FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

Sim, aqui é Castelnuovo


O 9º BE se apossa da ponte sobre o Rio Panaro, antes de sua destruição
Foto escaneada do livro "100 Vezes responde a FEB"
Marechal José Machado Lopes

Nevou a noite inteira, de maneira que o cume de Monte Castelo, conquistado pelos brasileiros, tomou assim como a forma de um imenso bolo de noiva. Deixamos lá o Coronel Franklin e seus pracinhas e agora, manhã bem cedo (que frio, meu Deus !), tomamos o rumo da direita, em direção a Castelnuovo, igualmente já em nossas mãos. Mas tomamos o caminho errado e, em vez de Castelnuovo, fomos nos bater para os lados de Roncore. Encontramos lá a 4ª Companhia do 11º Regimento de Infantaria, sob o comando do Primeiro- Tenente Rui de Oliveira, carioca da gema. Seus homens haviam partido na tarde anterior, e,em coordenação com a 3ª Companhia do 6º Regimento, haviam anulado toda possível resistência alemã em cima da montanha. Quando a Companhia do 6º, comandada pelo Capitão Aldenor da Silva Maia, chegou a Castelnuovo, os soldados do Tenente Rui fincaram pé em Roncore. Claro que não passaram uma noite tranqüila: o chão em volta, castigado duramente pelos obuses, os tetos aluídos das casas e as árvores completamente desgalhadas pelas "lurdinhas"' , nos contam o que ali aconteceu nas últimas 20 horas. Como atenuante, muito parca, para tudo aquilo, havia apenas uma bojuda garrafa de vinho chianti, espesso e de um vermelho de sangue velho, encontrada no porão de uma das casas, e que depois de algumas vacilações (Cuidado, pode estar envenenado. Deve ser truque dos alemães') , acabou sendo consumido até a última gota pela totalidade do Pelotão, meio gole para cada homem. Informamos ao Tenente Oliveira que queríamos chegar o mais breve possível a Castelnuovo. Ele tirou o capacete, coçou a cabeça e disse: Rapaz, para falar a verdade, eu também não sei o caminho. Só sei que deve estar tudo minado por aí. Cheguei aqui ontem à noite e os tedescos ainda não me permitiram reconhecer o terreno. Sei que aquilo lá em cima - apontou para um conjunto de casas dispostas num cocuruto defronte - é Castelnuovo. Mas não sei ainda como se chega até lá. Há um caminho aqui à direita, mas, como disse, deve estar todo minado. - Algum jipe já passou por eles ? - Que eu saiba, não. - Mas dá para passar com o jipe? - Acho que dá. - Então vamos embora. Vamos, mas não imediatamente. O reflexo da máquina fotográfica do Thassilo Mitke (misto de correspondente e fotógrafo) parece que despertou a atenção de algum observador alemão, escondido em qualquer crista, e logo os morteiros começaram a explodir perto, furando o chão coberto pela neve e espalhando terra negra por todos os lados. O tenente me puxou por um braço e mergulhamos os dois no foxhole mais próximo. Ficamos lá dentro uns 10 ou 15 minutos, gastando o tempo numa conversa vária. O tenente me falou das cartas que recebera na véspera e disse que numa delas veio também a foto mais recente dos seus filhos, dois meninos, Paulo e Celso. Ambos - dizia a carta - esperam que a guerra acabe logo para que tenham seu pai de volta a casa. Desejo, penso, que é o de todas as crianças, no mundo inteiro, que têm seus pais na guerra. O dono do foxhole onde iríamos nos abrigar era o Cabo Luiz Gomes Leite, de Recife. Quando o tiroteio era mais cerrado, ele botou a cabeça pra fora do buraco e perguntou:  Tem alguém aí? O tenente respondeu: Estou aqui com o Correspondente. Vamos pular aí para dentro. Depois do tiroteio, foi o silêncio - um silêncio transido, expectante. Deixamos o foxhole, subimos no jipe que o pracinha Adão logo pôs em movimento, dizendo: á vamos tarde. Tomamos o caminho estreito e irregular , aos sacolejos, os ouvidos ainda doendo com as explosões recentes. O caminho sobe pela montanha nua, mas dos lados são campos verdes, com manchas brancas de neve - mais parecem campos de paz. Porém as minas os transformaram em latifúndios da guerra, e basta um passo em falso, fora do caminho, basta o jipe escorregar menos de um metro sobre a grama, e fatalmente pisará numa mina. Estas seis casas semidestruídas (da janela de uma delas ainda pende um colchão muito pequeno, que deve ter pertencido a algum menino ou menina) são o povoado de Sopra. Quatro pracinhas da 4ª Companhia nos recebem, todos de barba espessa e olhos machucados. Um deles pergunta para onde vamos. - Castelnuovo. - A pé ou de jipe? - De jipe. - Pois ali adiante, bem no meio do caminho, tem uma mina. Vocês devem tomar o atalho que nós já fizemos na grama. A mina é em forma de uma caixa de marmelada e dela sai um arame que se estende entre as duas margens da estrada. É apenas uma linha fina, quase imperceptível (à noite, ninguém poderia enxergá-la), tal e qual um fio de seda, mas é como se fosse um paredão de concreto. O jipe desce, como se desabasse, pelo barranco, sobe mais adiante, fungando como um touro com raiva. Adiante há um vão aberto entre os montes, e enxergamos lá embaixo o estreito e coleante Rio Marano, que o sol invernal transformou numa fita de prata incrustada no fundo do vale. Parece que não iremos chegar tão cedo ao nosso objetivo: à nossa frente, como um gigante que também estivesse caminhando, Castelnuovo dá a impressão de estar cada vez mais distante. O jipe roda numa velocidade mínima, não mais que uns 10 ou 15 quilômetros por hora, e muitas vezes, quando esbarramos com um atoleiro ou com uma cratera mais profunda, o guidão parece querer fugir das mãos do pracinha Adão. À nossa direita, trevoso e mal-encarado, é o Soprassasso, nos últimos dois meses mil vezes amaldiçoado por todos nós, terrível inimigo até dois dias atrás, mas hoje apenas um camelo amestrado pela nossa Artilharia e dominado pelos nossos infantes. Olho no relógio - são 10 horas da manhã. O jipe vence um resto de caminho e diante de nós, esfarinhadas como que por um terremoto, estão três ou quatro casas - ou o que resta delas, e resta muito pouco. O pracinha Adão leva o jipe para um ângulo morto e diz: - Deve ser aqui.


Imagem de filme do You Tube sobre a atuação da FEB na 2ª Guerra Mundial

Sim, aqui é Castelnuovo, me diz o Sargento José Franco, da 3ª Companhia do 6º Regimento. Pergunto pelo Posto de Comando do Capitão Aldenor. É lá em cima. O senhor tem que ir a pé. São umas 20 casas arrumadas - ou mal arrumadas - em cima do morro. E tudo aqui ainda lembra a luta recente. Há sangue em muitos dos foxholes alemães, os caminhos estão cobertos de estilhaços de toda espécie, vidro, pedra e madeira, e um pouco de fumaça ainda se evola de uma casamata aberta na rocha, e dentro da qual nossos pracinhas jogaram suas granadas de mão. Noutra casamata alemã, bem ao lado do singelo e colorido cemitério do povoado, encontro dezenas de cartas em alemão, umas recebidas e outras que não puderam ser respondidas, porque seus donos morreram ou fugiram. Guardo-as algumas no largo bolso do fieldjacket, e vou adiante. O pracinha Adão segue atrás, os olhos atentos para os campos dos lados, à procura de uma ou outra mina que possa ser localizada. Como proteção, compridas fitas brancas balizam os caminhos já livres das minas e por onde podemos passar. Do outro lado da montanha, a uns 200 metros de nós, os pracinhas brasileiros continuam a atirar de fuzil e metralhadora contra teimosos pontos de resistência dos tedescos. Um quilometro adiante, sobre as cristas para onde recuaram os alemães, os roucos Thunderbolts do 1º Grupo de Caça brasileiro acionam suas metralhadoras e desovam suas bombas. O Posto de Comando do Capitão Aldenor está agora instalado numa antiga casamata alemã, que mais parece um pequeno apartamento. Lá dentro os alemães deixaram quatro camas em forma de beliche, um fogão de ferro fabricado em Turim, um grande espelho pilhado de alguma parede ou armário, cabides e talheres dispostos sem ordem numa rústica mesa de madeira crua. Um pracinha está lavando os copos e pratos que os alemães deixaram; ou que não tiveram tempo de levar. O Capitão Aldenor me aponta para um grande pedaço de carne ainda nova e sangrenta, alguns quilos de boa vitela que o frio conservou intactos e que não chegaram a ser consumidos: Tudo indica que os alemães foram pegos de surpresa. Veja só como eles deixaram isto aqui: comida ainda nos pratos, o fogão aquecido, esta carne toda. Encontramos também, sobre a mesa, uma carta pela metade e uma caneta sobre o papel que não terminou de ser escrito. A noite da véspera - longas horas insones, os pés gelados, uma tremenda luta corpo a corpo contra o frio, o sono e os morteiros - parece ter envelhecido em cinco anos o Capitão Aldenor. Seu rosto redondo de cearense, antes afogueado, está agora coberto por uma barba de dias, e quando ele me conta a história da conquista de Castelnuovo, sua voz parece ter perdido o cantado sotaque nordestino; é agora uma voz mansa, de quem está exausto e pede algumas horas de descanso: Às nove da manhã partimos de Volpara com destino ao Soprassasso. Dominamos o morro horas depois, deixamos lá um ponto de resistência que mais tarde seria aniquilado pelo 2º Batalhão do 6º e recebemos ordem de avançar até aqui, Castelnuovo. Foi uma caminhada difícil, sempre castigados pela chuva de morteiros. Logo além de Castelo, os tedescos concentraram todas as suas metralhadoras sobre nós. Um ataque frontal seria simplesmente impossível. Então resolvi distribuir meus homens e ataquei Castelnuovo pela retaguarda. Os alemães não esperavam por isso e tiveram que se retrair. Mais tarde um prisioneiro me disse que, horas antes da queda de Castelnuovo, nossa Artilharia já havia desorganizado toda a resistência deles. Encontramos grande quantidade da mais diversa munição. Venha ver. Algumas metralhadoras "lurdinhas", granadas de mão, uns 30 caixotes de balas, e mais morteiros, bazucas, duas pistolas, facas e punhais. E naquele instante mesmo os nossos pracinhas continuavam a trazer, dos foxholes e casamatas (havia umas 40 defesas individuais e 15 coletivas espalhadas pelas cristas e encostas do morro), mais quantidade de material bélico abandonado. Uma das casamatas maiores dos alemães, incrustada na rocha, foi apelidada pelos pracinhas de "chapelaria ", porque nela foram encontrados, novinhos em folha, uns 40 capacetes de aço. Sucesso maior, porém - maior que o achado dos capacetes, "lurdinhas" e granadas, tão comuns numa guerra - quem fez foi a coleção de fotografias que retratavam uma bela e desibinida fraulein de Desdren: muito loura, um tanto gordinha, ela passou a dividir seus encantos por todo o Pelotão. Quem encontrou o álbum com as fotos foi o Soldado Domingos Iuspa, paulistano, que me disse: Encontrei essa belezoca no fundo de um foxhole, dentro de uma caixa de munição. E sentenciou: Ela não tem cara de esposa. Tem cara de noiva.


Imagem de filme do You Tube sobre a atuação da FEB na 2ª Guerra Mundial


O pequeno cemitério de Castelnuovo, que os brasileiros conquistaram anteontem juntamente com o morro e o povoado, tem agora mais um residente fixo. Trata-se de um soldado alemão que os pracinhas encontraram bastante ferido e que morreu enquanto recebia os primeiros socorros. Nossos homens cavaram uma cova no cemitério, deixaram lá o corpo enrolado numa manta, espetaram uma cruz improvisada em cima. Dependurados na cruz, deixaram os objetos que poderiam mais tarde identificar o alemão morto: a corrente e a chapa metálica com o seu número militar e a categoria do seu sangue. Eu estava no cemitério quando o alemão foi enterrado. Os nossos soldados seguraram o corpo com muito cuidado, como se fosse o de um companheiro morto. Um dos pracinhas se benzeu quando a última pá de terra negra e úmida fechou a sepultura. Um sargento murmurou uma oração rápida. O Capitão Aldenor me disse: Era um austríaco. Pegamos ele dentro de sua trincheira, com uma perna espatifada por um estilhaço de granada. Passou a noite gemendo de dar dó. Pedimos uma ambulância, mas os caminhos ainda não estavam de todo livres das minas, e a ambulância não podia passar. Aplicamos nele uma injeção de morfina, mas ele não agüentou. Tinha perdido muito sangue antes que o encontrássemos. Morreu de madrugada. Indaguei de alguns pracinhas o porque de tanto cuidado com o inimigo morto - talvez ele fosse um dos tantos alemães que na véspera matara ou tentara matar um deles. A resposta veio rápida: Vamos deixar o pobre em paz. Morreu e acabou-se.


Imagem de filme do You Tube sobre a atuação da FEB na 2ª Guerra Mundial


Hoje à tarde, enquanto eu esperava que os "mineiros" , livrassem o caminho das minas, vi quando a noite foi chegando aos poucos, lenta, completa, sobre o calado mundo do cemitério. O Capitão Aldenor me levou até um ponto descoberto, lá no alto, de onde é possível divisar com o binóculo as novas posições nazistas. Aqui ao lado, está o cruel Soprassasso, já domado, mais longe é Monte Castelo, também já nosso, e também o Monte Belvedere, que já não nos mete medo Mas lá na frente, no Vale do Panaro, espalham-se caminhos, montanhas e vales que ainda são deles. O capitão acende um cigarro, eu mastigo um pedaço de chocolate - e ali ficamos até que a noite venha por completo. O capitão tinha os seus pensamentos, eu tinha os meus. Os pracinhas se espalham lá embaixo. Alguns cavam buracos no chão, outros se estenderam sobre os montes de feno, protegidos por detrás de paredes e restos de muros. E há outros, em posições mais avançadas, que varejam as distâncias inimigas com compridos binóculos que tudo descobrem. Mais embaixo, ocultos sob suas camuflagens de camaleão, uns 10 ou 15 soldados têm o dedo no gatilho de suas metralhadoras e fuzis, à espreita de um possível contra-ataque alemão. As horas passam, amanhã será outro dia. Mas que dia! Na verdade, não existe calendário na frente avançada de uma guerra. E quando o capitão me pergunta se hoje é terça ou quarta-feira, eu não sei responder. Sei apenas que estamos avançando, que agora pisamos chão que ontem não era nosso; e que amanhã certamente estaremos alguns quilômetros ou até mesmo apenas alguns metros mais à frente. O que ficou para trás já não existe. É coisa fora do tempo.

"A Luta dos Pracinhas"
Joel Silveira e Thassilo Mitke


O Capelão Frei Orlando percorria sempre em um jeep, a linha de frente.
Foto escaneada do livro "Frei Orlando, o Capelão que não voltou"
Tenente Gentil Palhares.

A Morte de Frei Orlando
Sobe um Santo ao Céu

Fevereiro é um mês assinalado nos anais da Força Expedicionária Brasileira, porque foi quando as nossas tropas iniciaram o assalto definitivo ao Monte Castelo. Os alemães, entretanto, julgavam-no intransponível, tamanha a sua resistência e tão bem preparadas as suas fortificações. Mas, Deus não nos desamparava. A guerra teria seu epílogo. Não se pode fugir aos episódios reais de um acontecimento, quando, tentando descrevê-los para a posteridade, passamo-los para as páginas dos livros. E este livro não é assunto de ficção, mas o retrospecto vivo, autêntico, dos fatos desenrolados na Segunda Guerra. Daí a forma com que, muitas vezes, ressaltamos a bravura de muitos companheiros, que, armas na mão, souberam honrar e enaltecer a FEB, mas, sobretudo, a nossa Pátria. Entre eles, pelas suas qualidades, suas virtudes da alma, está Frei Orlando! Verdade é que a nossa luta já está esquecida, em parte, mas ficará como exemplo às porvindouras gerações. Como nos ficaram os heróicos acontecimentos da Guerra do Paraguai. Wilson Ramos, o primeiro que se sacrificou nas fileiras do nosso Regimento; Orlando Randi, que morreu empunhando uma bandeira nazista, arrebatada em pleno combate; Max Wolf Filho, o terror dos tedescos; Arlindo Lúcio da Silva, Geraldo Rodrigues de Souza e Geraldo Baeta da Cruz, os "três heróis brasileiros" - expressão dos alemães que os enterraram após determinado combate; Ary Rauen, Ruy Lopes Ribeiro e outros bravos entre os que mais o foram, são, hoje, apenas, personagens de uma tragédia, que se perde na voragem dos anos. Outras guerras, frutos da maldade e incompreensão dos homens, já se vão desaparecendo do nosso pensamento, embora consignados nos livros. Outras tragédias bélicas, todavia, hão de vir.

(...) Vamos, agora, às nossas posições, nos Apeninos onde o inverno, já ia declinando, mas onde também continuava sem trégua a luta.
19 de fevereiro de 1945. Tanques, jipes, carros de assalto, canhões de todos os calibres cruzam as estradas, protegidos pela cortina de fumaça. O movimento empreendido revelava, claramente, os preparativos para o ataque ao Monte Castelo, que os alemães julgavam intransponível. Mas, assim como a célebre Linha Maginot, de que tanto se orgulhavam os franceses, Monte Castelo também ruiria com o término do inverno. Aos nossos inimigos a iminência do ataque não passava despercebida, por isso que, ininterruptamente, martelavam as nossas posições, tentando desarticular os nossos movimentos. Pelas imediações do "Gigante de Pedra", defendido com unhas e dentes, concentram-se todas as forças brasileiras em ação, cabendo ao 1º Regimento de Infantaria - Regimento Sampaio - com apoio de algumas subunidades do 11º e do 6º RI, assaltar o reduto duramente defendido.Nosso I Batalhão reúne-se na região de Sila e o II lança-se diretamente ao ataque, para apoio iminente. Eis como nos descreve, de forma fiel, o desenrolar dos acontecimentos, o Cel. Rui Leal Campelo, um bravo do 1º RI:

"Corriam os primeiros dias do já distante mês de fevereiro de 1945. A tropa da 1ª Divisão Expedicionária, incorporada ao IV Corpo do V Exército Americano, aguardara, com estafantes e penosas vigílias, o escoamento daqueles árduos e enregelados dias do inverno de 1944-1945. Cumpria-lhe, agora, passar à ofensiva, como parte do plano estabelecido pelo Comando Aliado do Grupo de Exércitos que operava na Península Itálica, destinado a romper a Linha Gótica, capturando os escarpados maciços de Capel Buzzo - Monte Gorgolesco -Capela de Ronchidos -Monte Castelo - Monte Dela Torraccia, que uma vez conseguido, abriria o caminho da rota 64, colocando nas mãos dos aliados o importante ponto chave da Cidade de Bolonha. (...) O uniforme brasileiro assemelhava-se pela cor ao alemão, apesar das providências tomadas para que a tropa atacante utilizasse o 'field-jacket' americano, de cor cáqui a fim de melhor identificá-la. Felizmente isto é contornado, sendo indicada aos americanos a direção da estrada principal para onde conduzem eles, logo após, alguns prisioneiros alemães, fazendo com que os últimos transportem, em uma lona de barraca alemã, um infante americano ferido. As ações e os movimentos se sucedem, com grande rapidez e mesmo perfeição. O comportamento da tropa atacante podia-se assemelhar, a essa altura, ao de uma infantaria executando manobra em campo de instrução. Monte Castelo começa a ser abordado e o escalão de ataque toma pé, incontinente, nas alturas 977. Súbito, um foguete luminoso corta os ares, sendo assinalado, pelos postos de observação. E três estrelas verdes, que no código de sinais significavam objetivo conquistado, são vistas por sobre o compartimento de ataque. Eram os primeiros elementos que atingiam a crista e apontavam pela utilização desse artifício, a direção dos companheiros do escalão de apoio, por isso que, rapidamente, a escuridão faria sentir seus efeitos tão temerosos nessas circunstâncias. Os alemães, duramente batidos pelos fogos de artilharia de apoio e pelo vigor da manobra executada pelos atacantes, ainda conseguem evacuar a região, apoiando-se na resistência de La Torraccia já entestada pelos americanos. Cias de Fuzileiros coroam, finalmente, o objetivo, porém mais um esforço ainda deveria ser despendido. Todos, do capitão ao volteador, organizam um terreno e cavam seus 'foxholes', pois só assim estariam em condições de assegurar a posse das alturas conquistadas e fazer face a um contra-ataque alemão, sempre esperado."

Aqui, agora, pedimos vênia ao Cel. Campelo (que tornou ostensiva, alhures, esta perfeita descrição do ataque ao Castelo, constituindo um valioso subsídio para os futuros historiadores) para que nos permita "fazer alto" na sua magnífica página. É que vamos dizer o que se passava nas linhas do 11º RI, antes da queda definitiva do Monte Castelo. E vamos caminhar com Frei Orlando rumo à lamentável tragédia. Conforme nos foi dado ver, linhas acima, ia encarniçando o ataque ao referido Monte. As notícias que nos chegavam diziam da impetuosidade dos nossos companheiros galgando resolutamente as  posições a serem atingidas. Mas, por outro lado, afirmavam, as perdas são sensíveis. Muitos feridos, muito sangue, dores, gemidos. Frei Orlando vendo o que se passava, ficou preso de profunda emoção e a todos externava que iria mais para frente, onde os nossos soldados misturavam seu sangue com a neve em degelo. Ao longe, na garupa do Castelo, divisava ele os aviões brasileiros e americanos despejando toneladas e mais toneladas de bombas, enquanto a fumaça ia subindo em rolos densos. Crepitava a tralha, espocavam os morteiros e rugiam armas de toda espécie. O 1º RI, apoiado como vimos pela nosso regimento (11º RI) ataca furiosamente. Os alemães, que menosprezavam as nossas possibilidades, agora estavam ali naquela agonia, sob o impacto tremendo dos nossos bombardeios e de nosso ataque, sentindo o peso de nossa força, a pressão do nosso avanço e, sobretudo, da nossa coragem. Percebiam, deviam perceber que, tendo em vista o nosso ataque, a sua derrota seria iminente, incontrolável, dependendo apenas de tempo. Nosso capelão ajustou seu equipamento, apanhou o estojo de hóstias e saiu morro acima, galgando as estradas. Antes, porém, teve quem tentasse demovê-lo do intento, mostrando-lhe o perigo a que se expunha. Teimoso como sempre, saiu vingando as elevações no sopé do Castelo. Subindo aqui, descendo ali, ocultando-se, ora às vistas inimigas, ora dos tiros de artilharia, marchava resoluto, a fim de levar consolo e conforto espirituais aos que morriam na operação do ataque desfechado. A meio caminho, tenta galgar as posições da 6ª Cia rumo a Docce, itinerário recomendado pelo seu Comandante de Batalhão, Major Orlando Gomes Ramagem. Quando se encontrava a 300 metros, aproximadamente, de Bombiana, passa por ele um jipe. Inteirado da direção da viatura, nela tomou lugar, tendo por companheiros o Capitão Francisco Ruas Santos, o Cabo Gilberto Torres, motorista, uma praça do II Batalhão do nosso Regimento e um sargento italiano, dos postos à disposição da tropa brasileira, para os serviços de transporte em montanhas. O Cel. Ruas, escritor-militar, assim descreve, em documento valioso que nos enviou, a continuação da viagem, até o desfecho trágico e imprevisto:

"Frei Orlando, em caminho, depois de dizer o que fizera pela manhã, e o que ainda pretendia fazer, falava de uma irradiação feita pelos holandeses livres, para a parte ocupada do seu País. A uma observação qualquer, ainda soltou uma de suas costumeiras gargalhadas. O jipe marchava lentamente, subindo e descendo as elevações, quando, de repente, estaca imobilizado por uma pedra. Prendia esta o eixo dianteiro. Os passageiros conseguem retirar a viatura que é posta a alguns metros além da pedra fatídica."

E continua o Cel. Francisco Ruas Santos:

"Tomo a manícula do jipe e me esforço para removê-la. O sargento italiano, no intuito de ajudar-me, recurva-se junto à pedra e também tenta retirá-la a violentas coronhadas de sua carabina. Esta dispara e Frei Orlando, que se achava parado a uns três metros, é atingido pelo projétil. Solta um grito, leva a mão ao peito, dá alguns passos à frente, tirando ao mesmo tempo do bolso do casaco o seu terço e balbuciando, às pressas, uma Ave-Maria. Corro para ele e o faço deitar-se à margem do caminho. A oração, apenas começada, é abafada pelo ofegar da agonia. Tudo isso, desde o fatal disparo, dura dez segundos. Retorno rapidamente à Docce, em busca de socorro médico e trago o Capitão João Batista Pereira Bicudo, facultativo do Batalhão. Este pode apenas verificar achar-se morto o Capelão, desde o momento, talvez, que acabara de ser deitado à margem do caminho. O italiano, abraçado ao corpo do Capelão, chorava e se lamentava. Um pastor das redondezas, na sua natural indiferença, contemplava esta cena. O médico descobre-se, persigna-se e reza pela alma de Frei Orlando, no que é seguido por mim e pelo cabo."

"Maktub", tinha de ser, estava escrito. Só Deus, na sua alta sabedoria, pode explicar o porquê daquela imensa tragédia, tão brutal quanto imprevista, tão chocante quanto dolorosamente lamentada. Eram, aproximadamente, 14 horas do dia 20 de fevereiro de 1945! No Monte Castelo, as bombas estouravam, porque a cidadela nazista ainda não havia caído!

Tenente Gentil Palhares.
"Frei Orlando, o Capelão que não voltou".


O Capelão Frei Orlando 
pregando.
Foto escaneada do livro "Frei Orlando, o Capelão que não voltou".
Tenente Gentil Palhares.

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
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