FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 



Oficiais do Comando do 1º RI encabeçando o desfile da unidade, em Piacenza, em comemoração
à vitória das Forças Aliadas na Itália. Ao centro, o Cap. Thomaz Castello Branco, tendo à sua
esquerda, o Cap. Moziul Moreira Lima e à direita o Ten. Carlos Costa e Souza.
Foto escaneada do livro "O Brasil na II Grande Guerra" - Ten. Cel. Manoel Thomaz Castello Branco

 

A VITÓRIA

OS HERÓIS DA FEB

"Glória a Deus nas alturas e paz entre os homens de boa vontade na terra". Com essa oportuna evocação bíblica, iniciou o Gen. Mascarenhas de Moraes sua brilhante ordem do dia 3 de maio de 1945, comemorativa da vitória aliada na Itália. Estava terminada a campanha e havia sido cumprida a missão que nos levara a além-mar. Fazendo um exame retrospectivo do conjunto de nossa atuação desde o desembarque do primeiro escalão, até o armistício de 2 de maio podíamos orgulhar-nos do notável desempenho da FEB A adaptação rápida que tiveram de fazer nossos oficiais e soldados aos modernos processos de guerra e às condições novas de terreno e clima; a vida no seio de um Exército Norte-Americano, exigindo grande esforço de nosso Estado Maior, para se ajustar a suas normas e diretrizes; a longa permanência longe da Pátria; o inimigo experimentado e tenaz, dominando posições quase inexpugnáveis; tudo isso provou ao máximo as qualidades morais e físicas de nossa tropa, seu elevado grau de disciplina e consciência do dever militar. Houve situações, como bem nos relatou o General Mascarenhas de Moraes, em que a Divisão Brasileira poderia ter sido totalmente aniquilada - frentes por demais extensas; pouca ou nenhuma tropa em reserva, para ser empregada numa situação de emergência; missões por vezes bem acima das possibilidades normais de uma Divisão; a tudo isso a 1ª DIE correspondeu à altura, impondo-se à admiração de nossos aliados e fazendo-se respeitada pelo inimigo. As palavras de exaltação aos nossos soldados, não são apenas figuras de retórica. Elas se baseiam em fatos reais. Lá estão, no bucólico Cemitério de Pistóia, as centenas de cruzes, para atestar o sacrifício dos homens que souberam ser bravos; espalhados pelo Brasil, estão centenas e centenas de mutilados e feridos, cujas cicatrizes são o testemunho vivo daqueles momentos supremos em que ofereceram a vida no cumprimento do dever, enfrentando as metralhadoras inimigas; aí estão, reintegrados no meio civil ou prosseguindo na carreira das armas, milhares que tiveram a felicidade de sair ilesos, mas sentiram bem de perto o silvar das balas e a explosão das bombas e granadas. O sofrimento dos soldados feridos não é apenas no campo de batalha. Prolonga-se depois durante os longos meses de tratamento, através da cadeia hospitalar, desde os hospitais de campo, onde recebem os socorros de urgência, até os hospitais de retaguarda e de interior, onde a cirurgia plástica e ortopédica procura corrigir os danos causados pelos estilhaços de granadas e balas. O ferido de guerra em geral é um poli-ferido. Dezenas de projéteis penetram simultaneamente em seu corpo. Quando escapa com vida, guarda sempre as marcas indeléveis das múltiplas cicatrizes.

"A Epopéia dos Apeninos"
José de Oliveira Ramos


Desfile da Vitória em Piacenza

Ocupação militar e retorno ao Brasil

Cessadas as hostilidades, a 1ª DIE participou da ocupação militar até 20 de junho, com o GT 1 em Piacenza, o GT 6 em Tortona-Voghera e o GT 11 em Salvatore, Alessandria e Solero. A 4 de maio, o General Truscott, que sucedera Mark Clark no comando do V Exército, ofereceu um almoço, em Verona, aos seus generais comandantes, em regozijo pela vitória. No dia 7, em Milão, foi a vez do General Mark Clark, que terminou a campanha como comandante do XV Grupo de Exércitos, reunir-se com os mais altos chefes militares aliados. No dia 11 de maio, a FEB fez rezar, na Catedral de Alessandria, solene missa em homenagem aos combatentes tombados no cumprimento do dever. Também em Alessandria realizou-se, no dia 13, um grande almoço de congraçamento da FEB e, a 19, na Praça Garibaldi, a cerimônia militar de entrega de condecorações brasileiras e americanas aos nossos heróis, com as presenças dos comandantes do V Exército e do IV Corpo, General Willis Crittenberg. Terminada a missão de ocupação militar, a 1ª DIE deslocou-se para a área de Francolise, onde estacionou aguardando o embarque de regresso ao Brasil. O General Mascarenhas regressou da Itália, em avião americano, chegando ao Rio de Janeiro em 11 de julho de 1945. O 1º escalão de retorno, comandado pelo General Zenóbio da Costa, e formado pelo GT 6, o mesmo que compusera o Destacamento FEB, chegou ao Rio de Janeiro, a bordo do "General Meigs", a 18 de julho de 1945, e foi recebido com a maior manifestação cívico-popular de toda a nossa história. Desfilou, pelas principais ruas da antiga capital, por entre a multidão entusiasmada. Especialmente convidados, participaram dessa extraordinária consagração dos nossos combatentes os Generais Mark Clark, Willis Crittenberg e um grupo de soldados da 10ª Divisão de Montanha. O GT 1 chegou no "Mariposa" a 22 de agosto, o GT 11 no "General Meigs" a 19 de setembro, e o Depósito de Pessoal retornou pelo "Duque de Caxias" e pelo "James Parker", que chegaram ao Rio a 22 de agosto e 3 de outubro. Preocupado com as possíveis conseqüências da presença da Força Expedicionária Brasileira, vitoriosa e prestigiada, na estrutura de tempo de paz do Exército Brasileiro, assim como suas eventuais repercussões políticas, cuidou logo o Governo de providenciar sua imediata dissolução. Isso aconteceu antes mesmo de seu retorno. Pelo Aviso Ministerial 217-184, de 6 de julho de 1945, o Ministro da Guerra determinou que as unidades da FEB ficassem, desde sua chegada ao Rio de Janeiro, subordinadas ao general comandante da 1ª Região Militar. Assim, à medida que desembarcaram, os integrantes das unidades expedicionárias foram tomando novos destinos, retornando às atividades do tempo de paz, adaptadas algumas unidades e desincorporados os reservistas. Da Força Expedicionária Brasileira, ficaram sua legenda e seu espírito; seus mortos em Pistóia, e, depois no Monumento Nacional aos Mortos da II Guerra Mundial; seus ex-combatentes, para sempre marcados pela guerra; e seu comandante, General Mascarenhas de Moraes, enquanto viveu, que dedicou o resto de sua existência a escrever sua história, a cuidar de seus mortos e a ajudar a reintegração dos "pracinhas" à vida Normal, num exemplo, de desambição, de desprendimento e de fidelidade a seus homens, sem paralelo entre chefes militares vitoriosos na guerra, em qualquer outro tempo ou país.

O valor da participação brasileira

A participação do Brasil na 2ª Guerra Mundial foi reconhecida por estadistas, como Roosevelt e Churchill, e por chefes militares, como Marshall, Mark Clark e Crittenberg. Se o Brasil houvesse formado ao lado das potências do Eixo e dado aos nazi-fascistas o apoio de seus recursos naturais e de suas áreas estratégicas, possivelmente se teria aberto em nosso território uma outra frente de operações e, de certo, teriam sido imensamente maiores as dificuldades enfrentadas pelos aliados. Em 2 anos, 8 meses e meio de guerra declarada, a presença do Brasil no conflito foi de extraordinária importância, pela cessão de seu território ao livre trânsito das forças aliadas, que tiveram no Nordeste o trampolim para o salto sobre o Norte da África, em uma época em que a autonomia dos meios aéreos e navais estava muito longe de ser o que hoje é. Acrescente-se a essa contribuição de ordem estratégica os recursos materiais postos à disposição, sobretudo o cristal de rocha, então indispensável para os instrumentos de comunicação.Ininterruptamente empenhada em combate durante 227 dias, a Força Expedicionária Brasileira muito contribuiu para derrotar as forças nazistas na península, avançando mais de quatrocentos quilômetros, libertando meia centena de vilas e cidades e aprisionando mais de vinte mil combatentes inimigos. Foi também expressiva a participação da Força Aérea Brasileira, através do 1º Grupo de Aviação de Caça. Em seis meses de sua direta participação em operações de guerra, cumpriu 445 missões, voou 6144 horas, lançou 4442 bombas, tendo destruído 2 aviões, 13 locomotivas, 1304 transportes motorizados, 250 vagões e carros-tanque, 8 carros blindados, 25 pontes, 85 posições de artilharia, 31 depósitos de combustíveis e munições e 3 refinarias. Dos 48 oficiais que realizaram missões de guerra, teve 16 baixas, sendo 5 abatidos pela artilharia antiaérea, 8 saltaram de pára-quedas em território inimigo e 3 faleceram em acidentes. Sintetizando essa admirável campanha, ficaram os nomes inapagáveis dos combates vitoriosos - Monte Castelo, Castelnuovo e Montese - e do cerco e rendição final - Colecchio e Fornovo di Taro. Monte Castelo, a 21 de fevereiro, é a vitória do valor moral, da tenacidade e da constância dos nossos "pracinhas", vingando o sacrifício de quatro tentativas fracassadas e quebrando o tabu do baluarte que já parecia ser inexpugnável. Castelnuovo, a 5 de março, é o combate de maior expressão tática, hábil manobra de isolamento do ponto forte de Soprassasso e de convergência de dois ataques sobre o lugarejo.Cabe a Montese, a 14 de abril, ter sido o mais sangrento e o de maior valia no âmbito geral da ofensiva, pela terrível reação oposta pelos nazistas e por abrir-se, naquele maciço, uma das portas que levariam à terminação da guerra na Itália. Fornovo, a 29 de abril, é a consagração da manobra estratégica e a colheita final da tenacidade e do silencioso heroísmo, dos sofrimentos e das angústias, de mais de sete meses de continuada luta.

As grandes conseqüências

As grandes transformações operadas no Brasil depois de 1945 têm suas sementes em nosso esforço de guerra, na contribuição estratégica do Nordeste brasileiro para a vitória aliada, e no sangue de marinheiros, aviadores e soldados sacrificados no cumprimento do dever. Nossa participação no conflito e especialmente o envio da FEB contribuíram para o restabelecimento da liberdade de imprensa; para integração nacional, pela completa eliminação das minorias nazi-fascistas; para a queda da ditadura e conseqüente retomada de nossa evolução democrática. Nossa colaboração para a vitória aliada ensejou a oportunidade histórica para a realização do grande projeto siderúrgico de Volta Redonda - alicerce do surto de industrialização e da iniciação de irreversível processo de desenvolvimento nacional. Combatendo, de igual para igual, com os melhores soldados do mundo, e assistindo, de perto, aos dramas de outros povos, o homem brasileiro aprendeu a confiar em suas próprias possibilidades e na valia de sua fraternidade, de sua democracia vivencial e da maneira brasileira de ser e de viver.

"Jornal da Guerra" - General Octavio Costa
Globo Expedicionário


Desfile da Vitória em Piacenza

Conseqüências da participação brasileira na guerra

A guerra chegara ao Brasil, e tinha sido necessário responder às novas contingências internacionais, às dificuldades de importação de mercadorias, produzir para os Aliados, ceder a eles o uso das bases aéreas e navais estratégicas, combater os ataques do Eixo no litoral e enviar uma força expedicionária para participar ativamente na guerra. Todo esse envolvimento, quando a guerra acabou, produziu conseqüências importantes, algumas imediatas, outras duradouras. Em termos econômicos, foi conquistada uma base para o desenvolvimento industrial no país, com a construção do complexo siderúrgico de Volta Redonda. Mas a economia brasileira, inserida na reorganização mundial do capitalismo pós-guerra, manteve sua fragilidade e dependência estruturais. Uma das motivações brasileiras para enviar tropas combatentes era a de conquistar um lugar de destaque na política internacional do pós-guerra. No entanto, ao recusar o uso de suas tropas como forças de ocupação na Europa destruída pelo conflito, perdeu a oportunidade da ganhar importância nessa reordenação mundial. Mesmo no continente, a aliança com os Estados Unidos não produziu os efeitos que se desejava, ou seja, uma proeminência brasileira na América do Sul, como aliado preferencial dos norte-americanos. Antes mesmo da guerra terminar, mudanças nos responsáveis pela política externa dos Estados Unidos e do Brasil alteraram as expectativas que cada governo tinha com relação à aliança conseguida para a guerra. Além do mais, aos Estados Unidos, como potência hegemônica do mundo capitalista, não interessava compartilhar o poder político no continente sul-americano com o Brasil ou com qualquer outro país. Na política interna, a participação na guerra significou a erosão do Estado Novo. Novos grupos políticos, na maioria conservadores e anti- Vargas, cresceram durante a guerra, em oposição a um governo que anteriormente apoiaram, quando o "perigo vermelho" justificava o fim dos direitos democráticos que agora tanto reivindicavam. Nessa reação conservadora, da qual participaram muitos que ajudaram a construir o Estado Novo, Vargas foi deposto, em 29 de outubro de 1945. A volta da Força Expedicionária Brasileira, vitoriosa contra o nazi-fascismo, foi transformada, por esses grupos políticos que assumiram o poder, em símbolo da resistência contra o regime de Vargas e contra o populismo que ele representara. Quase vinte anos depois, em 1964, os mesmo grupos conservadores, aliados a outros em ascensão, tomaram o poder com o golpe militar, e utilizaram a memória da participação brasileira na guerra como um dos pilares de sua legitimação histórica. Na guerra, diziam, combateram o totalitarismo. Quando voltaram, derrubaram sua versão nacional, o Estado Novo. Em 1964, davam continuidade à sua luta, agora contra o populismo de João Goulart. Mas essa era apenas uma parcela reduzida de oficiais militares, muitos já envolvidos politicamente antes da guerra. A maioria esmagadora dos brasileiros que lutaram na Europa não participou dessas articulações, e não obteve quase nenhum benefício de sua condição de veterano de guerra. Muito pelo contrário, aqueles milhares de homens que realmente participaram da luta tiveram como principal recompensa o esquecimento. Para entendermos as conseqüências que a guerra trouxe para aqueles que efetivamente participaram dela, é necessário lembrar que a maioria dos expedicionários foi recrutada no meio civil, nas classes mais empobrecidas e de menor escolaridade. Foram tirados de seus empregos, das escolas, de suas famílias, treinados e embarcados para a guerra. Por lei, teriam o direito de retomar seus empregos e estudos no retorno ao país. Vitoriosos, os expedicionários foram recebidos com grandes festas e homenagens, nas maiores concentrações populares de toda a história brasileira recente. No entusiasmo da recepção, vantagens e direitos foram prometidos para os agora ex-combatentes. O tempo passou, e começaram a surgir as dificuldades de reintegração social. Não houve, nem por parte do governo, nem da sociedade brasileira em geral, preparação para receber os jovens que voltavam. Estes, que viveram a experiência-limite que é participar de uma guerra, estavam naturalmente mudados. A maioria conseguiu retomar às rotinas da vida familiar e cotidiana sem muitos problemas. Uma parcela dos ex-combatentes, no entanto, encontrou dificuldades na readaptação às rotinas da vida civil, agravadas pela concepção popular de que voltaram "neuróticos de guerra". Alcoolismo e violência doméstica dificultavam a reintegração social. As pessoas já não queriam mais ouvir suas histórias de guerra, e não era raro ao ex-combatente ouvir de populares que o período passado na Itália foi mais um "passeio" que uma guerra de verdade. Os maiores problemas surgiram, contudo, na reintegração profissional. As leis que determinavam a retomada dos empregos nem sempre eram cumpridas, e mesmo quando isso acontecia, eram freqüentes as dispensas depois da readmissão, sob argumento de inadaptação, incompetência ou problemas de relacionamento. Ainda havia o fato de que muitos dos expedicionários tinham sido convocados justamente na faixa etária de aprendizagem profissional. Quando voltaram da guerra, não tinham emprego nem formação. Segundo as associações de ex-combatentes criadas logo após o seu retomo, o desemprego entre os veteranos brasileiros era contabilizado aos milhares. Essa situação contrasta com a de seus colegas de linha de frente, os veteranos de guerra norte-americanos, que apesar de somarem milhões e de representarem um alto custo para os cofres públicos, tiveram do governo de seu país um programa completo de reintegração social e profissional. No Brasil, o governo tentou solucionar o problema decretando leis, cujo cumprimento nunca foi seguido à risca. Apenas em 1988, com a nova Constituição Federal, os veteranos de guerra conquistaram o direito de uma pensão especial, como reconhecimento de seus sacrifícios na linha de frente. Os benefícios, no entanto, chegaram tarde demais para a maioria deles: dos 25 mil expedicionários, pouco menos de 10 mil ainda estavam vivos quando o reconhecimento foi aprovado. Ao esquecimento histórico de sua participação na guerra, acrescentou-se o esquecimento concreto, material. Por conta de uma confusão política e histórica, nem sempre bem-intencionada, a imagem dos ex-combatentes brasileiros foi associada aos militares que participaram do golpe de 1964. Devido a essa identidade equivocada - afinal, a FEB reunia em suas fileiras brasileiros de todas as classes sociais, regiões, etnias e posições políticas, inclusive comunistas - a memória da FEB tem sido questionada. Num esforço de revisionismo histórico, foi colocada em dúvida até a efetiva contribuição da FEB para a campanha dos Aliados, na frente italiana. É imperioso desfazer esse equívoco. Pesquisas históricas sérias, com metodologias adequadas, e que tentam manter-se distantes de preconceitos, mostraram que, se a atuação brasileira não foi decisiva para a vitória dos Aliados na Itália - e jamais poderia ser a de qualquer divisão de exército isolada, em meio a outras 23 divisões no mesmo Teatro de Operações - tampouco sua importância foi nula. Colocá-los como um ridículo exército brancaleônico ou ressaltar apenas seus problemas diz muito mais a respeito dos autores do que da própria FEB. É também um erro afirmar que a participação brasileira, com pouco mais de 25 mil homens, foi "simbólica". Não há nada simbólico na perda da vida de centenas de jovens, e nas marcas indeléveis que o horror da guerra deixou para os outros milhares de combatentes que retomaram ao Brasil. Soldados, aviadores e enfermeiras combateram o nazi-fascismo e deram de si a contribuição máxima que se pode exigir de um cidadão: defender a pátria com o risco da própria vida. Sua contribuição pode ter sido pequena, se comparada com as cifras de milhões que a Segunda Guerra Mundial exibiu. Mas não há relativismo histórico que anule o pequeno mas significante lugar que conquistaram na história da humanidade. Se não fosse por indivíduos como esses, lutando em todo o mundo contra a barbárie fascista, o presente livro jamais poderia ser escrito.

"Os Brasileiros e a Segunda Guerra Mundial"
Francisco Cesar Ferraz


Era só encostar a uma bomba de "gaz point" e encher o tanque...
Foto escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos" - José de Oliveira Ramos

O Norte da Itália estava transformado num país estranho e selvagem. Havia por toda parte um ambiente de carnificina, de guerra civil. Os soldados que vinham do front, cansados de sangueira, ansiosos por um pouquinho de paz, não compreendiam aquele fanatismo da população, aquela sede de sangue, de vingança. Eram o ódio gerando ódio, o sangue derramado clamando por mais sangue. Aquela população vira os desmandos do nazismo, os fuzilamentos de reféns, muitos tiveram parentes tombados, a execução de partiggiani tornara-se espetáculo habitual nas praças das grandes cidades. Quando se encontrava um jornal de poucos dias atrás, lia-se um noticiário sobre "bandidos" executados em praça pública. E agora, após a libertação, explodia o ódio sopitado. Era freqüente ver-se um linchamento ou julgamento sumário. O fascista apanhado pelos partiggiani era levado para a praça central da cidade, e as suas vítimas apareciam ali mesmo, com um relato de maldades contra o povo, contra os patriotas. Depois, era o fuzilamento no próprio local, diante da população enfurecida. Em Stradella, as mocinhas faziam questão de levar os seus fidançatos brasileiros à muralha do cemitério, onde havia sinais de balas e vestígios de sangue, lembranças do fuzilamento de alguns fascistas. De quando em quando, ainda aparecia um franco-atirador, querendo vender caro a vida ou tentando escapar dos guerrilheiros, para se entregar a soldados aliados. Em Cremona, um cartaz com letras vermelhas, à porta de um café da praça principal, convidava a população rural para o fuzilamento de um fascista, no dia seguinte, às 13 horas. Em todo caso, muita dor, muito luto. Um dia, encontraram-se pertinho de Stradella, num poço, os despojos de seis guerrilheiros, filhos da cidade, mortos semanas atrás pelos fascistas. Foi um dia lúgubre, as lojas fechadas, as casas de janelas cerradas, por toda parte fitas de crepe, e o sino da igreja dobrando merencório. Ao mesmo tempo, parecia sincero o entusiasmo da população pelos seus libertadores. No entanto, era bem freqüente ver, sobre uma casa bombardeada, uma inscrição a piche: "Destruída pelos libertadores anglo-americanos." Apareciam ainda cartazes com um homem de cor agarrando uma mulher loira, e a legenda: " A libertação que vocês quiseram!" Essa propaganda, oriunda dos fascistas remanescentes, parecia a princípio não afetar a população. Não passaram, porém, muitos dias, para surgirem ressentimentos. Em breve, nas conversas com os civis, passou-se a ouvir freqüentes referências à carestia e à escassez dos gêneros. Em Stradella, por exemplo, todos diziam que não chegaram a sentir privações rigorosas nos últimos meses da guerra, pois os partiggiani controlavam virtualmente a região, e os alemães não conseguiam levar nada de lá. Agora, porém, tudo estava caríssimo e difícil. Os partiggiani que voltavam das montanhas irritavam-se com aquela afluência de militares estrangeiros em suas cidades. Os soldados pareciam milionários, em face da população desprovida de tudo. E eram rivais poderosos junto às mocinhas. Os outros tinham sofrido o diabo nas suas montanhas, estavam cansados e abatidos, continuavam miseráveis e sem perspectivas para o futuro, e viam chegar aquela turba de moços uniformizados, recebidos como libertadores, beijados em praça pública, coroados de flores. E os liberatori traziam os bolsos cheios de cigarros e chocolates, tinham longas conversas sobre a pátria distante, eram a novidade, o exótico. Percebia-se também, por trás de tudo aquilo, uma transformação política em curso. Como? Em que sentido? O que se podia saber? Estava-se perto demais dos acontecimentos, via-se apenas um pálido reflexo da situação geral. Recebendo uns praças brasileiros para un bicchiere, o proprietário rural censurava os Aliados por não terem chegado mais cedo, a fim de impor um pouco de ordem no país e evitar os desmandos. Por outro lado, porém, eram comuns entre o povo palavras de simpatia pelos russos, percebia-se na opinião pública uma forte guinada para a esquerda. Havia algo de estranho na organização apressada da vida italiana sob a libertação. Difícil compreender aquela gente. Os rapagões desciam das montanhas, sujos, barbudos, de cabelos compridos, maltrapilhos, mas eram muito diferentes dos italianos servis que se conheceram mais ao sul. Voltavam vitoriosos, para encontrar a pátria vencida, esfacelada. Poucos dias após a entrada dos Aliados, fechavam-se os núcleos do Comitê de Libertação Nacional e, em seu lugar, surgiam os escritórios do Governo Militar Aliado. O soldado americano, o praça brasileiro, o inglês, o hindu, o polonês, todos pisavam a infeliz Itália, todos eram liberatori, mas também os ocupantes, os estrangeiros que não compreendiam o calvário dos filhos da terra. De 462 000 partiggiani que lutaram pela libertação do seu país, haviam tombado 76 500; e, no entanto, os conquistadores triunfantes não viam naqueles rapazes os seus companheiros de armas, que derrotaram o alemão nas principais cidades do Norte em combates duríssimos, antes da chegada dos Aliados. Fazia poucos dias apenas, o general alemão Von Meinhold firmara em Gênova uma ata de rendição, entregando-se com os seus quinze mil soldados àqueles mesmos partiggiani barbudos e maltrapilhos, em cujo nome assinara o documento o operário Remo Scappini, presidente do Comitê Nacional de Gênova. Os brasileiros costumavam caçoar da mania dos partiggiani de andar com um verdadeiro arsenal pendurado no corpo. Mas aquilo constituía certamente manifestação de orgulho nacional, era uma atitude que significava: "Vejam bem, são as nossas armas, esta terra é nossa, e nós a conquistamos com o nosso sangue!" Pobre orgulho! Não tardou o desarmamento dos partiggiani, que passaram a andar desarmados como os brasileiros. Alguns soldados contavam que viram em Piacenza um grande desfile de guerrilheiros, depois do qual cada um foi depondo as armas. O que sabiam os praças, o que podiam compreender de tudo aquilo? Alguém lhes falara, acaso, dos operários de Turim, que se aferraram com unhas e dentes às fábricas ocupadas durante a insurreição, e que enfrentaram ali os tanques alemães? Estava-se perto demais da eterna cantilena de una sigaretta, paisano, da miséria, da degradação moral, de todas as vilanias que se presenciaram. Os praças ficaram tontos, desnorteados. "Abaixo o rei! Morra o rei!" - via-se escrito nas paredes. E, ao mesmo tempo, reinstalava-se o regime monárquico, os homens de Badoglio acompanhavam de perto a marcha dos soldados anglo-americanos. Cessavam os fuzilamentos, mas iniciava-se uma fase de privações nada heróicas, com as liras de ocupação inundando o mercado, com o desemprego, o banditismo, a falta de perspectiva de uma grande parte da juventude, e, infalivelmente, a prostituição, o câmbio negro, a jogatina desenfreada.

"Guerra em Surdina"
Boris Schnaiderman

 

 

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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