FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 


HISTÓRIAS DE GUERRA


Cartão de Natal desenhado pelo Cap. Fortunato e distribuído a todos os integrantes do 1º Grupo de Caça no Natal de 1944
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LAVIGNE - DIGNIDADE E FIBRA

Ficou cego e perdeu uma das pernas depois da guerra. Nem por isso deixou de comparecer a todas as reuniões do "6 de outubro", na casa do Comandante Nero Moura. Era o mais alegre nestas comemorações. Representou para todos nós um exemplo de coragem e fibra inexcedível. Mesmo cego, nunca deixou que ninguém assinasse por ele o livro de presença. "Estou cego, mas não sou analfabeto", e garatujava o nome como podia. Ele mesmo se chamava de "Saci Pererê". Nunca vi tanto desprendimento! Lavigne foi um exemplo de altruísmo e bravura para quem teve a honra de com ele privar. Foi para a Itália, via Casablanca, para substituir o chefe dos oficiais intendentes do 1º Grupo de Caça - o Major Ovídio Alves Beraldo. Como era capitão, ficou meio acanhado ao assumir as novas funções. Tinha razão. Beraldo era um nome famoso entre os intendentes da FAB. Tinha vindo do Exército. Era durão. Veterano e fundador do Grupo, fez parte dos homens-chave de Nero Moura, que seguiram na primeira turma para a Escola de Tática Aérea de Orlando, na Flórida. Depois do Coronel Nero, era o número dois em antiguidade. Mais velho que o comandante, era também o decano do 1º Grupo de Caça. Homem sério e cumpridor do regulamento, não brincava em serviço. Amigo íntimo de Nero Moura, nunca tomou uma intimidade em nossa frente. Era "Coronel Nero pra cá, Coronel Nero pra lá". Nós imaginávamos que, na barraca, os dois sozinhos, o tratamento deveria ser outro. Lá fora, não - o regulamento vinha na frente. Quando gastávamos nosso soldo, muita vezes procurávamos Beraldo para desapertar com um adiantamento por conta: "Não me fale em dinheiro", atacava ele imediatamente. A tenentada, de molecagem, fazia fila e lhe pedia um "vale". O velho atendia ao primeiro com uma negativa, idem para o segundo, e assim por diante. Quando chegava ao oitavo já não agüentava mais e berrava: "Fora, não me falem em dinheiro", e mandava fechar a porta da tesouraria. A turma gozava. Passadas algumas horas, voltávamos a falar no assunto. Aí falava mais alto a figura humana... E Beraldo, meio a contragosto, nos atendia. Militar dos bons, intendente dos melhores! Pois foi a essa praça que coube ao Lavigne, o "Marisco" (veio da Marinha de Guerra), substituir na Itália. Beraldo passou-lhe o comando e regressou ao Brasil. Hoje está velhinho. Comparece às nossas reuniões acompanhado do filho. Quando entra na casa do Brigadeiro Nero Moura, a turma grita em uníssono: - "Não me fale em dinheiro!" E ele ri. Todos vão abraçá-Lo. Fez bons amigos entre os aviadores. Militar dos bons, intendente dos melhores! Lavigne ao chegar ao Grupo colou na ala dos colegas Camargo, Cauby e Guizan. Estes já eram veteranos. Como os três estavam integrados à vida da Unidade, principalmente aos pilotos, não foi difícil ao Lavigne passar, logo nos primeiros dias, a ser um de nós. Como o Beraldo, era um homem íntegro e sumamente disciplinado. Sua apresentação era impecável. Em qualquer situação, seu uniforme sobressaía dos demais. Dava gosto vê-Lo. Era um homem de um metro e setenta e poucos centímetros, esguio, mais para magro, com um bigode a Adolphe Menjou e de uma educação que fazia inveja a uma menina do Sion. Dentro do seu padrão, era um camarada alegre, gozador e grande contador de anedotas. Inteligente e culto, a gente gostava de ouvi-lo filosofar. Exerceu sua função de chefe como excelente profissional. Não houve solução de continuidade no serviço, quando substituiu o velho Beraldo. Tinha outra característica o Lavigne. Era bom, porque nasceu bom. Seu caráter forte logo marcou posição no 1º Grupo de Caça entre os pilotos. O pessoal do chão também lhe queria bem. Nunca se teve notícia de uma deslealdade deste homem extraordinário.

"Senta a Pua"
Ruy Moreira Lima


Cartão de Natal distribuído pela Cruz Vermelha do Brasil aos pracinhas brasileiros em 25 dez 1944
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O RADAR BRASILEIRO

O que aconteceu no Colombie durante a travessia merece um capítulo à parte. Certa noite, Perdigão e eu resolvemos fazer um número de emboladas. Acontece que na véspera, o velho Beraldo havia me confidenciado que tinha pressentimentos sobre a aproximação de submarinos nas vizinhanças do comboio. Depois de alguns comentários, concluí que ele era uma segurança para nós, pois funcionava como um verdadeiro radar. Beraldo inocentemente concordou. Na hora de separar os companheiros que iriam ser "rimados", deu número ímpar. Passei a dica do radar para o Perdigão, ficando o Beraldo com dois versos dedicados a ele, ambos catucando o caso do "pressentimento". À noite a turma se reuniu no salão, e nós entramos no circuito para cantar os versos. O refrão era da melodia "De babado sim, meu amor ideal de babado não". Cada verso era seguido de gargalhadas e gozações, traduzidas para os americanos pelo "troglodita" Torres. Troglodita em nossa linguagem queria dizer poliglota, e o termo nasceu por equívoco do Danilo. Tome verso aqui, tome verso dali, quando entrou a rima do Beraldo.

"O Comboio está feliz
E perigo já não há
Temos no Grupo um Major
Que trabalha de radar" (Rui)

"0 nosso major radar
Não deixa entornar o caldo
Seu nome todos já sabem
É o nosso major Beraldo" (Perdigão)

Com os versos de pé quebrado cantados acima, deu estouro no auditório. Os companheiros americanos divertiram-se com a piada e não perderam tempo. No dia seguinte o jornalzinho de bordo Star & Stripes publicava uma nota mais ou menos assim: "Agora podemos viajar tranqüilos, pois existe um brazilian boy que funciona como verdadeiro radar". Os arranjos jornalísticos foram feitos pelo Fortunato. O Velho não gostou da troça e pediu providências. Nero, com aquela sabedoria gaúcha e a autoridade de comandante, acertou os ponteiros entre Fortunato e Beraldo. É aí que entra o Medeiros. Ao anoitecer, foi ele ao beliche do Dr. Cylon Quintaes de Souza, ortopedista da equipe do Dr. Mario Jorge, que se incorporou ao Grupo nos Estados Unidos, sob a chefia do Luthero Vargas, junto com os médicos também convocados no posto de 2º tenente, Adolpho da Rocha Furtado e Wilson Vieira Chaves, e convenceu ao Cylon de que ele é que havia posto a nota no jornal. Em cima dessa história foram criadas mais mil e uma, todas falando da personalidade do Maj. Beraldo, onde dizíamos que ele estava zangado com o Cylon e que naturalmente iria prendê-lo no dia seguinte. Cylon argumentava que não falava inglês, logo não poderia ser o autor da galhofa. Seus argumentos caíam no vazio. Medeiros mandou uma comissão ao convés, pedir a todos os colegas que moravam naquele grande camarote de 150 beliches que, ao entrar no mesmo, falassem da raiva do Beraldo contra o Cylon. Assim foi feito, e depois de 45 companheiros contarem a mesma coisa ao Cylon, este começou a pôr em dúvida se teria sido ele ou não o autor da nota publicada. Foi quando "Boulanger", botando lenha na fogueira, aconselhou-o a responder a qualquer interpelação do Beraldo agressivamente, se possível até com ameaças de bofetão. Cada um contou histórias passadas no Panamá entre aspirantes e o Beraldo, todas elas concluindo que para evitar a ação do major, o oficial mais moderno tinha que sair "pra cabeça". Depois de muita conversa, Cylon compenetrou-se da atitude que iria tomar e aguardou o dia seguinte para enfrentar a fera. Não deu outra coisa, logo após o café estávamos jogando King quando o Major Beraldo se aproximou do grupo. Cylon começou a ficar vermelho. A essa altura, o Velho estava inocente de toda aquela trama. Como as coisas iam tomar um rumo imprevisível, Medeiros disse ao Beraldo: - "Major, aquele negócio do jornal foi obra do Capitão Fortunato, o Cylon nada tem a ver com isso". Beraldo que também queria gozar o Cylon, perguntou-lhe brandamente: - "Quer dizer que não foi o Sr, Dr. Cylon?" - "Não pô, eu não o conheço, e tem mais, não se meta comigo que o senhor poderá se dar mal". Beraldo com aquela energia e a seriedade que sempre nos manteve à distância, prendeu o Dr. Cylon na hora. Mais tarde foi solto. Explicamos o que tinha acontecido ao comandante e ao próprio Beraldo, e as coisas foram mais uma vez acertadas. O que narrei foi apenas uma das poucas gozações que aconteceram durante a viagem.

"Senta a Pua"
Ruy Moreira Lima



Lembrança da Páscoa do Expedicionário - 1945
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CRÔNICA SOBRE UMA REPORTAGEM

Rubem Braga, Saci-Pererê, Hotel Paineiras, Violetas Silvestres, Alemães Mortos
Eu estava escrevendo uma carta para casa quando Rubem Braga chegou. Simples, camarada, com um ar amigo de velho conhecido, trazendo nas ombreiras o distintivo de correspondente de guerra. Apresentei-me, cumprimentei-o. Ele também se apresenta: -"Rubem Braga". -"Tive imenso prazer em conhecê-lo pessoalmente." Foi o que lhe disse, depois. Apreciava-o desde o Brasil. Mais ainda agora, quando ele escreve, com alma de poeta, sobre o meu irmão soldado expedicionário. Chamo logo o Major Aguiar, velho amigo e chefe, que acompanho desde S. João Del Rei, meu atual Sub-Comandante de Batalhão. Este manda vir um café e gentilmente mostra a Rubem Braga a carta da região, a situação das companhias, onde estão os alemães, etc. Rubem Braga nos conta que passou uma boa temporada em Roma, nos conta as novidades da guerra, as novidades que não sabemos. Quem vem de trás sabe sempre mais que quem está na frente. Mas Rubem Braga veio para ver as coisas de perto. Quer ir, primeiras linhas. Pergunta antes se a frente está calma. Curiosidade ou prudência? Provavelmente as duas coisas a um tempo. O Major Aguiar me pede para acampanhá-Io, o que faço prazerosamente. Montamos no Saci-Pererê e lá vamos os dois pela estrada ruim. O capacete de aço pula na nossa cabeça de acordo com os buracos da estrada. Saci-Pererê é o nome de guerra do meu jipe. Fiz questão de batizá-Io com um nome bem brasileiro. Conversamos. Mostro-lhe curiosidades. Procuro facilitar-lhe o serviço. Na porta de velha estrebaria, atualmente habitada por soldados do meu Pelotão, vê-se pomposa tabuleta: "Hotel Paineiras". Naturalmente, Rubem Braga se recorda, como eu, do Rio de Janeiro, do Corcovado, do trenzinho... O nosso "Hotel Paineiras" é de fato uma habitação de luxo comparada às que vamos ver daqui a pouco. - "Você o que comanda?" - "Atualmente o Pelotão de Canhões Anti-carro. Mas, de vez em quando, comando Pelotões de fuzileiros. A guerra impõe coisas..." - "E antes?" - "Antes eu era advogado, Promotor de Justiça em Minas." - "Eu também sou advogado", diz Rubem Braga. - "Formei-me em Belo Horizonte." - "Eu também". - "Quando?" - "Em 40". - "Eu, em 32". E Rubem Braga prossegue. - "Foi uma 'canja' no meu tempo. Pegamos duas revoluções durante o curso. Formamo-nos em quatro anos. Fui para a Revolução Paulista como correspondente, quando voltei, estava formado." Vamos vendo, à beira da estrada, pequeninas margaridas silvestres, muito brancas e muito lindas. Violetas iguaizinhas às nossas do Brasil. Brotaram com a primavera onde, um mês atrás, havia neve. Trepam pela montanha, serpeiam pela estrada. Apresento o jornalista ao Capitão Mota. O Capitão nos recebe no seu quarto de dormir: um estábulo que até agora escapou ileso à fúria das bombas. Em torno da casa são só ruínas. Vamos ver as posições dos fuzileiros. Estamos na primeira linha. Rubem Braga vê, pergunta e toma notas no caderninho. - "Damos um pouco de sopa", o que quer dizer que nos mostramos aos alemães. "Dar sopa" é desaconselhável e perigoso. Mas o correspondente de guerra quer ver. Precisa fazer a sua reportagem. E depois os alemães não vão atirar agora, vão nada? Eles gostam muito de dormir durante o dia. O Capitão Mota aponta: - "Ali estão os alemães. E ali. E ali. Nossas patrulhas passeiam até lá todas as noites. Lá embaixo estão nossas posições falsas. Mal camufladas de propósito. Os alemães pensam que estamos lá e desperdiçam sempre muita munição de morteiro." Vemos alguns buracos de tatu. Lá dentro moram os soldados. O jornalista entra, curioso, em alguns. Conversa com os moradores. Anota seus nomes e endereços. Breve os jornais do Brasil darão notícia desses heróis a suas famílias. Todos estão alegres. Uns escrevem cartas para casa, outros lêem alguma rara e preciosa revista, a maioria conversa. Falam da namorada que deixaram na terra de Iracema, na terra do Senhor do Bonfim ou no Tejuco, aquele bairro manso de S. João Del Rei. Todos sonham com o fim da guerra e com a volta ao Brasil. A casamata de um sargento lembra um apartamento moderno, apertado e prático. Tem uma mesinha desmontável, para aproveitar o espaço. Fogão para aquecer a comida e espantar o frio nas noites geladas dos Apeninos. O Posto de Comando do Tenente comandante do Pelotão é um oco que se abre nas raízes de um velho e enorme castanheiro. Dentro, um relativo conforto... e telefone. - "Até logo, Capitão Mota." - "Até logo, felicidades." Logo adiante encontramos uns sfolati, ou seja, refugiados, que atravessavam as linhas, fugindo dos alemães. Espetáculo triste, cotidiano para nós outros, mas Rubem Braga quer ver de perto. Descemos do Saci-Pererê. Mandamos parar as vacas e os homens. Fazemos algumas perguntas. No bando há duas mulheres moças e bonitas. Conversamos com elas. Não devem ser pobres, observo, pois trazem jóias e relógio de pulso. Meu companheiro concorda. E dá um chocolate a uma criança linda, de uns três anos, que nos agradece contentíssima. Uma das mulheres traz no colo uma criancinha de três meses, que me faz lembrar uma outra, que está no Brasil. Todos os refugiados se mostram pressurosos por dizer-nos onde estão os alemães. Estamos cansados de saber. - "Buona Sera". - "Arrivederci". Mostro a Rubem Braga outras casamatas. Abrigos alemães aproveitados e melhorados pelos nossos homens. Mostro-lhe os nossos morteiros. Levo-o a outra Companhia. De novo, café. De novo, soldados valentes que amam muito a mãezinha que ficou no Brasil, que amam a sua morena, que amam o seu Brasil e sonham com o fim da guerra. Soldados bons e valentes, tementes a Deus, que guardam o seu chocolate para dá-Io às crianças refugiadas que fogem dos alemães. Rubem Braga vê túmulos de soldados nazistas. Admira-se de ver uma cruz tosca. mas bem feita, sobre um que estava à margem da estrada. Explico-lhe que foram nossos soldados que a fizeram. O jornalista despede-se. - " Adeus, Rubem Braga." - " Adeus. Sempre às ordens." Simpático esse jornalista. "Boa praça". Antes de se despedir disse-me que ia tomar uma cachacinha brasileira no posto de comando do Major Sizênio. Della Torraccia, 10 de abril de 1945.

"Crônicas de Guerra"
Cássio Abranches Viotti



Medalhas de Sangue e de Campanha da FEB
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MEDALHAS E CITACÕES

Até onde posso lembrar, o soldado do 6º RI não se preocupava com citações, elogios, condecorações e outras coisas assim. Durante toda a viagem marítima e durante os primeiros meses de campanha aquele assunto jamais entrou nas nossas cogitações. A razão - assim me parece - é que o infante estava, a princípio, muito interessado em conhecer os lugares novos a que chegara bem como os seus habitantes e, mais tarde, já em campanha, as suas preocupações eram as seguintes, por ordem de importância: sobreviver, ter o que comer, encontrar um lugar seguro e seco onde dormir, não importando fosse uma casa, uma estrebaria ou um monte de palha. Assim sendo, foi surpresa ler, no Cruzeiro do Sul, alguns relatos de façanhas impressionantes e citações de campanha feitas a componentes de outras unidades. Façanhas semelhantes tinham sido praticadas anteriormente pelos soldados do Regimento, mas passaram elas sem citação ou publicidade, mesmo porque ainda não havia jornal àquela época. A nossa oportunidade havia, assim, passado. E pronto. Mas a negligência continuou e, em maior amplitude, afetou toda a FEB. Tendo sido as condecorações criadas e regulamentadas por volta de agosto de 1944, não houve nenhuma providência no sentido de serem conferidas aos combatentes à medida que os fatos e ações em combate assim o impusessem, no próprio teatro italiano de operações. O soldado brasileiro passou toda a campanha sem ter-lhe sido conferida nenhuma medalha, nenhum sinal que evidenciasse a sua ação em combate, contrastando com os norte-americanos que ostentavam no peito uma regular "salada de frutas" constituída por passadeiras diversas. O efeito que uma medalha, uma citação, etc. tem sobre o moral do soldado é positivo, considerável e altamente desejável muito embora todos os condecorados afetem não dar importância às condecorações que ostentam. Nunca sucedeu que aqueles que vão ser condecorados deixassem de comparecer à cerimônia, cheios de nervosismo refreado. O mais inteligente, portanto, teria sido fazer a entrega de medalhas de campanha e condecorar aqueles que se salientaram em combate ainda no próprio teatro de operações. Provar-se-ia a cada soldado, e principalmente ao infante, que a sua pessoa e os seus esforços tinham grande importância para o êxito da luta e que tais esforços não eram ignorados e esquecidos - segundo o que constituía a impressão pessoal do próprio infante. O resultado teria sido altamente compensador, elevando o moral do combatente e contribuindo, assim, para o sucesso das operações de combate em geral. Entretanto foi o que se viu: só depois da chegada ao Brasil, quando a preocupação máxima de cada um era ir para casa, ir para casa, ir para casa, é que se começou a entregar as medalhas de campanha e, assim mesmo, na hora da refeição. O soldado entrava na fila do rancho e, junto com o pão ou a laranja, recebia a medalha que, se tivesse sido entregue alguns meses antes, significaria muito mais para ele e, quem sabe, o teria levado a esforços e sacrifícios maiores do que aqueles que, simplesmente e sem fito de recompensa, ele praticou na Toscana e nos Apeninos. O mesmo se poderá dizer daqueles feridos da FEB que, devido a providências tomadas com bom senso e boa vontade, foram enviados para hospitais nos EEUU da América, para serem submetidos a tratamento especializado. Lá, durante mais de um ano de permanência, também não receberam eles as condecorações a que tinham direito. Vestidos com a farda cáqui americana porque também não lhes foi fornecido nenhum uniforme brasileiro - ficavam eles atrapalhados para responder aos seus colegas ianques quando estes lhes indagavam se o Brasil não concedia medalhas aos seus soldados, nem mesmo feridos como estavam eles. No Brasil, a Medalha de Guerra - que o carioca apelidou de "não sou de briga" - foi entregue com solenidades e pompa a algumas poucas pessoas de projeção. Teria sido muito mais justo e decente empregar solenidades - embora simples - para condecorar o soldado raso, aquele fez a guerra e se deu todo a essa tarefa, pela dignidade de sua Pátria. Temos, entretanto, um outro aspecto do caso das condecorações. Quero referir-me ao fato de que, até a presente data, ainda são em grande número os expedicionários que esperam receber a sua modesta Medalha de Campanha, isso sem falar nas outras a que tenham feito jus. Em contrasto com tal situação, o autor destas linhas sabe de exemplos em que a concepção do que seja "esforço de guerra" foi ampliada a limites bastante elásticos. Vi, em 1946, numa das seções do Ministério da Guerra, uma senhora ostentando a miniatura da passadeira da Medalha de Guerra. Essa, senhora, cujo nome ignoro, é uma funcionária burocrática naquele Ministério. Qual teria sido o seu esforço de guerra ou contribuição "de modo direto ou efetivo para a organização da FEB" ou quais teriam sido seus serviços destacados de "assistência social aos componentes da FEB", como estabelece o aviso ministerial nº 2 982, de 9 de novembro de 1945, em face de suas funções puramente burocráticas? Cumpre ainda acrescentar que o Diário Oficial da União publica a concessão de outras medalhas de guerra a outras escreventes ou escriturárias do mesmo Ministério. E' publico e notório a condecoração com a Medalha de Guerra do proprietário de uma alfaiataria militar do Rio de Janeiro. Que fez esse senhor que pudesse ser classificado como esforço de guerra? Teria criado um modelo novo de uniforme que melhor se adaptasse às necessidades do soldado que ia combater na Itália? Teria ele ampliado a sua organização para fardar a contento e em curto prazo os componentes da 1ª DIE? Nada disso. As túnicas de gabardine, tipo FEB, para oficiais, confeccionadas pela sua organização, além da demora em ficarem prontas, raramente assentavam no corpo dos seus portadores. Quanto ao uniforme de brim verde-oliva era de péssimo material e corte hediondo, donde o apelido de "Zé Carioca" que o mesmo granjeou. Após a primeira lavagem esse uniforme ficava reduzido a dois terços do tamanho, tolhendo os movimentos de seu dono, além de expô-lo ao ridículo. Onde descobrir contribuição "de modo direto e efetivo para a organização da FEB" nessa transação comercial lucrativa para uma parte e mal assentada para outra? Vi, no Ministério da Guerra, em meio à zombaria de uns e comentários amargos de outros, um requerimento, deferido, no qual o autor pedia a concessão da Medalha de Guerra por ter sido instrução de um tiro de guerra em Santa Catarina em 1942 ou 1943. E, como esses, os exemplos se multiplicam. Aparentemente, a medalha "por esforço de guerra" continua sendo concedida a todos quantos a requeiram e mesmo àqueles que não tendo protetores complacentes, consigam, por um esforço de dialética, enquadrar o seu caso e seus feitos dentro do elástico "ad infinitum" critério seguido para a condecoração com a medalha também apelidada "nem te ligo". Pergunta o autor: o soldado que deixou seu lar e família, que enjoou a bordo, que sentiu medo, frio, sono e fome, que tomou parte ativa nas operações de guerra, não teria ele "contribuído de modo direto e efetivo ( o que mais direto e efetivo do que sua presença e sua ação...) para a organização da FEB?" Uma conclusão se impõe: além de serem corrigidas as falhas na entrega de medalhas de campanha aos expedicionários, é dever de justiça condecorar todos eles - principalmente aqueles que tenham sido soldados rasos - com a medalha de Guerra.

Túlio C. Campello de Souza
Instantâneos de um Tenente em Campanha
"Depoimento de Oficiais da Reserva sobre a FEB"



Insígnias da 10ª DivMth (E.U.A.), FEB e V Exército E.U.A.
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Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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