FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

Hino Nacional cantado pelas tropas brasileiras na Catedral de Pisa,
sob bombardeio que pode ser percebido durante a gravação.
Salve Aqui


Instrução em San Rossore
Foto escaneada do livro "100 Vezes responde a FEB"
 Marechal José Machado Lopes

Faz, hoje, exatamente três meses que pisamos o velho solo italiano. Três meses de vida como sonho. A expressão não é pertinente porque sempre a julgamos no bom sentido, de bem-estar, de fantasia. Sonho porque se nos afigurava vivendo em mundo de fadas, sem contato com as coisas de nossa habitual vida em casa. Vivemos em ambiente de guerra, os dias misturam-se com as noites, os dias da semana parecem, iguais à nossa diária atividade, só temos noção da data, porque o calendário nos indica. Como se tivesse sido passada uma esponja sobre a nossa multiforme atividade na pátria e unificado tudo em labuta uniforme, dia e noite, semanas a fio, meses a correr, sem distinção. Não raro, ao sairmos de longa permanência na sala de operações e atinarmos que, por exemplo, são sete horas, perguntamos se não é pela manhã ou à tarde. Só temos serviço de guerra, isto é, feridos, amputações traumáticas, ventres dilacerados, tórax abertos, crânios amolecidos pelo efeito da metralha; gemidos, queixas, gritos de dor, sangue a correr, olhos vidrados pela morte, faces encovadas devido ao estado de choque, é o quadro dantesco na sala de ressurreição do pequeno Hospital 32º. Este estado de coisas, essas cenas de horror acabam influindo no nosso espírito. Aqui, no campo de batalha, só está o nosso corpo, a nossa inteligência, a nossa disposição, porque a afeição está longe, no Brasil. Temos forte impressão de que fomos desdobrados: o cirurgião aqui está presente em plena e áspera atividade, a desafiar-lhe a energia orgânica e psíquica, mas o homem social, afetivo, sensível, ficou, qual fantasma, em nossa terra natal. Dirão os psiquiatras que nós já estamos sofrendo daquela entidade mórbida da dupla personalidade, primeira manifestação da psicose de guerra. É possível. Quando eles assim nos falam, aqui nos nossos colóquios, nós os encaramos na face e nos lembramos da parte que lhes toca na seriação dos conhecimentos médicos: "nada sabem e nada fazem"... Nos dois últimos dias o nosso trabalho minorou. A chuva gelada e manhosa por certo cerceou a atividade da nossa frente, felizmente para os soldados. Dizemos isso porque o gênero de ferimento que vem a este hospital é horripilante; desejamos sinceramente aos companheiros empenhados na refrega, menos acidentes desta natureza. O dia 30 de novembro de 1944 foi assinado por mais um "push" na frente de Porretta. Desde ontem pela manhã já esperávamos alguma coisa, fomos avisados pelo comando. A tarde, cerca de 18 horas, baixaram dois feridos graves, atingidos no abdome; às 19 horas chegaram mais três. Como as operações tomam, no mínimo, quatro horas, com cinco doentes teríamos mais de 20 horas de trabalho. Mais dois feridos surgiram às 20 horas. A pletora de pacientes excederia as nossas possibilidades, uma vez que dispomos apenas de duas equipes cirúrgicas em ação e não havia reservas. Para solucionar a questão, mandamos três feridos para o 16º Hospital de Evacuação em Pistóia; uma vez que nos pareceram eles perfeitamente transportáveis; pedimos auxílio de uma equipe norte-americana, que estava sem trabalho, no momento; as nossas duas equipes incumbiram-se dos outros feridos. Com tais providências tomadas nos intervalos das operações, nos vamos adaptando ao rigor das necessidades, sem prejudicar os nossos heróicos moços. A zona de luta continuava, nos dias seguintes, a nos enviar mais homens portadores de lesões graves e intransportáveis e o nosso trabalho vai sendo continuado noite e dia, sem distinção, a cortar e remendar, em esforço permanente de praças, sargentos, enfermeiros e médicos, sem direito de descansar, apenas usando os intervalos para nos alimentarmos às pressas, comida fria e fora de hora. E o esforço de nossa heróica mocidade custou-lhe cem feridos em 24 horas, sem se conseguir o objetivo visado, que seria a posse de Monte Castelo, aí a nossa frente, bem visível aos nossos olhos cansados e emocionados. Admiramos como essas moças, das quais a maioria nunca fora enfermeira antes, podem suportar este esforço físico e a soma de emoções que a natureza do trabalho lhes traz. As operações cirúrgicas pela gravidade e extensão impressionam mesmo ao cirurgião mais afeito ao seu mister. O dia 2 de dezembro foi-nos grato por termos recebido, com aviso prévio de duas horas, o nosso comandante chefe, general João Batista Mascarenhas de Moraes. Ao tomar conhecimento da visita, o comandante do 32º Capitão Bowyer, preocupou-se em dar ao general boa impressão. Determinou limpeza geral cuidadosa afim de melhorar o aspecto das enfermarias. A roupa de cama foi mudada e as mobílias bem disposta com aparência de mais ordem e asseio. Achamos interessante a razão dessas medidas porque revelavam preito de homenagem aos nossos. O general veio acompanhado de vários médicos em companhia de um seu colega de posto, norte-americano. Percorreu minuciosamente o nosso hospitalzinho, falou aos feridos, impressionou-se com o estado deles, foi amável e simples com o corpo médico, com os enfermeiros, tanto americanos como brasileiros. Manifestou estar satisfeito com a nossa atuação e afirmou confiar em nossa pessoa "como homem sensato e experiente" capaz de amparar os que trabalham conosco do ponto de vista profissional e moral. Disseram-nos, os que são chegados ao chefe, que ele raramente é tão explícito. Ao dirigir-se aos praças de saúde em ação no hospital, perguntava o general se eles estavam recebendo cartas de casa. Em geral, a correspondência com a Pátria traz alento novo e reforça a moral da tropa, daí a instituição das madrinhas que escrevem, mesmo sem conhecer, para os soldados expedicionários. Os norte-americanos dão ao fato destacada importância; os seus correios aéreos vêem pejados de missivas de conforto e incentivo. Certamente ao ter conhecimento disto, e assim pensar, o nosso general fez tais indagações. Acontece que entre os praças de saúde, destacava-se um latagão, José Santos, negro, disciplinado e eficiente no trabalho de auxiliar de cozinha. Ao deparar o general em sua frente se empertigou o José, em perfeita posição de sentido, mantendo ainda na mão direita um quarto de frango que limpava, não lhe ocorrendo dele desfazer-se. Vendo-o assim tão marcial e enquadrado no regulamento, dirigiu-lhe o general afavelmente a palavra. "José, você tem recebido carta ultimamente?" "Não senhor, meu general". "Há quanto tempo não recebe uma carta?" "Há oito anos sim senhor..." "Como há oito anos se você, no máximo, está na guerra há quatro meses?" "É que também em São Paulo eu não recebia, meu general". Apesar disso a moral de José era perfeita. Trabalhava, assoviava e era confiante. Praça de saúde, longe da linha de frente, que melhor posição desejaria? José, no entanto, não podia conceber que os seus companheiros de tarefa não entendessem a sua língua. Sabia perfeitamente bem que eles falavam uma linguagem qualquer, tal como em São Paulo lhe acontecia ouvir; mas longe estava de supor não fosse seu português compreendido. Daí os freqüentes mal entendidos com o chefe de cozinha, que nos competia desfazer. Para este, o nosso "Joe" é ótimo trabalhador, porém desorganizado. A razão era outra; ao ausentar-se, o "Joe" explicava os motivos na língua de Camões, e o nosso "yankee", cuja mentalidade não estava longe daquela do nosso companheiro, só compreendia o idioma de Shakespeare. Daí surgirem os freqüentes desaguisados entre ambos. E a guerra continuava. E continua apesar dos pesares. Ainda agora o gerador elétrico que fornece energia ao hospital está danificado, fato que, praticamente abole as nossas atividades. Guardamos os doentes recém-chegados na enfermaria de choque a espera da possibilidade de os tratar convenientemente. Tais pequenos incidentes, que se podem acompanhar de graves conseqüências, são por isso enervantes.
 
"Notas de um Expedicionário Médico"
Alípio Corrêa Netto


Pieve Delle Capane - os Correspondentes de Guerra Joel Silveira e Rubem Braga, no Ponto de Distibuição da Divisão
Foto escaneada do livro "A Intendência no Teatro de Operações da Itália"
Cel. Fernando L. Biosca

Era de ver na Itália a Intendência do Exército Brasileiro intervindo, a partir de Livorno sobre o mar Tirreno até as planícies do Rio Pó, na vida dos efetivos da FEB, cujo bem estar e cujo conforto impunham tarefa cotidiana e afanosa, fatigante e arriscada, não obstante a exuberância de recursos e as vias de comunicação disponíveis, uns e outros utilizados, metodicamente, sem atravancamento nas estradas e sem desperdícios de suprimentos. O ininterrupto transporte dos elementos de vida e de combate destinados aos efetivos em todos os escalões, executados em comboios diários, que circulavam quase sempre à noite por estradas cobertas de neve, com precipícios de um lado e imensas paredes quase verticais do outro, ofereciam um cenário desconhecido e emocionante, que a um tempo agitavam o coração e inflamavam o entusiasmo pela impressão que transmitiam da importância da Intendência, na Guerra. Desde a cidade em que se ergue a torre famosa em cuja Campanilla ainda hoje se encontra pendente a inspiradora lâmpada de Galileu - Pisa - outrora deslumbrante e colorida, graciosamente abeirada do Arno prateado, em cujas águas se espelha o céu anilado da Toscana, sugerindo canções de amor, até a cidade sob cujo solo, num recanto da estrada de Candeglia, já no sopé dos Apeninos azuis comandados pelo Gran Sasso, que se erguem qual dardos atirados contra o firmamento, 500 brasileiros dormem o sono dos heróis; daí pelo Vale do Reno, encachoeirado e exaurido até Farné de um e até Zocca do outro dos lados que partem do vértice de Crociale, sobre o Rio Silla, pontos em que as armas brasileiras conquistaram para a história militar do Brasil louros imarcescíveis e glórias esplêndidas; desses baluartes inimigos para a frente até o Rio Panaro e deste, pela Via Emília, milenar e surpreendente de arte e de beleza, para ir à cidade de Bomanno e de Guilherme Inspruch, edificada na era etrusca sobre a velha Felcina, berço de Marconi - Bolonha - de um lado e a Voghera de outro, até o encontro do Rio Pó, locais estes em que os aprovisionamentos tiveram execução durante a ofensiva; a partir de Voghêra até a cidade em que se ostenta o palácio espelhado em cujas salas e sobre cujas alfombras persas Napoleão passeou as suas glórias após a derrota de Zach na Batalha de Marengo - Alessandria - ponto terminal da marcha da Divisão Brasileira em perseguição ao inimigo acossado desde Monte Castelo e Montese, a Intendência lançou seus órgãos, intervindo profunda e continuamente nas operações para distribuir suprimentos de boca, de vestuário e de aquecimento; coletar mortos e evacuar material; a Intendência se movimentou, participando de rocadas, transportando tropas da retaguarda para a frente e entre pontos diferentes da frente; transportando munição, animais, materiais e combustíveis, diariamente, por estradas batidas pelo inimigo; atravessando pontos enfiados pelas vistas e fogos inimigos; abastecendo as unidades algumas vezes a 5 quilômetros da frente, até ser atacada pela aviação como se deu às 6 horas da tarde do dia 10 de dezembro de 1944, em Pieve Delle Capane, onde funcionava, o Posto de Distribuição da Divisão, e chegando na ofensiva com os seus órgãos aos elementos mais avançados; em uma palavra a Intendência funcionou cobrindo mais de um milhar de quilômetros de deslocamento no eixo de progressão da Divisão. Anteriormente, a Intendência da FEB, integrante do primeiro Escalão chegado à Itália em julho de 1944, já tinha funcionado em Nápoles, em Tarquínia e em Vada, para abastecer e transportar os efetivos desse escalão até o batismo de fogo em 17 de setembro daquele ano, período esse durante o qual dificuldades iniciais de toda a natureza tiveram que ser superadas no equipamento da tropa e nos primeiros estacionamentos, tudo executado por pessoal desambientado em luta contra fatores contrários de meio, de hábito, de clima e de trabalho. Esta foi a marcha e a ação da Intendência na Campanha da Itália. Impõe-se falar agora a largos traços das suas operações e dos seus oficiais, sargentos, cabos, soldados e motoristas, cujo patriotismo e cujo sacrifício, longe dos seus caros, longe dos seus amores, na tortura ,da saudade e no anseio de rever a Pátria distante e querida, querida como só se a pode sentir quando dela se está longe, em terra estranha e numa guerra, concorreram, maximamente, para que a Intendência pudesse arrancar a proclamação que lhe foi dirigida pelo Comando da FEB em 4 de março de 1945. Falemos pois desses obreiros discretos das glórias da Intendência, ,dizendo os seus feitos, para que a gratidão do Exército e da Intendência seja-lhes deferida. O reforço dos meios de transporte para que o reabastecimento se processasse com exatidão de tempo e de hora, em apoio das operações defensivas no inverno de 1944, na frente de Porreta-Terme, Gague Montana, Abeta, Bombiana e Crociale sobre o Rio Silla até a captura de Monte Castelo e daí até a conquista de Montese no começo da primavera; a distribuição de material para substituição de extraviado e do inutilizado em combate; a evacuação do material para recuperação e o recolhimento do que no final da campanha devia ser e foi restituído ao 5º Exército com expressiva vantagem para o nosso País; o preparo da alimentação americana pelos cozinheiros brasileiros, deficientemente habilitados, dando lugar a que a tropa, não sem inconvenientes de ordem psicológica, se não adaptasse prontamente, como era necessário, aos cardápios usados pelo Exército Norte-Americano, foram questões e problemas que desafiaram a Intendência Divisionária da FEB e que tiveram na ação inteligente e na proficiência do Major Lourival Campelo, Adjunto do Serviço, oficial de notável relevo, perito em operações de Intendência em Campanha, a melhor contribuição para a solução plenamente satisfatória que se lhes deu. A execução dos suprimentos de viveres e de combustíveis para os efetivos empenhados na frente de Porreta-Terme e posteriormente em Lesão in Belvedere, bem como para os elementos da FAB e de unidades de alpinos italianos, a cargo do Capitão Daniel Cristovão, foi por esse oficial desempenhada com inexcedível capacidade, com absoluto senso de responsabilidade, com acendrado patriotismo, com religioso idealismo, com abnegação e com verdadeiro estoicismo sob a agressividade da baixa temperatura, o penoso trânsito dos veículos por estradas de fraca capacidade de tráfego, prejudicadas pela artilharia inimiga, pelas chuvas e pelo degelo e sob a eminência de ataques aéreos como o ocorrido na tarde de 16 de Dezembro de 1944 contra o ponto de distribuição da Divisão, em Pieve Delle Capane. A impulsão e a regulação do emprego dos meios de transportes da Intendência Divisionária atribuídos a esse profissional emérito, que é o Capitão Heleno Soares Castelar, cuja ação, inicialmente como Chefe do Serviço de Intendência do Grupamento Tático que operou no Rio Sercchio e, mais tarde, como Chefe da Seção de Transporte, se traduzia sistematicamente na clarividência das propostas e êxito das medidas, tendo na ofensiva, que foi a hora mais difícil para os reabastecimentos, acumulada a sua tarefa com a de Chefe da Seção de Suprimentos de víveres e de combustíveis, no desempenho da qual mais se agigantou, pela oportunidade que deu à Intendência Divisionária de assegurar o fornecimento à tropa de ração normal de campanha durante todo o rápido deslocamento da Divisão em perseguição ao inimigo. O reabastecimento dos efetivos empenhados na resistência oposta à 148ª Divisão Alemã até a sua rendição em Fornovo, bem como o recolhimento de animais e de copioso material então apreendido, tarefas cometidas e brilhantemente executadas pelo Capitão Ablas dos Santos Arruda, Chefe efetivo da Seção de Suprimentos de Material. Os transportes diários de víveres, forragens, combustíveis, material de aplicação e de consumo e eventuais de animais, tanto na frente como na retaguarda, e considerável número de outros de tropa para e entre-pontos diferentes da frente, alguns dos quais expostos à ação direta das vistas e fogos do inimigo, assegurados pela Cia. de Intendência, em cujo comando se encontrava o Capitão Vitor Feliceti, imprimindo à unidade o máximo de eficiência e possibilitando à Chefia alta percentagem de disponibilidades em viaturas a pleno rendimento, fatores que assás preponderaram no êxito das missões recebidas. O Comando do comboio diário de víveres, inicialmente entre Pistóia e Pieve Delle Capane, lugarejo engastado numa encosta íngreme dos Apeninos, fronteira à montanha da Sambuca, onde tombou e onde ainda se encontra sepulto o conspirador romano confidente de Torquato - Catilina - lugarejo que passou para a história da Intendência brasileira, atravessando o comboio para atingi-lo uma garganta de quase 40 quilômetros de extensão na estrada 64, depois de passar por altitudes superiores a 1 000 metros, em estradas tomadas de neve e gelo, sujeitas em determinados pontos a ataques de morteiros, e, mais tarde, entre os órgãos de reaprovisionamento de Exército e os pontos de distribuição da Divisão, já em plena ofensiva, fixados em locais quase sempre muito distante daquele órgão e local anterior para reabastecer a Divisão em marcha, que devia, a qualquer preço, manter o contacto, missão sempre desempenhada com brilho pelo então 1º Tenente Santino de Castro Santana. A manutenção de caminhões executada na Cia. de Intendência, cuja oficina móvel chegou a reparar cinco veículos num dia, permitindo isso que a indisponibilidade de tonelagem fosse, a partir de determinado momento, muito menor que a tolerada, graças à capacidade técnica de profissional de escol evidenciada pelo 1º Tenente Diniz Roque Santana, que, segundo afirmação feita pelo Chefe do Serviço de Intendência do IV Corpo de Exército, era um dos melhores oficiais de motores daquela Grande Unidade. O Sub Comando da Cia. de Intendência, função sobremodo espinhosa, de cujas medidas dependia a disciplina da tropa, sua utilização em boas condições de rendimento, tendo em vista o emprego dos meios de ação da Intendência em campanha, missões afanosas e ininterruptas que não comportam delongas nem formalidades burocráticas, função que foi com extraordinária eficiência exercida pelo então 1º Tenente Justo Jansen de Almeida. A coleta de mortos muitas vezes em condições difíceis, tendo uma ocasião, após a conquista de Monte Castelo, sido executada ainda sob a fuzilaria, inimiga bem próximo à frente de batalha; o sepultamento dos cadáveres e exumação de grande número de outros antes inumados em cemitérios americanos e italianos, missões que couberam ao Pel. de Sepultamento comandado pelo então 1º Tenente Lafaiete Vargas, que se houve com exemplar espírito de sacrifício e elevada solidariedade patriótica e humana, não poupando esforços para que aos brasileiros mortos fosse prestado o mais absoluto e sensibilante desvelo naquele último transe dos heróis tombados na guerra.

"A Intendência no Teatro de Operações da Itália"
Cel. Fernando L. Biosca


Ponto de Distribuição em Pieve Delle Capane - Porreta
Foto escaneada do livro "A Intendência no Teatro de Operações da Itália"
Cel. Fernando L. Biosca

É tempo que fale sobre as expressões Saco A e Saco B. Dois sacos faziam parte da bagagem do soldado. Um, o saco A, tinha-o sempre consigo, mesmo na frente ou em depósitos, nas proximidades do inimigo. O outro, o saco B, ficava muito à retaguarda, com pertences de que não precisasse, durante certa fase. Um belo dia, começou o pracinha a fazer analogia dos sacos com as espécies de combatentes. Assim, quem vivia no fox-hole debaixo das balas, era Saco A; quem servia na retaguarda, nos Quartéis Generais - enfim, longe dos estilhaços, era Saco B. Contribuiu, sem dúvida, para tal animosidade - pois era com esse sentimento que uns e outros se referiam reciprocamente - a campanha de descrédito que, no Brasil, moviam em torno dos componentes do Primeiro Escalão. A imprensa mal informada (mesmo por quem tinha o dever de a trazer bem informada) publicava que nós estávamos muito bem, satisfeitos, rodeados de signorina, quais sultões. Numa boa vida, em suma. Durante quanto tempo a opinião pública terá sido ludibriada pela quinta-coluna e, mesmo por aqueles que não o eram! No entanto, já muitas mães choravam os filhos mortos; já muitas criancinhas não mais haveriam de receber o carinho e o amparo dos pais. Mas continuemos. A questão atingiu tal clima, que alguns dos Sacos houveram por bem derramar suas queixas ou defender sua classe através da pequena imprensa de guerra, que todos os Regimentos e Batalhões possuíam seus jornaizinhos, além do "Cruzeiro do Sul", órgão publicado pelo Serviço Especial da Divisão. Assim é que, no Jornal do I Batalhão "...E a cobra fumou!" (que no frontispício definia seu caráter independente, com a seguinte inscrição: "Não registrado no DIP"), lemos os seguintes versos, sob o título "Profissão de Fé":

Adeus, Torre de Nerone,
Adeus paisagem funesta,
Que dura vida foi esta,
Que nas escarpas vivi!
Adeus ó Torre sangrenta
Que os Sacos B afugenta,
Vou sem saudades de ti!
 
Adeus, pátio das granadas.
Onde, lavrador moderno,
O canhão, por todo o inverno
Fez soturna agricultura,
Lançando aos veios tortuosos
Os embriões monstruosos
Da grande guerra futura.

Adeus, adeus, Soprasasso.
Cabeça longa que a estrada,
Numa contínua emboscada,
Como serpente vigia.
Adeus, ó reta da morte,
Onde não foi por esporte
Que o mestre praça corria!

Que etapa - noventa dias!
Coçando a pele irritada,
Disguiando de granada,
Contando os dedos da mão...
Passando um dia chateado,
Dormindo um sono assustado.
Bem nas barbas do alemão.

Três meses vivendo a peixes.
Vivendo sempre de engodos:
- "Será que vamos nós todos?" (1)
- "Você sabe o que eu ouvi?"
Conversas de camas-sacos, (2)
Que vêm dos frios buracos
Onde descansa o RI. (3)

São vozes muito sumidas,
São vozes entrecortadas
Pelo fragor das granadas
Sobre as linhas brasileiras.
São homens sujos, cansados.
Barbudos e enregelados
Na lama-luz das trincheiras.

São vozes de Camaiore,
Da Linha Gótica, vozes
De Nerone que os ferozes
Bombardeios não calaram.
São homens de Soprasasso.
Castelnuovo - cujo passo
No próprio sangue marcaram.

Não são vozes de protesto.
São vozes de outras nuanças,
Que costuram esperanças
Que os fatos rasgando vão.
Nem é temor do inimigo;
Quem duvidar do que digo.
Vá perguntar ao alemão!

Será que temos direito,
Antes de seguir pra Tóquio, (4)
A um colchão sem pidocchio (5)
E um sono até a matina? (6)
A um cinema barato,
À bóia melhor no prato,
E um riso de signorina? (7)

Agora, enfim, decidi
A seguir sem mais detença
Um amigo que em Florença
Até um filho já tem.
E direi da Venturina: (8)
Adeus, ó Torre assassina,
Vou ser Saco B também!
 
(a) Saco A.

(1) Corriam boatos de que os combatentes mais antigos voltariam, breve, para o Brasil.
(2) Camas-sacos - sacos impermeáveis, forrados de penas, dentro dos quais dormiam os combatentes, no rigor do inverno.
(3) Descansa - referência ao fato de, nos descansos coletivos, os Batalhões ficarem em Silla e Porreta, diariamente bombardeadas pelo inimigo.
(4) Referência a outro boato, de que, terminada a guerra na Europa, iríamos para a do Pacifico.
(5) Pidocchio - Piolho.
(6) Matina - Manhã.
(7) Signorina - Moça.
(8) Ponte della Venturina - Por assim dizer a que dividia a frente de combate e a retaguarda. Depois da ponte, a liberdade, o descanso, a ausência de bombas.

"Meu Diário da Guerra na Itália"
Cap. Newton C. de Andrade Mello


Pamperso - Ponto de Distribuição da Divisão
Foto escaneada do livro "A Intendência no Teatro de Operações da Itália"
Cel. Fernando L. Biosca

 

Certo dia, nas páginas do "Cruzeiro do Sul", apareceu uma "Carta aberta a um Saco A", da lavra do cap. Pessanha. Comandava ele a Companhia de Manutenção, órgão divisionário que pela natureza de suas funções, - reparar e renovar o material automóvel e o bélico de todas as Unidas da Divisão, - necessitava instalar-se em região abrigada de bombardeios, como é de meridiana clareza. Ninguém, pois, melhor indicado para falar em nome dos Sacos B, definindo sua missão no quadro geral dos combatentes e os esforços honrosos de uns e outros na luta pela libertação do mundo. Ei-la, a carta:

Prezado irmão:
Desejo, primeiramente, a continuação do teu sucesso ai na frente, que nem a chuva, a neve, o vento gelado dos Apeninos ou as granadas e lurdinhas do Tedesco conseguiram diminuir ou retardar. Com justo orgulho compartilho da satisfação de todos pela bela figura que estás fazendo ao lado de combatentes experimentados e contra os super-homens da "Nova Ordem". Deu-me vontade de escrever-te, após ter lido e ouvido alguns comentários a nosso respeito. Não sei se te lembras, ainda, que somos gêmeos... Recordas-te como nascemos iguaizinhos, azuis, sem a mais ligeira marca que nos diferenciasse? Lembras-te que assim fomos "convocados pela Pátria"? Pois é; um belo dia entramos juntos pelo portão de um quartel qualquer, atendendo às ordens de convocação. Recordas-te como foram cacetes aqueles dias ? De nada sabíamos; nem para onde íamos, nem o que seriamos... Fizemos exame de saúde, deram-nos milhões de vacinas, até que um dia veio um capitão e botou os olhos em cima de nós, mirou-nos de alto a baixo. Suportamos o exame com firmeza, porque pressentíamos que amos ser escolhidos para uma grande missão. Depois, o capitão decidiu: - Você aí (eras tu) vai ser o saco A; você aí (era eu) vai ser o saco B. A princípio não compreendi bem porque sendo tão iguais nos davam nomes tão diferentes e, não agüentando mais de curiosidade, interroguei um sargento, praça velha, e ele explicou: - "Olha, menino, esse negócio de Exército cada dia fica mais diferente. Quando eu sentei praça todo mundo só usava uma arma - o velho Mauser - todo mundo era igual; depois começaram a aparecer as metralhadoras, os FM, os morteiros e, com todos esses trens, a coisa começou a mudar. Acabaram com a linha de atiradores (todo mundo de fuzil,.lado a lado, atirando a comando) e criaram o grupo de combate onde o FM é servido por diversos homens; o pessoal dos morteiros ficou importante -- era considerado como artilharia-mirim - falando em milésimos, sítios, alças, derivas e teve que se deixar ficar para trás porque os tarecos eram muito pesados para acompanhar o passo dos outros e, além disso, tinha uma história de trajetória curva que não deixava o pessoal atirar de perto como os demais companheiros. Com isto, velhos companheiros foram ficando separados; criaram um escalão de fogo e um escalão de apoio. Depois, veio o problema da munição - você, naturalmente, já aprendeu e já viu como estas belezinhas chupam balas - e a gente teve que organizar postos onde se vinha buscá-la, pois o inimigo também tem boas armas e pode arrasar tudo se se deixar muito perto dele. E assim a tripa foi esticando... Mas, nem só de munição vive o combatente...; ele precisa de bóia, de roupa, de calçado e... de cartas... Houve necessidade de reunir pessoal para trazer gêneros, a roupa e as cartas, pois você compreende, nem sempre a guerra é perto da casa da gente, nem se pode ter depósitos colados à trincheira... A quantidade de pessoal para manobrar tudo era tão grande que as trincheiras ficariam quase às moscas, o que era um perigo, você percebe logo. Foi ai, menino, que resolveram criar o saco B. O saco A ficou destinado a briga, o saco B ficou sendo uma espécie de criado do saco A, ou trocando em miúdos, o saco B foi destinado a executar os serviços que o saco A não podia executar, mas de que necessitava enquanto brigava - ninguém pode fazer duas coisas bem feitas ao mesmo tempo. Compreende agora por que existem os sacos A e B? Não fique triste por ter sido escalado saco B. Seu irmão, o saco A, terá as glórias do combate, matará o inimigo, vingando a ofensa feita à Pátria. A missão que você terá será mantê-lo sempre vestido, alimentado, municiado e de moral levantado. Não pense que vai levar uma boa vida... Você muitas vezes trabalhará sem descanso, de dia, de noite, com sol, com chuva, com vento frio a retalhar o rosto. Você, não raro, pegará as sobras de um bombardeio e estará correndo quase o mesmo risco que seu irmão e pode ficar tranqüilo porque o trabalho que você executa vai aliviar a tarefa dele, que tantas coisas terá que fazer. Não fique triste, porque qualquer que seja o lugar que ocupe, é uma honra estar ao serviço da Pátria". Aí estão, meu prezado irmão, as causas por que nos separaram. Enquanto ai estás, na frente, ensinando ao Boche quanto vale o soldado brasileiro, cá estou eu, na retaguarda, tratando de coisas que, mesmo que quisesses, não terias tempo nem forças para tratar. Levarás os louros desta guerra; sentirás o prazer de escutar os afamados super-homens dizerem "Kamerad", de braços levantados; plantarás com todos teus companheiros um marco de glória, honra e valor na História do Brasil. E eu, como todos os sacos B desta guerra, trabalharei em silêncio, sem alarde, continuamente, para dar-te tudo que necessitas para lutar: alimento, roupa, munição; consertarei as armas que quebrares, as viaturas que te conduzem ou levam material para a frente, enfim, farei tudo para que, na hora H, sejas o mais bem alimentado, equipado e municiado, com o que terás maior probabilidade de vencer. Vês como é esquisito o destino? pois sujeitos perfeitamente iguais recebendo tarefas tão diferentes, mas que, somadas, conduzirão ao resultado final: vencer a guerra. Admito que tenho inveja de ti, porque não recebo minha etapa de glória e reconhecimento de meu valor em combate... Mas, o fato de saber que estás representando aqui, apesar das condições mais adversas, de uma maneira exemplar, a nossa grande e querida Pátria e que, pelo meu trabalho, estou te auxiliando nesta gloriosa tarefa, só por isto, sinto-me pago de todos os sacrifícios que, também tenho feito. Como tu, meu irmão, também estou longe da Pátria, dos entes queridos, numa terra estranha. Como tu, também sinto saudades... Como muitos sacos A, jazem hoje, fora do aconchego da terra da Pátria, muitos sacos B, mortos devido a ação do inimigo! Ate à vista, prezado irmão, e boa sorte. Quando voltarmos ao Brasil e formos desmobilizados, ficaremos como dantes, dois indivíduos gêmeos, sem nenhuma diferença e, (quem sabe?) se a Pátria de novo nos chamar talvez os papéis sejam mudados.

"Meu Diário da Guerra na Itália"
Cap. Newton C. de Andrade Mello


A chegada de comboio da Intendência ao Ponto de Distribuição
Foto escaneada do livro "A Intendência no Teatro de Operações da Itália"
Cel. Fernando L. Biosca

 

Impossível narrar as emoções vividas num combate, pois os pensamentos se conturbam sob o troar da metralha. Depois, conserva apenas imagens desbotadas e confusas. Brutificado, sente ânsia de matar para não morrer. É mais embaraçoso descrever os cinco ou dez minutos que o antecedem. Enquanto aguarda o segundo fatal, o homem conjetura sobre suas probabilidades de sobrevivência. Seu pensamento engendra idéias esquisitas, que podem levá-lo ao desespero e à loucura. Em minutos, recorda uma existência. Fatos, há muito esquecidos, ocorrem-lhe à lembrança. Curioso. Chega a tremer de medo, mas não solta um queixume. O sentimento de honra o impele ao cumprimento do dever.

"35 Anos Depois da Volta"
Agostinho José Rodrigues


Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
Joel da Silveira e Thassilo Mitke

 O 6º RI havia ocupado posições na região de Bombiana e o Soldado Flávio Costa, um paranaense de Rio Negro, que fora transferido como castigo para a 3ª Companhia, estava de vigilância ao lado do seu "fox-hole", quando, lá pelas tantas da madrugada, observou um vulto sem capacete, com alguma coisa na mão, deslocando-se na direção das nossas linhas. Como estivesse de gorro, pareceu-lhe ser um dos nossos e não ligou muito para o fato. Mas era um alemão que se isolara de uma patrulha e audaciosamente havia se infiltrado pelo nosso lado. Andando agora na direção do Flávio, o vulto, aproximando-se como quem não quer nada, lançou um martelho (granada de mão) na sua direção e saiu numa disparada. O Flávio, como um gato, atirou-se para dentro do "fox-hole". E se dormisse de touca, a essa hora, quem sabe, estaria nos "quintos do inferno" e teria perdido a chance de encontrar o irmão (Soldado Edgard Costa, que, por outro lado, lutava com o 1º RI). Foi exatamente na noite de 22 de dezembro, a mais fria do ano, que a Companhia de Obuses transferiu-se para Cá di Maggio. Um vento frio castigava a linha de frente e os árduos trabalhos, que se processavam com lentidão, alongaram-se por toda a madrugada.

"Nós Estivemos Lá"
José Dequech

Um Herói nunca morre!

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Força Expedicionária Brasileira
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