo não produziriam reflexos duradouros que pudessem caracterizar uma tropa instruída para a guerra. Também a estrutura dos órgãos do Comando sofreu radical transformação, não somente na descentralização dos problemas do Comando, como na forma de transmitir as decisões e ordens, pela multiplicação dos meios de comunicação, em que a fonia passou a predominar. O aperfeiçoamento crescente desses meios e a riqueza da gama com que se apresentavam, eram reforçados por uma organização perfeita de "manutenção", essa palavra mágica que surgiu, em todo o esplendor, nessa última guerra, e que constituiu, sem sombra de dúvida, um dos fatores decisivos da vitória. A Divisão Expedicionária surgiria de um amálgama de unidades colhidas na formação normal das Divisões Brasileiras, para sofrer imediatamente a impregnação das unidades que combatiam nos diversos fronts. Era a reação do campo de batalha, que se esperava. Quero assinalar bem essa circunstancia para que se possa compreender o sobrehumano esforço do Estado-Maior Divisionário para dar vida à 1ª Divisão da FEB.

A Verdade sobre a FEB
Memórias de um Chefe do Estado Maior na Campanha da Itália
Mal. Floriano de Lima Brayner


Comando da FEB na preparação da partida:  Da esquerda para a direita:
Gen. Zenóbio da Costa, Gen. Mascarenhas de Moraes, Cel. Floriano Brayner e Gen. Cordeiro de Farias.
Foto escaneada do livro "
A Verdade sobre a FEB", de Floriano de Lima Brayner.

 

Era nesse ambiente instável, de balbúrdia e entrechoque de idéias, que se iniciava, propriamente, a ação de comando do Gen. Mascarenhas de Moraes. A ele, pois, todo o mérito do desmedido esforço de procurar tirar desse ambiente caótico, uma Divisão, à qual não se podia impor, da noite para o dia, por Decreto, unidade espiritual, equilíbrio psicológico e capacidade combativa. A artilharia foi a arma menos surpreendida, por isso que, com o início da guerra, os alemães que nos vendiam o material Krupp C 26 e C 28 suspenderam a entrega das baterias encomendadas. Voltamos as vistas imediatamente para o material americano de 105 e 155 m/m. A Engenharia de Combate tomou uma feição inteiramente nova. O Batalhão Divisionário passava a ser, ao mesmo tempo, uma poderosa oficina de trabalho de todas as especialidades de arma, e ainda devia estar em condições de prover a própria segurança dos canteiros de trabalho, em qualquer ponto da zona de combate. Desapareciam as Companhias de Sapadores, Pontoneiros, Mineiros, etc. E os novos meios, ricos, eficientes e altamente objetivos, deram nova mentalidade à unidade, tornando mais complexa a sua instrução. Os órgãos dos serviços, particularmente Saúde, Intendência, Comunicação e Material Bélico, apresentavam feição inteiramente nova. Viviam exclusivamente para a guerra, na imensa complexidade do apoio logístico. E todo esse panorama dificilmente poderia sair do campo das dificuldades, ou melhor, das possibilidades, devido aos estacionamentos das unidades:
6º Regimento de Infantaria - em Caçapava (2ª Região Militar - São Paulo)
11º Regimento de Infantaria - em São João Del Rei ( 4ª Região Militar - Minas)
1º Grupo de Obuses - em Duque de Caxias - Quitaúna (2ª Região Militar - São Paulo)
9º Batalhão de Eng. de Combate em Aquidauana (9ª Região Militar )
O Quartel-General da 1ª Divisão, ainda em organização, não podia desincumbir-se das tarefas que lhe seriam normais. E os trabalhos a cargo dos órgãos regionais eram executados com extrema morosidade. O que mais preocupava era o inevitável choque que, a cada momento, se verificava como decorrência da atribuição dada ao Comandante da 1ª Divisão Expedicionária, com a responsabilidade administrativa e disciplinar, que era privativa dos Comandantes das Regiões Militares a que pertenciam as unidades expedicionárias. Os dois Comandos colidiam inevitavelmente. Em meio a essa compreensível instabilidade, o Gen. Mascarenhas teve ordem de partir para visitar o Teatro de Operações do Mediterrâneo: 

"O General Comandante da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária partirá para o Teatro de Operações, da Itália, afim de estabelecer uma primeira ligação de Comando, observar o campo de batalha e tomar contato com os problemas que o deveriam empolgar no transcurso da campanha".

- Era essa a Diretriz Geral. Há, em toda essa redação, uma grande força de expressão. A participação ativa do Brasil na guerra era, até aquele momento, acima de tudo, uma manifestação política de expressão continental e de alto fundo psicológico para a causa das Nações Unidas, já o dissemos. Um país de mais de 60 milhões de habitantes que passava à atitude de beligerância, não podia deixar de impressionar os dirigentes e os Estados-Maiores do Eixo Roma-Berlim. Era um novo reservatório que abriria os seus diques, com a possibilidade, ainda, de carrear outros países do Continente, além da massa de recursos de toda a natureza que passariam a desequilibrar a balança contra Hitler e seus aliados. Entretanto, o Brasil não soube valorizar aquele passo gigantesco e perigoso. Expôs todo o seu complexo organismo federativo às insígnias e violências de um inimigo poderoso, com a agravante de ser um país praticamente desarmado, que não possuía o mais elementar planejamento para uma remotíssima guerra extracontinental. Naquela emergência, o eco da nossa reação não teve a repercussão que merecia. Vivíamos sob o governo de uma ditadura, sem que o povo brasileiro, propriamente, tivesse a faculdade de examinar, através de seus representantes diretos, os atos da política internacional que envolvessem, face ao mundo, os legítimos interesses da Nação brasileira. O governo fazia manobras em defesa dos seus próprios interesses. Exaltava os brios nacionais, ofendidos com os sucessivos torpedeamentos de navios brasileiros, e jogava a sua cartada incorporando-se à vontade nacional que aspirava colocar-se ao lado das democracias, no combate ao mundo totalitário nazi-fascista. Para muita gente, a escolha do Comando, das Unidades constitutivas, e do Estado-Maior Expedicionário, significava que a FEB estava pronta para partir. Mas, a realidade era outra. Sabia-se que a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária seria uma das Divisões da FEB, mas esta verdadeiramente não existia. O seu Comandante partia para o Teatro de Operações para atender a um convite do Alto Comando Americano. Ia ver a guerra de perto, sentir-lhe as reações, os horrores e a complexidade do Comando. Muito distantes estávamos da realidade. Certamente algumas observações úteis poderiam ser colhidas. O relatório dessa viagem não foi difundido. Não provocou no seio da Divisão a efervescência necessária. Entretanto - honra seja feita ao Comandante da Divisão -, longe de arrefecer o seu ânimo, na comparação entre o que presenciara e a situação em que se encontrava a tropa que deveria comandar, a sua atividade se multiplicou, revestida de uma moral inquebrantável. Na ausência do Gen. Mascarenhas, respondeu pelo Comando o Gen. Euclides Zenóbio da Costa, chefe dinâmico, entusiasta de sua profissão, que assim se apresentava e assim era conhecido desde os primeiros passos do oficialato. Possuía três grandes qualidades, entre as que ornavam sua personalidade de homem simples e sem atavios: era bravo entre os que mais o fossem, em quaisquer circunstâncias: organizador meticuloso, que sabia ter êxito em todos os empreendimentos; era voluntarioso e decidido, como um verdadeiro chefe de primeiro plano. Assumindo, interinamente, as funções de Comando, não perdeu tempo. Sentiu a gravidade do atraso dos preparativos e da metamorfose que se deveria operar no organismo das tropas, que passavam a integrar a Divisão, particularmente a sua Infantaria . Organizou prontamente um plano para inspecionar tôdas as unidades, principalmente as sediadas fora do Rio de Janeiro: o 6º Regimento de Caçapava (São Paulo), 11º Regimento de São João Del Rei ( M.Gerais) e o 1º Grupo de Artilharia sediado em Quintaúna (São Paulo). Sentiam todos que pouco tínhamos progredido. Mas era preciso ver de perto e, mais do que isso, enfrentar o choque inevitável ante a diluição do Comando, porque aquelas unidades continuavam a receber e cumprir ordens dos seus comandos divisionários normais. Estes, voluntária ou involuntàriamente, exerciam uma ação retardadora de tal modo nociva, que o próprio moral da tropa e a sua preparação psicológica se desagregavam a olhos vistos, principalmente na execução do trabalho de recompletamento dos efetivos. E o Estado-Maior da Divisão Expedicionária, sem poder exercer uma completa intervenção nesse processo de lenta integração, via seu trabalho sujeito às mais variadas restrições. A visita às unidades situadas fora do Rio, com a presença do Gen. Zenóbio da Costa, que procurava sobrepor sua autoridade às manobras retardadoras e à resistência passiva encontradas, teve, pelo menos, o mérito de constatar a gravidade da situação e fazer sentir aos comandos que a falta de espírito de cooperação poderia acarretar conseqüências imprevisíveis, inclusive na anulação dos compromissos assumidos com os nossos aliados. Em todas as unidades visitadas constatava o Gen. Zenóbio a balbúrdia em que estavam mergulhadas, principalmente nas questões de organização dos novos tipos de unidades, subunidades e unidades elementares, agravados os problemas com as dificuldades quase invencíveis da seleção física. Os corpos de tropa continuavam sem poder alcançar os efetivos fixados e, com isto, distanciados de qualquer progresso na instrução da tropa, cuja importância não era demais encarecer. Por outro lado, a inexistência dos armamentos e materiais diversos que seriam manejados nos campos de batalha, e completamente desconhecidos no Brasil, não permitia a mínima iniciativa dos quadros para vencer esse estado de torpor e de angústia . E assim, enquanto o Gen. Mascarenhas de Moraes fazia uma viagem de experiência à Itália e ao norte da África, com o seu grupo de acompanhantes, os problemas se amontoavam aqui no Brasil, complicando cada vez mais a missão que havia recebido. A data de 15 de novembro estabelecida pelos atos ministeriais para que se completasse a organização das unidades, meramente teórica e sem qualquer base real, foi ultrapassada sem serem alcançados os objetivos ansiosamente almejados.

A Verdade sobre a FEB
Memórias de um Chefe do Estado Maior na Campanha da Itália
Mal. Floriano de Lima Brayner


Comando Brasileiro em visita ao IV Corpo de Exército Norte Americano.
Foto escaneada do livro "
A Verdade sobre a FEB", de Floriano de Lima Brayner

Balanço Decepcionante

Ao se findar o ano de 1943, a situação era a seguinte: 

Estado-Maior da Divisão -Inteiramente constituído com a escolha e designação do pessoal.
Tropa especial do Quartel-General Divisionário - em curso de organização.
Unidades de Infantaria -Nenhum regimento ainda organizado. Grandes déficits, sendo a razão principal o desconhecimento dos resultados das inspeções de saúde e da seleção dos seus homens.
As juntas de Inspeção de Saúde não tinham critérios uniformes. Não estavam mesmo adestradas para tal atividade, nem dispunham de material especializado, além de empregarem processos burocráticos arcaicos e de parco rendimento. As novas qualificações de especialistas, em que figuravam eletricistas, mecânicos, motoristas, operadores e mecânicos de rádio, armeiros, radiotelegrafistas, etc., complicaram todo o trabalho de complemento dos efetivos. Onde encontrá-los, não se tratando de elementos de formação normal no âmbito do exército? Como retirar das atividades civis, sem convocação legal, homens dotados de remuneração alta, que o exército absolutamente não poderia pagar? Como desorganizar empreendimentos da vida pública retirando-lhes elementos vitais, se não se tratava de uma mobilização nacional? E o desamparo das famílias? O outro aspecto foi a transferência de elementos, por exemplo, do 12º e do 10º Regimentos de Infantaria (Belo Horizonte e Juiz de Fora) para o 11º Regimento de Infantaria de São João Del Rei, submetido a critérios diferentes de seleção e sem à menor preparação psicológica. A cooperação dos quadros não foi perfeita. Não havia qualquer estímulo ou sentido heróico, exaltado, para neutralizar sacrifício que se impunha aos menos cultos. Registraram-se atos de indisciplina do 11º Regimento de Infantaria. Em parte se compreendia. Fora má e injustiçada a escolha do 11º Regimento de Infantaria, unidade mais recuada e mais modestamente aparelhada da Infantaria Divisionária. Se a intenção era honrar o compromisso do Brasil integrando a 1ª Divisão Expedicionária com um Regimento de Infantaria da 4ª Região, a unidade deveria ser o 10º Regimento de Juiz de Fora, sede do Comando Regional, com todos os recursos ao seu alcance, mais próximo do Rio (local da concentração), com Comando Regional para trabalhar na execução da missão, inclusive na mobilização. Não podia ignorar que Juiz de Fora, um dos mais prósperos centros industriais do país, teria facilidade em selecionar os especialistas de que tanto necessitava a nova organização. Não se pensou em nada disso. Foi escolhido, talvez pelo critério político regional, o Regimento menos aparelhado; o que maiores problemas apresentava e que, sem dúvida, maiores dificuldades enfrentaria, para chegar a satisfazer as mínimas, mas prementes condições de tempo impostas. Essa crítica, evidentemente, não envolve o desempenho apresentado na campanha pelo 11º Regimento de Infantaria, principalmente nos três últimos meses que antecederam o encerramento das operações. O fato é que o Regimento teve de receber um complemento de 1 600 homens oriundos do 10º e do 12º Regimentos, os quais ao se deslocarem para São João Del Rei, sob coação, provocaram lamentável mal-estar e desequilíbrio disciplinar na caserna e na cidade. Os outros Regimentos, 1º e 6º de Infantaria, escolhidos com mais acerto, tiveram melhor apoio dos escalões superiores, mas não puderam superar as dificuldades para a organização das companhias de canhões anticarros de 57 m/m e obuses de 105 m/m. Eram completamente desconhecidos no Brasil. Quanto às unidades de artilharia, o problema se apresentava mais simples, porque o material, tipo americano de 105 m/m, já existia entre nós. Os efetivos dos Grupos de Artilharia eram da ordem de 500 homens, por grupo. Apenas o Grupo Pesado do 155 m/m não recebeu material desse calibre, por não existir entre nós. E, para não perder o adestramento na técnica de tiro, foi-lhe atribuído, em caráter provisório, o material correspondente a três baterias de calibre 105 m/m americano. Toda a artilharia foi aparelhada no curso do mês de dezembro, antes mesmo de ter completado seus efetivos. O Esquadrão de Reconhecimento Divisionário não teve maior dificuldade em sua organização, pois resultou do aproveitamento e adaptação de um dos esquadrões do 2º Regimento Moto-Mecanizado. A Engenharia, ao contrário, apresentou uma das soluções mais absurdas. Escolheram, para integrar a Divisão Expedicionária, o 9º Batalhão de Engenharia que tinha sede em Aquidauana (Mato Grosso), com um recrutamento deficitário e o mais imperfeito contingente humano. Não se pode fugir a um comentário amargo, não se compreendendo como o Estado-Maior do Exército aceitou essa solução, que poderia redundar nas mais graves conseqüências. Fazendo parte das tropas da 9ª Região Militar, a uma imensa distância das bases em que penosamente se organizava a Divisão Expedicionária, nenhuma interferência ou assistência poderia o seu Comando lhe dar, apesar da transcendente missão que lhe estava reservada nos campos de batalha, como Engenharia de Combate. Por isso mesmo, foi solicitado o seu deslocamento urgente para a área de concentração da 1ª Divisão, tendo-lhe sido fixada, como ponto de primeiro destino, a cidade de Três Rios, à margem da rodovia União e Indústria, entre Petrópolis e Juiz de Fora. O problema de seleção dos seus homens foi tão difícil, senão mais difícil do que o das outras unidades, dadas as deficiências do meio e, principalmente, o fraco índice demográfico e incultura generalizada. O novo estacionamento apresentava algumas conveniências, como a proximidade do rio Paraíba, para os exercícios de pontagem. Mas, a distância a que se encontrava das outras unidades da Divisão impedia qualquer atividade de cooperação, tão necessária e urgente. Nisto tudo se evidenciava o nosso completo desconhecimento da realidade da guerra, que já ia marchando para o seu quarto ano de desenfreamento. Ao se reunir na nova sede, em Três Rios, apresentou-se ao Estado- Maior Expedicionário toda a nudez das dificuldades. Onde encontrar a massa de especialistas, radioperadores, mecânicos em geral, estenógrafos, mecânicos de rádio, operadores de martelete, mecânicos, tratoristas, motoristas do bote-motor, carpinteiros de ponte, operadores de compressor de ar, etc.? E como se tratava de unidade que não se poderia improvisar, somente por displicência poder-se-ia escolher, para essa missão, o 9º Batalhão Expedicionário de Aquidauana, deixando de lado as unidades de Engenharia, do Rio de Janeiro e, principalmente, o 2º Batalhão de Engenharia, de Pindamonhangaba, uma das unidades mais completas e selecionadas da arma . Na parte de Comunicações não foi difícil. Talvez tenha sido a mais feliz solução, neste angustioso problema de organização. O 1º Batalhão de Transmissão destacou uma das suas companhias, já integradas por especialistas bem treinados, para se transformar em unidade expedicionária. Graças ao seu bom nível de instrução de tempo de paz e aos excelentes quadros de oficiais e sargentos, não encontrou dificuldades em aprender e manipular os novos aparelhos colocados ao seu alcance, na nova organização. Acresce que, estando essa unidade estacionada normalmente no Rio, com toda a sua aparelhagem, ao lado dos Centros de Pesquisa e Cursos Especializados, todas as dificuldades foram removidas e, por isso mesmo, quando enveredou pela fase operacional seu êxito estava assegurado, apresentando-se como a unidade mais eficiente da FEB durante a campanha. O Serviço de Saúde, representado pelo 1º Batalhão de Saúde, foi constituído pela reunião da lª Formação Sanitária regional, acrescida de elementos oriundos da 2ª Formação Sanitária de São Paulo. O mesmo defeito de planejamento: sede fixada para o Batalhão, cidade de Valença, em aquartelamento adaptado, longe do conjunto Expedicionário, desligado do sentido de cooperação, fundamental no caso desta unidade especializada. O Serviço de Material Bélico apresentou uma grande inovação com a criação da Companhia de Manutenção, tipo de tropa até então inexistente no nosso Exército. E, também por isso, passou a ser a unidade de tão difícil organização quanto o Batalhão de Engenharia. Entre os seus especialistas figuravam, no Pelotão de Reparação de Armamento, os mecânicos de Artilharia, reparadores de instrumento de ótica, maquinistas, chefes de armeiros, armeiros especialistas, técnicos de relojoaria, etc. Nenhuma fonte de formação possuíamos para recrutar esses elementos. Recorreu-se à mobilização, chamando reservistas, fazendo-se simultaneamente apelo aos quadros de operários especialistas do Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, atendido generosamente. O Serviço de Intendência, aparentemente simples na sua contextura, levantou imensas dificuldade na constituição de seu órgão de execução, a 1ª Companhia de Intendência, unidade divisionária. Em sendo uma unidade essencialmente transportadora, os seus três Pelotões de Transporte e a Seção de Manutenção exigiam uma quantidade de motoristas de caminhão e de jeeps, além dos especialistas, praticamente impossível de obter de improviso. Longe estava, portanto, de ser alcançada a meta de organização imposta pelas Portarias Ministeriais, limitada ao dia 15 de novembro de 1943. Pode-se dizer que, ao findar-se o ano, em 31 de dezembro de 1943 essas organizações eram embrionárias; algumas até inexistentes, apesar da luta ingente dos que tinham a missão de tirar alguma coisa do caos. Esta sumaríssima síntese dá uma idéia do que foi o labor inicial do Estado-Maior da Divisão Expedicionária.

A Verdade sobre a FEB - Memórias de um Chefe do Estado Maior na Campanha da Itália
Mal. Floriano de Lima Brayner


Ataque a Pearl Harbor 

 

O ataque japonês a Pearl Harbour precipitou a entrada dos Estados Unidos na guerra. Deste momento em diante, não tardaria a nossa vez. Tínhamos a certeza de que seria um lance angustioso. País de imigração, possuindo em todo o território nacional e principalmente no Sul grandes núcleos de colonização estrangeira, intimamente vinculados à terra e à vida dessas regiões, não seria fácil, sem grave comoção intestina, passar a um estado de beligerância ativa, mormente quando era público e notório que a ditadura que nos governava tinha pendores e simpatias pelos países do Eixo. E que, no Alto Comando do Exército, ainda predominava uma forte corrente de militares germanófilos, simpatizantes do poderio militar alemão. É verdade que o governo brasileiro se guardara contra qualquer atividade nociva ao país, por parte dos núcleos coloniais italianos e germânicos do Sul. Medidas de vigilância e uma legislação especial foram implantadas com aquela finalidade, mas visando somente o campo político-social, embora com a colaboração do Exercito. Nada se fez, entretanto, no campo militar propriamente, nem mesmo na previsão de um desembarque na nossa costa, quer no Norte, quer no Sul do país. As medidas de vigilância do litoral eram muito sumárias. Quem poderia impedir, por exemplo, no transcurso de determinadas fases da Guerra Mundial, que se tentasse abrir um novo front, com desembarques na costa de Santa Catarina (São Francisco-Itajaí-Porto Belo)? Qualquer que fosse o efetivo aí desembarcado, seria acrescido imediatamente de milhares de alemães e descontentes, entre os quais já se citavam verdadeiros líderes e gauleiters, nada impedindo que possuíssem até seu planejamento próprio, tal a excitação que dominava o mundo. A muitos passou despercebida, ou melhor, não foi dada maior significação, em plena guerra, à ocupação americana no Nordeste do Brasil, com a instalação da Base-Aérea de Natal (Parnamirim) e do Comando do Atlântico Sul, em Recife, verdadeira e importante Base Naval, conexa com a de Natal. Em ambas, em dados momentos estacionavam mais de 20 000 homens militares americanos, dotados dos mais poderosos recursos. Se os alemães tivessem operado desembarques no Sul do país, a título de proteção de suas "minorias" aí domiciliadas, teríamos a luta intestina a corroer a unidade nacional. E se outro fosse o desfecho da segunda Guerra Mundial, a esta hora teríamos o território do Brasil amputado. A Ditadura paternalista de Vargas, que já durava doze anos, nos deixava meio insensíveis e descontrolados. Os alemães e italianos possuíam submarinos transatlânticos, de 6 000 toneladas, que vinham buscar cargas e matérias-primas em Buenos Aires e, talvez, mesmo, clandestinamente, em algum ponto de nossa costa. Por que não poderiam trazer pessoal militar, para uma infiltração sistemática, apoiada por navios-corsários? Ainda está na memória de todos, com amargura, a lembrança do torpedeamento covarde de cinco cargueiros nacionais, entre os quais o Baependi, à vista da costa de Sergipe, tão próximo que houve quem se salvasse a nado. Naquele fundo do mar ainda repousam, hoje, os canhões, as bandeiras e o próprio comandante de um grupo de Artilharia, Ten. Cel. Lauderico de Albuquerque Lima, tombado como qualquer mártir no campo de batalha, pela unidade nacional. Deslocava-se para Alagoas, com todos os riscos, que acabaram eliminando-o e à sua unidade, quando seguia para reforçar o sistema de defesa do litoral brasileiro. E tudo isso obedecia a um empirismo de estarrecer. O conselho de Segurança Nacional era submisso e inoperante. E o grande conselheiro militar, todo poderoso perante o Governo e de crédito ilimitado, era o Gen. Pedro Aurélio Góes Monteiro, homem dotado de brilhante inteligência, grande cultura geral, mas orientado por uma formação defeituosa, personalista extremado. Misturava política com militança e influía decisivamente no espírito e nos atos das mais altas autoridades civis e militares, depois de exercer completa catequese sobre a própria pessoa do Ditador-Presidente. Essa verdadeira balbúrdia generalizada, tinha que, inevitàvelmente, influir na evolução do processo militar, pela absoluta ausência do imperativo da lei, substituído pelo arbítrio do Ditador, cujo pensamento era sempre uma incógnita, embora isento de arrebatamentos. Faltava, em tudo, a essência da democracia: a representação do povo.

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Mal. Floriano de Lima Brayner

Um Herói nunca morre!

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