FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA



 

Relatos de Guerra III

 

OS 17 DE ABETAIA!

...Ficamos onde estávamos. A noite, atrás das linhas, silenciosamente, fez-se a chamada geral. Computaram-se as baixas! Reajustaram-se os efetivos, deu-se o balanço da jornada. Numa Companhia, dezessete homens de um Pelotão não responderam. No laconismo militar da parte de combate, um major pode ler, no seu PC, a observação do tenente. Desaparecidos em ação! Com os primeiros albores da primavera, num certo dia de Fevereiro, eis que vem o tão desejado dia da revanche. E, irresistível, o 1º RI pôde, enfim, esmagar, uma por uma, as famosas casamatas do Castello. ... Sai agora, em campo, o Reverendo Sorren, com seus voluntários, em piedosa missão: recolher, identificar e dar sepultura cristã, em cemitério brasileiro, aos cadáveres insepultos dos bravos, que haviam tombado na tentativa de Dezembro, semi conservados ainda pela neve. Humanitário, empolgado de fé, Sorren e seus companheiros não temem os perigosos campos minados, que os caça-minas não haviam terminado de levantar. Depois de recolhidos vários de nossos bravos, Sorren transfere a pesquisa para os lados de C. Viteline e Cá Cá e, diante do fatídico corredor que flanqueava o Castello, a seus olhos se depara um quadro de surpreendente e tétrica "alegoria das armas": em torno à casamata, reduto de Abetaia, em formação semi-circular de combate e num campo aberto, a uma vintena de metros das seteiras, jaziam 17 cadáveres de brasileiros, hirsutos, agressivos... colhidos por traiçoeira ceifa de morte, no momento em que o assalto final coroaria o cumprimento da sua difícil missão sobre Abetaia. Sorren aproxima-se e examina os cadáveres. Alguns comprimiam o gatilho que disparara o último tiro e outros tinham nas mãos cerradas a granada, já sem grampo de segurança, que não chegara a partir e que só a rigidez cadavérica dos dedos comprimidos sobre a cauda do capacete, impedia de explodir. A frente de todos, épico, personificação do verdadeiro chefe graduado, que lhes comandara o último lanço, a boca ainda aberta de derradeira voz de comando, o braço em riste a apontar o objetivo e a execução do assalto: Era o corpo do 3º Sargento LUIZ RODRIGUES FILHO, da 4ª Cia., batalhão do major Syzeno. Estavam ali os 17 desaparecidos em ação, daquele malogrado ataque de dezembro e cujos nomes, em fim de jornada e à vacilante luz de uma vela discreta, um major, no seu PC, examinava silenciosamente, através do laconismo militar de uma parte de combate... HONRA E GLÓRIA ETERNAS AOS 17 DE ABETAIA!

"De São João Del Rei ao Vale do Pó"
1º Ten. Gentil Palhares


Estava deitado na relva molhada, quando surgiu a primeira réstia de luz na madrugada fria. Ocupávamos posições aqui, à direita e a uns trezentos metros à retaguarda de Bombiana. Havia, pela área, centenas de homens esparramados por entre as colinas escalvadas. Alguns, menos afortunados e sem outra alternativa, tiveram que se abrigar das vistas inimigas apenas estendidos na lama. Os soldados encharcados, sujos de barro, tiritantes de frio, sentiam o regelo. Era o alvorecer do dia doze. Condições atmosféricas más, inteiramente desfavoráveis. Chovera torrencialmente durante a noite. Agora, uma forte garoa acompanhada de espessa neblina restringia, ao mínimo, a visibilidade. Tornava-se quase impossível aos observadores avançados o enquadramento dos tiros de artilharia, grave contratempo que afastava a possibilidade de apoio aéreo. Objetivando prosseguir novo esforço ofensivo, o último do outono, o comando da Divisão organizara forte agrupamento de ataque, embora sabendo que os alemães haviam reforçado consideravelmente suas defesas. Dentro em pouco, manhã bem cedo, batalhões de pracinhas desceriam as barrancas do Monte Dell'Oro, Bombiana e Guanella, com ganas de arrancar ao inimigo o poderoso baluarte que contemplo. Os soldados, naquele amanhecer frígido e cinzento de dezembro, sentiam, sem que lhes dissessem, que aquele ataque representava o último esforço para a conquista do monte. Numa semana, a neve cobriria as montanhas e os caminhos. Frustrada a arremetida, outra oportunidade somente surgiria quando chegasse a primavera. Ah, sim, foi um dia longo aquele! Dali, num escalão de reserva, ficamos, por horas intermináveis, a ouvir o pesado e incessante troar da artilharia. Granadas sem conta a explodirem sobre os alvos. Subiam altos rolos de fumaça negra, assumindo formas estranhas, semelhantes a disformes e gigantescos cogumelos. Esparramando-se a seguir, lenta e lentamente, pelos bordos das colinas. Um manto de névoa acinzentada cobria o vale. Velhos casarões de pedra ruíam como frágeis pirâmides de cartas. O impacto das granadas nos telhados produziam sons esquisitos. "Iguais ao estalido de nozes partidas", diz comentando, fascinado, o sargento Randi, ao ouvir o "ra-ta-tá", fininho e compassado das metralhadoras. Vejo soldados caminhando, vagarosamente, pela estradinha, enchafurdando os coturnos na lama. Quase sempre padioleiros conduzindo feridos. Aqui, no local da casa que já não existe, transferiram as pesadas macas, respingadas de sangue, para os jipes. Logo partiam, curveteando rápidos estrada abaixo em direção ao posto de ambulâncias. Ficava perto, nos arredores de Silla. Havia muitos feridos; alguns morreram a caminho do hospital. Outros, antes de aqui chegarem. O número de baixas era grande. A maioria delas em Abetaia - informaram um dos padioleiros. Soubemos depois: só de uma vez dezessete morreram à entrada de povoado sob uma cerca de arame farpado, que não puderam ultrapassar. Perto do meio-dia chegou, embora desanimador, o primeiro informe da luta, um tanto vago e confuso. Falhara a terceira sortida contra o Castello! Os nossos batalhões não haviam conseguido quebrar a resistência inimiga. Achavam-se agora detidos, colados ao terreno, segados pelo fogo das armas-automáticas que disparavam de Mazzancana, Fornacce, Abetaia e região a NE de C. Viteline. Fogo de revés. Pior ainda que o das "lurdinhas" e do temido "88"! Em todos os escalões de ataque fora atingida apenas a região de Falfare, à direita de Abetaia e à frente de Monte Dell'Oro. Conheci-a bem. Nos dias anteriores a este fracassado ataque, comandei-o com meus homens, sediado o pelotão naquelas alturas. Era uma área sem importância, praticamente desguarnecida. Os dias que ali passamos foram os mais tranqüilos que vivemos no front. As demais ações, segundo o informe, conseguiram apenas um sucesso relativo. Assim, em toda a linha. O inimigo, abrigado em casamatas de concreto, quando sofria investida, reagia violentamente, com o fogo nutrido e certeiro de suas metralhadoras. Só de uma vez tombaram, entre mortos e feridos, cinqüenta e dois pracinhas. Dentre eles alguns oficiais, incluindo o capitão comandante da Companhia atacante. No meio da tarde, chegaram notícias de que a reserva acionada não conseguira rearticular-se satisfatoriamente. Àquela hora, três da tarde, muito cedo, já começavam a surgir os primeiros indícios do anoitecer. Escurecia rapidamente no inverno, ainda mais com o céu nublado, prometendo novas chuvas. Os soldados impressionavam mal. Barbudos. Uniformes salpicados de lama. Olhos cansados. Faces maceradas. Galochas barrentas. Frustrados, como todos, sofriam a amargura do revés em silêncio. O Capitão Faria, sem uma palavra, com o semblante de quem está preocupado, mas sem revelar suas aflições, retirou-se logo após as más notícias. Saiu, agachado, deslocando-se aos escorregões na relva lisa, na direção de um magote de soldados, na outra extremidade da colina. Lembro-me que, do local onde me encontro, à direita do caminho e a uns trinta ou quarenta passadas da estrada, voltado de frente para as casas, havia, uma pequena elevação, um velho cruzeiro de ferro, mutilado. Alongo o olhar e o procuro em vão. Sumiu. Quem saberá contar quando e como aconteceu? Foi certamente por ocasião de um dos bombardeios que destroçaram a casa e revolveram a terra. Lembro que àquela hora, já no lusco-fusco, o bombardeio acalmara para os lados de Bombiana, Abetaia e Guanella. O inimigo, pressentindo a movimentação da reserva, direcionara o fogo contra nós. Agora estrugiam as bombas entre a cruz de ferro e as casas. Caíam de chofre, esguichando lama, com chiado seco. Urgia sair dali, arrancar depressa com o pelotão. O sargento orientador percebeu que havia uma pausa entre cada rajada. - "É a única possibilidade que temos de sair ilesos" - disse. Entre duas rajadas, contei um intervalo de vinte segundos. Tempo escasso, porém suficiente para atravessar a estrada, com risco mínimo. - "Pouco. Não há outra saída. Nilo tem razão" - pensei. Gritei para os homens: - "Vocês todos! Atenção! Vamos atravessar a estrada correndo. Um lance apenas. Randi será o primeiro. Cabo Gil segue com o grupo. Sargento Fonteles depois. Sargento Saul por último. Quero todos com seus grupos. Entendido?" Fiz uma breve pausa. - "Agora ouçam. Prestem bem atenção. Vocês tem vinte segundos para atravessar. Saiam depressa. Correndo com vontade. Estiquem as canelas. Quem se atrasar leva a sobra. Ok?" Uma confusão de vozes respondeu que sim. Estouraram novas granadas junto ao barranco. Era hora de agir . Já! - exclamei gritando. Sargento Saul, antecipando-se aos demais despencou súbito acompanhando Randi. Seguiu-se Gil, com o primeiro grupo. Os homens escalaram, destemidos, o barranco. Saíram disparados. Atravessaram a estrada esbaforidos, pisando barro mole e pegajoso. Houve nova saraivada de bombas e outra pausa. Antes que caísse a última granada, sem hesitar, Fonteles repetiu o lance, atravessando a estrada. Todos se portaram bem. Chegou afinal, a minha vez, e também a do sargento Nilo com seus homens. Sob seu comando ali se encontravam os soldados Moreira, Santino, Joãozinho, Paulo, Albano, Pereira e o "Guará". Minha posição era precária. Eu me encontrava com o grupo de comando bem afastado da estrada. Teríamos de empreender um esforço redobrado para varar o caminho. O intervalo, exíguo demais. Alertei o pessoal: - "Cuidado com a distância. Prestem atenção! Quando eu sair, quero todos comigo!" Mal sucedeu um interregno e a última granada caiu, desandei a correr. A cada passo, meus galochões afundavam colando no barro mole e pegajoso. Antes que chegasse ao abrigo, num alpendre junto ao celeiro, os tiros recomeçaram, batendo o caminho com pontaria certeira. Repicavam na lama, desta vez mais distantes da cruz. De súbito, ouviram-se gritos lancinantes por entre o estrondo das bombas. O sargento Randi apontou excitado para dois vultos indistintos que estrebuchavam, arrastando-se na lama. Esbaforido, olho para trás. - "Estão feridos, tenente!" - exclamou com voz sumida. Num lance, fui ao encontro deles. Eram Albano e Moreira. Enchafurdados, rangiam os dentes, alterando gemidos e gritos. O primeiro sangrava na fronte. O outro queixava-se. Um estilhaço o atingira nas pernas. Ali mesmo foram socorridos e rapidamente levados ao hospital. Do Albano, nunca mais tive notícias. O Moreira, ferido levemente, retornou ao pelotão alguns dias mais tarde. O celeiro e a casa grande estavam repletos. Havia muita gente. Preferi o alpendre, apesar da garoa trazida por um vento gelado que soprava leve ao Norte. Os rombos existentes no telhado e nas paredes eram compensados pelo feno depositado em abundância. O capim seco forneceria mais calor e conforto que na casa grande. Ali também se encontravam elementos da artilharia e do batalhão de saúde. Havia mais lugar numa varanda espaçosa. Tarde da noite entrei na casa grande. Há muito cessara o bombardeio. Cheguei a tempo de alcançar o rancho. O recinto mostrava-se apinhado de gente. Promíscuo e mal iluminado. O ambiente tenso. Pessoal de semblante fechado, de comentários amargos. Sensação indefinível de angústia. Major Cândido, o comandante do batalhão, irado, cuspia palavrões, ouvido por um auditório perplexo e inconformado com o inesperado revés. O front emudecera. Apenas, vez por outra, ouviam-se tiros isolados de armas leves. Estirei-me no assoalho debaixo da mesa. Sobre ela deitara-se o capitão Faria. Não me aborreci com amargos pensamentos. Dormi logo, cansado como estava.

"35 Anos Depois da Guerra"
Agostinho José Rodrigues

Emprego de Patrulhas

O acionamento de patrulhas numa situação defensiva é uma questão puramente de rotina. No caso em apreço, entretanto, em que a Divisão não tinha vistas para o interior das posições inimigas, salvo face à Torre di Nerone e Bombiana, nem as FAE podiam cobrir-lhe, a contento, essa deficiência, as suas atividades se impuseram, tornando-se elementos indispensáveis à sua segurança, cabendo-lhes a realização de vigorosos golpes de sonda no dispositivo inimigo, tendo por fim definir-lhe o contorno, avaliar-lhe as possibilidades e acompanhar-lhe os movimentos, posto que não era possível agir de outra forma. Embora de pequeno porte em média, um CC reforçado por alguns "partigiani" conhecedores da região e de reduzido raio de ação, contudo, fortemente armadas de fuzis metralhadores, metralhadoras de mão e granadas, além de disporem de telefones e rádios portáteis para ligação com a retaguarda, representaram relevante papel, nesta fase das operações, em que a segurança do dispositivo repousava, essencialmente, no desempenho fiel das suas missões, por natureza perigosas e difíceis, exigindo dos patrulhadores qualidades acentuadas de inteligência, coragem, argúcia e sangue frio. Não fosse um certo dinamismo que emprestavam à defesa, teria esta ficado ao sabor da astúcia do inimigo, que, de um momento para outro, poderia surpreendê-la, como fizera no vale do Serchio, com os norte-americanos, por ocasião do Natal. Temendo tais surpresas, procurou a Divisão intensificar a ação das patrulhas, chegando ao ponto de, em alguns casos, lançá-las mesmo durante o dia, a despeito das ponderações dos executantes, que nem sempre estavam à altura de compreender o alcance dessas medidas, quase sempre tidas como extravagâncias perfeitamente dispensáveis. No,.cumprimento das suas missões desempenharam duas funções bem distintas: uma, de sonda a serviço dos próprios encargos; outra, de escola prática, que muito contribuiu para reabilitar o combatente, cujo ânimo havia sofrido bastante com os sucessivos reveses frente ao M. Castello. Infiltrando-se nas posições inimigas, ao preço de surpresas e audácias, armando ciladas, combatendo, o homem foi se reeducando e aprimorando os seus conhecimentos para as lutas futuras. Quando, em fevereiro, a Divisão reiniciou as operações, já não era aquele soldado tímido, vacilante, inexperiente, das primeiras jornadas, que ia enfrentar o alemão, mas o verdadeiro combatente, confiante nos seus recursos e nas suas possibilidades, prudente e experimentado, capaz de vencer, conscientemente, as mais complicadas situações que se lhe apresentassem no decurso do combate. Entre centenas de casos que poderíamos narrar para mostrar, ao vivo, o que foi a história das patrulhas, sua importância e finalidade no quadro da defesa, sua maneira peculiar de combater e as lutas que travaram pela sua própria sobrevivência, citaremos os que se seguem. São narrativas curtas e simples, mas profundamente instrutivas e empolgantes, pois, nelas só encontramos exemplos de capacidade, abnegação, coragem e iniciativa, que muito dignificam e valorizam o soldado brasileiro. Cruzando, em silêncio, a "terra de ninguém", ao encontro de um inimigo que a todos impunha respeito e temor, as patrulhas cobriram-se de glórias, enriquecendo e dando expressão a uma das mais belas páginas da história da Força Expedicionária Brasileira, na II Grande Guerra. Desde o Tenente Comandante ao mais humilde dos soldados todos, sem exceção, portaram-se com tanto desassombro, que ninguém poderá negar-lhes as homenagens que bem merecem, como legítimos representantes de um povo que, não obstante seu temperamento pacífico e ordeiro, soube sempre lutar e sacrificar-se, nos momentos oportunos, na defesa dos seus elevados interesses. Ao difundirmos estas imperecíveis lições, volvemos nosso pensamento diretamente para os jovens, os quais convidamos a meditar sobre a têmpera destes bravos soldados.

"O Brasil na Segunda Grande Guerra"
Manoel Thomaz Castello Branco

Baldados os esforços do ataque de 12 de Dezembro o segundo escalão da FEB não mais tentou galgar o Monte Castello, isto porque o inverno agravara-se horrivelmente. A neve aumentava de forma nunca vista, impedindo os movimentos, dificultando os transportes. Seria inútil, ineficiente uma reprodução do feito passado. Os alemães, por sua vez, não seriam capazes de um contra-ataque, pelos mesmos motivos que nos embaraçavam. Os dias corriam e a tropa, mantendo as posições dantes atingidas, vivia em constante vigilância, guarnecendo os terrenos, as localidades circunvizinhas ao reduto alemão. Dentro do "fox-hole" o pracinha experimentava uma vida de verdadeiro sofrimento físico. Embuçado na sua capa branca, cuja alvura tão bem se casava com a neve, ele se mantinha atento, vigilante, cônscio das responsabilidades que assumira. Qualquer descuido, a menor falta de atenção de sua parte, implicaria na perda de sua vida, na garantia dos demais companheiros que confiavam na sua guarda, enquanto repousavam. Tiritando de frio, as mãos enrijadas, ele procurava manter o controle dos nervos, o domínio de si mesmo. O dever a isso o impunha e era uma luta dupla: o "boche" sanguinário e astuto, de par com o clima adverso, congelando, matando... Filho de um país tropical, onde o inverno é ameno e o forasteiro facilmente se lhe adapta, o pracinha do Brasil foi encontrar, no frio europeu, um outro inimigo mais poderoso do que o alemão, porque se achava em todo lugar. A neve surgiu em definitivo! Já não polvilhava branda e rala, aqui e ali: caia aos montes, numa chuva nunca jamais por nós assistida. A tropa ficou alarmada; o pracinha não conhecia aquilo e se pôs a pensar quão maravilhoso é o Brasil, quão magnífica é a Terra de Santa Cruz. E a neve caía como se fossem milhares de pétalas brancas aspergidas a esmo, rodopiando no ar e embranquecendo tudo! As árvores, os campos, as casas, os veículos, as estradas, era tudo alvinitente, belo, um quadro admirável a nossos olhos curiosos, embevecidos na contemplação da paisagem estranha. Mas, ao lado do cenário majestoso estava também, como que oculto em belezas tantas, num colorido diferente, o espetáculo dantesco da morte rondando o acampamento naquele frio que, num crescendo assustador, mutilava e roubava vidas. Muitos dos nossos soldados pereceram vítimas do congelamento, da gangrena fatal. As estradas ficaram intransitáveis e foi necessário o emprego de máquinas de desobstrução, possantes e sob o manejo dos americanos. Os italianos, nessa ocasião,  trocam a lavoura pelas lareiras, vivendo do produto da estação anterior. Enquanto isso, nos Apeninos, os brasileiros, filhos deste país salubérrimo e de clima tropical, rastejavam no tapete alvo, agasalhados dos pés à cabeça, enfrentando, com indescritível estoicismo, aquele espantalho, aquele fenômeno que a natureza pródiga poupou ao nosso Brasil: A NEVE! No "front" sucedeu o mesmo que em 914. Os soldados mais predispostos viram-se atacados de "pés de trincheira", conseqüência da má circulação do sangue provocada pelo frio. O "pé de trincheira" caracteriza-se pela cor avermelhada da parte afetada que, arroxeando-se depois e tornando-se dolorosa, termina quase sempre em gangrena. Em muitos casos é inevitável a amputação da parte ofendida. "Pé de trincheira" foi uma "arma" terrível que a natureza nos reservou, impiedosamente, na campanha da Europa. Apenas tínhamos um consolo: tanto dava em nossos homens, como no sangue "puro" dos alemães. E calculávamos mesmo, que eles, os tedescos, sofriam mais, pois, estabilizados no Monte Castello, onde a neve era mais intensa, enfrentavam o frio dentro das gélidas casamatas. Os dias corriam e os tedescos cada vez mais se aferravam aos Montes Castello e Belvedere, enquanto que nós, brasileiros, americanos e ingleses, permanecíamos nas imediações dos dois redutos, vigiando a fera na toca. A neve era um obstáculo, tanto para nós como para o inimigo . O inverno estava na sua fase culminante. Os soldados que se achavam mais à retaguarda, ocupando prédios, prontos para uma situação de apoio, cobriam-se com 8 cobertores e dormiam completamente vestidos. Os que se achavam nos "fox-holes" (abrigos), em posição de combate, eram rendidos de duas em duas horas e só Deus sabe como saiam do abrigo, onde a neve Ihes chegava aos joelhos. Aquele que se via atacado de "pé de trincheira" já saía carregado, visto ser impossível tocar os pés no chão. A água, para ser bebida, tinha que ir ao fogo, e, já não a colocávamos mais nos cantis, em virtude da sua transformação ao estado sólido. As torneiras, só funcionavam, depois de receberem umas boas "chuchadas". Os veículos, pela manhã, só conseguiam entrar em movimento com o recurso do descongelante, do contrário, "empacavam". Após a neve, que em fevereiro começa a desaparecer, veio o degelo e, em seguida a este, as estradas lamacentas, o barro visguento, a lama fétida e malsã, os caminhos intransitáveis... Enquanto tudo isso se dava, enquanto sofríamos a hostilidade do clima em que nos batíamos, a "5ª coluna" no Brasil espalhava boatos alarmantes e dizia, astuciosamente, que nós brasileiros não resistiríamos ao inverno da Itália. Empregando, entretanto todas as nossas reservas físicas, ali estávamos, suportando cheios de coragem o inimigo e o clima, sem esmorecimento, confiantes na vitória que não estava longe.

"De São João Del Rei ao Vale do Pó"
1º Ten. Gentil Palhares

Em dezembro de quarenta e quatro, o panorama que se descortina aos nossos olhos era bem diferente. Estávamos na estação das chuvas. Chovia sempre. Chuvaradas intermitentes e diárias. Um céu sempre escuro, com as folhas dos castanheiros tapetando o terreno encharcado e desnudo, tornava sombria a paisagem. Renques de árvores acompanhavam o caminho estreito e lamacento que passava por Cá di Bombiana, Monte Dell'Oro e Columbura. Uma estradinha incrivelmente perigosa seguindo sempre pelo topo. Descendo a encosta íngreme, na direção do inimigo, uma floresta de castanheiros estendia-se pelo fundo do vale, encobrindo um riacho que corria insinuando-se por entre as árvores. Para além da planície, onde abundavam os terrenos da lavoura, erguia-se ameaçador o Monte Della Caselina, escalvado e cinzento, parecendo mais imponente que Monte Castello. A esquerda, via-se o casario branco e bombardeado de Abetaia e a Rota 64, meio encoberta pelo nevoeiro que descia pelo flanco escarpado do Castello. A galharada desnuda dos castanheiros e a folhagem morta que tapetava o chão até Falfare, no fundo do vale, junto ao rio, lembrava, por entre a tristeza da chuva, o fim melancólico do outono. Era uma região erma e desolada. Em toda a extensão da frente desde Ca M. de Bombiana a Columbura, havia apenas uma habitação. Um sobrado de dois pavimentos, construído de pedra rústica, num ângulo morto, à meia encosta do morro. No andar térreo, a cozinha grande, com a lareira tisnada de fuligem, sempre acesa e dois outros compartimentos; um utilizado pelos telefonistas e mensageiros da transmissões; o outro, pelos padioleiros, motoristas e demais elementos do pelotão de comando. No superior, dormitórios com cama de ferro sem colchões. Era o alojamento dos oficiais da companhia. Nele, agregado, um capitão inglês, retraído e caladão, observador avançado de artilharia, um cabo e dois soldados sul-africanos, que o acompanhavam. Chegamos em Monte Dell'Oro sob forte aguaceiro. Dava pena ver os soldados molhados, com os uniformes enlameados. Pareciam pintos encolhidos na chuva. Logo que chegaram subiram apressados a encosta lisa como sabão, procurando abrigo na casa. Esta frente era sabidamente de pouca ou nenhuma importância militar, por se encontrar ao longo da Rota 64. O inimigo, àquela altura da guerra, não tinha o menor interesse em empregar tropas indispensáveis em outro setor. Menos ainda de consumir munição, já que por falta de gasolina começava a usar muares para seu transporte. Havia, segundo nos informaram, um problema sério a enfrentar todas as manhãs. Eram os refugiados que, conduzidos por guerrilheiros, amanheciam defronte às posições, devendo ser escoltados até Bombiana, para identificação e interrogatório. Havia a possibilidade de encontrarem-se entre eles, espiões. De fato, isso aconteceu segundo cheguei a saber mais tarde. Um deles, identificado no posto de inteligência militar como espião, veio a ser fuzilado. Foi a notícia que correu. Não sei se verídica. Uma tarde, o sargento Randi, quando regressava de uma patrulha de reconhecimento, sentiu um cheiro forte de coisa podre. Havia ali, a poucos metros, um fortim abandonado. Logo encontrou morto, estendido numa poça d'água, beirando a estradinha, um velho cabo alemão. Sargento Saul encarregou-se da piedosa missão. No local, deu-lhe sepultura. Providenciou, depois, uma cruz, que fincou na terra e depositando nela o capacete de aço do morto. Nunca esqueci aquele cheiro de defunto apodrecido. O corpo boiando na poça d'água, retesado e descalço. Quem o teria despojado de suas botas ferradas? Os dedos dos pés descarnados surgindo por entre as meias rotas. Faces murchas, órbitas fundas e negras. Boca aberta servindo de pasto às formigas. O corpo coberto de moscas repelentes. Tinha entre as mãos, que apertou nas vacas da agonia, um pequeno retrato. Mãe, esposa, noiva? Quem seria? Não deu para ver. Estava poída. Ficara assim, tantos dias exposta à chuva! Passamos apenas quinze dias em Monte Dell'Oro. Foi o período mais tranqüilo que vivi em campanha. Teria sido melhor, não fosse a falta que me faziam as galochas e a disenteria que continuava abrindo claros nas fileiras. Era rara a atividade da artilharia no setor. Havia, apenas, a saída diária de patrulhas, geralmente à noite, à região de Falfare. Algumas vezes ultrapassavam o rio, reconhecendo o vale. Os alemães faziam o mesmo. Certa ocasião, duas patrulhas se chocaram e houve um entrevero rápido e violento à arma branca. Primeiro caso de que se teve notícia naquele front. Os alemães usavam roupas semelhantes a ponches coloridos, de matizes que lembravam a folhagem seca dos castanheiros, com grandes listras amarelas e estreitas listras verdes sinuosas. Camuflados, à espreita no bosque, surpreenderam alguns dos nossos homens que regressavam de missão de patrulha. Um deles, o soldado Eugênio Alves da Silva, catarinense de Porto União, veio a morrer com um pontaço de baioneta. Antes de tombar, mortalmente ferido, espetou um inimigo e rachou o crânio de outro com uma terrível coronhada. Num relance, a patrulha alemã sumiu por entre os castanheiros transportando seus feridos. O corpo do nosso valente pracinha foi recolhido mais tarde. A vigilância noturna das sentinelas, entrincheiradas, era severa e implacável. Numa frente tão extensa para o diminuto efetivo de três pelotões, havia grande facilidade de infiltração inimiga ou de espiões. Para diminuir a brecha, foi necessário usar, como reforço, o pelotão de comando.

"35 Anos Depois da Guerra"
Agostinho José Rodrigues

Quando o cabo Valério se apresentou, o Capitão Matos lhe inquiriu de maneira atenciosa, demonstrando interesse: "Disseram que você está doente. Por que não ficou no posto de saúde, rapaz?" "Sim, estou com febre, capitão!", confirmou o cabo, "mas o médico não considerou tão grave... posso ser mantido fora do hospital..." O capitão, após uma rápida consideração sobre a situação de saúde do cabo, falou: "Vejo que, efetivamente, você está um tanto baqueado... Não precisa ir para as posições dos fox-holes, por ora. Acomode-se aí no porão e procure dar uma ajuda ao telefonista... E trate de se cuidar!.." Antes de concluir já estava distanciado, deslocando-se para os pontos diversos da frente. Esta era a maneira de ser do capitão Matos, esperto e despachado. Decidia rapidamente o que deveria ser decidido; incisivo e sem rodeios, em suas decisões. Falava alto e claro, indo direto aos assuntos. Possuía aquelas qualidades indispensáveis para um comandante de homens na guerra: presença constante, energia e firmeza de atitudes. Estava sempre em todos os lugares que se fizesse necessária a sua presença. No fracassado ataque a Monte Castelo, os homens por ele comandados, foram os únicos a cumprir a fase inicial de sua missão, ocupando, num avanço bem sucedido, sem maiores sacrifícios de vidas, a região de Falfare, na cota 812, após neutralizarem um ponto de resistência inimiga. Entretanto, o êxito ali alcançado, não só deixou de ser percebido, como também foi anulado, em conseqüência do fracasso em outras frentes. Com isto teve também que retroceder para as posições que anteriormente ocupava, na Casa M di Bombiana. Se sob determinados aspectos, o capitão Matos assumia atitudes imprudentes, com relação à sua pessoa, o que poderia parecer contra-indicado a um comandante de tropas, onde a camuflagem, o silêncio e as cautelas devem ser mantidos, em todos os movimentos, sob outros aspectos, tais atitudes traziam seus benefícios. Expondo-se, muitas vezes, desnecessariamente, a andar despreocupado e falando alto, nas lombadas dos morros, o que sem dúvida atraía mais granadas dos morteiros alemães sobre as posições da companhia, contribuía também e muito para soerguer a moral da tropa, bastante combalida, em conseqüência dos insucessos e vexames sofridos. As despreocupações pessoais do comandante transmitiam ânimo e entusiasmo a todos. A reabilitação dos soldados fazia-se notável, não apenas, individualmente, em cada homem, mas também no conjunto. Todos se mostravam mais animados, dispostos e confiantes, malgrado as condições daquela frente fossem das mais precárias e difíceis de serem suportadas. A toda hora o capitão Matos era visto percorrendo as posições e inteirando-se de tudo em todos os pontos ocupados pelos seus soldados. Desenvolvia uma extraordinária atividade. Revia a localização dos abrigos, visando o melhor aproveitamento dos tiros; conversava, como amigo, atentamente com os homens, mirando-os com franqueza no rosto, mas sem constrangê-los; ouvia os relatos das observações feitas e de tudo que ali tivesse ocorrido; vistoriava as armas e as munições, orientando e corrigindo as falhas. O local que menos permanecia era em seu posto de comando, no porão da casa montanhesa, embora este se localizasse a poucos metros do alinhamento dos fox-holes mais avançados. Além da casa, no alto da elevação havia uma grande meda de feno, alta, em forma de cone, bem característica da paisagem campestre da Europa. O capitão Matos fez abrir, partindo da saída de seu posto de comando, uma valeta, não muito profunda, até ao centro do monte de feno. em condições de poder penetrar nele por baixo; depois bloqueou-o por dentro, deixando um espaço oco de mais de metro de diâmetro. O feno, rente ao chão, foi afastado, abrindo-se, na parede uma pequena janela ou seteira, na direção de Monte Castelo e Abetaia. Estava ali um excelente observatório, bem simulado e abrangendo, em largura e profundidade, uma vasta frente do território ocupado pelo inimigo. Uma linha telefônica foi estabelecida entre o observatório e o posto de comando; as observações eram efetuadas pelos sargentos, à luz do dia, munidos de binóculos e com revezamentos periódicos. Uma manhã, o capitão Matos chegou no observatório, imprevisivelmente, como sempre chegava em todas as partes, e encontrou o sargento Francisco Mendonça, em sua hora de observador, fumando tranqüilo e displicentemente; mandou substituí-lo de imediato. dizendo-lhe: "Rapaz, você não tem condições de ser sargento. Está rebaixado a soldado. Reúna as suas coisas e deixe esta companhia. Vá para a retaguarda! Quero, aqui, comigo, homens com quem eu possa contar!" Aquela punição, aplicada de forma tão rígida, pareceu a muitos excessivamente severa e desmoralizante demais para o companheiro sargento. Não resta dúvida que a segurança da companhia, durante o dia, dependia, primordialmente, do observador. Este teria que estar vigilante e atento, em sua hora de serviço. Contudo, aquela espécie de afastamento, tão humilhante, de Francisco Mendonça, foi lamentado por muitos, pois em situações diversas dera ele provas de lealdade e de coragem. Era um mulatinho ativo, sagaz e benquisto pelos que o conheciam. Mas outros fatos, do cotidiano da guerra, contribuíram para que o desagradável incidente fosse logo esquecido. Uma coisa, entretanto, ficou bem claro: o comandante era imprudente consigo próprio, mas não permitia que seus homens o fossem no que se relacionava à segurança de todos. O frio, a umidade e os bombardeios, prosseguiam aumentando sempre e paralelamente. Os indícios das grandes nevadas, começavam a se fazer sentir. O sol raríssimas vezes se mostrava, assim mesmo pálido e fosco pelas nuvens, os dias chegavam a se confundir com as noites, tão sombrios pareciam, tão bruscos e não raro com a presença de chuvinhas finas e frias, empurradas que vinham pelos ventos do norte, ora os estilhaços e ora os "pés de trincheira" , com os arroxeados sintomas de gangrena, derrubavam um ou outro, abrindo claros nos efetivos da tropa. Os abrigos eram tão lamacentos, úmidos e sujos, que nem os insetos neles faziam morada; neles nem as muquiranas habitavam. 0 feno, trazido às braçadas para forrar o fundo dos abrigos, não demorava a se misturar numa pasta de lama, da qual se desprendiam as emanações e o mau cheiro de coisas podres. Dias e dias, noites e noites ficava-se ali enfiado naquele buraco infernal, sem nenhuma perspectiva de coisa melhores. Os americanos haviam distribuídos luvas de lã e couro, que abrigavam bem as mãos e, os ingleses colaboraram com os grossos casacões de lã, sobra e saldo de outras campanhas, os quais, em parte, resguardavam bem, embora já se tornassem insuficientes face ao frio e a umidade que se intensificavam. Uma madrugada o capitão Matos retornou ao seu posto de comando, após haver percorrido, como habitualmente fazia, os abrigos e posições de combate. Voltou menos espalhafatoso, mais quieto que de costume. Retirou as luvas e começou a esfregar as mãos, andando de um lado para outro, debatendo-se com alguma preocupação. Meditava. Era visível - podia-se perceber - a inquietação do comandante quanto ao estado de penúria e de sofrimento da tropa. Matos ia e vinha, ao redor do posto, andando com as mãos seguradas para trás e de corpo arqueado, como que vencido pelos problemas e dificuldades com que se deparava. Olhava o chão de cabeça baixa. Em dado momento parou, ergueu o rosto mais animado e falou: "O frio está bravo! Só uma cachaça pode ajudar a suportar isto!" Ato contínuo apanhou o fone e comunicou-se com a cozinha instalada na retaguarda, nas imediações de Silla. Ao ser atendido, avisou: "É o capitão Matos. Chame o sargento Souza". Já, naquela ocasião, até mesmo o pessoal da retaguarda, desligado dos problemas da frente, sabia, através dos comentários dos motoristas, das decisões seguras do comandante Matos. E, obviamente, dispensava o maior respeito e acatamento às suas ordens. Tão logo o sargento Souza, chefe da cozinha, atendeu doutro lado da linha, o capitão Matos determinou-lhe com naturalidade e firmeza: "Hoje, à noite, quando você mandar a comida, mande também um pouco de cachaça". A maneira direta e simples como o capitão determinara, dava a entender de que não haveria nenhuma dificuldade na obtenção da bebida. Uma coisa que era só pedir e vir. Entretanto, para o sargento Souza, aquela determinação causou-lhe um choque de surpresa, pois chegou a gaguejar quando respondeu, inquirindo, timidamente: "Capitão, como irei conseguir cachaça? Não é possível... não existe, capitão! O senhor sabe que nesta região..." Matos não o escutou; interrompendo as alegações e argumentos do sargento, aumentou as exigências: "Não mande daquela cachaça ruim, de bagaço de uva; mande daquela cachaça boa, que você conhece, de maçã!" No telefone, o sargento cozinheiro deveria estar desnorteado, confuso e parecia até implorar, numa tentativa de fazer com que o comandante compreendesse as impossibilidades em se conseguir cachaça, naquela época de começo de frio, com os americanos e ingleses a esvaziar os estoques das cantinas italianas. Reuniu e expôs um mundo de razões, na intenção de demolir o capitão nos seus propósitos. Este continuava aumentando as exigências e não permitiu que o cozinheiro lhe explicasse nada. Cortando-lhe a palavra, foi direto e incisivo: "Mande hoje, sem falta, um tambor de 200 litros da melhor cachaça, da de maçã. Da boa! Se a cachaça vier, você pode continuar aí no seu trabalho; se a cachaça não vier, venha você, com o seu fuzil. Venha ajudar os seus companheiros. O frio está cada vez mais forte. É só, Souza!" Desligou. A noite, a cachaça chegou. Junto com os marmitões térmicos de comida, o jipe trouxe um tambor de 200 litros da melhor cachaça, rescendendo ao bom aroma da maçã madura. Era de se ver o extremo cuidado e carinho com que o tambor foi descarregado e conduzido para um canto do porão, junto à parede, onde o comandante costumava estender a sua cama-casulo. E, à proporção que ia sendo distribuída a alimentação dos pelotões, o cabo Valério já restabelecido do resfriado confundido com tuberculose, percorria os fox-holes, rastejando ao longo do ângulo da montanha; no seu retorno trouxe uma cambuiada de cantis vazios. Adiantando-se, disse: "Pronto, capitão! Aqui estão os cantis... O capitão olhou para o cabo com uma expressão interrogativa: "Que negócio é esse, rapaz?..." Mas Valério não se embaraçou. Respondeu sem pestanejar: "Intuição, capitão. O senhor, por certo, não vai beber sozinho esses duzentos litros de cachaça?!..." Matos fez o que raramente fazia naquele local e naqueles dias feios e sombrios: sorriu. "Claro. Esta cachaça é para vocês mesmos, mas ninguém vai andar por aí de cantil cheio, bebendo à vontade. Até que não seria mau, com tanto frio e sujeira, mas não será possível. Vamos encher uns dois ou três cantis, somente." No decurso daquelas noites tenebrosas, sobre o alongado lombo da montanha, sempre varrido pelos ventos do norte, eram vistos os vultos do capitão Matos e do cabo Valério, aclareados pelo relampejar das bombas, rastejando na lama e sob a chuva, conduzindo aos companheiros os tão estimuladores cantis de cachaça. Da boa e cheirosa cachaça de maçã. Iam de abrigo em abrigo. Enquanto o cabo vigiava, o próprio capitão colocava o gargalo do cantil na boca do soldado, segurando-o pelo fundo, com firmeza, para que o cantil não se inclinasse demasiadamente. O soldado bebia, estalando a língua de satisfação. E o capitão recomendava-lhe, paternalmente: "Não entorne muito, meu filho! Beba devagar. Depois eu volto... tem mais." A figura do comandante ativo, enérgico e, ao mesmo tempo, compreensivo e amigo de seus comandados, crescia e se firmava na consciência daqueles homens sofredores. Para aquelas circunstâncias e para o estado de espírito em que se encontrava aquela tropa, não poderia haver comandante melhor. 

obs. Existiam, na frente brasileira, outras posições piores que as da Casa M di Bombiana, como as da região de Affrico, Torre de Nerone e outras, onde os efeitos do frio, em relação à posição dos abrigos, eram mais danosos, com maior sofrimento para os combatentes.

"Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira"
Leonércio Soares

As gravuras são de Carlos Scliar, copiadas de seu site http://www.carlosscliar.com.br/

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