FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 


No dia 11 de maio de 1945, a FEB fez rezar, na Catedral de Alessandria, solene missa
em homenagem aos combatentes tombados no cumprimento do dever.
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

A OCUPAÇÃO MILITAR
03 Mai a 02 Jun 1945

Represálias

Concluída a guerra na Itália e em todo o continente europeu, com a rendição incondicional de todas as forças alemãs, a 8 de maio, seguiu-se a fase da ocupação militar. O inimigo comum estava derrotado, porém, era preciso, ainda, desarmar os espíritos e preservar os vencidos contra as represálias de terceiros e os horrores da fome. A missão exigia muita discrição e prudência dados os antagonismos que há muito vinham dilacerando o povo italiano, dividido em duas facções que agora permutavam o poder. A missão da FEB resumia-se, pràticamente, na guarda de alguns serviços públicos e na repressão a distúrbios perturba dores da ordem interna, dentro dos setores da sua responsabilidade, limitados pela área ocupada, enquanto não era substituída por unidades regulares do Governo Militar, órgão competente na gestão dos negócios públicos em regiões militarmente ocupadas. Durante esta fase, agradável pela oportunidade que oficiais e praças tiveram para conhecer o Norte da Itália, verdadeiro jardim ornamentado de flores como Milão, Turim, Pádua, Como, Veneza, e tantas outras cidades, porém, profundamente dolorosa para quem teria de assistir à perpetração de atos de verdadeira selvageria, praticados pelos "partigiani", contra os vencidos, em absoluto contraste com os elevados padrões de cultura do povo. Dolorosamente, para os italianos a guerra não havia ainda de todo terminado, pois a simples passagem de um velho fascista ou mero colaboracionista à vista de um adversário era motivo de atritos, represálias, desordens, que só o tempo consegue desfazer. Eram freqüentes as queixas e os pedidos de garantias dos vencidos, ameaçados pelo rancor dos "partigiani", que chegavam ao cúmulo de convidar estranhos para assistirem a fuzilamentos e outras crueldades semelhantes, com as quais procuravam punir velhos e irreconciliáveis desafetos, julgados, sumariamente, por tribunais populares, fazendo relembrar aqueles bárbaros espetáculos dos coliseus romanos, durante o terrorismo cesarino. A obra erigida pelos "partigiani" junto às forças aliadas representa qualquer cousa de imperecível e extraordinário pelo espírito de sacrifício e de renúncia com que se empenharam. Entretanto, pequeno grupo procurou empaná-la, ofuscando-lhe o brilho com atitudes injustificáveis pelos excessos e requintes que lhes emprestaram. A própria FEB deve-lhes inúmeros serviços, sendo extremamente reconhecida a muitos deles pelo empenho e pela dedicação com que procuraram ajudá-la nos instantes mais difíceis da sua luminosa trajetória. Lutando como podiam, isolados ou em grupos, ora atuando ao lado das forças aliadas, ora nas retaguardas inimigas onde desempenharam papel de grande magnitude, colocaram os sagrados interesses da Pátria muito acima dos seus negócios individuais, servindo-a com raro desvelo. Agora, porém, excediam-se alguns como se não bastasse tanto horror e tanto sofrimento. As autoridades aliadas procuraram coibir estes atos, mas tamanho era o ódio e a revolta contra os fascistas e os seus colaboradores, que redundaram infrutíferos muitos dos esforços. Durante 25 anos de lutas partidárias, tanto foi o domínio de Mussolini, o povo aguardou por este momento. Muitos perdoaram os algozes, outros esqueceram-nos, alguns trataram-nos com indiferentismo, todavia, uns tantos, os mais sedentos de vindita, só tinham um propósito: morte aos famigerados fascistas. Conhecemos alguns destes fanáticos. Certa vez, quando de passagem por Pontenure, fomos convidados para assistir a um desses degradantes atentados. Um fuzilamento era o programa. Recusamo-nos, delicadamente, após tentar demovê-los da sua repugnante idéia. Ao se retirarem julgamos, ingenuamente, que houvéssemos atingido nosso propósito, tal o silencio que se fez após as nossas últimas palavras. No dia seguinte, porém, soubemos que haviam fuzilado as vítimas por trás da murada do cemitério local. Curiosos, dirigimo-nos até o local, onde, de fato, se encontravam tombados alguns corpos enfileirados. Entre eles, identificamos a silhueta duma infeliz mulher e o vulto negro dum sacerdote, revelando requintes dum barbarismo mórbido. Doutra feita, nesta mesma vila, grata para nós porque aí recebemos a notícia do término da guerra, duas graciosas senhoritas, emilianas legítimas, nos procuraram, aflitas, para que evitássemos lhes cortassem os belos cabelos, tão loiros quanto o dourado do sol poente. Perseguiam-nas alguns "partigiani" inconformados com o atencioso tratamento que haviam dispensado a alguns alemães. No dia seguinte, pela manhã, qual não foi a nossa surpresa, lá estavam as duas jovens de turbante à cabeça, encobrindo, como tantas outras, as marcas da violência. Noutra ocasião, retornávamos dum passeio, quando três mulheres em desalinho, vestes rasgadas, punhos sangrando, corriam ao nosso encontro, implorando socorro. Alguns "partigiani", dizendo-se credenciados pelas autoridades aliadas de ocupação, tentavam levar, violentamente, as suas bicicletas ante os protestos e a reação das infelizes, convictas de que não passavam de meros salteadores. Felizmente, conseguimos evitar desgraça maior, fazendo com que os homens se afastassem do local. Cenas como estas devem ter se sucedido por toda parte, semeando ódios, acirrando paixões, oprimindo corações, rebelando consciências que, apenas, adormecem ou silenciam, momentaneamente, à sombra dos vencedores, para despertarem, amanhã, mais virulentas, agressivas e exterminadoras, provocando novas guerras de conseqüências cada vez mais imprevisíveis. Aí está, em cores bem acentuadas, um dos quadros mais dolorosos duma guerra. Tombar diante das balas duma metralha ou das granadas dum canhão, em cumprimento à honrosa missão que a Pátria confia aos seus combatentes, é um privilégio e um orgulho, porém, cair indefeso frente a armas criminosas, é doloroso e patético. Este era o drama que se desenrolava a coberto duma ocupação pacífica, humana e respeitosa. Tudo não passava de velhas intrigas geradas por um regime de força em que a liberdade só existia enquanto não se chocava com o egoísmo e a prepotência do Estado. Aqui, no fundo deste quadro, dramático e trepidante, bem se ajusta aquele velho aforismo que diz: "Quem semeia ventos colhe tempestades".

"O Brasil na II Grande Guerra"
Ten. Cel. Manoel Thomaz Castello Branco



Cardápio do Banquete da Vitória com a as assinaturas dos Generais, oficiais do Estado Maior
da 1ª DIE e todos os comandantes dos corpos que a formavam
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" - Elza Cansanção de Medeiros

O período intermediário entre o término da guerra e o retorno ao Brasil - o qual demandou alguns meses -o soldado brasileiro aproveitou para andar. Talvez tenha sido o que mais se movimentou por toda Europa, nas aventurescas fugas denominadas, sugestivamente, de "tocha". Com um bornal cheio de cigarros e chocolates americanos, um punhado de liras no bolso - garantidas pelo governo americano -, o expedicionário estava armado e equipado para ganhar as estradas, dando início a uma tocha. Esta não tinha, a rigor, destino certo nem previsão de duração da viagem. Era pôr o pé na estrada, tomando o rumo que lhe desse na telha, sem nada determinado, sem saber onde e quando chegar, apanhando as caronas que pudesse a torto e a direito. As melhores caronas, as que a gente mais aproveitava. eram as conduções dirigidas por enfermeiras (de qualquer nacionalidade), freiras e padres. Nessas a gente se demorava mais e às vezes até ganhava um pernoite, uma botelha de vinho e um pão caseiro, para prosseguir na tocha. As piores caronas eram os veículos dos policiais militares (de todas as nacionalidades); quando, por engano, apanhava-se uma dessas viaturas, ficava-se um tempão mudo, de cara fechada, sem assunto prá falar e descia-se na primeira encruzilhada: "Obrigado! Eu vou doutro lado..." A viagem só terminava quando terminavam os cigarros, os chocolates e as liras. Viam-se soldados brasileiros zanzando por toda a Itália, França, Bélgica, olhando curiosos e abobalhados telas, estátuas e ruínas que, muitas vezes, nem sabiam de que se tratavam. Só a Suíça não permitia a entrada de soldados estrangeiros em seu território; o ingresso era barrado na fronteira. Nos demais países, as fronteiras eram livres para os soldados aliados. Até na Rússia emergiram soldados brasileiros e de lá foram mandados de volta. Os grupos, os magotes de brasileiros, eram conhecidos de longe, simploriamente, perambulando pelas ruas das cidades, sondando as coisas e os lugares onde podiam entrar, meio acanhados e meio ousados, desgraciosos, pessimamente vestidos. Era um espetáculo constrangedor ver aqueles sofredores patrícios, egressos ainda há pouco de uma campanha que lhes foi penosa, que lhes exigiu tantos sacrifícios em nome da Pátria, causarem susto e pavor, com sua má aparência, às populações de pequenas cidades mais afastadas, pois mal-ajambrados, como se apresentavam eram confundidos, não poucas vezes, com desertores e evadidos de prisões e não como soldados de um exército regular. E, inacreditavelmente, entre os vitoriosos!...

"Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira"
Leonércio Soares



Cardápio do Banquete da Vitória 
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" - Elza Cansanção de Medeiros

PIACENZA

Os dias foram passando e começamos a nos familiarizar com a cidade. Piacenza é uma bela cidade, muito limpa e alegre, cheia de moça bonitas. É também uma cidade universitária, havendo até uma quadra muito ao gosto dos piacentinos, que nós logo aprendemos:

"Viva Piacenza.
Cita de le belle donne
Son Ia coluna
De Ia Universitá".

A cidade não tinha sido atingida pelos bombardeios, em comparação com os arredores, completamente devastados. Os brasileiros tomaram conta dessa hospitaleira cidade italiana. Em toda parte se viam as fardas verde-oliva, nas ruas, nos cinemas e festas. O serviço especial da FEB instalou um club para os soldados, onde toda a noite havia dança, ao som de alguma charanga. Nós, irreverentemente, logo apelidamos o clube de "Gafieira do Caxias". No princípio era um vasto ajuntamento de homens, as moça estando ainda um pouco tímidas. Quando algum felizardo aparecia com uma "bionda" era um acontecimento. Logo, porém, as garotas foram percebendo que os "brasiliani" eram muito "bravi, siempre com cigarreti e chocolati". Em pouco, a "Gafieira do Caxias" tornou-se um dos pontos de atração da sociedade local. Aquelas mesmas botas que tinham palmilhado duros caminhos agora amassavam os mimosos pés de alguma simpática piacentina. As vezes havia grossa pancadaria, como soe acontecer, mas acabava bem, em abraços, beijos e convites para beber. Os italianos num relance perceberam como os brasileiros gostavam de dançar e, em pouco tempo, abriram-se na cidade vários clubes de danças. Abriam à tardinha e duravam abertos enquanto os dançarinos resistiam. Isso sempre, é claro, acompanhado de umas divertidas briguinhas para quebrar um pouco a monotonia e o protocolo do ambiente. Os italianos andavam encantados com os brasileiros, tudo ia num mar de rosas, mas o pessoal já começava a se impacientar, pensando na volta. Nos arredores da cidade havia várias aldeias e uma delas era meu ponto predileto de passeio. O Elias e eu fomos dos primeiros que descobrimos esse oásis. Chamava-se Castel Darquato. Umas poucas dúzias de casinhas agrupadas em torno de um castelo antigo, toda ajardinada, tendo uma tratoria com belo jardim cheio de rosas, e depois, para completar a maravilha, não havia soldado de espécie alguma. A aldeia ainda não tinha travado conhecimento com a malandragem brasileira e os aldeões estavam ainda bisonhos. Foram uns tempos deliciosos, mas o Elias bateu com a língua nos dentes, e em breve a aldeiazinha, que era verde da grama e vermelha das rosas, ficou só verde, mas verde de pracinhas. Parecia praga de gafanhotos. Antes, com um maço de cigarros e um pouco de chocolate, eu tomava até banho de champagne. Com a invasão, o câmbio subiu logo. Um maço de cigarros mal dava para duas garrafas. Porém o dono do Tratoria conservou por nós uma estima especial, alimentando talvez uma secreta esperança de que pudéssemos levá-lo para São Paulo. Todo italiano do norte, com quem conversamos, tinha algum parente em São Paulo. Um deles chegou até a me perguntar que língua se falava em São Paulo. De forma que tinha sempre minha garrafinha separada, e as minhas rosas. Estas últimas eram lindas, tanto as rosas plantas como as rosas moça. O norte da Itália parecia assim como um paraíso. Tomávamos banho todos os dias. O Rio Pó tinha bastante água para essa extravagância. Mas só no fim de quase dois meses pude tomar meu primeiro banho, e, conforme a promessa feita, nas águas do Pó. Ao lado disso, coisas agradáveis começaram a aparecer, embora outras bem desagradáveis também acontecessem. A comida do rancho piorava a olhos vistos e nem sempre recebíamos a ração de cigarros. Eram aspectos sórdidos e pustulentos. Alguns bandidos desviavam gêneros nossos para fazer comércio. Os chefes estavam já bastante ocupados com o sério problema da nossa volta, pois iríamos regressar com armas e bagagens, e não era pouco o material a ser embarcado. Aproveitando essa circunstância, meia dúzia de salafrários envergonhavam a farda que vestiam, fazendo câmbio negro. Era uma coisa difícil de provar, por isso mesmo ninguém queria falar a respeito com o capitão, mas era revoltante depois de tantos sacrifícios sofrermos privações para que alguns enriquecessem. Mas cedo a coisa melhorou. Tinha que ser assim. Numa vasta corporação de homens, deve haver, certamente, alguns inescrupulosos e aproveitadores. O Regimento, um dia, desfilou pelas ruas da cidade. Foi uma linda parada. As vezes, nossa alegria era perturbada pela morte de algum amigo, geralmente por acidente. Antes, esse acontecimento, diário e tão banal, não nos surpreendia. Mas depois, quando voltamos a ser gente civilizada novamente, e já tomávamos banho, andávamos penteados, limpos, vivíamos numa cidade, se alguns não dormiam em cama, pelo menos todos dormiam dentro de casa e não em buracos e cavernas, eram dolorosas essas perdas. Minha estação ainda permanecia no ar; era a única. Por uma curiosa coincidência, o Costinha e eu, que fizemos parte da primeira equipe a entrar em ação, fomos os últimos a sair do ar. Como o trabalho começasse a rarear, combinamos "acender uma tocha" até o norte da Itália, para conhecermos as grandes cidades. Saímos um dia cedo, e atravessamos a ponte semi-destruída sobre o rio Pó. Essa travessia, por si já era uma aventura. Os civis atravessavam de barco, mas nós fomos pela ponte, que tinha um quilômetro de extensão. As bombas tinham destruído várias pilastras e, assim, em vários trechos, a ponte tinha se tornado verdadeira ponte suspensa, balançando no ar. Passava-se pulando de dormente em dormente; em baixo, 40 metros, corria mansamente o rio Pó. Essa perigosa travessia era necessária porque, se fôssemos pela barca, podíamos ter alguma complicação com a MP. Nossa viagem era por conta própria, sem consentimento de nenhum oficial, enfim, uma "tocha" como se dizia na gíria febiana. Do outro lado do rio esperamos o comboio que nos levou a Milão. Esse trem, que só corria um dia sim, outro não, parecia desses trens que se vê nos filmes, levando refugiados da China ou da Índia. Ia apinhado de gente. Nossa bagagem constava de uma escova de dentes, alguns maços de cigarros e pacotes de liras, nada mais. O resto era coragem e muita vontade de conhecer "Ia bella Italia". Em Milão, o único lugar que achamos para dormir foi um hotel suspeito, desses que não pedem bagagem aos hóspedes, onde dormimos um sono inocente, caso virgem nos anais daquele estabelecimento. Da "troupe" faziam parte o Almeida, Gambia de Ouro, meu inseparável cabo, o Pontes, que tinha ganho o apelido de "O Dificílimo", Góis, o único Baiano Guerreiro, Gorender e Inaôr. Depois de visitarmos a famosa Catedral, fomos a um mafuá, que funcionava num vasto parque, onde fizemos coisas que nunca esperávamos fazer fora do Brasil. Juntamo-nos a um grupo de americanos e alugamos os carrinhos da montanha russa por uma hora inteira, e ficamos como crianças, a subir e descer naquele brinquedo infantil. De Milão fomos para o lugar mais lindo da Itália, o Lago de Como. Seria rematada tolice tentar descrever nestas linhas a beleza de Como, que foi já tão decantada. Ao chegarmos à fronteira da Suíça, em Ponte Chiasso, fim da nossa jornada, fomos barrados pela polícia militar sul-africana que tinha estabelecido uma zona de segurança perto da divisa. Não desanimamos, procuramos outro trecho e conseguimos por o pé, um pé, em território suíço. Mas somente depois de muito termos conversado com o guarda helvético, dizendo-lhe que era somente uma questão de orgulho para mais tarde podermos dizer que tínhamos ido de Nápoles à Suíça. Voltamos para Milão. Nessa cidade italiana, aliás, a mais européia das cidades da Itália, fiquei algumas horas admirando outra vez a famosa Catedral "Il Duomo". É uma das coisas mais belas que já vi em minha vida. Por fora, aquele luxo de detalhes, as minúcias do trabalho artístico em mármore, com as suas duas mil estátuas. Por dentro, a elegância do estilo gótico, aquelas colunas nuas da nave central, que sustentam a cúpula grandiosa. No interior encontrei um ambiente religioso, iluminado pela luz mortiça que filtra através dos vitrais. Nossa volta foi feita num trem cargueiro. No caminho o AImeida sacou da bolsa uma mortadela que devoramos com pão. Em Milão, havia de tudo, menos bife a milanesa! Nossa chegada a Piacenza foi em cima da hora. O Regimento estava de partida, íamos nos deslocar para Nápoles, onde aguardaríamos o embarque para o Brasil. O Regimento deslocou-se em caminhão para Livorno, de lá iríamos por mar para Nápoles. A cidade estava em alvoroço para dar-nos adeus. Moças corriam atrás dos caminhões para as últimas despedidas. Fiquei com um grupo de motoristas, pois iríamos dirigindo os jipes até Nápoles, partindo em escalões, para não congestionarmos a estrada. O serviço de tráfego americano era uma perfeição. Os jipes partiam em grupos de cinco, com intervalos de duas horas. O meu escalão foi o último a deixar Piacenza. Partimos três dias depois do Regimento ter saído da cidade. Saímos às 8 horas da manhã do dia 18 de junho, iniciando uma viagem lindíssima. Fomos até Alessandria, de lá tomamos a auto-estrada para Gênova. Esta estrada é uma maravilha. Em vários lugares liam-se dísticos de propaganda fascista ou então enormes letreiros: Esta auto-estrada foi mandada construir pelo Duce. Propaganda própria do regime. Que o digam os imitadores no Brasil. Aquela, porém, já não tinha oportunidade. Nós éramos os vencedores do regime. A auto-estrada atravessa 11 túneis. Até Gênova não havia muito tráfego. Nesta cidade paramos na casa de Cristóvão Colombo, e depois fomos visitar o cemitério, o famoso Campo Santo de Gênova. Depois da visita ao cemitério, retomamos nossa rota e paramos nos subúrbios de Gênova, numa das praias de banho, para almoçarmos, se é que se pode dar esse nome ao ato de ingerir a ração K. Para contrabalançar, compramos várias melancias, que fomos comendo pelo caminho. Meu companheiro de viagem, o Isaac, apesar do nome, é um bom preto, ordenança de um capitão, e gostava muito de conversar comigo. Falando sobre a viagem ao Brasil, o Isaac pediu-me explicações geográficas, que foi aceitando sem discussão; porém quando lhe afirmei que o mundo era redondo, ele me olhou desconfiado e daí por diante passou a duvidar da minha instrução. O comboio seguiu pela Via Aurelia, que ia até Roma. A paisagem que se descortina em todo o trajeto é sem par. Interrompi minhas conferências geográficas para apreciar Rappalo, uma verdadeira jóia onde paramos, para abastecimento de vinho. Esse vinho de Rappalo já mereceu tantos comentários que é desnecessário mais o meu. Não deixarei, porém, de manifestar meu apreço a essa delícia. Em Epezzia encontramos a cidade semi-destruída. No porto havia dois encouraçados italianos adernados pelo efeito do bombardeio. Paramos à beira do cais para apreciar o efeito das bombas inglesas sobre aquelas naves de guerra. Prosseguimos a viagem, pois tínhamos que pernoitar em Livorno. Passamos por Pisa, pela Tenuta de San Rossore, local nosso velho conhecido. Estava, porém, muito modificado. Bivacamos, depois de Livorno, num plateau à beira da estrada. O local logo se transformou numa espécie de acampamento de ciganos. Apareceram imediatamente várias fogueiras, feitas para esquentar a ração, rodinhas de jogo e conversa. Até então tinha feito a viagem sem furar nenhum pneu, e os outros menos felizes passaram parte da noite a consertar as câmaras furadas. No dia seguinte partimos em direção a Roma. A viagem decorreu como a do dia anterior. Seguíamos a Pipetine. O estoque do tanque de gasolina era para 60 milhas. A distâncias certas, de 60 em 60 milhas, havia o posto americano de reabastecimento de gasolina. Quando algum comboio que ia à nossa frente se atrasava, diminuindo o intervalo que necessàriamente tinha que haver entre, dois comboios, o que ia adiantado esperava no posto o tempo necessário para regularizar o intervalo. Graças a essa organização, as estradas, apesar do tráfego intenso, não ficavam obstruídas, pelo contrário, o carro mantinha sempre uma boa velocidade. Ao entardecer acampamos perto de Roma, a nove quilômetros da cidade. Não pude ir até Roma, porque estava com um pé arrebentado. Mas poucas horas depois da nossa chegada, com o cair das trevas, gentis romanas vieram nos visitar, para trocarem amor por um punhado de liras. O acampamento teve movimento durante a noite toda. Ao romper da aurora começaram a partir os primeiros escalões. As dez horas atravessamos Roma e nos dirigimos para a Via Apia, que nos levaria até Nápoles. A Via Apia é também uma belíssima estrada. Porém, como era quase sempre reta, cansava muito a vista. Com a monotonia daquela longa faixa branca avançando sempre, o sono acabava se apoderando do motorista. De duas em duas horas o comboio parava para descanso durante dez minutos. Fechando-se os olhos por alguns instantes, não se vendo mais aquela faixa branca, o sono desaparecia como por encanto. No meio da tarde passamos por Terracine; lá soubemos que o acampamento da FEB estava em Francolise, uma região perto de Nápoles. De fato, a uns 30 quilômetros antes dessa cidade, avistamos sinais de acampamento. Deixamos a estrada principal, e entramos por uma variante poeirenta, até encontrarmos a bandeira de comando do Sampaio. Estávamos em casa. Era ali Francolise, o acampamento onde iríamos durante longas semanas viver de esperanças, comendo pó, respirando pó, vivendo sempre, no meio do pó, até o dia do embarque para nossa terra natal.

"Cruzes Brancas - O Diário de um Pracinha"
Joaquim Xavier da Silveira


Pracinhas brasileiros em Roma, frente a Basílica de São Pedro
Arquivo Antonio Gallery

"Tochas"

Mal as tropas se acomodaram nos estacionamentos, se refizeram das fadigas, recompuseram os fardamentos rotos, sacudiram a poeira das estradas, já o seu pensamento se voltava para outras conquistas, que nada tinham de comum ou de semelhante com as anteriores. Bastava de guerra. O que importava, agora, era abandonar os acantonamentos, mudar de ambiente, de companhias, de atividades, em busca de novidades e distrações para o espírito atribulado. A ausência da Pátria e a insegurança da campanha tornaram os homens irritados, assustadiços, nervosos, angustiados, de modo que era preciso um derivativo para refazer as energias perdidas. E, a melhor terapêutica para esse estado d'alma, era incursionar pelo país a dentro em busca de novas aventuras. Programaram-se passeios aos mais pitorescos recantos da Itália, instalaram-se clubes em Alessandria e Piacenza, sempre muito animados, porém a sede e o afã de liberdade e novidades eram tamanhos, que poucos tiveram a paciência de aguardar as ordens da divisão, lançando-se, perdidamente, pelo território afora, a realizar "tochas" que, por vezes, atingiam Paris e Berlim e outros pontos interditados às tropas do V Exército. O Cmt da Divisão, debalde, tentou conter os excessos e abusos, mediante recomendações, proibições, punições, multas e outros recursos semelhantes, porém as estradas continuaram a trepidar debaixo das viaturas repletas de curiosos. Visitar as regiões ao norte do rio Pó, sem a devida autorização, não era fácil dada a fiscalização existente nas duas cabeceiras da ponte de Piacenza, passagem obrigatória para quem se dirigia naquela direção. Ao passo que, conhecer a zona sul era tarefa mais simples, não por falta de vigilância nas estradas, mas devido à facilidade com que era burlada. Apesar de toda essa fiscalização, certa vez assistimos a uma cena bastante curiosa, quanto atrevida. No meio a centenas de carros que se dirigiam à procura da ponte reservada aos militares, vimos um deles conduzindo duas graciosas senhoritas contra todas as ordens vigentes. A princípio, julgamos que o motorista não conseguisse chegar à margem oposta, porém, ao aproximar-se dos três austeros policiais - um brasileiro, um norte-americano e outro inglês - que guarneciam a: ponte, uma das garotas dirigiu-lhes irresistível sorriso, levando-os, sem sobressaltos, à outra margem. Assim, agiam os "tocheiros" mais audaciosos. Assim, rendiam-se os policiais menos intransigentes. Quem não possuía ou conseguia uma viatura e os suprimentos para saciar a fome, duas armas essenciais às "tochas" de longo curso, contentava-se em perambular, a pé, pelas imediações dos estacionamentos onde sempre havia uma novidade, um atrativo, senão clubes, teatros, cinemas, para freqüentar, pelo menos senhoritas com quem trocar palavras e pensamentos. Quer viajássemos para o N ou S, E ou W, lá estavam os homens, aos grupos, embevecidos diante dos monumentos, das obras d'arte, dos edifícios públicos, dos templos, a ouvir, atenciosamente, a palavra elucidativa dos cicerones municipais ou de meros guias que se prontificavam a prestar as informações solicitadas. O roteiro era quase invariavelmente o mesmo. Em Veneza, centro de turismo dos mais procurados, a curiosidade voltava-se para o Grande Canal com as suas centenas de gôndolas a navegarem mansamente pelas águas, em direção à Praça de S. Marcos, onde se encontram os mais notáveis edifícios da cidade e onde se comemoravam os feitos da antiga República.

"O Brasil na II Grande Guerra"
Ten. Cel. Manoel Thomaz Castello Branco


Cerimônia em Alessandria
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

A FEB COMO TROPA DE OCUPAÇÃO

A 1ª DIE operou como tropa de ocupação de 3 de maio a 20 de junho, no norte da Itália, tendo a cidade de Alessandria como QG da divisão. Na zona de ocupação estavam as principais cidades. No Brasil, um governo discricionário era a síntese de tudo aquilo contra o que a FEB tinha lutado. Como conseqüência, era objeto de enorme preocupação o seu retorno ao Brasil. A política que estava sendo delineada nos bastidores era a do continuísmo da situação, através de um simulacro de democracia, com o apelo de constituinte com Getúlio Vargas. Essa política temia a FEB; os combatentes ignoravam essa política e seus conluios. A decisão do Governo brasileiro de não oferecer tropa da FEB para ocupar territórios teve repercussões na política, pois abdicou o Brasil do direito de ter suas armas representadas nos territórios conquistados, mostrando a outros povos que o nosso país tinha combatido naquele conflito. Se com isso fomos aliviados das despesas de manutenção de tropa, a retirada teve evidentemente reflexos na política externa. Não que a permanência da FEB, por mais um ano, fosse dar ao Brasil um lugar de maior proeminência, mas indiscutivelmente essa permanência teria dado muito mais do que tivemos. A única missão brasileira na Alemanha, nossa principal adversária, estava disposta a repatriar brasileiros. Posteriormente, foi aberto um escritório para selecionar imigrantes portadores de habilitações técnicas. A política externa adotada pelo Brasil era contrária a que o país oferecesse tropas para ocupação de territórios europeus. Essa ausência acabou por ocasionar a marginalização do Brasil entre as nações que ganharam o conflito. Como conseqüência, na conferência de Paris, em 1945, o Brasil não se fez representar, sendo a única nação sul-americana que participou diretamente do conflito. A FEB recebeu como missão temporária ocupar a Alessandria e Piacenza, devendo capturar qualquer força inimiga ainda existente naquela zona. Foram extintos os Grupamentos Táticos e todas as unidades da FEB se mantiveram alojadas na região de Alessandria e Piacenza.

COGITAÇÕES SOBRE O DESTINO DA FEB

Antes mesmo do fim das hostilidades, o destino da FEB já era objeto de conjecturas e preocupações em vários setores, tanto militares como civis. Os americanos, atentos observadores da situação política brasileira da época, detectaram, antes de todos, um movimento que convergia para uma política de minimizar, ou mesmo anular, a FEB, através de manobras várias, desmobilizando-a como grande unidade, no menor espaço de tempo. Essa preocupação é bem demonstrada no documento secreto elaborado pelo Estado-Maior americano, e dirigido ao General Comandante do Exército dos Estados Unidos no Atlântico Sul. Nesse documento, que exprime o pensamento do Departamento de Guerra americano, é dito que, sendo a FEB a única unidade do Exército brasileiro inteiramente treinada pelos Estados Unidos, tinha um grande valor como núcleo de ensino e treinamento para outras unidades brasileiras. O documento recomendava ainda que, se houvesse problemas logísticos em abrigar em um só local toda essa grande unidade (divisão de infantaria), ela fosse dividida em unidades menores, mas nunca inferiores a uma equipe regimental, sendo então dispersas pelas várias Regiões Militares, permitindo que servissem de padrão para as outras unidades do Exército brasileiro. Por fim, o documento recomendava que se fizesse sentir ao Ministro da Guerra do Brasil a importância do assunto e que a desmobilização da FEB seria prejudicial à defesa do hemisfério. O documento foi entregue à autoridade brasileira competente. Mas o que causa espanto é sua data: 6 de abril de 1945, um mês antes do término da guerra. Com antecedência e clarividência, os aliados recomendavam a manutenção da FEB como um todo, para permitir que o restante da força terrestre tirasse o melhor proveito possível do acervo de experiências e conhecimento que aquela força expedicionária tinha acumulado na campanha da Itália. Essa recomendação caiu no vazio, o efeito foi o contrário. O comando militar americano na Europa fez discretas sondagens para que a FEB, após o término da guerra, aceitasse a missão de ocupação, tarefa que coube a todos os outros aliados. A sugestão foi totalmente recusada pelo comando brasileiro. O Coronel Lima Brayner fez referencia ao fato. Talvez esse desejo de que a FEB exercesse missão de tropa de ocupação fosse na verdade uma forma de retardar sua dissolução, porque no Brasil já se costurava a decisão de desmobilizá-la, e os americanos disso tinham conhecimento.

"A FEB por um Soldado"
Joaquim Xavier da Silveira

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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Saudade
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