FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA


A SAÚDE DA FEB

Os soldados do Serviço de Saúde estão entre os menos louvados. Para os expedicionários, eles nunca serão esquecidos. Eram soldados que combatiam sem armas, e que tinham a missão de resgatar, atender e transportar feridos para a segurança da retaguarda, muitas vezes sob fogo. Os padioleiros atendiam feridos brasileiros, americanos, ingleses, civis italianos e até mesmo soldados alemães.



Ferido chegando a um Posto de Socorro, de onde seria encaminhado,
após o primeiro tratamento, a um hospital da retaguarda.
Foto do livro "O Brasil na II Grande Guerra"
Ten. Cel. Manoel Thomaz Castello Branco

E DIZIAM QUE ELE ERA LOUCO...

Não há nada pior, creio eu, do que uma criatura forte, sadia e bem de vida, enlouquecer de repente. Foi justamente o que aconteceu. Certa noite, chegou ao hospital um médico do "Depósito de Pessoal" da FEB, que era muito meu amigo. A chegada de um médico ao hospital não deveria causar surpresa, porém o fato é que o meu amigo não veio de visita como fazia sempre, e sim para baixar enfermaria. Estava em grande excitação nervosa. Instalaram o doutor em um dos leitos vagos da enfermaria de oficiais, onde também se encontravam vários oficiais americanos. Para que melhor possam compreender este caso, devo dizer-lhes que o doutor era uma criatura muito calma, sempre calado e atencioso, pois só com esta explicação poderão compreender a sua estranha atitude e a transformação que nele se operou. Mas, vamos batizá-lo novamente, pois não devo citar-lhe o verdadeiro nome. Digamos pois que o nosso doutor se chamasse... se chamasse... José. Passemos pois ao caso. O Dr. José foi levado - como eu dizia - para a enfermaria dos oficiais e, lá, começou a distribuir belíssimos cartões de visita, a todos os pacientes. Como nenhum dos doentes tivesse cartões para retribuir ao gesto gentil do médico, este ficou furioso com a indelicadeza dos companheiros e tentou agredi- los. Este foi o motivo suficiente para provocar no doente uma crise de fúria, havendo necessidade de deixá-lo em cela separada. Foi, por este motivo, levado para a enfermaria brasileira, no meio da qual havia 3 cubículos com portas duplas de madeira reforçada, cuja finalidade era suster algum exaltado ou servir de prisão a algum renitente fujão. Na ocasião em que chegou o Dr. José, só um dos cubículos estava desocupado, e justamente o que servia, quando vago, de escritório para a enfermeira-chefe. Foi neste que ficou alojado o pobre médico. Logo na manhã seguinte, apresentou o paciente uma de suas manias. Escrever. Escrevia em tudo o que estivesse ao alcance do seu lápis: paredes, porta, rodapé, braços da cama, cadeiras etc., afora laudas e laudas de papel que lhe davam para que, escrevendo, permanecesse sossegado. Todos os dias, durante a minha ronda pela enfermaria, me detinha alguns minutos em palestra com ele. Com isto ficava muito contente, pois dizia sempre: "é para mim um prazer receber em meu apartamento (denominação que dava a cela onde se encontrava) a sua visita, minha cara amiga". Quando, por acaso, alguma ocupação maior não me permitia a costumeira palestra, ele se punha furioso e aos berros reclamava minha presença, só voltando a calma quando eu lá chegava. Um belo dia, o sargento encarregado de cuidar do paciente, veio aflito, chamar-me. Dr. José estava com um acesso furioso, sem deixar ninguém entrar no cubículo que estava em estado lastimável. Era a minha tarde de folga, de forma que estava pronta para empreender uma viagem até Florença onde pretendia fazer algumas compras. Este caso se passou no 7º Station Hospital em Livorno. Nós enfermeiras, durante o inverno, tínhamos o uniforme masculinizado, devido ao frio intensíssimo da região, de forma que usávamos calças compridas, mas para ir até Florença, apesar do frio, preferi trajar-me com a bem feminina saia. Era pois a primeira vez que entrava na enfermaria com o uniforme feminino, de saia. Em virtude do apelo do sargento para atender ao paciente, dirigi-me imediatamente para a enfermaria. Chegando à janelinha da cela do meu amigo, verifiquei que realmente, a desordem e a sujeira imperavam. Não era possível permitir que ele passasse a noite naquela imundície. Decidi entrar. "José, eu vou entrar aí para fazer uma limpeza no seu apartamento". Ele chegou-se para a janelinha, olhou-me de alto a baixo e gritou-me: "Não, você hoje não entra aqui". Insisti. Vendo que não ia conseguir o que pretendia, procurei aguçar-lhe a vaidade no sentido de induzi-lo a efetuar a limpeza do "apartamento". "Vocês, médicos, são uns cretinos. Todos têm a mania de dar ordens às enfermeiras e reclamar os nossos serviços, entretanto quando chega a hora de mostrar o que sabem dão com os burros n'água". "Eu não sou assim", protestou ele. "É sim! Sou capaz de apostar que nem uma cama sabe fazer". "Sei", bradou ele cheio de orgulho. "Pois se sabe, prove. De resto duvido muito". E foi assim que consegui que ele retirasse os lençóis e fizesse a cama e ajeitasse as fronhas. A primeira parte estava resolvida, mas a cela precisava ser varrida, e como conseguir isto? Ele não deixava ninguém entrar, nem mesmo eu, por quem tinha tanta consideração? Novamente empreguei o processo da descrença. A desmoralização da competência dos médicos era a minha arma contra ele (que me perdoem os discípulos de Hipócrates!). "Está bem, fazer cama você provou que sabe, mas há uma: coisa que duvi-dê-ó-dó. Duvido que você saiba pelo menos pegar em uma vassoura". Dr. José, furioso por eu estar pondo em dúvida os seus conhecimentos e a sua competência para serviços outros que não o de médico, gritou-me: "Dê-me uma vassoura que eu lhe mostro uma coisa" Em dois minutos o chão do "apartamento" estava bonito de limpo. Toda aquela papelada que estava antes espalhada e todos os detritos estavam amontoados em um canto perto da porta, enquanto que o doente sorria feliz. Mas...Como retirar de dentro da cela, aquele lixo? Não houve meios de convencê-lo. "Nem o sargento, nem ninguém entra aqui", dizia ele. O jeito era tentar eu mesma. "José, diga-me uma coisa, você é ou não é meu amigo?" "Sou". "Pois bem, eu vou entrar em seu apartamento e retirar essa lixaria toda daí". "Não, você hoje não me entra aqui de forma nenhuma, está ouvindo?" "Mas por que?", argumentei. "Eu lhe fiz algum mal? Você não gosta mais de mim?" A resposta que recebi às minhas perguntas, foi a mais desconcertante que jamais poderia receber. "Não, mas é que você hoje está muito bonita. Se entrar aqui eu lhe agarro e lhe dou um beijo e depois vão dizer por aí que eu estou maluco. Eu não estou, ouviu!" ...E diziam que ele era louco... Pois sim...  

"Nas Barbas do Tedesco"
Elza Cansanção Medeiros


Evacuação de feridos após a Conquista de Montese pela FEB
Foto escaneada do livro "A Verdade sobre a FEB"

Véspera de Natal, 24.12.1944. A paisagem amanheceu hoje toda branca; brancas as estradas; brancas as montanhas; os telhados das casas são verdadeiramente bolos de aniversários como se fossem decorados de coco ralado. As árvores transformaram-se todas, e cada uma em árvore de Natal. E que árvores de Natal! Soberbas, deixando as nossas que nós desgraciosamente ornamentamos, a longa distância. A neve vestiu a natureza de alva túnica, a preparar-se em festa para o dia máximo do cristianismo. Essa paisagem alcantilada do norte da Toscana, terra irregular e pedregosa na sua formação, regularizou os seus ângulos, amenizou a sua aspereza com esta cortina imaculada. É, no entanto, melancólico o espetáculo. Triste a sua magnificência e enche a nossa alma de nostalgia e de saudades. Pelo menos esta nevasca, por certo, impedirá os crimes de guerra neste santo dia. Cristãos são os povos que se digladiam; ambos os adversários rezam no mesmo rosário e vão às mesmas igrejas. Cremos que haverá respeito. Passamos o Natal, passamos o ano bom, passamos Reis sempre cercados de neve, andando em estradas de gelo branco como mármore e duro como aço. O frio tem sido enérgico, em volta de -15°C. Também gélido foi o entusiasmo pelas referidas festas. Não houve manifestação de alegria, apenas as cartas de famílias e aqueles célebres telegramas "enlatados" eram como um raio de sol frio branco do inverno rigoroso. Os habitantes da terra afirmam, que a estação hibernal deste ano tem sido pior. Esta foi a recepção para a tropa brasileira. Apelidam-se com propriedade de telegramas "enlatados" a esses despachos com um ou vários números no seu texto. Vamos então ao livro chave e lá encontramos frases numeradas como estas: "Vamos todos bem", "Beijos e abraços" etc. As palavras já estão nos nossos bolsos, apenas recebemos uma combinação de algarismos que comunicam o que devemos ler. São telegramas inexpressivos, falta-lhes o efeito psicológico de mensagem de uma e outra alma; falta-lhes o encanto do sabor afetivo; demasiado formais, são inexpressivos... As vezes também há atrapalhação. Um dos nossos colegas, solteiro, desfrutando, portanto, a tranqüilidade de sua situação social, recebeu um cabograma contendo certo número. Corre ao formulário e depara: "nasceu filho". Erraram, por certo, as combinações do código e o moço ficou sem saber como responder. A linha de frente, nesses dias, mal tem mantido a ação de patrulhas e artilharia, resultando que o nosso trabalho minorou muito. Mas como atendemos só os casos muito graves, estes nos ocupam horas a fio. Com poucos doentes, o nosso labutar é mais ou menos contínuo. No dia 4, no entanto, caiu uma granada 180 em plena praça pública de Porreta, onde se ajuntavam os soldados para a refeição. Ficaram feridos 22 homens e seis morreram no local. Retivemos no hospital apenas cinco feridos, os outros foram levados para Pistóia, eram removíveis. Para atendê-los três equipes cirúrgicas entraram em ação, sendo uma delas norte-americana. Permanecemos no trabalho durante 16 horas consecutivas nas salas de operações; ainda hoje os mesmos pacientes tomam nossa atenção e cuidados pós-operatórios, pois foram todos muito gravemente atingidos. A guerra apresenta ainda este aspecto repulsivo, alcança o militar mesmo fora de ação na serena iniciativa de procurar sua refeição. Não tem limites a extensão de sua excitação macabra. Sem menos esperar, põe-nos às mãos os infelizes para que não se interrompa a nossa tarefa de abrir e fechar ventres, tórax, amputar membros, costurar vísceras, ouvir gritos de dor, lamentos e queixas, e temos que manter o espírito alerta e confiante em dias melhores. A surpresa de uma granada perdida, de mina soterrada, da rajada de metralhadora de um avião de caça esporádico atira às nossas enfermarias homens reduzidos a frangalhos, quando não os faz morder a terra nos estertores da morte.

"Notas de um Expedicionário Médico"
Alípio Corrêa Netto




Enfermeiras da FAB Ocimara, Judith, Antonina, Isaura, Regina e Maria Diva com o Tenente
Dr. Luthero Vargas e demais oficiais de saúde, no momento do embarque para a Itália.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" - Elza Cansanção

NOSSO SERVIÇO DE SAÚDE

FOI ASSIM... que atuou o serviço de saúde, que era dividido em três grupos. A chefia do Serviço de Saúde da FEB coube ao Coronel Dr. Emanuel Marques Porto. O da divisão, sob o comando do Coronel Gilberto Peixoto e o das unidades (regimentos e grupos). O da FEB, entretanto, era o órgão de cúpula, tinha sob seu comando todos os demais serviços de saúde, tais como o serviço dentário de próteses, laboratoriais, o de neuropsiquiatria e as seções hospitalares. Parece incrível que o serviço dentário tivesse que fazer 17 261 extrações, 8 329 obturações, 20 110 curativos e mais 500 radiografias. Funcionou o nosso serviço de saúde em uma linha de atendimento hospitalar de quatro tipos de hospitais. O geral, localizado à retaguarda, no nosso caso, era o 45th em Nápoles. O de estacionamento, como o 7th Station Hospital em Livorno, o de evacuação como o 38th, o 16th, e ao final da guerra o 15th. Bem próximo à linha de frente, encontrava-se o 32nd Field Hospital, ou seja, o chamado Hospital de Campo. Eram 25 leitos utilizados para o atendimento dos casos de máxima urgência, como os polifraturados, ferimento de crânio, arrancamentos de membros, etc. Estava instalado em Valdibura, no sopé do Monte Castelo. Embora fosse uma unidade americana, o seu comando foi entregue ao eminente Professor Alípio Correa Neto, que contou com uma equipe de eficientes enfermeiras brasileiras composta por Carmem Babiano, Juracy França Xavier, Neuza Braga, Jacira de Souza Góis e Altamira Pereira Valadares. Também integrava o pessoal do hospital uma equipe de médicos e enfermeiras americanas. Quando a situação apertava, como por ocasião dos grandes ataques, para lá seguia como reforço a Tenente Maria Aparecida França. (...) O 1º Grupo de Caça da FAB também levou seu Corpo Médico. Ficaram instalados no 12th Station Hospital na cidade de Tirrena-Livorno, muito próximo da base aérea de Pisa e de nosso 7th Station Hospital. Integravam a equipe seis enfermeiras: Isaura Barbosa Lima (chefe), Regina Cerdeira Bordalo (que havia sido Miss Pará), Ocimara Ribeiro, Judith Areas (a primeira enfermeira a morrer no pós-guerra, em 1954), Maria Diva Campos e Antonina de Holanda Martins. Da excelente equipe médica fazia parte o Dr. Lutero Vargas, filho do Presidente da República, Getúlio Vargas.

E FOI ASSIM... que a Cobra fumou
Elza Cansanção


Socorrendo soldado ferido
Arquivo Diana de Oliveira Maciel

"É, a gente sente certas coisas. Que nem esse daí que foi ferido. Que ele gritava e chamava pai e mãe. E nós não podíamos ir no meio do fogo. Quando explodiam aquelas balas, elas faziam assim, aquelas arvorinhas elas cortavam, é como você passar uma serra, a mesma coisa. E ele chamava pai e mãe e a gente acalmava ele, calma, calma rapaz, você vai ficar bom, você vai ficar bom, e ele até mostrou a fotografia da filhinha dele pra mim, que a esposa tinha dado a luz e ela logo no dia seguinte que deu a luz, parece que ela, os parentes, mandaram a fotografia e ele me mostrou. Ele me perguntou se eu era casado. Eu falei não, eu sou noivo".

Mario Este, 1º R.I.


Hospital de Campanha
Arquivo Diana Oliveira Maciel

 Eu chegava para pegar o cara e ele dizia: - "Ai, meu Brasil, que eu nunca mais vou ver"
 ou o cara dizia: - "Ai, minha mãe", e puff! Morria!

Angelo Grinaldi, 1º R.I.


Enfermeiros da FEB
Arquivo Diana Oliveira Maciel

Chegou-nos, como nota animadora, a grata notícia da queda de Bolonha. As tropas aliadas, entre as quais a brasileira, avançam de modo rápido, derramando-se em torrente insopitável no vale do Pó, que se constitui na última etapa da resistência adversária neste setor. A tropa inimiga está sendo facilmente, parece-nos, envolvida nesta veloz ação da infantaria, deixando nas mãos dos nossos médicos numerosos prisioneiros de guerra alemães. Muitos estão feridos. Hoje recebemos 50 deles, dos quais operamos 11, em dia pleno de trabalho; os outros foram atendidos pelos nossos colegas americanos. Também nessa remessa de traumatizados deparamos manifestações mórbidas ainda não verificadas antes nos campos de batalha da Itália. Além de infecções supurativas graves, com formação de flegmões que invadiam as partes moles, deparamos com vários casos de gangrena gasosa. Esta afecção gravíssima não fora encontrada nos nossos feridos, talvez por causa do uso generoso da penicilina e da sulfa, aplicados já nos postos avançados. A gangrena gasosa, assim denominada porque os tecidos são invadidos por gases produzidos pela ação dos micróbios anaeróbios, exige tratamento medicamentoso e cirúrgico de difícil execução. Há necessidade de fazer a dissecção minuciosa dos músculos, vasos e nervos, com a extirpação das partes gangrenadas, mormente constituídas pelo tecido gangrenoso. Sobre toda a região assim dissecada, aplicava-se largamente a sulfadiazina e nada se suturava. Desta maneira conseguimos reerguer vários doentes em péssimo estado, mostrando a excelência das substâncias antiinfecciosas modernas e nos abrindo horizontes mais amplos no atual arsenal de ação contra os microorganismos infectuosos. Também apreciamos alguns casos de tétano, que não nos fora antes dado encontrar por causa da magnífica ação da vacinação preventiva, rigorosamente aplicada nos nossos combatentes. Embora fosse uma dura experiência, não era para nós uma novidade, já que na Revolução de 1932 tivemos ocasião de deparar casos semelhantes e, por isso já estávamos afeitos à gravidade da entidade mórbida. A 23 de abril continuava a infindável torrente de prisioneiros alemães, a nos atarefar dia e noite. Por isso todos os colegas brasileiros do Hospital 32º e 16º foram transferidos para cá. Com a chegada dos nossos patrícios formaram-se seis equipes cirúrgicas de brasileiros. O nosso diretor incumbiu-nos, aproveitando a nossa larga e conhecida experiência, de dirigir três dessas formações operatórias, em sistema organizatório diferente, mas que a situação exigia. A incumbência nos tomou dois dias de trabalho ininterruptos, obrigando-nos a ingerir o nosso alimento ali mesmo no centro cirúrgico, sem direito de dormir. Felizmente a partir do dia 26 a corrente de prisioneiros se estancou. A 27, no dia imediato, já recebemos ordens para mudarmos para outro hospital, situado mais para o norte. Fomos ter ao nosso conhecido "32th Evacuation Hospital", aquele que nos recebeu ao iniciarmos os nossos trabalhos. Chegamos à tarde do mesmo dia à povoação denominada Marzabotto, situada na rodovia de Pistóia-Bolonha. No "38º" encontramos velhos conhecidos norte-americanos dos quais nos desligamos desde a inesquecível enchente de Pisa. Entre eles alguns já poderiam ser considerados como amigos e não apenas camaradas. Foi uma grande satisfação. Apesar da amizade, fomos logo destacados para o plantão noturno. Repetiu-se aqui a corrente contínua de prisioneiros tedescos, feridos na véspera ou alguns dias antes. Chegavam eles às centenas, amontoados nas ambulâncias, de rostos esquálidos, abatidos, febris, desmoralizados, inexpressivos de fisionomia, superlotando as enfermarias que dispunham de grande capacidade, obrigando-nos ao labutar contínuo, fatigante, enfadonho, despido de interesse maior e, por isso mesmo, enervante. O espetáculo pela sua feição humana era triste e desolador. Sem esperança de dias melhores, esses seres eram a própria imagem da descrença e da desilusão. A afluência de prisioneiros interrompeu-se à noite de 1º de maio. Em vista disso tivemos ordem para levantar acampamento e partir por esse mundo afora. Toda a manhã, enquanto os técnicos desmontavam o hospital, estivemos arranjando as nossas coisas de uso pessoal. Perto do meio-dia sobrou-nos possibilidade de respirar um pouco e apreciar a paisagem. Agora o 38º assenta-se em vale encantador, numa pequena elevação do terreno, cercado de serras e colinas verdes claras, plena primavera. Ao fundo de larga e longa depressão do terreno corria o Rio Reno, com suas águas tranqüilas, que apenas enchem a maior declividade de um leito areiento e sinuoso. A paisagem é repousante e convida à meditação. Para isso, no entanto, não tínhamos vagar, tudo estava aprestado e era necessário partir em comboio a busca de outra estação onde nos esperaria a mesma atividade.

"Notas de um Expedicionário Médico"
Alípio Corrêa Netto

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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