FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

CONFRATERNIZAÇÃO NATALINA

Na madrugada do dia 24 de dezembro caiu a primeira nevada. Chão, árvores, gramados e postos eram, de ponta a ponta, um só tapete branco. As castanheiras imóveis, com o frio, pareciam imersas em banho de cal. Encantava sobremodo ver de súbito a paisagem mudar e vestir-se com um esplendoroso véu de noiva. Por outro lado, foi um desastre horroroso a nevada daquele ano - a maior de quantas iam ficar manchadas de sangue nas encostas dos Apeninos. Na Companhia, os que mais se fascinaram foram os baianos e mato-grossenses que, ao acordarem pela manhã, já vinham lavando o rosto com água aquecida no capacete de aço. Os obuses desapareceram na paisagem branca. Arrastando a neve fofa à altura média da coxa, andávamos pelos caminhos bloqueados que levavam às diversas direções. Na noite desse dia, véspera do Natal, os camponeses de Corvella organizaram uma festa para comemorar com o pessoal da Companhia a data máxima da cristandade. E não faltaram os tradicionais bolos que as "signorinas" confeccionaram com o açúcar, farinha e demais ingredientes fornecidos pela nossa cozinha. E já passava da meia-noite, lembro-me bem, quando um grupo de moças e rapazes, sob a direção de Gemina, cantou a canção pastoral "Chiesetta Alpina":

C'è una chiesetta alpina dove giá rintocca una campana,
nel vederla cosi in alto pare in cielo, e più lontana...
Col suono par che dica a un cuor,
nel dolce vespro mattutin,
alla chiesetta tutta in fior,
ritornerai mio bell'alpin...

S'ode un suono ma non è piu la campana della chiesetta,
è il silenzio della sera che pian pian suona ta trombetta...
Più piano come in un sospir,
fra breve non si sente più,
ma al bruno alpino par d'udir,
la campanella sua di laggiù...

Rosellina che col gregge vai sui monti di buon mattino,
e con ansia e fede aspetti che ritorni il tuo bell'alpino...
Se pur lontano il bruno alpin
a te soltanto penserà,
e um dí vedrai che a te vicin
felice ancor ritornerà...

Ed un giorno assai più forte suona a festa la campanella,
è tornato il bruno alpino e Rosellina si fa più bella.
É bianca e pura come un fior,
Che il sol di maggio sboccierà,
e la campana con amor
per quelle nozze suonerà...

"Chiesetta Alpina" é, sem dúvida, uma das mais lindas canções românticas da Itália. Para nós, é a reminiscência de um passado que já vai longe. Letra e música, no seu arranjo harmônico e sutil, foram compostas pelo entusiasmo poético de um camponês que vivia na região montanhosa dos Apeninos. É, enfim, a estória das tantas igrejinhas embutidas nas montanhas, onde, nas manhãs de domingo, os camponeses ainda hoje vão reunir-se para elevar as suas preces aos céus. Nos campanários das igrejinhas estão os velhos sinos que falam ao povo com a variedade de sua linguagem festiva. O velho sino, espalhando o som pelo vale, é o mensageiro consolador. Depois que o Regimento Sampaio ocupou La Serra, os jovens namorados puderam voltar a subir pelos caminhos íngremes e tortuosos que passavam por Gaggio Montano, Guanella e Bombiana, para alcançar, na fralda de Monte Castello, a igrejinha de Abetaia, de onde podia-se contemplar, no vale do Reno, o chão que os brasileiros mais pisaram na Itália. Uma vez lá no alto, eles estariam mais pertinho do céu e assim tinham a certeza de que as suas promessas de amor seriam mais facilmente ouvidas por Deus.

"Nós Estivemos Lá"
José Dequech



O lindo espetáculo da neve

PRESENTE DE NATAL

Maravilhoso! Foi a expressão geral quando despertamos naquela manhã de 24 de dezembro de 1944 e descortinamos o estupendo panorama que a natureza nos prodigalizou. Na verdade, o espetáculo que presenciamos pela primeira vez, tinha qualquer coisa de fantástico. Até o dia 23 os dias correram sem coisa alguma que quebrasse a monotonia dessas jornadas de inverno. Os morros se apresentavam duma cor acinzentada característica da estação cuja geada queimou a pouca vegetação existente. E nessa paisagem costumeira, sem atrativos, nos recolhemos no dia 23. Quando abrimos os olhos no dia seguinte julgamos ter dormido num colchão de algodão muito alvo e que se estendia indefinidamente. Os morros pareciam construídos de açúcar, e sentimos vontade de chupá-los todos de uma só vez. Quando deixamos o front de Barga o cume das elevações dominantes estavam cobertos de neve como se fossem vestidos com carapuças brancas. Na serra de Pistóia, em Colina, as elevações apresentavam o mesmo aspecto. Na ante-véspera do Natal a neve generalizou-se proporcionando esse magnífico espetáculo, que as nossas retinas gravaram duma maneira indelével. Os camponeses retirando neve dos telhados para evitar a queda dos mesmos; as árvores com uma tonalidade escura, desfolhadas, parecendo estiletes espetados em salientes de sacarose; as miríades de flocos finos e muito alvos características do fenômeno aquoso dando-nos a impressão de minúsculos filamentos de algodão flutuando na atmosfera e descendo paulatinamente numa chuva de estrelinhas multiformes, são eventos que dificilmente serão esquecidos por todos que tiveram a ventura de presenciar essa modalidade dos meteoros aquosos - a neve. A neve produz quedas freqüentes aos inexperientes quando toma a forma vítrea, pois neste estado é perigosa, causando hilaridade aos expectadores do desastre. A aprendizagem de esquiar, as derrapagens violentas, normalmente seguidas do rolar rápido pelas ravinas até a base dos morros, tudo isso constituíam fatos costumeiros do inverno italiano do qual tivemos a amostra, inédita, nessa inesquecível véspera de Natal, um verdadeiro presente frígido do velhinho, de barbas e cabelos brancos como a neve - o matusalênico Papai Noel.

"O Sexto Regimento de Infantaria Expedicionário"
Cap. Antorildo Silveira


Esquiando...
Arquivo Diana de Oliveira Maciel

O PRACINHA E A NEVE

Preocupava, sobremaneira, a estação hibernal, por não se poder precisar como o pracinha brasileiro, nascido e criado em clima tropical, iria enfrentá-la. Sucediam-se, portanto, os problemas. O elevado número de baixas, bem como a estafa, aconselhavam uma pausa, mesmo que fosse breve. A par disso, a necessidade premente de se completar os efetivos sensivelmente desfalcados, antes de ser tomada a decisão definitiva quanto ao prosseguimento da campanha no mesmo ritmo ou talvez em maior escala. Para tentar resolver os graves problemas que tendiam a crescer à medida que os dias passavam, foi convocada uma reunião de todos os comandantes das Grandes Unidades presentes ao teatro de operações. O debate franco, não poucas vezes tornou-se acalorado, onde cada chefe, com a linguagem fria de guerreiro, expunha e procurava fazer prevalecer o seu ponto de vista. Dentre as decisões mais importantes tomadas durante a reunião, mereceu especial destaque a que dizia respeito à suspensão temporária das operações que deveriam culminar com a conquista da cidade de Bolonha antes do Natal. Julgou-se desaconselhável, também, lançar a Força Expedicionária Brasileira na linha de frente antes que seus componentes melhor se ambientassem às condições climatéricas e, muito especialmente, ao inimigo curtido em outras campanhas, manhoso e perfeito conhecedor do terreno. Seria uma temeridade o lançamento prematuro dos pracinhas em combates de grande envergadura. Apesar de bravos, faltava-lhes muito para que pudessem ser considerados guerreiros na acepção da palavra, tendo-se em vista que somente a prática amadurece o soldado. A bravura não pode ser considerada como elemento indispensável, se excessiva. Ela só tem valor positivo, quando dosada. Caso contrário transforma-se em suicídio. O excesso auxilia alguma coisa, mas nem sempre resolve. Dez homens bem armados e postados podem dizimar facilmente um batalhão que se lance à luta de peito aberto. Muitos homens, orgulhosos de serem bravos, deixaram-se matar na guerra sem que com essa atitude conseguissem provar coisa alguma. Entre estes podemos destacar os que, por auto-recreação, desempenhavam o papel de "isca", expondo-se acintosamente para que o inimigo, atirando neles, denunciasse sua posição! Não foram poucos os que assim procederam, mas foram raros os que conseguiram sobreviver. Em regra geral o brasileiro parecia não dar "bola" para o azar. A prova disso é que muitos dos que não voltaram, morreram por não acreditar nos campos minados, nas armadilhas e nas artimanhas do inimigo que chegava à extrema maldade de minar os cadáveres dos próprios companheiros! Nossos pracinhas tinham por princípio respeitar as insígnias da Cruz Vermelha, e os tedescos, sabendo disso, não poucas vezes utilizaram-se das padiolas para transportar metralhadoras e morteiros, como se fossem feridos! Era a guerra sem trégua, sem quartel, desumana; guerra diferente da que faziam os nossos soldados, incapazes de atrocidades e avessos às tocaias, preferindo, sempre que possível, desentocar o inimigo, a esperá-lo oculto numa dobra do terreno para apanhá-los pelas costas. A humanidade em luta, a se destruir impiedosamente; homens transformados em feras; feras fugindo dos homens. O Século Vinte, com suas memoráveis conquistas técnicas e científicas, via-se pela segunda vez envolvido pelo fragor da metralha, pela morte, pela destruição, pelo sangue, pelas lágrimas. O mundo em chamas, num verdadeiro caos; a vida sem valor algum. E lá iam os nossos pracinhas tamborilando alegremente no capacete o ritmo gostoso da música brasileira, numa evocação à Pátria distante, certos de que, mesmo faltando-lhes o essencial adestramento, saberiam provar ao mundo o valor e a pujança de uma raça.

"A Neve foi Testemunha"
João Steudel Areão


Mensagem de Natal de Mascarenhas de Morais
Arquivo Tácito Theophilo

 

Balada dos Homens Maus

Pior que a seca
- com a terra abrasada,
o gado morrendo,
o povo fugindo
e a fome matando...
Pior que tudo
é a guerra, sargento!
Nós somos da FEB,
estamos em guerra,
estamos em luta
de vida, de morte,
matando e morrendo!

Por onde passamos,
pior que ciclone,
nós, homens em guerra,
deixamos sinal.
Só vemos ruínas
e ruas vazias,
entulhos, destroços
e campos revoltos
e vias juncadas
de corpos sem vida!

Ninguém nos fez mal...
e nem conhecemos
o nosso inimigo!
Mas nós o matamos
- tranqüilos e frios,
sem dó, sem piedade!
Matamos por quê?
Matamos somente
Sargento, porque
nos mandam matar!

Depois... sim, depois
é a fome, é a miséria,
é a prostituição!
Se os homens
- os grandes, os ricos
que mandam, lideram,
governam, dirigem nações:
sim, se eles pensassem,
se considerassem
que somos irmãos,

que a guerra é egoísmo,
que a guerra é loucura,
que a guerra é ambição,
então, sim, Sargento,
uma era de paz,
de amor, de harmonia,
verdade e justiça,
fundiria os homens
num bloco integral.

Aqui nesta guerra
- a Itália das artes,
o berço cristão
- eu mato, eu destruo.
Mas faço-o... nem sei...
Eu sou Brasileiro!
e tenho meu peito
repleto de amor
- amor fraternal.
Embora na guerra,
embora matando,
eu mato chorando...
Chorando de dor!

Autor: José Cordeiro
Poema encontrado no livro
"A Neve foi Testemunha"
João Steudel Areão

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
l 1 l 2 l 3 l 4 l 5 l 6 l 7 l 8 l 9 l 10 l 11 l 12 l 13 l 14 l 15 l 16 l 17 l 18 l 19 l 20 l
l
21 l 22 l 23 l 24 l 25 l 26 l 27 l 28 l 29 l 30 l 31 l 32 l 33 l 34 l 35 l 36 l 37 l 38 l 39 l 40 l
l
41 l 42 l 43 l 44 l 45 l 46 l 47 l 48 l 49 l 50 l 51 l 52 l 53 l 54 l 55 l 56 l 57 l 58 l 59 l 60 l
l
61 l 62 l 63 l 64 l 65 l 66 l 67 l 68 l 69 l 70 l 71 l 72 l 73 l 74 l 75 l 76 l 77 l 78 l 79 l 80 l
l
81 l 82 l 83 l 84 l 85 l 86 l 87 l 88 l 89 l 90 l 91 l 92 l 93 l 94 l 95 l 96 l 97 l 98 l 99 l 100 l
Homenagens aos Heróis
Saudade
A vida felizmente pode continuar... 

Voltar

| Home | Contato | Cantinho Infantil | Cantinho Musical | Imagens da Maux |
l
Recanto da Maux | Desenterrando Versos | História e Genealogia l
l
Um Herói nunca morre l Piquete - Cidade Paisagem l
MAUX HOME PAGE- designed by Maux
2003 Maux Home Page. Todos os direitos reservados. All rights reserved.