FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

O "Pracinha" Brasileiro


Pracinhas da FEB desfilando no Rio de Janeiro.
Foto escaneada do livro "Trinta Anos Depois da Volta" - Gen. Octávio Costa

O que chegou aos quartéis para compor o contingente da FEB, foi um verdadeiro mosaico racial. Esses homens, sem nenhum preparo militar, com baixo índice de escolaridade, muitos analfabetos, apresentavam os mais variados parâmetros antropométricos. Uma considerável parcela não possuía a saúde desejável, e a grande maioria apresentava sérios problemas dentários, bastando citar que, segundo as estatísticas, foram realizadas mais de 17 mil extrações na Itália. Como o período de campanha não ultrapassou 11 meses, podemos concluir que ocorreu uma média de 50 extrações por dia, índice nada lisonjeiro para uma tropa combatente. Foi dessa matéria prima que os oficiais da FEB (tenentes e capitães) tiveram que modelar o combatente brasileiro.

Joaquim Xavier da Silveira
"A FEB por um Soldado" - Biblioteca do Exército Editora - 2001



Os soldados foram transportados de trem da Vila Militar para o cais do Porto,
onde se encontrava o navio que os conduziria para a Itália.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção

É óbvio que não existe uma tipologia imutável de homem e de nacionalidade. Haverá mesmo quem possa afirmar que os homens são basicamente iguais, em todas as latitudes geográficas e raciais. parece fora de dúvida, no entanto, que todos nós somos talhados essencialmente pelo nosso sangue e pelo nosso passado cultural. Este núcleo cultural vai sendo amoldado, ao longo de nosso caminho, por influências de toda ordem de ambiente geográfico, de ambiente humano e por circunstâncias supervenientes, como a própria guerra. É sabido que, genericamente, carregamos conosco valores e complexos das 'três raças tristes', mas que o montanhês difere do praieiro, o caipira do malandro, o ribeirinho do pampiano; assim como a criança que hoje domina a televisão, está muito distante do seu avô que conheceu o radiogalena.

General Otávio Costa
Palestra proferida na Escola de Aperfeiçoamento de Oficiais - 1981
Fonte: Joaquim Xavier da Silveira
"A FEB por um Soldado" - Biblioteca do Exército Editora - 2001


Pracinhas da FEB - foto recolhida do site
http://www.segundagrandeguerra.cjb.net

Para sanar as deficiências dentárias, que eram muitas, foram contratados serviços de profissionais civis em seus consultórios, na cidade, cujos resultados, pela premência do tempo, não puderam ser perfeitos. Lembro que um soldado do meu Pelotão teve de extrair rapidamente diversos dentes e receber uma chapa, mas a dita cuja não teve a honra de chegar na Itália. Ficou nas águas do Atlântico... A alimentação era considerada satisfatória, tendo muito boa aceitação um suculento mingau servido depois do trabalho de educação física (corrida). Com a aproximação do embarque, houve a providência de maior consumo de verduras e ovos, tendo em vista melhor adequação alimentar para o futuro. O ovo cozido era do agrado geral. Quando algum praça declarava arrogantemente "não querer nem ovo" era porque estava muito contrariado ou doente, naquele dia. Convinha observá-lo... O fardamento adotado e distribuído para o pessoal da FEB, podemos dizer, de maneira geral, que foi abundante, mas de qualidade inferior e imprópria. Seus idealizadores devem se ter fixado na versão de que o destino da FEB seria mesmo a África. Das medidas de prevenção sanitária, eram as vacinas as mais desagradáveis, pela grande variedade de fins a que se destinavam (5 ou 6 tipos). Mas os praças suavizavam o sacrifício com a jocosidade: "de graça, até vacina é bom". 
Os sacos destinados à acomodação dos fardamentos e utensílios do pessoal, com as variedades "A" e "B" para as praças e mais o "C" para os oficiais, ganharam notoriedade no período de preparação, e, principalmente, no teatro de operações, quando serviram até para distinguir qualidades de combatentes. Nos preparativos para o embarque, as constantes arrumações de sacos, para efeito de vistorias, enchiam o "saco"' de todo mundo... As expressões "não querer nem ovo", "de graça, até vacina", "enchendo o saco" ou "saco cheio", ainda hoje usadas por todo o País, tiveram sua origem no lufa-lufa da organização da FEB. Naquele período final de preparação da tropa, funcionou no Regimento um sumário curso de esgrima à baioneta para oficiais (tenentes). Os exercícios da prática eram conduzidos por dois sargentos americanos (monitores), os quais se apresentavam pouco convincentes, talvez por trabalharem com oficiais também não muito entusiasmados com a aprendizagem. Os exercícios com arma (fuzil) eram precedidos de um aquecimento muscular um tanto cansativo. Procuravam imprimir um caráter de violência e mesmo ferocidade na aplicação dos golpes de apontar, arrancar, bater, etc. Participei desse curso com um pequeno número de tenentes, dentre os quais estavam os paraibanos José Alípio de Carvalho e Zafer Pires Ferreira, prezados companheiros. Os manuais (traduzidos) para aprendizagem dos diversos ramos de instrução foram distribuídos de maneira satisfatória. Um deles, o FM7-10-Manual de Campanha da Infantaria - era uma preciosidade. Continha tudo que pudesse ocorrer com a Companhia de Fuzileiros em campanha, mas tenho a impressão de que seus ensinamentos foram poucos observados... A expressão "a cobra vai fumar" era usada no Brasil, por gente do interior, como ouvi muitas vezes no próprio quartel, em oportunidades de preparativos para formaturas ou deslocamentos não previstos antecipadamente. Com a chegada na Itália, passaram a considerar que a cobra já estava fumando. Seria assim uma ficção da disposição do soldado brasileiro para enfrentar a guerra. A "cobra fumando" foi adotada oficialmente como símbolo da nossa Força Expedicionária.

Joaquim Urias de Carvalho Alencar
"Com um Pelotão na FEB"


Embarque dos soldados com todos os seus pertences, inclusive instrumentos musicais,
como o soldado da direita, portando uma cuíca.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção

Não há registros, porque naquele tempo não havia ainda esse tipo de pesquisa, mas é certo afirmar-se, com base na documentação existente, que, excluindo-se o corpo de oficiais, as classes mais favorecidas, o que hoje se pode denominar de classes "A" e "B", não integraram de forma expressiva a FEB. Componentes da denominada classe "A" eram de um número tão insignificante que não figurariam em nenhuma pesquisa; os da classe "D" formavam um contingente reduzidíssimo. A classe "C", aquela que na época era denominada "povinho", e hoje "povão", é que forneceu o grosso da tropa. Entre esses predominavam os oriundos do meio rural ou do pequeno comércio. Talvez essa composição social da formação da FEB seja a explicação de muita coisa, e também o motivo pelo qual os intelectuais, sociólogos e escritores nunca terem estudado ou escrito sobre este fenômeno político-militar que foi a FEB. Eis um aspecto a considerar. A verdade é que a literatura sobre a FEB é, em sua grande maioria, memorialista, escrita por ex-integrantes. inúmeros episódios políticos, posteriores à FEB, já foram estudados, debatidos, mereceram monografias, livros e interpretações várias, inclusive de autores estrangeiros. Sobre a FEB, sobre o soldado brasileiro que combateu no frio, na lama, muito pouco foi escrito.

Joaquim Xavier da Silveira
"A FEB por um Soldado" - Biblioteca do Exército Editora - 2001


O 1º escalão desembarca dos trens no armazém 10 do cais do porto, para ocupar
o navio transporte Gen. Mann, que já os aguardava.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

 

E FOI ASSIM... A má seleção de pessoal fez com que tivéssemos incorporados psicóticos e esquizofrênicos. Quando se falava em fazer um exame psiquiátrico em qualquer elemento, esses se revoltavam, pois havia, e ainda há, a crença de que é só para tratar de loucos, e eles não se consideravam loucos. (...) O estado de saúde da maioria dos brasileiros da época era horrível. As condições de higiene bucal nem se fala, eram vergonhosas. Bocas desfalcadas ou com um rosário de cacos, e fétidas. Estes eram em tão grande número que não houve tempo de tratá-los aqui, e o tratamento dos 'melhorezinhos' foi feito durante a viagem e lá mesmo na Itália.
E FOI ASSIM... que, com a seleção feita a trancos e barrancos e o treinamento com um material mais moderno, emprestado pelos americanos, a FEB foi considerada em condições de embarcar. Muitos preparativos, muitas manobras de despistamento, muita festa, muitas anedotas corriam, pois era voz vigente que a FEB não embarcaria. Conta-nos o Coronel Élber de Mello Henriques, em seu livro 'A FEB 12 anos depois', que o General Cordeiro lhe havia contado:

- Sabem porque a FEB não sai? Pois bem, a razão é simples:
A FEB não parte porque o comandante é DE MORAIS, o Comandante da Infantaria é DA COSTA e o Comandante da Artilharia não é de briga pois é CORDEIRO.

Mas, apesar dos pesares, a FEB tinha que sair...

Elza Cansanção
"E FOI ASSIM que a cobra fumou..."


Foto autografada por Walt Disney, escaneada de "O Globo Expedicionário" - página 151
do livro "O Brasil na II Guerra Mundial", em comemoração aos 40 anos da Vitória. Editora Globo

Walt Disney, atendendo gentilmente a um apelo de O GLOBO, e rendendo, assim uma homenagem a todos vocês, combatentes da FEB, interpretou especialmente para nós, na concepção magistral que a gravura reproduz, a já hoje histórica legenda com que os soldados do Brasil chegaram à frente italiana:" A cobra está fumando". Nesta última criação do artista de fama universal, temos uma Cobra realmente belicosa, em atitude correspondente ao sentido da frase. O seu não é o cachimbo da paz, dado a fumar ao estrangeiro na taba de Arakem. A cobra fuma de raiva, o bote armado, despejando contra o nazista toda a carga de peçonha dos seus dois Colts, que disparam simultaneamente. E, na expressão decidida de mais essa personagem do elenco de Walt Disney, o mesmo sabor do grito de guerra do "pracinha": "A cobra está fumando!" O humor intraduzível dessa epigrama que vem do mais profundo da alma do povo e ganha foros de lema para o combate. Um grito de guerra sem jactância, a modéstia irônica dos nossos bravos rapazes camuflando o seu próprio denodo. Com o dito espirituoso eles disfarçam o sentido heróico dos feitos que as crônicas registram e as ordens do dia do comando superior consagram em repetidos louvores. Walt Disney, que em sua passagem rápida pelo Rio de Janeiro colheu o estupendo flagrante de "Zé Carioca", lavra novo tento com essa perfeita representação gráfica da "verve" do Expedicionário, no símbolo de sua Cobra do desacato.

Um Herói nunca morre!

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