FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 


Caminhos Nevados
Arquivo General Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira


 MESTRE PRACINHA E A NEVE


Sapadores em ação em pleno inverno.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção

MESTRE PRACINHA E A NEVE
Fins de dezembro, 1944

- "Você precisa ver como é que Mestre Pracinha está lidando com a neve". Fui ver. Encontrei Mestre Pracinha com um capuz branco e um longo capote branco. Só os galochões eram os mesmos do outono, pretos. Mas a neve, que cobriu toda a linha de batalha, se encarrega de camuflar os galochões, que nela se afundam. Mestre Pracinha é um fantasma branco na paisagem branca. Só destoa o que aparece de sua cara morena, mas não é muito. Um deles dizia para o companheiro, seu colega de patrulha:  - "Ei, negro, você está se esquecendo do alvaiade."  - "Heim?"  - "É o alvaiade para passar na cara. Com esse focinho preto, não adianta camuflagem: o tedesco te manja de longe e atira."  O pretinho riu: e seus dentes eram tão brancos como o capuz e a neve. Antes de chegar àquela posição, eu vira, junto a um PC, dois pracinhas que patinavam de esquis. Aproveitavam uma tarde de folga para escorregar assim por uma encosta. Um foxhole não é, normalmente, um lugar muito confortável. É, afinal de contas, um simples buraco no chão. Durante os meses do outono, o pior inimigo do soldado era a chuva. Agora, que o inverno entrou, não chove, mas neva. E Mestre Pracinha aprende a se defender da neve. Aboliu as botinas: usa só os galochões, que enche de feno, de panos, de papel. Seu novo capote é forrado de pele - e ele procura forrar também com alguma coisa o seu foxhole. Arranja madeira, quebra galhos das árvores nuas, carrega feno - e medita. Organiza lentamente, através de erros e experiências, a sua defesa. Estive em dois foxholes em que funcionavam esses sistemas improvisados que visam impedir que um homem fique com os pés metidos na água gelada ou, de qualquer modo, sinta mais frio do que é necessário a quem tem que passar uma noite ao relento a uma temperatura de 10 graus abaixo de zero. Mestre Pracinha usa os materiais de que dispõe onde está: tijolos, ou trapos de mantas, ou pedras. Redescobre a lei dos vasos comunicantes e luta contra ela; constrói pequenas barragens, abre pequenos canais, defende seu abrigo da inundação da neve. E ali, a poucas centenas de metros do inimigo, improvisa um precário conforto, ajeita um modo de ficar sentado e de manobrar a arma à vontade - e vigia. Erguer a cabeça alguns centímetros mais do que o necessário é morte quase certa. Mestre Pracinha recebe às vezes novo material americano de resistência contra o frio, mas não ousa indiscriminadamente: rejeita com simplicidade o que acha que o atrapalha. Se algum ruído na noite, algum vulto mal divisado, faz prever que o inimigo vem tentar um ataque - um desses golpes de mão secos, súbitos e violentos que os veteranos alemães dão para experimentar as posições, matar gente ou colher prisioneiros - o pracinha não se mexe. O inimigo vem, está vindo, e ele sabe que deve ficar imóvel. Sente formas vagas que se aproximam, aparecendo por um instante e sumindo, ora aqui, ora ali; ouve algum ranger de passos, algum murmúrio ou assobio baixinho. Será talvez ilusão dos olhos na brancura da neve sob o luar; talvez ilusão dos ouvidos no silêncio do intervalo dos canhoneios. Espreita. Sabe que se atirar agora; virá contra sua posição o fogo dos morteiros - e ele talvez não acerte. A vontade de atirar em certos instantes é quase irresistível... Mas na hora em que o inimigo vem não é possível. É preciso esperar em silêncio até que ele chegue "em cima da arma". Mas no instante de minha visita tudo está calmo. Hoje eu sou um peregrino da paz: saí às 11 horas de um lugar que começaram a bombardear às 12; passei às 11:30 por outro que tinham bombardeado toda a manhã; voltarei daqui à tardinha, meia-hora antes do fogo dos morteiros; chegarei a uma cidadezinha minutos antes da última de uma série de 20 granadas matar um soldado e três paisanos. Amanhã, quando eu vir o gráfico do bombardeio de nossa frente, terei dificuldade em acreditar que "Fritz" atirou tanto: e verificarei contente que as raras granadas que ele mandou durante a noite no lugar onde dormi não puderam perturbar meu sono pesado de cansaço. Mas um correspondente é, afinal, um turista. Sim, eu sou um boa-vida e posso confessar que no primeiro dia em que vi essas montanhas totalmente cobertas de neve, e as fontes que saltavam das pedras transformadas em faíscas de gelo - embora fosse um dia ruim em toda a frente, um dia de apreensões - fiquei incapaz de escrever qualquer coisa sobre a guerra. Voltei à minha infância, lembrei a primeira vez que vi o mar - e deixei um refúgio aquecido, inventando uma visita a uma bateria onde não tinha nada o que fazer , só para caminhar na neve funda, sob o céu esplêndido em que a lua crescia. A neve alva às vezes reflete as tonalidades do céu ao crepúsculo: via-a vagamente azulada... E ao luar essa terra de inverno esplende numa primavera branca, de sonho. É uma beleza assassina. Deixei os pracinhas na frente, o meu conforto de prazer e remorso. Aquele homem que ficou á a 10 graus abaixo de zero - o Mestre Pracinha, meu irmão do Rio ou de Minas ou do Espírito Santo ou de qualquer parte - eu o vi torrar-se a um calor de fornalha no porão de navio, nas noites do equador, na escuridão abafada, o ar imóvel ardendo em todo o seu corpo, o cheiro de vômito, na noite interminável. Era impossível dormir. Agora dormir é fácil. Mas o sono pode ser a morte, a imobilidade pode ser a morte. Às vezes um homem está uma hora em sua posição e quando quer erguer-se do chão não pode: está congelado. A mão-de-trincheira e o pé-de-trincheira são ameaças permanentes: Mestre Pracinha sabe disso, aprende a lutar contra a traição do frio. Voltei a frente, e agora escrevo depressa para não perder o mensageiro que vai sair. A esta hora, lá está o pracinha, no seu foxhole solitário. Não o pintem como um belo herói, um formoso guerreiro da neve. Não é o super-homem. É exatamente um sujeito - um desses sujeitos não muito fortes, não muito altos, não muito brancos - um desses sujeitos como há aí em qualquer trem de subúrbio, em qualquer sítio do interior. Esse tipo de brasileiro comum, mais feio que bonito, mais desajeitado que elegante - o João da Silva, o Severino Magalhães, o Moacir Ferreira, o José Nunes, empregado da farmácia, o Tico da Leopoldina. Está sozinho no seu buraco de neve. Se não estivesse em cima da hora do mensageiro sair, eu talvez fizesse aqui uma peroração, um apelo. Que alguém que me lesse pensasse nele - não para mandar cigarros, nem pulôveres, isso não é o mais importante. Para ele agora, tudo importa muito pouco na guerra. Mandem o que quiserem, o que ele quer mais é carta. Mas a tarefa de vocês é outra, e maior. Vocês e não  ele, são responsáveis por uma vida de decência, de liberdade de homem, de justiça social verdadeira.Que o sacrifício dele não seja o lucro daquele, mas... O mensageiro vai sair.

Rubem Braga
"Crônicas da Guerra na Itália"

  


Oficiais da FEB na neve, com seus casacos brancos: no centro o Gen. Cordeiro de Farias, tendo 
à sua esquerda o Cel. Emílio Ribas e à direita o Ten. Cel. Miranda Correia, na frente de Porreta.
Foto escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos" - José de Oliveira Ramos

 

O INVERNO

O calendário diz que o inverno no hemisfério norte principia a 22 de dezembro. Não sei se todos os anos é assim mas, em 1944, na tarde de 22 de dezembro, um vento norte, gelado, fez cair bruscamente a temperatura. O céu adquiriu uma tonalidade cinzento-azulada, para o lado das montanhas, cujos picos se cobriram de branco. Sentia-se nitidamente a mudança de estação e a natureza foi de uma rigorosa pontualidade. No dia seguinte caiu a primeira neve em Pistóia. Uma neve fininha, em flocos leves, que esvoaçavam no ar e lentamente pousavam sobre as árvores, as casas, no chão, tornando tudo de uma brancura virginal. Aquilo para nós era um espetáculo inédito e admirável. Esquecíamos do frio (que aliás diminui quando neva) e saíamos pelas ruas, para ver e sentir a neve, estendendo as mãos para apanhá-la. Ali estava a neve, cristalizando em sua alvura imaculada o frio que nos acompanharia por três meses. Os arbustos recobertos de neve adquiriam uma extraordinária beleza. Na estrada de Porreta havia diversas cascatas geladas, que o frio transformara em estalactites de gelo, de um efeito maravilhoso. Estávamos na véspera do Natal e agora compreendíamos a tradicional árvore, enfeitada de flocos de algodão e o Papai Noel todo agasalhado. Tradições que a velha Europa nos legou, a nós do Brasil que não conhecíamos aquele manto branco com que a Natureza se cobre em seu sono hibernal. Íamos ver de perto o inverno europeu, ainda mais em zona montanhosa e, ainda mais, em guerra. Juntavam-se todos os fatores contra nós, como que para provar ao máximo a fibra de nossos soldados. Nossos homens estavam preparados para enfrentar o frio. As roupas de lã saíram do saco C. As peças de brim foram recolhidas. De agora em diante era só na lã. Meias, camisas, ceroulas, "sweters", blusas, luvas, gorros, carapuças, tudo de lã. Todos engrossaram e ficaram parecidos com aquele boneco do reclame do Michelim. Da simples blusa de brim do "Zé Carioca", passamos a vestir pelo menos cinco peças - uma camisa de brim, por baixo, uma de lã, um ou dois "pullovers", a blusa de lã e a japona ou o capote. Era uma verdadeira cebola, com várias cascas. Nos pés, dois pares de meias, a botina e o galochão de borracha. Neste particular nosso pracinha fez uma descoberta de higiene militar. Ele descobriu que o pé de trincheira é conseqüência do frio mais a pressão das botinas, que se tornam apertadas pelo uso de vários pares de meias. Ora, como o galochão era uma excelente botina, inteiramente impermeável, o pracinha suprimiu o calçado de couro, alcochoando o galochão com papel, capim, feno, etc. Seus pés ficaram agasalhados pelas meias e pelo alcochoado, quentes e livres, com boa circulação, dentro do galochão que isolava o frio e a umidade. Graças a esse simples e econômico expediente, nossa tropa teve um reduzido número de casos de pé de trincheira, muito menor do que as tropas americanas, embora estas fossem mais aclimatadas ao frio. Além dos agasalhos de uso pessoal, foram distribuídas estufas de metal, portáteis, aquecidas a carvão ou lenha. Havia também estufas a óleo, que eram as melhores, porém reservadas para hospitais, quartéis generais e organizações mais importantes. Com os ambientes internos aquecidos se neutraliza qualquer frio. Ao sair para o exterior, estando a gente bem protegida pelas peças de lã, com a reserva de calor que se trás e mais as calorias geradas pelo exercício, suporta-se o rigor das temperaturas abaixo de zero. Muitos hábitos tiveram que ser alterados e à noite ninguém se despia completamente para vestir o pijama de flanela. Só se tiravam as duas cascas de fora, o capote e a blusa (às vezes nem isso). O calçado era substituído por sapatos de tricô ou outro par de meias. A carapuça de lã não saia da cabeça e alguns até de luvas dormiam. O banho, naturalmente, deixou de ser diário para se tornar bi-semanal ou mesmo semanal. Foi outra revelação para nós a razão por que os povos europeus não gostam tanto de banho quanto nós brasileiros. No primeiro inverno que lá passamos, ainda sob influência do hábito, contrariávamos o frio e tomávamos banhos freqüentes. Se lá tivéssemos ficado outros invernos, porém, não sei se insistiríamos nesta saudável prática ou aderíamos aos costumes dos aborígenes. Para continuação de nossos hábitos de higiene muito contribuíram as instalações de chuveiros, nas sedes das unidades, com água aquecida e, em alguns pontos, dos "american showers", cuja descrição faremos mais adiante. No QG de Porreta o problema do banho estava de antemão resolvido pelos banheiros de águas termais naturais, no próprio hotel das Termas, que serviu de sede ao QG. As rações alimentares foram aumentadas, sobretudo em calorias e vitaminas, especialmente para a tropa no "front", de modo a que os soldados mais expostos às intempéries tivessem uma boa fonte de energia, para enfrentar aquelas novas condições de vida. O frio não atingiu apenas ao elemento humano. Também sofriam os motores dos caminhões e "jeeps", que receberam a ração de "anti-coagulante", misturada à água dos radiadores. Antes de por os carros em movimento era preciso aquecer bem os motores. Nas estradas das montanhas, cobertas de gelo, o tráfego se tornou difícil e perigoso. Apesar de serem colocadas correntes nas quatro rodas e ligados os dois diferenciais, as derrapagens eram freqüentes. Com qualquer descuido lá se ia o carro deslizando, como se estivera sobre uma superfície de vidro, até encontrar o barranco ou o carro da frente, quando não ia parar nalgum despenhadeiro. Nota curiosa do inverno foram os capotes brancos, distribuídos aos elementos das patrulhas avançadas e a aprendizagem de "ski" por nossa tropa. Os homens das patrulhas vestiam um capote branco, com capuz, que os confundia com a brancura da neve, num mimetismo perfeito. Não se pode imaginar outra missão mais árdua do que uma patrulha em morros com os acidentes do solo e os perigos das minas e "booby-traps", escondidos por uma enorme camada de neve, onde os homens atolavam até acima dos joelhos. A aspereza da subida, a luta contra a neve fofa, onde os pés não encontravam apoio, o frio que enrijecia os músculos, o vento cortante fustigando o rosto e, além de tudo, o inimigo entocado lá por cima, também "camouflado" pela mesma neve. As patrulhas brancas iam, lentamente, porém seguras, cumprir sua arriscada e penosa tarefa, sondando a resistência inimiga, colhendo informações sobre sua localização, fazendo prisioneiros em golpes de mão. Skiadores americanos organizaram grupos de oficiais e soldados brasileiros para aprender a "skiar", esporte novo para nós e de tanta aplicação naquelas paragens geladas. Problema complicadíssimo era o abastecimento dos postos avançados, onde as viaturas não podiam chegar. As rações alimentares e água deviam ir em trenós improvisados, puxados por animais, até certo ponto, e depois pelo esforço dos próprios homens. As condições da guerra no inverno inegavelmente eram péssimas, exigindo um grande sacrifício de nossos soldados, que além do mais era a primeira vez que estavam metidos naquela geladeira, que se prolongaria por três meses. Enquanto isso, no Brasil, em pleno verão, nossos patrícios tomavam banho de sol nas praias e se deliciavam com sorvetes e refrescos, metidos em folgadas roupas de brim. Quando, às noves horas da noite, nos reuníamos, encorujados em torno de uma estufa, procurando um pouco de calor, antes de nos metermos na cama-rolo, pensávamos que no Rio de Janeiro seriam quatro horas da tarde e nossos amigos e parentes estariam por certo tomando um gostoso " chopp" ou um refresco de coco, na "Brahma" "ou na "Simpatia". Esses pensamentos nos causavam inveja e ao mesmo tempo eram um consolo e um estímulo. Nosso sacrifício estava sendo útil a todos e precisávamos vencer o inverno e o alemão, para regressarmos ao Brasil querido e saudoso, terra privilegiada, que das cores da natureza só conhece o azul e o verde. Queríamos e havíamos de voltar vitoriosos. Antes porém tínhamos de amargar aquele friozinho e amassar muita neve.

"A Epopéia dos Apeninos"
José de Oliveira Ramos


Transporte de feridos pelo Batalhão de Saúde. Os "jeeps" iam buscar os feridos próximo
à linha de frente, em lugares inacessíveis às ambulâncias.
Foto escaneada do livro "Epopéia dos Apeninos" - José de Oliveira Ramos.

UM DIA COM O ESQUADRÃO DE RECONHECIMENTO

Até poucos dias, era neve, neve branca e espessa, Agora é lama preta e mole. Amanhã, quando surgir o primeiro sol da primavera, será a poeira. Assim vivem, nesta guerra, os caminhos que serpenteiam através dos Apeninos. O pracinha que me leva no "jeep" até o Esquadrão de Reconhecimento, na manhã nublada, agarra-se ao guidão como se estivesse lutando corpo a corpo com um inimigo mais forte. O carro dá pinotes, as rodas chapinham na lama, espremem-se nas curvas estreitas, perde aqui e ali o rumo certo, como um animal cego.. Quando chegamos no "PC" do Esquadrão, somos dois fantasmas escuros. O primeiro-tenente Solon Rodrigues D'Avila me consegue um pouco de água quente e o sargento me entrega uma toalha americana. Mas não será hoje nem amanhã, tenho certeza, que conseguirei desgrudar de mim a lama que trouxe dos caminhos encharcados. Eu havia prometido ao capitão Plínio Pitalluga (ele foi promovido recentemente) uma visita ao seu Esquadrão, mas não venho encontrá-lo. O 1º tenente Teodolfo Benso Tavolucci, subcomandante da unidade, me informa que o capitão foi gozar em Roma umas curtíssimas férias de quatro dias, e que só estará de volta amanhã à tarde. Mas está às minhas ordens. Quero um pouco da história do Esquadrão e um resumo de suas atividades, explico, e o tenente Tavolucci me diz: - Vou mandar chamar nosso fichário. O "fichário" é o segundo-tenente Odenath Damásio, de Santos, São Paulo, Secretário do Esquadrão. "este homem sabe tudo a nosso respeito". E eis aqui os dados que o "fichário" me ofereceu: o Esquadrão de Reconhecimento da 1ª DE foi criado no dia 2 de fevereiro de 1945. Antes ele já existia, no Brasil, mas não com vida autônoma. Era uma unidade do 2º Regimento Moto-Mecanizado, sediado em Porto Alegre. A incorporação do Esquadrão à Primeira Divisão Expedicionária se deu no dia 9 de fevereiro do ano passado. Embarcou no primeiro escalão e chegou a Nápoles no dia 15 de julho de 1944. No dia 30 seguiu para Tarquínia, e no dia 18 de agosto transportou-se para Vada. Em setembro do ano passado o Esquadrão estava em Pisa, em cuja frente de batalha iniciou suas atividades. O batismo de fogo do Esquadrão teve lugar no dia 16 de setembro do ano passado. A unidade foi, naquele dia, dividida em duas patrulhas, uma comandada pelo 1º tenente Belarmino Jaime de Mendonça e a outra pelo segundo-tenente Odenath Damásio, o "fichário" que me entrega estes dados. A patrulha do tenente Damásio foi incumbida de reconhecer a frente brasileira, situada no eixo Ponte S. Pietro, S. Macario in Piano e S. Macario in Monte. E as ordens para o tenente Belarmino consistiram em reconhecer a zona compreendida entre Chiesa, Massarosa, Pieve, Monte Manho, operação esta que foi realizada debaixo de um intenso fogo de morteiros nazistas. Pelo que ficou aí em cima, o leitor terá mais ou menos uma idéia do que seja a função de um Esquadrão de Reconhecimento: cabe aos seus homens tatear e vasculhar os terrenos que o inimigo vai deixando no seu recuo. Isto significa dizer que o Esquadrão de Reconhecimento é a primeira unidade de um Exército a pisar numa área recém-conquistada. Seus homens não são soldados das calmarias e pasmaceiras que, como esta de agora, costumam cair sobre o "front". São homens das ofensivas e dos ataques. Eles ficam de "reserva" quando a frente está calma, e a "reserva" consiste, como dizemos, em carregar pedra: exercícios de artilharia e morteiros todos os dias, lições de patrulha, etc... O Esquadrão de Reconhecimento brasileiro já tem a seu favor algumas proezas de vulto. Foi ele, por exemplo, quem primeiro entrou em Massarosa, quando do avanço do capitão Airosa sobre Camaiore. Foi ele também quem ocupou Gaggio Montano, no dia 20 de novembro do ano passado. Poderíamos citar também perto de uma dúzia de "retomadas de contacto", uma das tarefas mais perigosas desta guerra. O trabalho tem sido duro, mas a estrela do Esquadrão é muito boa, me diz o primeiro-tenente Tavolucci, até hoje a unidade só perdeu um homem, o segundo-tenente Amaro Felicíssimo da Silva, do Distrito Federal, que foi morto pelos nazistas no dia 20 de novembro último, quando comandava uma patrulha. Os feridos também tem sido poucos: o primeiro-tenente Braz Teixeira Filho, do Rio, que foi atingido na perna por um estilhaço, e que já se encontra de volta depois de alguns dias de hospital. O tenente Braz foi ferido quando tentava socorrer, no dia 5 de dezembro último, na frente do 11º Regimento de Infantaria, o 2º sargento Erasmo Aquino de Oliveira, atingido pelo fogo  de morteiros dos nazistas. Um dos pelotões do Esquadrão já foi comandado pelo capitão Belarmino Jaime Ribeiro Mendonça, que dirigiu o ataque a Massarosa, e que, vítima de um acidente, foi evacuado para o Brasil. E o primeiro comandante da unidade foi o capitão Franco Ferreira, um bom soldado que deixou gratas recordações entre seus subalternos e que hoje também se encontra no Brasil. O atual comandante do Esquadrão é o meu amigo capitão Plínio Pitalluga, "o idealista", como o chamam aqui. O tenente Tavolucci, de São Paulo, é o sub-comandante, e há também ainda os seguintes oficiais: primeiro-tenente Braz Teixeira Filho, comandante de pelotão; primeiro-tenente Solon Rodrigues D'Avila, do Rio Grande do Sul, Oficial das Transmissões; primeiro-tenente Sílvio da Costa Reis, do Distrito Federal segundo-tenente Mário Ernesto de Souza Júnior, também do Rio, tesoureiro, aprovisionador e almoxarife; segundo-tenente Heitor de Carvalho França, do Rio, comandante de pelotão, o nosso já conhecido segundo-tenente Damásio, "o fichário", e o tenente-médico Rubens de Aquino. A maioria dos homens do Esquadrão é composta de cariocas, pois a unidade foi organizada no Rio. Mas há também gaúchos, paulistas, paranaenses e pernambucanos. Há também um sergipano de São Cristóvão, e quero realçar aqui a onipresença sergipana na Força Expedicionária Brasileira. O armamento do Esquadrão é composto de carros blindados armados de canhões e metralhadoras muito potentes, morteiros e armas individuais. Um detalhe: cada carro blindado (não confundir com tanques) dispõe de um excelente rádio, o que vale dizer que o "PC" do Esquadrão, em matéria de música e noticiário, é o melhor servido de toda a FEB. Finalmente, o Esquadrão de Reconhecimento é, na frente brasileira, a única tropa de cavalaria organizada. "Representamos a imortal cavalaria de Osório e de Andrade Neves", como me disse o tenente Tavolucci.

"Lutas de Pracinha"
Joel Silveira


Apeninos - Estrada 64
Foto escaneada do livro "A Intendência no Teatro de Operações da Itália"
Cel Fernando L. Biosca


Jesus Cristo Crucificado em meio à destruição de uma igreja bombardeada.
Arquivo General Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira. Autor da foto, essa era a sua predileta, pelo simbolismo da mesma.

O CRISTO DECAPITADO

Há tempos me levaram para ver um milagre: a Capela de Ronchidos, ou Ronchidosso, perto de Gaggio-Montano, a 1 045 metros de altitude. Essa capela era um PO alemão que devassava incrivelmente as nossas linhas. Os americanos da 10ª Divisão de Montanha a ocuparam - mas antes disso a capela recebeu fortes chacoalhadas de 105. Ficou completamente destruída, mas a santa foi encontrada intacta, com uma granada aos pés, uma granada que não explodira. Devo confessar que não cheguei a ver a imagem, que tinha sido retirada meia hora antes de minha chegada. A capela, de construção fortíssima, apresentava apenas uns restos de paredes. Mas depois desse milagre, vi um não-milagre que me pareceu mais impressionante. Uma granada, não sei se nossa ou "deles", atingiu uma capelinha poucos quilômetros à direita do Monte Castelo, e um pouco mais ao norte. Apenas duas paredes ficaram de pé: o teto e as outras paredes ruíram. Havia uma tela com uma imagem de uma santa que não identifiquei: e no fundo havia uma grande cruz de madeira onde estava pregado um Cristo em tamanho natural - refiro-me ao tamanho de Cristo feito homem, naturalmente. A cruz, pintada de preto, não parecia ter sido atingida. Mas o Cristo, de massa cor de carne, fora decapitado por um estilhaço. A mão esquerda da imagem despregara-se do braço da cruz, e o braço caíra ao longo do corpo, que tombou para o lado direito. A mão direita continuava, entretanto, pregada, e os pés também. E aquele corpo sem cabeça, pendurado a uma só mão, com os joelhos curvados, parecia querer cair a qualquer momento sobre o monte de escombros. Entre as pedras e os tijolos alguém plantara, como legenda do quadro, um cartaz simples: "Perigo - Minas". E então me ocorreu que não há minas somente para a imprudência dos pés, senão também da cabeça. Não basta andar com todo cuidado - é preciso pensar, e (ainda mais aflitivo) é preciso sentir com todo cuidado. Lembrei-me de um verso de um poema que um amigo fez há tempos - "Vou soltar minha tristeza no pasto da solidão". Não se deve soltar: o pasto da solidão é cheio de minas. Tudo isso podem ser idéias à toa, mas aquele Cristo decapitado depois de crucificado me pareceu mais cristão que a Madona intocada sorrindo com a granada aos pés entre as ruínas de sua capela. Aquele pobre Cristo de massa, sem cabeça, pendendo para um só lado da cruz, me pareceu mais irmão dos homens, na sua postura dolorosa e ridícula, igual a qualquer outro morto de guerra, irmão desses cadáveres de homens arrebentados que tenho visto, e que deixam de ser homens, deixam de ser amigos ou inimigos para ser pobres bichinhos mortos, encolhidos e truncados, vagamente infantis, como bonecos destruídos. O boneco de Deus estava ali. Perdera não apenas a cabeça, ainda mais. Perdera até a majestade que costuma ter o Cristo na sua cruz, olhando-nos do alto do Seu martírio, dominando-nos do alto de Sua dor. Não dominava mais nada. Era um pobre boneco arrebentado e mal seguro, numa postura desgraçada e grotesca. Era um morto da guerra. E ai dos mortos! Que faremos com os mortos? Podem rezar missas aos potes para que as almas deles se salvem, mas eles não querem isso. Eles querem saber de nós - eles nos vigiam. Eles vigiam o nosso reino da terra; foi por esse reino que eles morreram. Estão espantados: querem saber por que morreram, para que morreram. Eles morreram muito jovens, quando ainda queriam viver mais; não gostaram da própria morte, por isso não gostaram da guerra. Enquanto o homem for dono deste campo e mais daquele campo, e outro homem se curvar, jornada após jornada, sobre a terra alheia ou alugada, e não tiver de seu nem o chão onde vai cair morto - esperem a guerra. Ela explodirá - e enquanto não explodir estará lavrando surda. O homem rico lutará contra outro menos rico que também quer ficar mais rico, ou não quer ficar ainda menos rico; e o homem pobre lutará por ele, ou contra ele. Lutará para não perder o pouco que tem, ou lutará porque não tem nada a perder. De qualquer modo haverá guerra - e os bonecos serão outra vez arrebentados e estripados. E os homens subirão até as igrejas, não para ver a Deus, mas para ver os outros homens que eles precisam matar. E o Cristo de massa perderá a cabeça outra vez; e não perderá grande coisa, porque o Cristo Deus, o Cristo Rei, esse já a perdeu há muito tempo.

Rubem Braga
"Crônicas da Guerra na Itália"

Um Herói nunca morre!

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