FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 


Manual de sobrevivência no mar

 

O SOLDADO BRASILEIRO  

Várias vezes tenho sido interrogado a respeito do comportamento do soldado brasileiro nesta guerra: se ele era corajoso, qual o seu grau em comparação com os americanos ou alemães, etc. A minha resposta, claro está, terá que ser generalizada, deixando de aplicar-se com justeza a inúmeros casos individuais. E essa resposta é a seguinte: o soldado brasileiro na campanha da Itália revelou-se muito acima das minhas expectativas e, tenho absoluta certeza de que todos ou quase todos os oficiais pensam de maneira idêntica. Em primeiro lugar tenho que dizer, algo rudemente, que , constituindo o grosso do efetivo da FEB só foram aqueles que eu denominaria de "párias", isto é, os rapazes das classes pobres, operários, lavradores, etc. Aquilo que se chamava a "elite" do Brasil - as classes média e alta - enviou tão poucos elementos para representá-la que se poderia dizer ter brilhado pela ausência. A elite estudantina foi pródiga em discursos veementemente patrióticos em agosto de 1942 mas, logo a seguir, invadiu os CPOR do país, contando com os dois anos de curso e conseqüente permanência certa no Brasil. Mesmo vários dos seus elementos que foram convocados como soldados acharam jeito e meios de serem licenciados muito em tempo. Por isso, com honrosas exceções, só permaneceram na FEB aqueles que, por sua precária posição social, não tiveram jeito nem meios de serem licenciados do serviço ativo ou aqueles que, conscientes do seu dever e sua dignidade, não fizeram esforços para serem licenciados da FEB. Desta circunstância decorrem, a meu ver, as demais características da maioria dos soldados brasileiros que foram para a Itália.

1. Sendo esses soldados componentes das classes menos abastadas, o seu nível mental e sua instrução deixavam bastante a desejar. Por isso, a pouca e deficiente preparação moral dada ao soldado produziu ainda menos resultado do que aquele mínimo previsto. O soldado brasileiro não tinha noção clara daquilo porque ia lutar e, ao mesmo tempo, sabia que muitos outros, em melhores condições, físicas e mentais, tinham sido excluídos, por manobras nebulosas, do cumprimento daquele dever que lhe impunham.

2. Como conseqüência ainda do seu baixo padrão econômico de vida, a maioria dos soldados da FEB apresentava toda a sorte de deficiências físicas com as quais o exame médico de "seleção" se conformou ou deixou passar despercebidas, não sei porquê. A falta de muitos dentes era coisa bastante comum nos soldados, bem como a presença de pedaços e tocos de dentes estragados, que só contribuíam para piorar a mastigação e intoxicar os seus portadores, pela formação de focos infecciosos. A presença de doenças venéreas e de sífilis atingia uma considerável percentagem entre indivíduos "selecionados". Quando o primeiro escalão da FEB chegou a Nápoles, essas doenças causaram a baixa imediata ao hospital de cerca de 200 brasileiros. Acrescente-se a isso a crônica falta de meios nas unidades militares logo após nossa chegada, para proporcionar tratamento e cura dessas moléstias. Outras deficiências orgânicas havia, além das duas principais já citadas. Por exemplo, no meu pelotão havia um soldado cujo primeiro nome somente me ocorre, Gabriel, e que era - e ainda deve ser - um retardado mental. Pobre de corpo e de espírito, esse soldado fez toda a campanha da FEB num pelotão de fuzileiros, talvez sem nunca ter alcançado a compreender a razão da sua presença ali, sem nunca queixar-se nem baixar ao hospital, conformado e humilde. Era como uma criança grande; todos o confortavam e ajudavam. Esse soldado durante todo o tempo que serviu na caserna, ainda no Brasil - conheci-o pessoalmente desde 1942 no II Batalhão do 5º RI em Pindamonhangaba - nunca conseguiu acertar a cadência do passo ordinário. Mas foi julgado apto para a FEB. Dois outros soldados do meu pelotão sofriam de hérnia e foram, por isso, operados quando prestavam o serviço militar no Brasil. Tal circunstância não os impediu de serem convocados para a FEB e, o que é pior, de serem classificado como aptos para mesma. Após 2 ou 3 meses de campanha subindo e descendo (principalmente subindo) as encostas dos Apeninos ambos baixaram ao hospital e tiveram de ser recambiados para o Brasil. Seus nomes são: José Maria Conceição e Augusto Claro de Alvarenga.

3. Junte-se a esses fatores mais o meio físico estranho ao soldado brasileiro, as montanhas italianas cobertas de neve, o inverno europeu, a alimentação desconhecida. Tudo isso constitui um conjunto de elementos que explicariam e quase justificariam um fracasso por parte do nosso soldado. Ele não foi, é certo, o melhor e mais apto dos combatentes aliados, mas foi excelente. Sem nenhum treinamento especializado, lutou nas montanhas, ao lado da 10ª Divisão de Montanha norte-americana, que tivera nos EEUU 3 anos de instrução especializada e contínua para aquela espécie de campanha. Só tendo tomado conhecimento do armamento com que ia lutar após sua chegada à Itália - o fornecimento e distribuição de armas ao 6º RI foram feitos em agosto de 1944 e o Regimento seguiu para o "front" em 13 de setembro de 1944 - o soldado brasileiro aprendeu o manejo das armas norte-americanas e usou-as com eficiência na luta. O regime alimentar norte-americano causou estranheza mas, sendo infinitamente superior ao brasileiro, revelou-se ótimo e os soldados engordaram bastante. Também merece ser citada a adaptação dos soldados ao intenso frio europeu, sem nenhuma conseqüência má. Com tantos defeitos e falhas, de que aliás não lhe cabe mínima culpa, é de admirar que o infante brasileiro tenha se portado tão bem e com tanto valor. Naturalmente, tendo eu sido comandante de um pelotão de fuzileiros, é do infante que me ocupo e é ele que me merece toda a atenção e, porque não dizê-lo, carinho também. Tivemos, é claro, soldados que faltaram ao seu dever, que cederam ao medo ou à sede de rapina. Mas esses foram exceções: a maioria absoluta dos nossos soldados soube vencer o medo físico da morte, combateu com valor e comportou-se decentemente. O soldado brasileiro mostrou ter tantas qualidades de presença de espírito, de calma, de coragem e de dedicação ao seu país e aos seus companheiros como qualquer outro soldado de qualquer outra nação. Durante a vida em campanha surgiram, entre os soldados ou entre soldados e seus superiores imediatos, laços de amizade, solidariedade, dedicação e fraternidade que constituíram ao meu ver, um aspecto superior e maravilhoso entre os quadros de horror e desolação da guerra, apesar da incongruência aparente que estas palavras possam ter. Esses vínculos afetivos ainda subsistem. Alegro-me em rever qualquer um daqueles que foram soldados no III Batalhão do 6º RI e, em especial, aqueles que fizeram parte da minha companhia, e, mais ainda, aqueles que foram do pelotão que comandei. E entristece-me quando venho a saber que a vida não está sendo fácil nem justa para qualquer deles. Lastimo o fato de que agora, terminada a nossa tarefa na Itália, estejamos tão espalhados por este país afora e que as duras e mesquinhas circunstâncias da vida quotidiana - também chamada vida normal - não mais permitam a existência de sentimentos e atitudes morais sublimes que a presença da morte próxima mostrou existirem em homens que nós, das "classes cultas", julgávamos inferiores.

Instantâneos de um Tenente em Campanha
Túlio C. Campelo de Souza
Depoimentos de Oficiais de Reserva sobre a FEB



Relação de material entregue aos pracinhas

 

PREPARAÇÃO DOS MINEIROS DO 9º BE AINDA NO BRASIL

Teríamos que partir da estaca zero. Não dispúnhamos de nada, nem sequer dos regulamentos técnicos modernos. Então começamos a intensificar a preparação física da tropa e a execução de marchas, de acordo com as instruções do Batalhão. Corríamos, em acelerado, do quartel até a ponte metálica sobre o rio Aquidauana, descendo por cordas até a água, nadando rio abaixo, protegidos por cabos flutuantes, com turmas de socorro vigiando das margens, para evitar afogamentos. Os que não sabiam nadar, desciam pelas cordas mais próximas à margem, onde a água dava pé, e iniciavam um regime intensivo de aprendizagem, com prazo marcado para descer do lado mais fundo. A volta do exercício era bem descontraída, tornando a instrução alegre e produtiva. As marchas, diurnas e noturnas, foram de até 32 quilômetros, com equipamento completo, vencendo o areal das vizinhanças. Em pouco tempo a tropa apresentava bons índices de preparo físico, que era o mínimo que se poderia desejar, naquela emergência. Os efetivos, porém, continuavam muito desfalcados, inclusive de oficiais, pois o recompletamento não se fazia como era de desejar. Em grande parte, a instrução técnica continuava à moda antiga. Continuávamos a fazer muita Organização do Terreno, construção de estradas de acesso, fazendo com que os calos estourassem nas mãos, tudo sob um terrível sol abrasador. Chegavam-nos informações sobre minas e armadilhas empregadas em massa pelo Afrika Korps e os procedimentos usados pelos ingleses, que as tinham retirado sob o fogo inimigo. Boletins de Informações começaram a fornecer elementos novos sobre colocação e retirada de minas e armadilhas. Requisitamos todas as latas vazias de goiabada do rancho, assim como tudo que pudesse parecer uma mina; as latas maiores eram consideradas anticarro e as menores, antipessoal e armadilhas. Rolos de lã, usados para fazer blusas e similares, cujos fios facilmente se rompiam, serviam de ingredientes para substituir os detonadores das minas, assim como arames, fios e uma série de quinquilharias adotadas pela imaginação de cada um. Todo fio de lã que se rompesse, ao ser retirada a suposta mina, produzia uma baixa e o autor era considerado fora de combate. Para impedir o levantamento puro e simples da "mina", eram criadas várias situações afim de dificultar a operação: latas superpostas, ligadas a fios camuflados; estacas escondidas, presas a fios etc. Tudo era feito para que se desenvolvesse o tato e a habilidade manual, condição indispensável a um bom mineiro. Logo se destacaram os mais hábeis, que raramente caíam em alguma armadilha, mas, também, aqueles que raramente escapavam das baixas em combate... Como se empregava material inerte, não havia nenhuma periculosidade e os homens se aplicavam mais por simples espírito de competição. Muitos mineiros de escol começaram sua aprendizagem plantando latas vazias de goiabada. O Batalhão não estava motorizado; usava-se uma viatura hipomóvel - uma carrocinha - para transportar aquela montanha de latas que seriam instaladas nos campos próximos ao quartel, causando espanto nos civis que passavam, por certo pensando que aquela gente não estava funcionando bem da cabeça. Cada Pelotão instalava seu campo minado, que seria retirado por outro Pelotão; os instrutores verificavam os elementos postos fora de ação pelos fios rompidos. No final da instrução, estes regressavam em um grupo separado dos "vivos", sendo fácil verificar o Pelotão que tivera melhor desempenho. Na verdade, estávamos brincando de guerra moderna, na falta de material verdadeiro para qualquer tipo de treinamento real.

"Quebra Canela"
Raul da Cruz Lima Junior



Rações servidas às tropas: a K - levada para a linha de frente, a C em latas - quando se podia fazer fogo, e a normal.

Foto escaneada do livro "Eu estava lá" - Elza Cansanção

Assistência Médica - Na Preparação da FEB

Pretendo neste capítulo, prestar meu depoimento sobre a assistência médica na FEB. Naturalmente, não sou técnico no assunto, pois não fiz estudos de Medicina e na vida civil tenho poucas relações com médicos. Mas meu objetivo é precisamente mostrar o ponto de vista daqueles que receberam a assistência médica na FEB, isto é, o depoimento da cobaia. Os primeiros sintomas dos cuidados médicos referentes ao pessoal componente da Força Expedicionária Brasileira, fizeram-se sentir na seleção e preparação física do pessoal. Assim que foi mandada organizar, instituíram-se juntas médicas, integradas por médicos civis e presididas pelos médicos militares, destinadas a selecionar aqueles que seriam os combatentes do Brasil na II Guerra Mundial. O trabalho dessas juntas, inicialmente, foi muito bom. Recordo-me que, quando fui submetido à inspeção médica em Caçapava, em 10 de novembro de 1943, fiquei impressionado com a minuciosidade do exame médico. Havia especialistas em quase todos os ramos da Medicina e os homens eram examinados inteiramente, anotadas desde as falhas dentárias até a má conformação dos pés, terminando tudo por testes psicológicos. Por qualquer dúvida que surgisse, era o examinado remetido ao Hospital Militar de São Paulo, onde exames de laboratório eram realizados, de modo a considerar aptos apenas os que estivessem em boas condições físicas e mentais. Isto foi assim, inicialmente, seguindo as instruções adotadas no exército americano, cuja organização o governo brasileiro resolvera adotar como modelo. Entretanto, como as condições requeridas nesses exames dessem uma percentagem pequena de homens considerados aptos para a guerra - alguns médicos da comissão examinadora afirmaram-nos extra-oficialmente, naquela ocasião, que 80% dos efetivos examinados do Regimento tinham sido considerados incapazes - as autoridades militares adotaram um critério surpreendente e cômodo para completar os efetivos da 1ª Divisão Expedicionária, pelo menos em nosso Regimento. Ao invés de convocar novos elementos e continuar as inspeções médicas até conseguir o número desejado de soldados aptos (e não seria crível que numa população de 4,5 milhões não se conseguisse 25 mil homens normais, ou seja, 0,0002% da população), a decisão tomada foi a de rever as fichas dos exames já feitos. Foram dispensados os médicos civis e reorganizadas as juntas, agora só com os médicos militares, estes receberam ordem de efetuar a revisão, mas no papel, sem novo exame dos candidatos. Atenuando o rigor das inspeções e revendo os laudos médicos sem um critério objetivo, essa decisão das autoridades só poderia dar um resultado. Começamos a receber soldados em péssimas condições, atestando a precariedade da inspeção médica. Basta notar, por enquanto, que no meu pelotão, quando embarcamos, havia soldados sem nenhum dente na boca, um que sofria do coração além de gago, e, finalmente, ainda outro sujeito a ataques de origem epilética e que muito trabalho deu, posteriormente, na Itália. Com a revisão efetuada, o efetivo, porém, da 1ª Divisão Expedicionária não estava completo. Continuaram a ser classificados nas unidades da FEB novos elementos, porém, nunca melhorou o índice de saúde, uma vez que desaparecera o rigor na seleção médica. As razões desse relaxamento nas inspeções médicas foram diversas. Em primeiro lugar, as condições de saúde da generalidade do povo brasileiro são ruins, conseqüentes da má alimentação e ignorância dos princípios elementares de higiene. O resultado é que a percentagem dos soldados,considerados aptos era pequena, geralmente de elementos pertencentes às classes mais elevadas; e que por isso mesmo conseguiram dispensas das fileiras, sem contar o recurso do CPOR. Com o insignificante número de soldados aptos, que resultava com o concurso desses fatores, atenuou-se discricionàriamente o rigor dos exames médicos, por ser a solução mais fácil, ainda que absolutamente desaconselhável. Em segundo lugar, o critério adotado pela maioria dos comandantes de Unidades, de colocar a transferência para a FEB como uma punição e como um meio para ficar livre dos maus elementos, resultou em que os exames de saúde, nesses casos, era feito pró-forma, sem considerar o perigoso fator negativo que se criava para o moral de uma tropa que ia combater em solo estrangeiro. Finalmente, temos a considerar os casos em que o exame de saúde era "comprado", conforme ficou esclarecido posteriormente em processos no Supremo Tribunal Militar, inclusive com a condenação de um deputado mineiro, o que foi amplamente divulgado pelos jornais. Com a necessidade de dispensa, esses convocados, deixaram os médicos, que se utilizaram dessa fonte de rendimentos, passar outros que ainda que em más condições de saúde, não podiam pagar um laudo médico de incapacidade. Cabe, aqui, apontar outra irregularidade: os exames de saúde "encomendados". Exemplo disso tivemos vários, como este ocorrido no III Batalhão do 6º Regimento de Infantaria. Um jovem 2º tenente da ativa foi classificado na Força Expedicionária Brasileira. Havia saído há pouco da Escola Militar, necessàriamente em condições de saúde satisfatórias para ser declarado Oficial. E menos de um mês antes da sua classificação no Regimento fora em inspeção médica para efeito de sua promoção a 2º tenente, considerado apto e conseqüentemente promovido. Incluído no Regimento, foi novamente inspecionado e aprovado. Era um tipo forte, praticando continuamente esportes violentos. Quando, porém, começou a concentração para embarque, com a ida do Regimento para o Rio, tudo indicando a iminência da nossa partida para a Europa, fomos surpreendidos com uma ordem, em boletim, para que esse jovem e robusto oficial, e somente ele, fosse submetido novamente ao exame de saúde. O novo laudo médico considerou-o incapaz, por deficiência cardíaca, sendo então transferido para outra unidade não expedicionária, sediada num local onde, "coincidentemente", residia a sua noiva, em lugar da sua reforma, como deveria ter acontecido, segundo os regulamentos em vigor. O "mistério" somente começou a esclarecer-se quando soubemos que o pai do referido oficial, coronel do Exército, servia no Gabinete do Ministro da Guerra. Casos semelhantes ocorreram com alguma freqüência na nossa e noutras unidades da FEB, para edificação nossa e dos pracinhas, cujo bom senso anotava esses exemplos como material para a sua galhofa. A conseqüência imediata de tudo o que ficou exposto acima é que a seleção física do pessoal da FEB foi um fracasso. Quando o 1º Escalão desembarcou em Nápoles, contávamos com mais de uma centena de soldados com moléstias venéreas, casos de tuberculose, úlcera no estômago e outras moléstias, que tiveram de ser baixados ao hospital americano, para surpresa e espanto das altas autoridades norte-americanas, os quais tendo indagado anteriormente sobre as condições sanitárias da nossa tropa ao nosso Comandante e tendo-lhes respondido este que era tropa selecionada, lhe teriam retrucado, depois, que tropa doente, assim, só tinham visto uma igual, a marroquina arrebanhada pelos franceses nos confins do Saara, entre as tribos, para cobrir os seus claros e participar ativamente da guerra. O fato é que a situação deve ter sido tão vexatória que veio uma ordem proibindo baixar mais brasileiros ao hospital, pois o número desses já era grande e os leitos deviam ser reservados aos caídos no campo de batalha. Terminadas as inspeções de saúde para seleção da FEB, ficou a tropa concentrada no Rio, aguardando ordem de embarque. Durante esses três meses, cuidou-se da imunização dos expedicionários, sendo efetuada a vacinação contra febres tifóides, tétano, cólera, varíola, etc. Se esse serviço foi realizado com eficiência, havia, entretanto, outros setores da assistência médica sobre os quais não se poderia dizer o mesmo. A higiene da tropa era bastante deficiente. O 6º Regimento, transferido para o Rio, ficou alojado em um quartel com acomodações para conter, com conforto, apenas um batalhão. Ficou, portanto, a tropa superlotando alojamentos que não tinham os necessários requisitos higiênicos, com insuficientes instalações sanitárias, condições agravadas pela falta d'água. Algumas companhias ficaram em barracões de madeira, apressadamente construídos. Mas o pior era a localização das cozinhas. A comida era preparada em fogões de campanha antiquados, colocados no local da antiga cavalariça. Além do pequeno espaço disponível, havia a proliferação dos enxames de moscas, já habituadas ao local e com a nova atração dos alimentos expostos, que seriam servidos à tropa. Finalmente, embarcou o 6º Regimento de Infantaria, como componente do primeiro escalão da FEB. Durante a viagem, a assistência médica ficou a cargo dos médicos do navio americano, que dispunha de uma boa enfermaria e completa farmácia. Mas desembarcados, porém, em Nápoles, a situação piorou novamente. O acampamento em que ficamos, era uma cratera de um vulcão extinto, cujo chão era composto de cinzas que se levantavam em fina poeira pegajosa, a qual penetrava em tudo. Por outro lado, ficávamos dias sem banho, com uma torneira de água para cada companhia, cerca de 180 homens. Assim, a higiene pessoal não poderia ser muito boa. Os médicos lutavam com a falta de medicamentos, pois a ordem fora para não levar remédios, e ainda não estávamos com a situação regularizada junto aos americanos e, portanto, nada podíamos receber. Com a ordem sobrevinda, proibindo baixar os doentes, para não superlotar com brasileiros, apenas recém-chegados, os hospitais americanos, a situação ficou aflitiva. Um soldado do meu pelotão esteve doente vários dias, com febre acima de 39°, dormindo numa desconfortável barraca. O que nos valeu foi a pequena farmácia individual, composta de comprimidos e desinfetantes, que a experiência de manobras no Brasil nos aconselhara a levar. O segundo acampamento nosso foi nas proximidades de Tarquínia. Por essa ocasião já haviam os médicos recebido medicamentos americanos, possibilitando uma assistência mais efetiva à tropa. A única dificuldade, do ponto de vista da higiene, era a falta de água. O local designado para a minha companhia, ficava perto de 1 200 metros de um poço, onde poder-se-ia obter água para o banho. Quanto à água para beber e preparar os alimentos, era recebida em camburões, esterilizada. Permanecemos nesse acampamento cerca de vinte dias. O acampamento na região de Vada, ao norte de Grosseto, era bem situado. Nesse acampamento, com a inclusão da tropa brasileira no 5º Exército Americano, então comandado pelo General Clark, a situação geral, inclusive do ponto de vista médico, ficou normalizada. Desse acampamento partimos para o front, ficando encerrado o período preparatório da FEB, para o pessoal componente do primeiro escalão.

Clóvis Garcia
Como um Combatente viu os Serviços Médicos
"Depoimento de Oficiais de Reserva sobre a FEB"



Oficiais do Regimento Sampaio, a bordo do General Meigs, usando as suas bóias "Mae West"
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" - Elza Cansanção

Assistência Médica - Durante a Campanha

Durante a sua permanência no front, de 15 de setembro de 1944 a 2 de maio de 1945, data da rendição total dos alemães na Itália, uma segurança tiveram os combatentes brasileiros: uma eficiente e competente assistência médica. Vou prestar meu depoimento sobre essa assistência, partindo da linha de frente para os serviços de retaguarda, seguindo o roteiro que fiz como ferido. Espero, assim, falar sobre quase todos os aspectos do serviço médico na FEB. A primeira possibilidade de cuidado médico estava nas mãos do próprio combatente. Cada soldado era dotado de um pacote de curativo individual, que se compunha de gaze esterilizada e sulfa. Assim, qualquer ferimento ocasionado por ação do inimigo, ou acidente, podia receber os primeiros cuidados por parte do próprio paciente ou de um companheiro, evitando infecções perigosas. Logo a seguir era o ferido assistido. por um enfermeiro. Cada pelotão tinha um desses soldados do serviço de saúde, que completava a medicação de urgência, sendo dotado de uma pequena farmácia portátil. Na grande maioria dos casos, eram esses enfermeiros competentes e corajosos, tudo sacrificando no cumprimento de sua missão. Todos nós, que estivemos na FEB, somos testemunhas do valor desses dedicados soldados da saúde. Quero, aqui, lembrar o nome do soldado Domício Gomes, do Paraná, que pertencia ao meu pelotão e que me atendeu quando fui ferido. O serviço de imobilização de um braço ferido foi tão bem feito, que em nenhum dos postos de saúde por que passei, antes de chegar ao hospital, foi feita qualquer alteração. Feitos esses primeiros curativos, era o ferido encaminhado ao Posto de Saúde do Batalhão, onde era atendido pelos médicos do mesmo. O transporte era feito em padiolas, com as quais os valorosos padioleiros enfrentavam bombardeios e perigos, em terreno acidentado, levando com a maior rapidez possível o ferido ao posto de saúde, às vezes sob um tempo inclemente. Quando as condições do terreno o permitiam, o transporte era feito em jeeps, adaptados a essa função. Cabe, aqui, uma palavra sobre os médicos dos corpos de tropa. Sua dedicação era extrema, com bastante desprezo ao perigo, compartilhado inteiramente com os infantes. Um dos primeiros feridos do nosso batalhão, ainda no período de batismo de fogo, foi o médico. Em Montese, o posto de saúde avançado do Batalhão foi aí instalado, em plena linha de frente, no porão de uma casa em ruínas, dentro da aldeia intensamente bombardeada e ainda não inteiramente consolidada. Outro médico, num dos primeiros ataques ao Monte Castello, em novembro de 1944, sabendo do ferimento grave de um tenente, deixou a relativa segurança do posto de saúde e, enfrentando forte bombardeio, não titubeou em subir o morro e ir prestar sua assistência ao ferido, na própria posição atingida pelos fogos inimigos. São três exemplos apenas, colhidos ao acaso, e apenas no III Batalhão do 6º RI, mas que testemunham o valor dos médicos brasileiros que serviam nas unidades empenhadas em combate. Depois de atendido no posto de saúde do Batalhão, onde recebia cuidados médicos mais sérios, inclusive plasma; se necessário, era o ferido encaminhado à retaguarda, passando por uma série de postos de saúde escalonados até atingir a triagem, onde se fazia a separação dos casos de natureza urgente, destinados ao 32th Field e os demais para o 16th Evacuation. Em novembro de 1944, o hospital "32," estava localizado nas proximidades de Porreta Terme, relativamente próximo da frente, tendo sido mesmo atingido várias vezes por bombardeios inimigos. Não passei pelo "32", onde pontificava o médico brasileiro Alípio Correia Neto, admirado e respeitado pelos americanos. O 16th Evacuation Hospital estava em Pistóia. Dada a necessidade de acompanhar o avanço da linha de frente, era esse hospital instalado em barracas, o que permitia o seu fácil deslocamento. Apesar disso, estava perfeitamente aparelhado. De inicio, seguindo a experiência pessoal, o ferido ia para a barraca do raio X, para verificação dos ferimentos. Imediatamente reveladas, as chapas serviam de orientação nas operações cirúrgicas, feitas em barracas perfeitamente equipadas. As enfermarias comportavam perto de 30 feridos e, apesar das camas de campanha, ofereciam todo o conforto. A assistência pessoal era contínua, com enfermeiras e enfermeiros de plantão, além da visita diária de um médico. Nesse hospital permanecia o ferido pouco tempo. Ou obtinha alta e retornava à sua unidade, ou era encaminhado, assim que o seu estado o permitisse, a um hospital da retaguarda. Só tenho que elogiar o pessoal brasileiro do 16th Evacuation. Os médicos, com a sua capacidade, haviam granjeado o respeito dos americanos, operando indistintamente feridos nossos e deles. Sua assistência contínua aos feridos mantinha elevado o moral dos pacientes. As enfermeiras conquistaram o nosso respeito pela dedicação de que sempre deram mostra. Por ocasião dos ataques de 29 de novembro, quando o hospital ficou superlotado, uma enfermeira nossa, auxiliar nas intervenções cirúrgicas, ao visitar a enfermaria, sentou-se em uma cadeira e dormiu de tão cansada: era o seu primeiro sono, depois de duas noites e dois dias de trabalhos constantes e estafantes. Do 16th seguia-se para o 7th Station Hospital, em Livorno, nos edifícios de uma antiga colônia de férias para moças fascistas, fora do perímetro urbano e junto ao mar. Pelas paredes, os "slogans" do fascismo e do império de Mussolini contrastavam jocosamente com a presença dos americanos. As suas instalações eram muito boas, tanto mais que o hospital era estável. Nele, os feridos eram submetidos a uma segunda operação cirúrgica, que confirmava a primeira, sendo então suturados os cortes. O hospital dispunha de cinema, cantina e outros divertimentos como festivais, "shows" com certa freqüência. As enfermarias eram separadas para oficiais e praças, dotadas de todo o conforto, inclusive rádio. Nesse hospital, o serviço médico brasileiro atendia apenas a enfermaria de praças da 1ª Divisão Expedicionária. Os oficiais, que ocupavam a mesma enfermaria de oficiais americanos, eram atendidos por médicos e enfermeiros dessa nacionalidade. Apenas na visita diária, um médico brasileiro acompanhava o americano para servir de intérprete e havia uma enfermaria de plantão com pequenas atribuições. Até as injeções de penicilina eram atribuição do pessoal americano. Pouco observei, portanto, do serviço médico brasileiro; mas os soldados com os quais conversei não tinham queixas a fazer. Finalmente, depois de um mês em Livorno, fui para o hospital de Nápoles. Ninguém ficava mais de um mês no 7th: ou sarava, retomando à unidade de origem, ou era evacuado para os EEUU, no caso dos mutilados, ou ia para 45th General Hospital, em Nápoles, geralmente considerado a porta aberta para o caminho de casa. Efetivamente, quase todos os que foram para Nápoles, regressaram ao seu país, poucos retornando ao front. No Hospital de Nápoles, situado juntamente com outros nos edifícios de uma antiga exposição, num subúrbio da cidade, o setor brasileiro era pràticamente inexistente, em matéria de serviços. As enfermeiras faziam o que era chamado de assistência social (não sei se oficialmente) e consistia em uma visita semanal aos baixados, preenchendo um cartão em que anotavam as necessidades dos feridos brasileiros. Mas essa anotação não surtia nenhum efeito prático, pois não havia material para ser fornecido e a visita se repetia com o mesmo resultado negativo. Lembro-me de que, certa ocasião, a enfermeira americana que cuidava de nossa enfermaria, veio perguntar onde poderia obter um par de botinas pretas para um soldado brasileiro que, tendo obtido permissão para fazer as refeições no refeitório, não tinha o que calçar. A solução foi adquirir na cantina do Hospital um par de borzeguins americanos, de cor marrom, para que o soldado pudesse sair da enfermaria. Essas coisas não sucediam com os nossos aliados que recebiam todo o fardamento, cartas e vencimentos a que tinham direito, com abundância, presteza e solicitude. Nós, os brasileiros, dependíamos da boa vontade e iniciativa individual. Também os médicos, e não eram poucos, primavam pela ausência. Durante o mês que fiquei no 45th, recebi duas vezes a visita de um médico brasileiro, uma das quais acompanhando o General Mascarenhas, em inspeção a esse hospital. É dessa visita um fato típico: a uma pergunta do General, o chefe do nosso Serviço Médico não soube responder quantos oficiais brasileiros estavam baixados ao hospital. Éramos apenas quinze e felizmente para nós, os americanos nos davam toda a assistência necessária. Uma referência particular merecem, ainda, as enfermeiras brasileiras que serviram com a FEB na Itália, vitimas da crítica e de um injusto esquecimento. As criticas, podemos resumi-las nos seguintes itens:
1) Eram incompetentes, tendo feito apenas um curso de emergência;
2) Não passariam de aventureiras, sem cultura ou educação social para representar o país no exterior;
  3) Não teriam desempenhado a contento a sua missão.
Admitimos algum fundamento na critica ao preparo técnico das enfermeiras, que não seria o desejável. Entretanto, é preciso notar que culpa não lhes cabia disso. Quando se pensou na organização do Corpo Expedicionário Brasileiro, o governo brasileiro pediu à Escola "D. Ana Néri", que indicasse enfermeiras diplomadas por essa escola para integrar a FEB. A direção desse estabelecimento prontificou-se a fazê-lo, mediante certas condições, entre as quais, a de que teriam as enfermeiras posto de oficial e vencimentos do posto. Não quis o governo aceitar essas condições e organizou cursos de emergência para as voluntárias dispostas a acompanhar a tropa expedicionária. O interessante é que, na Itália, sentiu-se o comandante da FEB obrigado a arvorar todas as enfermeiras no posto de segundo tenente, com os respectivos vencimentos, afim de igualá-las às americanas e resolver uma série de dificuldades nos hospitais americanos, oriundas dos regulamentos que separavam oficiais e praças. Mesmo assim, com um curso de apenas seis meses, puderam as enfermeiras brasileiras cumprir sua missão, para admiração de suas colegas aliadas, que haviam sido submetidas a longo e rigoroso treinamento. Com referência a segunda crítica, é uma lamentável confusão entre patriotismo e aventura. E se algumas voluntárias o foram com segundas intenções, é preciso levar em conta os inconvenientes e perigos que arrostaram, seguindo para um teatro de operações da segunda guerra mundial. Muitas não teriam as condições de cultura e educação desejáveis para uma pequena representação como foi a nossa; o certo, porém, é que elas não foram representar coisa alguma e sim cumprir com o seu dever. E o papel delas foi tanto mais relevante quanto lamentável foi o das outras que, possuindo as condições referidas, se deixaram ficar indiferentes e comodamente em casa, como se o país não estivesse empenhado numa guerra e patrícios não estivessem derramando o seu sangue em terras alheias. Fina!mente, quanto ao desempenho das enfermeiras, somente nós, os combatentes, é que podemos falar. E a nossa fala é um elogio àquelas valorosas e dedicadas moças que nos atenderam nos hospitais de sangue. Seria uma ingratidão deixá-las no esquecimento. Esse o meu depoimento sobre os nossos serviços médicos na primeira vez em que tropas brasileiras pisaram solo europeu. Não é testemunho técnico; é apenas uma série de observações feitas e anotadas na ocasião por uma testemunha ocular. Não pesquisei arquivos ou documentos oficiais. Poderá ser incompleto porém espontâneo e justo quanto possível. Que os erros apontados sirvam de lição para o futuro.

Clóvis Garcia
Como um Combatente viu os Serviços Médicos
"Depoimento de Oficiais de Reserva sobre a FEB"


Pracinhas embarcados no LCI
, usando as suas bóias "Mae West"
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" - Elza Cansanção




Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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