FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

A OUTRA GUERRA DOS PRACINHAS DA FEB...


Canção do Expedicionário
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Os Brasileiros voltam a encontrar o Brasil...

Os pracinhas só sentiriam a realidade, quando deixassem as terras da Itália; quando a FEB se desligasse do V Exército Americano; quando eles voltassem outra vez, para a outra conquista, a do pão de cada dia... Não teriam mais aqueles agasalhos. Não teriam mais aqueles alimentos em quantidade e qualidade tais que mantiveram e até superaram as suas reservas físicas, apesar da pressão psicológica a que foram submetidos e do desgaste a que fora entregue a sua Divisão, na guerra contra a pertinácia do tedesco audaz, dominando as alturas em defensiva. Muitos e muitos teriam de voltar às favelas, aos mocambos, às taperas de taipa, de sopapo, às casas de sapê por estas terras a fora sem água, sem saneamento, sem luz elétrica, sem estradas, sem transportes, no domínio das moscas e dos mosquitos, depois daquela abundância de tudo e até dos banhos quentes e frios dos acampamentos americanos... Aqueles que voltaram, como eu, em navio brasileiro, experimentaram antes de pisar em terra Natal, a mudança do trato, do ambiente: vinham deitados pelo chão, nos corredores e convés do vapor. Os que mandaram o navio daqui, eram completamente "rombudos", em matéria de assistência e compreensão. Gente do Lóide, gente do Estado. Se fosse uma companhia de particulares, não teriam procedido assim. O que custava um simples toca-disco e um alto-falante? Alguns discos de música brasileira, mesmo pelo convés naqueles vinte dias de viagem (o dobro do transporte americano) por vezes expostos à chuva e às intempéries, seriam a recepção musical brasileira, um abraço fraterno e amigo. Mas não. As marmitas não eram mais nem lavadas direito, quanto mais esterilizadas, como no sistema americano. Faltou água para o banho. A comida má. Em pouco tempo, os desarranjos intestinais tomaram conta da tropa. Os jornais do Recife (primeiro porto nacional) testemunharam os protestos dos soldados, logo ao desembarque. Correu, porém, uma lista de assinaturas (que muitos firmaram sem maiores formalidades, pois eram comuns as tomadas de nomes como recordação dos camaradas), declarando a ótima qualidade dos alimentos. Como sempre, as realizações no papel... Mas, os soldados deste navio, compreenderam, talvez inconscientemente, a razão de ser do conforto que tiveram na Itália: quando o barco entrava no porto do Recife, quem nos saudou primeiro foi um grande transporte norte-americano. E o fez estridentemente com os ruídos dos seus apitos e os acenos entusiásticos dos seus marujos. Então, os pracinhas, por eles mesmos, de forma imprevista e espontânea, começaram a cantar o "Deus Salve a América!". Ouvi no 6º Regimento de Infantaria, o seguinte fato: um oficial superior americano fora visitar, devidamente acompanhado por outro oficial brasileiro, uma posição nossa em Torre de Nerone, de grande importância para todo o V Exército. Esta posição era constantemente visada pelo inimigo. O capitão (aliás muito popular no Regimento) aproveitara a presença momentânea de um superior, para se queixar dos reiterados atrasos das provisões, o que deixava os homens de sua companhia em situação difícil. Este capitão foi punido, mais ou menos sob o fundamento de se portar de forma inconveniente em presença de oficial superior estrangeiro. Entretanto, este mesmo "oficial superior estrangeiro" quando lhe estendeu a mão em despedida, referindo-se à sua reclamação lhe dissera o seguinte: "E' assim que se comanda, capitão!" Sim, porque os norte-americanos não desejavam arrastar consigo, uma divisão de subnutridos. E quando não encontram as coisas como eles desejam, dizem-no com aquela franqueza a que nós não estamos acostumados, como os seus médicos diziam com toda a naturalidade, aos comandantes de companhia, quando a situação higiênica não andava de acordo com as suas normas. É sempre aquele princípio: um homem se faz em vinte anos e uma máquina em vinte minutos. Estraguem-se as máquinas, poupem-se os homens.

José X. Góis de Andrade
Espírito da FEB e Espírito do "Caxias"
"Depoimento de Oficiais de Reserva sobre a FEB"


Na volta à pátria, a evidência das mudanças na cultura e costumes
do soldado brasileiro: em vez do guaraná, a coca-cola.
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A PÁTRIA A SEUS HERÓIS

O Oito de Maio de 1945 marcou o fim da guerra na Europa. Estava liquidado o poderio militar alemão, que Hitler levantara contra o mundo democrata e contra a Rússia comunista. Passou para a História como o "Dia da Vitória". O Brasil, pelos três ramos de suas Forças Armadas, havia colaborado ativamente para a vitória final. Em todos os setores, o nosso homem havia sabido corresponder à confiança de seus irmãos e de seus aliados. Escrevera, sem dúvida, mais uma página brilhante da história militar de nossa terra. Finda a guerra os heróis brasileiros regressaram à Pátria, que os recebeu em meio a grande júbilo, tributando-lhes sincera e merecida homenagem. Cada cidade nossa rendeu a seus filhos as honras devidas. Por toda a parte do país, ergueram-se monumentos aos soldados, marinheiros e aviadores que haviam prestado inestimável colaboração à vitória da liberdade sobre a tirania, elevando bem alto, no conceito dos outros povos, o nome do Brasil. Mas, nem todos os que participaram da luta haviam retornado. No Cemitério de Pistóia, na Itália, jaziam 443 mortos da FEB, número este que, somado ao de aviadores da FAB, elevava-se a cerca de 400. Lá, distante da Pátria, permaneceram seus restos mortais, olhados por uma cuidadosa guarda brasileira e cercados pelo carinho do povo italiano, agradecido aos nossos soldados, pela contribuição que esses haviam dado à libertação total de seu país. Aqui no Brasil, as famílias enlutadas choravam por seus entes queridos, sepultados fora do solo pátrio, aguardando a concretização da promessa que o Governo fizera de transladar aqueles restos mortais e depositá-los definitivamente num mausoléu, cuja grandeza estaria à altura do sacrifício daqueles bravos. Seus nomes ficariam nele gravados, em letras de ouro, para que a Nação, agradecida e orgulhosa, jamais lhes olvidasse a memória. Os anos se passaram e duas amargas queixas acompanharam aquelas famílias e os ex-combatentes de um modo geral. Os restos mortais de nossos pracinhas continuavam em Pistóia, já decorridos quinze anos do fim da guerra; por outro lado, muitos ex-combatentes vivos, particularmente alguns incapazes, viviam vida inglória, esquecidos, abandonados à sua sorte, como se, não tivessem sido heróis na luta pelos ideais de sua Pátria. Felizmente, em 1960, terminada a construção do belo monumento prometido, que se ergue no aterro da Glória, no Rio de Janeiro, já transformado o antigo Distrito Federal em Estado da Guanabara, para lá foram conduzidos carinhosamente os restos mortais de nossos irmãos, que jaziam na Itália, em cerimônia comovente, de que participaram o Governo, o povo brasileiro em geral, as famílias enlutadas, os ex-combatentes e muitas representações estrangeiras. Agora, sim, poderíamos dizer que os últimos, a que a Pátria tinha possibilidade de mandar buscar, já estavam entre nós. Uma queixa fora apagada. Só não haviam regressado os marinheiros que, por predestinação, tiveram o oceano por sepultura, os passageiros dos navios mercantes torpedeados que tiveram de aceitar também o mar por última morada e alguns soldados desaparecidos na Itália. Os que moram no mar têm seus nomes gravados para sempre no Monumento aos Heróis: é como se ali repousassem também. Os desaparecidos, a Pátria aguardará sempre o seu regresso... Resta reparar a segunda queixa. É mister que a Pátria saiba amparar aqueles seus filhos que um dia partiram para a guerra, vendendo saúde, e voltaram, mais cedo ou mais tarde, sãos, doentes ou mutilados, dignos da admiração e do respeito de nossa gente, e hoje, por desgraça, não mais se encontram em condições de lutar sozinhos pela vida. A Pátria não pode abandoná-los, a menos que, por outros atos, por demais indignos tenham desmerecido o nome de heróis.

"A Presença do Brasil na 2ª Guerra Mundial"
Raul Mattos A. Simões



Na Itália, buscando aquecer-se do frio
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VERGONHAS FINAIS

A recepção dos expedicionários, de volta ao Brasil, foi um acontecimento estrondoso, empolgante e colossal. Apoderou-se, irresistivelmente, das atenções de todos os brasileiros. Sobretudo, na cidade do Rio de Janeiro - então Capital da República -, onde essas coisas acontecem com maior entusiasmo e ênfase, a festa da chegada varou dias, bulindo com todo mundo e parecia não ter mais fim. O Exército, que permaneceu no Brasil, alinhou-se, formando cordões de isolamento, ao longo das avenidas, para conter o povo, em suas manifestações, diante dos heróis que desfilavam ao desembarcar. Através de todos os meios de comunicação da época, os feitos dos soldados brasileiros, em terras da Itália, eram descritos e exaltados. Juntando-se a essas exaltações patrióticas, ainda sob o calor das recepções, começou a aparecer um amontoado de vantagens a serem atribuídas aos ex-combatentes: iam ter direito a coisas que jamais sonharam - aos melhores empregos e vida boa, tranqüila. Todas as portas estariam abertas para eles... Mas tudo vago. Nada definido e claro. Promessas vãs, hipotéticas. E, não raro, meros engodos. Todos estes fatos - o estardalhaço das recepções e o anúncio das vantagens a serem concedidas - contribuíram para que fosse estabelecida uma idéia precipitada, momentânea e leviana, em torno dos feitos dos soldados e da importância da diminuta participação do Brasil, na guerra. Com isto, a maioria dos expedicionários, sobretudo os de espírito mais simples, convenceram-se, acreditando mais do que deveriam, em tudo que lhes acenavam e prometiam. Daí descuidarem-se da estabilidade do presente e da segurança do futuro, como se nada houvesse para se preocupar: eram heróis e estavam de retorno ao seio da Pátria. 


O retorno festejado
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Em contra-partida, em certas áreas, os ex-combatentes passaram a ser olhados como super-privilegiados, criando-se, em torno deles, um clima de má vontade, precauções e até antipatias, pois no terreno das competições representariam uma ameaça, a preterir direitos e posições pretendidas ou conquistadas por outrem. Agravando ainda mais a situação dos jovens que deveriam reingressar às atividades da paz, as autoridades civis e militares, incorreram em muitos descasos ou lapsos, altamente nocivos e lesivos aos interesses daqueles. Tanto assim é que não lhes concederam as férias (aliás em dobro) a que teriam direito, antes da desmobilização; e, não procederam a um novo exame de saúde, também antes de desmobilizá-los. Se para serem mandados à guerra foram submetidos a rigorosos exames físicos, como nunca se vira, anteriormente, no Brasil, através dos quais só eram selecionados os de categoria especial, como e por que não os examinar de novo, no retorno?! A guerra havia exigido daqueles rapazes despreparados e desinformados, sacrifícios enormes tanto de aspecto físico como emocional: foram atingidos por males e infecções; contraíram traumas e lesões os mais variados. Passadas as festas da vitória, os expedicionários permaneceram uns poucos dias, retidos nos quartéis. E, de súbito, viram-se espremidos na parede, diante de uma instrução do então Ministério da Guerra: "Pede reengajamento agora ou será desmobilizado". Uma resolução que não poderia ser tomada naquelas circunstâncias. A Força Expedicionária, constituída, como fora, em sua imensa maioria, de convocados do interior, fácil seria deduzir que estavam todos ansiosos para retornar aos seus lares. E, da mesma forma, deveriam estar sendo aguardados, ansiosamente, pelos seus familiares. Além do mais, sentiam-se desiludidos e amargurados; na guerra, sofreram mais que quaisquer outros soldados; foram submetidos a vexames e decepções que os indignaram, refletindo, esse sentimento de indignação, contra o próprio Exército. Em tais condições, não se sentiam animados a continuar na farda. Tinham, isto sim, muita pressa de retornar aos seus lares, rever a terra natal e a família. Estavam mortos de saudades de tantas, infinitas e pequeninas coisas, que só existem ou são melhores que em todos os outros locais do mundo, no torrão em que se nasceu. Queriam voltar para casa. E, como não lhes foram concedidas as férias, quando então teriam oportunidade de descansar e meditar sobre o que lhes convinha, permaneceram, indecisos, num curto período de ociosidade. A seguir, cumprindo-se a instrução do então Ministério da Guerra, deu-se a desmobilização em massa, de todos os expedicionários que deixaram de pedir reengajamento. A desmobilização atingiu não apenas os soldados, mas a quase totalidade dos graduados e dos oficiais de procedência civil. Milhares de veteranos de guerra, muitos enfermos, com ferimentos ainda mal cicatrizados, incapacitados física ou mentalmente para exercer quaisquer atividades, desorientados, zonzos e aturdidos, portando mazelas e seqüelas da guerra, viram-se, de um momento para outro, postos nas ruas, praças e estradas do Brasil. Em vez de serem tratados, instruídos e reabilitados, receberam, de supetão, a baixa. Até mesmo a passagem de regresso ao lar, deixou de ser fornecida a muitos deles. 


Os nossos soldados foram irresponsavelmente abandonados à própria sorte...
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No lar, o ex-combatente sentiu-se deslocado e acanhado, como um estranho, entre os seus próprios familiares. Estes não estavam preparados para recebê-lo, sobretudo as famílias mais humildes e pobres. Perturbavam-no, bombardeando-o com tantas e estúpidas perguntas, boquiabertos e impertinentes, cheios de curiosidade: queriam saber tudo sobre a guerra; queriam saber tudo sobre o País estrangeiro, onde estivera; queriam saber por que embarcou como soldado e por que voltou como soldado; queriam saber se guerreou, se matou muita gente, se foi herói e por que não foi promovido nem trouxe medalhas? Enchiam.lhe os ouvidos de perguntas estonteantes, às quais não havia como explicar... No final da guerra, muitos feridos foram transferidos dos hospitais da Itália para o Hospital Militar do Recife. Aí permaneceram algum tempo sem receberem as atenções e os tratamentos que necessitavam. Tão precária chegou a ser a situação deles, que insistiram em ter alta e serem mandados para casa. Daí a direção do hospital fez com que assinassem um termo de responsabilidade, pela atitude que haviam tomado. E os mandou embora. A concessão de condecorações dependia da conclusão de processo a tramitar na lenta burocracia militar. Quando, finalmente, a medalha era concedida, o agraciado já havia sido desmobilizado. E, embora os respectivos atos governamentais fossem publicados nos boletins das Armas e no DOU, nem sempre deles se tomava conhecimento. Quem lê DOU? Assim, até hoje, ainda permanecem retidas nas associações de ex-combatentes e no próprio Ministério do Exército, medalhas que jamais foram reclamadas ou chegaram às mãos dos agraciados - anônimos veteranos de guerra ou cadáveres deles. Os chamados praças (soldados, cabos e sargentos) foram, tremendamente, injustiçados, tanto na questão das condecorações quanto das promoções. O critério adotado para a concessão de condecorações aos praças, foi o mais falho e injusto que se possa imaginar: após cada combate, era atribuído um reduzido número de medalhas às unidades participantes. E a distribuição se fazia de acordo com o arbítrio dos comandantes de companhias e batalhões, sem sequer, muitas vezes, apurar e comprovar as ocorrências. Um processo era montado. Inventavam-se histórias, criavam-se circunstâncias e deturpavam-se os fatos, para que as condecorações fossem atribuídas conforme fora pré-estabelecido pelo comando, prevalecendo, não poucas vezes, a simpatia ou preferência pessoal. Se, para o sacrificado combatente, a obtenção de condecorações era penosa, difícil e imprevisível, já, por outro lado, houve distribuição de medalhas de guerra a pessoas que nunca saíram do Brasil, dentre estas secretárias de autoridades, comerciantes, industriais e até os "testas-de-ferro" das negociatas realizadas por ocasião da compra e fornecimento de materiais ordinários à FEB, como se as atividades de relapsos e corruptos representassem "esforço de guerra". Independentemente de todas essas coisas absurdas e inacreditáveis, houve ainda fraude, desvios, má fé e deturpação até na moldagem e aquisição das medalhas. As condecorações da FEB foram criadas pelo Decreto-Lei nº 6 795, de 17 de agosto de 1944 e, regulamentadas pelo Decreto nº 16 821, de 12 de outubro do mesmo ano, o qual estabeleceu que a medalha "Cruz de Combate", seria de prata dourada, ou seja, prata banhada a ouro. Do mesmo material seria a "Medalha de Guerra". Ocorre que, por um incrível descaramento de quem as fabricou e de quem as adquiriu para a FEB, as condecorações conferidas aos veteranos de guerra foram moldadas em metal barato, latão, sem nenhum valor. Até nisto os expedicionários e o Brasil foram lesados. Aqueles que, premidos pela necessidade, pretenderam trocar suas condecorações por uma hospedagem, por um prato de comida ou por uma simples média de café com pão, viram-se surpreendidos e decepcionados com a informação de que as suas medalhas douradas nada valiam! Assim, os praças foram logrados e espoliados quanto às condecorações. E mais logrados e espoliados foram naquilo que poderia proporcionar-lhes compensação pecuniária, pelos sacrifícios feitos, nas promoções. Os regulamentos militares são extremamente parcimoniosos, sovinas e não poucas vezes mesquinhos, na questão de promoção dos praças. Um sem número de soldados, cabos e sargentos, destacaram-se na guerra, atuando, no front, em posições superiores; foram citados e condecorados, por ação em combate, entretanto, retornaram às suas casas na mesmíssima mixuruca posição que embarcaram para a Itália. Uma injustiça desanimadora. São tantos e tantos os casos de sonegação de promoção dos praças, que nem comportaria citar nenhum nome, mas é impossível silenciar diante da incúria e da flagrante ofensa de direitos cometida contra o brioso e festejado herói da FEB - sargento Max Wolff Filho. O tempo todo Wolff exercera as funções de tenente (e, frise-se bem: de um tenente especial comandante de um pelotão especial, destinado às missões mais arriscadas e difíceis) e só o promoveram a 2ª tenente, após a sua morte, em ação. Se já exercia, de fato, as funções de tenente, a promoção que o País lhe devia e que ainda deve aos seus descendentes é, no mínimo, a de capitão. Incontáveis e gritantes foram as injustiças quanto ao direito de promoção dos praças. O extraordinário soldado Wagner, várias vezes citado e condecorado, havendo substituído sargentos, em combate, promoveram-no, simplesmente, a cabo, no final da guerra. Wagner rejeitou as divisas, dizendo: "Não preciso disso". Já os oficiais, todos eles, indistintamente, mesmo os que não participaram de operações no front, tiveram as promoções asseguradas, tanto os que continuaram nos quadros militares como os que foram transferidos para a reserva, receberam dois a três postos, imediatamente, superiores. Quem foi tenente, voltou major; quem foi major, voltou general. Raríssimas foram as promoções de praças. Quem foi soldado, voltou soldado; quem foi cabo, voltou cabo; quem foi sargento, voltou sargento. E assim foram transferidos para a reserva. Cometeu-se, com isto, uma violação dos direitos e dos méritos dos mais humildes, justamente os que mais lutaram; justamente os que mais se sacrificaram; justamente os que mais se expuseram nos combates! Como os ex-combatentes explicariam essa injusta posição aos seus familiares? Eram fatos inadmissíveis e inexplicáveis a lhes causar um mundo de embaraços e constrangimentos, ao retornar à sua terra. Nas cidades do interior eram vistos e seguidos por toda parte. Os antigos colegas, os parentes, os amigos e os conhecidos corriam, alvoroçados, a cercá-los, onde quer que os encontrassem. E as conversas, as perguntas, eram sempre as mesmas, sobre os mesmos assuntos - assuntos que os enchiam de aborrecimentos e tristezas, os quais necessitavam esquecer. Haviam sido envergonhados muitas vezes e muitas vezes espoliados de direitos que supunham haver conquistado, mas não ousavam confessar. Daí a razão porque, muitos deles, não suportando aquela espécie de assédio, abandonaram suas famílias, suas cidades, passando a vagar de um canto a outro, na esperança de que em lugares estranhos encontrassem tranqüilidade. Não demorou para que os óbitos de veteranos de guerra, em estado de indigência, começassem a aparecer. Os pedidos de reforma dos incapacitados encalhavam nas repartições militares ano após ano. Na maioria das vezes a reforma era negada: consideravam-no capaz de prover sua subsistência. E em outros casos em que a reforma era concedida, o requerente já havia falecido na miséria extrema - na indigência. Foram-se muitos. Foram-se milhares. Calcula-se em mais de três mil os que morreram caídos nas calçadas, ruas, praças e terrenos baldios de todas as cidades do Brasil. Impossível seria citar tantas ocorrências, mas apanhando-se ao acaso uma notícia publicada em jornais e resumindo-se os fatos, por si só basta para substanciar esta vergonha nacional:

"Na cidade de Olímpia, no Estado de São Paulo, alguém encontrou, num terreno baldio, em adiantado estado de putrefação, o corpo de um indigente. Dentro de um saco plástico, o corpo baixou à sepultura nº 4 382, da quadra 19, destinada, exclusivamente, a indigentes. Na guia de sepultamento não constou nome nem outros dados que o identificassem, constando apenas a palavra brasileiro. Ser brasileiro era tudo que se sabia do infortunado cadáver. Meses depois a polícia encontrou os pertences do morto e os relacionou: Um saco de farrapos, dentro do qual, envolvidos em jornais velhos e amarrados com barbante, estavam as coisas que o identificavam: 1. Uma foto da pessoa em tela; 2. Uma foto da embarcação SS Mariposa; 3. Uma medalha de combatente da FEB; 4. Uma plaqueta de identificação de combatente da II Guerra Mundial; 5. Um emblema de condecoração; 6. Dois emblemas da FEB; e 7. Dois certificados de nº 08612 e 2916161..." 

E o nome? Não! Respeitemos, pelo menos, o nome. Porque, para morrer assim, tão desgraçadamente, é preferível permanecer no anonimato. Foram-se muitos. Em condições semelhantes, morreram milhares. A maior incidência, desse tipo de óbitos, verificou-se nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre... Somente em Curitiba, onde os ex-combatentes tiveram acolhida das melhores, foram sepultados cerca de duzentos. E, esclareça-se: duzentos identificados pelo secretário de assistência da Legião Paranaense do Expedicionário. Pode parecer estranho, mas o melhor período para os veteranos de guerra, quando encontraram maior facilidade de trabalho e leis de amparo mais efetivas e práticas, foi durante os governos civis de Nereu Ramos (embora de curto período), Juscelino e Jânio Quadros. 


Postais de propaganda do Governo de Getúlio Vargas eram distribuídos pelo DIP,
utilizando o sacrifício de tantos brasileiros, que depois foram desprezados como inúteis.
Foto da Fundação Getúlio Vargas.

E, o pior, quando as coisas mais sórdidas, infames e canalhas passaram a ser cometidas contra os veteranos de guerra, veio a partir de 1964, com os militares de "espada virgem" no poder. Com o advento dessa calamitosa situação que ai está, os órgãos públicos, as empresas de economia mista, as fundações e estatais, caíram nas mãos de militares que não participaram da guerra. O simples fato de ser oficial da reserva e não veterano de guerra, passou o cidadão a ter direito - credenciais e habilitações - de ocupar altos cargos em entidades públicas, mesmo em se tratando de corruptos, ineptos ou meros aproveitadores, alguns até com registros negativos em fichas dos órgãos de informação do próprio governo. As delegacias dos Ministérios, nos Estados - do trabalho, da agricultura, da educação - várias delas, passaram a ser ocupadas por coronéis e generais, de" espada virgem", como se fossem eles "técnicos" e "especialistas" em tudo, em todos os setores da inteligência humana, menos nas suas verdadeiras profissões, naquilo para que se prepararam: nas questões de guerra. E à proporção que o Brasil empobrece, o patrimônio dos patriotas cresce. É espantoso de onde saiu tanta gente para ocupar tantos e polpudos cargos? Consta que, somente na Petrobrás, têm milhares deles. Onde estavam esses favoritos e favorecidos filhos da Pátria, durante a guerra? Eram jovens, profissionais das armas, e sendo, como se dizem - patriotas - por que não foram à guerra?... O oficial da reserva é um cidadão como outro qualquer; tem todo o direito de competir aos cargos de função civil. De competir e não de açambarcar todas as posições, preterindo o direito dos que se prepararam nas faculdades; preterindo o direito de outras camadas sociais. Ora, justamente nas empresas do governo, nas quais as exigências de idade e outras, são dispensadas, onde os veteranos de guerra poderiam ser aproveitados, tiveram (mesmo nas modestas funções) seus ingressos barrados por militares que não participaram da guerra e que, nessas empresas, ocupam altos cargos. E o pior são os métodos e meios infames engendrados para alijar as pretensões dos ex-combatentes, mesmo quando de comprovada competência e preenchendo os requisitos para a vaga existente: submetiam-nos a exames prolongados e cansativos, trancados em salas mal iluminadas, com psicólogos suspeitos e pré-orientados. Infâmias e safadezas sem tamanho foram cometidas contra muitos veteranos de guerra, desorientando-os. Para agravar ainda mais a situação dos ex-combatentes, em 1967, um general-deputado, pretextando "regulamentar a situação dos ex-combatentes", elaborou um projeto de lei que tomou o número 5 315/67, através da qual, num golpe de astúcia, considerou, os militares que permaneceram no Brasil, durante a guerra, como ex-combatentes!, com todos os direitos e vantagens, como se, efetivamente, tivessem ido à guerra. Uma coisa calamitosa, na velada intenção de desprestigiar, diminuir e achatar o mérito dos que se sacrificaram pela Pátria. O próprio autor da lei transformou-se, de um dia para o outro, em ex-combatente. E, seguindo-se à publicação da tal lei, bandos de reservistas que não foram ao Teatro de Operações na Itália, acorreram ás Instituições de Ex-Combatentes, pretendendo se filiar a elas, pois assim a lei os amparava. Um ato absurdo e altamente oneroso aos cofres do País, como se virá adiante. Se a Nação já não tinha condições de acomodar a situação de um punhado de sacrificados veteranos de guerra, que mereciam ser atendidos, como iria resolver os problemas dos cento e cinqüenta mil que, de um momento para outro, passaram a existir?! Obra escabrosa de militar político. Procurando rebater as insídias do ato governamental e no intuito de separar o joio do trigo, foi fundada a "Associação dos Veteranos de Guerra do Brasil", distinguindo-se, dessa forma, dos que, por obra da malfadada lei, passaram a ser apelidados de ex-combatentes. A nova instituição, embora séria, embora congregando os verdadeiros ex-combatentes, pouco ou quase nada tem conseguido alcançar em benefício dos camaradas mais necessitados, face às dificuldades criadas pela má vontade dos que hoje mandam. Em 1975, um ex-sargento expedicionário trabalhava como vendedor de livros da Enciclopédia Britânica. E. vendendo livros, chegou à Foz do Iguaçu. Lá percebeu que a camada obreira mais bem remunerada constituía-se de funcionários da empresa do governo, Itaipu, e das empresas particulares empreiteiras das obras da barragem. Ocorre que, para ingressar nos acampamentos, seria necessária uma autorização do chefe de segurança da Itaipu - um capitão da Brigada Gaúcha. Ao entrar na sala do capitão da guarda, o ex-sargento deparou, espalhados sobre a mesa, documentos de caráter sigiloso, inclusive as INs(Informações necessárias da Presidência da República). Identificados os documentos, embora afastado da mesa, o ex-sargento falou: "Vejo algumas INs sobre sua mesa". O capitão espantou-se com a observação do ex-sargento: "Você entende disso?!", perguntou. "Sim. Sei alguma coisa sobre informação. Aqui é um órgão setorial, deve ter a obrigação de umas cento e cinqüenta INs..." Mais espantado se mostrou o capitão, confirmando: "Cento e quarenta e cinco, para ser exato!" Prosseguindo, tentou justificar a desordem de documentos em sua mesa, lamentando-se: "Não disponho de gente habilitada! Isto e um fim de mundo!" E, propôs: "Você quer trabalhar comigo? Há uma vaga no setor de informação... se aceitar, começará com um bom salário e, após os três primeiros meses, receberá em dobro..." Aquela proposta de um emprego razoável vinha a calhar. O ex-sargento atravessava um período difícil; os resultados das vendas de livros, desapareciam com as despesas de viagem. Face à anuência do ex-sargento em aceitar o emprego, o capitão esclareceu alguns detalhes: "A sua admissão depende de autorização do nosso diretor administrativo, o general, mas não haverá problema: a vaga existe e ele atende todos os meus pedidos. Vou me comunicar com ele e você o procurará, em Curitiba. Leve o meu cartão; nele está o endereço. Outra coisa: não esqueça de levar o seu currículo." Diante da alvissareira perspectiva de trabalhar na Itaipu, o ex-sargento esqueceu todos os outros compromissos e encerrou as suas atividades de vendedor de livros da Britânica. Em Curitiba, o general (tratava-se, sem dúvida, de um general de "espada-virgem", irmão do governador também general de "espada-virgem"), diretor administrativo da empresa da União, com quem o capitão da guarda já havia se comunicado, recebeu o ex-sargento de braços abertos, como se fossem velhos e bons amigos. Uma pessoa fina, educadíssima e maneirosa, apresentava-se toda vestida de branco e de cabeça raspada. Depois dos abraços e das saudações, foi entregue o currículo. Feita uma rápida leitura, vieram os "volte amanhã"... Aí é que está a canalhice: as protelações, acarretando perda de tempo e despesas inúteis; a falta de franqueza, de considerações e de respeito para com os outros. Esses aproveitadores que ora detêm o poder, tem todo o direito de escolher os seus auxiliares, como bem entenderem, mas não têm o direito de embromar, abusar da paciência e nem achincalhar ninguém, sobretudo um veterano de guerra, necessitando trabalhar. Seria preferível que lhe dissessem: "Não queremos ex-combatentes aqui!..." As protelações oneraram o ex-sargento com viagens dispendiosas à Foz do Iguaçu, sempre a chamado, por telegrama, pelo capitão da guarda; preenchidas todas as formalidades e habilitado nas provas que o submeteram, "inventaram", como recurso final, um exame psicológico escabroso e fantasioso; falso, primarissimo e infantil, sob todos os aspectos. O ex-sargento foi trancado numa sala, por um tempo enorme, em companhia de uma senhora que se dizia psicóloga. E por mais de quatro horas a mulher passou a mostrar figurinhas embaralhadas ou embaços mal delineados, fazendo sempre a mesma pergunta: "Com que se parece isto..." O pseudo-exame resumiu-se apenas na apresentação de figurinhas. A tarde, o capitão avisou o ex-sargento: "O senhor pode viajar... Nós lhe comunicaremos o resultado, oportunamente..." O ex-sargento ficou tão indignado, com a sujeira que o pessoal da Itaipu lhe aprontou, que, não sendo político, tomou uma decisão de aspecto político: viajar para o exterior, onde pudesse aperfeiçoar os seus conheci mentos em explosivos: "Vou dar a essa gente, a resposta que merece!" - disse, despedindo-se de um amigo. Habilidade e coragem, não lhe faltariam. Desfez-se do que possuía e viajou. Em Belém, fez uma parada. Precisaria ganhar um pouco mais para prosseguir a viagem que arquitetara. Iniciou, modestamente, trabalhando como motorista de veículos de carga de uma empresa de importante grupo de estrangeiros. E veio o inesperado: em poucos meses, o ex-sargento destacou-se, passando a exercer, com extraordinária atividade, segurança e desembaraço. funções mais elevadas, que foram se escalonando. até alcançar o cargo de procurador junto aos bancos, repartições públicas e órgãos do Poder Judiciário, representando ainda a empresa nas reuniões das associações empresariais, clube dos exportadores, sindicatos e toda uma gama de atribuições que exigem capacidade intelectual, equilíbrio emocional, raciocínio rápido e inteligência bem desenvolvida, além da indispensável honestidade. Essas qualidades do ex-sargento, foram sempre reconhecidas e exaltadas pelos estrangeiros, donos da empresa. Progrediu tanto que esqueceu a necessidade de vingança. Mas, para ocupar um modesto empreguinho de auxiliar de segurança da Itaipu, onde tantos incompetentes, inúteis e safados gravitam, familiares dos diretores percebendo altos salários sem nada fazer, o ex-sargento veterano de guerra e conceituado procurador de empresa, não tinha condições psicológicas para trabalhar!

Onde andará o Honorato? Que alma boa e simples. Era um desses tipos curiosos que conseguem fazer milagres com o pouco ou quase nada que ganham. Andava sempre bem vestido e com os sapatos lustrosos; sempre de boa aparência. Educado e caprichoso; lia e escrevia com desembaraço. Mas não tinha emprego certo, vivia de bicos ou de favores dos amigos. Honorato apresentava todos os requisitos, parecia mesmo moldado para exercer um cargo de portaria: receber, orientar e encaminhar as partes, em qualquer repartição ou escritório. Desde que chegara a Manaus passou a morar na Sede da Associação dos Ex-Combatentes, fazendo as vezes de zelador. E de bom zelador. A sede conservava-se limpa e bem arrumada. Vez por outra, Honorato ganhava algum dinheirinho, em serviços avulsos, ou filava a refeição na casa dos companheiros, com maior freqüência na casa do Petrônio, presidente da Associação. Durante meses, mais de ano, o pacientissimo Petrônio (que não usava chapéu), "andou de chapéu na mão" implorando, pedindo. bajulando e humilhando-se até ao então Prefeito (nomeado) da cidade, coronel Jorjão: "Coronel!...vê se arruma um lugarzinho pro Honorato! O homem precisa trabalhar... Eu já não agüento mais carregar o Honorato nas minhas costas! ..." "Sim... sim. vou arrumar, Petrônio! Mas tenha paciência... um tempo mais... as coisas não andam fáceis...", defendia-se o coronel Prefeito. O coronel (obviamente se tratava de um desses coronéis espertalhões e politiqueiros, fujões da guerra e que hoje ocupam todas as"bocas boas" da Pátria Amada), sempre procrastinando, sempre enrolando, mas tantas vezes abordado pelo insistente Petrônio, terminou por arranjar um emprego para o Honorato: guarda-noturno das obras de remodelação do Mercado Municipal, percebendo mil e quinhentos cruzeiros por mês! Um lixo de emprego para o candidato tão recomendado pelo Presidente da Associação dos Ex-Combatentes! e com qualificação e mérito para posição superior. Mas Honorato, bom e simples como era, não só aceitou como ficou contente com o miserável empreguinho. Só que não durou: seis meses depois, a guarda foi desativada. Um ano e meio de labuta, de insistência e de paciência do Petrônio, para conseguir uma porcaria de emprego, que mal durou seis meses! E o pobre do Honorato voltou a vagar, desempregado. Dias depois, sumiu no mundo...

Dirão, contestando: "Hoje, os ex-combatentes estão sendo amparados: o governo concede-lhes uma pensão!..." Concede, realmente. E sabem que pensão é? É a pensão mais degradante, suja e miserável que se poderá atribuir a alguém: a desgraçada "Pensão de Louco de Guerra"! Essa pensão é um escárnio! É um deboche sem tamanho! É a intenção infame e sarcástica de estigmatizar, de desacreditar e de rebaixar a personalidade dos veteranos de guerra. É a desonra e a vergonha maior que se poderá pretender lançar sobre a integridade e a dignidade dos que lutaram em nome da Pátria! Infeliz da Nação, que comete um aviltamento desses! É o "prêmio" que recebem, alquebrados e na velhice, os que retornaram de uma campanha penosa. E é o único tipo de pensão que o governo concede aos veteranos de guerra. Por outros motivos, não. O processo encalha, os anos passam e a pensão não sai. É condição sine qua non: ou aceita o labéu infamante, o descrédito e a destruição da própria personalidade, ou não recebe pensão nenhuma. Aceitando, a concessão é facílima. Rapidíssima. Três meses, no máximo. É só o veterano de guerra ou um daqueles reservistas apelidados também de "ex-combatentes", por força da lei do general-deputado), assinar um requerimento, por sinal lacônico e simples. Eis a minuta:

Ao Exmo. Sr. Chefe do Departamento Geral do Pessoal. Objeto: -Inspeção de saúde para fins de reforma.
1. (nome) ex-combatente da 2ª Guerra Mundial, identidade (número), reservista. achando-se em situação de invalidez, requer a V. Está. inspeção de saúde para fins de reforma prevista na Lei nº 25779 de 29 Ago 55.
2. A título de informação, para instruir o processo de reforma, declara: (seguem-se os dados pessoais do requerente).


 Inacreditável! os que permaneceram no Brasil, durante a guerra, também têm direito à "pensão de louco de guerra"! Fato calamitoso que está onerando, tremendamente, os cofres do Exército. Os interessados contam com duas opções: a de reforma no posto ou graduação em que deu baixa ou ainda pela Lei 4242, que dá direito a uma pensão de segundo sargento, independentemente da graduação anterior, inclusive para os soldados. Esta última lei remonta aos benefícios concedidos aos herdeiros de veteranos da Guerra do Paraguai. Até 1967 havia algumas exigências embaraçosas para ser obtida a "pensão de louco de guerra", tais como anexar ao requerimento um atestado fornecido por psiquiatra e sujeitar-se ainda a um internamento de 15 dias a um mês, numa das Enfermarias Psiquiátricas do Hospital Central do Exército. Ocorre que, com o crescente aumento de pedidos, sobretudo por parte de reservistas favorecidos pela lei do general-deputado, muitas das exigências anteriores foram, gradualmente, sendo dispensadas. E hoje a coisa está simplificada. Entretanto, os processos que andam mais rápidos e nunca falham, são os preparados, encaminhados e acompanhados por um dos dois grupos que, no Ato, exploram a "Indústria de Loucos de Guerra". Comenta-se que um desses grupos é menos escorchante que o outro, porisso se digladiam. Briga de competidores por uma coisa tão triste e feia. Os grupos mantêm ligações com médicos, enfermeiros e funcionários burocráticos das repartições militares; dispõem ainda de aliciadores que se encarregam de arrebanhar pretendentes à pensão, pelo interior do País; não raro financiam todas as despesas de viagem e hospedagem; instruem, dando as orientações e dicas, com exercícios, para que o paciente desenvolva todos os seus cacoetes e tiques nervosos, de maneira a simular bem o comportamento de louco, diante da junta médica. E, quando havia internamentos, as "Indústrias de Louco de Guerra" forneciam os nomes dos médicos e enfermeiros que iriam "tratar bem do internado" e nos quais poderia confiar. Para o infeliz veterano de guerra, que desde a desmobilização fora esquecido pelos poderes públicos, marginalizado, envelhecido e atacado de mazelas várias resultantes da dura campanha que participou, vivendo na angústia e na miséria, qualquer coisa que lhe ofereçam, serve! Qualquer coisa que lhe acenem, por minguado, por sórdido e infame que seja, como essa maldita pensão, é sempre recebido como uma dádiva dos céus, capaz de minorar seus sofrimentos. Acontece que não são apenas os ex-soldados que estão se submetendo a essa terrível humilhação; os antigos oficiais também. É doloroso e revoltante assistir-se o que se está assistindo hoje no Brasil: ver os antigos tenentes comandantes de pelotões, na Itália, heróis e bravos que foram, agora envelhecidos, doentes e também marginalizados, encontrarem-se, no final da vida, de mãos vazias!... e, como último e deprimente recurso, subjugados pelas circunstâncias, encaminharem-se, alquebrados e mal vestidos para uma dessas juntas médicas militares que lhes fornecerá o sórdido e infamante atestado de "louco de guerra"! A Pátria lhes deve muito mais; e, acima de tudo, deve-lhes respeito. Enquanto os antigos heróis se submetem a esse terrível vexame, os outros oficiais da reserva de sua época - hoje coronéis e generais de "espada virgem" - refestelam-se nos altos cargos das estatais (recebendo ainda por fora das multinacionais) e outros órgãos do governo, usufruindo de absurdas mordomias e contribuindo para afundar o Brasil em dívidas. Os antigos tenentes da Força Expedicionária Brasileira, descendiam, quase todos, de famílias abastadas; eram jovens, sadios, viviam bem e freqüentavam universidades, quando a guerra os apanhou, convocando-os como aspirantes e tenentes. Na Itália, a atuação deles foi de uma importância incontestável. De formação civil e de espírito liberal, constituíram-se no elo de ligação entre as camadas de soldados e graduados com os escalões de comando. Durante a campanha, convivendo e combatendo em meio aos praças, estabeleceram entre eles círculos de amizades muito sólidos, passando a considerar seus comandados como irmãos de sofrimento. De volta ao Brasil, de imediato, deixaram a farda, reingressando nas atividades civis. Procuravam, através do trabalho e da conclusão de seus estudos, superar os danos psíquicos, emocionais e físicos que lhes causou a guerra. Enganaram-se, contudo. Não conseguiram, dedicar-se, inteiramente, às novas atividades. Onde quer que trabalhassem eram, continuamente, procurados e molestados por antigos camaradas, que lhes tomavam o tempo, levando a eles as dificuldades e penúria em que viviam. As bancas de advogados, os consultórios médicos e odontológicos, laboratórios, escritórios de contabilidade ou de representações, as indústria e casas comerciais de antigos tenentes febianos, passaram a se encher de veteranos de guerra, mal vestidos e desorientados, que lá buscavam uma ajuda, uma consulta, um tratamento, sem nada lhes pagar, tomando ainda o tempo da clientela pagante. Penalizados com o que assistiam e não podendo virar as costas aos seus antigos comandados, imbuídos do sentimento de lealdade que os conduziu nos combates, passaram a se dedicar, com os poucos recursos que dispunham, aos trabalhos assistenciais junto às associações de ex-combatentes. Assim, assistindo seus camaradas, tratando de uns, internando-os em hospitais ou ainda recolhendo os corpos de outros que pereciam em terrenos baldios, para sepultá-los, condignamente, os anos se passaram... E, abrindo os olhos, viram-se velhos, doentes e de mãos vazias! É triste vê-los encerrar as portas de seus estabelecimentos, à beira da falência, encaminhando-se para uma das juntas medicas militares... Há ainda a terrível situação dos "mortos-vivos". Aqueles aos quais a ditadura militar pretendeu infringir-lhes a morte moral, banindo-os de tudo. É uma situação inenarrável, pior, mais deprimente e desgastante que a dos cassados políticos e a dos loucos de guerra, porque nem o direito de receber a pensão correspondente aos seus postos, eles têm. A pensão é paga apenas aos seus familiares. Não se sabe quantos são os "mortos-vivos". Um advogado, veterano de guerra, afirmou que são muitos. Tratam-se de antigos sargentos, tenentes, capitães e majores da Força Expedicionária Brasileira, que permaneceram nos quadros das Forças Armadas e em 1964, ocupavam postos, hierarquicamente, mais elevados. E qual o crime que cometeram? Foi o crime de assumir posição consentânea aos seus princípios democráticos, declarando-se contrários ao golpe armado. Se, a pretexto ou em nome de democracia, viram tombar antigos camaradas e comandados, outra não poderia ser a atitude deles. Entre os mortos-vivos figura um nome ilustre, uma das mais expressivas inteligências e um dos mais hábeis estrategistas que o Brasil mandou à guerra. E se o ex-presidente Jango não tivesse cometido a tolice e imprudência de convocá-lo para uma reunião no Rio, na noite de 29 de março de 1964, ausentando-o da tropa que comandava no Sul, os rumos da história do Brasil seriam outros. Hoje, o velho general, ex-comandante de um dos gloriosos batalhões da FEB, vive ou vegeta isolado de tudo e de todos, trancado num apartamento, no Rio. Ele e os demais, que estão na mesma situação, precisam ser, urgentemente, reabilitados perante a consciência nacional; trazidos de volta ao convívio dos vivos e às prerrogativas a que têm direito esses heróis. Tudo que se refere aos veteranos da 2ª Guerra Mundial, no Brasil, assume velada e maliciosamente uma significação depreciativa; sofre deturpações. A começar por essa denominação idiota, inventada para designá-los: "Pracinha". Haverá tratamento mais estúpido e cretino que esse?! Um diminutivo infame, como se os veteranos de guerra fossem uns coitadinhos: "uma expressão carinhosa. própria dos sentimentos do povo brasileiro", procurou argumentar uma ingênua e bondosa senhora do Tribunal de Contas da União, em Brasília. Manifestação carinhosa para os trouxas. É um diminutivo e, como todo diminutivo, estabelece uma situação de dependência e de inferioridade do designado. É uma designação torpe e canalha que, alguém, mal intencionado, inventou e os simplórios, sem se darem conta, aceitaram. A partir daí o deboche vem prevalecendo até ao ponto de considerá-los loucos de guerra. O próprio Monumento aos Mortos da 2ª Guerra Mundial, no aterro do Flamengo, com aquela extravagante aparência de guarda-sol quadricular de duas hastes - representando mais um símbolo do comodismo e do temor às intempéries - assume uma imagem depreciativa. Longe está de ser o monumento que representaria a grandeza e o arrojo do ato dos que tombaram, em campo de batalha, em nome da Pátria!


A construção do monumento aos mortos da Segunda Guerra
Do site
www.exercito.gov.vr

Encerrando

Foi, visitando um veterano de guerra, antigo subcomandante de companhia de fuzileiros, que tomei a resolução de escrever este livro de verdades e vergonhas. Encontrei-o morando numa casinhola de madeira, acanhada, mal construída, na periferia distante do centro urbano, velho e acabrunhado, mancando, com as juntas inchadas, atacado de reumatismo. Na saleta de entrada, viam-se os vestígios de riqueza e de cultura decadentes, empobrecidos, antigos e pesados móveis de guarda-louças, abarrotados de raras edições da centenária biblioteca da família... Pouco falamos. Pouco havia para ser falado. Os fatos, ao redor, falavam mais alto. Vendo-o, triste e acabado, lembrei-me do jovem que fora - altivo, ágil e incansável - num distante entardecer sobre um pedaço de montanha da Itália, juncado de mortos e feridos. Não havia o que se falar. E eu já conhecia a sua história: a olaria, que herdara do pai, que possibilitara a conclusão de seus estudos e até certo tempo um padrão de vida de cidadão abastado, teve de desativá-la; cuidando da assistência de ex-combatentes, seus negócios fracassaram. Daí, fez ingentes tentativas para obter um cargo condizente numa fundação e numa estatal, deparando sempre com empecilhos inexplicáveis. Assim foi até que toda renda da casa passou a se resumir nos salários de professora suburbana principiante, da esposa, também idosa. Fui ao encontro dela, quando chegava andando a pé pela rua -estrada, poeirenta e ensolarada, ao meio-dia. Vinha, vagarosa, com braçadas de livros didáticos e cadernos... Insistiram para que eu participasse da singela refeição que dispunham. E, enquanto a esposa concluía o almoço, confessou-me, amargurado: "Não posso mais viver desta maneira... deixar que minha mulher suporte os encargos da família com os minguados salários que percebe. Por isso amanhã, sem falta, vou procurar uma junta médica militar; preciso do atestado que me dará direito a uma pensão de major." Tratava-se da desgraçada "pensão de major louco de guerra"!...

"Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira"
Leonércio Soares - Obra do autor, editada em 1984

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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