FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

O DESEMBARQUE


Unidades do 2° Escalão da FEB desembarcam na Itália. Nápoles, 1944
Arquivo Diana Oliveira Maciel

Agora em águas do Mediterrâneo, depois das despedidas dos navios-escolta brasileiros, na entrada de Gibraltar, o transporte de tropas General Meigs, da marinha dos Estados Unidos, passa a ser comboiado por belonaves inglesas. Os alto-falantes lançam novas instruções, agora sobre o desembarque em Nápoles. Foram distribuídas rações K para todos os homens, que deveriam guardá-las. Navegamos em velocidade máxima, pois a área em que nos encontramos está sob o raio de ação dos navios alemães e de seus navios fundeados em La Spezia ou qualquer outro ponto da costa italiana em seu poder. Aviões de combate passaram a cruzar o céu e passamos a avistar muitos blimps (pequenos dirigíveis) com seus cabos que impediam ataques aéreos rasantes. Segundo corre pelo navio, chegaremos a Nápoles às 11 horas da manhã. Tudo preparado para o desembarque. Milhares de homens acomodados nos vários compartimentos do grande transporte de guerra, aguardam o momento de pisar o solo italiano. A operação decorreu sem anormalidades. Todo um dispositivo aguardava os brasileiros, que foram conduzidos, logo depois do desembarque, ao rest center de Bagnole, nos arredores de Nápoles.

Texto de Joel Silveira
"A Luta dos Pracinhas" - Joel Silveira e Thassilo Mitke
Editora Record - 1983


Soldados brasileiros portando o inseparável saco B.
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
Joel Silveira e Thassilo Mitke

Amanhece. Navegamos no tranqüilo e belo Mediterrâneo. Chegamos, afinal, ao nosso destino. Adentramos a baía de Nápoles, coalhada de navios de todos os tipos, calados e tamanhos. Balões de barragem, brilham ao sol. São estarrecedores os efeitos das destruições perpetradas pelos alemães, quando de sua retirada. Edifícios portuários sem fachada, cais com os guindastes derrubados, submarinos afundados, navios parcialmente submersos, adernados, de quilha fora d'água. Alguns cascos são aproveitados como pranchas de desembarque e, até mesmo, como cais improvisado. É intenso o movimento do porto e avultado o movimento de descarga. Posso contar mais de cem navios e embarcações de variados tipos. 

Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira
"Tempos e Homens que passaram à História"


Unidades do 2° Escalão da FEB desembarcam na Itália. Nápoles, 1944
O segundo soldado da fila é Iório Adami
Arquivo Diana Oliveira Maciel

Sozinho no Mundo

São oito horas da manhã, o General Meigs começa a atracar em Nápoles. Pouco antes do desembarque, debaixo de um frio de matar e de uma névoa fechada, o Coronel Mário Travassos, comandante da tropa embarcada no 3º Escalão, assim falou ao grosso do pessoal reunido no convés maior da popa: "Chegamos à Itália duplamente satisfeitos. Vamos nos juntar aos camaradas de ar - mas que lutam neste teatro de operações e, assim, temos a certeza de que já fazemos parte da representação do Brasil no campo de batalha. Estamos convencidos de que no Brasil nossos entes queridos pensam e sentem como nós. Estes são os fundamentos do estado moral da tropa sob o meu comando." Antes uma chuva fina, feita de agulhas penetrantes e impiedosas, nos recebera quando passávamos diante de Capri. E agora estamos diante de uma Nápoles nublada e triste. Vejo-a assim, amarfanhada e encolhida, mas penso comigo mesmo que se houvesse sol ela bem que poderia ser Salvador. Ou com ela parecer. Porque, como em Salvador, sãos duas Nápoles, a de cima e a de baixo; e, como em Salvador , as colinas se multiplicam e as ladeiras sobem ou escorregam, algumas quase verticais. Escrevo rapidamente esta reportagem precisamente quando o General Meigs inicia as manobras de atracação. Os últimos avisos e ordens já estão sendo transmitidos pelas várias e possantes bocas dos alto-falantes - algumas em inglês, a maioria em português, e todas resumem uma só orientação: a de como a tropa de mais de seis mil homens deve se comportar quando do desembarque; e, em seguida, quando de sua permanência no cais, sob a chuva fria, permanência que se calcula seja longa. Toda a tropa enverga os seus uniformes mais pesados: japonas, gorros, luvas, pesadas botas, meias de lã. Às nove horas, quando mais encrespadas se mostram as águas da baía, começamos a descer no porto entulhado de navios de toda espécie, a maioria americanos, ou de: dezenas de outros, agora apenas calcinados esqueletos de ferro, alemães e italianos, postos fora de combate pelas bombas dos Aliados. Interrompo esta reportagem - também eu tenho que descer. Sou o número 278 na ordem de desembarque, e dentro de mais alguns minutos, com mais de 50 quilos de bagagem às costas, estarei pisando num chão estranho e hostil. Despeço-me do Coronel Mário Travassos, com quem fiz boa camaradagem durante os 17 dias de viagem, ele me aperta a mão, sorri e me diz: Bem, lhe trouxe vivo até aqui. Agora, a partir do cais, é por sua conta. Você tem de chegar a Roma, segundo me diz. E de lá até Pistóia. Pois tem de fazer isso sozinho. Até breve. 
Desço, me ataranto um pouco, procuro um rumo. Tudo me parece um deslumbramento: as casas partidas ao meio, os meninos andrajosos do porto, que me estendem suas mãos magras e súplices, o emaranhado dos fios telegráficos que se enrolam nos postes como cobras, as mil tabuletas em inglês avisando, ordenando e orientando. Que devo fazer, assim largado com minha bagagem numa cidade que nunca vi, num mundo do qual jamais suspeitei? Uma folha perdida num torvelinho, um pobre e atarantado jovem de repente envolto num turbilhão. Nada aqui me pertence, nada tem a ver comigo. E no entanto aqui me jogaram para que eu cumpra uma missão - e terei que cumpri-Ia, de qualquer maneira. Nenhum desses homens, fardados ou à paisana, conquistados ou conquistadores, nenhum tem motivo para me conceder um gesto amigo. E até me falta a língua local para as necessidades mais prementes de comunicação. A bagagem me pesa, o frio é cortante - desce certamente daquelas montanhas cinzentas, de cumes gelados, que já se avistavam muito antes do navio entrar na baía; ou talvez deste céu de chumbo, fechado como uma enorme porta há muito emperrada em suas dobradiças - um céu duro, indecifrável, asfixiante. Na portaria do albergo, que me indicaram a bordo como sendo onde se reúnem os jornalistas, o homem magro, olhos úmidos e pigarro insistente, entende a custo meu italiano incipiente (aquele que vim treinando a bordo com a ajuda de um dicionário), ajuda-me a carregar os dois sacos verdes; o terceiro, carrego-o eu. Na hora de pagar, em liras que ainda a bordo já foram trocadas por dólares, ele rejeita o dinheiro; quer cigarros, chocolate, caramelos, qualquer coisa que possa comer; ou até mesmo uma peça de vestuário, uma blusa, uma suéter. Aqui vou ficar um, dois dias, até encontrar uma alma caridosa (e militar - civil não pode sair da cidade sem ordem expressa do Comando Militar) que me leve a Roma. Então isto é que é a guerra? - eu me perguntava. Ambulâncias se enfileiravam no cais, descarregavam feridos. Bandos de soldados ruidosos, meio bêbados, enchiam as ruas. E quando veio a noite - a primeira - veio completa, definitiva, camadas e mais camadas de treva e de nevoeiro. Munido da minha lanterna, arrisco andar pelo centro da cidade - aventura que me enche o coração de medo: é um desafio! Vozes e ruídos vêm da escuridão, indistintos, como um marulhar. Mulheres sorriem como autômatos, num exagero de batom, algumas vestidas apenas com os pesados casacos que as cobrem. Na praça de canteiros já sem forma, a estátua eqüestre de um herói qualquer havia perdido um pedaço do pedestal, agora transformado numa disforme ferida de cimento. E chegam do cabaré - ou music box - próximo, destinado apenas aos soldados, os sons de um blues mal tocado. Pois aqui estou eu sozinho na enorme cidade subvertida, ferida de morte, invadida e estuprada de dias cinzentos e empoeirados que cheiram a gasolina e a pus, a grande cidade talada pela guerra. Aqui estou eu sem amigos e sem direção. Então, num lampejo, tudo me pareceu adulto - inclusive eu. Era isto: tudo amadurecera subitamente, a cidade, a noite, eu, os próprios meninos (numerosos e barulhentos como um enxame de abelhas famintas) que me perseguiam de mãos estendidas, sujos, insistentes, um bando sem fim de pequenos espantalhos. Tudo está maduro, à espera da morte.

Texto de Joel Silveira
"A Luta dos Pracinhas" - Joel Silveira e Thassilo Mitke
Editora Record - 1983


Pracinhas brasileiros nos arredores de Nápoles
F
oto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
 Joel Silveira e Thassilo Mitke

Enfim... Nápoles!

No dia 6, ao levantar-me do leito escutei nitidamente o alto falante anunciar que estávamos entrando no porto de Nápoles. Uma alegria pouco comum se transmitiu instantânea e indistintamente a todos aos primeiros sinais de terra, após treze dias a bordo. Nápoles! Enfim, Nápoles! Era a exclamação que se ouvia de toda parte. Enquanto percorríamos a baia, víamos do lado esquerdo as primeiras casas da ilha de Capri, famosa por ter sido a eleita entre as demais para vilegiaturas e amores dos imperadores romanos. Além, à direita, as casas vão aumentando. A baia de Nápoles, cercada de morros vai-se alargando pouco a pouco. Ao fundo, o Vesúvio, a aparentar absoluta calma, altaneiro, majestoso e traiçoeiro, pronto a despejar suas lavas e cinzas. Foi triste a primeira impressão: barcos, navios, lanchas, submarinos avariados e retorcidos pelo efeito de pesadas bombas, afundados em parte; as fábricas com as suas chaminés sem fumo, bombardeadas, outras sem dano, porém sem trabalho; no cais, homens que querem trabalhar em troco de qualquer alimento ou de um cigarro; muitas casas sem teto, outras com ostensivas demonstrações de bombardeio (grandes rombos nas paredes e nos assoalhos, nos tetos), como no edifício do Controle do porto que estava a cair. O navio transporte General Meigs entra primeiro que o General Mann, aproxima-se do cais e atraca. O relógio do cais está parado precisamente na hora em que recebeu o bombardeio, isto é às 8 hs 35 min. Próximo ao porto está situado o Castelo do Ovo e ao fundo, em cima do morro, está edificado o Castel San Elmo. Somente no dia 7, pude sair do General Meigs e ir ao centro da cidade e arredores. A população, lia-se nas fisionomias, estava sofrendo, inquieta, atravessando rude fase de sua história. A miséria da cidade de Nápoles consternava. As dificuldades reinantes na Itália, motivadas pelo curso das operações militares, pois estavam pisando seu solo ingleses, americanos do norte, brasileiros, outras nacionalidades e os próprios italianos combatentes, faziam com que esse povo sofresse mais que qualquer outro. Sofreu dos próprios aliados alemães em retirada; sofreu a ocupação benfazeja dos americanos, que procuravam restabelecer a ordem, impondo uma dominação necessária e absoluta. As quantidades de tropas, de materiais de guerra, o incalculável movimento de veículos, davam bem a impressão da capacidade americana e o vulto das operações na Itália. No centro da cidade viam-se amostras das tropas que estavam lutando neste teatro de operações, pois cruzavam, a cada instante, ingleses, franceses, americanos (brancos e pretos), brasileiros, sul africanos, australianos, todos distinguindo-se pelos uniformes, diferentes do italiano e do tedesco, a que o povo já se habituara, dado o tempo que os alemães permaneceram na Itália. 

"O 11º RI na 2ª Guerra Mundial"
General Delmiro Pereira de Andrade
Biblioteca do Exército - 1950


Pracinhas brasileiros no rest center de Bagnole, nos arredores de Nápoles.
Foto escaneada do livro "A Luta dos Pracinhas"
Joel Silveira e Thassilo Mitke

Lá vamos nós navegando, em "comboio" para o desconhecido. Dois enormes Transportes de Tropa, com mais de 5 000 soldados embarcados em cada um. Dois Cruzadores potentes, também; e à frente, em semicírculo, uma meia dúzia de destróieres, velozes e irrequietos na penosa e sacrificante missão de escolta. Esta tarde o sol está se pondo de modo diferente, pois, o vemos não pelo través de bombordo mas quase pela popa da embarcação. O que houve? O que estará acontecendo? Ao mergulhar nas águas do Atlântico Norte o sol iluminou o esboço do que parecia, a distância, uma linha de terra, um litoral que aos poucos se ia delineando. Antes que o alto-falante determinasse nosso recolhimento ao interior do navio e o adiantamento dos relógios em meia hora, perfazendo, assim, a diferença de 4 horas do fuso horário do Rio de janeiro, vislumbramos algo dos dois velhos Continentes: África e Europa. Os que viram Gibraltar, que cruzamos naquela noite, às 21 horas, não esquecem os holofotes riscando os céus, da Fortaleza encravada no enorme rochedo e iluminada, como iluminadas estavam as cidades de um lado e outro do estreito, em Tanger e na Espanha. Estava quase a findar o dia já bem distante daquele em que, no 29º Batalhão de Caçadores, em Fortaleza, Oficiais reunidos no Quartel que nos fora cedido pela Polícia Militar do Ceará, na Praça José Bonifácio, tivemos que mandar sair o Pelotão comandado pelo Cap. Rômulo Figueiredo, que se deslocou para o Centro da Cidade a fim de informar e acompanhar os acontecimentos. Com a notícia do torpedeamento dos navios brasileiros, em águas territoriais brasileiras, em missão normal de paz, ao longo do litoral sergipano, o povo indignado saiu às ruas e sua primeira reação foi vingar-se atacando os súditos italianos e alemães aqui residentes e incendiar suas propriedades comerciais. E agora nós brasileiros estamos chegando à Europa. Nossa escolta passa às mãos dos ingleses. Nunca me ocorreu estar navegando por aqui nestes tempos tumultuados. Até há pouco tudo parecia tão distante! As Américas isoladas e seguras mostravam-se pouco interessadas nos conflitos europeus. Limitavam-se as Nações Americanas, num movimento instintivo de defesa, a estreitar os laços da União Pan-Americana, através de Reuniões de Consulta de seus Ministros das Relações Exteriores. Como o tempo passou! Como os acontecimentos se precipitaram! Depois daqueles torpedeamentos e da revolta popular pelos atos de pirataria perpetrados em nossas águas costeiras, o Governo Brasileiro, a 22 de agosto de 1942, reconheceu "a situação de beligerância entre o Brasil e as Nações Agressoras, Alemanha e Itália." Dias depois decretava o Estado de Guerra em todo o território nacional. Isto explica nossa presença a bordo deste transporte de tropas. Rememoro a madrugada em que desatracando do cais vai amarrar-se a uma bóia, no meio da Baía da Guanabara. Lembro-me nitidamente. À medida em que se desfaz a cerração vão surgindo os contornos do Rio e de Niterói. As lanchas cruzam a baía apinhadas de gente que se dirige ao trabalho e se mostra surpresa com a presença inusitada dos dois enormes navios. Ao largo, um cruzador americano. Bordejando, um destróier, uma corveta e um rebocador brasileiros. Oficiais e praças, debruçados na amurada, admiram demoradamente o panorama. Seus pensamentos estão distantes, embora procurem pilheriar e rir. Inesperadamente partimos. A Bandeira Nacional, no Forte da Laje, sendo armada e hasteada por três vezes, em continência aos que partiam, foi a última visão da Pátria que guardamos no coração. Estamos acabando de saber que às 16:00 horas de hoje o Almirante John Davis subiu a bordo do nosso AP 116 e esteve com o Comandante Mc Kean. O velho Almirante mora numa caravela, no fundo do mar, e veio da parte de Netuno indagar porque invadimos seu reinado. Espera que amanhã, ao chegar o Rei a bordo, seja dada a Sua Majestade uma boa resposta. Durante a noite devemos ter cruzado o Equador. Um radiograma urgente do Gen. Cordeiro de Farias, que viaja no "Gen. Mann" é entregue ao Gen. Falconière, comandante da tropa do nosso "Gen. Meigs". Dizia o Gen. Cordeiro, oriundo da artilharia, que o comandante do navio instituíra um prêmio de 100 dólares para quem primeiro avistasse o Equador e com isto quase provocara um motim a bordo, pois toda a Infantaria se julgava merecedora do prêmio. Imediatamente respondeu o Gen. Falconière, como bom infante, que por ocasião da passagem todos os artilheiros se recolheram receosos ao interior do navio, temendo que o mesmo se espatifasse de encontro à linha do Equador. As 10:00 horas Netuno chegou com toda sua corte e, depois de recebido pelo Comandante, percorreu o navio, acompanhado pelas orquestras e certo número de foliões. Parece ter sido muito divertido, mas foi apenas o que de melhor se poderia esperar a bordo de um transporte de guerra. No pergaminho que deixou, dirige-se Netuno aos marinheiros, sereias, baleias, tubarões, lagostas e a todos os seres do fundo do mar. "Saibam que neste 27º dia de setembro de 1944, na latitude de 00.00º e longitude de 29º45' W penetrou em nosso domínio real o "USS General Meigs" cruzando o Equador em direção ao norte em uma Missão Especial de Histórica Importância ". Como coroamento das comemorações tivemos, ao jantar, uma feijoada à brasileira. Pela primeira vez em minha vida assisto a uma Missa celebrada às 04.00 horas da tarde. Por uma concessão especial da Santa Sé a celebração pode ser a qualquer hora, sendo necessário, para os comungantes, que se abstenham de ingerir alimentos sólidos por quatro horas e líquidos por uma hora. Durante o Ato soprou forte vendaval, seguido de chuva forte. Foi um belo espetáculo. Depois da tempestade vem a bonança. Entramos na zona das calmarias. O calor insuportável. A superfície do mar é um espelho. Nada se move. É impressionante ver o mar assim, ocasionalmente, uma lufada de vento morno toca na superfície da água, mas não provoca nenhuma agitação. O navio nem oscila. Assemelha-se a um rochedo. O espetáculo chega a ser enervante. Parece que o mar recolhe suas forças em si mesmo para preparar alguma surpresa. Prefiro vê-lo irrequieto como os "verdes mares bravios de minha terra natal." Duas aves marinhas, do tamanho de uma juriti, sobrevoaram hoje o navio. Será sinal de proximidade da terra? Devemos estar entre o arquipélago de Cabo Verde e Dakar. Mas o panorama não mudou. Céu e água. Mesmo assim tivemos um espetáculo inesperado. Seriam 11:00 horas quando um cruzador lançou um foguete de sinalização e imediatamente o destróier mais a bombordo afastou-se a grande velocidade. O resto do comboio guinou para boroeste, ficando de popa para o local suspeito onde o destróier lançou bombas de profundidade. Não houve alarme e a rotina de bordo não sofreu a menor alteração, embora fosse ostensiva a atividade na ponte de comando. Flâmulas e galhardetes coloridos subiam e eram arriados, transmitindo mensagens, completadas pelos sinais óticos. Cerca de uma hora depois o destróier que ficara para trás retoma seu lugar na formatura. Submarino ou simples exercício? De qualquer modo foi admirável a segurança e habilidade da manobra evasiva que tanta vida deu ao espetáculo.

Entramos na Baía de Nápoles. Ao longe o Vesúvio domina o cenário. Começa a atracação. Grande é a ansiedade em abraçar os que estão no cais. De um carro saltam três enfermeiras brasileiras e a soldadesca se entusiasma; há gritos, assobios e alegria por vê-las ali. Sobem a bordo alguns oficiais. Temos, afinal, notícias depois de quinze dias. A tropa do 1º escalão que nos precedeu acampou em Bagnoli até ser transferida para Tarquínia, onde recebeu armamento e equipamento. Em Vada, a 25 Km de frente, ultimou seu adestramento e foi incorporada ao V Exército Americano. Engajada em combate portou-se muito bem. Quanto a Nápoles, propriamente, a vida é caríssima, tudo está sob controle americano, a prostituição é grande e a fome ainda maior. Permanecemos a bordo e só no terceiro dia recebemos as ordens preparatórias para o desembarque na jornada seguinte. Despedimo-nos dos Cruzeiros que trocamos por Liras na base de 1 para 5, valendo o Dólar 100 Liras. Debaixo de uma chuva fina e impertinente deixamos o "General Meigs" e nos encaminhamos para as barcaças de invasão tipo LCI (Landing Craft Infantary) atracadas de popa, uma ao lado da outra, formando um conjunto impressionante. Cerca das 14:00 horas deixamos Nápoles e tomamos o rumo N. O panorama que se descortina vai ficando cada vez mais interessante. Que bela baía! Ver Nápoles e depois morrer, diz o poeta. Será mais bonita que a nossa Guanabara? O litoral tem escarpas abruptas e escarvadas por profundas grutas. Pelas elevações sobem casas amontoadas, mas sua arquitetura não fere a paisagem. Inesperadamente, rumamos para terra e entramos num pequeno porto, guarnecido de minas: Pazuoli. Noite a dentro vêm chegando mais barcaças de desembarque. Aos mastros de duas foi estendida uma corda e dependurada uma tela onde um filme velho se arrasta, sem som. Deixamos Pazuoli às 08:00 horas e ao longe se destaca a silhueta da ilha de Capri. Aos poucos vai se formando o imenso comboio, em fila tríplice. Estamos novamente entre o céu e o mar. Cai a noite e com ela os que ainda resistiam ao enjôo. A embarcação salta de todo jeito. Range, estala, geme e treme. Sacode tudo e tudo vira de pernas para o ar. Mergulha a proa, inclina para bombordo, afunda a popa, inclina para boreste, eleva a proa, salta sobre a onda. Aos primeiros clarões subo, a tempo de ver a ilha de Elba, donde saiu Napoleão Bonaparte para seus gloriosos 100 dias. Avisto Livorno, cerca das 14:00. Brilhando ao sol, mais de 10 balões de barragem. Afinal o LCI lança ferro e fica preso pela popa. A arrebentação tenta arrastá-lo para a praia e, como não consegue, a popa emerge da água, provocando uma desagradável trepidação. Afinal chega nossa vez de avançar até o porto onde cautelosamente navegamos entre mastros, pontes de comando, popas e quilhas de oito navios afundados. As 12 horas, do dia seguinte, conseguimos afinal pisar em terra firme. Uma neblina incomodativa aumenta o lamaçal e nos encharca o uniforme. Nova espera, carregando a mala. Afinal trepamos nos caminhões e nos largamos, mastigando os biscoitos da Ração "K". Atravessamos uma planície interminável, coberta de relva e ponteada de grupos de árvores. Aos lados da estrada grandes depósitos de material e uma atividade incessante. Nas portas das casas o povo gritando, sorrindo e correndo para apanhar os chocolates e cigarros que a soldadesca lhes atira. Homens rotos e maltrapilhos, vestindo uniformes verdes dos italianos. Penetramos nos arrabaldes de uma cidade. Cruzamos uma ponte de campanha. Há outras destruídas. São evidentes os sinais de combate. Olho para a direita e vejo a Torre Inclinada. Estamos em Pisa. Acabamos de cruzar o rio Arno. Chegamos ao acampamento, na Quinta Real de San Ressore. Consegui ver os homens de minha unidade mais uma vez reunidos. Instalei-me mal e logo após o jantar procurei minha barraca. Acordei com um terrível troar de canhões e gritos no acampamento, "apaguem as luzes", misturados com o ronco dos motores de avião. Daí a pouco se repetiu. Levantei-me e divisei ao longe algo semelhante a fogos de artifício seguidos de fortes explosões. Há sempre os entendidos, cujas opiniões divergem. Julgavam uns que o canhoneio era na linha de frente, enquanto outros atribuíam as glórias à artilharia anti-aérea, atacando aviões inimigos que tentavam atravessar nossas linhas. Logo depois informei à tropa que se tratava de um exercício em Livorno, à nossa retaguarda. O avião fora apenas um dos muitos que sobrevoam o acampamento para aterrar no campo de Pisa. Estamos acampados num dos Parques de Caça do Rei. Gigantescas árvores ensombram a estrada em cuja margem estão arrumadas 52 áreas de estacionamento com banheiros, privadas e cozinhas, rigorosamente asseados. Aqui o Ministro da Guerra Gen. Eurico Gaspar Dutra, passou em revista a tropa brasileira. Aqui conheci o Gen. Mark Clark, Comandante do V Exército. Aqui recebi as viaturas e armamento de minha tropa. Aqui me despedi da mala "A", com todos os uniformes de brim, substituídas pela mala "B" e o saco "C". Saí para visitar Pisa. À medida que me aproximo do rio Arno maiores são os estragos. Há ruas intransitáveis e destroços por toda parte. Acerco-me da amurada, junto ao rio. As belas pontes estão totalmente destruídas e só alguns pilares afloram à água. Custo a acreditar no que estou vendo. Guerra, destruição, miséria, fome. "Se eu voltar ao Brasil, e tenho fé em Deus que voltarei, ainda hei de visitar estes lugares com minha mulher".

"Rasgando Papéis"
Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira


De Nápoles a Livorno
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

 

De Nápoles a San Rossore

O dia 9 de outubro foi de expectativa, aguardando-se o transporte da tropa do 2º escalão para a área de treinamento (Stating Area) de San Rossore. Devíamos deixar o transporte General Meigs e seguir para Livorno nos barcos transporte. Somente as 11 horas deram início ao desembarque e nesse momento entravam no porto e atracavam os LCI (Landing Craft Infantry). O 11º Regimento deveria marchar juntamente com o 1º Grupo de Artilharia, que formariam um "combat team" para atuar nas operações de guerra. Esse grupo de Artilharia estava sob o comando do Ten. Cel. Waldemar Levi Cardoso. Coube ao Regimento um certo número de barcos transportes, num total d 28, lotando cada barco, de acordo com a sua capacidade variável, entre 178 e 200 homens. Às 13 horas, o Regimento iniciava seu embarque interrompendo-o porém, devido dificuldades de atracação de um dos barcos, que prejudicou a dos outros. A operação terminou às 20 horas e meia. Coube ao comando do regimento o barco 589, cujo comandante era um moço americano, muito agradável, de 22 anos apenas. Um dos barcos tinha a tripulação de 22 jovens, de 20 a 22 anos.

"O 11º RI na 2ª Guerra Mundial"
General Delmiro Pereira de Andrade
Biblioteca do Exército - 1950

 


A Caminho de Livorno - da direita para esquerda: 
Tácito Theóphilo e Eurico Capitulino de Barros
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

Um mês após o desembarque, o 1º Contingente já se achava concentrado e subordinado ao V Exército dos EUA, sob o comando do General Mark Clark, no Campo de Planadores de Tarquínia. O Comandante brasileiro Mascarenhas de Moraes, em companhia de Zenóbio da Costa e outros oficiais compareceu ao Quartel General do V Exército americano, em Cecina, onde prestou continência de praxe, recebendo manifestações de simpatia e apreço. Sir Winston Churchill, Primeiro Ministro da Inglaterra, foi recebido, também, em Cecina, sob forte guarda de honra, referindo-se, no ato, à cooperação do Brasil no palco de operações de guerra.

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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