FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

A Caminho do Desconhecido...


Embarque das tropas do 2° Escalão da FEB
Arquivo Diana Oliveira Maciel

Sentia-se, por toda a parte, a campanha do quinta-colunismo contra a preparação de nossa tropa e seu embarque para além-mar, com os comentários mais desagradáveis sobre as qualidades morais e físicas do soldado brasileiro, procurando levá-los ao ridículo e ao desânimo diante dos graves riscos que os aguardavam na travessia do Atlântico. Via-se, com desalento e tristeza, o arrefecimento dos preparativos de embarque, por parte das autoridades brasileiras, e, não fora a ação providencial do General Kroner, adido militar norte-americano, junto ao seu governo e ao nosso Ministro da Guerra, não teríamos conseguido atravessar o Atlântico com a oportunidade exigida pela marcha dos acontecimentos. O governo começava a recuar diante das suas responsabilidades para com os Aliados, pois a FEB, dias depois da partida do 1º Escalão de Embarque, ficou reduzida apenas a uma Divisão de Infantaria (1ª DIE) e mais alguns órgãos de Exército, como Depósito de Pessoal, Pagadoria Fixa, a Agência do Banco do Brasil, o Depósito de Intendência, o Correio Regulador, os Grupos Hospitalares e o Serviço de Justiça, em conseqüência da ordem de adiar-se sine die a organização das 2ª e 3ª Divisões de Infantaria, o que restringiu de muito a contribuição militar do Brasil. O êxito da operação de embarque para além-mar condicionava-se á rapidez com que homens e material se internassem nos transportes de guerra e à manutenção de relativo segredo. Não era possível obter-se completo sigilo sobre uma operação dessa natureza, mormente quando as tropas, tendo de servir-se da Estrada de Ferro Central do Brasil e utilizar-se do Cais do Porto do Rio de Janeiro, se expunham à normal curiosidade de populares. A primeira das condições supra-enumeradas revestia a feição de um assunto de instrução militar. Já concentrada a 1ª DIE, realizaram-se freqüentes exercícios de embarque e desembarque, focalizando-se a necessidade de grande rapidez e os cuidados tendentes a evitar as acidentes. Além dessas práticas, foram ministrados conselhos e exibidos filmes, tudo objetivando convencer aos expedicionários de que qualquer indiscrição poderia redundar na perda de milhares de companheiros e, como corolário, sacrificar o êxito da Expedição. Os resultados alcançados foram brilhantes. Relativamente à obtenção do segredo, muitos foram os recursos postos em ação. Graves e convincentes foram os motivos que impuseram a montagem de um eficiente sistema de escolta aos navios-transportes que conduziram os cinco escalões da FEB. Em razão da probabilidade de intervenção dos submersíveis contrários, destróieres brasileiros e belonaves americanas acompanhavam até o estreito de Gibraltar os navios que transportavam nossas tropas. A viagem no Mediterrâneo realizava-se com uma nova escolta de navios americanos e ingleses, contando com constante cobertura aérea. Blimpes e aviões, com bases no Brasil e África, asseguravam a cobertura desses transportes, desde os primeiros momentos da partida até o porto de destino. Completavam as medidas de segurança as bombas de profundidade dos destróieres, o próprio armamento dos transportes de guerra, o contínuo funcionamento do radar e os aviões existentes nos cruzadores americanos da escolta. Apesar de todos esses meios, eram diários os exercícios de alarma para abandono do navio e obrigatório o uso permanente de salva-vidas. As regras de segurança impunham também o escurecimento do navio, durante a noite. Com a efetivação de tal medida, todo pessoal embarcado era empilhado nos alojamentos, que se fechavam para impedir a filtração da mais fraca réstia de luz. Desagradáveis, insuportáveis quase, eram essas noites, quentes e infindáveis, vividas em compartimentos abafados e lotados até o teto. Além disso, a diferença de alimentação e a agitação do mar provocavam o enjôo em grande número de companheiros, o que tornava insuportável a vida nos alojamentos. Os freqüentes exercícios de artilharia de bordo contra alvos aéreos interessavam muito à tropa embarcada e constituíam um agradável passatempo. Para aliviar as naturais preocupações da viagem e o cerceamento da liberdade, decorrente das medidas de segurança e escurecimento do navio, os comandos dos transportes faziam exibir alguns filmes cinematográficos e executar programas variados de divertimentos, geralmente a cargo dos capelães de bordo. Além disso, a tripulação dos transportes, desde o marujo ao comandante, esmerava-se em gentilezas de toda ordem, tudo envidando para dissipar o turbilhão de saudades e apreensões. A FEB se desdobrou em cinco Escalões de Embarque no valor aproximado de 5.000 homens, cada um, perfazendo um total de cerca de 25.000 homens; os três primeiros constituíam a 1ª DIE e os dois últimos formavam o Depósito de Pessoal, órgão da FEB, destinado ao recompletamento dos claros. Os cinco Escalões de Embarque se deslocaram para a Itália nas condições abaixo: 

1º Escalão de embarque: A 2 de julho de 1944, pelo "General Mann", sob o comando do General Zenóbio da Costa, tendo chegado a Nápoles em 16 de julho. Acompanhou este Escalão o General Mascarenhas de Moraes. Composição: Escalão Avançado dos Quartel General da 1ª DIE; Estado Maior da ID da 1ª DIE; o 6º RI; a 4ª Cia. e 1º Pel. de Mrt. do 11º RI; o II/1º ROAuR; 1ª Cia. do 9º BE; 1/3 das Sec. Supr. e de Man. do 9º BE; 1º Pel. do Esquadrão de Reconhecimento; a Sec. Explr. e elementos da Sec. Cmdo. da 1ª Cia. de Transmissões; a 1ª Cia. de Evacuação, o Pel. Tratamento e elementos da Sec. Cmdo., todos do 1º Batalhão de Saúde; a Cia. de Manutenção; o Pelotão de Polícia Militar; um pelotão de viaturas, uma Sec. do Pel. de Serv. e elementos da Séc. de Cmdo. da 1ª Cia. de Intendência; e elementos da FEB anexos à 1ª DIE; o Correio Regulador, o Depósito de Intendência, a Pagadoria Fixa, correspondentes de guerra, elementos do Hospital Primário, Serviço de Justiça e Banco do Brasil. Efetivo: - 5.075 homens, inclusive 304 oficiais.

2º Escalão de Embarque: A 22 de setembro de 1944, pelo "General Meigs", sob o comando do General Oswaldo Cordeiro de Farias, chegando a Nápoles em data de 6 de outubro. Composição: AD/1ª DIE (Estado-Maior e Bia. de Comando); o 1º RI; I/2º ROAuR; 9º BE (elementos do Dest. Cmdo., Cia. de Serviço e 2ª Cia.); grosso do I° Esquadrão de Reconhecimento; 1ª Cia de Transmissões (Sec. Extra., uma Sec. Explr. e Sec. Constr.); 1º Batalhão de Saúde (elementos do Dest. Cmdo., 1ª Cia. de Evacuação e elementos da Cia. de Tratamento); elementos da Cia. de Intendência; elementos de Depósito de Intendência; elementos dos Serviços Postal e Justiça; Cia. do Quartel-General da 1ª DIE; grosso do QG da 1ª DIE; 2º Grupo Suplementar Brasileiro em Hospitais americanos; 3º Grupo Suplementar Brasileiro em Hospitais Americanos; correspondentes de guerra e elementos do Banco do Brasil. Efetivo: - 5.075 homens, inclusive 368 oficiais.

3º Escalão de Embarque: A 22 de setembro de 1944, pelo "General Meigs", sob o comando do General Olimpio Falconiere da Cunha, chegando a Nápoles em 6 de outubro. Composição: 11 RI.; I/1º ROAuR; I/1º RAPC; 9º BE (Comando e Cia. de Serviço, Dest. Saúde e 3ª Cia.); Esq. de Ligação e Observação; 1º Batalhão de Saúde (Dest. Cmdo., Pel. de Tratamento e 3ª Cia. Evac.); elementos da 1ª Cia. de Intendência; QG da 1ª DIE e Cia. do QG; Depósito de Intendência; Banda de Música; 1º Grupo Suplementar Brasileiro em Hospitais Americanos; e Pelotão de Sepultamento. Efetivo: - 5.239 homens, inclusive 318 oficiais. Os efetivos transportados nos 2º e 3º Escalões de Embarque montaram a 10.375 homens.

4º Escalão de Embarque: A 23 de novembro de 1944, pelo "General Meigs", sob o comando do coronel Mario Travassos, chegando a Nápoles a 7 de dezembro. Conduziu o 1º Escalão do Depósito de Pessoal da FEB; Efetivo: - 4.691 homens, inclusive 285 oficiais.

5º Escalão de Embarque: A 8 de fevereiro de 1945, pelo "General Meigs, sob o comando do Tenente-Coronel Ibá Jobim Meireles, tendo chegado a Nápoles a 22 do mesmo mês. Conduziu o 2º Escalão do Depósito de Pessoal da FEB. Efetivo: - 5.082 homens, inclusive 247 oficiais.

Para os elementos avulsos, médicos e enfermeiras em particular, destinados às turmas brasileiras que iriam funcionar nos Hospitais Americanos, os transportes se fizeram por via aérea (Rio-Natal-Dakar- Nápoles) Efetivo: - Transportado por via aérea 111, inclusive 67 enfermeiras.

Dessa maneira, aportou ao Continente europeu, em escalões sucessivos, primeira força latino-americana destinada a combater em terras de ultramar. Esta "performance" constituiu justo galardão aos esforços dispendidos e enfrentados na travessia oceânica.

Marechal Mascarenhas de Moraes
"A FEB pelo seu Comandante"


General Oswaldo Cordeiro de Farias
Arquivo Diana Oliveira Maciel

 

Exatamente às 12.45 horas do dia 22, atravessamos a barra, rumo ao mar alto, em busca de um destino para todos desconhecido e que para alguns seria bem amargo. Alguns milhares de homens, que navegavam para uma terra estranha, onde iriam combater contra um povo também estranho. Ao sentir desaparecer a faixa de terra brasileira, fiquei olhando para o mar; meu pensamento voou até minha casa - vi mamãe, papai, minha irmã, meu lar, meus amigos. Quando voltaria para tudo isso? Sob meus pés sentia o pulsar dos motores que levavam o navio para bem longe, para a guerra, para o desconhecido, vendo esconder-se no horizonte o monumento do Cristo Redentor.

Joaquim Xavier da Silveira
"Cruzes Brancas - Diário de um Pracinha"



Vapor "General Meigs"
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

 

O Primeiro Dia

Escrevo esta minha primeira reportagem após 22 horas a bordo do transporte que nos desembarcará dentro de 16 dias em Nápoles. A mim e a cerca de seis mil soldados brasileiros que comigo seguem para a guerra. É um mundo estranho e misterioso que possivelmente levará muito tempo para ser revelado. Ando pelos porões do imenso navio, perco-me em seus corredores que parecem não ter fim, e cada porta de ferro se abre para uma nova surpresa. Os avisos e os alto-falantes que se multiplicam por todos os compartimentos são guias orais e explícitos do que se deve e não se deve fazer. Estamos em guerra, somos uma multidão que segue para a guerra, e muita coisa não se deve fazer: não se deve, por exemplo, atirar qualquer coisa ao mar. Sou apenas um recruta, bisonho e desprevenido como todo recruta, um pobre e indefeso civil em poucas semanas transformado em soldado da ativa, e me emaranho e me confundo num mundo que nunca foi o meu. Os pracinhas, no convés nus ou nos corredores lá embaixo, olham sem compreender para o meu distintivo (um C graúdo pregado numa farda de oficial), não sabem se devem ou não me prestar continência. Respondo, encabulado, à saudação de alguns poucos, mas o Tenente Justino Vieira, companheiro de camarote (durmo no beliche de cima, ele no do meio e no de baixo o Tenente Plínio Pitaluga), já me garantiu que tenho credenciais de oficial. Sou agora um "capitão"; dentro de mais duas semanas serei "capitano". A verdade, porém, é que cometo gafes que matariam de vergonha qualquer oficial de verdade. Já falei com um "major" que era um coronel e ontem misturei a calça de um uniforme com a túnica de outro. Mas esta gente que viaja comigo é simpática e compreensiva, e só posso ficar comovido com a maneira gentil, quase paternal, às vezes divertida, com que soldados veteranos e oficiais tratam o recruta que uma remota "linha de tiro" , não conseguiu militarizar. O Tenente Antônio Caldeira Vitral, oficial de ligação, me leva até o gabinete de comando, num dos compartimentos superiores, e me enche de dados sobre o que sou agora. Vejo-me de repente transformado numa série de números. Sou agora o CG (a partir de Roma, esse CG - Correspondente de Guerra - se transformará em "War Correspondent"), instalado no camarote coletivo número 107, beliche 146. Em caso de perigo já sei o que tenho a fazer: não perder a calma, ajeitar o salva-vidas e, se houve tempo, correr para o lifeboat 9, a bombordo. Seriam meus companheiros no barco salva-vidas o Capitão Ítalo, o Capitão Mário, o Capitão Darcy, o Tenente Justino, o Tenente Puente, o Tenente Waldyr e os funcionários do Banco do Brasil Berenguer e Messeder, todos companheiros deste apinhado 107, onde bato estas linhas estirado no colchão duro, a máquina portátil equilibrada de qualquer maneira sobre as coxas .Também não devo esquecer, todas as sete da manhã, de aproveitar o máximo possível os variados pratos da primeira refeição do dia, já que a próxima, para o grupo de oficiais da primeira mesa (entre os quais fui incluído), acontecerá somente às cinco da tarde, apenas com variadas de chocolates e caramelos comprados por preço de banana nas cantinas de bordo. Manhã cedo, portanto, mergulhei decidido no que me ofereceram: ovos, bacon, grossas fatias de presunto e queijo, muito pão, laranjada, café e creme de leite, manteiga farta que contentaria perfeitamente, durante uma semana, qualquer dona de casa. Tudo de esplêndida qualidade - tudo americano. Há quase dois dias que estou a bordo, mas a verdade é que continuamos atracados, e o Rio, com suas luzes brilhando perto, o Cristo iluminado e as ilhas da Baía, continua muito vivo dentro de todos nós. Num canto do salão dos oficiais, um capitão me confessou que seria melhor que o General Meigs fosse logo embora: "Enquanto a gente, tem a certeza de estar perto de casa, e sem poder ver ou falar com os nossos, fica sempre com vontade de telefonar." Saber a hora e o dia em que o transporte deve se desgrudar do armazém isolado do resto do cais por uma reforçada guarda militar, e ganhar o mar alto, é problema crucial. Um marinheiro americano me garantiu num inglês quase mímico que seria ontem de madrugada, e hoje, logo cedo, um dos garçons me segredou na cozinha que "a coisa não ia passar do meio-dia". O Presidente Getúlio já nos visitou, na véspera, e num pequeno discurso deixou suas despedidas. Por coincidência eu estava no meu camarote, tentando transportar a confusa bagagem de campanha (mais de 50 quilos, divididos em dois sacos, o A e o B) do passadiço do navio para o 107, correndo como um maluco navio adentro, subindo e descendo escadas, me perdendo aqui e ali, até chegar ao meu destino - por coincidência, dizia, acabava de chegar ao meu camarote quando ele, Getúlio, entrou ali com sua comitiva. Sorriu para todos, mais ou menos perfilados, disse qualquer coisa a um major, despediu-se com um aceno. Lembro-me de que a primeira camaradagem que fiz a bordo foi com um tenente vindo da Bahia e que, mal o Presidente deixou o camarote, me apresentou um apressado croqui que fez dele, Getúlio. Perguntou se devia ou não mostrar o desenho ao desenhado. Sugiro que faça a pergunta a um oficial mais graduado - a um oficial de verdade, e ele corre pelo corredor, um tanto aflito. Não quer perder o homem. As horas vão passando -melhor, escorrendo - e já agora posso fazer uma lista de amigos novos: o Tenente Nestor Lício é um deles, oficial-dentista e que também, diz, já trabalhou em jornal. Falamos de A Manhã, de Mário Rodrigues, de A Pátria, jornais onde ele trabalhou, e ele me pede que na minha primeira correspondência para os Diários Associados mande abraços para Osório Borba e Bezerra de Freitas, seus amigos. Estão mandados. Outro bom companheiro, além do Tenente Plínio Pitaluga, que já conhecia antes de virar "soldado", é o Tenente Milton da Rocha Alencar, a quem conto, em primeira mão, uma complicada história de troca de bagagem. Acontece que recebi da Intendência do Exército, como todo oficial expedicionário, um saco A, um saco B e - ia esquecendo deste, o mais pesado de todos - um saco C. Mas não recebi conjuntamente uma espécie de rol que acompanha a entrega da bagagem e no qual vem muito bem explicado o que deve ser arrumado nos três sacos. O resultado é que guardei cuidadosamente nos sacos B e C, que vão para o porão e que só me serão devolvidos na Itália, tudo de que necessita uma criatura normal, mesmo um recruta, para as suas precisões diárias: aparelho de barbear, sabão, toalha, pasta para dentes e respectiva escova, coisas assim. O Tenente Milton ouve atentamente a minha história, narrada num tom profundamente melancólico, e solta uma gargalhada. E de repente a história já é conhecida de todos ali no camarote - o que não deixou de ser uma solução: requisito de alguns companheiros um pouco de tudo o que me falta, o que me deixa tranqüilo. Hoje pela manhã me surgiu pela frente a primeira exigência militar. O Capitão Ítalo, comandante do compartimento, nos reuniu a todos e nos avisou que iria distribuir as tarefas referentes à faxina. Isto significa que cada oficial do 107, inclusive o correspondente e os funcionários do Banco do Brasil, terá o seu dia de muito trabalho: varrer o camarote, limpar as pias, forrar as camas, arrumar as bagagens etc. A escalação é feita conforme a idade, cabendo aos mais moços as tarefas do primeiro dia. Sou o terceiro da lista, o que significa dizer que amanhã vou ter um dia cheio. O Tenente Mendonça me felicita pela sorte, pois que, segundo ele, dentro de poucos dias, com o navio andando e a turma enjoando, a coisa vai ser muito pior. Como somos 18 no camarote, nutro sólidas esperanças de não repetir, até a chegada a Nápoles, o castigo que me espera amanhã. Bem, meu nome é Joel Silveira, jornalista de 26 anos, e estou indo para a guerra. Voltarei? Lembro-me das palavras de Assis Chateaubriand, meu patrão, quando dele me fui despedir, já devidamente fardado: "Seu Silveira, me faça um favor de ordem pessoal. Vá para a guerra, mas não morra. Repórter não é para morrer: é para mandar notícias." Prometi obedecer cegamente a suas ordens, e tenho de cumprir a promessa.

Texto de Joel Silveira
"A Luta dos Pracinhas" - Joel Silveira e Thassilo Mitke 
Editora Record -1983

 


Rumo à Itália, no 5º escalão da FEB, a bordo do General Meigs.
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
Joel Silveira e Thassilo Mitke

O Mundo é muito pequeno

No fim da tarde de ontem, ainda ancorados diante do armazém, um tenente da infantaria surgiu com uma vitrola. Sambas, rumbas, tangos (particularmente tangos) e valsas entraram pela noite a dentro, a última noite carioca. Mais tarde, pelas vinte horas, um regional de pracinhas ganhou um dos compartimentos de cima, e os cavaquinhos e cuícas, dezenas deles, abafaram por completo os lamentos de Libertad Lamarque. Adormeço precisamente quando um grupo de oficiais, no salão ao lado e defronte de um piano incansável, inicia um programa coral que possivelmente se estenderá por algumas horas, já que, excepcionalmente, não nos foi dito hoje quando devemos nos recolher ao compartimento e apagar as luzes. Perco inteiramente as esperanças de, às vinte e duas horas, aproveitar o salão vazio e bater na máquina estas minhas primeiras impressões. Escrevo, portanto, começo da manhã, depois que, com a largada do navio, deixo Copacabana, o Leblon e Ipanema perdidos na névoa grossa e cinzenta. O alto-falante onipresente nos avisa,que poderemos ganhar o convés, para o espetáculo da saída da baia. Lá vai ficando o Pão de Açúcar, lá está o Cristo, altíssimo e enrolado em nuvens-pardas, e jamais esquecerei a última visão do Rio que me ficou nos olhos: a linha certa das casas do Leblon e a pedra da Gávea. O capitão, ao meu lado, derrama os olhos cismarentos na cidade que vai se afundando e me pergunta, num tom de confidência:
- Quando é que vamos ver isto de novo, heim, velho? Um cruzador norte-americano nos segue a bombordo, e a estibordo vai o destróier brasileiro. Atrás vem caças-minas e sobre nós voam aviões Vultee, da FAB, e um Blimp gordo e prateado. Há também destróiers brasileiros que de vez em quando se somem, para surgirem depois, ligeiros como lanchas a motor. Com a saída d,o transporte, as ordens se multiplicam: ordens para os oficiais, ordens em inglês para a tripulação, ordens para os praças. Oficiais e praças devem se munir imediatamente dos seus salva-vidas, uma cobra estufada e caqui que teremos de trazer conosco, dia e noite, até o término da viagem. Os praças não devem ficar de tamanco no convés nem trazerem suas toalhas em volta do pescoço. E todos, oficiais, praças, até os comandantes, devem se preparar para o primeiro exercício de abandono do navio. Às 10 horas da manhã o aviso se espalha pelo transporte, e no nosso camarote, em dois tempos, ficamos perfilados atrás do capitão-comandante do compartimento. Levamos o que a regra militar manda que levemos: bornal com biscoito, cantil com água fresca, óculos escuros para o sol. Chegamos até osso bote, o n. 9, mas desta vez ainda não desceremos ao mar; trata-se apenas de um exercício para que conheçamos, de uma vez por todas, o caminho do barco, e nos habituemos a alcançá-lo sem confusão nem tumulto. Metade do dia, um "Catalina" passa raspando sobre nós, e podemos distinguir perfeitamente um dos pilotos que nos acena. Os pracinhas estão lá em baixo, e aqui no salão os oficiais, umas cem vozes confundidas numa só, afogam o piano com a "Cobra está fumando":

"Tira o saco
Bota o saco
Chegou a hora
da cobra fumar"

Descubro conhecidos a bordo: um oficial que foi meu companheiro de ginásio, em Sergipe, e um terceiro sargento, ex-colega do curso primário de D. Carlota, em Aracaju. "Isto significa que o mundo é muito pequeno", me diz o capitão, vizinho do beliche 146, e passa a me contar uma série de histórias semelhantes. Uma delas se refere a um companheiro de armas, que ele deixou cabo no Pará, em Santarém, e foi encontrar primeiro-tenente no sertão de Mato Grosso. Outro velho conhecido é o primeiro-tenente da Moto-Mecanização, que, há dois anos atrás, numa reportagem movimentada e dolorida, me estraçalhou o corpo dentro de um "jeep" e de um tank de 13 toneladas, lá para os lados da Vila Militar. Ele me bateu no ombro, no primeiro dia a bordo, e perguntou: "Como vão as dores ?" Indubitavelmente o mundo é muito pequeno.
Dois dias de navio e contacto permanente no salão dos oficiais, são o bastante para o incentivo e o extravasamento das confidências; começam a surgir as primeiras fotografias: meninos gorduchos e de olhos espantados ("Chama-se Luiz. Fez um ano no dia 28". "O nome dela é Clara. E' a mais mocinha"), meninas de vestido branco, flagrantes de piqueniques na Tijuca e veraneios em São Lourenço. Todos deixaram pessoas queridas atrás: esposas, mães e namoradas. Horas vagarosas e insípidas são estas que vão das 10, quando acordamos do segundo sono (o primeiro vai até às 6 horas, pois que às 7 tem início a primeira refeição até às 15, quando ainda faltam duas horas para o segundo e último rancho. Então o jeito é se enterrar de rijo no jogo dos pausinhos japoneses: o preto vale 35 pontos, o verde vale 10, o azul vale 5, o vermelho vale 4 e o amarelo vale 3. às 16 horas, porém, a monotonia é quebrada com um acontecimento muito importante: abre-se a cantina do navio, servida por um boy americano e onde é possível comprar uma boa caneta tinteiro por 15 cruzeiros, cigarro Lucky Strike a 1 cruzeiro o maço, papel e envelope por alguns centavos. Forma-se uma comprida fila diante do balcão pequeno e os oficiais saem carregados de pacotes de biscoito, uma porção de miudezas, sabonete, talco e um shampoo para cabelo, cujo perfume uniforme acaba por tomar conta do navio. Diante da caixa registradora do boy, é possível também trocar dinheiro brasileiro por americano, já que o troco é todo feito a base de dólares e centavos. E à base de dólares e centavos passam a ser, das 16 em diante, os cálculos e as conversas orçamentárias de bordo, entre oficiais, sargentos e praças. Uma novidade noturna: cinema a bordo, com um filme de John Carrol e Ana Neagle. O aspirante de Caçapava define uma das heroínas da película como magra e dentuça, mas o capitão de cavalaria previne: Daqui a 10 dias você vai achá-la uma gostosura. Quando me recolho ao 107, para o sono que irá até as 7, sou informado pelo comandante do compartimento que devo adiantar meu relógio em duas horas. "É horário de guerra". Isso quer dizer que amanhã, a primeira refeição será às 5 horas e que agora são 21 horas, como ensina meu relógio, mas precisamente 23 horas. Recolho-me aflito ao 146.

Texto de Joel Silveira
"A Luta dos Pracinhas" - Joel  Silveira e Thassilo Mitke 
Editora Record -1983



Cerimônia de batismo, realizada pelo "padre" na presença de Netuno, o Rei dos Mares.
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas" - Joel Silveira e Thassilo Mitke

Netuno no Transporte de Guerra

Qualquer correspondente de guerra, além da monotonia rotineira, encontrará aqui a bordo um problema de difícil solução: lugar para escrever. Impossível ficar no camarote onde 17 pessoas se acumulam e se permutam em jogos, discussões e recordações da vida profissional. O calor lá embaixo e a proibição de ficar no convés depois das nove horas, transforma as cadeiras acolchoadas do salão dos oficiais em lugares disputadíssimos. Ando com minha máquina de um lado para outro, vou até o convés de cima, onde é possível, enquanto existe sombra, escrever com a Underwood sobre as pernas, mas de repente a ventania torna impossível qualquer movimento. Aproveito uma trégua no 107 para bater ,estas linhas. Mas o calor me encharca, e pela primeira vez em minha vida sinto que o jornalismo pode se transformar num trabalho físico dos mais cansativos. À noite, quando me estiro na estreita cama do beliche 146, é impossível destilar e selecionar as centenas de conversas que escutei durante o dia: pracinhas me perguntam se é possível mandar notícias urgentes aos seus, e um deles me entrega, já pronto, um telegrama que deseja mandar à sua mãe, no interior de Minas; os oficiais me convidam para visitar seus alojamentos, e amanhã terei que enfrentar, na hora do almoço para o que estão de serviço, o incrível calor (38 ou 39 graus, à sombra) do refeitório dos praças - é um convite antigo que vou deixando passar, mas que não pode ser mais adiado. Há também que ficar atento às ordens e avisos dos amplificadores; que não sofrem um único intervalo das sete da manhã às 10 da noite. Hoje, novamente, no princípio da tarde, as "pom-pom" voltaram a gaguejar. O alvo desta vez foi lançado ao ar por um dos aviões do cruzador norte americano que nos acompanha, um pequeno aparelho cinzento, que foi lançado de sua catapulta. E, mais tarde, quando uma amostra de sono já me enrolava o corpo, os 105 recomeçaram a atirar. Havíamos passado há horas a ilha de Fernando Noronha, e o ribombar saudava agora a chegada a bordo do Imperador Netuno, que nos visitará amanhã, quando da passagem da linha do Equador. "Regionais", coros e instrumentalistas, além do cerimonial de praxe, se preparam para o clássico festejo. Fantasias, barcas e toucas brancas são distribuídas entre oficiais e praças, e à tarde houve um ensaio geral. Sou informado de que o coronel Arquiminio, veterano no cruzamento da linha equatorial, será o Netuno todo-poderoso de amanhã, e no começo da noite encontro-o no deck central a experimentar sua fantasia e suas barbas. Hoje, a ilha Fernando Noronha nos surgiu, apenas como uma mancha cinzento claro na linha do horizonte, e muitas lembranças me assaltam. Lembranças de amigos, de fatos, de coisas que parecem de ontem. Relembrar fatos e pessoas é coisas que podemos fazer aqui, durante horas, estirados no convés ou afundados numa poltrona do salão, ou mesmo estirados nos ardentes beliches. Armo-me também, do meu safa-onça, e escondido em qualquer canto do navio, começo a decorar frases e palavras em italiano que me permitam perguntar ou pedir coisas nos lugares para onde vou. O mormaço equatorial toma conta de todos nós: os marinheiros americanos se estendem, vermelhos e úmidos de suor, no tombadilho largo. O suor atravessa os uniforme dos pracinhas, e chega a empapar seus próprios salva-vidas azuis. E o meu amigo Major Henrique Oest, com seu fardamento alagado parece ter saído de um chuveiro. É uma das boas palestras de bordo, com sua coragem bem humorada e seus sólidos pontos de vista antifascistas. Para ele, essa viagem ao campo de luta representa muita coisa. Representa, particularmente, um desfecho digno e magnífico para uma existência de convicções democráticas. Ele me leva ao seu camarote, me enche de revistas técnicas, e passamos longas horas do dia a falar de assuntos e amigos comuns que ficaram no Brasil. E aqui podemos falar da guerra. Não é um assunto de todas as horas a bordo. Os pracinhas cantam emboladas, suam e dormem. Os oficiais fazem planos para o futuro, e recordam o que deixaram em suas casas e seus quartéis, como se estivessem se referindo a um passo muito distante. O Major Oest é um apaixonado da guerra antifascista. Todos os dias ele consulta seus mapas, ouve com atenção o minguado noticiário telegráfico que nos dão todas as tardes, protestando sempre quando o speaker militar esquece qualquer informação sobre o avanço das decisões soviéticas ou as manobras de Patton. Ontem à noite cruzamos a linha do Equador. Em qualquer transatlântico civil e luxuoso, o fato seria motivo para uma esplendente festa noturna, com champagne, casacas e senhoras bastante lindas, como a gente vê nos filmes. Nossas noites porém são noites de guerra, e dentro delas a escuridão representa uma arma tão potente quanto as "pom-pom", os aviões e os 105. As festividades de Netuno, portanto, foram todas adiadas para hoje, e pela manhã já houve um show para os oficiais no deck central, uma espécie de hora do calouro, com distribuição de prêmios, sabonetes e talco, seguida de um filme colorido de Betty Grabble e de um jornal cívico do DIP. Não preciso dizer que Miss Grabble com suas formas de torta de chocolate, deixou a melhor impressão entre todos, manifestada por silvos e gritos, como é possível presenciar nos cinemas de Cascadura. À  tarde, com o tempo ameaçando chuva grossa (uma nuvem cinzenta e pesada, na linha do horizonte, crescia de minuto a minuto) Netuno foi recebido a bordo. Um dos coronéis do navio desempenhou o papel de monarca, que apareceu no tombadilho da proa acompanhado de todo o seu séquito: a rainha, prepostos, executor-mor, padres, advogados e promotores. Quatorze homens, entre praças e oficiais, foram escolhidos para responderem a júri, por crimes praticados durante a viagem e entre os mesmos se encontrava esse correspondente. Acusavam-me de, com a bisbilhotice profissional, andar por lugares proibidos do navio, mexendo aqui e ali, abrindo portas interditadas por avisos categóricos e de ter sido apanhado por um PM, certa tarde na sala de máquinas. Sentença: corte de uma mecha de cabelo, tinta de escrever na testa, goma grossa nos cabelos, além de um banho de água fria sobre o uniforme de campanha. O Coronel Batista, um major, três capitães, tenentes, sargentos e praças foram outros acusados e justiçados. O Capitão Praxedes (ele me conta que é amigo do Isaias do Diário da Noite), sofreu algo que naturalmente lhe deixou com o moral meio abatido: rasparam-lhe o bigode, um bigode de quinze anos de existência, conforme ele declarou diante dos inquisidores. A certa hora porém, parece que Netuno, mas o Netuno propriamente dito, resolveu vir em pessoa à festa de bordo: o trovão ribombou no céu escuro, como o ronco dos 105, as águas se encresparam, a chuva caiu forte sobre réus e juízes, e o transporte pos-se a balançar como uma jangada cearense. Ouve uma debandada geral, e um coletivo escorregar nas chapas de ferro molhadas e besuntadas de goma. Volto para o meu camarote envolvido num cheiro acre, e dentro de minutos estou no banheiro dos oficiais, a lavar o grosso Zé Carioca (Zé Carioca é o nome que puseram no uniforme de campanha). No começo da noite, um navio foi avistado longe e o cruzador lançou-se rápido ao seu encontro. A ordem de combate espalhou-se por todos os navios, mas se trata apenas de um mercante grego, que descia do Norte. Ele desce e nós subimos. Um homem da tripulação norte-americana me garantiu hoje que não chegaremos a Gibraltar antes de quatro ou cinco dias. Olho o mar na distancia, mas o mar não tem fim: azul, verde ou escuro, ele segue sempre, sem principio nem fim.

Texto de Joel Silveira
"A Luta dos Pracinhas" - Joel Silveira e Thassilo Mitke 
Editora Record -1983



Generais Mascarenhas de Moraes e Zenóbio da Costa posam cercados dos oficiais da FAB e pracinhas.
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas" - Joel Silveira e Thassilo Mitke

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