FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

O CONQUISTADOR SOLITÁRIO

 

 

 

Sumidouro de centenas de vidas patrícias, a sua captura (Monte Castelo) pelas nossas Forças constituiu um dever de consciência e um imperativo de dignidade militar. Assinalou o início de uma série de vitórias que elevaram o nome do Brasil e o prestígio do nosso Exército.

Mal. J. B. Mascarenhas de Moraes
"A FEB pelo seu Comandante"

 


Corpo insepulto encontrado em Monte Castelo
Foto escaneada do livro"100 Vezes responde a FEB" - Marechal José Machado Lopes

O valor do maciço Belvedere-Castelo residia, é sabido, de imediato, em espiar para dentro de nossas linhas, num raio de 10 milhas. Todos os nossos movimentos de retaguarda apesar das caprichosas dobras em que o terreno se vai adoçando, do maciço aos vales do Sila e do Reno, eram difíceis de disfarçar. E o inimigo nos canhoneava, comodamente, do alto de suas posições dominantes, o recurso da neblina artificial, envolvente, irritante, a nos roubar o sol e impotente para evitar o sigilo do tráfego; urgia tomá-lo a qualquer preço. Contra nós tramavam, porém, mais que a vigilância do boche, a neve e o frio, entorpecentes, desconhecidos de nós outros, filhos dos trópicos - 18 graus abaixo de zero, marcava tantas vezes o termômetro, ao relento das frígidas madrugadas dos Apeninos... Atacamos, todavia; o soldado tem que ser superior ao tempo, diante de resultados compensadores. Várias tentativas se frustraram, antes que obtivéssemos a espetacular vitória de fins de fevereiro. Frustradas, sim, mas repassadas de atos heróicos dos soldados do Brasil! O mais emocionante deles foi, sem duvida, o que resultou do ardor ofensivo do Sold. JOÃO F. SILVA, (da Cia. Mandim, 3ª, e Batalhão Uzêda), e que só o êxito assinalado permitiu conhecer: Seu cadáver foi encontrado, semi-conservado pela neve, em atitude agressiva, fuzil em riste, na plateau do Castelo, já dentro do que fora antes, uma linha interna do reduto alemão. No ardor da refrega, João Silva não se dera conta que seus camaradas haviam já pago com a vida a audácia do temerário ataque: avançara sempre, só, resoluto, intimorato, em meio aos "rasga-trapos" das lurdinhas e ao ensurdecedor ribombar dos morteiros, encostas acima - nada o acovardou, sequer pensou em si. Levava no recesso do peito ofegante um coração brasileiro e diante dos olhos aguerridos, numa alegoria do dever, a imagem da Pátria distante, que buscava desagravar frente ao boche fanático e em terras estranhas. Certo, tinha consciência da morte. Sabia que não voltava. Tampouco, que poderia vencer. "Sei que morro" terá pensado, pressentindo seus últimos instantes de vida, "mas ainda que cadáver, meu corpo balizará, no topo do Castelo, o rumo da vitória aos companheiros que vierem depois". E tombou como um conquistador, solitário embora, linhas inimigas a dentro! Mas tão logo a primavera repontou nos Apeninos recalcando a neve e atenuando o frio, seguindo as pegadas já quase ilegíveis de João Silva, seus companheiros foram buscar seu corpo e o "monte tabu" tombava às mãos dos briosos infantes do Regimento Sampaio! JOÃO SILVA ! Fostes vingado! E teu exemplo ficará para sempre, como um símbolo: o do infante brasileiro que empunhando o seu fuzil, só vai à batalha para vencer ou morrer! Possa tu ouvir, do recesso dos céus, Soldado João Silva, a homenagem que te prestam o teu Cmt. e os teus camaradas do Sampaio, e que tua bravura nos inspire, a todos nós, no rumo da vitória contra o tirano alemão.

"Do Terço Velho ao Sampaio da FEB"
Ten. Cel. Nelson Rodrigues de Carvalho


Corpos de soldados brasileiros em Monte Castelo, 1945. Itália.
Arquivo Diana Oliveira Maciel

Alguns soldados nossos foram baleados bem pertinho do cimo do morro. Seus corpos lá estavam como um testemunho mudo da bravura daqueles heróicos camaradas. Houve um que muito me impressionou. Estava bem distante dos demais companheiros; tinha atravessado todo um campo de armadilhas de minas, e desbordado duas casamatas alemãs, morrendo com um tiro na nuca, partido da retaguarda, sem dúvida de uma das duas casamatas. Que impulso formidável não moveu esse soldado desconhecido para atravessas sozinho tantos perigos, em busca da meta desejada? Não consegui saber seu nome. Não importa; ele para mim representava bem o soldado desconhecido, a coragem anônima do soldado de infantaria. Que magníficos atos de heroísmo não deve ter praticado, que não poderão jamais se relatados, porque ao seu lado só havia mortos. É o caráter impessoal das batalhas, que anula muitas vezes os atos mais dignos de serem destacados. Aquele soldado brasileiro morto quase no cimo da montanha era para nós um símbolo do sacrifício anônimo.

Joaquim Xavier da Silveira, 1º RI
"Cruzes Brancas - O Diário de um Pracinha"


Evacuação de feridos - Monte Castelo
Foto escaneada do livro"100 Vezes responde a FEB" - Marechal José Machado Lopes

43ª Pergunta: Quais as causas dos insucessos dos ataques a Monte Castello?
Resposta: Foram as principais causas determinantes:
a) Forças atacantes não proporcionais ao objetivo atacado. Monte Castello constituia parte integrante de uma posição defensiva, meticulosamente organizada, onde se encontravam até abrigos e posições de tiro concretadas.
b) Falta de preparo da tropa de ataque. Tropa chegada à frente nas vésperas do ataque, sem ser efetuado os reconhecimentos imprescindíveis.
c) Condições desfavoráveis do terreno de ataque. Encostas ingremes e escarpadas oferecendo ao defensor ótimos campos de tiro.
d) Falta de apoio aérea e mesmo de artilharia devido às más condições atmosféricas em que foram realizados os ataques.
e) Dias curtos (anoitecia às 17:00 horas) e chuvosos tornando o terreno lamacento e escorregadio.
f) Nunca pela falta de espírito combativo e coragem do homem brasileiro, pois isto atestam as 1.000 baixas sofridas em ação e os quarenta e dois cadáveres insepultos encontrados no cimo do fatídico Monte Castello, quando da sua conquista em 21 de fevereiro de 1945.

"100 Vezes responde a FEB"
 Marechal José Machado Lopes


Abrigo concretado encontrado em Monte Castelo
Foto escaneada do livro"100 Vezes responde a FEB" - Marechal José Machado Lopes

CONVERSA COM FRITZ

A guerra para este típico representante da atual "Wermacht" terminou ontem à noite, quando ele foi feito prisioneiro por uma patrulha brasileira, aqui na frente. É um homem de quarenta e dois anos de idade, o rosto rasgado de rugas, os olhos pisados e úmidos, unhas sujas e compridas, as divisas de cabo quase soltas no uniforme batido e cheio de remendos. A bala do fuzil de um pracinha lhe acertou na mão esquerda, que ele agora trás numa tipóia. Os pés estão enterrados em duas lembranças remotas de sapatos - uma confusão de pedaços de mantas cortadas em tiras enlameadas. A águia germânica, no seu casquete, tem uma asa partida. Quem nos leva até sua presença é o tenente Gustavo Carlos Stal, um dos nossos intérpretes. "Fritz" - chamemo-lo assim - acaba de ser interrogado pelas autoridades militares brasileiras, e agora está à disposição dos jornalistas para uma entrevista de alguns minutos. Pergunto-lhe, primeiramente, o que ele pensa da guerra. Fritz responde: - Nós perdemos a guerra. Todos nós, no exército, sabemos disso. E mais: - Passei três anos na Rússia. Estive na Staraya Russa e recuei depois, com meu batalhão, para a Polônia. Tive dias de licença na Alemanha e depois me mandaram para a frente italiana. Pergunto-lhe sua opinião sobre o soldado russo. Ele respondeu: - Nunca vi o soldado russo brigar. Quando eu estava na frente soviética, era considerado velho e fazia serviço de retaguarda, nos hospitais. Pessoalmente, sempre me dei bem com os russos. É uma gente alegre e forte. - Quando é que você acha que a guerra termina? - Pode acabar de uma hora para outra. As coisas na Alemanha andam muito ruins. A Gestapo domina tudo, é verdade, mas a situação pode mudar de uma hora para outra. - Você e nazista? - Nunca fui. - Que pretende fazer depois da guerra? - Se me mandarem de volta para a Alemanha, começo tudo de novo. Mas quero encontrar uma Alemanha diferente, livre dos nazistas. Hitler foi a nossa desgraça. - Como é que você passou o Natal? Então os olhos de Fritz ficaram úmidos. Ele disfarçou e passou a manga do uniforme pelo rosto. Respondeu: - Eu havia recebido uma carta de casa, na véspera. Estava de licença, e na noite de natal organizei uma pequena festa com alguns companheiros. - Vocês receberam alguma mensagem ou presentes especiais no Natal? - Alguns oficiais receberam embrulhos não sei de que. Nós não recebemos nada. - E roupas para o inverno? - Até agora não vieram. Eu, por exemplo, me arrumei como pude. Quando estive em casa pela última vez, em novembro, trouxe de lá um "pullover" civil e dois pares de meias de lã. Há dias comprei de um italiano estas calças grossas que visto por cima da ceroula. Disseram que logo que caísse a primeira nevada, seríamos substituídos por tropas especiais de inverno. Muitas dessas tropas já chegaram, aparelhadas para o inverno, mas até anteontem não havia indícios de que iam nos mandar para a retaguarda. - Que tal a comida de vocês, aqui na frente? - Não é grande coisa, mas é melhor do que a do civil alemão. - Como é que os alemães estão atravessando este inverno? - Falta carvão. Falta também batata. Há dois anos, porém, que o inverno tem sido assim. Não acredito que este de agora seja pior do que o do ano passado. Meu colega Francis Hallaway, da BBC, perguntou ao cabo alemão o que ele achava do soldado brasileiro. O cabo respondeu: - São muito violentos e agressivos. Lá na nossa frente, os tenentes e os sargentos nos avisam diariamente para termos cuidado com os brasileiros. - Hitler já visitou a frente italiana, depois da queda de Mussolini? - Que eu saiba, não. - Você ouviu o discurso dele, no dia primeiro. - Soube que ele ia falar, mas não escutei. Que é que ele disse? - Que os alemães devem fazer um pouco mais de sacrifício, pois a vitória é certa. O cabo Fritz não respondeu nada: sorriu tristemente para o nosso intérprete, tirou o casquete e passou a mão pelos cabelos crescidos e emaranhados. - Há muitos homens da sua idade nas divisões alemãs na frente italiana ? - Há muitos. Há também muitos veteranos, como eu, da frente russa. Mas as tropas S.S. geralmente são constituídas de gente moça. - Qual será o fim de Hitler? O cabo voltou a sorrir seu sorriso triste e sem vontade. Fez um gesto com a mão, e respondeu: - Sei lá. Mas se eu fosse ele, me matava. Dois "PM" brasileiros, altos e fortes, entraram na pequena sala e pediram licença ao tenente para levar o prisioneiro. "Fritz" bateu continência para o tenente e fez menção de nos estender a mão. Mas ficou só na intenção. Retirou-se depois, de cabeça baixa, e lá se foi encolhido e friorento entre os dois pracinhas brasileiros.

"As Duas Guerras da FEB"
 Joel Silveira


José Teixeira de Souza em Monte Castello, portando uma metralhadora alemã.
Arquivo Cinthya Teixeira 

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QUATRO HERÓIS

Chama-se o primeiro, Cesário Aguiar, soldado que pertencia à 8ª Cia. Modesto, muito disciplinado,  escreveu com a sua bravura uma das mais belas páginas desta guerra. No dia 1 de outubro o fogo inimigo era intenso, particularmente na frente da 8ª Companhia na região de Ponte Cavaloro. O seu Comandante de Pelotão determinou que os grupos ocupassem determinados pontos estratégicos. No momento em que os companheiros tomavam posição nos locais escolhidos surgiu o inimigo feroz, ameaçador. Cesário não trepidou. Abriu fogo com a sua arma automática e os primeiros adversários caíram. Recebeu uma rajada inimiga que lhe dilacerou uma das pernas. Não se intimidou. Arrastou-se para nova posição e imediatamente abriu fogo. Outros inimigos são abatidos pelo fogo certeiro do valente soldado brasileiro. Várias metralhadoras convergiram o fogo sobre o seu corpo semi-inconsciente que soltou o último suspiro agarrado à sua arma. Graças a essa ação decisiva os companheiros puderam rechaçar o inimigo que deixou no campo de batalha vários mortos e feridos. Uma morte gloriosa, digna de quem presa o nome sagrado de soldado. Morreu de arma na mão no sagrado cumprimento do dever, mostrando-nos que esta geração é da mesma qualidade de que a dos nossos ancestrais em bravura, heroísmo e patriotismo.

No contra-ataque do dia 31 de outubro na região de Monte de São Quirico, quando acionava os seus subordinados para fazer frente ao agressivo inimigo, foi atingido nas pernas por rajadas de metralhadoras, o 1º Tenente José Maria Pinto Duarte. Mesmo ferido continuou a orientar os seus subordinados até que, com grande hemorragia, era humanamente impossível continuar na sua missão. O inimigo atacava violentamente e em grande número e o fogo intenso. Os companheiros tentaram transportá-lo para as nossas linhas da retaguarda. Demonstrando um alto espírito de sacrifício pediu que os companheiros o liquidassem para que não caísse prisioneiro e que se salvassem. Um bravo não merecia um fim tão inglório. Os companheiros levaram-no até um local abrigado com o intuito de ir buscá-lo mais tarde. Posteriormente uma patrulha, sob o comando do Capitão Atratino Côrtes Coutinho, retomou ao local, sendo recebido por intenso fogo que feriu vários componentes da mesma. Terminada a guerra, o Cap. Atratino tornou a voltar ao local, encontrando o corpo deste bravo brasileiro que morreu como soem morrer os verdadeiros soldados - no Campo da Honra.

Ainda no contra-ataque do dia 31 de outubro perdemos o Aspirante a Oficial, José Gerônimo Mesquita, moço forte, cheio de aspirações e de uma bravura invulgar. Era constantemente determinado para fazer patrulhas, cumprindo sempre as missões impostas com rara eficiência. Espírito bom, era muito estimado por seus subordinados que o adoravam pelos grandes dotes de coração que era possuidor. No contra-ataque do Morro de São Quitico, morreu bravamente, defendendo até a última gota de seu sangue a posição conquistada de véspera, após grandes esforços. A notícia correu célere e encheu de tristeza a todos do Regimento que se acostumaram a ver no heróico Aspirante um exemplo vivo de amor ao cumprimento do dever militar por ele cultivado com o máximo carinho. Pertencia à classe dos homens cuja idéia de recuo nunca lhes passa pela mente, apanágio das qualidades guerreiras do soldado brasileiro. Teve morte digna dum Comandante. Defendeu até o último alento de vida o terreno conquistado, orientando o seu Pel. O seu corpo foi encontrado no final das hostilidades dentro de um campo de mina.

Ao seu lado outro herói anônimo, o 2º Sargento Geraldo Berti que acompanhou fielmente o seu Cmt. de Pel. até a morte. São exemplos que dignificam o soldado brasileiro e realçam o valor da nossa raça. Todos esses heróis repousam ao lado de tantos outros no Cemitério Brasileiro de Pistóia, até chegar o dia do repouso eterno na terra Pátria que com tanto amor defenderam, sacrificando-se com dignidade na defesa das tradições dos que tiveram a felicidade de nascer no Brasil.

"O Sexto Regimento de Infantaria Expedicionario"
Antorildo Silveira

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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