FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

FRANCOLISE: "INFERNO EM VIDA"


Em Francolise, com a "turma da barraca", Sd Geraldo Silvia Mota,
o primeiro da esquerda para a direita, de cócoras.
Foto restaurada por seu neto Carlos Meton de A. Gadelha Vieira

 

O acampamento de Francolise ficou na história da FEB como um dos capítulos inesquecíveis para aqueles que o viveram. A zona no acampamento se estendia por muitos quilômetros. Era em campos cultiváveis, à margem da estrada que ia de Roma a Nápoles. Chegamos em junho., pleno verão italiano. O sol bem que nos fazia ter saudades dos picos nevados dos Apeninos. Poeira por toda parte. O pé enterrava no chão acima do tornozelo em camadas de pó, que penetrava pela roupa, pelos ouvidos, pelo nariz, nos olhos. O uniforme geral da FEB, naquela região, ficou sendo o calção de ginástica e mais nada, nem sapato, nem coisa alguma. Havia um enorme galpão com uma interminável fileira de chuveiros. A gente entrava por um lado, saía pelo outro, não precisava de mais. O sol se encarregava de secar o corpo nu, e o pó de torná-lo a sujar novamente. Quando soprava o vento, tinha-se a impressão de um acampamento de beduínos no deserto. Todos corriam para dentro das barracas, fechando as lonas, e esperavam que a ventania passasse. Assim ficamos semanas a fio, aguardando o dia do embarque. Não se tinha nada que fazer, porém cedo o espírito inventivo dos soldados criou passatempos para aquelas horas morosas, que se sucediam como os dias, sempre iguais. Só se falava no dia do desembarque no Rio. Cada um sonhava em voz alta com o que desejava fazer. O Frade e o Rasga iriam para um botequim em Marechal Hermes buscar as garrafas que o dono prometera dar-lhes na volta; o Alencourt e o Cabinho queriam tomar um chope gelado na Brahma. Outro queria beijar a noiva. Por fim, essas conversas se tornaram cacetes. Era todo dia a mesma coisa: alvorada, café, volley-ball, almoço, sesta, conversa, jantar e novamente um cavaco que ia até altas horas da noite. Uma tarde o Capitão Castelo selecionou um grupo, que iria a Nápoles encaixotar o material de rádio. Acho que nunca um serviço no exército foi tão bem recebido. Era uma maneira de sairmos daquele marasmo. Em Nápoles fomos para um dos armazéns do cais do porto, onde dormíamos no chão. Havia tanto rato, que às vezes tínhamos medo de sermos devorados pelos roedores. Passávamos o dia inteiro a contar e encaixotar estações de rádio, telefones e bobinas. Era um serviço duro, mas estávamos livres do pó de Francolise e o trabalho fazia com que as horas passassem mais depressa. De noite saíamos pela cidade a passear, beber algum bom vinho napolitano e ouvir ópera. De dia, serviço de estiva; de noite, ópera italiana. Não há dúvida que era uma boa vida em comparação com as anteriores, só que o serviço de estiva nos deixava um pouco cansados e alguns dos nossos não resistiam no teatro e dormiam um bom sono, de vez em quando interrompido por algum agudo do tenor. O Baraúna era o cabo que chefiava o grupo. Tomava conta do serviço e tratava de curar a carraspana de algum que na véspera, em vez de ter ido escutar o bel-canto, tinha ficado entornando o bom vinho. Geralmente o único que dava algum trabalho era o Carlinhos, que cismava de caçar os ratos do armazém a altas horas da noite. Era um barulho infernal e ninguém mais dormia.

"Cruzes Brancas - O Diário de um Pracinha"
Joaquim Xavier da Silveira



Cap. Sidney, Cap. Adhemar, Cap. Deschamps e Cap. Darcy Lazaro. Aos fundos a grande barraca "Parágrafo D".
Foto escaneada do livro "Montese - Marco Glorioso de uma Trajetória"
Cel. Adhemar Rivermar de Almeida

No dia 18 de junho, o nosso comboio deixou a "Caserna Cabaneta" tomando a direção do litoral, passando por Gênova, Livorno e Civitavecchia, o que nos permitiu, apesar da dureza dos bancos dos caminhões, admirar belíssimos trechos da estrada, vendo, ora longe, ora perto, suas praias, cidades, "paeses" ou a extração do célebre mármore de Carrara. E chegamos a Francolise, o nosso "inferno em vida", pois jamais podíamos imaginar que nos fosse reservado um local tão desconfortável, poeirento, ensolarado e sem atrativos, ao término de dias tão gloriosos. Francolise fora escolhida e instalada pelos próprios brasileiros como zona de concentração para o embarque e ficava situada a sete quilômetros ao norte de Nápoles. Suas instalações eram até suportáveis, a localização é que era péssima. Podia, pelo menos, ter sido construída mais próxima do mar. Ficamos acampados em grandes barracas e a que foi destinada aos oficiais do Estado-Maior do I/11º Regimento de Infantaria foi logo batizada, em reunião solene, como "Barraca Parágrafo D", como crítica a tal parágrafo em uma resolução sobre concessão de medalhas. Face ao forte calor reinante passávamos todo o tempo somente de calções, aproveitando a parte da manhã e da tarde para "peladas" de vôlei, organizadas pelo Tenente-Coronel Sayão. Quando conseguíamos alguma viatura, sempre por interferência do Tenente-Coronel Sayão, íamos em sua companhia até a praia mais próxima, que tinha sua maior parte ainda interditada, face às organizações defensivas, cercadas de minas, que nelas tinham sido construídas para impedir ataques marítimos dos Aliados. Todas as manhãs, segundo escala, um de nós era encarregado de encher de frutas um grande cesto e, assim, durante todo o dia, podíamos saborear as deliciosas frutas que os pequenos vendedores vinham nos oferecer. Depois do almoço - temperatura já muito elevada - ninguém ousava abandonar as barracas, entregando-se às leituras, conversas, pequenas brincadeiras e jogos de cartas. Foi numa dessas sestas que o Tenente Quintiliano, depois de ler a bula de um remédio, resolveu interrogar o Yvon sobre determinada doença. Ao fim da explanação feita pelo Yvon, ele, sério, retirou do bolso a referida bula, dizendo: - É Yvon, você está certo. Confere com isto aqui. - Bandido! Estava me sabatinando? - Natural! Você é o nosso médico, precisamos, assim, mantê-lo em dia, sabendo alguma coisa de medicina. À noite, após o jantar, formavam-se rodas de batucada ou de palestras e íamos ao cinema ao ar livre, que prendia pouco a atenção do pracinha, pois os filmes eram falados em inglês, sem legendas e, em geral, baseados em história de guerra. Por vezes nos prendíamos às lembranças e saudades dos entes queridos, que ansiosos aguardavam o nosso regresso, mas antes que tais recordações ficassem incontroláveis, surgia um companheiro, daí nascia uma piada, uma troca de idéias, uma brincadeira e esquecíamos de tudo. Essas saudades fizeram com que alguns poucos Capitães do Regimento aceitassem o convite, que jamais devia ter sido feito, para anteciparem, vindos de avião, o seu regresso ao Brasil. Inadvertidamente, esses Capitães abandonavam aqueles homens que tinham estado ao seu lado, sofrendo, nas mais diversas situações - Capistrano, travessia do Atlântico, os maus momentos dos LCI, San Rossore, Monte Castelo, Abetaia, lama, neve, montanhas escarpadas, Montese, etc., etc..... Homens que acreditavam, que admiravam, que eram capazes de morrer por esses Capitães, pois para eles FEB quase que se resumia no seu Capitão, no seu Tenente, no seu Sargento, nos Soldados, seus companheiros do Pelotão. Quantos deles não haviam recusado ir para a retaguarda para serem medicados? Quantos não tinham pedido para serem mandados de volta à Companhia depois de uma passagem por hospitais ou pelo Depósito do Pessoal? E agora estavam comandados por Capitães vindos do Depósito, que nada representavam para eles porque não haviam lutado juntos. Quantas saudades daquele Capitão que viera com eles, que sofrera com eles, que até caíra na mesma cratera, protegendo-se da explosão da granada inimiga, que também não tivera hora certa para alimentar-se, que lhe dera a mão quando escorregara na neve, que quisera que ele baixasse ao hospital quando sofrera um pequeno ferimento e ele recusara, que sabia da vida e das proezas de cada um, suas qualidades e seus defeitos, que não exigia continências, mas que ficava contente quando o seu soldado, mesmo continuando sentado ou deitado, dizia-Ihe, risonho e confiante: - Como é, meu Capitão, vai tudo bem? O "tedesco" deixou o senhor repousar um pouco? - coisas semelhantes. As "tochas" foram restabelecidas, voltando o Serviço Especial norte-americano, em combinação com o nosso, a proporcionar a todos, oficiais e praças, estada em várias cidades, principalmente em Roma. Os Capitães que haviam permanecido à testa de suas Subunidades, como eu, eram mais liberais e permitiam "tochas" mais longas, sob suas responsabilidades, muitas delas de retorno a lugares que de algum modo haviam ficado marcados quando da passagem por eles - namoros, boas amizades, etc. Visitei Nápoles, que antevira quando de nossa chegada à Itália e não encontrei razões para "dopo morire". Condoeu-me ver seus famintos habitantes, em situação tão diversa de seus irmãos do norte da Itália. Miséria e prostituição andavam lado a lado, em meio a uma destruição quase que total. A tristeza continuou em Pompéia, onde fui encontrar dezenas de jovens - moças e rapazes - em mistura com crianças de ambos os sexos, vendendo gravuras e "portas- fortunas" evocativas das libertinagens duma época anterior à destruição da cidade pelas lavas do Vesúvio, numa linguagem licenciosa e até mesmo chocante. Nas escavações de Pompéia os sinais de uma civilização adiantada e pervertida, podendo-se ter uma idéia do que fora aquela catástrofe no ano 79 da era cristã. Finalmente Roma, a Cidade Eterna, para uma estada de três dias em seu melhor hotel, o Excelsior, com todo o seu conforto, ótimas refeições, "shows" e toda uma cidade querendo fazer-nos companhia. Metamorfoseado novamente em turista fiquei emudecido ante a grandiosidade da Praça de São Pedro em minha visita ao Vaticano e "comprei" a bênção de SS o Papa, para parentes e amigos. Extasiei-me frente às estátuas da Pietá e de Moisés, admirando-me também de não vê-lo "parlare". Percorri a Capela Sistina e admirei o trabalho insuperável de Miguel Ângelo, em seu grande painel, o Juízo Final. Em lenta e aconchegante charrete andei pela cidade, vi o esplendor das praças, suas ruelas sombrias e humildes, o Forum Romano, as Catacumbas, o Coliseu e o moderno Monumento a Vittório Emmanuel, construído por Mussolini. Três dias em Roma era muito pouco e assim, eu e o Yvon, fizemos amizade com um cabo americano, responsável pelo controle de nossa distribuição pelos hotéis, que renovou por mais três dias nossa permanência, que findos foram novamente renovados. Bastava o cabo nos ver para ir logo perguntando: - How many days? No dia 4 de setembro, o 11º Regimento de Infantaria embarcou em Nápoles, de volta ao Brasil, no mesmo transporte "US 116 - Gen Meighs" que nos conduzira à Itália.

"Montese - Marco Glorioso de uma Trajetória"
Cel. Adhemar Rivermar de Almeida



Francolise: de pé - Ten. Bertholdo Klas, Ten. Aluisio A. Borges, Cap Sidney T. Tavares, Cap. Darcy Lázaro, Cap. Deschamps,
Ten. Aguiar, Ten. Paulo Cunha, Ten. Perini, Ten. Adhemar, Ten. Octávio. De cócoras - Tenentes Yvon Maia e Quintiliano.
Foto escaneada do livro "Montese - Marco Glorioso de uma Trajetória"
Cel. Adhemar Rivermar de Almeida

Grandes novidades. Entre os brasileiros há verdadeiro "frison" com o aprisionamento da 148ª Divisão alemã, comandada por um tal General Pico. Os pormenores desta façanha, a maneira de receber os prisioneiros, a atitude do general vencido perante o nosso comandante são comentários que enchem as nossas tediosas horas de ócio, nesta nova situação. Não se luta muito, mas a conversa é excitante! Também soubemos da morte de Mussolini, miseravelmente assassinado em Como e trazido seus restos mortais para Milão, onde foi dependurado de cabeça para baixo num posto de gasolina juntamente com sua amante e outros maiorais do fascismo. Assim exposto, a turbamulta divertia-se em descarregar sobre o corpo inanimado e desmoralizado a carga de suas pistolas, no gesto covarde e repugnante da vingança mesquinha. Também chegou a notícia da morte de Hitler, esta cercada de mais romance, porquanto dizem que caiu defendendo o Reichstag, será? A 6 de maio de 1945 podemos afirmar que a guerra terminou aqui na Itália, terminou na Alemanha, quase toda a Europa está dominada pelos aliados. Não há, no entanto, grandes manifestações de entusiasmo no seio da tropa, por estranho que isto pareça. As notícias gotejam friamente, sem nenhuma acolhida ruidosa, que indique regozijo. Os norte-americanos contentavam-se em repetir, quase apaticamente "very nice" ou "happily", e quedavam-se pensativos, aprofundando mais as suas preocupações. A aparente indiferença não nos parece vinculada ao cansaço, pois a força armada ianque chegou ao fim da luta em pleno fôlego, qual campeão fogoso, ainda irrequieto ao término de longa e áspera carreira. Há no ar certa sensação de intranqüilidade difícil de descrever, mas sentida no âmago da alma, que se refreia, que lhe tolhe a exuberância das manifestações. Como se a longa e infame guerra tivesse enuviado, em definitivo, todos os nossos nobres sentimentos. Dir-se-ia que o vencedor se apieda do vencido e o respeita na sua desgraça e se abstém do contentamento explosivo; como que se sente que os dias a vir não se dourarão da mesma felicidade, pois que o amor se vai murchando no coração dos homens. A guerra é assim terrível, medonha. Interrompeu-se, em definitivo, a leva de prisioneiros feridos. Até esta manhã trabalhamos ininterruptamente a consertar os corpos desses infelizes, física e moralmente esfrangalhados. Hoje estivemos à-toa; apenas um desastre de "jeep" veio pontilhar de sangue o nosso plantão. Estamos estacionados vizinhos à cidade de Fidenza, em pleno vale do Pó, ubérrimo rincão da península. Deve estar aqui o celeiro da Itália. O nível econômico da população é superior ao sul, não se fala em fome, não há pedintes, não se diz que o tedesco carregou tudo. O contraste com as populações meridionais é marcante, até mesmo no seu aspecto somático, parece estarmos em outro país, com outra gente. Enquanto nos ocupávamos em operar os prisioneiros alemães e italianos, nestes últimos 10 dias, o Hospital 16º, do qual foram retiradas as equipes cirúrgicas brasileiras, por desnecessárias, recebia esse hospital nada menos de 60 feridos, nossos patrícios, em ação na frente, na árdua batalha de Montese onde muitas vidas se sacrificaram, embora a operação resultara em pleno êxito, num dos melhores feitos da nossa gente. Aí está um dos primores de desorganização! Mesmo dentro da forma norte-americana encontramos um jeito de nos deformarmos. E os feridos não tiveram o amparo moral e o reconforto de uma palavra amiga e compreendida, na mesma língua, enquanto sofriam as agruras dos seus sofrimentos. Só mesmo adotando o conformismo popular na expressão tediosa: e a vida continua... Os nossos comandantes restringiram o uso dos " jeeps " e os acidentes diminuíram.

"Notas de um Expedicionário Médico"
Alípio Correa Netto


Ponte Frankilin D. Roosevelt, na entrada de Vergato. Da esquerda para a direita:
 Sgto. Menésio dos Santos Reis, um policial americano, Cabo Páscoa e fotógrafo Horácio Coelho.
Foto escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos" - José de Oliveira Ramos.

 

A cerca de quarenta quilômetros ao norte de Nápoles, se encontra a vila de Francolise, pequena, pobre e feia, como em geral as vilas da Campania, ao sul da Itália. Situada numa elevação, Francolise é cercada por uma planície onde impera a malária. Foi nessa zona palustre que se localizou a área de estacionamento das tropas de embarque. Fora preparada cuidadosamente, com todos os requisitos de higiene militar. A profilaxia da malária consistiu na extinção completa de todos os focos de mosquitos, num raio de mais de três quilômetros e aplicação periódica de DDT em todas as casas e barracões da zona. Dentro do acampamento a segurança era absoluta, pois não havia um mosquito, sendo dispensável o uso de inseto-repelentes e de mosquiteiros. Cada tropa que ocupasse a área tinha por obrigação manter em dia a polícia de focos de mosquitos, designando uma companhia, sob comando de um tenente, para fazer a petrolagem das águas, conservar os drenos, aterrar poças d'água, executar enfim o plano pré-estabelecido para evitar que o perigoso anofelino vivesse por ali. Todas essas medidas foram burladas por alguns soldados, que, desobedecendo às ordens, saiam da área saneada e voltavam à noite ou mesmo pernoitavam fora. Apareceram vários casos de malária, todos contraídos nessas condições. O problema capital da água foi resolvido pela abertura de poços artesianos e a água distribuída por encanamentos às cozinhas, banheiros, etc. Já era um luxo, ter água encanada num acampamento! Campos de esportes e sessões de cinema, ao ar livre ou em barracões, davam distração às tropas. Nápoles agora estava muito próxima e quase diariamente íamos passear na cidade, conhecer seus arredores e pontos obrigatórios de turismo: Pompéia e Herculano, com suas famosas ruínas e recordações de seus costumes afrodisíacos e epicuristas; Sorrento, com seus penhascos pitorescos; o Vesúvio, sempre fumegando.

"A Epopéia dos Apeninos"
José de Oliveira Ramos


"Fui hoje à cidade de Roma. Gasta-se duas horas e meia de viagem em caminhão. Fomos 26 oficiais do 6º RI.
Durante a viagem, passamos por várias cidades semi-destruídas: Grosseto, Civitavecchia e outras. Civitavecchia está completamente destruída.
Há apenas alguns prédios ainda de pé. A população toda abandonou a cidade. A estrada de ferro é um montão de destroços. Lá se vê vagões destruídos.
As pontes foram todas dinamitadas. Chegamos a Roma e saltamos logo no Vaticano. É um território neutro, todo cercado de muros.
Fica bem no centro de Roma. Entramos na Praça de São Pedro. É uma coisa imponente."
José Teixeira de Souza - Arquivo Cynthia Teixeira
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O FIM: Francolise

Não vou contar aos leitores a infeliz viagem que fizemos - Mamprin e eu - a Nápoles, como ele foi impedido de fotografar o porto onde os nossos soldados desembarcaram em 1944 e embarcaram de volta em 1945, nem muito menos o erro fatal que nos fez, depois de atrapalhada viagem, e aproveitando raros e preciosos raios de sol entre mil horas de chuva, fotografar não a cratera do extinto vulcão Astronia, em que bivacaram os homens do 1º Escalão, e sim uma depressão vizinha, na localidade de Agnone, erro que só fui descobrir uma semana e 400 quilômetros depois, examinando um mapa em relevo da região. Foi uma jornada completa de dois focas, da qual só se salvou uma visita a Francolise, no caminho. "Um castelo em ruína, uma igreja, por fora toda limo, por dentro toda mofo, meia dúzia de casas velhíssimas. Eis tudo." É assim que o padre Manuel Inocêncio L. Santos, capelão do 11º RI, descreve Francolise, em cujos campos a nossa tropa esperou longamente o embarque de volta para o Brasil, depois da guerra. Ele e todos os que escreveram sobre a campanha falam do calor e da poeira sufocantes. O castelo e a igreja continuam como eram; há algumas casas novas, mas poeira nenhuma: o campo verde é todo plantado de oliveiras, pereiras e ameixeiras. Claro que milhares de soldados e centenas de viaturas devem ter fabricado as tais nuvens de poeira. Outra nuvem a que o padre se refere - a de mulheres que acorreram de toda parte da Itália, "sem excluir a Lombardia e Veneza", para essa aldeota do sul, no louvável intuito de distrair os nossos pracinhas entediados pela longa demora do embarque - igualmente já se desfez. Francolise voltou à sua honrada paz campestre, livre dos soldados e das vivandeiras que aqui armaram "cenas tão degradantes" que o bom sacerdote chegou a ameaçá-las de um extermínio igual ao de Pompéia, onde "o vulcão enfurecido foi o gládio de fogo vibrado por Deus". Felizmente não havia nenhum vulcão por perto e Deus não quis castigar em massa os pobres soldados que já haviam feito a guerra e achavam apenas natural fazer um pouco o amor.

"Crônicas da Guerra na Itália"
Rubem Braga




Adhemar Rivermar e o "jeep", inseparável nas "tochas"
Foto escaneada do livro "Montese - Marco Glorioso de uma Trajetória"
Cel. Adhemar Rivermar de Almeida

 

 A área onde estávamos foi transformada em campo de concentração provisório para prisioneiros alemães. Eles eram alguns milhares e nós não passávamos de algumas dezenas. Entre eles havia um major, que assumiu o comando. Quando chegou o caminhão americano com comida e cigarros, aqueles arianos maltrapilhos e esfomeados ficaram olhando para a nossa abundância. Um deles me disse em italiano que há muitos anos não via tanta comida junta. O espanto se transformou em alegria quando viram que toda aquela comida era para eles. Havia algumas brigas entre eles, pois os alemães puros não queriam se misturar com os italianos fascistas, por quem nutriam o maior desprezo, nem com eslavos e outras raças que envergavam o uniforme da Wehrmacht. A noite, acendemos fogueiras e ficamos montando guarda, que era mais para proteger os alemães do que para impedir-lhes a fuga. Em volta do acampamento rondavam bandos de"partiggiani" sedentos de sangue, que queriam matar aqueles louros soldados que lá se achavam meditando talvez como é difícil querer conquistar o mundo. Da minha estação aproximou-se um rapaz alto, falando um italiano fluente. Não era simpático, ou eu não estava ainda em condições de achar nenhum alemão simpático. O alemão declarou-me que também era radiotelegrafista e fora um dos observadores de artilharia de Monte Castelo. Imediatamente em volta da estação acorreram vários soldados, para escutar as histórias do homem que durante tanto tempo observara os nossos passos e nos poderia ter morto. O alemão declarou muito simplesmente que não morreram mais brasileiros porque a artilharia pesada alemã estava muito desfalcada e a munição, que era feita na Itália, vinha sempre defeituosa: - Se estivéssemos como no começo da guerra, vocês não teriam escapado - disse numa calma espantosa. Vocês, brasileiros, são muito valentes, uma grande infantaria, mas são muito imprudentes, não se resguardam das vistas do inimigo. Ficamos um par de horas escutando como aquele homem tinha nos visto. Ele também era um revoltado contra a guerra e queria voltar para a sua aldeia natal na Westphalia, mas no fundo guardava um ressentimento contra o mundo, por não ter podido conquistá-lo. Quando lhe dei a notícia da morte de Hitler, não acreditou e disse que era boato para despistar a fuga do "fuerer". Olhando em conjunto para aqueles homens todos notava-se em seus rostos o cansaço e a dor da derrota. O abatimento moral em que se achavam não lhes permitia mais olhar de cima para baixo, como costumavam fazer. Contra eles passara eu meses combatendo, e naquele momento tinha-os sob a mira da metralhadora, uns poucos deles, mas não sentia o menor ódio, tinha antes pena daqueles homens sem pátria, já sem o orgulho militar prussiano, tão do seu gosto. Porque, afinal, nós tínhamos demonstrado aos alemães que guerra não é ciência só para profissionais, e que eles, na apuração de contas, não eram os reis da guerra. Os americanos, e nós também, por exemplo, até há pouco tempo éramos ignorantes no assunto. Entramos como principiantes e surramos os profissionais. Este será talvez o maior castigo para um alemão, pensar que foi derrotado por povos que nunca levaram muito a sério o militarismo, por paisanos fardados, guerreiros improvisados pelas contingências do momento. 

"Cruzes Brancas - O Diário de um Pracinha"
Joaquim Xavier da Silveira


Aquartelamento da 10ª Divisão de Montanha - em "Camp Hale", norte dos EUA
Foto escaneada do livro "Montese - Marco Glorioso de uma Trajetória"
Cel. Adhemar Rivermar de Almeida

 

TOCHA

Aproveito o mais que posso a minha condição de conquistador, depois das bebedeiras triunfais que se seguiram ao fim da guerra estou sempre pedindo carona para ir a outras cidades do vale, adoro ver a fita de asfalto cortando-o quase em linha reta, entre pomares e vinhedos; Pavia com as suas torres inclinadas, as muralhas com ameias, a silhueta de burgo medieval; Piacenza meio destruída, as ruas cheias de caliça, os belos edifícios antigos no Centro, o banal monumento ai caduti, tão deslocado e clandestino entre os vestígios gloriosos do passado; Parma sóbria e bonita, o azul de Correggio na cúpula da catedral, os restaurantes populares de comida escassa, mas onde se encontra o famoso parmesão; Cremona, com a torre da catedral, os afrescos magníficos, os anjos tão humanos de Bernardino Gatti, uns bambinos de rua iguais aos de hoje, há bebida e sexo, o corpo vingando-se dos meses de abstinência forçada, a ficha de cobre que se recebe num guichê, antes de tomar o lugar na fila do bordel, Milão abarrotada de soldados, excursão ao lago de Como na manhã de domingo, rapazes e moças carregando pequenos embrulhos, sanfonas e guitarras, burgueses que saem com a família, não há carne, o pão está caríssimo, mas o italiano vai assim mesmo fazer piquenique, passar o dia a cerejas, vinho e umas poucas fatias de pão e salame, o trem apinhado, vozes moças cantando, grupos de moças e rapazes dançando na estrada para San Maurizio, perto de Como, entre os chalés na montanha, e, finalmente, no alto, a voz que se perde, os olhos deslumbrados, a vontade de sumir, de se desfazer no ar serrano, sobre o lago, sobre os atalhos tortuosos e as pedras da encosta, mas eu quero fazer uma tocha mais arrojada, não quero limitar-me às cidades próximas a Stradella, sinto uma embriaguez boa de triunfo e liberdade, sou paisano, paisaníssimo, ninguém me pega, pois sim, pois sim, não vá perder o embarque de volta, velhinho, isso mesmo, até onde não iria se não fosse o medo de perder a viagem de regresso, como se conversa, como se fazem planos, o mapa da Itália aberto no chão, os olhos ansiosos acompanhando a linha vermelha da estrada, aonde vamos desta vez? Aonde, essa é boa, pra que fazer as coisas pela metade, eu quero ir à França, desta vez eu vou é tirar a barriga da miséria, Nice, Montecarlo, Cannes, em seguida, quem sabe, sou capaz de ir até Paris, depois do casarão de Silla, do inferno branco e das noites de vigília, passar uma tarde no Bois de Boulogne, voui, voui, mademoiselle, enchanté, o perfume das terras de França, o sorriso de uma midinette, não tem por onde, eu preciso ir à França, conto os meus planos a Alípio, Omar e Fileto, sentados sobre as mantas, combinamos os detalhes da aventura, o único jeito de vencer aquela distância é apanhar o carro-comando do Grape-fruit, se ele descobrir, não faz mal, pode castigar a gente, já teremos gozado o encanto das terras de França, de noite saímos os quatro e levamos o motorista Augusto Pisca-Pisca a um boteco da cidade, escuta, Augusto, você já se imaginou em Paris, em pleno centro, na Praça da Concórdia, sentado num daqueles cafés com uma francesinha, diante de uma garrafa de conhaque? Vale a pena até sacrificar a vida por um momento assim, você com o seu cansaço, a paúra do front, sujeira que ainda não saiu toda do corpo da gente, você que em sua terra nunca passou de Cascadura, você que nunca teve um tostão a mais, você que sempre se dobrou em frente do patrão, tem de repente uma oportunidade dessas, e vai perdê-la? Pense um pouco, tem algum cabimento? É verdade, vocês têm razão, mas se pegam a gente? Ora, ora, você já viu o xadrez que arranjaram lá na fábrica? O Jesuíno até fez lá uma instalação de rádio, e os presos dão um jeitinho de escapar de vez em quando ou receber de fora algum vinho, francamente, você tem medo disso? E agora imagine, você entrando no cassino de Monte Carlo, um tal de monsieur pra cá, monsieur pra lá, o porteiro vem tirar a sua japona, você lhe entrega meio maço dos destronca-peito da Legião, e o homem se desmancha em sorrisos, nós vamos dançar à luz de velas, uma porção de velas nuns candelabros antigos, Mademoiselle, desculpe se lhe pisei o calo, voui, voui, s'il vous plait, pardon, é que... estou pensando no embarque... que bobagem, não vai acontecer nada, se o Grupo se deslocar para tomar o navio, a gente chega em tempo nem que seja preciso correr a cento e vinte por hora, você tem de vir conosco, nós vamos até a França e você não pode perder a oportunidade, o que as palavras não conseguem, obtém-se com o bom vino rosso espumante, Augusto Pisca-Pisca abre e fecha os olhos miudinhos, cada vez mais entregue à aventura, mais seduzido pela perspectiva de uma estada em França, me espera Paris, temos de tomar as nossas precauções, o toque de recolher é às dez, depois uma patrulha fica vadiando pelas ruas da cidadezinha, à procura de retardatários, a solidariedade da patrulha é quase certa, mas assim mesmo é bom tomar cuidado, escondemo-nos na estação, no meio de uma multidão de refugiados maltrapilhos dormindo sobre os bancos ou sobre uns trapos no chão, um de nós vai de vez em quando até a casa dos oficiais do PC, ainda tem luz, não se pode tirar o carro agora, com o correr do tempo passa um pouco a bebedeira de Augusto, eu acho que o melhor é desistir, senão a gente perde o embarque, e que é que eu vou dizer pra noiva? Que bobagem, pense melhor numa francesinha bebendo com você champanhe de verdade, não tem por onde, o Augusto é nosso prisioneiro e não escapa mais, finalmente Fileto nos traz notícias melhores, a casa está em silêncio, tudo escuro, eu já falei com o sentinela, diz que não se incomoda, que a gente pode levar o carro, esgueiramo-nos até a casa do comando, colando-nos às paredes, um vulto escuro aparece numa das janelas e temos de nos esconder novamente na estação, depois saio eu em reconhecimento, não vejo mais o vulto à janela, mas o novo sentinela é frouxo, tem medo de responsabilidade, ora, era o que faltava, ter medo de um xadrez tão confortável como aquele que nos arranjaram, esperamos mais duas horas até a mudança do quarto de ronda, o sentinela de agora é muito mais cordato, um rapagão da Segunda Bateria, de retorcidos bigodões negros que lhe valeram o apelido de Bigode, o quê, vocês vão até a França, puxa, isto é que eu chamo uma boa tocha, uma tocha de macho, podem levar, podem levar, e se quiserem o jipe também, não façam cerimônia, eu não estou vendo nada, já levam tarde, tedesco ha portato via tutto, entramos na garagem ao lado do bangalô e empurramos o carro silenciosamente para fora, a gasolina é insuficiente, por isso vamos até o depósito do Grupo, o próprio sentinela ajuda-nos a encher o tanque, e ainda nos arranja alguns camburões de reserva, um deles está furado e eu o atiro ao primeiro italiano que vejo no portão de uma casa, o rapaz esbugalha os olhos e abraça o camburão, vendo com desalento aquela riqueza que escorre para o chão, depois carrega-o para dentro de casa, vai tapá-lo com a ajuda da família, quatro horas e pico, o carro voa pela estrada, Pisca-Pisca no volante, precisamos sair do setor brasileiro antes das seis da manhã, quando a polícia de estrada entra em serviço, sinto uma vertigem, agora sim é que sou um triunfador, o vento da estrada batendo-me no rosto em plena madrugada, havemos de vencer quaisquer barreiras, é a nossa investida sobre a França e havemos de tomá-la, perto de Gênova, já de manhã, junto a um viaduto magnífico de cimento armado vemos uma barreira da polícia militar americana, não há de ser nada, o carro embarafusta por umas estradinhas laterais, sobe e desce barrancos e depois volta à estrada principal, como foi rápida aqui a retirada dos tedescos, pela primeira vez encontramos uma região com pontes e túneis intactos, nos paredões, gravadas na pedra, as frases pomposas do Duce sobre as glórias do Império, em Gênova há restos de barricadas, barreiras de cimento, arranha-céus bombardeados, como é antiestético um arranha-céu sem a parede da frente, vêem-se os quartos todos, a intimidade do cotidiano, a caminha do bebê, inteirinha no meio de um montão de caliça, o relógio de cuco na parede, a cidade é estreita, comprimida entre as montanhas e o mar, seria bom flanar um pouco, mas está ficando tarde, e nós temos o nosso objetivo, precisamos entrar em França, tomá-la de assalto, aparecem praias fortificadas com casamatas de cimento disfarçadas em chalezinhos, largas muralhas, cercas de arame farpado, o idílico tão apregoado da Riviera italiana, o mar de cartão-postal, os palacetes, os parques, paramos numa cidadezinha de ruas estreitas, até que enfim estamos longe das intragáveis rações C e paramos para almoçar, mas o dono do restaurante avisa-nos num italiano afrancesado que ali só existe peixe, serve-nos uns peixinhos ossudos, que parecem lambaris, fritos com muita gordura, tudo se mistura, o cheiro de gasolina que vem do corpo da gente, a gordura, a poeira, o cansaço, tem-se náuseas, mas não faz mal, toca pra frente, vemos uns refugiados na estrada, uma multidão cansada e suja, pés de sapatos rotos, pés de velhos, de mulheres, de criancinhas, onde está a poesia do mundo, a beleza da vida? As crianças estão velhas também, as horas na estrada transformaram-lhes os rostos, tiraram-lhes a vivacidade dos olhos, o mundo todo está cansado, estraçalhado, coberto de pó, é um mundo decrépito e derrotado, mas nós não temos nada com essas coisas, nós vamos é pra França, temos encontro marcado com a suavidade da vida, vemos túneis dinamitados e viadutos destruídos, de quando em quando o carro tem de enveredar por um desvio, um by-pass, subir umas perambeiras doidas, e lá estão também, arrastando-se ladeira acima, suados, esfalfados, os bandos sinistros de italianos, eu não quero ver este azul do mar, este ar translúcido, estas flores, toda esta beleza mentirosa, convencional, não quero sentir esta brisa em meu rosto, eu preciso é sumir mesmo na terra, apodrecer de uma vez, os refugiados olham com inveja o nosso automóvel, ele é o privilégio dos donos da vida, dos que venceram a guerra, abismos de aflição e vergonha separam-nos daquela multidão extenuada, e apesar de tudo o diabo não dorme, o corpo cansado, náuseas, o cheiro de gasolina penetrando em tudo, a lembrança dos olhos cheios de angústia da multidão fugitiva, e o diabo, apesar de tudo, revolve-se em algum escaninho profundo de cada um de nós, Fileto avista duas mocinhas numa curva de estrada e diz baixinho a Pisca-Pisca, pára aí, as mocinhas sobem para o carro, uma na frente, a outra atrás, ficam comprimidas entre nós, quietas, dove andare, signorina? Alassio, nenhuma risada, o ar exausto de quem andou noite e dia, o rosto pálido, os olhos parados, numa curva da estrada aparece uma praia bonita, com hotéis, soldados americanos de uniforme espreguiçando-se na areia, ondas mansas, muito sol, as mocinhas descem do carro, grazie, arrivederci, o diabo, que fizera surgir os seus chavelhos em algum escaninho profundo, torna a esconder-se diante da aflição humana, do sofrimento de cada instante, depois de Alassio, Imperia, San Remo, as estradas de pontes dinamitadas, as cidades intactas, flores nos jardins, o perfume do lilá, vir de tão longe, chegar coberto de tanta poeira, e sentir no rosto o perfume do lilá, este aroma de civilização, este carinho da Europa, eu vou chorar, eu vou chorar, eu não quero a França, não quero nada, eu preciso é de um cantinho quieto para encostar os ossos, esta beleza me faz mal, me aniquila, numa outra curva paramos para descansar, e imediatamente somos cercados pelos sfolati, cada um tem esperança de uma carona, nós nos defendemos, não pode ser, é viatura militar, il commando, uma mulher jovem levanta nos braços uma menina de quatro anos de sapatinhos rotos e pés feridos, é só levá-la até Bordighera e deixá-la no hotel principal, mas não, nós não temos nada com essa gente, nós queremos é ir à França, se cedermos, todo mundo vai querer subir no carro, non, non, viatura militare, il commando, quem balbucia isto é Fileto, o carro sai voando pela estrada abrasada, sente-se uma angústia sem limite, o peso de todos os pecados do mundo, chegamos a Bordighera às duas e meia da tarde, acontece que os franceses avançaram até ali a sua fronteira, criando assim um incidente internacional, no meio da rua há uma barreira igualzinha a outras que encontramos ainda há pouco, e onde Pisca-Pisca, aconselhado por Fileto, mostrou a sua carteira de motorista da FEB fingindo que era o passe regulamentar, do lado de cá da barreira está um sargento americano, do lado de lá, uns senegaleses de fez, os rostos negros muito compenetrados e carabina a tiracolo, o sargento diz que não pode ser, não, ele tem ordem de não deixar atravessar a fronteira, sim, ele está vendo o nosso passe, acredita realmente que fomos autorizados pelo nosso comando a dar um passeio pela França, mas só deixará passar o carro se trouxermos ordem por escrito do Governo Militar Aliado da cidadezinha, o dito governo está instalado num dos hotéis e os companheiros me comissionam para ir conferenciar com as autoridades, percorro um corredor comprido e encontro máquinas batucando, mesas cobertas de papelório, fichas, será possível? É a velha burocracia reinstalando-se no pais em farrapos, é o mundo tão nosso conhecido dos ofícios e das ordens de serviço, na sua versão italiana, a velha internacional dos burocratas que já estende as patorras sobre o pais destruído, o italiano gordo e bem vestido, de uma obesidade insultuosa, que constitui com um capitão inglês o famigerado governo, ouve a minha história sobre o passe regulamentar, a licença recebida para uma viagem à França, espanta-se por termos vindo de Stradella, ma che lontano, e explica que não pode fazer nada, o capitão foi a Alassio tomar o seu banho de mar e ele não pode assinar coisa alguma na sua ausência, o jeito que temos é ir até Imperia, para conversar com o coronel americano, responsável pelo trânsito na região, depois que chego com esta resposta começa grande discussão, Fileto quer assim mesmo continuar na tentativa de ir até a França, nós outros almejamos é um canto para dormir, despir em algum canto a roupa fedendo a suor e gasolina, acabar de uma vez com a aventura doida, não ver mais os olhos dos refugiados nem os pés machucados das criancinhas, afinal o carro volta pela estrada poeirenta, Fileto substitui Augusto no volante, San Remo, Imperia, Alassio, Savona, o entardecer na Riviera, as palmeiras à beira da estrada, o mar contra os penhascos lá embaixo, adeus Paris, noite no hotel em Celle Ligure, o colchão de molas, isto sim é que é civilização, quantos séculos me separam dele, meu Deus, será possível, estou mesmo voltando à condição humana, ao conforto humano, ainda sou meio bicho, ainda há pouco na estrada aquela menininha, bobagem, que é que se pode fazer, é uma catástrofe universal, qualquer coisa como um terremoto, a gente tem culpa se a terra está tremendo? Não fomos nós que inventamos essa guerra, eles quiseram a sua Abissinia, a sua Savóia, e agora têm tudo ao alcance dos pés esmolambados, aliás não é bem isso, estou mentindo a mim mesmo, e apesar de tudo não consigo atingir um estado providencial de plena hipocrisia, ora, deixem-me em paz, eu quero é ir dormir, gozar a delicia desse colchão de molas, supra-sumo do conforto, o prêmio do conquistador, depois mais um dia de viagem, desta vez mais lenta, parando aqui e ali, temos de matar o tempo, para chegar a Stradella de madrugada, mas, quando é noite alta, Fileto põe o auto numa carreira doida, na entrada de um povoado vê duas mocinhas com jeito de quem espera condução, faz parar o automóvel, mas diabo, como tem gente aqui, num instante o carro é rodeado, em meio à densa treva, por uma multidão maltrapilha, todos lutam procurando entrar no veiculo, ficamos quase esmagados sob a onda humana, esgueiramo-nos para fora e deixamos os italianos brigando, um rapazinho de bigode ralo exibe-me o documento militar e insiste em que, na qualidade de oficial, tem direito de entrar no carro antes dos demais, pobre oficial, então não sabes, seu cabeça de pau, que o teu exército acabou, finita l'Italia, adesso tutto kaputt, depois de muita briga conseguimos expulsar do carro a multidão revoltada, com exceção de duas velhas gordas, que viajam agora praticamente no nosso colo, o carro continua a voar pela estrada, e a mulheraça no meu colo chora, diz que vai a Piacenza ver no hospital o filho, que teve amputadas ambas as pernas, chegamos a Stradella de madrugada e deixamos as velhas na estação ferroviária, no meio de outros sfolati, levamos o carro para a garagem e empurramo-lo silenciosamente para o mesmo lugar, o sentinela comunica-nos que, segundo parece, ninguém notou a falta do veiculo, finalmente vem a viagem rumo ao sul, o longo comboio avança alegremente rumo de casa, adeus, adeus, lencinhos acenando, mocinhas chorando, ano próximo io ritornare qua, pois sim, vai esperando, bobona, eu volto é para a minha morena lá em Cascadura, vou meter a minha fatiota paisana, irei ao teatro ver Oscarito, ao futebol, a Itália desfila mais uma vez, diabo de terra bonita, depois a gente vai ter até saudade, baias, enseadas, ilhotas, o litoral da Ligúria ao sol, poeira, zunzum nos ouvidos, gostoso apesar de tudo, uma ligeira embriaguez de triunfo, de regresso à pátria, há um anoitecer no trigal pertinho de Castiglioncello, que delicia este cheiro de trigo, esta exuberância de mundo vegetal, adeus vida primitiva, uma estrelinha apareceu tremelicando, um gato miou numa casa da vizinhança, ouço o mar bem próximo, sinto um embalo de navio e adormeço, depois tome poeira, casas destruídas, a miséria da Itália, arrivederci tudo, ao entardecer do terceiro dia os carros do Grupo entram num grande acampamento, de amplas barracas coletivas, espalhadas por uma planície cortada pela estrada principal, a uns trinta quilômetros de Nápoles, o lugar chama-se Francolise e fica pertinho de Cápua, o acampamento é bem vasto, estão aqui prisioneiros alemães vigiados por uma companhia de negros americanos, eles preparam as instalações de algo que deve tornar-se um acampamento de exército de ocupação, uma espécie de cidade militar, aqui será o cinema, ali vai ser o clube, há calor e poeira, moscas, em frente do acampamento, do outro lado da estrada, fica o povoado de casinhas de pedra espalhadas sobre uma colina, na entrada do povoado, bem visível, aplaca "Off-Limits", naturalmente ninguém liga para essa bobagem de proibição, mas dá tristeza andar por aquelas ruas, a população é muito mais miserável que em qualquer das regiões que já percorremos, lembra até o Nordeste brasileiro, à porta das casas aparecem mulheres de camisolão, é duro ver as mulheres renunciando a qualquer espécie de garridice, usando aqueles camisolões mais tristes que hábito de freira, arrastam-se sobre as calçadas inúmeras crianças pulguentas e remelentas, no boteco da esquina o vinho é ruim, está misturado com muita água, uma tropa de burro passa batucando sobre o calçamento desigual, está levando mercadorias para algum povoado na montanha, no ponto mais elevado da cidadezinha, um castelo abandonado, pode ser que seja antigo, pode ser que já tenha sido bonito, mas o que se vê são uns paredões que parecem descascar-se, quartos imundos de paredes nuas, o limo por toda parte, um cheiro de mofo e sobretudo de excrementos, desistimos da cidadezinha e passamos o tempo nas barracas, anda-se o dia todo de calção de física, dorme-se, conversa-se preguiçosamente, é o reinado da indolência, o rancho, a fila, o bate-papo, a ânsia de voltar cede lugar à preguiça e ao abandono, a cabeça esvazia-se de impressões, nem parece que passamos por tanta coisa, nada existiu, o que há de verdadeiro é este calor impossível, esta poeira, estas moscas, nos fundos do acampamento passa um riacho, um reconhecimento descobriu que pouco adiante fica uma cachoeira razoável, ótima para se tomar banho, como é agradável sentir a água caindo nas costas, depois fica-se sobre a grama, papo pro ar, olhando as nuvens, sem pensar, sem sonhar, sem lembrar coisa alguma, a ser uma lesma, um verme, um percevejo, as notícias correm depressa, e as prostitutas da região logo descobrem aquelas aglomerações perto da cascata, que pena, o recanto idílico transforma-se num bordeI rústico e barato, os prisioneiros alemães chegam para o trabalho em grupos, nunca têm pressa, executam todas as tarefas com o máximo de moleza, ninguém os aborrece, os pretinhos americanos são bonachões e relaxados, é freqüente ver-se um grupo grande de prisioneiros entregue à vigilância de um só colored, que se senta sobre alguma pedra, a carabina largada com displicência sobre os joelhos, os alemães conversam, param de trabalhar, ficam olhando para nós outros, que nos arrastamos molemente para as nossas barracas, os prisioneiros estão recebendo poucos cigarros e, por isto, ficam catando guimbas no meio das barracas brasileiras, e é freqüente virem com esse propósito em grupo, em pleno horário de trabalho, vigiados de longe pelo pretinho bonachão, penso no que seria no caso contrário, se os pretinhos estivessem prisioneiros e estes arianos puros fossem os seus carcereiros, dou uma escapada até Nápoles e vejo a mesma miséria de quando estávamos indo para a guerra, o mesmo scugnizzo conduzindo o soldado pelas ladeiras estreitas, dizendo que vai levá-lo à casa da sorella, a mesma miséria rude, o mesmo abatimento, o mesmo abandono de quaisquer normas de vida familiar, o trenzinho para Pompéia, ao lado das ruínas majestosas a miséria muito mais trágica do que a morte entre as lavas do Vesúvio, meninas de treze e quatorze anos, imundas e maltrapilhas, vendem-nos o ricordo característico da cidade, um falo metálico provido de asinhas, percorrendo as ruínas chega-se a esquecer a miséria moderna, mas o regresso é mais triste ainda, mais rude e melancólico. Adeus Nápoles, adeus Itália, addio, o caminhão passa pela caixa d'água, pelos montes de pedregulho, pelos prisioneiros alemães mandando adeus, aqueles homens abatidos, que perderam a arrogância, que vivem catando guimbas no meio das barracas, curvados e humildes, que coisa estranha, agora não há mais ódio, são gente também, foram eles que mataram companheiros meus, foram eles que me bombardearam, em Silla e quase me mandam desta para melhor, é verdade tudo o que se diz sobre as atrocidades germânicas, mas, apesar de tudo, são gente também, esquisito tudo isso, estamos voltando para casa, mas não há tranqüilidade de espírito, e sim cansaço, um quê de indefinido misturando-se com a alegria, certo relaxamento de músculos e nervos, um pouco de moleza, as velhas de camisolão circulam no meio das barracas abandonadas para catar o que esquecemos ali com a pressa, addio vecchia, a velha engrola qualquer coisa, a vozinha nasalada, arrivederci, ano próximo io ritornare qua, ah que terra, eu não quero pensar em nada, daqui a alguns dias estarei tomando chope em Copacabana, ao lado de uma loira fenomenal, arrivederci, arrivederci, não quero pensar em nada, não quero ver nada, não existo mais enquanto não pisar terra do Brasil. - Tu é bobo, meu velho, nós vamos é pro Japão. Campos, montanhas, viaturas militares, ruas de Nápoles, adeus!

"Guerra em Surdina"
Boris Schnaiderman

Um Herói nunca morre!

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As Origens
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