FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 


A atriz Sophia Loren, após o término da Segunda Guerra, encarnou, segundo relatos
de diversos pracinhas, a mulher italiana por eles encontrada na Itália.

Poema para um Correspondente de Guerra que se casou na Itália
Nozze Stamato-Bonfanti
(Rossana Bonfanti e Fernando Stamato)

Soneto a due giovani sposi

Ogge un grazioso bocciol di rosa
ad un robusto tronco si sposa
e del gentile e debole fiore
sostegno chiede, donando "amore"...

Si fondon bene grazia e energia
lieta ed allegra tanta armonia
che rende lieta, cara e gradita,
a due che si amano, tutta la vita.

Se, amore a Voi donò soltanto
di porvi l’uno dell’altro accanto,
Siate felici, felici tanto
che mai le ciglia vi bagni il pianto.

E se bagnarvele un di dovrà
Sai sol per grande felicità.
Rossana, i mici versi non han valore

però sinceri li detta il cuore.
Tu, buona, accetta l’augurio mio
e i versi miseri poni in oblio.

DELIA
Pistoia, 19-3-1945

Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

Fernando Stamato, correspondente de guerra na Itália, foi o autor de todas as reportagens cinematográficas existentes sobre os soldados brasileiros na Itália. Era filho de João Stamato, cinegrafista profissional atuante até outubro de 1951. Nesse dia, o velho Stamato deixou na "moviola" o "copião" do que seria o primeiro documentário brasileiro em cores, saindo para almoçar. Voltaria para o trabalho de montagem. Na rua, calor intenso, sentiu-se mal e morreu, deixando a lembrança de um profissional competente, com atuação no documentarismo e nos filmes de ficção.

Texto adaptado do site: http://www.lazer.eefd.ufrj.br/cinema/menu/imag_12.html


A beleza da mulher italiana estampada nas telas de cinema despertava
nos pracinhas brasileiros, saudades das namoradas italianas.

"Em se falando nas relações de brasileiros com os italianos, seria também interessante nos referirmos às relações com as italianas. Chegamos a pensar mesmo em escrever um capítulo denominado "Os amores da FEB." Não há dúvida que vinte e cinco mil homens, exilados na Itália durante um ano, devem ter tido suas aventuras amorosas. As condições de guerra, que nos davam grandes facilidades, detentores que éramos de cousas que faltavam em absoluto no meio civil, tais como cigarros, açúcar, café, chocolate, etc.; nossa posição de vencedores, a rapidez com que aprendíamos a língua, a afinidade da raça latina, etc., eram fatores favoráveis às ligações de toda espécie. As conquistas eram fáceis, naquele ambiente em que o adultério campeava e a liberdade de costumes era completa. Muitos maridos exemplares, que na vida comum, jamais tiveram uma oportunidade, viram-se de repente livres do "freio-hidráulico" de suas caras-metades, diante da grande "chance", cheia de louras tentações. À medida que íamos conhecendo novas cidades, as preferências iam surgindo, estabelecendo grupos que mais admiravam as pisanas, as luquenses, as florentinas ou as pistoienses. Havia então os "Senhores de Pisa", os "Senhores de Lucca", os "Senhores de Pistóia" ou de Florença, como jocosamente eles próprios se apelidavam. Pode afirmar-se que houve os mais variados casos amorosos, desde o amor casto, bem intencionado, que acabou originando muitos casamentos; amizades puras e platônicas, que dariam bonitos romances à Delly; amores apaixonantes e dominadores, que obrigaram o deslocamento de muitas e belas "signorine", cada vez que nossas tropas avançavam e finalmente fizeram surgir na área de Nápoles mulheres tipicamente toscanas e piemonteses. Elas acompanhavam os soldados, viajando em caminhões e "jeeps", como se fossem modernas vivandeiras motorizadas. Umas conseguiam permissão oficial para se utilizarem de veículos militares. A maior parte ia mesmo de contrabando. Sabemos de uma que viajou novecentos quilômetros, escondida na caixa do bombo, burlando toda a polícia de tráfego. Infelizmente nosso capítulo "Os amores da FEB" não pode sair do tinteiro. Seu caráter estritamente secreto não nos permite contar nem os "milagres" nem os "santos". Entretanto, a bem da verdade e para tranqüilidade de muitos lares, devemos afirmar que houve honrosas exceções neste particular, entre oficiais e praças. Houve muitos e edificantes exemplos de fidelidade conjugal, que, verdadeiros heróis, souberam vencer a dura batalha da tentação. Também não vamos citar os nomes desses heróis, com receio de cometer a injustiça de alguma omissão, nem dizer que nos incluímos entre eles, cousa que muita gente não acreditaria."

"Epopéia dos Apeninos"
José de Oliveira Ramos


Iole Tredici e João Pedro Paz, ainda na Itália

 Pracinha Cachoeirense inspirou a “Gioconda”

A realização de muitas atividades militares e cívicas da Semana da Pátria trouxe a Cachoeira do Sul o pracinha da Força Expedicionária Brasileira João Pedro Paz, que veio participar do desfile de 7 de setembro, no sábado. Aos 79 anos, o cachoeirense mora atualmente em Porto Alegre. Veio a Cachoeira do Sul para o desfile a convite do comandante do 3º Batalhão de Engenharia, coronel Wandocyr Romero. Seria uma presença ilustre por ser um febiano, mas a sua história ainda é muito mais interessante. O febiano garante que sua história pessoal inspirou a canção “Minha Gioconda”, um clássico do cancioneiro popular. Para o desfile, Paz trouxe uma bandeira da FEB e suas 12 condecorações por merecimento. Com 19 anos, o pracinha cachoeirense serviu no 7º Regimento de Infantaria de Santa Maria, como segundo atirador no terceiro pelotão. Na
Itália, Paz fez parte da unidade de elite do comandante da FEB, general Mascarenhas de Moraes, e participou da rendição da 48ª Divisão Motorizada Alemã, em Fornovo Di Taro. Segundo Paz, essa vitória foi a mais importante da FEB, pois, pela primeira vez, ela enfrentaria uma divisão inimiga completa. - "O confronto iminente foi evitado, porém, graças ao padre italiano Alessandro Cavalle, que serviu de mediador entre as tropas brasileiras e alemãs". Paz, segundo relata, foi a primeira testemunha da rendição da divisão de 15 mil soldados alemães. - "Eu recebi a missão de reconhecimento no campo inimigo e, após avançar aproximadamente 200 metros, avistei a divisão alemã, que vinha pela estrada com suas viaturas. À frente, o comandante do estado maior, major Kuhn, empunhando uma bandeira branca. Nunca mais vou esquecer", emociona-se.

Como surgiu a mais famosa Canção da Guerra

Depois de algum tempo da rendição alemã, os febianos permaneceram em território de guerra. João Pedro Paz e mais alguns colegas receberam folga para visitar a cidade de Pescia, onde participariam de um baile. Foi nesse baile que o cachoeirense conheceu uma italiana de 17 anos chamada Iole. Depois de algumas danças, Paz e Iole apaixonaram-se. O relacionamento transcontinental durou até 6 de junho de 1945, data em que as tropas brasileiras voltaram para o Brasil. O casal se despediu no cais do
porto napolitano. Na chegada ao Brasil, Paz participou de uma grande festa no Cassino da Urca, no Rio de Janeiro, onde estava presente o presidente Getúlio Vargas. Na festa, entre os pracinhas estava o cantor e ator Vicente Celestino, ouvindo as histórias dos soldados, entre elas a de Paz e sua jovem Iole. Foi o embrião de uma das mais importantes canções de pós-guerra, "Minha Gioconda", que já teve diversas regravações, inclusive uma com Agnaldo Rayol na novela Terra Nostra, da Rede Globo.

A Carta

Ao chegar a Porto Alegre, Paz recebeu uma carta de Iole dizendo que estava grávida. O pracinha procurou a embaixada da Itália para providenciar o casamento, que foi realizado no dia 1º de julho de 1946 por procurações. No dia 28 de outubro de 1946, um dia antes da data marcada, Iole desembarcou no cais do Guaíba com o filhinho de três meses de idade. Como não havia ninguém esperando, ela tomou um táxi até a residência de um parente de seu marido. Paz, que estava trabalhando como lavador de pratos no Grande Hotel em Porto Alegre, recebeu com surpresa a notícia da chegada de
Iole e, correndo, foi ao encontro de sua família. Importante: Iole e Paz estão casados há 56 anos e têm uma filha, duas netas e duas bisnetas.

Jornal do Povo de Cachoeira do Sul
Quarta-Feira, 9 de Abril de 2008
Texto encontrado no site:
 
http://www2.jornaldopovo.com.br/mat090902.html


O Cabo Armando Veiga Marques recebeu condecoração por bravura

A Guerra
Tensão no Campo de Batalha


Porto-alegrense, o cabo Armando Veiga Marques resume um sentimento comum a todos os pracinhas: - "Montese foi a batalha mais difícil". Ao travar uma luta em área urbana pela primeira vez desde a chegada à Itália, a Força Expedicionária Brasileira  teve 400 baixas, entre mortos e feridos. O cabo Marques estava lá. - "Entramos queimando. Tomamos Montese casa por casa", diz. Aos 82 anos, ele lembra as dificuldades de um enfrentamento que durou quatro dias. Mas o pior viria depois. Com a vitória em Montese, o 6º Regimento de Infantaria, do qual Marques fazia parte, prosseguiu em direção ao norte. Em 27 de abril, o cabo "puxava" a companhia (avançando à frente do grupo) em Neviano di Rossi, nas proximidades de Fornovo. Ao cruzar com um grupo de reconhecimento, foi advertido da presença de um carro blindado alemão nas proximidades: - "Coloquei meu pessoal em posição e avancei com cautela". Havia uma plantação de trigo às margens da estrada. Marques avançou rastejando. Instantes depois, os alemães abriram fogo. Um brasileiro foi ferido e levado para a retaguarda.
- "Minha mochila ficou toda perfurada. As mantas que eu carregava viraram tela". Até mesmo a arma do pracinha foi atingida pelas balas alemãs mas, com as precauções que havia tomado, a tropa conseguiu manter a posição. Os alemães renderam-se dois dias depois. Marques recebeu a Cruz de Combate de 1ª Classe, mas, apesar do reconhecimento pelo ato de bravura, ainda luta na Justiça para receber a pensão paga pela União aos ex-combatentes.

A tomada de Montese ocorreu cerca de dois meses depois de os pracinhas protagonizarem a primeira grande vitória da FEB na II Guerra - o ataque a Monte Castelo. Segundo-sargento, Tadeu Cerski participou do terceiro ataque à região, apenas 16 dias depois do seu batismo de fogo. Era madrugada de 12 de dezembro de 1944. Eles sabiam que surpreender o inimigo seria fundamental. Na hora combinada, avançaram. Os pracinhas marchavam às cegas. O terreno, coberto de lama, era bastante irregular, e os termômetros marcavam 20º negativos. A chuva havia oferecido uma trégua aos combatentes. De repente, a artilharia americana começou a disparar em Belvedere, a leste dali, quebrando o sigilo da operação: - "No clarear do dia, nosso pelotão estava na frente, dando sopa para o inimigo. Foi uma chacina. Dos 41 do meu pelotão, 12 morreram. Não foi fácil presenciar isso". As relações com os americanos estremeceram. Eles afirmaram querer ajudar os brasileiros, desviando a atenção dos alemães para Belvedere. - "Mas, na prática, a artilharia acordou os alemães, que ficaram a nossa espera. Não dava para conter a raiva", diz. O pelotão de Cerski atraiu o fogo inimigo uma vez mais. Foi no ataque derradeiro a Monte Castelo, em fevereiro de 1945. 

O Pós-Guerra: Uma nova luta, no retorno para casa

Entre os pracinhas para os quais as glórias do pós-guerra se resumiram a algumas horas de festa se inclui o gaúcho João Pedro Paz, hoje com 80 anos. De volta a Porto Alegre depois de sete meses de campanha na Itália, ele deixou o Exército, teve de lavar pratos em um dos mais famosos hotéis da Capital na época, o Grande Hotel, e até dormiu em banco de praça. Amargava tempos mais difíceis do que na guerra quando recebeu uma carta. Era da italiana Iole Tredici, dando-lhe a notícia de que seria pai. Iole e Paz se conheceram em um sábado, 9 de maio de 1945. O gaúcho, integrante da divisão de infantaria estacionada em Stafoli, ganhou folga e foi a Pescia, cidade pequena da região da Toscana. Em um baile, viu a italiana. - "É destino. A gente se olhou e não se largou mais", conta Iole, na época com 17 anos. Só que o contato entre os dois durou pouco. Em 6 de julho de 1945, Paz pisou pela segunda vez no navio de transporte americano General Meigs. Estava voltando para casa. No Brasil, o jovem soldado resolveu desistir da carreira militar, descontente que ficou com a proposta do Exército para os que retornavam da guerra. Voltou a Porto Alegre sem trabalho, nem dinheiro. Na Itália, a inexperiência fez com que passasse bastante tempo até Iole perceber que estava grávida. Quando soube, a mãe da italiana chorou. O irmão não falou com Iole por quatro dias. Por carta, Paz e Iole decidiram que aquele era um romance que deveria transcender a guerra. Casaram-se por procuração. Mas a cerimônia civil era pouco para contentar os sonhos de Iole. Mesmo sem a presença do noivo, ela se casou no religioso. 
- "Minha mãe subiu no altar. Colocou uma aliança de prata no seu dedo. Quando o padre perguntou se João Pedro Paz aceitava Iole Tredici em casamento, foi ela quem disse o sim". O filho, Pedrinho, nasceu na Itália. Tinha três meses quando embarcou com a mãe para uma viagem de um mês que os traria ao Brasil. Desde 28 de outubro de 1946, Iole e Paz estão juntos. Pedrinho morreu aos 12 anos. O casal teve mais uma filha. Paz nunca mais viveu o dia-a-dia de um militar, mas não esquece sua trajetória na FEB. Diz que a II Guerra foi uma passagem dolorosa, mas emenda: acha que sua história ainda renderá um filme.

Memórias do Front II
Letícia Sander e Poti Silveira Campos
Texto e fotos da página encontrados no site
http://www.defesanet.com.br/

UMA HISTÓRIA IGUAL A TANTAS OUTRAS...

Durante o dia, Anésio costumava ficar na sua Reserva, isto é, uma barraca maior, preenchendo o Livro de Alterações, em que se registrava o histórico da vida militar de cada praça da Bateria. Ajudava-o neste serviço o franzino cabo França, que desempenhara função semelhante no quartel. Ambos detestavam essa ocupação e, freqüentemente, o cabo sumia em sua barraca e, pouco depois, o sargento seguia-lhe o exemplo. Naquela tarde, o sargenteante viu o cabo França desaparecer mais cedo que de costume. Não ligou muita importância ao fato e permaneceu sentado diante do Livro, enchendo a custo, de vez em quando, duas ou três linhas. Queria adiantar o serviço, mas, como fizesse muito calor, a formulação dos períodos obrigava-o a um grande esforço mental. Pouco demorou para que se sentisse muito cansado e fosse para a sua barraca. Deitou-se sob o toldo aquecido, mas não conseguiu adormecer. Em volta, soldados conversavam sobre a escalada da véspera e faziam planos para o pulo da tarde. E então, o diabo começou atentar o velho sargento: "Deixa de ser trouxa, Anésio. Que adianta toda esta dedicação? De qualquer modo, a próxima promoção a subtenente vai ser concedida a algum puxa-saco e serás preterido mais uma vez. Aproveita a vida enquanto é tempo. Bem que te disseram que, no alto do morro, há uma casa com umas pequenas..." Nesse ponto, a imaginação de Anésio voou alto, apresentando-lhe mil quadros deliciosos, sobre os prazeres a desfrutar naquela casa do alto do morro. Mas, como estivesse muito habituado a controlar-se, uma vozinha impertinente foi-lhe sugerindo: "Não, Anésio, não deves fazer aquilo. Lembra-te de que tens a folha limpa de qualquer punição. E isso influi muito nas promoções. Cuidado!" Tais vacilações eram agora muito freqüentes no sargento Anésio. Passara anos seguidos numa vida metódica e burocrática de sargento da Casa das Ordens, vida medíocre e apertada, com muitas contas de fim de mês, uma mulher feia e doente e uma escadinha de crianças franzinas a sustentar e educar com um ordenado miserável. A possibilidade de ter nos braços uma mulher jovem e bonita fazia-lhe subir o sangue à cabeça. Depois de se revirar algumas vezes e matutar sobre o assunto, teve uma idéia que lhe pareceu genial: iria falar com o capitão Crispim e pedir permissão para se ausentar do acampamento por algumas horas. "Ora" - pensou ele - "o homem não pode me negar isto. Afinal, é preciso levar em conta a minha dedicação e o meu comportamento exemplar durante tantos anos". Não conhecia, porém, o melhor caminho para escalar o morro e tinha medo de se aventurar sozinho. Ao mesmo tempo, não queria subir com os outros praças. Não ficava bem, um primeiro-sargento não pode igualar-se à soldadesca reles. Mas, positivamente, o sargento Anésio andava inspirado: poderia subir com João Afonso. Ele costumava classificar a humanidade inteira em oficiais e praças. Na vida civil, os oficiais eram os doutores, os políticos, as pessoas importantes em geral. E João Afonso, com o seu curso de Medicina, assemelhava-se a um aspirante, em vias de promoção a segundo-tenente. Depois que o rapaz aprovou o plano, Anésio foi falar com o capitão Crispim, que não opôs objeções sérias. Apenas explicou: "Eu não dou passes de saída. Mas você pode ir por sua conta e risco. Suponhamos que eu não sei de nada. Peço-lhe também que saia em segredo, pois não quero que dê mau exemplo aos soldados. E, sobretudo, procure voltar o mais cedo possível". E foi assim que o sargento Anésio lançou-se também na batalha do muro. Se um avião de observação inimigo passasse sobre a cratera naquela tarde, o observador perceberia um movimento desusado na encosta. O seu binóculo haveria de acusar pequenos grupos arrastando-se entre o arvoredo e, no meio desses grupos, talvez notasse uma verdadeira montanha humana, avançando com dificuldade, parando e tomando a avançar. Pobre Anésio! Fazia muitos anos que não cometia uma violência daquelas, e a bronquite crônica não lhe permitia um esforço continuado. Tinha de parar, encostando-se às árvores esturricadas, de raízes à mostra, e ficava bufando. João Afonso perguntava-lhe de vez em quando: "Como é? Vamos voltar? Acho que o senhor não agüenta". Mas o sargento não podia desistir tão facilmente de encontrar a italiana dos seus sonhos. Por conseguinte, depois de desabotoar completamente a gandola e bufar mais um pouco, continuou a subir. Freqüentemente escorregava, mas ia agarrando-se às raízes e aos troncos das árvores, arranhando o rosto, suando e esfalfando-se. Finalmente, chegaram ao alto do morro e respiraram aliviados. As barracas, embaixo, pareciam casinhas de brinquedo. A cratera toda aparecia como a goela escancarada de um monstro e, do outro lado, ao longe, surgia o azul do golfo de Nápoles. Junto à brecha do muro, encontraram uma patrulha de mulatos americanos. João Afonso foi soltando algumas frases em inglês, o que deixou os rapazes contentíssimos. Encostaram as carabinas ao muro e ficaram falando depressa, mascando goma e mostrando os dentes brilhantes. Ofereceram cigarros e, como João Afonso os recusasse, fizeram questão de que aceitasse ao menos alguns caramelos enormes, que um deles trazia no bolso do blusão. Depois de algumas piadas, que João Afonso compreendeu a muito custo, despediram-se e prosseguiram em seu giro ao longo do muro. Triste e miserável Pozzuoli, esparramada à beira da baia de águas de um azul tão local, tão raro de encontrar em outra parte, um azul mais vivo, e ao mesmo tempo mais translúcido, como parecias mesquinha e suja aos olhos dos soldados! Eles vinham exaustos, cobertos de poeira, a blusa do uniforme de instrução, o zé carioca, aberta sobre o peito, mas ansiosos de conhecer a cidade e os seus mistérios. Nas praças e na avenida principal, margeada por uma réstia insignificante de praia, coberta de pedregulho, circulava a mesma multidão heterogênea de Nápoles. Apenas, sentia-se ali um relaxamento maior, um abandono completo de todas as regras de moral e boas maneiras. De quando em quando, via-se um polícia militar, com uma faixa vermelha no capacete, mas nenhum deles se preocupava com a confusão em torno. Soldados bêbados passavam berrando, outros se deitavam simplesmente na sarjeta, muitos vomitavam ou urinavam ali mesmo. Para os nossos praças, aquilo parecia a derradeira escala da degradação, e todos tinham certeza de que jamais chegariam a tal estado. Aos seus olhos inexperientes, a cidade aparecia como uma Sodoma asquerosa, que um dia, diziam os mais religiosos, ainda haveria de provocar a cólera divina. " Não admira que essa terra tenha tantos vulcões. É que, de vez em quando, Deus precisa castigá-los". Positivamente, os brasileiros recém-chegados eram muito diferentes daqueles outros soldados endurecidos na guerra. Mostravam-se quase todos sentimentais e compassivos. Era com grande espanto que os paisanos os viam afastarem-se, para ceder passagem a uma senhora, ou tomar uma criança pela mão, afim de ajudá-la a atravessar a rua. As maneiras afáveis de nossa gente pareciam anacrônicas na Pozzuoli daqueles dias. Era freqüente encontrar-se algum dos nossos crioulos parado no meio da rua, cercado de uma chusma de crianças, distribuindo biscoitos ou balas trazidas do Brasil. Mas, por fim, aquele espetáculo deprimia. As crianças maltrapilhas, de braços como espetos, aqueles olhos parados, aquela palidez... E, invariavelmente, o soldado ia terminar a tarde encharcando-se de vinho ruim e azedo, que provocava azia e mal-estar. Depois, sentia-se mais próximo dos soldados de outras nacionalidades, que passavam abraçados, cantando, ou que se deitavam na sarjeta. João Afonso e Anésio alugaram uma caleça de capota arriada e ficaram andando pela avenida à beira-mar, para grande alegria dos outros praças da Bateria, que iam encontrando pelo caminho. "Rei Momo caiu na farra!" - diziam os soldados, vendo o corpanzil do sargenteante esparramado no assento da caleça. Anésio não parava de resmungar, pois as mulheres que se viam tinham uma aparência miserável e honesta, pareciam ariscas, inabordáveis. Descendo da caleça, caminharam pelas ruas principais, depois entraram nas vielas secundárias, que lembravam em tudo as ladeiras mais miseráveis de Nápoles. Havia americanos espadaúdos farejando tudo, aparentemente com os mesmos propósitos do sargenteante. Ao dobrar uma esquina, viram pregadas num sobrado a bandeirola da Cruz Vermelha e a placa "Prostation". Um posto de profilaxia contra doenças venéreas, onde se aplicavam preventivos depois de contato com mulher, e, apesar de tudo, não se encontrava nenhuma. Anésio abordou também alguns scugnizzi, mas não foram capazes de dar a indicação desejada. "Ora, e as vantagens que contou o pessoal que pulou o muro ontem!" Depois que o sargenteante se desiludiu quase por completo, Alípio conseguiu convencê-lo a ir jantar. Um molecote levou-os a uma sala no terceiro andar de uma daquelas casas velhas e sujas da avenida à beira-mar. Sentados diante de uma travessa com ovos estrelados, servidos por uma velhinha magra, viram entrar uma loira, meio raquítica, olhos azuis parados e uma cicatriz estreita e comprida no queixo. A moça cumprimentou-os e disse que se chamava Rina. Depois de comer os ovos e beber uns copázios de vinho tinto, os três sentiram-se um pouco mais à vontade. Anésio começou a dar palmadinhas nas costas da moça, que se foi encolhendo sobre a cadeira, embora não parecesse querer sair dali. O velho praça expandia-se cada vez mais. "Io andare contigo ao Brasile... sim, sim, niente guerra... tudo paz... io havere una boa casa... automóvel... fon- fon... fon-fon... una beleza... in Brasile grandes casas... muito automóvile... luxo, conforto... io havere dois cadilaques... sapere que é cadilaque?... máquina americana... tudo lustroso... quando io voltare do trabalho, pegare a máquina e... fon-fon... fon-fon... una maravilha... sí, sí... io havere cadilaque... ma forde ou chevrolete todo mundo havere... ah Brasile..." Estava mesmo comovido. Por pouco, duas gordas lágrimas não lhe escorregaram pelas faces suadas. Mas, de repente, lembrou-se do objetivo principal e disse em voz baixa a João Afonso: "Escuta, velho, como é que a gente vai fazer? Acho que o melhor é você ficar antes com ela... e vou depois". "Deixe disso. Parece que é séria". "Séria ? Não é possível... Me disseram que é tão fácil nesta terra..." "Então, pergunte..." "Hum... você sabe... o meu italiano... você já deve falar melhor. Por que não me ajuda?" "Não, para isso ainda não dá". "Neste caso, pergunto eu... mas espere um pouco..." Com os novos copázios, porém, foi perdendo a loquacidade e passando a um estado de profunda melancolia. "Pois é, velho... que é que estou fazendo aqui? Eu, um pai de família... você me compreende... a carne é fraca... mas bem que eu gostaria de resistir... ah, se você soubesse como a minha Maria é boa... eu é que não presto... é verdade que ela está velha e acabada, mas eu também já não sou nenhum galã... Ah, minha vida, minha vida... Eu só queria era chegar a subtenente... Então sim, as coisas iam melhorar. Enfim, o Fundo de Previdência... bem, você que é doutor, que é que me diz? Será que eles vão nos pagar aquele dinheiro todo? Sabe? Eu não tenho confiança nenhuma nas coisas do governo, na Viúva, como se diz... Quando precisam da gente, é palavra bonita, discurso, mistifório; depois nos dão um pontapé na bunda e acabou-se... Bem... é bobagem pensar nessas coisas... eu lá sei o que vai ser amanhã! O melhor mesmo é beber. À sua saúde, menina!" Levantando-se da mesa, caminhou na direção da moça. Abraçou-a e, como ela se encolhesse, foi dizendo: "Eh, bimba... niente medo... io não fazere niente... muita bebida... troppo cheio... io não fazere nada, não..." Vendo as coisas nesse pé, Alípio pagou a despesa e arrastou Anésio para fora. O ar fresco da tarde fez bem ao sargento Anésio, que voltou a si e começou a lamentar-se por ter deixado escapar aquele pirão. Procurou a casa onde estiveram, mas não conseguiu encontrá-la. Continuaram vagando pela cidade. Começou a escurecer. Pouco depois, teve início uma correria, pois, estando próxima a hora do toque de recolher, civis e militares apressavam-se igualmente. Magotes de soldados encaminhavam-se para a estrada de Nápoles, alguns carregando nos ombros um companheiro embriagado. João Afonso e Anésio juntaram-se a um grupo de brasileiros, mas o sargenteante logo se lembrou de que a dignidade militar não lhe permitia andar em tão reles companhia: o mais graduado era um cabo. Depois de uma comprida caminhada, chegaram ao alto do morro. Anésio cambaleava. Resfolegou um pouco mas, depois que atravessaram a brecha do muro, alegrou-se de repente, sentindo as pernas leves na descida. Escorregava, levava tombos, rolava pela encosta, rindo muito e soltando gritinhos de satisfação. Chegando ao acampamento, dirigiram-se para a Bateria e foram detidos pelo plantão, que lhes anotou os nomes. "Me desculpe, sargento Anésio, mas foi ordem do capitão". O sargenteante caminhou cabisbaixo para a sua barraca. João Afonso pouco se incomodou por ter sido surpreendido. Entrou na barraquinha e estirou-se sob a manta. Ao lado, o seu companheiro de rancho, um nortista franzino, ressonava baixinho como uma criança. Sentiu a modorra subir-lhe pelas pernas e espalhar-se pelo estômago. E como o sono estivesse chegando, sorriu satisfeito por ter vencido, mais uma vez, a batalha do muro. (...) Anésio dá um jeito no corpanzil, arruma o quepe, passa um pentinho no cabelo e esgueira-se sorrateiro pela escada. Tem vergonha da sentinela, que pode tolher-lhe a passagem e, sobretudo, fazê-lo sofrer um vexame. Por isso, ao sair do casarão, procura coser-se à parede. Finalmente, passado o perigo, toma o caminho de Silla. A estrada gelada ao luar, tem algo de fantástico; ela atrai o olhar com os seus perigos, bela e diabólica, em meio aos pinheiros e às bétulas nuas. Anésio avança para Silla. Na ponte, arrepia-se todo, com medo de algum estilhaço. As vezes, ouve granadas caindo perto mas, depois dos primeiros sustos ali na estrada, acostumou-se e sabe que não há grande perigo. É um tiro impreciso, sem observação, calculado sobre coordenadas da carta. Chegando em Silla, embarafusta por uma escada e bate numa porta, sendo recebido por Giovanna, viúva quarentona, morena, cheia de corpo, de olhar afável e tendo um começo de cabelos grisalhos junto às têmporas. O romance começou quando o comando do Grupo ainda estava em Silla. Toda a Bateria-Comando comentou então a novidade. Na hora do almoço ou do jantar, ele entrava na fila, esperava a sua vez, e, depois de servido, caminhava sobre a neve para uma árvore à beira da estrada, onde Giovanna o aguardava. Ela despejava em duas latas o conteúdo da marmita de Anésio e continuava de pé junto à árvore. Anésio tornava a entrar na fila para o engajamento, a distribuição das sobras. Tomava a refeição às carreiras e, depois, verificava se sobrara ainda alguma coisa, após o engajamento. Neste caso, fazia um sinal para Giovanna, que vinha e enchia mais as duas latas. Pobre Giovanna. "Mia povera Giovanna", como dizia Anésio nos momentos de efusão. "Corre, vá. I ragazzi stano esperando". Ela saía correndo, segurando as latas. Entrava num dos casarões e subia para o segundo andar. No quartinho abafado, havia três crianças sentadas no chão. Três crianças pálidas, magras, doentias. Anna, Gioia, Ricardo. Anna de doze anos, Gioia de dez, Ricardo de sete. Crianças sem alegria, sem infância, sem brinquedos. Anna parece ter oito anos, Ricardo no máximo quatro. "Não foi para isto que as pus no mundo, Anésio, mio povero Anésio" - disse ela certa vez. Tem um jeito bom de passar a mão em seus cabelos. Uma voz cantante, doce. Principalmente quando diz: "Buona sera." Haverá música mais sublime que esse "buona sera" lento, cantado, carinhoso? Anésio gosta de ouvi-la falar. E ela conta toda a sua vida no piccolo paese próximo a Vergato, transformado atualmente em terra de ninguém. A infância, a mocidade, o casamento, os filhos, a morte do marido. Toda uma vida simples e igual de camponesa remediada. Depois, a guerra, a fuga pelas estradas, o refúgio em Silla. Ali, pelo menos, tinham aquele cantinho, e não valia a pena aventurarem-se mais longe pelas estradas. Vivia-se apesar de tudo, arranjava-se comida com mi buon Anésio, podia-se esperar ali o fim da guerra. As crianças gostavam muito dele. Sentavam-se no seu colo, metiam-lhe a mão no bolso, para ver se trouxera caramelli. Anna de olhos profundos e sérios, rodeados de círculos roxos, Gioia de cabelos de ouro, Ricardo de corpo franzino. Eram os seus bambini, a sua família. Não adiantava fingir que era simples aventura, coisa de homem, de soldado. Realmente, aproximara-se da viúva pensando principalmente no seu corpo cheio, maduro, de pernas grossas e seios robustos. Mas, depois, foi aquela amizade boa, aquele convívio afetuoso, aquele carinho feminino em sua vida rude e insípida. Lembra-se das primeiras conversas no quartinho estreito. Ele ficou sentado na cadeira, a única existente ali, a viúva ajeitou-se no chão, ao lado das crianças deitadas sob o edredão da família, e que se apertavam uma contra a outra, para esquentar um pouco os corpos mal nutridos. E ele ouvia Giovanna falar. Espiava o edredão com o rabo dos olhos. Lembrava-se de um soldado que lhe falara sobre uma conquista que fizera, num quarto repleto de refugiados (sfolati), onde se deitara com a mulher sob o edredão comum, ao lado de outras mulheres, de velhos e crianças. Não, impossível, era o cúmulo da degradação! Ali estava aquela mulher, falando da sua vida. Era tão bom ouvi-la! Escurecia, as granadas caíam próximo à ponte, e a mulher não se cansava de falar. Anésio saiu do quarto às escuras, ela o conduziu até a escada. No dia seguinte, beijou-o na face. Carinho, intimidade, ternura - nada mais, parecia. Uma semana depois, tentou agarrá-la na escada (a gente é homem, afinal de contas). Ela desvencilhou- se. "Non, Anésio... i soldati..." - disse, apontando a escada, por onde costumavam transitar praças alojados no sótão. Mas, por despedida, ofereceu-lhe às carreiras os lábios carnudos. Na estrada de Silla, a sinistra 64, pensava naqueles lábios, no corpo ainda bom de Giovanna. Mas, sobretudo, naquele calor que se introduzira em sua vida, e que o impelia estrada afora, os bolsos do capote repletos de escatoletas, na direção do vilarejo bombardeado, fazendo esquecer o medo da morte e o temor ao coronel, a uma repreensão na Folha de Alterações, às zombarias inevitáveis dos praças. (...) Anésio esparramou o corpanzil numa poltrona meio desconjuntada, que mal agüentava o seu peso, e espichou as pernas, colocando-as sobre um banquinho. A mulher lavava roupa no tanque. As crianças estavam na escola, com exceção do Chiquinho, o caçula, de um ano e meio, que se arrastava pelo chão, brincando com umas tampinhas de garrafa de cerveja. O pensamento de Anésio voou longe. Os lábios carnudos de Giovanna, os seus olhos afáveis, a voz dizendo com aquela doçura peculiar, que certamente não existe em nenhum outro país: "Buona sera". Fora bom rever Maria, com o seu corpo feio e disforme, a sua fisionomia familiar, os seus modos um tanto bruscos, abraçar e beijar os filhos, que cresceram tanto naquele ano. Criança é bicho teimoso, que cresce e se desenvolve, que brinca e dá risada, mesmo numa casinha apertada de subúrbio. Pensou na luta que Maria sustentava para equilibrar o orçamento. "Boa e feia Maria" - repetiu mentalmente, a sensibilidade à flor da pele. Giovanna... Sentia-se uma espécie de bígamo mental. Mas que culpa tinha ele? Era da vida, do destino. Para que foram mandá-lo para a guerra? Ao beijar, antes de dormir, os lábios ressecados de Maria, vinha-lhe à lembrança a frescura de flor que havia em Giovanna, a sua robustez de campônia, a vitalidade que transparecia em todo o seu ser, apesar da vida difícil que levara. É bom não ouvir mais assobios de granada, não passar frio, mas como é duro habituar-se novamente à condição subalterna. A vida de campanha subvertera todos os valores que Anésio se acostumara a prezar. Ele que sempre fora humilde, passara a desfrutar uma condição privilegiada em país conquistado, a ser tratado com subserviência pelos que dependiam dos seus cigarros e chocolates. As mulheres que tivera nos braços, por umas latinhas de carne ordinária! Ele que fora um exemplo de cumprimento do dever, que atendera às ordens mais absurdas e cumprira as tarefas mais cacetes, ele, o obediente, o passivo Anésio, passara a transgredir os regulamentos, a sair às escondidas do acantonamento, a fim de visitar a sua Giovanna, os seus bambini... E agora? É continência pra cá, continência pra lá... Sim, senhor major... Pois não, senhor tenente... De uma feita, quando andava na rua, distraído, um capitão de polícia chamara-lhe a atenção porque não fizera a continência regulamentar. O cúmulo! Um herói da pátria, que passara o inverno em frente do Castelo, ser assim desmoralizado em plena via pública por um oficial meganha! Engolira a ofensa, mas ficava de orelhas em fogo só de lembrar o ocorrido. A vida cotidiana era mesmo um rosário de pequenas humilhações, precisava-se andar de cabeça baixa. Por enquanto, a situação não era das piores, empatara o Fundo de Previdência num terreninho vagabundo, e ainda sobrara algum dinheiro. Mas, depois, seria o problema de sempre, com as crianças crescendo, precisando de roupa, de sapatos. Todavia, naquela hora de lassidão, seu pensamento voa para longe da realidade rude, transporta-se instantaneamente sobre o mar encapelado, depois sobre o azul tranqüilo, e leva-o para junto de Giovanna, tão boa, tão meiga, tão apetitosa, com os seus lábios carnudos de jabuticaba madura. 

"Guerra em Surdina"
Boris Schaiderman

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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