FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

Depois que a Cobra Fumou

 


Troféu da Vitória: pracinhas do 9º BE conduzem a bandeira alemã aprisionada.
Imagem do site www.exercito.gov.br

No porto de Nápoles atracou finalmente o "Pedro I". Como Assistente do Cel. Moraes Âncora, Comandante da Tropa, embarquei algumas horas antes do grosso das Unidades. Navio aberto, cheio de camas de campanha pelo convés, bem diferente do transporte que nos trouxe com toda segurança até aqui. Seriam 18:30 horas de 12 de julho quando começamos a desatracar, em meio à alegria geral. Agradeci a Deus, contritamente, a felicidade de embarcar de volta ao Brasil, no mesmo porto onde havia chegado quase um ano atrás, cheio de dúvidas, incertezas e curiosidades. O navio tem capacidade para 300 passageiros mas está superlotado. Viajo num camarote de luxo e, como tenho trabalho durante o dia, as horas passam rápidas. O Mediterrâneo está calmo como um lago. Ao amanhecer do quarto dia avisto pela vigia do camarote a Fortaleza de Gibraltar, encimada por baterias de grosso calibre. No sopé do rochedo, abrigado do mar, um povoado. O navio lentamente contorna o penhasco e entra na baía. À tarde atracamos e logo começará a faina de carregar carvão que se estende por toda a noite. Dois lanchões nos fornecem água. Na tarde de 17, deixando a baía, cruzamos o estreito. A rocha-fortaleza vai ficando para trás mas não perde sua grandiosidade. Aproamos ao Atlântico. Atrasamos a primeira hora do relógio de bordo. Depois mais outra. Em breve veremos o pôr-do-sol às 6 horas da tarde e não mais às 10 da noite. Como é longo o caminho de casa. Céu e mar. Há cinco dias é esse o único panorama que se descortina de bordo. Dacar aparece do dia 22 e em pouco estamos defronte ao Cabo Verde, assinalado por um farol e guardado por velhos canhões. Passamos pela ilha de Madaleine e aguardamos o prático na entrada do porto. No cais a população negra, de dentes muito alvos, vestindo camisolões brancos, mistura-se com os guardas em uniforme cáqui de calças curtas e perneiras, sapatos amarelos e capacete de cortiça. É impressionante a verdadeira praga de moscas. À noite o cônsul brasileiro leva-nos em rápido giro pela cidade e no Café Paris nos oferece cerveja sem álcool, à moda da terra. O calor intenso só nos abandonou quando, na manhã seguinte, aproamos para o alto mar. Estamos no terceiro dia da grande travessia. O navio tem jogado um pouco porém, com quatorze dias de viagem todos nós somos marinheiros. O sol anda meio escondido e, ocasionalmente, chove. Hoje levamos um grande susto durante o exercício de abandono do navio quando se manifestou um incêndio no porão 3, da ré. O combate às chamas durou cerca de três horas, nada agradáveis para quem está a 500 milhas do porto mais próximo e sabe que as baleeiras só comportam um terço do pessoal embarcado. Para compensar a emoção do dia, uma outra nos estava reservada: à noite, surgiu nos céus o "Cruzeiro do Sul" que para nós, na Itália, pintado em todo nosso material, trazia permanentemente a lembrança da Pátria. Pois ali está o Cruzeiro, com suas cinco estrelas, apontando para o sul como sinal de boas vindas do Brasil aos seus filhos. No dia 26 Netuno e sua corte subiram a bordo. Em sua proclamação o Monarca reclamava de alguns soldados o uso de tamancos que dizia ser privativo dos lusitanos; pedia que não jogássemos resto de comida no mar, pois seus tubarões precisavam viver; explicava que as sereias andavam escassas porque antes de nós passara outro navio cheio de soldados brasileiros; terminava dizendo que os soldados deviam ter baixa 48 horas após a chegada ao Rio de Janeiro; desculpava-se por não mostrar-nos a linha do Equador, pois, em virtude da guerra, havia mandado camuflá-la. Ao anoitecer do dia 28 avistam-se as luzes de Olinda e Recife. O prático conduz cautelosamente o "Pedro I" através da barra e o leva ao Armazém 11. O Cais e a praça central do porto estão apinhados de gente. Ouvem-se os acordes de uma Banda, em terra. A multidão prorrompe em aplausos e palmas prolongadas. Em forma, no navio, cantamos o Hino Nacional e, em continência, agradecemos e saudamos o povo. Sobem os homens de imprensa e querem declarações e entrevistas. Escrevi algumas palavras de saudação ao povo pernambucano na pessoa de meus comandados no C.P.O.R. do Recife. Atracado o navio chegam as autoridades. Estou numa roda viva. Ordens, providências, estabelecimento de horários, etc. Sou abraçado por muitos ex-alunos que me felicitam entusiasmados. Vencido o protocolo da recepção oficial, atendemos ao convite do Clube Internacional e para lá nos dirigimos. Ao entrarmos no salão uma salva de palmas estrugiu, e só cessou depois de estarmos sentados. Na festa os conhecidos, os abraços, as felicitações dos amigos. No dia seguinte à tarde consegui, debaixo de forte emoção, falar com Yolanda, ao telefone, no Rio de Janeiro. As saudades cresceram. Contei-lhe a recepção no Recife onde, durante a guerra moramos (dois anos) na "Pensão Suíça", então, totalmente ocupada por oficiais brasileiros. Ao cair da tarde iniciamos nosso desfile. Partindo do cais, seguindo pelas ruas Nova e Imperatriz, entramos na do Hospício e chegamos ao Parque 13 de maio, sempre debaixo de aplausos entusiásticos e vibrantes do povo. Aguardamos a chegada do Fogo Simbólico da Pátria que, vindo de Monte Castelo, passava naquele dia pela Capital pernambucana, a caminho de Natal. Parte emocionante foi o hasteamento da Bandeira Nacional iluminada pelos refletores. Naquela noite fomos homenageados no Clube Português e no dia seguinte apresentamos as despedidas oficiais. Ao Rio de Janeiro chegamos discretamente e logo passamos de bordo para uma composição ferroviária que nos levou ao Realengo, onde estivemos o dia inteiro providenciando o licenciamento dos "pracinhas" todos ansiosos por encontrarem seus familiares e amigos. Tive o prazer de abraçar meu irmão Manoel que foi ao meu encontro na sala onde me instalara, na antiga Escola Militar. Já ao entardecer fomos para Botafogo. Yolanda esperava- me no mesmo apartamento em que a deixara, no "Edifício Barão de Lucena". Enquanto estive na Europa, ficou em Fortaleza, sempre em contato com minha mãe e irmãs. Porém, quando soube do meu embarque voltou ao Rio. A alegria do encontro com a moça bonita foi muito grande e emocionante. Ela que vira a entrada no navio na Baía de Guanabara estivera o dia todo à minha espera. Da mesma janela conseguiu identificar o jipe em que eu vinha com o Manoel e desceu a tempo de encontrar-me no hall do edifício e receber o beijo afetuoso que punha fim àquela separação. Subimos para o jantar preparado com tanto carinho onde nem um bolo, decorado com motivos da FEB, faltou à sobremesa.

"Rasgando Papéis - Reminiscências"
Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira


As cidades se enfeitaram, a multidão correu as ruas... O Chefe da Nação ao extinguir a FEB lançou 
ao desamparo milhares de homens sofridos que lutaram pela Liberdade e pela Democracia.
Imagem do site www.exercito.gov.br

Tudo o que o Brasil conseguiu tem sido à custa de imensos sacrifícios. Alguns deles com o sangue de seus filhos, como o avanço da FEB das margens do rio Arno ao vale do rio Pó, galgando entre os dois os Apeninos, que nem as legiões romanas suportavam durante o inverno. Quem quiser comprovar isso que leia as Catilinárias de Cícero. A volta da Itália foi um choque. Tínhamos estado em uma guerra com o apoio logístico do Exército americano. As noções avançadas de higiene individual e coletiva, a variedade na alimentação, o atendimento médico, hospitalar e dentário eficientes, os uniformes de boa qualidade e de resistência comprovada, o pagamento em dólares, o prestígio dos jovens combatentes com as formosas e ardentes italianas (a maioria dos peninsulares em idade viril estava prisioneira ou combatia longe de seus lares), o clima diverso e agressivo, mas atraente pela novidade e suportável pela juventude, o armamento moderno e a munição farta, deram aos febianos uma mentalidade que não se harmonizava com o ambiente que deixaram na partida e encontraram no regresso. Urgia uma readaptação penosa porque feita para pior. Além disso, a política partidária, vergonhosa como sempre, a tudo atingia e corrompia.

"O Ceará na Segunda Grande Guerra"
Stênio Azevedo e Geraldo Nobre


Soldados da FEB a bordo do navio Pedro I que partiu de Nápoles no dia 12/07/1945 e chegou ao Rio em 03/08/1945.
Foto escaneada do livro "Cinqüenta Anos Depois da Volta" - Octávio Costa

A mocinha loira, que mora num bangalô no Silvestre, está sentada diante da penteadeira. Cedo ainda - pensa - ainda não devem ter desembarcado. Está pálida e um tanto trêmula. O que dizer ao Armando? Coitado! Como explicar-lhe as circunstâncias todas? Foi uma estupidez ela não ter dado nenhuma explicação ao namorado, depois que se comprometeu com outro. O que fazer? Como explicar todo o emaranhado de situações e sentimentos? Como resumir em poucos segundos o sentido ou a falta de sentido de uma vida? O telefone toca. Corre aflita para o aparelho. "É você, Armando? Escuta... me desculpe... eu não fui à cidade esperar vocês porque não adiantava... com todo aquele povo... depois, sabe?... mamãe tem estado doente... é  que... você compreende..." A voz do outro lado da linha é tão estranha! "Escuta, beleza, não tem importância. Está me ouvindo? Não tem importância: é isto mesmo. Vá tudo à merda. Agora, nada não tem importância." O cabo gorducho, que encostara o fuzil no balcão do bar, sorria e chorava desesperadamente ao telefone, continuando a repetir que as coisas todas não tinham nenhuma importância.

"Guerra em Surdina"
Bóris Schnaiderman


Os pracinhas posam para foto, no Rio de Janeiro, na chegada da Itália.
Foto escaneada do livro "Cinqüenta Anos Depois da Volta" - Octávio Costa

 

Recomeço a rotina entre o quartel e a residência, pois temos que licenciar toda a tropa imediatamente após a chegada ao Rio. Aparentemente uma boa medida, escondia no fundo, um golpe político. Era evidente que se aproximava o dia em que Getúlio Vargas ver-se-ia obrigado, pelas circunstâncias, a entregar o poder. O militar mais forte e de maior prestígio era o general que estava regressando da Guerra com seus 25 000 homens. Impunha-se afastá-lo do cenário, retirando a força sob seu comando.

"Rasgando Papéis - Reminiscências"
Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira


Soldados americanos marcharam juntos com os brasileiros no desfile de regresso da FEB,
em julho de 1945, no Rio de Janeiro. Nossos pracinhas desfilavam ufanos, sem desconfiar
do destino de sua maioria:  abandono, esquecimento, desemprego, solidão, miséria.
Imagem do site www.exercito.gov.br

Não tinha ambições o Gen. Mascarenhas e, quem sabe, mesmo se apercebendo do que lhe preparavam os politizados Generais da Retaguarda, não esboçou qualquer reação e deixou que sua tropa fosse pulverizada. Achava que seu compromisso era com a FEB cujos feitos tinham que ser preservados, cujos mortos teriam que ser trazidos de volta ao Brasil e, os que voltaram, amparados. Escreve 'A FEB pelo seu Comandante', batalha por uma legislação que ampare o ex-combatente e se empenha no repatriamento dos corpos daqueles que tombaram na Itália, começando pela construção de um Monumento que dignificasse sua memória e servisse para abrigar seus restos mortais. A seu pedido, Getúlio Vargas nomeia, em 1952, a Comissão de Repatriamento dos Mortos do Cemitério de Pistóia. Oito anos depois, pronto o Monumento Nacional, no Governo Juscelino Kubitscheck, um destacamento das Três Forças Armadas e as slavas dos navios de guerra e das fortalezas, prestavam as últimas homenagens aos nossos heróis cujas urnas funerárias desfilavam acompanhadas pelas autoridades e pelo povo contrito. Incompreendido e invejado, Mascarenhas de Moraes desde 1946 despedira-se do Exército. Cinco anos decorridos a Câmara dos Deputados e o Senado, reunidos em Sessão Solene, investiram-no no posto de Marechal de Exército e lhe fizeram entrega das insígnias 'sob os aplausos do Brasil inteiro' e o reverteram ao serviço ativo, até sua morte.

"Rasgando Papéis - Reminiscências"
Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira


Desfile da Volta
Arquivo Cinthya Teixeira

Havia muita confusão no quartel. Os oficiais deixaram os praças formados no alojamento, enquanto discutiam. "Os homens saem de cinto de guarnição e capacete de cortiça". "Não pode ser. O gorro sem pala é mais apropriado". "O coronel não deixou ordem nenhuma. Cada um que saia como quiser". Depois de muita discussão, seguiu-se este alvitre. João Afonso saiu correndo, com um grande suspiro de alívio, sem se despedir sequer dos companheiros. Estava sem tostão, pois a tropa não recebera ainda os cruzeiros correspondentes às economias em liras e ao soldo de campanha. Mas, qual é o cobrador que vai exigir dinheiro de um herói que volta à pátria? João Afonso subiu no primeiro ônibus que viu passar e, depois, tomou um táxi. Chegou em casa às dez da noite. Tocou a campainha. Viu a porta se abrir e caiu nos braços de sua gente. Foi coberto de beijos e crivado de perguntas: Você não está ferido? Nunca ficou doente? Está muito cansado? Não está com fome? Mas João Afonso, que todos acham mais moreno, um tanto gordo, com um ar algo diferente e uma expressão meio dura no olhar apesar da alegria da chegada, interrompe a catadupa de perguntas, para lembrar que o táxi está esperando à porta do edifício, e que ele precisa de vinte cruzeiros para pagar a corrida. Como foi bom voltar ao seu quarto, com a estante de livros (Meu Deus! Será possível que já li tudo isso?), o retrato de papai e mamãe quando noivos (papai com um bigodinho de d. Juan, mamãe com um ar ingênuo e um sorriso quase assustado), e a sua cama tão macia, tão gostosa, um sonho de cama. Mas, ao mesmo tempo, como é difícil voltar a essa vida! Quase não conseguia alimentar-se, pois a boa comida de casa, tão ansiosamente esperada, parecia temperada em excesso, para o seu paladar viciado com a bóia insossa da campanha. De noite, revirava-se sobre o colchão macio, ah, macio demais para os seus ossos, habituados ao chão duro e frio das casas italianas. E às vezes tinha sobressaltos, com a impressão de que um companheiro viria acordá-lo para uma missão de tiro. Custou a sair o pagamento do soldo e muita gente ficou em situação difícil. Milhares de rapazes estavam sem tostão, em cidade estranha. Por orgulho, recusavam-se geralmente a participar das farras empreendidas pelos rapazes com família no Rio e que tinham a quem pedir empréstimo. Os praças do interior passavam os dias no quartel, estirados sobre as camas cheias de percevejos, o desalento a tomar conta da fisionomia. Vendo-os, era difícil acreditar que fossem soldados vitoriosos, de regresso à pátria. Para eles, a pátria era o lugarejo em que nasceram e não aquela cidade grande e agitada, em que se sentiam quase tão estranhos como em Roma ou Florença. Os mais afoitos tomaram o trem assim mesmo, sem medir conseqüências. "Vou fazer a tocha pra Ribeirão Preto, vou abraçar os velhos". Muitos viajavam em vagão de carga, misturados com a mercadoria. Outros ficavam pedindo condução nas estradas de rodagem, viajando "no dedo", como na Itália. A maioria, porém, deixava-se invadir de pessimismo e derrotismo. "Qual! Esta terra não melhora nunca, nem com uma guerra. Está tudo podre. Pois se nem são capazes de nos pagar o soldo e nos mandar de volta pra casa!" Os que tinham família no Rio não lhes faziam companhia por muito tempo. Mal entravam no quartel, tratavam de saber das últimas notícias, sobretudo as relacionadas com o próximo desligamento do exército. Pouco depois, porém, estavam novamente na rua. Apesar da hora matinal, encharcavam-se de cerveja no botequim da esquina, conversando alto, soltando gargalhadas. As vezes, o sargento Anésio aparecia no botequim e avisava timidamente um dos bebedores: "Você foi escalado para o Corpo da Guarda". "E eu com isso?" E a escala de serviço acabava quase sempre distribuída entre os rapazes do interior alojados no quartel. Chegou finalmente o dia tão esperado do desligamento do exército. "Vamos ser promovidos a paisanos" - diziam os praças, esfregando as mãos. Iniciou-se a cerimônia, a tropa reunida num terreno baldio. "A última caxiada" - resmungava-se. Apareceu o coronel e iniciou o discurso. Os soldados viram-no poucas vezes, depois que fora transferido para a unidade nos últimos dias da guerra. Todavia, o vulto baixo e gordo, o seu rosto de expressão singela, pareciam indicar um misto de bondade e relaxamento. Mas ali, diante da tropa formada, perdia a personalidade, para tornar-se uma criatura álgida e superior, uma entidade intocável. Em vez de desejar aos seus comandados boa sorte, com algumas frases amigas e simples, leu um aranzel cheio de citações literárias e digressões sobre Osório e Caxias. Os soldados permaneceram em formação, mas sem prestar atenção ao falatório. Os outros oficiais, os mesmos que partilharam a vida dura dos soldados, muitas vezes unidos a estes pelas vicissitudes e aflições, também estavam completamente transformados. Hieráticos, solenes, ouviam o discurso como se estivessem celebrando um ritual. A atmosfera seca e antipática da caserna tornava a desumanizar mesmo aqueles que, durante a guerra, tinham conseguido voltar à condição de criaturas simples e naturais. Terminado o discurso, procedeu-se à entrega das medalhas de campanha. Cada sargento com função de comando recebeu as medalhas que devia distribuir, tal como durante a guerra havia recebido as rações e os pacotinhos de papel higiênico. "Pagaram-nos a medalha" - diziam os praças, no mesmo tom com que se dizia meses atrás: "Hoje, vão pagar banana no rancho". Depois, cada um foi passando junto a uma mesinha onde recebeu o certificado de campanha e a quantia que lhe era devida. O sargento Anésio, muito atarefado, ia conferindo as listas do que se devia a cada praça. Embora ninguém acreditasse que todo aquele dinheiro fosse sair mesmo, a Viúva pagou até o último tostão, descontado apenas o preço dos objetos perdidos. Incríveis aqueles descontos! O sargento Anésio suava em bica, explicando aos praças uma estranha contabilidade. "Escuta, estão faltando aqui dois piquetes de barraca, a um cruzeiro cada. São dois cruzeiros a menos. Este cantil está completamente amassado, você compreende que não posso devolvê-lo deste jeito à Intendência. Com mais oito cruzeiros, o seu desconto sobe a dez. Falta ainda o gorro sem pala, no valor de vinte cruzeiros. Tenho que descontar do seu soldo apenas trinta cruzeiros. Você ainda é feliz. Imaginem quem deixou tudo na corrida do Onze!" Em todo caso, sempre se recebeu algum dinheiro. Somando-se o Fundo de Previdência, o soldo correspondente ao último mês e as economias em liras, depositadas na Itália antes do embarque, cada soldado tinha cerca de dez mil cruzeiros, os cabos e sargentos um pouco mais. Não dava para se arrumar na vida, mas bastava perfeitamente para encomendar dois ternos de casimira e cair na farra. E foi justamente o que fizeram os rapazes do interior, que haviam passado muitos dias trancados no quartel, enquanto os demais se divertiam. Angústias e privações, aflições sem conta, desapareciam num turbilhão feito de embriaguez alcoólica e satisfação sexual. Muitos esbanjavam aquele pecúlio com um açodamento que tinha algo de contrição religiosa. Era como se não quisessem conservar o dinheiro maldito, como que manchado de sangue. Occhio di Bove, mulato de olhos arregalados da Segunda Bateria, reuniu-se na mesma noite a alguns velhos companheiros de jogo. Foram todos para um quartinho abafado de subúrbio e abancaram-se em torno de uma mesinha. De manhã, ao saírem para tomar café, Occhio di Bove estava mais uma vez sem tostão. Bateu lentamente a cinza do cigarro, olhou para o céu e, o coração leve, o corpo encharcado de cachaça e cerveja (ah! bionda!), foi para casa dormir. É preciso voltar à lucidez cotidiana, João Afonso. O terno paisano assenta-lhe bem, dizem que você é agora um bom papo (quem pensaria?), os companheiros de antes da guerra, os colegas da Faculdade, as mocinhas conhecidas e outras que lhe foram apresentadas, todos procuram a sua companhia, mas você tem fases de casmurrice, fica isolado de todos. O que há com você? Esquisito voltar aos bancos da Faculdade, tomar notas na aula, ouvir as piadas de costume. O mais chato, porém, é ser o centro da atenção geral. Como foi? Como não foi? Ora, querem saber de uma coisa ? Passei a guerra toda enfurnado num canto, escondido embaixo de uma cama, o medo não me deixou ver nada, fiquei burro, e agora não sei contar o que aconteceu. Outro dia, num baile, a moreninha de olhar de vaca, rechonchuda e gostosa, perguntou-lhe durante a dança: "Você gostou?" "Ora, do quê?" "De tudo. Dizem que vocês viram tanta coisa interessante!" Interessante... É, eu queria era ver você passar cinco minutos em Silla, menina. Não adianta. Não é fácil incorporar-se ao mundo dos civis. As vezes, parece que estes sentem a vinda dos ex-soldados como a intromissão de um corpo estranho. "Diga-me uma coisa: vocês lutaram mesmo? Não foi só conversa de jornal? Ouvi dizer que as baixas de vocês foram todas por desastre de jipe". Conversa de repartição: "Dizem que vão efetivar todos os funcionários que estiveram na guerra. Que injustiça! Eu sou efetivo por concurso, tive de queimar pestana em cima dos livros, tenho os meus direitos adquiridos, e agora os outros vão chegar à mesma condição sem nenhum esforço. Pobre país!" Não, João Afonso, isto se passa na superfície, procure saber o que pensa o povo. Ora, o povo. Na guerra, eu dormi sobre o mesmo chão com os meus companheiros das mais diversas procedências. Mas agora, há novamente barreiras entre nós. Mantenho contato com Alípio, com Omar e com uns poucos mais. Os outros foram se afastando naturalmente. Então, não adiantou o mergulho de um ano e tanto no mar humano? As pequenas ocupações, a Faculdade, a vida em família, tudo parece cobrir-me novamente com uma crosta e isolar-me do resto. E eu não reajo. Parece que tem de ser assim mesmo. As minhas roupas de paisano, as gravatas coloridas que tive tanto tempo prazer de rever sobre o peito, o teatro que tornei a freqüentar (tão difícil acompanhar o enredo!), as pequenas que me telefonam e com quem tornei a sair, meu Deus, meu Deus, será possível que tudo se processe com tamanha rapidez? Há companheiros meus passando fome, sofrendo doença, completamente abandonados depois das caxiadas do regresso. E eu continuo afastado, isolado, arrastando sem nobreza a vida. Parece que Silla não existiu, nem existiu a camaradagem sem distinção, o amalgamento coletivo.

"Guerra em Surdina"
Bóris Schnaiderman


A Festa da Vitória
Foto do site
www.exercito.gov.br

O Homem Brasileiro

Conheci o nosso pracinha na velha São João Del Rei, onde ficava o aquartelamento de tempo de paz do meu Regimento, o Onze. Para integrá-lo, mobilizou-se gente do Doze e do 10º, que paravam em Belo Horizonte e Juiz de Fora. Lembro-me da chegada, à cidadezinha pacata, de um contingente de quase 2 000 homens vindos da capital mineira. A forma inesperada com que foram arrancados do conforto da cidade grande, de seus afazeres e responsabilidades, de sua vida; o desconforto da viagem; a precariedade do velho quartel e a incerteza do futuro, extravasavam pelos bares da pequena São João, em queixas, arruaças, tropelias, desatinos. Ao ver a indisciplina e a revolta dessa noite de chegada, tremi de pensar que aqueles seriam os nossos combatentes. Fui conhecê-los melhor, no extraordinário poder de adaptação às atividades de preparação para a guerra. Conheci-os em sua rusticidade e em sua paciência, conheci-lhes o entusiasmo, a inteligência e a sensibilidade. Em meados de março de 1944, o Onze estava pronto para seguir rumo ao Rio. Foi aí que ouvi, pela primeira vez, a expressão "a cobra vai fumar", que os soldados usavam para indicar a proximidade da partida, assemelhando o trem à cobra. Bem me lembro da saída de São João del Rei, em romaria à Igreja das Mercês, onde a soldadesca ouviu missa e fez promessa para voltar. A tropa deixou o quartel a pé, marchando pelo centro da cidade, sob flores atiradas dos balcões de velhos sobrados. Lembro as cenas de adeus na gare de bitola estreita que levava a Barbacena, e não há despedida mais triste que a do apito do trem. A permanência no Rio de Janeiro agravou a angústia da soldadesca, saudosa de sua Minas Gerais. Conheci nesse tempo os outros homens, os paulistas do 6º e os cariocas do Sampaio. O mesmo homem, a mesma simplicidade, a mesma mofa, a mesma zombaria; a paciência e a coragem, a tenacidade, o informalismo e a espontaneidade. Conheci o nosso homem de todos os regimentos, de todas as partes, na sua perfeita solidariedade racial. Vi depois aquele mesmo homem que se insurgira na noite da chegada a São João Del Rei transformar-se de todo, sublimar-se e vencer suas limitações. Vi-o no ventre de um transporte de guerra, que levava 6 000 homens empilhados, ajustar-se à férrea disciplina de bordo e superar, nos exercícios de salvamento, as marcas de tempo e perfeição de todas as tropas que o navio já conduzira. Vi-o chegar à Nápoles destruída e, debruçado no tombadilho, comover-se com a multidão faminta que, burlando a vigilância da polícia americana, vinha disputar, no cais, a socos e pontapés, uma ponta de cigarro. Conheci-o melhor nos duros exercícios de combate, que fazia como um jogo, que fazia com o gosto da competição, para mostrar ao estrangeiro o valor de nossa gente, que não queria fosse inferior a ninguém. Vi-o marchar, na madrugada e na lama, para a frente de combate. Vi-o adaptar-se a seu abrigo e à guerra. Conheci-o na defesa e no ataque, no heroísmo e no pânico, na euforia e no desalento - toquei-lhe a dimensão inteira do coração. Vi-o fazer, dos italianos que viviam na terra de ninguém, gente como a sua gente, sangue de seu sangue. Escutei-lhe, tantas vezes, no silêncio das noites da frente de combate, suplicar, em lamento fundo: "vem rolando, Brasil". Vi-o enfrentar a lama, o frio e a neve, vencendo, como ninguém, o flagelo do "pé-de-trincheira", que amputava tantas pernas do V Exército. Vi-o dar de presente o coturno ao italiano desprovido e ficar só com a galocha que, forrada de palha e de papel, deixava o pé mexer, ajudando a circulação do sangue. Vi-o nos ataques fracassados ao Monte Castelo, ansioso por voltar a atacar. Vi-o ensinar os alpinistas da 10ª de Montanha a fazer patrulha. Vi-o morrer tentando buscar o corpo do companheiro, que o brasileiro não aceita deixar no chão do combate seus feridos e seus mortos. Vi-o, como tigre, arremeter contra Castelnuovo, Soprassasso e Montese para, depois, conduzir os prisioneiros como crianças amigas, a quem tudo se dá. Vi-o nas horas felizes, depois das ações difíceis, contando lorotas e piadas. Vi-o somente se amargurar e sofrer de verdade pela carta que não veio. Bem me lembro desse homem simples e bom, na hora da avançada fácil, escanchado sobre o capô de um jipe, alegrar-se com a multidão das cidades libertadas, que saudavam os seus liberatori. E, terminada a guerra, na hora da ocupação, como que os vejo, os soldados de nossa Divisão, aqueles pracinhas humildes do interior, com os uniformes mais bizarros, a se espalharem pelo mapa todo da Europa libertada. E vi-os na difícil reintegração à vida de sempre, marcados, no fundo da alma, pelas cenas do combate e pelos enganos da glória vazia e fugaz. Para mim, nossa porção maior de vitória eu a conheci na confiança no homem brasileiro, que outro não há melhor, mais inteligente, mais rústico, mais sensível, mais humano, mais gente afinal. Aquela era a admirável gente do Brasil, que eu fui conhecer melhor na guerra. Gente de todas as terras, gente de todos os sangues, condições, matizes, dimensões. Gente de todos os destinos, desafios de caminhos. Gente diversificada. heterogênea, desigual, inquieta. Gente movimentada, aberta e colorida; altiva, musical, humana e viva. Gente transparente, traspassada de uma nova luz. Sangues misturados, sangues renovados, sangues ardentes - sangue que acende a substância de um homem melhor sobre a terra, um homem que estende a mão ao outro seu irmão; homem que chega para os milagres entre os estranhos da compreensão. A unicidade no múltiplo e diverso. O mesmo talento; o anseio, o improviso, o repente; o brilho, a chama; o bom, o alegre, o autêntico e o simples. O mesmo destemor a vencer angústia e provação. Sempre o generoso e o hospitaleiro, o desprendimento e a altivez. Sempre o olhar que enfrenta e consola, a mão que faz, que serve, que cuida e que perdoa. No imenso mar humano da gente brasileira,  sempre o amor à terra - bravo e vigilante; o amor universal - determinado e certo do destino aonde chegar. Sempre a constância, sempre a certeza da prevalência dos valores tão seus, fraternidade e paz, justiça e verdade, no mundo onde se afirme o estilo mais brasileiro de viver. Este foi o homem que eu conheci na guerra. O mesmo homem brasileiro que agora constrói um grande país - que não aspira a ser melhor nem mais poderoso - mas apenas a ser o país onde ninguém se sinta estrangeiro.

"Cinqüenta Anos Depois da Volta"
Octávio Costa




O navio transporte "Gen. Meigs" trazendo de retorno ao Brasil a primeira leva de pracinhas
"Nós Estivemos Lá" - José Dequech

 

Não adianta, João Afonso. Você está só, irremediavelmente só. De vez em quando, ainda se encontra com alguns companheiros de FEB, é bom emborcar copos e mais copos de cerveja, lembrando os episódios da campanha. Mas o simples fato de se tratar de um grupo tão pequeno, quase diria "seleto", frisa ainda mais o isolamento. Sim, estou só. Eu vi os homens do meu país passarem pela mais estranha das epopéias, e a minha compreensão do que vi continua presa à superfície do acontecido. Estes homens que não queriam ir para a guerra, que não acreditavam no que se dizia das atrocidades do nazismo, que se julgavam vendidos por dólares, lutaram sobre a neve contra um inimigo feroz e eficiente. Lutaram com obstinação, praticaram com a maior naturalidade atos de heroísmo, sem exaltação, sem qualquer entusiasmo, sem compreender por que e para que o faziam. E agora, ao regressar, dissolveram-se novamente na multidão anônima que eu vejo, por exemplo, na Estação D. Pedro II, descer de manhã às carreiras do trem de subúrbio, indo para o trabalho. Vi-os na hora da expansão e da confissão, e também na hora do carinho, quando reencontraram a família, a namorada. Mas agora não os distingo mais nesta multidão cinzenta que desce do trem. Outro dia, tive um exemplo flagrante da distância que tornou a separar-nos. O ditador fora deposto e, de manhã, quando saí à rua, vi tanques, caminhões com soldados, metralhadoras assestadas, canhões. Fiquei perambulando de propósito pela cidade. Os jornais exultavam, os meus colegas da Faculdade queriam soltar foguetes, mas eu vi os homens do povo sombrios, sem um gesto, sem uma palavra. Passavam pelos canhões, pelas metralhadoras, arredavam-se, mas tudo em silêncio. O que sabemos nós dos seus mitos e esperanças, da sua sabedoria coletiva e da sua ignorância em relação ao nosso mundo? Como é possível vivermos tão próximos e tão separados? Patrício, com quem convivi um ano e
pico, e que continuo a desconhecer, quem és afinal?

"Guerra em Surdina"
Bóris Schnaiderman

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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