FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

A VITÓRIA

Como Aconteceu


Soldados e oficiais das divisões alemãs e italianas rendem-se ao 6º RI na Estrada Gaiano-Collecchio.
Foto escaneada do livro
"O Sexto Regimento de Infantaria Expedicionário"
Cap. Antorildo Silveira

O VIGÁRIO DE NEVIANO DI ROSSI

Estatura média. magro, moreno, olhos castanhos claros, nariz bem torneado tipo aquilino, rosto raspado, usando óculos, eis em linhas gerais os traços fisionômicos de D. Alessandro Cavalli, vigário da pequena paróquia de Neviano di Rossi e que teve grande influência na rendição da 148ª DI Alemã e satélites na célebre madrugada de 29 de abril de 1945. Tipo audaz o servo de Deus, tudo fez para bem cumprir a missão que lhe fora imposta. Desempenhou-a as mil maravilhas, conseguindo que os parlamentares alemães viessem às nossas linhas tratar da capitulação incondicional. E' interessante citar como foi entregue à força nazista o instrumento que serviu de base ao envio dos três parlamentares após os duros combates que tiraram aos germânicos toda a esperança de escapar ao cinturão de aço que lhes aplicou o SEXTO REGIMENTO DE INFANTARIA. Ocupava o II Btl. a vila de Neviano di Rossi, junto aos Apeninos, de cuja igreja se descortinava todo o vale do Pó. Como todo templo esse possuía, também, o seu vigário D. Alessandro. Homem simples, desde logo fez estreita camaradagem com os brasileiros que retribuíam classicamente com a prodigalidade peculiar à nossa gente. Esse padre, velho cura de aldeia, prontificou-se a levar a intimação da rendição aos orgulhosos "super-homens" de Hitler. Recebido a princípio com animosidade usou de especial coragem a serviço de sua dialética para fazer chegar a seu destino o ultimatum assinado pelo Cel. Nelson de Melo, Cmt. do 6º RI , que o redigira às 21 horas do dia 27 de abril no PC em Bibiano e deslocara-se momentos após, para o PC avançado em Collecchio. Inúmeras vezes arrostou as ameaças dos invencíveis tedescos que ameaçavam matá-lo caso insistisse. Não desanimou  o valente vigário de Neviano di Rossi, retornando às linhas alemãs várias vezes até que às 9 horas e 30 minutos da manhã de 28 de abril os arianos acharam prudente receber o ultimatum. A resposta do mesmo, também, foi conseguida após grande insistência de D. Alessandro que afrontava os atrabiliários tedescos com grande estoicismo. Conseguida a resposta os acontecimentos posteriores estão suficientemente explanados na crônica anterior. Desta forma a Igreja a serviço do bem da humanidade cooperou de maneira eficiente no grande triunfo do 6º Regimento de Infantaria ao abater essas força do mal, inimigas da religião. A cruz, amansou-as e o canhão chamou-as à realidade.

"O Sexto Regimento de Infantaria Expedicionário"
Cap. Antorildo Silveira


O Gen. italiano Mario Carloni e seu chefe de Estado Maior, chegam
presos por brasileiros, às nossas posições em Colechio.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

A manobra de Collechio, Fornovo, com o aprisionamento da vanguarda e cerco do grosso adversário, resultou do esforço obstinado dos brasileiros, eficazmente aproveitado pela grande velocidade de marcha proporcionada pelo transporte motorizado da Infantaria realizado pelas viaturas da Artilharia. O inimigo ainda dispunha de copiosos meios - pessoal, armamento e munição - para preservar tentando romper o cerco. A tropa era de escol: quase todos os chefes de maior graduação e inúmeros oficiais traziam no punho esquerdo o distintivo do AFRIKA KORPS, comandado pelo célebre VONN ROMMEL em território africano. Possuíam disciplina e preparo técnico. Apesar disso, capitularam, porque a DIVISÃO BRASILEIRA não lhes deixou outra alternativa.

(a) General Mascarenhas de Moraes"


Rendição da 148ª Divisão de Infantaria Alemã aos brasileiros. O chefe do Estado Maior foi um dos mediadores.
O pracinha negro brasileiro mantém prisioneiros os homens que se consideravam "os puros, os arianos,
a super raça", mas que se renderam aos mestiços e negros brasileiros.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

Chegara o dia da vitória para os Exércitos Aliados no teatro de guerra da Itália (2 de maio de 1945). Na justa avaliação da imensa alegria com que inundava as corações brasileiros tão transcendente quão auspicioso acontecimento, o general Mascarenhas de Moraes baixou, a 3 de maio, a Ordem do Dia, da qual se reproduz o trecho seguinte:

"Após oito meses de luta, em que, como todos os Exércitos, sofremos pesados reveses e obtivemos brilhantes vitórias, o balanço de uns e outros é ainda favorável às nossas armas. Desde o dia 16 de setembro de 1944, a FEB percorreu, conquistando ao inimigo, às vezes palmo a palmo, cerca de quatrocentos quilômetros de Lucca a Alessandria, pelos vales dos rios Serchio, Reno e Panaro e pela planície do Pó; libertou quase meia centena de vilas e cidades; sofreu mais de duas mil baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos; fez o considerável número de mais de vinte mil prisioneiros, vencendo pelas armas e impondo a rendição incondicional a duas Divisões inimigas. É um registro deveras honroso e de vulto para uma Divisão de Infantaria. Um dia se reconhecerá que o seu esforço foi superior às suas possibilidades materiais, porém plenamente consentâneo com a noção de dever e amor à responsabilidade, revelados pelos nossos homens em todos os degraus e escalões da hierarquia, e em todas as crises e circunstâncias da Campanha, que neste instante acabamos de encerrar. Regressamos com feridas ainda sangrando dos últimos encontros, mas, nunca, pela nossa atuação, o prestígio e nome do Brasil periclitaram ou foram comprometidos."

 


Em presença do jornalista Rubem Braga e demais oficiais, o Gen. Falconière recebe o Major Khün,
 mediador da rendição do comandante da 148ª Divisão de Infantaria alemã, Gen. Otho Fretter.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

 

Itália, 23 de fevereiro de 1945. Boletim n.º 54, foi extensivo o seguinte louvor do Exmo. Sr. General Crittenberger:

O 6º RCT (Regional Combat Team) da 1ª Divisão que constitui a vanguarda da FEB, na Itália, foi incorporada ao IV Corpo a 13 de setembro de 1944 e assumiu a responsabilidade de uma zona de ação na frente do IV Corpo a 15 de setembro de 1944, substituindo elementos da TASH FORCE 45 e do 370 RI da 92ªDivisão. Durante esse período de 13 de setembro de 1944 a l6 de novembro de 1944, o 6º RCT lutou e perseguiu o inimigo das vizinhanças de VECHIANO através da linha Gótica até as posições que representam a frente geral do IV Corpo nesta data. Sob a direção vigorosa e agressiva do General Euclides Zenóbio da Costa, auxiliado por um Estado Maior capaz, seu Comandante de Regimento Coronel João Segadas Vianna e por seus comandantes de Unidades, neste primeiro contato das tropas brasileiras com o inimigo alemão na Itália, o 6º RCT lutando, às vezes contra tenazes resistências inimigas, demonstrou entusiasmo e espírito ofensivo, capturando várias localidades importantes, posições chaves, contribuindo nessa fase de avanço do IV Corpo, na Campanha da Itália. O General Mark Clark a pedido da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, unanimemente expresso, envia aos Oficiais e Praças de todas as Forças sob o vosso comando, nossos agradecimentos pela esplêndida coragem e magníficas vitórias obtidas no front entusiasticamente e, cumprindo-a com eficiência. É um resultado de que se podem justamente orgulhar os oficiais e praças da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária. A atuação da divisão no vale do Serchio vencendo, o antigo inimigo e tomando suas posições; a arrancada para o vale do Reno e a sua entrada em posição; a participação nas operações da ofensiva da primavera, com os contínuos avanços sob intensos fogos de artilharia e morteiros inimigos, as constantes substituições sempre excelentemente executadas, a arrancada agressiva para o nordeste contra forte resistência inimiga, conquistando Zocca, Collechio, Fornovo e obrigando a rendição da 148ª Divisão Alemã e a Divisão Itália, refletem a capacidade de seus oficiais e praças da divisão, tem sua parte nas vitórias obtidas e concorreram para que o comandante do IV Corpo de Exército se sentisse orgulhoso de haver tido a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária como parte integrante do IV Corpo de Exército nesta campanha e resultasse o importante papel por nós desempenhado na rendição das forças inimigas no norte da Itália, provocando a rápida cessação das hostilidades nessa área. Todos enfim, se tornaram dignos das palavras do comandante do IV Corpo de Exército quando disse que os feitos da FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA terão um lugar proeminente quando for escrita a História da Guerra. 


Prisioneiros alemães
Arquivo Diana de Oliveira Maciel

"A FEB que antes era um aglomerado de homens em uniforme, usando um 'Brasil' no braço que nas ruas da cidade sempre encontravam algum engraçadinho para perguntar quando embarcava, mostrou que, apesar de fazer a guerra como amador, era capaz de levar de vencida os técnicos da profissão, os prussianos. É claro que no meio de tantos homens devia haver muitas queixas contra tudo, mas nunca houve mágoa. Mágoa haverá no dia em que os homens esquecerem que outros seus semelhantes, centenas deles, jazem num cemitério militar, enquadrados na derradeira disciplina, sob uma fila de cruzes brancas."

Joaquim Xavier da Silveira
"Cruzes Brancas - Diário de um Pracinha"


Pracinhas em combate
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

NÃO FOI UM PASSEIO

De vez em quando alguém ainda me pergunta: "Seja sincero e confesse: a vida de vocês, jornalistas lá na guerra da Itália, foi uma sopa, não foi? Um passeio." Até anos atrás a pergunta me irritava profundamente. E me feria. Mas agora pouco ligo para ela. Limito-me a pensar comigo mesmo que o diabo é testemunha de que não foi um passeio. Muito pelo contrário: sofremos bastante lá nos Apeninos. Medo, frio - muito frio -, desconforto, e aquele constante odor de sangue velho e óleo diesel, que é o cheiro da guerra. E mais o tédio dos longos dias e noites em locais inviáveis, sitiados pela neve. Onde o passeio? Onde a sopa? E para provar que não estou mentindo, vai aí embaixo um resumo sucinto do que era o cotidiano de um correspondente de guerra no front italiano naquele implacável inverno de 1944-45. Repito: o diabo, que também estava lá (como sempre esteve em todas as guerras), é testemunha de que não foi um passeio. Não foi mesmo. Na primeira hora do dia, o grito: "Guerreiros, de pé!" Primeiro era o toque de alvorada, que o infalível corneteiro fazia soar às cinco horas, às vezes era um toque cortante e seguro, dependendo do frio que estava fazendo lá fora naquele começo do dia. Aliás, falar aqui em alvorada não é falar a verdade. Podiam ser cinco, cinco e meia em nossos relógios, mas na realidade a noite continuava fechada, total, dentro e fora do nosso quartel. No medonho inverno toscano e apenino, como foi aquele de 1944-45, o sol só aparecia mesmo, e isso quando aparecia, lá pelas dez horas. E já nascia um sol combalido, agonizante, a prevenir que demoraria pouco. Três, quatro horas da tarde, e já era noite novamente. Primeiro, eu dizia, era o toque de alvorada. E seguindo-se a ele, ouvia-se, ainda um tanto estremunhada e naquele sotaque suave de gaúcho, que trinta anos de Rio de Janeiro não diminuíram, a voz de Egydio Squeff, correspondente de O Globo, com o seu invariável refrão: - Guerreiros, de pé! A luta! Uma pausa de segundos, depois: - Vamos acabar logo com a porcaria dessa guerra que estou doido para voltar ao meu chopinho na Galeria Cruzeiro. - O chopinho era o do Bar da Brahma, na Galeria Cruzeiro, no andar térreo do Hotel Avenida, onde é hoje o edifício Avenida Central. Então tinha início a exasperante rotina de todo dia, marcada do princípio ao fim por pequenos e também grandes pesadelos. A coisa começava com o doloroso ato de deixar os sleeping bags (sacos de dormir), fofos envelopes acolchoados onde nos metíamos à noite, logo que terminávamos de bater à máquina a nossa correspondência do dia. Comumente dormíamos de ceroulas (isso mesmo, ceroulas) e meias de lã, mas quando o frio apenava mais, dormíamos praticamente como havíamos passado o dia, livres apenas das botas pesadas e enlameadas. Depois, outra provação: tínhamos de espanar a neve que havia caído durante a noite sobre o referido envelope, e isso acontecia sempre nas noites mais geladas, quando a neve investia sem pena através das esburacadas janelas do velho quartel dos carabinieri em Pistóia, que nós mesmos (os Aliados) havíamos quase reduzido a escombros com os nossos canhões e as bombas de nossos aviões. Depois vinha o resto: calçar sobre a grossa meia de lã as pesadas e deselegantes combat boats, enfiar uma camisa igualmente de lã por cima da ceroula, também de lã, e sobre esta o pesadíssimo suéter militar, um verde-azeitonado, que nos cobria do pescoço até a cintura e ia até o começo das mãos. E mais ainda a blusa da farda (que podia ser o rarefeito uniforme brasileiro ou a mais protetora farda norte-americana), a capa e as luvas forradas de pêlo de carneiro; e, finalmente, o capacete de aço. Mas, antes, havia outros tormentos a enfrentar. Por exemplo: muitas vezes, a água dos camburões amanhecia congelada. E então era o duro trabalho de acender, com pedaços de madeira ainda úmidos e sempre armazenados num canto do quarto, o rústico aquecedor que a nosso pedido um engenhoso paesano local havia improvisado bem no meio da sala, e cuja chaminé, igualmente improvisada, cuspia para fora uma espessa e negra fumaça que durava até metade da noite - ou seja, até que fosse queimada a última tora. Aquecido o engenho, colocávamos sobre o ferro quente os camburões de gelo, e ali ficávamos minutos inteiros à espera de que a água voltasse ao natural. Rubem Braga, do Diário Carioca, antes mesmo de deixar o seu aconchego, já estava fumando o primeiro dos seus não sei quantos cigarros diários; Squeff fumava e recitava sonetos antigos, dele ou de Raul de Leoni; Raul Brandão, do Correio da Manhã, o mais velho de todos nós, já em tenue de combat, resmungava e andava de um lado para o outro, esfregando freneticamente as mãos enluvadas; e Thassilo Mitke, da Agência Nacional, recém-chegado, amornava as mãos e as passava sobre os lábios, que o frio logo havia transformado em duas feridas. No quarto vizinho, os confrades norte americanos (Henry Bagley, da Associated Press AP); Frank Norall, da Coordenação de Assuntos Interamericanos; Francis Hallawel, da BBC; e Allan Fisher, fotógrafo e companheiro de Norall) deviam estar fazendo a mesma coisa. E conversavam entre si num inglês que nos chegava incompreensível e aos pedaços. Depois, quando o gelo do camburão virava água, molhávamos as mãos e fingíamos que lavávamos o rosto; e era igualmente sumário o escovar dos dentes. Debaixo do frio, e às vezes da neve, já definitivamente travestidos de guerreiros, capacete de aço na cabeça, atravessávamos o largo pátio que separava os dormitórios do refeitório. Era farta a primeira refeição do dia, tudo comida norte-americana: esplêndidas geléias, leite e presunto, espesso chocolate, suco de laranja da Califórnia, bacon do Texas. Às vezes, acontecia de o café ser brasileiro. Rubem Braga comia pouco, quase nada; Squeff limitava-se a uma xícara de café com pão (o maravilhoso pão dos norte-americanos, um manjar); eu comia muito, quase sempre demais. Em seguida, devidamente uniformizados e alimentados, íamos nos aboletar de qualquer maneira num jipe; ou em dois, quando os norte americanos resolviam ir com a gente. Mas era preciso não esquecer de levar algumas coisas indispensáveis, sem as quais um correspondente de guerra não pode desempenhar sua missão numa guerra convencional (dessas que não se usam mais desde o Vietnã - com trincheiras, terra de ninguém, patrulhas de infantaria etc.). Este era o caso do sleeping bag, por exemplo, pois nunca se sabia onde se ia dormir, no caso de não podermos voltar à base e ter de ficar lá no front, na montanha, a uns 100 quilômetros de Pistóia - onde estava instalado o quartel-general avançado da Força Expedicionária Brasileira, a FEB. Também era essencial não esquecer de levar a máquina de escrever (nunca se sabia onde e quando iríamos poder teclar nossos despachos) e as rações alimentares (umas caixas em forma de tijolo que guardavam, além de pequenos envelopes de sopa em pó, barras de chocolate e simétricos cubos onde os norte-americanos haviam prensado todas as vitaminas e calorias até então descobertas). E também, mais uma lanterna a pilha, velas de cera (artigos da maior prioridade) - pois lá em Porreta-Terme e em todo o front - 10 quilômetros adiante - a noite era polar, 24 horas de uma só noite dividida em duas porções: a noite propriamente dita, feita pelo Senhor, e a noite artificial, feita pelos homens à custa da compacta e malcheirosa neblina artificial que se desprendia do óleo diesel propositadamente queimado, e que servia para esconder dos alemães o grande buraco onde o comando da FEB fora obrigado a instalar o seu QG avançado. E lá estavam eles, os alemães, além e acima da nossa noite polar, postados em suas casamatas, estrategicamente distribuídas pelos cumes dos Apeninos, que nos cercavam e nos vigiavam. Bem, havia uma outra coisa que era preciso não esquecer: a de nunca portar uma arma, sequer uma faca de maior tamanho. Numa guerra convencional, o correspondente de guerra (da mesma forma que o pessoal da Cruz Vermelha, os capelães e os pastores) é um soldado desarmado, pois assim, diziam-nos, determinava a Convenção de Genebra. Haviam nos dito, também, que se um correspondente de guerra é feito prisioneiro portando qualquer espécie de arma, ele é considerado um franco-atirador. E numa guerra, franco-atirador que se deixa aprisionar não precisa de julgamento para ser devidamente fuzilado. Para alcançar Porreta-Terme, 100 quilômetros lá na frente e a mais de 1 000 metros de altitude, outro pesadelo: um pesadelo chamado Rota 64. Mas antes devo dizer que quando falei há pouco em inverno cruel, implacável, quis dizer precisamente isso: nunca havia acontecido, nos últimos cinqüenta anos, segundo o testemunho da gente local, um inverno tão rigoroso naquela parte da Itália. Um inverno que havia começado antes do tempo: a primeira nevasca caiu quando novembro ainda não havia terminado. E a partir do dia 22 de dezembro a coisa engrossou pra valer. Em Pistóia, onde nós, os correspondentes, tínhamos o nosso lar efetivo, era comum um frio de quatro graus abaixo de zero. Lá em cima, no front, a coisa piorava, e como! - no auge do inverno, nunca menos de oito, seis graus negativos. E nos postos de observação mais elevados e avançados da infantaria (Soprasasso, Belvedere, Torre de Nerone etc.), a fitinha vermelha dos termômetros chegava a descer até 15 ou mais graus negativos. De forma que quando digo que aquele inverno da guerra foi cruel, não quero insultar o inverno, mas apenas chamá-lo de cruel.

As granadas e o relógio antimagnético

E agora começamos a subir a espiralada, esburacadíssima (buracos feitos pelas granadas, as nossas e as "deles") e insidiosa Rota 64, que tinha tantas curvas (e ainda tem: andei por ela pela última vez em janeiro de 1981) que mais parecia (e parece) uma escada em caracol. E lá íamos subindo, subindo a 30 quilômetros por hora, com as correntes que envolviam os pneus estilhaçando o gelo, num jipe sem capota nem pára-brisa. No front, pára-brisa, como sabem - ou não sabem? -, é proibido, já que o simples clarão de qualquer luz nele refletida pode indicar ao inimigo a sua sempre excitada pontaria. E, pelos mesmos motivos, nem pensar em acender os faróis, por mais cerrada que estivesse a neblina, e quase sempre estava. Pois lá íamos nós. Mas antes de chegar ao QG avançado, em Porreta-Terme, tínhamos de vencer mais alguns obstáculos, além daquela buracaria toda da 64, e escapar de algumas armadilhas. Entre estas, e talvez a mais solerte, era a Ponte della Venturina, nome do lugarejo e também da ponte que cruza o Reno (o pequeno Reno italiano e não o Reno alemão), bem na entrada da cidade. Os artilheiros alemães tinham predileção especial pela maldita ponte, talvez porque aquela, a Bailey de módulos de metal armada pelos norte-americanos, nada tinha a ver com a velha, heráldica, de pedra, que eles haviam destruído quando de sua retirada. Passar por ali era uma provação diária. E nós, correspondentes vindos de Pistóia, não tínhamos opção: era cruzar a ponte ou ficar do lado de cá. Quer dizer, do lado de cá da guerra. A tática do motorista Adão não era bem uma tática, mas algo assim como quem joga a última ficha na roleta: antes da ponte ele dava uma parada, mandava que nos abaixássemos e nos encolhêssemos o máximo possível. E após uma rápida concentração, as mãos apertando tensas o volante, o bravo cabo-motorista soltava seu grito de guerra: - Deus é grande! E, numa só arrancada, o seu brioso jipe voava pela ponte, aos solavancos, sem dar importância a uma ou outra granada de morteiro que explodia perto ou afundava nas tranqüilas e murmurantes águas do rio. Sempre que isso acontecia, e acontecia quase que diariamente, e sempre que uma granada explodia mais perto, o comentário de Squeff, ao sentir-se mais uma vez a salvo, do outro lado, era sempre o mesmo: - A sorte é que meu relógio é antimagnético... Acendia depois um cigarro e expelia umas três ou quatro baforadas, nas quais havia mais alívio do que fumaça. Atravessávamos a ignóbil ponte e minutos depois já estávamos mergulhados na pesada e hostil noite de Porreta-Terme. Ali, nossa primeira providência era procurar o então tenente-coronel Amaury Kruel, em sua "sala dos mapas", e saber como iam as coisas. Com a ajuda de uma varinha, ele ia arranhando o mapa de operações, explicando o que nas últimas horas - ou melhor, na noite anterior - havia mudado no front defendido pelos brasileiros. Coisas assim: a situação das companhias, dos batalhões e pelotões; se houvera ações de patrulhas, quem as comandara, até onde haviam chegado, se fora feito algum prisioneiro; e, finalmente, e essa pergunta sempre deixávamos para o fim, se alguém fora ferido ou morto. Em seguida, cabia a cada um de nós escolher um ponto na "frente" para onde se pretendia ir, e para isso havia sempre em Porreta-Terme três jipes à nossa disposição. Em média, o front da FEB se estendia por uns 20 quilômetros de montanhas, vales e penhascos, mas algumas vezes se esticava mais alguns quilômetros em ambas as extremidades. O ideal para um correspondente (numa guerra convencional) é escolher numa divisão (e a FEB era uma divisão) o batalhão ou pelotão que estivesse mais próximo do inimigo. O risco é maior, mas em compensação é mais fácil a colheita de matéria para os despachos diários. Em termos de fornecedora de notícias, Porreta-Terme, com suas trevas (das quais só iria me livrar a partir do dia 21 de fevereiro de 1945, quando da tomada de Monte Castelo), rendia pouco. Já Soprassasso, com o seu pontiagudo e enxerido nariz intrometendo-se até quase o posto alemão mais avançado, rendia muito mais. Ali, havia sempre atividades: patrulhas ("deles" e nossas), duelo da artilharia, prisioneiros, uma festa. Lizanno in Belvedere também era muito bom para se estar: fincado num dos cumes mais altos dos Apeninos bolonheses, lá em cima do hoje tão aprazível paese, tinha-se uma esplêndida vista panorâmica de todo o front; e até podíamos avistar, uns 30 quilômetros lá adiante, a cidade de Montese, que tanto cobiçávamos, mas que só seria nossa a partir de 14 de abril, às vésperas da primavera.

Mande dizer que tudo está bem,que logo estarei de volta.

A presença dos correspondentes em qualquer posto avançado era sempre vista por oficiais e soldados com apreensão e curiosidade: "Se vocês estão aqui é porque alguma coisa vai acontecer." As vezes, acontecia; às vezes, não. E havia até ocasiões em que um de nós ali ficava, no ponto extremo do front, apenas vendo a neve cair; a olhar um tanto entediado o mundão branco que o cercava; a jogar baralho; ou então, outra forma de matar o tempo, apostando nossas liras de ocupação (impressas nos Estados Unidos e que chegavam às toneladas à Itália, o papel caro estalando 'de novo e ainda cheirando a tinta) em que lugar exato, no espesso tapete e em derredor, a granada "deles" iria explodir. Também podia acontecer de algum tenente ter a idéia de nos convidar para "um passeiozinho até mais lá em cima", onde barbudos cabos e pracinhas se mantinham firmes - e por dias seguidos - em suas trincheiras e foxholes (abrigos individuais), com a metralhadora sempre alerta. A presença de um correspondente no front era sempre bem-vinda. E tinha de ser: levávamos jornais do Brasil, já velhos de vinte dias, um mês, mas que eles devoravam como se fossem pão saído do forno. Levávamos cartas que nos haviam sido entregues no serviço postal de Porreta-Terme; Squeff distribuía fartamente exemplares de O Globo Expedicionário, que tanto sucesso faziam ali no front e que eram disputados com avidez e passados de mão em mão, depois de lidos e relidos. Além disso, estávamos sempre dispostos a prestar pequenos favores, como bater uma carta à máquina, tarefa que, devido à exigüidade do espaço, exigia de nós uma verdadeira demonstração de contorcionismo. As vezes, as cartas já estavam escritas devidamente envelopadas - tínhamos apenas de entregá-las aos censores do QG avançado. Algumas vezes, acontecia de uma mãe ou uma mulher receber da Itália uma carta do pracinha - ou de um oficial - na qual vinha dito que "tudo estava bem e que logo estarei de volta". Mas, na verdade, quem escrevia já havia morrido há dias, ou acabado de morrer - ou mesmo acabara de amputar um braço ou uma perna. A guerra é nojenta. E o mais importante: pelo menos uma vez por semana, Squeff e eu, que gozávamos de franquia telegráfica e dela podíamos usar e abusar, visitávamos vários lugares no front, particularmente os mais afastados ou de difícil acesso, e lá recolhíamos dez, vinte, trinta mensagens curtas dos combatentes - mensagens que no dia seguinte já apareciam nos Associados ou em O Globo. "Vou bem. Logo estarei de volta"; "Saúde boa. Muitas saudades"; "Beijos, Lúcia. Mamãe, me abençoe"; "Querida Laura, muitas saudades", coisas assim, indicações sucintas mas que batiam nos corações dos parentes, aqui no Brasil, como um jato de alegria e de conforto. Era um bom serviço aquele que prestávamos, principalmente quando se tem em conta que uma carta escrita do front não levava menos de um mês para chegar ao destinatário, isso se ele morava no Rio ou em São Paulo. Para chegar ao interior de Pernambuco, já calcularam?

Não queriam que a gente fosse

Pouca gente sabe disso, mas o fato é que o governo da época (a ditadura do Estado Novo, de Getúlio Vargas) não queria de forma alguma que os jornais enviassem à Itália seus próprios correspondentes. O ministro da Guerra, o general Eurico Dutra, achava que eles só iriam atrapalhar - e, "além do mais, os jornalistas indicados eram todos contrários ao governo". O Dr. Lourival Fontes, chefe todo-poderoso do todo-poderosíssimo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), era da mesma opinião; e acrescentava mais: que seu departamento, que controlava a Agência Nacional, podia dar conta perfeitamente do recado. De forma que, no primeiro escalão da FEB, só foram jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas da Agência Nacional. Roberto Marinho e Herbert Moses, diretores de O Globo; Assis Chateaubriand e Austregésilo de Athayde, dos Diários Associados; Paulo Bittencourt, do Correio da Manhã; e Horácio de Carvalho, do Diário Carioca, que conheciam bem seus funcionários e neles confiavam, não podiam se conformar com isso - e não se conformaram. Queriam mandar seus próprios correspondentes. Foi uma guerra que durou quase dois meses, mas afinal os seis venceram. Diante do ultimato, endossado pelos diretores dos jornais - "Ou mandamos nossos próprios correspondentes ou não publicamos nada do DIP referente à FEB. Usaremos apenas o serviço das agências internacionais" -, o Dr. Lourival Fontes se rendeu. E lá fomos.

O terceiro "inimigo"

Lá na Itália, no começo, os correspondentes tiveram de enfrentar um outro inimigo, além do frio e dos alemães. Tivemos de vencer a frieza e mesmo a desconfiança (que nunca chegou a uma declarada hostilidade) do próprio comando da FEB. O pessoal mais graduado, no QG avançado de Porreta-Terme, no início nos recebeu quase como se fôssemos intrusos. Mostravam-se esquivos, evitavam-nos sempre que possível e quando eram obrigados a nos fornecer as informações pedidas com tanta insistência e teimosia faziam-no de maneira reticente, como quem não quer puxar conversa. Explica-se: afinal éramos, ali, representantes de uma imprensa que, embora vigiada de perto, pela inclemente censura do DIP, jamais se mostrara, por vontade própria, simpática ao Estado Novo. E que sempre que podia, e isso raramente se dava, deixava entender nas entrelinhas ou indiretamente sua insatisfação com a situação política que imperava no Brasil naqueles dias. Com tato, muita paciência (e também muita impaciência) e persistência, aos poucos fomos vencendo aquela frieza sem sentido. Procuramos deixar claro que estávamos ali não para fazer ou falar de política, mas apenas pra recolher e mandar para o Brasil notícias referentes à ação da FEB. Mas todo esse ambiente frio, esquivo, pouco receptivo começou a se descongelar logo que chegaram ao front os nossos primeiros despachos publicados nos jornais de todo o Brasil. Lendo nossa correspondência, o pessoal mais graúdo da FEB percebeu que estávamos ali para ajudar, não para atrapalhar. Para trabalhar, não para dar trabalho. De forma que rapidamente o diálogo entre nós, correspondentes, e o comando da FEB (com o restante, de capitão para baixo, a nossa convivência, nos postos do front, sempre foi a melhor possível) tornou-se fácil. E o definitivo pacto de amizade e mútua confiança seria selado, em começos de janeiro, num memorável encontro que, a nosso pedido, tivemos com o general Mascarenhas de Moraes. Homem extremamente bem-educado, embora introspectivo e de temperamento autoritário (além de muito cioso do seu comando), o general nos recebeu, num ameno fim de tarde, de maneira formal, mas com um delicioso uísque escocês, salgadinhos etc. E tendo como testemunha, além dos seus ajudantes de ordem, uma crepitante e aconchegante lareira. Ficamos durante mais de uma hora numa das salas do seu QG (instalado no que fora - e agora é novamente - um delicioso hotel termal, lá em Porreta-Terme) bebericando, conversando e desfazendo mal-entendidos. Daquele dia em diante, o general Mascarenhas passou a nos tratar como amigos, e muitas vezes era ele próprio quem nos convocava para falar das coisas que devíamos saber. Mais tarde, nos dias que se seguiram ao 21 de fevereiro, quando o intratável Monte Castelo foi finalmente conquistado, já não havia, e não podia haver, tão juntos nos encontrávamos todos, qualquer mal-entendido entre um correspondente e um oficial combatente ou mesmo um pracinha. Estávamos todos misturados na arrancada final que teve início em Castelo, passou por Castelnuovo, La Serra, Montese, Zocca etc., até o vale do Panaro, e por fim até Collechio-Fornovo, já no vale do Pó, onde a FEB deu por finda sua missão. E isso aconteceu precisamente nos dias 28 e 29 de abril de 1945, no mesmo período em que Mussolini fora primeiro fuzilado (dia 28) e em seguida dependurado com seus gerarchi e sua amante (dia 29) numa barra de ferro de um posto de gasolina de piazzale Loreto, em Milão. Naqueles dois dias, a FEB havia cercado e obrigado a render-se toda a 148ª Divisão Panzer Alemã, comandada pelo general Fretter Pico, velho e experimentado oficial da Wermacht, que nos últimos cinco anos havia combatido em todas as frentes, no Oeste e no Leste, e que chegara a ser condecorado em Stalingrado.

Correspondentes: sem manha, um engolia o outro

No meu caso particular, entre os "inimigos" domésticos que de certa forma procuravam dificultar o meu trabalho como profissional, eu tinha um todo especial, e esse somente meu. Refiro-me a Egydio Squeff, correspondente de O Globo. Inimigo apenas quando era hora de caçar a notícia, acrescento logo. Éramos os dois únicos jornalistas brasileiros que dispunham de folgada franquia telegráfica, podendo enviar diariamente do front os despachos que quiséssemos, sem economia de palavras. Squeff era frágil, ardiloso: nos últimos dois meses de guerra, que foram os mais intensos (particularmente a partir de Monte Castelo), eu procurava de toda maneira não me desgrudar dele, jamais perdê-lo de vista. E ele fazia o mesmo. Estivemos juntos em Monte Castelo, Castelnuovo, entramos juntos em Montese (e isso quando a pequena e castigada cidade ainda não era inteiramente nossa), em Zocca, Vignola, estivemos juntos em Collechio-Fornovo. E juntos chegamos a Milão. E ali, no primeiro dia de paz e na companhia, ainda, de Thassilo Mitke, da Agência Nacional (excelente fotógrafo que a FEB merecia ter tido desde o princípio), bebemos juntos no Biffi da Galleria Vittorio Emmanuelle o nosso primeiro conhaque despreocupado, sem a intenção de um querer embebedar o outro. Muitas vezes, lá no front, Squeff, manhoso, vinha coma velha conversa que eu já sabia de cor. Dava uma tragada no cigarro (norte americano), soltava uma baforada, começava: 
- Estive pensando... A coisa aqui está muito parada para o meu gosto e parada vai continuar. Acho que amanhã cedo vou me mandar para o Sistina. Eu me fingia de inocente, concordava: - Boa idéia. O melhor mesmo é a gente dar um pulo até Roma - um pulo de mais de 600 quilômetros - e lá, no Hotel Sistina, tomar um banho decente, botar roupa limpa e descansar uns dias. Vamos? Aliás, podemos ir juntos, no mesmo jipe, no meu ou no seu. Acabava não indo ninguém.

Como disse, a guerra é nojenta

Pois finalmente chegamos a Milão, já na noite do dia 29 de abril de 1945. Os cadáveres tumefactos de Mussolini, de sua amante, Claretta Petacci, e da maioria dos seus gerarchi já haviam sido removidos pelos pudicos ingleses do posto de gasolina de piazzale Loreto, onde haviam sido dependurados pelos partigiani. E ali no Biffi, de roupa mudada, barbeados e penteados, bebemos o nosso primeiro e preguiçoso conhaque do pós-guerra - embora, oficialmente, a guerra só fosse acabar mesmo no dia 8 de maio. Mas para nós, correspondentes brasileiros, já havia acabado. Agora era tratar de voltar para casa. O engraçado é que, apesar da ausência de meses e de tudo de ruim que havíamos deixado para trás, no fundo ninguém ainda queria voltar. Fomos ficando por ali, um dia em Milão, outro em Turim, outro em Bolonha, Pádua, Verona, Veneza; e depois fomos descendo: Pistóia novamente, onde recolhemos os nossos pertences, Florença mais uma vez e finalmente Roma. Era uma sensação esquisita aquela que me dominava (não sei se o mesmo acontecia com os outros; acho que sim) , uma sensação ao mesmo tempo de alegria e tristeza. A guerra, como já disse, é cheia de truques, todos nojentos; e um dos , mais nojentos é fazer com que alguém que com ela conviveu durante meses acabe sendo condicionado por ela. Por isso é que naqueles dias, véspera de voltar para casa, eu sentia que não fora apenas a guerra que havia acabado, mas também uma parte do que eu era antes de chegar à Itália. Por isso é que costumo dizer que cheguei à Itália com 26 anos e voltei com 40, embora lá só ficasse pouco mais de oito meses. Ao contrário do poeta, não foi exatamente por delicadeza que naqueles quase nove meses perdi parte de minha mocidade, ou o que restava dela. A guerra, repito, é nojenta. E o que ela nos tira (quando não nos tira a vida) nunca mais nos devolve. 

"O Inverno da Guerra"
Joel Silveira


Municiando o "M-8" do Esquadrão de Reconhecimento.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

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