FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

O LEGADO DA GUERRA

 


Foto escaneada de "Nosso Século" - 1930/1945

"Uma parte daquela massa, que agora voltava, estava fisicamente bem; outra estava mutilada, ferida, em convalescença, com neurose de guerra. Uma pequena fração logrou sair do embate da guerra retemperada, preparada para grandes realizações no pós-guerra. Passaram, por assim dizer, por um processo que lhes fortaleceu a vontade e firmou o caráter, embora sob a forja da violência e da destruição. Foram seres excepcionais que, imediatamente, voltaram ao seu estado normal, como se nada tivesse acontecido. A grande maioria, no entanto, teve problemas ao reintegrar-se na vida da paz. As neuroses de guerra tiveram as manifestações mais extravagantes em grau, maior ou menor, naqueles organismos que sofreram, diretamente, os horrores da guerra. Com o passar do tempo, todavia, as marcas foram desaparecendo e a vida se normalizando. Uma pequena parcela foi para os hospitais neuropsiquiátricos. Alguns ficaram confinados permanentemente, morrendo e desaparecendo aos poucos. Irrecuperáveis, o seu destino foi o mais cruel. Outros, após uma temporada em hospitais, foram devolvidos à vida comum, porém, em estado precário. O tratamento, incompleto, pouco adiantou. Voltaram para as ruas; ora empregados, ora desempregados; transformando-se em mulambos humanos, desmemoriados e perdidos, maltrapilhos, passando as noites ao relento e vivendo na mais negra miséria. Não obstante as medidas tomadas, a sociedade brasileira não teve condições de absorver estes homens e não é surpresa encontrar ainda um pracinha perambulando pelas ruas, como o filho esquecido pela Pátria. O Brasil pagou um pesado tributo pelas conseqüências maléficas a milhares de ex-combatentes tragicamente afetados pela guerra."

Gen. Raul da Cruz Lima Júnior
"Quebra Canela"


Ferido de Guerra e o Presidente Getúlio Vargas
Foto escaneada de "Nosso Século" - 1930/1945

Transtorno de estresse pós-traumático:
o enfoque psicanalítico

A neurose, em geral, ocorre por um conflito entre o ego e os instintos sexuais que o primeiro repudia. O perigo residiria dentro do próprio indivíduo. Na neurose traumática (histeria traumática) ou na neurose de guerra, o perigo ocorre nas experiências assustadoras ou graves acidentes. Ou seja, há também o real perigo externo. Porém, Freud afirma que seria muito improvável que uma neurose ocorresse somente por um real perigo mortal, sem a participação de estados inconscientes mais profundos do aparelho anímico. Na neurose traumática dos tempos de paz, observa-se uma relação entre medo, ansiedade e libido narcísica. O termo neurose traumática não é patrimônio da psicanálise, já tendo sido utilizado em 1884 por Oppenheim. Observa-se que, nas neuroses traumáticas de guerra, ou de tempos de paz, o ego humano defende-se de um perigo que o ameaça de fora, ou que está incorporado a uma forma assumida pelo próprio ego. Nas neuroses de transferência em épocas de paz, o inimigo é a libido, cujas exigências parecem ameaçadoras. Sendo assim, o ego tem medo de ser prejudicado, por uma violência externa ou pela própria libido. Um outro fator importante na formação do sintoma neurótico é o ganho secundário imediato trazido pelo sintoma. Na neurose de guerra, por exemplo, o afastamento da frente de combate seria um ganho evidente: afastamento das exigências perigosas e ultrajantes feitas pelo serviço militar; também o medo de perder a própria vida, oposição à ordem de matar pessoas e supressão da própria personalidade pelos superiores. As neuroses de guerra eram inicialmente consideradas patologias decorrentes de graves danos ao Sistema Nervoso Central (SNC), como hemorragias ou inflamações, porém após investigação anatômica sem alterações nestes pacientes, passou-se a acreditar que ocorriam lesões delicadas nos tecidos sendo as responsáveis pelos danos observados. A outra hipótese, que prevaleceu, foi a de perturbações funcionais, com o SNC intacto. Sendo assim, as neuroses de guerra assemelham-se às neuroses de paz, em que ocorrem perturbações da vida emocional, com conflitos mentais inconscientes. Como somente a minoria dos soldados apresenta neuroses de guerra, Freud postulou que os motivos evidentes que fariam qualquer soldado saudável desertar ou fingir-se de doente são contrabalançados por outras motivações inconscientes, como: ambição, auto-estima, patriotismo, hábito de obediência e o exemplo dos demais. Tratavam-se os neuróticos de guerra como alguém que se fingia de doente para fugir de seu dever, tentando fazer o contrário: trazê-lo da doença para a saúde com um tratamento elétrico doloroso, associando doença à dor, inclinando a balança a favor da recuperação. O paciente podia recuperar-se, mas o efeito do tratamento era pouco duradouro, levando-o, às vezes, à morte ou ao suicídio. O tratamento visava à recuperação do soldado para voltar à guerra e não o indivíduo para se recuperar de sua doença.

Daniela Meshulam-Werebe
Revista Brasileira de Psiquiatria - vol. 25 - supl. 1 
São Paulo - Junho 2003


Imagem escaneada de "Nosso Século" - 1930/1945

 "Rio, agosto de 1945

Lembro-me, coisa de um mês atrás, eu saia da casa de Aníbal Machado pela madrugada. Para receber o grande poeta Pablo Neruda, Aníbal convidara muita gente. Ali estavam nossos grandes poetas e muitos homens inteligentes e amigos, e pessoas que cantavam e tocavam, e havia moças sentadas na grama do jardim, em grupos, rindo e bebendo cerveja e cachaça, na noite azulada de luar. Quando vínhamos pela calçada deserta, avistamos um pracinha. Viera com certeza do Bar 20, e estava talvez um pouco bêbado - seus passos não eram muito seguros. Parou um pouco na calçada e ficou olhando a parede de um prédio fechado. A calçada era de cimento; e entre esses dois planos hostis, ele era um pequeno homem sozinho. Deu alguns passos ao acaso, ora olhando o muro, ora olhando o chão. Talvez por vê-lo assim, logo depois da generosa agitação de uma festa; ou talvez porque dias antes eu havia ido à cidade levar uma criança que queria ''ver os soldados' chegando da guerra, que a multidão comprimia em uma grande emoção fraterna - a solidão daquele pracinha me fez triste. Com seu uniforme amarrotado de lã verde, as botas de combate e o bibico, ele era, pequeno e escuro, um elemento patético - um pobre homem dialogando com os cimentos e as pedras da rua vazia. Ao seu silêncio confuso e implorativo de bêbado, os dois planos respondiam com um silêncio vazio, seco, sem apelo nenhum. Com certeza, ele já contara a muitas pessoas a sua história; talvez pouco antes estivesse num bar contando a sua história. Mas agora estava sozinho, e a parede de cimento e o chão de cimento não queriam saber de sua história, e o faziam ficar assim, abandonado diante de si mesmo. Tudo que ele pudesse ter vivido, visto e feito era inútil: estava ali sem saber o que fazer, recolhido à tristeza de sua solidão. Acabara a viagem; tinham-se acabado as emoções, o medo, a aventura, a saudade, a confraternização; o oceano de humanidade em que vagara na guerra, e o erguera tão alto dias antes na Avenida, lançara-o ali, naquela triste praia de cimento. Tive impulso de chamá-lo, levá-lo para a mesa de um botequim, fazê-lo falar um pouco de si mesmo, evocar nomes, coisas, lugares e dias - tirá-lo daquela ilha de cimento em que estava perdido. Mas passei apenas, e a mulher que ia ao meu lado disse: - 'Coitado desse pracinha...' Não tive o gesto de amigo, deixei-o na solidão trivial da rua. Se ele ao menos caminhasse dois quarteirões - pensei - ficaria só diante do mar aberto, poderia berrar, deitar na areia, chorar, se quisesse. No dia em que escrevo, vejo no jornal um telegrama de Roma dizendo que embarcaram em Nápoles mais 2 300 soldados brasileiros. E o matutino põe esse título de uma boa vontade ingênua, mas fastidiosa, quase irritante: 'Regressam 2 300 heróis da FEB.' Não, em 2 300 homens não há 2 300 heróis. Há muito poucos heróis, e vi alguns; e o que mais me espanta neles é seu ar de homens comuns e, mais do que o ar, é serem eles homens comuns. Numa hora em que os outros hesitam, ou se deixam tomar pelo furor das coisas, o herói resiste, e vai, e repete dentro e fora de si mesmo o gesto do homem comum, e insiste neste gesto com um surdo desespero. É um gesto de fraternidade com o destino mais duro e melhor, e ele existe dentro de qualquer um; o herói representa-o numa patética teimosia, ele é o homem comum que se desdobra em um friso de minutos, horas e dias que então ficam eternos. Ele dá o lance, e o agüenta para sempre. O pracinha abandonado da Rua Visconde de Pirajá era, talvez, um herói; há heróis, e eles são assim, daquele mesmo jeito triste e banal de qualquer outro homem; podia ser um."

Cadernos de Guerra - 1944/45
Texto de Rubem Braga

 


O que aconteceu aos nossos pracinhas: Ten. Isabel Novaes Feitosa e um de seus pacientes.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

A LOUCURA DA GUERRA

O Professor Jurandir Manfredini, livre docente de Psiquiatria da Faculdade Nacional de Medicina, recentemente eleito pela respectiva congregação para ocupar a cátedra interina dessa matéria, teve participação direta nos serviços psiquiátricos das Forças Armadas Brasileira, na última guerra. Não só colaborou na seleção prévia da tropa, mas ainda, atuou durante um ano na Itália, como chefe do Centro Neuropsiquiátrico da FEB em Nápoles e, depois como um dos psiquiatras incumbido do estudo da situação dos neuróticos de guerra na fase posterior ao conflito. Possuindo tanta e tão ampla experiência do problema, foi convidado por nós a falar a respeito desses doentes mentais produzidos pela guerra que ainda hoje estão internados no Hospital Central do Exército, em outros hospitais militares e estabelecimentos civis de todo o Brasil.

Evidentemente esse é um assunto muito vasto e complexo, que a rigor não pode ser contido numa entrevista e até não devia ser trazido para a imprensa leiga dado a seu caráter técnico - disse-nos ele - Tenho de fato alguma experiência direta, pois, como de outra feita lembrei a O Globo, atuei nas três fases da guerra: no pré-guerra, quando se selecionava a Força Expedicionária; na guerra, tratando de neuróticos em plena campanha, e no pós-guerra, estudando o problema clínico e legal de cada neurótico.

Quis o repórter de O Globo saber se a neurose de guerra é de estudo recente. Eis a resposta do Professor Manfredini, que é coronel-médico da reserva do Exército: - Os primeiros trabalhos valiosos a respeito começaram a aparecer depois da guerra franco-prussiana de 1870 e na guerra russo-nipônica de 1905. Mas onde ela veio a ser estudada mais ampla e detalhadamente, em todo os seus aspectos, foi na primeira Guerra Mundial de 1914-1918. É verdadeiramente fabulosa a bibliografia produzida nesse período pelos psiquiatras aliados como pelos alemães. Devemos aos franceses, em particular, estudos clínicos excelentes, sem dúvida os da melhor qualidade didática e científica. A Segunda Guerra Mundial, em realidade, não acrescentou muita coisa nova ao muito que já tinha sido visto e observado de 1914 a 1948. Houve apenas maior esforço interpretativo dos distúrbios à luz das novas tendências dinâmicas da psiquiatria.

Explicou ele, atendendo a outra pergunta do jornalista: - Em essência, não há uma neurose nova, autônoma, que se diferencie rigorosamente de formas neuróticas encontradas na rotina do tempo de paz. Se examinarmos bem os fatos, veremos que a chamada neurose de guerra é um símile clinico da neurose de angústia que a cada momento encontramos na rotina dos serviços psiquiátricos e dos consultórios. É uma neurose de angústia com o aspecto particular de ter sido produzida pelos fatores de guerra. Naturalmente, apresenta ao observador experiente distingui-la da simples angústia de causa sexual ou conflitiva. O fundo fóbico é mais intenso, a própria ansiedade leva a um estado de maior desespero e inquietude. Além disso, há freqüentes alterações perceptivas e da memória. E há maiores sensações corporais penosas.

Pergunto ao psiquiatra se há uma neurose de guerra no sentido de que tenha sido produzida realmente pela guerra. - Quanto a isso não tenho a menor dúvida e a minha experiência não me permitiria enganar-me. Existe, efetivamente, uma neurose de guerra no sentido de ter sido produzida pela guerra. Que a guerra, com os seus terríveis fatores de exaustão e traumatização, é capaz de criar estados neuróticos em indivíduos anteriormente sadios, eis um fato que é indiscutível. É verdade que a mobilização não consegue evitar que muitos neuróticos que já o eram há muitos anos, acabem sendo enviados aos teatros de operações. Mas esses não são, absolutamente, neuróticos de guerra, mas apenas simples doentes mentais, iguais a todos os outros do tempo de paz. Foram neuróticos e voltaram como eram, isto é, neuróticos nada mais. Quando muito, pode acontecer, o que é freqüente, que a neurose volte agravada pelas circunstâncias da campanha. Mas, o exame bem feito, apura a existência de uma estrutura neurótica prévia, sobre a qual a guerra pode ou não influir. Nesse trabalho eu os classifiquei como sendo cinco principais. O primeiro deles é a exaustão física prolongada, o “stress” orgânico que esgota as defesas e ultrapassa de muito os limites normais de fadiga fisiológicas. O segundo é a exaustão psíquica, conseqüente do estado de medo continuado e de expectativa de perigo. É um lento “stress” emocional, que age rompendo pouco a pouco as resistências psíquicas. O terceiro é a explosão de granadas nas proximidades do indivíduo, atuando seja pelo choque físico indireto, seja por tal choque associado a um impacto emocional simultâneo. Esta terceira causa teve um grande valor estatístico na gênese de neurose na última guerra. O quarto é o choque físico direto, desde a concussão cerebral até a grandes ferimentos abertos do encéfalo. O quinto e último é o trauma emocional súbito e violento, que abala o indivíduo e é muito freqüente no curso das campanhas (cenas de terror de morticínio, de fuzilamento, de companheiros que caem mortos ou mutilados, de inimigos que são obrigados a matar etc.). Como se vê, há fatores vários que podem gerar a neurose de guerra.

Solicito ao psiquiatra que destaque as neuroses mais importantes. - Pessoalmente posso garantir que vi casos dessas cinco variedades: neuróticos por exaustão física, por “stress” psíquico, por explosão de granadas, por choque físico do crânio e da substância nervosa e, finalmente, por choque emocional violento. Os que me pareceram ter as formas mais intensas de neurose de angústia de guerra, foram o “stress” psíquico (medo contínuo e o pânico da expectativa), as explosões de granadas e os choques emocionais. Destes últimos, um que encontrei com freqüência em muitos neuróticos e sempre me impressionou, foi o relacionado com a necessidade de matar. A maioria absoluta dos combatentes não deseja morrer, mas é também verdade que não deseja matar. Ser obrigado a matar, sobretudo, quando isso aparece como uma necessidade súbita, inesperada, constitui, segundo minha experiência clínica, uma das causas mais decisivas e dramáticas da neurose de guerra. Tive inúmeros pacientes cuja triste doença foi produzida exclusivamente pela brutal reação emotiva decorrente do fato de terem matado, em ação de guerra, um ou alguns seres humanos.

Quero saber do Professor se a neurose de guerra nasce já com o feitio que apresenta depois, no retorno à Pátria. Ele responde: Isso é muito variável. Muitos casos começam, desde logo, com o aspecto clínico de neurose de angústia, que depois se prolonga como tal pela vida afora. Outras vezes, há um episódio inicial de psicose reativa, de feitio clínico variado, parecendo ora melancolia, ora mania, ora esquizofrenia, ora psicose traumática. Mas, passando a fase psicótica, fica um resíduo neurótico com os traços típicos da neurose de guerra. Uma eventualidade muito curiosa, de que vimos e testemunhamos vários exemplos, foi a de certos pacientes que só vieram a apresentar a neurose depois de retornar ao país e até depois de passado um tempo mais ou menos longo, quando já reintegrados em suas atividades civis. Naturalmente isso aconteceu em geral porque os pacientes silenciaram os seus padecimentos ou procuraram resistir até o máximo possível. Mas, casos houve que só podemos explicar supondo que a estrutura neurótica provocada pela guerra, ficou numa espécie de latência, sobre a qual incidiram fatores de flagrantes posteriores. Isso é, deu-se o conhecido fenômeno da gota d’água fazendo transbordar o copo. 

 Terá cura a neurose de guerra? é o que todos, naturalmente desejam saber.
- Infelizmente, sou pessimista a esse respeito, na base de minha experiência. A neurose de angústia da clínica civil, geralmente sexógena ou conflitiva, apresenta prognóstico muito favorável, pois se obtêm curas radicais com a psicoterapia. Mas, a verdadeira neurose de guerra, mostra pouca tendência à remissão, é extremamente resistente ao tratamento. Em geral, ela se cronifica sob a forma de um resíduo irremovível. Parece que o impacto dos fatores de guerra é demasiado brutal e atinge muito violentamente a estrutura da personalidade, criando-lhe um estado distímico profundo e sem remédio. Acompanhamos o tratamento de alguns por vários anos sem que tivéssemos satisfação de ver modificações animadoras.

Indago ao médico se os pacientes neuróticos ficam inutilizados. - Isso depende da gravidade e intensidade do núcleo neurótico. Há casos leves (leves desde o início ou melhorados pelo tratamento) aos quais não podemos chamar de inutilizados. São capazes de muitas atividades e de uma atuação razoável no meio profissional e familiar. Mas esses mesmos vivem, em geral, numa espécie de equilíbrio emocional instável, pois quaisquer fatos, contrariedades, preocupações mais fortes, podem agravar muito o estado de ansiedade e aumenta a depressão que está no fundo do quadro clínico. Quanto aos casos graves, informa o Dr. Manfredini, esses, sim, estão em geral praticamente impossibilitados de toda forma de atividade. Apresentam uma depressão ansiosa de tal ordem, que precisam procurar o mais completo repouso e silêncio. Tudo os perturba e atormenta, todos os estímulos fortes os fazem sofrer, em particular o ruído. Vivem numa superexcitação fóbica terrível, numa expectativa de perigo possível. A ansiedade leva-os a verdadeiras tempestades de desespero, de prantos, de explosões irritáveis, de tentativas de agressão, não sendo rara a tentativa de suicídio. Sofrem de cefaléias intensíssimas, de insônia, de sensações aflitivas pelo corpo. Sua vida torna-se, em realidade um verdadeiro inferno. Seu maior desejo é fugir de tudo e de todos, e encontrar em algum lugar uma paz impossível. Assim sendo, como poderiam esses pobres seres trabalhar, enfrentar a luta cotidiana, viver em contato com a sociedade? E salienta o Professor: Sem dúvida esses graves enfermos precisam ter amparo financeiro, que os liberte dos problemas de subsistência. Assim procedi com todos os casos que tive de estudar e de opinar a respeito, entre 1945 e 1948. Sempre que o caso me pareceu bem caracterizado, opinei pela total invalidez, de modo a favorecer o paciente com todas as vantagens que as leis estabelecem para casos tais.

Ventilo a possibilidade de ser o psiquiatra enganado. Esclarece o professor:
- Possibilidade há, e muitas. Um engano sempre possível é considerar como exclusivo neurótico de guerra um individuo que já sofria de sintomas neuróticos antes da convocação ou mobilização. Faz-se sempre um exame detalhado e cuidadoso para evitar tal engano. Pesquisam-se bem os seus antecedentes, com informes diretos e indiretos. Mas, apesar de todo o cuidado, acredito que não se possa eliminar certa margem de erro, inevitável, no caso, mas, ainda assim, mínima. Outro engano também possível é o que ressalta de velho fenômeno da simulação, comum em todas as guerras e no após-guerra. No caso da neurose de guerra a simulação é facilitada pelo caráter quase todo sugestivo dos distúrbios. Trata-se mais de alegação do que de simulação, propriamente. Como controlar e apurar a verdade de suas queixas? Parece difícil. Contudo, depois de se ter examinado certo número de verdadeiros neuróticos de guerra, adquire-se uma espécie de experiência, de faro, de argúcia, que permite desconfiar da simulação, da falsa alegação, recusando-a ou desmoralizando-a. Vimos alguns casos dessa natureza, mas foram muito poucos, o que diz bem, sem dúvida, do caráter do brasileiro.

Não acho que o amparo material seja bastante para esses homens, confessa francamente o coronel Manfredini. A terrível situação do neurótico de guerra exige que, ao lado do sustento material, se lhe dê também um sustento psicológico continuado. Naturalmente, retornando ao meio exterior, eles próprios procuraram esse amparo psicológico para aliviar hipertensão emocional em que estão sempre, isso é: a sua ansiedade, o pânico, as fobias e o tremendo sentimento de insegurança. O ideal é que o neurótico de guerra esteja sempre sob as vistas de um psicoterapeuta ou orientador psicológico. Desde que ao Estado é difícil prover a grande massa de neuróticos de guerra, com tal apoio psicoterapêutico contínuo, é de desejar que eles próprios o procurem e obtenham de outra forma. Mas que o procuram e obtenham seja como for, para fazer diminuir e, se possível, cessar o peso da cruz dolorosa que a impiedade brutal da guerra colocou em seus frágeis ombros sofredores.

Encerra suas declarações o Professor Manfredini falando sobre a Psiquiatria e a Guerra: - Sem dúvida alguma a psiquiatria progrediu muito com as duas guerras, sobretudo no estudo do mecanismo e reações emocionais e seus efeitos psicológicos. Mas, para terminar, devo dizer como expressão do meu sentimento pessoal, que eu desejaria que ela jamais tivesse progredido por esse caminho sangrento e a esse preço doloroso. Mais valeria, para a paz do nosso coração, uma ignorância feliz e sem remorsos, do que uma ciência construída sobre cadáveres e destroços humanos.

No setor das doenças neuromentais, os psiquiatras agiram sempre com o maior critério e a mais perfeita honestidade. Todos os casos de expedicionários que apresentaram distúrbios psíquicos, quer na guerra, quer depois dela, foram estudados, acompanhados e tratados com o maior detalhe e cuidado pelo grupo de especialistas do HCE, até ser estabelecido um parecer final sobre a sua cura ou cronicidade e fixado o tipo de amparo cabível neste último caso. Mas houve falhas e injustiças como se verá em capítulos posteriores desta reportagem. Atribuímos essas falhas e essas injustiças à margem de erro que todos os homens bem intencionados cometem, mas ainda é tempo de corrigi-las. Entretanto, convém acentuar que, dentro da justiça e da honestidade técnica, prevaleceu sempre, entre os especialistas do HCE um espírito liberal no sentido de, em caso de dúvida, favorecer o paciente em estudo. Assim, inúmeros foram os expedicionários afastados da atividade com todas as vantagens das leis protetoras e que hoje se acham plenamente amparados. O médico que acima se pronunciou, que está afastado do Exército, e os outros que continuam a trabalhar no HCE deram o máximo de consideração ao fato de o paciente ter sido combatente, haver participado pessoalmente de ações bélicas no “front”. Consideraram essa particularidade como o fator de maior merecimento, acima dos quaisquer outros. Na opinião da maioria desses psiquiatras o combatente direto prestou um serviço à sua pátria que não tem paralelo com nenhuma outra forma de atividade. E é através do exame psiquiátrico que se pode bem apreciar a extensão dos profundos desgastes psíquicos e nervosos que as ações bélicas (combates, patrulhas, permanências em trincheiras, etc.), produzem nos combatentes. Estes são os heróis e as maiores vítimas da guerra. E para eles deve dirigir-se o nosso maior interesse humano. Eis porque achamos que os casos adiante apontados, falhas evidentes, devem ser resolvidos como merecem. Humana e rapidamente.

"O Outro Lado da Glória"
José Leal - Jornal "O Globo"


O que aconteceu aos nossos pracinhas: um capitão americano acompanha o soldado brasileiro Yacovo, o maior
mutilado da FEB. Perdeu parte de uma perna, três dedos da mão direita e teve o corpo cheio de estilhaços.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

Guerra

Tanto é o sangue
que os rios desistem de seu ritmo,
e o oceano delira
e rejeita as espumas vermelhas.
Tanto é o sangue
que até a lua se levanta horrível,
e erra nos lugares serenos,
sonâmbula de auréolas rubras,
com o fogo do inferno em suas madeixas.

Tanta é a morte
que nem os rostos se conhecem, lado a lado,
e os pedaços de corpo estão ali
como tábuas sem uso.
Oh, os dedos com alianças perdidos na lama...
Os olhos que já não pestanejam com a poeira...
As bocas de recados perdidas...
O coração dado aos vermes, 
dentro dos densos uniformes...

Tanta é a morte
que só as almas formariam colunas,
as almas desprendidas...
- E alcançariam as estrelas.
E as máquinas de entranhas abertas,
e os cadáveres ainda armados,
e a terra com suas flores ardendo,
e os rios espavoridos como tigres,
com suas máculas...

E este mar desvairado de incêndios e náufragos,
e a lua alucinada de seu testemunho,
e nós e vós, imunes,
chorando, apenas, sobre fotografias.
- Tudo é um natural armar e desarmar de andaimes
entre tempos vagarosos,
sonhando arquiteturas.

Cecília Meireles

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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