FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 


Vista do interior da localidade após a conquista de Montese
Arquivo Diana Oliveira Maciel

BATISMO DE FOGO

Hoje, 1° de abril de 1997, atendendo o convite do Exmo. Senhor General Comandante Militar do Leste, vou realizar o meu primeiro depoimento para registro no Acervo da Memória Histórica do Exército Brasileiro, sob a coordenação da prezada amiga febiana, Major Elza Cansanção Medeiros. Abordarei dois assuntos correlacionados:
1° - as primeiras horas vividas em combate por mim, nos campos de batalha da Itália;
2° - recuo desordenado do 1° Batalhão do 11° R.I., no primeiro dia de ação em combate.

1° TEMA - Fui para a Itália, como voluntário, ainda 2° Tenente, recém-formado na antiga e saudosa Escola Militar de Realengo, pela Arma de Infantaria e declarado Asp. a OF. em 08 de janeiro de 1944. integrante dá Turma TUIUTI. Vou procurar descrever, da maneira mais precisa possível, as primeiras horas passadas por mim nos campos de batalha da Itália. Procurarei enfocar os erros e os acertos cometidos, nos momentos mais amargos e difíceis, que passei durante o período da guerra. O 1° Batalhão (Maj. Jaci Guimarães) do 11° Regimento de Infantaria (Regimento Tiradentes) entrou na Linha Principal de Resistência (L.P.R.) na noite de 30 de novembro para 1° de dezembro de 1944, instalando-se defensivamente na região de Guanela, na base do Monte Castelo. O dispositivo do Batalhão foi o seguinte: duas Cias. de Fuzileiros em primeiro escalão - a 1ª (Cap. Carlos Frederico Cotrim Pereira) à direita e a 2ª Cia (Cap. Silvio Schleder Sobrinho) à esquerda. A 3ª (Cap. Hésio de Mello e Alvim) ficou em reserva. A Cia. Schleder instalou-se com três pelotões de fuzileiros na frente, sendo o 1° pelotão do 1° Ten. Emílio Varoli à direita, o 2° pelotão do 2° Ten. Ari Rauen no centro e o 3°, sob o meu comando, à esquerda. O meu pelotão, para ocupar o dispositivo, havia deixado a região de Lustrola, ao cair da noite de 30 de novembro de 1944, a pé, debaixo de uma chuva miúda, num terreno íngreme e muito lamacento, para substituir o 2° Ten. Romeu Diniz de Carvalho do 1° R.I. (Regimento Sampaio). A substituição começou às primeiras horas da noite e só terminou às 5 horas do dia seguinte. Processou-se na presença dos comandantes de cada pelotão os quais um dia antes, haviam mantido entendimentos no local da substituição. Realizou-se paulatinamente, homem a homem, dentro das normas regulamentares, chegando à frente de combate de quatro a cinco praças de cada vez e retomando à retaguarda, igual número, à medida que passavam às suas funções. A troca de guarnição se verificou sem a menor interferência do inimigo. Ao romper do dia, procurei estudar melhor minhas posições. Constatei surpreso que as mesmas eram precárias: mal existiam meia dúzia de "foxholes" (abrigos individuais) inacabados, sem qualquer camuflagem. Justifico as deficiências das instalações, porquanto o pelotão Romeu havia tomado parte ativa no ataque fracassado ao Monte Castelo, no dia 29 de novembro - dois dias antes -, quando sofreu baixas, tendo que recuar para a posição onde se deu a substituição. No decorrer do dia 01 de dezembro, com meu pelotão, fiquei extasiado por me encontrar, pela primeira vez, numa frente de combate, recebendo, como batismo de fogo os primeiros tiros de morteiros e da artilharia inimiga, que pouco atuava sobre os nossos nervos e, ainda, deleitando-me com o espetáculo inédito de ver nossa aviação (SENTA PUA) bombardear o pico e as encostas do famigerado MONTE CASTELO. Nem pensei em repousar para me refazer da noite anterior, sem dormir e sem deitar. As posições, recentemente ocupadas, podiam ser inteiramente visíveis do Monte Castelo: todavia, isto não impediu que alguns dos nossos soldados, neófitos nas operações de guerra, se expusessem, no decorrer do dia, ao inimigo, apesar das recomendações a respeito. Os tiros esparsos de artilharia e morteiro, que recebemos naquela jornada, não tinham - tudo me leva a crer - o objetivo de destruição imediata, servindo apenas para regulagem dos disparos para operações futuras. Ao entardecer, recebi da Companhia informações de que haveria atuação do inimigo nas nossas linhas naquela noite, o que me levou a melhorar as posições, logo que escureceu. Como medida de precaução, destaquei um cabo e dois soldados para se postarem à frente do pelotão (cerca de cento e cinqüenta metros), objetivando, assim, não ser surpreendido pelo inimigo durante a melhoria das posições. Dei ao cabo o local onde deveria ficar para cumprir a missão. Por volta das 21h30min, havíamos, praticamente, preparado as instalações defensivas para todo o pelotão e para uma seção de metralhadora pesada que recebi para nos apoiar. Logo após, procurei recolher os três praças que eram colocados à frente; desloquei-me com essa finalidade, tendo previamente alertado a tropa dos meus movimentos. Chegando ao local anteriormente designado para os três elementos, não os encontrei, passando a procurá-los nas proximidades. Naquela oportunidade, estava extremamente preocupado com a possibilidade de terem os mesmos caído prisioneiros e, ainda, com o risco que corria de receber tiros dos meus próprios comandados ou do inimigo. Após alguns segundos - que pareceram uma eternidade -, localizei os praças um pouco mais adiante, quando, então, retornamos ao seio do pelotão. Posteriormente, o cabo justificou a escolha de outra posição: por julgá-la em melhores condições para o cumprimento da missão, o que aceitei sem comentários. Às 22h55min, quando descansava à beira de uma lareira existente na casa que abrigava os soldados, nas horas em que não se encontravam em posição, ouvi o sibilar das armas automáticas do inimigo - as célebres "LOURDINHAS" - que agiam nas imediações. Deixei o conforto imediatamente e deitei-me na primeira dobra do terreno, nas proximidades da casa. As balas traçantes do inimigo passavam a alguns metros à frente, numa trajetória quase paralela aos nossos abrigos. Era a infantaria alemã, atuando como prelúdio da noite. Deitado, as minhas pernas tremiam; até hoje, não sou capaz de avaliar se por medo ou devido à má posição do corpo. Deixando para um segundo plano o espírito de conservação, inquiri imediatamente ao comandante do 1° G.C. (3° Sargento Rubens de Miranda), que se encontrava ao alcance da minha visão: "Sargento Rubens, de onde partem os tiros?" O sargento, bastante nervoso, respondeu-me: "Seu tenente, fica quieto, porque senão eles nos localizarão". Ignorando as advertências e cônscio das responsabilidades, desloquei-me para o centro do pelotão, ocupando o abrigo onde se encontrava um soldado fuzileiro, que se mantinha impassível com o fuzil-metralhadora seguro nas suas mãos, pronto para o tiro. A calma do soldado contagiou-me, o que me levou a estudar a situação com mais detalhes e concluir que recebíamos alguns tiros esparsos de artilharia, morteiros e metralhadoras do inimigo. A infantaria alemã fustigava o nosso flanco direito, na frente da 1ª Cia. (Cap. Cotrim), que respondia com o máximo dos seus fogos. No desenrolar dessa última peleja, notei, num determinado momento, que alguns homens, cerca de cinco ou seis, desceram do morro correndo, passando cerca de cento e vinte metros à retaguarda do nosso pelotão. Devido à falta de luminosidade, não pude identificá-los como amigos ou inimigos. Supus, naquela oportunidade, tratar-se de uma patrulha brasileira, recolhendo-se. Poucos minutos depois, o Cmt. do 1° Pelotão (Ten. Varoli) preveniu-me de que havia notado um grupo de homens em atitude suspeita, à retaguarda do meu pelotão. Respondi-lhe que já os havia visto e tomado as precauções necessárias. Esses suspeitos não tiveram nenhuma atuação no desenrolar do combate, e muito menos, na frente da nossa sub-Unidade. Em torno das 4 horas, quando a quietude voltou a reinar na frente de combate, recebi ordem do Cap. Schleder para me retirar com o pelotão. Desconhecendo os motivos, ponderei que deveria haver algum equivoco, pois não tínhamos nenhuma baixa, o pelotão estava com o moral elevado, com todos os homens abrigados e que ocupávamos uma pequena frente de combate, tendo uma seção de metralhadora à disposição. Por estes motivos, solicitei-lhe que procurasse confirmar a ordem. O Cap. desligou o telefone para, pouco depois, voltar a falar: "Tem poucos minutos para retrair, porque nossa artilharia vai encurtar o tiro". Em face dessa determinação, mandei reunir os sargentos a mim subordinados e os instrui para a retirada e que nos reuniríamos próximo de uma casa existente nas margens da estrada, colocada cerca de trezentos e cinqüenta metros à retaguarda, deixando para cobrir esse movimento dois soldados fuzileiros, junto a cada peça de sub-metralhadora do pelotão. Naquela oportunidade, um dos três comandantes de grupos perguntou-me quem comandaria a retirada dos fuzileiros. Respondi-lhe que seria o comandante do pelotão. Hoje, acredito que foi um erro de minha parte cobrir a retirada, porquanto esta missão deveria ficar a cargo do 2° Sgt. Auxiliar Nestor da Silva, porquanto o comandante do pelotão deveria ficar com o grosso da tropa para qualquer eventualidade, evitando, assim, a retirada desordenada da maioria dos seus soldados. A retirada iniciou-se em ordem, mas logo depois sofreu a influência do recuo desordenado de outros elementos do Batalhão. Concorreu também para o tumulto a inexperiência da tropa em batismo de fogo, a escuridão da noite e, ainda, por não estar definida uma segunda linha de resistência. Alguns minutos após recuar com os soldados fuzileiros, cheguei ao ponto anteriormente combinado, que ficava na estrada 64 (asfaltada), onde reinava grande confusão, pela convergência de militares de várias sub-unidades do Batalhão. Muitos em desespero fugiam em direção à retaguarda. Naquele local, encontrei o 1° Ten. Sidney Teixeira Alves, sub-comandante da minha Cia. Tentamos, com algum sucesso deter a debandada. Reunimos algumas dezenas de soldados, sendo muitos de outras Cias. do Batalhão. Com estes, procuramos organizar uma linha defensiva, tendo para isso procedido um estudo sumário do terreno, mas concluímos que o mesmo não era favorável à situação. Em face desta conclusão, considerando, ainda, que não havia nenhuma ordem neste sentido, optamos para o retraimento, conduzindo os soldados que conseguimos grupar. Pretendíamos levá-los até a localidade de Silla, situada a 4km ao sul das nossas posições, onde sabíamos existir órgãos de Apoio ao Regimento. Encontrávamo-nos às margens da Estrada 64, que passava por Silla. Mas o estudo da situação (do terreno e do inimigo) contra-indicava sua utilização, por se encontrar, possivelmente, em poder dos alemães. Por isso, resolvemos atingir aquela localidade, caminhando pelos campos e aproveitando as estradas secundárias. Por não estarmos familiarizados com o terreno onde iríamos palmilhar, usei como guia um colono italiano, morador daquelas paragens. Preocupado com a possibilidade de ser traído pelo guia - tinha informes de que alguns habitantes locais ainda mantinham simpatias pelos tedescos - não permitia que o mesmo conversasse com seus patrícios das cercanias. Estes, por sua vez, intranqüilizados com a retirada da tropa, passaram a abandonar seus lares, conduzindo seus pertences e uma ou duas cabeças de gado (vacas), o que muitos possuíam. Os italianos retirantes queriam saber com insistência o que estava acontecendo e eu, que acompanhava o guia, com receio da atuação de uma quinta coluna, não permitia que o mesmo respondesse às indagações dos seus patrícios, determinando: "Avanti! Presto, non parlare". O guia nos deixou num ponto onde já se encontravam alguns elementos do 1° Batalhão, que nos encaminhou até a região de Vivali, nas proximidades de uma casa, onde estavam estacionados alguns tanques americanos. Cerca das 7 horas do dia 2 de dezembro, numa manhã clara, com ótima visibilidade, o Maj. Jaci subiu numa tribuna improvisada, ou mais precisamente num caixote, e começou uma exposição, procurando levantar o moral do Batalhão, objetivando recuperar as posições. Mal iniciou sua oratória, os alemães, com vistas sobre aquela região dos Observatórios de Monte Castelo, bombardearam, com tiros de morteiros, aquele magnífico alvo, provocando a dispersão dos soldados. Procurei me abrigar no interior da casa, que nos havia sido designada como ponto de reunião e, quando o fiz, a mesma estava superlotada, o que me permitiu somente ficar de pé segurando a porta de uma espessura apreciável, fazendo-me pensar naquela ocasião: "esta porta só será perfurada por um bom estilhaço de artilharia". Alguns minutos após passar o bombardeio, deixei a casa, avistando, logo a seguir, o Cap. Schleder sentado na calçada, encostado na parede, bem próximo de um tanque americano. Dirigi-me ao meu superior: "Capitão, não vou atacar, porque isso é uma insensatez". O capitão me olhou com uma expressão de grande cansaço, com os olhos avermelhados por não dormir nas duas últimas noites, mas nada disse. Repeti, então, a mesma frase, e ele não exprimiu, por gestos ou palavras, seus sentimentos. Ficou impassível, só me encarando. Os poucos conhecimentos militares de novel 2° Tenente de Infantaria me levaram a concluir que era uma insensatez, uma loucura tentar recuperar, à força, uma posição, empregando a mesma tropa que, há pouco, havia sido desalojada dos seus abrigos. Ademais levando-se em conta, tratar-se de soldados bisonhos em batismo de fogo e bastante extenuados. Após deixar o capitão, rumei em direção à Silla, onde pensava poder repousar e, principalmente, comer alguma coisa. Encontrava-me em jejum desde as 12 horas do dia anterior - o jantar e o café daquela manhã não chegaram aos seus destinos por interferência do inimigo. Depois de deslocar-me umas dezenas de metros, encontrei o Ten. Sidney sentado sozinho, à margem da estrada. Conversamos sobre a situação. Juntaram-se a nós uns praças, sendo alguns do pelotão do Ten. Ari Rauen, quando ficamos sabendo que este oficial não havia abandonado suas posições, resolvendo defendê-las até as últimas conseqüências. Corria, no local, a notícia de que o mesmo encontrava-se cercado pelos alemães e que havia declarado aos seus comandados: "...que poderiam recuar aqueles que não estivessem preparados para o sacrifício". Eu, que momentos antes havia tomado aquela atitude de insubordinação que poderia me levar a ser tachado (com razão) de covarde, resolvi, por livre iniciativa e de comum acordo com o Ten. Sidney, organizar uma "ação de comando", para tentar salvar o bravo oficial. Em poucos minutos, recrutamos vinte e um voluntários, cabos e soldados, com exceção de um, Sgt. Lobato. Fornecemos a quase todos armas automáticas, "requisitadas" dos praças que se encontravam nas proximidades. Com farta munição nas cartucheiras, à tiracolo e com grande estoque de granadas de mão e de fuzil, partimos em socorro do Ten. Ari, aproximadamente às 9 horas. Após algum tempo de marcha através dos campos, passamos a observar os contornos do Monte Castelo, que nos parecia, a cada minuto, mais próximo e aterrador. Com a finalidade de fugir, dentro do possível, às suas vistas, dividimos nosso grupamento em três partes aproximadamente iguais: o Ten. Sidney ocupava o flanco esquerdo; eu, o da direita, e o Sgt. Lobato, o centro do dispositivo. À medida que avançava, passei a sentir mais sono e fome, por isso entrei na casa de um colono italiano que se encontrava no itinerário da marcha, ficando os soldados do lado de fora. Pedi ao proprietário, único no local, alguma coisa para comer. O homem informou-me, inicialmente, que não havia nenhum alimento, mas depois, pensando melhor, dirigiu-se ao seu quarto, abriu um malotão e retirou a bandeja que o dividia, colocando-a sobre a cama que se encontrava ao seu lado. Permaneci junto do mesmo, atento e preocupado com a possibilidade do morador retirar alguma arma, algum revólver do seu interior. Observava seus menores movimentos, pronto para atuar em caso de necessidade. O italiano passou a revolver o fundo da mala a procura de algo. A minha tensão emocional ia aumentando a cada instante e chegou ao clímax quando foi retirado, debaixo de um pano, uma travessa, contendo pés e cabeças de frangos cozidos e um pedaço de pão duro e escuro. A tensão acabou após ter apanhado, com sofreguidão, dois pés e um pedaço de pão, que foram chupados e comidos com avidez. Tomei alguns goles de água, lavei o rosto para espantar o sono e, a seguir, prossegui a marcha. Alguns minutos depois, divisei na encosta da elevação em frente, alguns homens deitados imóveis. Não podia distinguir se eram amigos ou inimigos. Coloquei nossa tropa - oito homens - para marchar em linha e, quando nos avizinhávamos, conclui que eram soldados brasileiros. "Estavam mortos? Será que foram colocados como iscas pelos alemães para nos atrair?"... formulei mentalmente estas perguntas. Indiferentes a qualquer artimanha do inimigo, marchamos resolutos, com as armas em condição de tiro. Chegando bem próximo, constatei com satisfação que todos estavam vivos e saudáveis. Pertenciam a uma Cia. do 3° Batalhão do 11º RI, que se encontrava em posição e lá permanecera. Após obter melhores orientações com um graduado a respeito das posições e comer alguns biscoitos que me foram oferecidos, infleti para a esquerda a procura das posições do Ten. Ari. Transcorrido pouco tempo, chegou um soldado mandado pelo Ten. Sidney, que nos levaria até a casa onde se havia instalado, defensivamente, o bravo Ten. Ari. A fração da tropa comandada pelo Sgt. Lobato não chegou ao seu destino. Lá soubemos que o pelotão do Ten. Ari, após receber ordem de retrair, recuou cerca de quatrocentos metros, não sendo molestado pelo inimigo. Ao clarear o dia, o valoroso Ten. Ari, comandando uma patrulha, retornou às suas antigas posições, tendo, antes de partir, proferido a frase que ouvimos, anteriormente, de alguns dos seus soldados: "...que poderiam recuar os que não estivessem preparados para o sacrifício... ". Encontrando as posições intactas, colocou, a seguir, todo o seu pessoal para recolher o material deixado por ocasião do recuo desordenado. Por volta das 11 horas, quando cheguei ao local onde se encontrava o Ten. Ari, um dos quartos da casa já se encontrava abarrotado, quase até o teto, com material do Batalhão, sobretudo mochilas, havendo também armamento, morteiros e metralhadoras pesadas. Fui, logo a seguir, em companhia do Ten. Sidney, ao P.C. do Cmt. da 2ª Cia. O tenente estava impaciente para recuperar sua pistola Colt, 45mm que lá ficara. Tive a satisfação pessoal de encontrar naquele posto, alguns panelões bem supridos de alimentos, que deveriam ter sido distribuídos como jantar do dia anterior e que não chegaram ao seu destino devido a interferência do inimigo. Dentre estes, havia um panelão repleto de pedaços de frangos assados. Comi como esfomeado alguns bocados, escolhendo, de preferência, os carnudos (possivelmente degluti as carnes das coxas, que tinham como sustentáculo os pés cozidos de que havia me "alimentado" algumas horas antes). Satisfeito, retornei ao P.C. improvisado do 2° Pelotão, onde me deitei sobre um monte de feno, procurando dormir e esquecer, por algumas horas, aquela guerra não cruenta, mas desgastante. Acordei à meia-noite com um estampido de um tiro e o corre-corre dos praças que, antes em descanso, procuravam agora chegar às suas posições de tiro (abrigos), para defendê-las. Mas, ainda desta vez, não havia chegado a guerra sanguinolenta: foi somente um rebate falso, provocado por uma sentinela nervosa e, possivelmente sonolenta, que atirou num cachorro que farejava algo na sua frente, errando, felizmente, o alvo. Expiravam-se, assim, as primeiras horas vividas numa frente de combate. Permaneci naquela posição por mais dois dias, quando houve entendimentos entre o Ten. Sidney e o Maj. Jurandir Bizaria Mamede, S/3 do 11° e, então, fomos mandados para Granaglione, onde houve a reorganização do 1° Batalhão.

2° TEMA - Soube, posteriormente, que o Maj. Jaci, depois do bombardeio que interrompeu sua oratória, solicitou - não deu ordem - aos Capitães Cotrim, Schleder e Emílio Augusto Guimarães Tinoco, Cmt. da C.C./1, que reunissem seus comandados para retornarem às suas posições. Não conseguiu demover os capitães e obteve somente concordância de quatro praças (um sargento e três soldados), com os quais retornou as posições. No caminho, recebeu o apoio do Cap. Joaquim Antonio Fontoura Rodrigues, de artilharia, oficial de ligação com o 1° Batalhão que lhe disse, textualmente, conforme consta da parte de combate do Batalhão:

"Senhor Major, isto é uma indignidade: eu vou com o senhor! Antes, porém, vou conduzir presos estes Capitães ao Quartel General!"

O Capitão Fontoura, a seguir, tentou dissuadir os Capitães dos seus propósitos de não cooperarem com o Major Jaci, mas nada conseguiu. No processo a que responderam os três Comandantes de Cias. e o Cmt. do Batalhão, no Conselho Supremo da Justiça Militar (Boletim do Exército nº 34, de 25 de agosto de 1945), foi dito o seguinte:

"Refere o Capitão Fontoura, que depois de entender-se com o Major Jaci, que continuou na sua marcha, volta ao local onde ainda encontra os três Capitães e, dirigindo-se ao Capitão Tinoco, perguntou-lhe por que não acompanha, com seus homens, o comandante do Batalhão. Recebeu a seguinte resposta: 'O Major está alucinado e não sabe o que está fazendo!' Adianta mais esta testemunha que, para demover os Capitães de seu propósito, não só disse ao Capitão que o Major estava cumprindo ordens, como também que o referido Capitão deixava o Comandante de Batalhão subir com quatro praças e permanecia parado junto de tantos homens. Diante da persistência dos três Capitães em sua atitude, viu-se o Capitão Fontoura na contingência de convidá-los para que o acompanhassem, a fim de que fossem melhor informados pela autoridade competente, no que prontamente aquiesceram". 

Os Capitães foram apresentados ao P.C. do Cel. Geraldo da Camino, de Artilharia, Comandante do 2° Grupo de Obuses, em Silla, sendo, logo a seguir. destituídos de seus Comandos de Companhias os Capitães Cotrim e Schleder, tendo o Capitão Tinoco perdido o Comando no dia 5 de janeiro de 1945. O Major Jaci, algum tempo após os lamentáveis fatos, deixou o comando do Batalhão. Dos quatro envolvidos, somente o Cap. Cotrim foi condenado pelo referido Conselho "a um ano e oito meses de detenção, pena essa convertida em prisão simples, como é de lei". A posição tomada por mim, ao declarar ao comandante da Companhia: "Capitão, não vou atacar, porque isso é uma insensatez", que me poderia ser desabonadora, contrasta com minha atitude, poucos minutos mais tarde, de reação correta, ao preparar e comandar, por livre iniciativa, de comum acordo com o Ten. Sidney, a patrulha de combate que se deslocou das proximidades de Silla, local onde só reinavam a confusão e o medo, para retornar às posições que havia deixado, horas antes, para salvar um companheiro, que, tudo levava a crer, estava sendo hostilizado pelo inimigo. Essas duas atitudes antagônicas não têm registro nas minhas folhas de Alterações. Dois únicos documentos, que são do meu conhecimento, fazem referência ao meu nome, naqueles infaustos acontecimentos. Ambos, felizmente, enfocam somente as atitudes positivas. Um dos registros aparece no livro "Depoimento de Oficiais da Reserva sobre a FEB.", num artigo de autoria do Ten. Emilio Varoli. O referido livro, quando lançado, recebeu críticas desabonadoras de muitos febianos, porque procurou focalizar, com ênfase, os erros cometidos pela FEB. O artigo de Varoli, procurando mostrar que não havia necessidade de retraimento do Batalhão, consignou:

"Que os Tenentes Rauen e Iporan tinham permanecido em Guanela, não se retraindo, apesar das ordens recebidas, e que o Ten. Sidney havia sido enviado para lá a fim de trazer aqueles pelotões para junto do resto do Batalhão".

Verifica-se que o Ten. Varoli cometeu um engano, possivelmente por ter sido feito prisioneiro, poucos dias depois, isto é, no dia 12 de dezembro de 1944, no quarto ataque fracassado dos brasileiros ao Monte Castelo e, ainda, por terem sido os dias compreendidos entre 2 e 12, plenos de acontecimentos importantes no âmbito da subunidade, entre os quais destaco: a substituição do Comando da Companhia, que passou ao Cap. Carlos de Meira Mattos, que, em pouco tempo que esteve à testa da Cia., demonstrou ser um grande CHEFE, os preparativos e o ataque do dia 12 de dezembro. O Gen. Francisco de Paula Cidade, relator do Processo n° 49, publicado no citado Boletim, também faz referência a mim e, assim, se expressa sobre o lamentável episódio.

"Pela madrugada, o Cap. Carlos Frederico Cotrim Pereira, Comandante da 1ª Companhia, sob a pressão de oficiais subalternos pouco experientes e sem maiores conhecimentos militares, resolveu abandonar a posição que lhe fora confiada, sem comunicar essa resolução ao seu comandante de Batalhão".

Pouco mais adiante, o Gen. Paulo Cidade afirma: 

"Num estado de espírito bem melhor que o camarada da 1ª Companhia, vem encontrar-se o Capitão Schleder Sobrinho, que ocupava com a Companhia de seu comando, o da esquerda, do dispositivo do Batalhão, o qual, além do mais contava com subalternos mais enérgicos e decididos, como os Tenentes Ari e Iporan, que, quando o Cap. Schleder recebeu a ordem de retirar-se, procuraram levá-lo a proceder de modo contrário, por não verem motivo para isso. A Companhia do Cap. Schleder retira-se em ordem, deixando alguns elementos de cobertura sobre a posição, mas logo depois é envolvida pelo pânico que a contamina".

Ao prestar o presente depoimento, busco atingir um único propósito: contribuir, na medida de minha capacidade e sentimentos pessoais, para que os pósteros possam reavaliar as condições de combate a que se submeteram, pela primeira vez, soldados brasileiros que pisaram o solo europeu, onde foram defender os ideais da liberdade democrática os quais faltavam no seu próprio pais. A mesma 2ª Cia/1º BI/11º RI, já sob o comando do Cap. Sidney Teixeira Alves, tão castigada no episódio retratado, foi redimida na Conquista de Montese, quando meu Pelotão, sofrendo baixas, foi o elemento precursor a entrar no baluarte alemão, no dia 14 de abril de 1945. Tudo isto é História, contada em linguagem simples de soldado, cinqüenta e dois anos depois. Breve, outros, pesquisando os documentos existentes, a recontarão talvez de forma mais elaborada e sob nova ótica, fazendo justiça aos que mereceram. Mas, como "batismo de fogo" precisa de um testemunho VIVO, aí então estes não existirão mais... Por este motivo aceitei o convite da digna amiga febiana, Major Elza, para realizar o presente depoimento.

Iporan Nunes de Oliveira
Texto enviado por Diana Oliveira Maciel


Montese
Arquivo
Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

ATAQUE A MONTESE

Hoje, 19 de abril de 1997, atendendo o convite do Exmo. Senhor General Comandante Militar do Leste, vou realizar meu segundo depoimento para registro no Acervo da Memória da História do Exército Brasileiro, sob a coordenação da prezada amiga febiana, Major Elza Cansanção Medeiros, concernente ao assunto:
 "CONQUISTA DE MONTESE VISTA POR UM COMANDANTE DE PELOTÃO DE ATAQUE".

Antes de abordar o tema do meu depoimento, vou apresentar uma visão panorâmica da guerra, na área de atuação das tropas brasileiras. No dia 14 de abril de 1945, teve início, no solo italiano, a tão decantada Ofensiva da Primavera do IV Corpo do Exército Americano, ao qual estávamos subordinados. O IV Corpo tinha por missão desalojar os alemães que se encontravam instalados nas montanhas dos Apeninos, a fim de alcançar o Vale do Panaro. As defesas alemães eram conhecidas pelo nome de Gengis Khan e eram, praticamente, um dos últimos pontos fortes com que os germânicos poderiam fazer frente aos poderosos exércitos aliados na Itália.

I - MONTESE - PATRULHA DE COMBATE NA ANTEVÉSPERA DO ATAQUE

Como preâmbulo da conquista de Montese, vou descrever a atuação de uma patrulha de combate, na antevéspera do ataque. Acredito que essa ação foi preponderante para a vitória alcançada. O 3° Pelotão da 2ª Companhia do 11° Regimento, comandado por mim, na época 2° Tenente, ocupava, desde 10 de março de 1945, a posição defensiva da região de Biccochi, Cota 930, quando às 5:00 horas do dia 12 de abril, recebeu ordem do seu Comandante de Companhia, Capitão Sidney Teixeira Álvares, por via telefônica, para organizar uma patrulha de reconhecimento que, sob o comando de um Sargento, teria por missão reconhecer a elevação de Montaurígula e, caso não encontrasse resistência, chegar até Montese. O Comandante do Pelotão, ciente de que atacaria Montese em breve e de que o itinerário previsto para a patrulha coincidia, em linha geral, com o eixo de ataque programado para seus comandados, solicitou, por esse motivo, ao Comandante de Companhia autorização para sair com uma pequena patrulha de reconhecimento, coberta pela patrulha principal, com o fim de melhor estudar o terreno que iria palmilhar. O Capitão Sidney encaminhou o pedido ao Comandante do Batalhão, Major Manoel Rodrigues de Carvalho Lisboa, que aprovou, em princípio, aquela sugestão, mas achou de bom alvitre que fosse apenas uma patrulha, a de combate, sob meu comando. Em face da decisão adotada, a patrulha, fortemente armada, com 21 homens, sendo 3 especialistas em minas, partiu às 9:00 horas da sua posição de combate (Biccochi), alcançando Montaurígula sem alterações. Galgou a patrulha esta elevação e progrediu na encosta sul, rumo geral leste-oeste. Após atingir a metade da elevação, que possuía a forma de uma colina alongada, encontrou um campo de minas antipessoal. O esclarecedor ponta de patrulha já havia caminhado alguns passos dentro do campo, quando percebeu, por sorte e felicidade, as minas, pois algumas achavam-se expostas. Naquele momento dramático, um soldado integrante da patrulha comentou: "Furtado não morre mais nesta guerra", referindo-se ao companheiro José Leite Furtado, o esclarecedor ponta. Passou, então, a atuar a equipe de minas, a qual abriu uma brecha no campo de cerca de 40 metros de comprimento por 1 metro de largura, retirando 82 minas antipessoal, do tipo Schuchmine (quebra-canela), que funciona com a pressão de 4 quilos. A patrulha, após cerca de 2 horas de espera, transpôs o campo minado, prosseguindo na sua missão. Ao aproximar-se da parte oeste da elevação, Cota 759, divisou uma casa grande com dois pavimentos e muitas janelas, a qual tinha ao seu lado duas outras bem menores, sendo que uma delas devia ser simples depósito ou palheiro. Procurou alcançá-las, com toda cautela. Ao abordá-las, o dispositivo da patrulha era o seguinte: um terço dos homens colocado acerca de 180 metros das casas, nas partes mais altas do terreno, dispondo de um excelente campo de visão e fogos, e a quase totalidade dos demais encontrava-se numa estrada, que tinha o piso baixo, assemelhando-se a uma trincheira, que distava cerca de 130 metros das casas. O esclarecedor ponta, o Soldado Furtado, ao transpor uma cerca de arame farpado, próximo das casas, foi atingido mortalmente por uma rajada de metralhadora, que partiu da minúscula casa. A patrulha respondeu imediatamente aos fogos, fazendo calar a resistência inimiga, tendo, possivelmente, abatido um soldado alemão, que se aproximou de uma das janelas. Tínhamos, naquele instante, superioridade de fogos e o terreno nos era favorável, pois ocupávamos as partes mais altas da elevação. O moral da tropa atacante era alto. Havia gana por parte de alguns soldados, o que levou o Comandante da patrulha a conter aqueles que se expuseram inutilmente, atirando do parapeito da estrada, quando podiam fazê-lo, com precisão e relativa segurança utilizando-se do leito da mesma. Num estudo da situação, o Comandante da patrulha concluiu que um ataque frontal seria desgastante, por isso resolveu assaltar as casas pelo flanco direito do inimigo. O Comandante da tropa mantinha contato permanente com o Comandante da Companhia, por via telefônica, por meio do Comandante do 2° Pelotão, Tenente Ary Rauen. Quando realizava os reconhecimentos necessários, objetivando assaltar as posições inimigas, recebeu ordem do Capitão Sidney para desengajar, afastar-se das casas, para que o batalhão bombardeasse as resistências inimigas, com morteiro 81mm, com o propósito de facilitar a conquista do objetivo. Ponderou que não precisava de bombardeio e pediu para sustá-lo, porquanto encontrava-se muito próximo do objetivo, dominando-o pelos fogos e ultimando os reconhecimentos indispensáveis, com a finalidade de assaltá-lo. Naquele ínterim. manobrava parte da patrulha para a esquerda, visando ao flanqueamento das três casas. O Sargento, que procedia aos reconhecimentos, informou ao Tenente que o terreno não era favorável, pois encontrava-se minado. Quando o Comandante da patrulha ultimava o reconhecimento de outro flanco, recebeu ordem de retrair, porque a Artilharia Divisionária iria efetuar bombardeio na região e a patrulha já havia ultrapassado de muito o tempo programado. A patrulha, antes de por em execução a ordem recebida, cumpriu a missão de honra cristã, que foi a de recolher o corpo do Soldado Furtado, que se encontrava muito próximo das casas onde se encontrava o inimigo, o que foi realizado com certa dificuldade, mas sem problemas. A seguir, procedeu a retirada, em ordem, disciplinadamente. Quando se encontrava a uma distância apreciável das casas, cerca de 350 metros, passaram os alemães a dar "sinal de vida", dando algumas rajadas de metralhadora as quais foram respondidas, mas tudo sem maiores conseqüências. O tempo gasto pela patrulha foi de 5 horas, ou seja, das 9:00 às 14:00 horas.

Resultados obtidos pela Patrulha
1° - Reconhecimento minucioso do terreno;
2° - Localização e levantamento parcial de um campo minado, situado no terreno que estava previsto para ser, e realmente foi, uma das principais bases de partida do Batalhão para o ataque a Montese;
3° - Localização de um importante posto avançado do inimigo.

II - CONQUISTA DE MONTESE

1 - Escolha do flanco - "Cara ou Coroa"

Preliminarmente, vamos recordar o episódio que serviu para definir o flanco, que o 3° Pelotão (Tenente Iporan) ocuparia, no dia do ataque a Montese. Até às 15hs do dia 11 de abril, sabíamos, tão somente, que a nossa sub-unidade atacaria Montese com dois Pelotões em primeiro escalão, o segundo (Tenente Ary) e o terceiro, mas não se haviam definido quais os flancos que ocupariam estes Pelotões. Por isso os Tenentes Ary e Iporan, após realizarem um reconhecimento no terreno onde iriam atacar, utilizando uma carta de Montese, num PO (Posto de Observação) da Companhia, resolveram disputar na "cara ou coroa" qual seria o flanco dos Pelotões no dia do ataque. O Tenente Ary ganhou e escolheu o direito, que julgávamos ser o mais favorável ao ataque. O resultado da disputa foi levado ao conhecimento do Capitão Sidney, que a homologou. Mais tarde, ficou comprovado que o direito não era tão favorável como parecia, pois encontrava-se extremamente minado.

2 - Preparativos para o ataque a Montese.

Antes do alvorecer do dia 14 de abril de 1945, a tropa atacante se movimentou para ocupar o dispositivo. Nosso Pelotão deixou a posição que ocupava na LPR (Linha Principal de Resistência), em Biccochi, e alcançou Montaurígula, seguido do 1° Pelotão de Fuzileiros da 2ª Companhia, do 1º Pelotão de Morteiro 81 mm da Companhia de Petrechos Pesados do 1° Batalhão do 11° Regimento de Infantaria e uma seção de Metralhadora Pesada da 2ª Companhia. Para ocupar seus dispositivos, este grupamento ultrapassou a zona minada, utilizando-se da brecha aberta dois dias antes, no campo localizado e neutralizado parcialmente. Ao romper da aurora, os alemães, pressentindo a movimentação da tropa, procuraram dificultar suas ações, bombardeando com tiros de inquietação o campo minado, o que nos obrigou a transpor a zona batida em pequenos grupos de homens, aproveitando-se dos intervalos entre um bombardeio e outro. Naquela ocasião, como oficial mais conhecedor da situação local, procurei orientar a transposição da zona minada, o que foi realizada sem baixas e com sucesso. Os alemães, com certeza, não sabiam da brecha no campo minado, porque, se soubessem, não realizariam os tiros de inquietação, que são um ou dois tiros de artilharia ou morteiro, dados num determinado local, com pequenos intervalos de tempo, com o objetivo de dificultar uma ação do inimigo, que no caso em questão, seria a retirada das minas.

3 - Fases do Ataque a Montese

A conquista da Cidade de Montese, que era a missão principal da 2ª Companhia, foi planejada para ser realizada em duas fases bem distintas:
1ª fase: missão secundária, às 9hs - ataque com dois Pelotões a dois Postos Avançados do inimigo. O 1° Pelotão, sob o comando do 2° Sargento Leôncio Soares, no ponto cotado 759, à oeste da Montaurigula, e o 2° Pelotão (Tenente Ary Rauen) à sudeste de Montese.
2ª fase: Missão principal, às 13:30hs - ataque à Cidade de Montese, com dois Pelotões. O 3° Pelotão (Tenente Iporan) à esquerda e o 2° Pelotão (Tenente Ary) à direita.

3.1. Desenrolar da 1º Fase de Combate

Na hora prevista, os dois Pelotões atacaram seus objetivos. O primeiro teve, inicialmente, o seu avanço prejudicado pela ação do inimigo que, possivelmente ressabiado pela ação da patrulha 2 dias antes, manteve os nossos à distância, pelos fogos. O Tenente Iporan, encontrando-se em Montaurigula, acompanhava a atuação do 1° Pelotão e procurou orientar, por telefone, o Sargento Leôncio na conquista do seu objetivo, ficando 100 metros à sua retaguarda, quando, então, ficou exposto aos tiros das armas tensas do inimigo, que passavam nas suas proximidades. O Pelotão Leôncio não conseguiu atingir seu objetivo na hora prevista. Só o conquistou algumas horas após ser desencadeada a ação, na 2ª Fase do Combate. O 2° Pelotão ficou detido em frente de um campo minado, batido por fogos de Infantaria, e o seu bravo Comandante, Tenente Ary, acaba mortalmente ferido, com um tiro na cabeça. O Pelotão sofre outras baixas e não atinge seu objetivo.

3.2. Desenrolar da 2ª Fase de Combate

Às 13:00hs, fomos informados pelo Comandante da Companhia que a "Hora H" do ataque principal seria na hora prevista, às 13:30hs. Ponderamos, então, que era, praticamente impossível atacar Montese, partindo-se de Montaurígula, antes da queda do Posto Avançado deste morro, porque senão receberíamos tiros inimigos pela retaguarda, oriundos deste Posto. O Capitão Sidney respondeu-nos que iria mandar intensificar o ataque sobre o Posto Avançado, mas que o Pelotão deveria partir para o ataque na hora prevista, juntamente com os demais elementos do regimento. Havíamos planejado atacar Montese partindo do Posto Avançado de Montaurígula, mas, em face da impossibilidade da sua utilização, decidimos, baseados nos estudos do terreno efetuados naquela manhã, que desembocaríamos para o ataque, como realmente, o fizemos, partindo de uma ravina, bastante íngreme e coberta de vegetação, existente logo após o campo minado. Às 13:30hs, bastante preocupados com a possibilidade de recebermos tiros pela retaguarda, oriundos do Posto Avançado de Montaurígula, saímos para o ataque. Mal o Pelotão transpôs, em linha, a crista, partiram de Montese foguetes de sinalização, com estrelas vermelhas, possivelmente denunciando nosso ataque. A tropa ultrapassou os pontos mais elevados com grande rapidez, facilitada, em muito, pelo terreno íngreme. Após o Pelotão ter vencido um terço das elevações, sua retaguarda foi batida por uma densa e compacta barragem de artilharia, que cortou o fio telefônico em vários pontos e colocou fora de combate um soldado da equipe de minas e outro de saúde. No terço inferior da elevação, aproveitando-se de uma estrada carroçável, que oferecia boa proteção, o Pelotão reajustou o seu dispositivo e lança à frente, incontinenti, o 3° Grupo de Combate (Sargento Celco Racioppi). Os dois outros Grupos de Combate apoiam o seu avanço, trocando tiros esparsos com as primeiras resistências inimigas, mal definidas no terreno. O Grupo ponta, após um pequeno deslocamento, para e assinala a existência de minas. O Comandante do Pelotão, ao chegar ao ponto assinalado pelo Sargento, constatou com satisfação que não se tratava de um campo minado e sim de "booby-traps", armadilhas colocadas na estrada, feitas com cinco fios de arame fino, atravessando a estrada, tendo em cada extremidade uma mina antipessoal. Com o fim de ganhar tempo, neutralizamos pessoalmente as minas, pois conhecíamos, tecnicamente, o manuseio dos artefatos, por havermos tirado, anteriormente, um curso de minas. A seguir, mandamos o 3° Grupo de Combate continuar a progressão, ao mesmo tempo que determinamos o avanço do 2° Grupo de Combate (Sargento José Mathias Júnior), passando a marchar com este. O Grupo mais avançado começou a galgar as elevações de Montese, favorecido pelo terreno, que, preparado para a agricultura, assemelhava-se a grandes escadas. Ao chegar ao topo das mesmas, o Grupo foi detido por fogos oriundos das resistências colocadas na frente de uma casa de grande porte. Juntamo-nos ao Grupo para estudarmos a situação, quando constatamos que as posições inimigas distavam cerca de 150 metros e que o espaço que nos separava era formado por uma espécie de bacia, com encostas suaves e vegetação rasteira. Determinamos, então, ao Comandante do Grupo manter a posição, apoiar o avanço do 2° Grupo de Combate, que seria empregado á esquerda, o que se processou, enquanto o 1° Grupo de Combate (Sargento Rubens de Miranda) foi puxado para a frente. Naquela oportunidade, o Pelotão tinha perdido toda a ligação com a Companhia: o telefone não funcionava, por terem os cabos sido rompidos pelos tiros da artilharia inimiga; o rádio deixou de captar e transmitir as mensagens por causa da distância e ondulações do terreno; e não havíamos ainda conseguido estabelecer ligação alguma com o Pelotão Ary Rauen, que deveria estar atuando à direita. Preocupados com a falta de comunicação, enviamos um mensageiro ao Comandante da Companhia, dando ciência da nossa posição e da situação. O segundo Grupo empregado teve o seu avanço sustado por fogos oriundos do flanco direito da casa mencionada e de duas outras colocadas à esquerda. Sua situação era análoga ao do outro Grupo anteriormente detido, ou seja, no topo das escadas, separados do inimigo por curtas distâncias, tendo de permeio um terreno limpo. Competia ao Comandante do Pelotão empregar o último Grupo. Naquela situação difícil, passou pela nossa mente algumas aulas de tática ministradas na Escola Militar de Realengo, pelo então, Ten. Cel. Humberto de Alencar Castello Branco. Recordamo-nos, também, do ataque ao Monte Castello, em 12 de dezembro de 1944, quando um Pelotão de nossa Companhia entrou em terreno limpo na Região de Abetaia e foi surpreendido pelo inimigo, caindo o tenente prisioneiro e sofrendo o Pelotão pesadas baixas. Devo esclarecer que o oficial aprisionado foi o 1° Ten. Emílio Varoli, Comandante do 1° Pelotão da nossa sub-unidade, por sinal único Oficial Brasileiro da 1ª DIE, preso pelos alemães, durante toda a guerra. Em face destas meditações não nos apressamos em acionar o último Grupo, que poder-nos-ia levar à vitória. Procuramos estudar meticulosamente, o terreno e o inimigo, chegando à conclusão de que, atuando mais à esquerda, aumentaríamos as possibilidades de sucesso, porque os "degraus das escadarias" prolongavam- se quase junto a duas casas da esquerda. Após os reconhecimentos, determinamos o avanço do último Grupo de Combate sob o comando do Sargento Rubens. Para ficarmos, com as nossas atenções inteiramente voltadas para a ofensiva deste Grupo, determinamos, previamente, que o 2° Sargento Auxiliar, Nestor da Silva, comandasse o apoio de fogos dos detidos, em proveito do atacante. Inicialmente, a progressão foi feita com relativa facilidade, mas, à proporção que se aproximava das casas, diminuía o seu ímpeto. Constatamos, em dado momento, que o ataque estava, praticamente, parando. Resolvemos, então, impulsioná-lo pessoalmente. Deslocamo-nos, assim, para frente, passando a atuar qual um Comandante de Grupo. O Sargento Comandante ponderou, achando que o Tenente estava fazendo "loucuras", mas passou a atuar com mais energia e denodo. Avançávamos ouvindo o pipocar das granadas de mão dos alemães, as quais explodiam nas proximidades. O Grupo em ação, comigo à testa, quando se aproximava do topo das escadarias do terreno, cerca de 40 metros das duas casas e se preparava para tomar o dispositivo para o assalto, recebeu inesperada e surpreendentemente um denso bombardeio da nossa Artilharia, que nos envolveu, juntamente com o inimigo. Num relance de vista, verificamos que não houve nenhuma baixa. Então bradamos: "Avante! As casas!". O Grupo atingiu as posições inimigas, enquanto não se havia dissipado a fumaça da artilharia. Os alemães permaneciam no fundo de seus abrigos, quando os nossos ultrapassaram as suas posições, sabiamente camufladas. Tentaram, então, reagir, mas foram postos fora de combate. O Comandante do Pelotão procurou, imediatamente, reconhecer o terreno em frente e, quando o fazia, foi metralhado de uma das janelas laterais da casa grande, não sendo atingido, mas tendo a sua calça chamuscada. Para fugir dos tiros, saltou para o interior de uma casa ou, mais precisamente, ficou equilibrado na soleira da porta do segundo andar, não podendo penetrar no seu interior, porque o piso da mesma havia sido destruído por tiros de artilharia. Logo a seguir, viu um combatente passar correndo em sua frente, o que o fez esquecer o perigo e sair em sua perseguição, quando constatou que não se tratava de um alemão, mas sim de um soldado brasileiro, que também estava fugindo da metralha inimiga. Após penetrarmos nas linhas inimigas, a grande preocupação do Comandante do Pelotão era a falta de ligação com a retaguarda, pois temia ser novamente bombardeado pela nossa artilharia. Com seu rádio, procurava, insistentemente, restabelecer a ligação com o Comandante de Companhia, mas não conseguia. O 3° Sargento, José Marinho de Andrade, Comandante da Seção de Metralhadora Pesada, que nos apoiava, ouvindo pelo seu rádio que o diálogo entre estes dois Comandantes não se completava, resolveu, este graduado, com grande espírito de cooperação e enfrentando grande risco de vida, juntar-se ao Comandante da tropa, que havia, há pouco, rompido as resistências inimigas, quando então, com o seu rádio, foi restabelecida a ligação com o Comandante da Companhia, o qual foi informado de que havíamos introduzido uma cunha na defesa adversária, mas que a situação era crítica, pois recebíamos tiros de armas tensas pelos dois flancos. O Capitão Sidney prometeu mandar um Pelotão de Fuzileiros para nos reforçar. O fato do nosso pelotão ter sofrido bombardeio da nossa própria Artilharia foi explicado pelo General Delmiro Pereira de Andrade, Comandante do 11° RI, no seu livro O 11° RI na II Guerra Mundial, do seguinte modo:

"A 2ª Companhia está sendo bastante hostilizada nas encostas Sul de Montese. O Pelotão mais avançado tem várias baixas, inclusive seu Tenente, S/3 do RI informa ao Comandante do I Batalhão que uma concentração de dois Grupos de Artilharia ia ser desencadeada sobre as resistências de Montese. Uma mensagem urgente, às 14h, do Capitão Sidney, Comandante da 2ª Companhia, informa que o Tenente Iporan entrara em Montese sob terrível bombardeio e que suspendesse, imediatamente, a concentração que havia começado momentos antes. Um mensageiro enviado pelo Tenente Iporan informava ao Comandante de Companhia a sua verdadeira situação, isto é, que havia atingido o seu 1° objetivo: Montese ".

Realmente, o Soldado Mensageiro Melo, vencendo sozinho inúmeras dificuldades, conseguiu fazer chegar, numa boa hora, a minha mensagem ao Comandante de Companhia, da qual resultou a sustação do bombardeio que, há poucos minutos, se iniciara sobre o nosso Pelotão. Rompidas as defesas, os Grupos detidos foram levados para frente e empregados na consolidação da posição conquistada e nos ataques aos flancos inimigos. Esta rocagem se processou com dificuldade, ou seja, em pequenos grupos de soldados, que galgaram as elevações por lanço, para fugirem aos tiros de uma metralhadora inimiga que, postada no nosso flanco esquerdo, começou a atirar, logo após termos conquistado a posição. Esta arma nos causou uma baixa fatal. O 2° Grupo de Combate, logo após juntar-se ao 1° Grupo, é empregado para dominar as resistências que hostilizavam o nosso flanco direito, isto é, as instaladas em frente à casa grande, que foi a primeira a nos deter. Este Grupo, postado em situação favorável, atirando de curta distância sobre um abrigo onde se havia localizado uma metralhadora inimiga, fez com que os seus dois ocupantes levantassem um lenço branco para, logo em seguida, se entregarem e as resistências silenciaram, possivelmente com a fuga dos demais defensores. O 3° Grupo de Combate foi empregado, logo a seguir, para atacar os tedescos, que hostilizavam o nosso flanco esquerdo. Depois de uma luta demorada, em que se conquistou o terreno palmo a palmo, o 3° Grupo de Combate conseguiu, no final do dia, dominá-los, fazendo os mesmos se retraírem, após sofrerem algumas baixas. No desenrolar desta peleja, foi digno de louvor a atuação do Comandante do Grupo, Celso Racioppi, que, ferido, ocultou o ferimento e prosseguiu na refrega. O 1° Pelotão, após conquistar o Posto Avançado de Montaurígula (cota 759), recebeu a incumbência de seguir as pegadas do 3° Pelotão e chegar até Montese, a fim de reforçá-lo. Mas não pôde cumprir sua missão porque, logo que transpôs a crista de Montaurígula, sofreu a ação da barragem da Artilharia inimiga, que lhe ocasionou as primeiras baixas. O pelotão manteve-se próximo da crista, tentando socorrer os feridos, e o inimigo aproveitando-se da inexperiência do Comandante, bombardeava impiedosamente, fazendo aumentar o número de vítimas. O Pelotão desarticulou-se e refluiu, deixando o 3° Pelotão sem o reforço prometido pelo Capitão Sidney. O Tenente Iporan, logo após ter rompido as defesas inimigas, manteve-se numa posição central com uma reserva na mão, a espera de um contra-ataque, que, felizmente, não se deu. Ao cair da noite de 14 de abril, o 3° Pelotão havia dominado as encostas sudoeste da cidade e quebrado a capacidade defensiva da Infantaria alemã, que, desnorteada, abandonou suas posições, deixando no campo de luta alguns mortos e oito prisioneiros. Do nosso lado, houve quatro baixas, sendo um morto e três feridos. Cerca de 19hs, o Capitão Sidney, à frente dos remanescentes da Companhia e, ainda, reforçado por um Pelotão de Fuzileiros, juntou-se ao Pelotão que se encontrava em Montese. O Capitão, logo após inteirar-se da situação, à testa de alguns homens, procurou entrar em ligação com uma tropa amiga, nas proximidades do 3° Pelotão, mas não conseguiu. Na noite de 14 para 15 de abril, Montese, não obstante encontrar-se sob o domínio das tropas brasileiras, abrigava em seu seio um número elevado de soldados inimigos, o que não impediu a Artilharia alemã de desencadear sobre a cidade, naquela noite, cerca de 2 800 tiros, ou seja, uma média de quatro tiros por minuto. Na manhã do dia 15, ainda debaixo de maciço fogo da Artilharia alemã, a tropa brasileira ultima a limpeza da cidade. Como coroamento da missão, tivemos oportunidade de prender, pessoalmente, dois artilheiros alemães que se encontravam no interior da torre de Montese. A captura destes prisioneiros se efetuou do modo seguinte: penetramos, com alguns soldados, no pátio todo murado, que dava acesso à torre e a outras edificações. Enquanto alguns vistoriavam outras dependências, o Comandante do Pelotão, acompanhado de um soldado, subiu uma rampa, que tinha no seu topo a entrada da torre e, na ocasião, estava com a porta entreaberta. Então, o Comandante deu um violento pontapé na mesma e penetrou, impetuosamente, no seu interior, armado com uma carabina 30 dando de cara, a menos de 3 metros, com os dois soldados alemães, que, surpreendidos, entregaram-se imediatamente, sem esboçarem nenhuma reação.

Antes de finalizar este depoimento, desejo ressaltar a atuação das tropas brasileiras no dia 14 de abril de 1945. Naquele dia, o IV Corpo do Exército Americano iniciou o ataque com um efetivo de cinco Divisões, sendo duas Blindadas e três de Infantaria, totalizando, aproximadamente, sessenta mil homens. Das de Infantaria, enfoco a brasileira e a 10ª Divisão de Montanha dos Estados Unidos, considerada a melhor tropa aliada no solo italiano, formada por homens fortes e selecionados, verdadeiros gigantes. Iniciado o ataque, os alemães reagiram ferozmente, apoiados na sua adestrada Infantaria e na sua poderosa Artilharia. Cumpre-me ressaltar que, nos violentos e mortíferos combates do dia 14 de abril, só a Divisão Brasileira conseguiu conquistar seu objetivo. Reservou-me o destino a honra e o privilégio de comandar o pelotão, que primeiro rompeu o dispositivo inimigo e penetrou em Montese, numa hora, num instante em que sofríamos pesadas perdas diante das bem instaladas resistências inimigas. O fato de a Divisão Brasileira ser a única a conquistar seu objetivo, no primeiro dia da Ofensiva da Primavera, levou o Comandante do IV Corpo do Exército Americano, General Willis Crittenberger, a declarar, no dia 15, o seguinte:

"Na jornada de ontem, só os brasileiros mereceram as minhas irrestritas congratulações; com o brilho de seu feito e seu espírito ofensivo, a Divisão Brasileira está em condições de ensinar às outras como se conquista uma cidade".

No decorrer da ofensiva da primavera, de 14 a 18, a Força Expedicionária Brasileira enfrentou os mais árduos e sangrentos combates, tendo sofrido, nestes cinco dias, 426 baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos e fez 553 prisioneiros, estando incluídos, entre estes, cinco oficiais alemães. Contribuímos, assim, para que a nossa Força Expedicionária escrevesse, nos campos de batalha da Itália, uma das imorredouras páginas de nossa História Militar.

"- Antes de finalizar, Cel. Iporan, pergunto-lhe qual a mensagem que você transmitiria aos nossos jovens."

"- Jovens do meu querido Brasil! Lembro-lhes que para vencer na vida hoje, é fundamental a dedicação ao estudo, em todas suas variadas formas de pesquisa, conhecimento e aplicação. No caminho da vida há muitas pedras, umas pequenas, outras grandes. Esforcem-se para ultrapassá-las, porque só assim alcançarão seus objetivos, em benefício de si próprio e das comunidades onde convivem. Procurem analisar, em nossa história, as vidas de nossos grandes vultos, pois elas são ricas em exemplos edificantes. Procurem, sempre que possível, praticar o Bem, não olhando para quem, e nunca esperem recompensas nesta vida, pois tal direito só será reconhecido por Deus. Oponham-se, firmemente, energicamente, ao uso das drogas, nunca admitindo experimentá-las, pois da primeira dose ao vício deplorável o caminho é muito curto. E, então, desmorona-se a vida sadia e digna de ser vivida. Sejam felizes, realizando os sonhos da juventude, que são, em última instância, os da esperança de todos os brasileiros."

Iporan Nunes de Oliveira
Texto enviado por Diana Oliveira Maciel


Cordeiro de Farias em ação
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
Joel Silveira e Thassilo Mitke

Montese pode ser invadida agora, disse o general Cordeiro de Farias, após o martelar da cidadela em poder dos alemães. A FEB entrou na cidade sob o fogo dos nazistas, que se retiraram para Montello, mais ao norte.

"A Luta dos Pracinhas" 
Joel Silveira e Thassilo Mitke


O Esquadrão de Reconhecimento, sob o comando do Capitão Plínio Pitaluga, entra em Montese após o bombardeio
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas" - Joel Silveira e Thassilo Mitke

Montese foi, para mim, a mais árdua das missões da guerra. Fala-se muito de outros combates, mas eu considero que duro mesmo, foi MONTESE."

Marechal Cordeiro de Farias

 


Montese - 14/04/1945
Arquivo Diana Oliveira Maciel

"O combate de Montese foi a etapa de maior importância para a ofensiva da primavera. Objetivos foram perseguidos e conquistados, e mais terreno não foi ocupado porque perdera significação, face aos acontecimentos ocorridos no setor da 10ª Divisão da Montanha. A batalha de Montese contribuiu significativamente para o êxito do conjunto: fixou tropas numa região de grande importância, obrigou o inimigo a fazer enorme consumo de munição (mais de 3 200 projéteis de canhão foram atirados). Foi uma vitória muito dura. Os três dias de luta causaram à tropa brasileira 426 perdas, entre mortos e feridos, custo alto em vidas humanas, acentuando a importância que o próprio inimigo deu à posse da posição conquistada pelos brasileiros. O próprio General Mascarenhas, em suas Memórias, afirmou que Montese foi palco da mais árdua e sangrenta vitória das armas brasileiras na Itália."

"A FEB por um Soldado"
Joaquim Xavier da Silveira

 


Vista do interior da localidade após a conquista de Montese
Arquivo Diana Oliveira Maciel

"Mas a infantaria brasileira, continuadora da glória imorredoura de SAMPAIO, foi de todas as armas a mais sacrificada. Foi a ela que coube, em arrancada fulminante, pelo fogo ou pela baioneta, desalojar o inimigo de suas posições dominantes e poderosas, quebrar-lhe a fúria selvagem. A pé, de armas na mão, abnegado e estóico, arrastando-se na lama ou no gelo, ascendendo por penhascos através de vales profundos, indiferente às minas e aos fogos traiçoeiros, a um só tempo marchando e lutando, superior às intempéries e à fadiga, vai o infante brasileiro, em busca do inimigo, onde quer que ele esteja."

Marechal Mascarenhas de Moraes

 


Patrulha brasileira na região do Montese
Arquivo Diana Oliveira Maciel

A Morte de Montese

Estive aqui em Montese pela primeira vez três dias atrás, quando esta pequena cidade - singela como um presépio - ainda era para os pracinhas brasileiros uma conquista incerta. Os soldados do 11º Regimento de Infantaria já tinham se apoderado de mais da metade da cidade e dominado os últimos pontos de resistência dos alemães. Mas os nazistas, espalhados pelos montes em derredor, jogavam sobre a cidade, minuto após minuto, uma chuva interminável de morteiros. Nosso jipe - meu, de Egydio Squeff e de Thassilo Mitke - teve que correr como um foguete pela estrada quase impraticável, e assim mesmo tendo o cuidado de não sair um centímetro sequer fora da margem, toda ela minada. Até agora não sei como o motorista Adão - um fero cabo de São Borja - soube cumprir a dupla e ingrata tarefa de andar a 50 milhas por aquele caminho amaldiçoado. Encontramos em Montese apenas vestígios - ou melhor, resíduos - de uma cidade que em tempos de paz deveria ter sido um belo, um carino lugarzinho equilibrado numa crista suave, com a sua torre medieval, esguia como um pinheiro, o vale estendendo-se lá embaixo, suas coloridas bancas de jornal e seus monumentos antigos. Brasileiros e alemães, no contraponto da luta ofensiva e defensiva, reduziram Montese a ruínas. Durante horas, os homens do 11º Regimento lutaram de casa em casa, até que os últimos cinco alemães foram mortos diante da igreja, velha de séculos. Há quatro dias que Montese já está definitivamente em mãos dos brasileiros, mas ainda é um lugar sem sossego. Suas ruas estão desertas. Ontem à noite o que restava da torre veio abaixo - vítima de um morteiro alemão. O Posto de Socorro Avançado brasileiro, onde há três dias estivemos em visita aos pracinhas feridos, foi hoje pela manhã atingido por uma granada incendiária - e ainda agora arde como uma imensa fogueira que ninguém se preocupa em apagar. Nestes últimos três dias as coisas não mudaram muito em Montese. Os alemães continuam em suas casamatas, fincadas nas grimpas a menos de um quilômetro da cidade, e ainda não podemos andar a descoberto ou atravessar sem cuidado as ruas entulhadas de destroços. Muitas destas ruas, na parte sul da cidade, a que escorrega até o Vale do Panaro, bem lá embaixo, continuam bloqueadas, com suas casas desmoronadas e seus quarteirões minados. Se, por exemplo, quisermos passar aqui de onde estamos, do lado direito da Via Augusto Righi, para o outro lado, teremos, que fazer isso numa disparada, pois a menor demora ou descuido e um convite a uma certeira e raivosa rajada das metralhadoras "lurdinhas" dos alemães, ou a uma maciça concentração de tiros de morteiros. Escrevo esta reportagem do Posto de Comando do Major Henrique Oest, nesta que foi a rua principal de Montese. O andar superior do prédio onde me encontro simplesmente não existe mais, de forma que o major teve que alojar num quarto dos fundos, dos raros que sobraram, escuro como se fosse noite, todos os seus apetrechos de guerra, mapas, telefones, caixas de munição e de comida enlatada. As portas estão todas protegidas por sacos de areia, que também se acumulam no piso lá em cima. São precisamente 11 horas da manhã: escuto os morteiros alemães explodindo em diferentes pontos da cidade. Outros ruídos, diferentes e desiguais, me dizem aos ouvidos já acostumados com a voz da guerra que um outro muro ou casa de Montese foi abaixo e que uma nova cratera fumegante foi cavada nas proximidades. Quando os alemães fizerem uma pausa no seu trabalho, e eu conseguir dar uma espiadela lá fora, é mais do que certo que irei ver novos indícios da guerra que está acabando com Montese. Possivelmente o prédio que era a farmácia não existirá mais; e o esverdeado balcão da bela casa da esquina, debruçado sobre o vale, também já terá desaparecido. Ali, na paz, é o que me conta o velho contadino, os homens bebiam vinho, discutiam política e futebol. E as moças, nas tardes dos sábados e domingos, mostravam seus melhores vestidos. Se esta concentração de fogo alemão continuar, e o nosso PC começar a ser alvo fácil, o remédio é descer até a adega - um corredor úmido e sem luz onde os alemães deixaram enterrados litros e litros de um grosso e purpúreo vinho espumante. E se o tiroteio demorar, a solução é provar do vinho e deixar que ele, como um sangue novo, ponha em forma alma e nervos tensos e atormentados. Depois voltaremos para o mundo lá em cima, e o PC retomará a sua rotina: o major atenderá a incansáveis telefonemas de seus superiores ou subordinados, receberá e transmitirá ordens, pedirá tiros de nossa Artilharia sobre as cotas ainda dominadas pelos alemães, dirá alguns palavrões e blasfêmias, e repetirá 10 ou 20 vezes mais, neste resto de dia, a sua frase habitual: "Eles não podem com a gente". Não podem mesmo.

"A Luta dos Pracinhas"
 Joel Silveira e Thassilo Mitke

 


Blindado e coluna de marcha da 1ª DIE na região de Montese
Arquivo Diana Oliveira Maciel


Interior da cidade de  Montese
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

Montese era a última resistência alemã, propriamente organizada nas montanhas.  Foi o extremo esforço que fizeram para conter a avalanche que descia implacavelmente sobre o Vale do Pó. Em Montese eles consumiram mais munição do que nas frentes das outras quatro divisões do IV Corpo. Ali jogaram sua cartada final. Depois veio a fuga desesperada. Quem não pudera resistir nas montanhas, contando com o auxílio do terreno, que esperança podia ter na planura? Montese é o último capítulo da Epopéia dos Apeninos, de que Monte Castello fora o primeiro. os frutos compensadores iam ser colhidos na planície, dentro de poucos dias, mas o esforço decisivo fora de Monte Castello a Montese. Com lances de bravura, destemor e sangue frio, pondo à prova todos os valores morais de nossa gente, a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária acabava de escrever a gloriosa e imorredoura Epopéia dos Apeninos, cujos feitos heróicos serão gravados com palavras de ouro na História de nossa Pátria.

"A Epopéia dos Apeninos"
José de Oliveira Ramos

 


Montese em ruínas
Foto escaneada do livro "100 Vezes responde a FEB" - Marechal José Machado Lopes

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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