FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

TORPEDEAMENTO DE NAVIOS BRASILEIROS



Propaganda de Guerra

 

A frota de submarinos alemães desenvolvia intensa campanha no Atlântico Norte, causando pesadas baixas aos aliados. Aos poucos, a área de batalha foi se ampliando até chegar ao Atlântico Sul. No dia 16 de fevereiro de 1942, o navio brasileiro Buarque foi afundado. Anteriormente dois outros navios, o Taubaté, em 22 de março de 1941 e o Cabedelo, em 14 de fevereiro de 1942, já tinham desaparecido sem indícios de que tivessem sido torpedeados. As investigações posteriores, realizadas em arquivos alemães, também não confirmaram o afundamento por ato de guerra. No caso do Buarque, porém, os arquivos e documentos compulsados comprovaram que o navio brasileiro foi afundado pelo submarino alemão U 432, sob o comando do Capitão Schultzer. O mesmo submarino, com o mesmo capitão, afundou o navio Olinda, em 18 de fevereiro de 1942. Não havia mais dúvidas: a guerra chegara ao Brasil. Durante todo o conflito, foram afundados 32 navios brasileiros, e houve 972 mortes - 470 marinheiros e 502 passageiros, entre civis e militares em trânsito para as guarnições no Nordeste. Num dos navios, morreram romeiros que se dirigiam a um Congresso Eucarístico, além de inúmeras mulheres e crianças. Em maio de 1942, aviões da FAB, arma recém-criada com a união dos corpos do Exército e da Marinha, patrulhavam as águas costeiras. No dia 22, na altura do arquipélago de Fernando de Noronha, um avião B25 avistou um submarino navegando na superfície. Foi o submarino que primeiro atacou com armas antiaéreas, tendo o avião brasileiro revidado com lançamento de bombas, no primeiro ato de guerra praticado pelo Brasil. O avião, pilotado pelos comandantes Afonso Celso Parreiras Horta e Oswaldo Pamplona Pinto, não conseguiu atingir o submarino. Logo após esse dia ocorreram outros incidentes, comprovando que os submarinos alemães agiam ao longo da costa brasileira. Para atenuar o impacto negativo causado pelo torpedeamento, a quinta-coluna começou, insidiosamente, a espalhar que nossos navios teriam sido afundados por submarinos aliados, com o propósito de forçar o Brasil a entrar na guerra. Esse argumento mentiroso encontrou guarida entre alguns, poucos é verdade, mas o suficiente para que essa contrapropaganda, bem ao estilo do Dr. Goebbels, durasse até os dias de hoje. Agora, a mentira é sustentada não mais pela direita nazista, mas por aqueles que se aproveitam de qualquer motivo para deteriorar as relações entre o Brasil e seu ex-aliado, os Estados Unidos. Pode parecer fantasioso que, 40 anos depois, venha à tona essa inverdade histórica. Mesmo depois que o público tomou conhecimento de documentos alemães, dirigentes da Casa da FEB receberam, em 1985, a visita de um professor universitário de História, que indagava da sua veracidade, pois havia recebido instruções superiores para tornar a veicular aquele fato como verdade. Os aliados nunca tiveram intenção ou interesse de forçar o Brasil a entrar na guerra; desejavam tão somente cooperação, ou seja, a cessão das bases do Nordeste e o fornecimento de matéria-prima, o que já tinham, por força dos acordos assinados. Não precisavam lançar mão de meios tão torpes, tão contra os princípios que norte iam essas nações. Foi exatamente por causa da cessão das bases e do fornecimento de matérias-primas que os alemães torpedearam navios brasileiros. O Brasil é sempre parte integrante do que acontece no Atlântico Sul. Quando liberou suas bases, através de acordo, entrou praticamente no conflito, passando a ser parte atuante, sobretudo pelo papel decisivo da "ponte aérea" entre bases do Nordeste e a África. Seria muita ingenuidade política pensar que a Alemanha, que nunca respeitou qualquer tratado ou acordo que viesse direta ou indiretamente prejudicar sua estratégia militar, aceitasse essa posição do Brasil, e nada fizesse, portanto, para hostilizar nossos navios. Em 15 de julho de 1942, depois de ouvir o Alto Comando, Hitler determinou uma operação contra O Brasil. O governante alemão achava que era preciso dar uma lição nos brasileiros pela atitude favorável aos aliados. O plano inicial previa ataques de surpresa aos portos do Rio, Santos, Salvador e Recife, com afundamento de navios e a minagem dos canais de acesso. O Embaixador alemão Ritter, conhecedor da política sul-americana, ponderou que esse ato de guerra desencadearia uma solidariedade continental que poderia arrastar Argentina e Chile, cuja neutralidade convinha aos interesses da Alemanha. Hitler resolveu então modificar o plano. Escolheu determinadas áreas da costa brasileira e ordenou aos submarinos que limpassem a área, ou seja, torpedeassem os navios. Não pode haver mais dúvidas da determinação do Governo da Alemanha de praticar atos hostis contra o Brasil. Os próprios alemães, que nunca esconderam essa responsabilidade, forneceram, com sua conhecida meticulosidade e precisão, a lista de navios brasileiros afundados, dando até a identificação do submarino agressor, o nome do respectivo oficial comandante e a data dos ataques. Após a declaração de guerra, o embaixador alemão em Buenos Aires afirmou, através de nota diplomática, que os navios brasileiros navegavam em comboio, estavam artilhados e agiam com beligerância. Foram esses os argumentos que o diplomata alemão usou como justificativa para o afundamento de navios brasileiros. Na verdade, os alemães nunca negaram o fato. Foi um ato de guerra deliberado e calculado, e a propaganda nazista local, para atender conveniências do momento, inventou aquela inverdade histórica, que na época ofereceu pouco resultado e que hoje, 40 anos depois, é recontada para atender interesses políticos bem diversos daqueles que a criaram. Esses atos de franca hostilidade contra o Brasil contaram com o auxílio de elementos do próprio continente sul-americano. Alguns navios mercantes argentinos, neutros, portanto, passaram a ter um comportamento estranho, que chegou a ser definido como insolente e desrespeitoso. Esses navios cruzavam os comboios brasileiros com luzes acesas e irradiando suas coordenadas geográficas, usando para isso pretextos fúteis. O desrespeito chegou a tal ponto que um navio argentino, ao desobedecer às ordens do navio-capitânia para se afastar do comboio, levou um tiro de advertência do navio de guerra Rio Grande do Sul. Todos esses fatos estão relatados em livro do Almirante Saldanha da Gama sobre a Marinha brasileira. A gravidade do assunto levou o Ministério da Marinha a dar conhecimento ao Presidente da República, por carta de 14 de julho de 1943. A convite do Ministério da Marinha, o Almirante Jorgen Horhwer esteve no Brasil e, no dia 28 de março de 1982, na Escola de Guerra Naval, pronunciou uma conferência intitulada "Operações navais da Alemanha". O almirante, que combateu pela marinha alemã na última guerra, não só confirmou como relatou de forma precisa como os submarinos de seu país torpedearam navios brasileiros, no litoral. O depoimento histórico abrange todas as operações navais realizadas nesta parte do oceano Atlântico, do início ao fim das hostilidades, e foi publicado, na íntegra, no número 18 da revista Navigator. Depois da comprovação fornecida pelo arquivo alemão e do depoimento do Almirante Horhwer, querer sustentar que foram submarinos aliados que torpedearam navios brasileiros deixa de ter sentido.

"A FEB por um Soldado"
Joaquim Xavier da Silveira


Navio Porto Alegre, torpedeado em 1942.

DEPOIMENTO SOBRE O 18 DE AGOSTO DE 1942

A vida das pessoas é marcada por acontecimentos alegres ou tristes e, em certos casos, até por algo que ultrapassa a tristeza e se configura em tragédia. Seguramente, o dia 18 de agosto de 1942 foi uma data trágica, que atingiu em nosso País a comunidade de estrangeiros e respectivos descendentes cujo berço natal estava em nações como a Alemanha, a Itália e o Japão. Nem mesmo o Estado do Ceará, notadamente a cidade de Fortaleza, escapou da onda de barbárie e devastação que percorreu o Brasil de Norte a Sul e de Leste a Oeste, tudo sobre a invocação de um pretenso patriotismo e de um brio de Nação ferida. A pretexto de se protestar contra afundamentos, por submarinos alemães, de navios brasileiros que navegavam em nossas costas transportando, inclusive, tropas do Exército e civis, praticaram-se em todo o território nacional saques, depredações e destruições de bens pertencentes àqueles estrangeiros, chamados à época de "Súditos do Eixo", denominação que aludia ao Eixo Roma-Berlim-Tóquio, contra o qual combatiam os Países Aliados, entre os quais se destacavam Estados Unidos, Reino Unido, França (a livre) e China. De repente, aqueles estrangeiros que para aqui emigraram, fixando residência e desenvolvendo negócios das mais variadas espécies, procurando, com o seu esforço, trazer uma contribuição ao desenvolvimento da terra abençoada que tão bem os acolhera, viram-se tratados como inimigos, espiões, traidores, etc. que deveriam receber uma punição popular. Foi assim que surgiu o movimento de 18 de agosto de 1942. O signatário deste depoimento jamais esquecerá os fatos que se desenrolaram naquele malsinado dia em nossa capital. Era um garoto de 7 anos de idade que, na manhã daquele dia, longe de supor o que iria acontecer, encontrava-se assistindo à sua aula de curso primário do Colégio Lourenço Filho, situado à época, na Rua Floriano Peixoto, lado do sol, no trecho compreendido entre as Ruas Pedro Pereira e Pedro I, onde, aliás, também se localizavam os Colégios 7 de Setembro e Waldemar Falcão (já extinto), quando, surpreso, viu sua irmã Carmélia, depois senhora e, atualmente viúva Venício Marino, de fisionomia tensa, adentrar na sala e falar em voz baixa com a professora que ministrava a aula para, em seguida, levar-me para casa. A casa em que a família Rattacaso: meu pai Ângelo Rattacaso, minha mãe Carolina Mosca Rattacaso, eu e minha referida irmã e mais uma parenta italiana por nome Raquel Russo e uma agregada brasileira de nome Inês, morava, situava-se próximo ao Lourenço Filho e a meio quarteirão da Praça do Ferreira, ou seja, Rua Pedro Borges, 118 (altos), funcionando no térreo, esquina com Gen. Bezerril, as instalações da Padaria Italiana, instalações essas que haviam sido transferidas, há pouco, ao espanhol Rudezindo Nocelo Feijó, conhecido simplesmente por Roberto Feijó, já falecido, e pai do presidente da Associação Cearense de Supermercados, Aníbal Capelo Feijó. Senti, durante o trajeto de regresso, que alguma coisa de grave estava acontecendo ou estava por acontecer. Verifiquei um movimento inusitado de pessoas pela Rua Floriano Peixoto em demanda da Praça do Ferreira, itinerário esse, por sinal, onde trafegavam os bondes da Ceará Light. Ouvi também vozes exaltadas e bem assim aclamações e vivas ao Brasil. Mal chegara à minha residência, nela adentrou uma senhora italiana que vinha fugindo dos apupos, achincalhes e empurrões de alunas da Escola Normal que se dirigiam da Escola à Praça do Ferreira e que, no itinerário, passavam necessariamente pela padaria e por nossa residência. A senhora em questão, que ainda é viva e chama-se Lucrécia Papa Marino, chorava convulsivamente. A presença da senhora em questão deixou todos nós entristecidos e mais do que nunca temerosos. O pior estava por vir e chegaria logo após. Passeata reunindo pessoas de diversos matizes sociais, tendo à frente alguém empunhando a bandeira brasileira, estancou defronte à nossa casa e padaria e, após discursos e conclamações, invadiu o estabelecimento fabril, destruindo o que era possível destruir, somente permanecendo intacto o maquinário, porque era pesado e feito de ferro. A Rua Pedro Borges, no trecho que corresponde à frente da então Padaria Italiana, ficou ocupada por restos de produtos confeccionados pela fábrica em alusão e que, também, foram atirados para o alto, atingindo a sacada e o terraço da residência. Todos nós ouvíamos os ruídos do quebra-quebra que ocorria no térreo e sentíamos que estava próxima a invasão do sobrado da residência, pois já podíamos vislumbrar pessoas portando alavancas, marretas e instrumentos similares postando-se à frente do portão de acesso ao prédio residencial procurando arrombá-lo para, galgando a escada, promover a destruição dos pertences da nossa casa e, quem sabe, atingir até nossa incolumidade. Todavia, neste momento tão angustiante, quando tudo parecia perdido, minha mãe, Carolina Mosca Rattacaso, que se postou do lado de dentro do portão, mantendo-o fechado, abriu as portinholas do mesmo e, protegida pelo gradil de ferro, procurou dirigir-se aos exaltados populares mostrando a sua condição de brasileira, ainda que filha de pais italianos, pedindo calma e implorando que não nos fizessem nenhum mal. Nessa ocasião, aproxima-se um moço que era parente de meu tio Estevam Mosca e que, à época, fazia o Tiro de Guerra (estava uniformizado), o qual, atendendo a apelo de minha genitora, prontificou-se, solicitamente, a guarnecer o nosso portão, declarando aos presentes que se propunham ao saque que pessoa alguma iria entrar na casa, visto como ele não deixaria, sob forma de pretexto algum, que tal sucedesse. Esse moço, enviado da Divina Providência que salvou a nossa integridade e talvez as nossas vidas, preservando o nosso patrimônio residencial, e que, por isso, é digno de imorredoura gratidão, é o hoje jornalista Eutimio Moreira. Eutimio foi o nosso Anjo da guarda materializado. Manteve-se firme naquele posto até o momento em que a multidão criminosa foi dissolvida graças a uma carga do então Esquadrão de Cavalaria da Polícia Militar do Ceará, que nesse tempo era aquartelado em Antônio Bezerra, nas instalações onde atualmente funciona o Colégio da Polícia Militar. A presença da cavalaria aludida acima marcou a única ação das autoridades de então no sentido de proteger as nossas vidas e incolumidade física, e, bem assim, o patrimônio tão laboriosamente construído por meus pais. A propósito, vale ressaltar que, tirante essa intervenção, nenhuma outra daqueles órgãos que, modernamente, se chamam de segurança se fez notar. Todos nós, estrangeiros e descendentes, no que diz respeito à comunidade, com laços de origem na Alemanha, Itália e Japão, salvante alguma ou outra atitude isolada deste ou daquele policial, ficamos à mercê da sanha vingativa e destruidora do povo que participava do movimento em epígrafe. Estávamos abandonados à nossa própria sorte. Não soaria bem proteger súditos do Eixo... É de se assinalar, como registro para melhor compreensão do problema, que esse povo que tanto investiu contra esses segmentos estrangeiros foi incitado sob formas diversas ao movimento depredatório, inclusive por conhecidos oradores da época, ligados tanto à esquerda como à direita. Era um coquetel de ideologias e tendências políticas diversas reforçado por manifestações de incitamento por parte de jornalistas de muita evidência da terra. Acrescente-se a esse quadro assustador, a participação no saque de algumas figuras de proa do empresariado local. Eram os "americanófilos", que embora não tomassem parte, diretamente, no quebra-quebra, provocavam e orientavam o povo dizendo por exemplo que na casa do padeiro (alusão a meu pai panificador) havia muita coisa para quebrar ou saquear. Idêntico procedimento, por sinal, foi adotado com referência à família chefiada pelo Sr. Ângelo Marino, italiano de nascimento, no que tange às suas casas de comércio e residências, situadas nas Ruas Edgar Borges (defronte ao prédio onde hoje funciona a Loteria Estadual do Ceará), Floriano Peixoto, onde se encontrava instalada a Tinturaria Italiana, pertencente ao Sr. Gino Marino, filho do mencionado Sr. Ângelo Marino, e ainda ao restaurante que a família possuía na Praça do Ferreira, sendo de destacar que, neste último estabelecimento, o Sr. Venício Marino, que futuramente tornar-se-ia meu cunhado, e que, à época, era estudante e pertencia ao Centro Estudantal Cearense, usou da palavra para pedir à multidão que não depredasse o estabelecimento, pois ele era brasileiro e participante das lutas estudantis em favor da democracia. Recebeu como resposta uma violenta garrafada na fronte, que o deixou desacordado, somente vindo a despertar em um leito da então Assistência Municipal. Durante todo o restante de sua vida carregou a marca (cicatriz) do ferimento, que se iniciava na fronte e se prolongava pelo couro cabeludo. Aliás, a propósito de agressão desse tipo, vale recordar que por padecimento idêntico passou o Sr. Renê de Paiva Dreyfus, mais tarde político e vereador, figura de prol na vida da cidade, que, pretendendo, também, defender o Café então denominado Íris, de propriedade do filho de italiano Sr. Orlando Laprovítera, pai do Sr. Alcendo Laprovítera e alto funcionário, hoje aposentado, da Justiça do Trabalho, ali recebeu também uma garrafada na cabeça, produzindo-lhe ferimento igualmente de certa gravidade. O Café Íris localizava-se em um ângulo da Praça dos Voluntários, ou mais precisamente, na confluência da Rua General Bezerril com a Travessa São Francisco, bem próximo da Secretaria de Polícia e Segurança Pública do Estado do Ceará. Que ironia! O destino e os seres humanos na maior parte das vezes, são imprevisíveis. No caso da depredação das residências e casas de comércio da família Marino, na Rua Edgar Borges, configurou-se um triste exemplo de traição e de baixeza por parte de um determinado cidadão, de projeção empresarial e social, "americanófilo" de primeira água, muito festejado na época, que embora amigo do Sr. Ângelo, postou-se de frente para os imóveis da família do mesmo, incentivando o povo à depredação e dizendo aos brados: "Subam e joguem o piano para a rua! Joguem! Joguem!" O piano a que aludia o mau caráter em alusão integrava o mobiliário da casa (altos) do Sr. Ângelo Marino, que era vizinha à de seu filho Gino Biagio Marino e era utilizado pela filha do Sr. Ângelo, por nome Maria Felícia, a esse tempo solteira e que, posteriormente, tornar-se-ia a senhora José Ascensão Frota (casal já falecido no Rio de Janeiro). O quadro, na manhã daquele fatídico dia, por volta de meio-dia, era contristador. Inúmeras outras lojas de estrangeiros, como por exemplo a Casa Cunto, na Praça do Ferreira (Rua Floriano Peixoto), de propriedade do italiano Sr. Vicente Cunto, que era o Cônsul da Itália, onde posteriormente, viria a funcionar o estabelecimento denominado "O Jangadeiro", a Sapataria Veneza, também na Floriano Peixoto, de frente para o atual Museu Histórico, de propriedade dos irmãos italianos comendador Francisco Ângelo De Francesco, Braz De Francesco e Salvador De Francesco, este último viria a ser sogro do engenheiro e coronel do Exército César Cals de Oliveira Filho, por força do casamento deste último com sua filha Marieta De Francesco, a loja do Sr. Miguel Lamboglia, igualmente de nacionalidade italiana, sendo que algumas como as Lojas Pernambucanas, pertencentes à família alemã Lundgren, foram também incendiadas. A sede da destruição era insaciável. Por pouco não foi quebrada a Padaria Lisbonense, de propriedade de portugueses, que somente escapou à sanha criminosa quando hasteou as bandeiras do Brasil e Portugal. Na casa em que morávamos, na parte dos fundos, podíamos ouvir o ruído da destruição e ver os rolos de fumaça subindo para o alto das lojas incendiadas. Foram momentos terríveis que marcaram aquele dia da minha infância. Via o meu pai Ângelo Rattacaso, que circulava insistentemente pelo sobrado muito tenso e revelando em sua face o temor por aquele quadro dantesco. Senti que, após aquilo tudo, meu pai teria por certo a sua saúde abalada, pois era cardíaco e vivia sob dieta. A muito custo, conseguimos deixar o sobrado em que residíamos, levando pouquíssima roupa de muda e alguns objetos de valor (dinheiro e jóias), pois tínhamos que aproveitar um certo ambiente de calmaria, que se formara em frente à padaria e ao sobrado de residência após a intervenção da cavalaria e tínhamos conseguido a duras penas que um veículo de aluguel do Posto Mazine, localizado na Praça do Ferreira, viesse nos apanhar. O veículo era um automóvel da marca muito conhecida naquele tempo em nossa cidade: Packard. Falei que houvera dificuldade em tomarmos ou chamarmos o carro em referência, vez que as pessoas, a partir daquele dia passaram anos dar as costas e evitar maior contato com todos nós estrangeiros e filhos dos mesmos, sendo todos nós tratados como se fôssemos traidores, quintas-colunas, infames, etc. Algo de muito perigoso. Conseguimos nos homiziar na residência de meu tio Estevam Mosca, advogado de muito conceito, que, embora italiano de origem, adquirira, compulsoriamente, a nacionalidade brasileira por ocasião da Proclamação da República, quando aqui já se encontrava. Daí, por que, todos os da terra tinham-no na conta de brasileiro, não molestando-o e também em conseqüência a nós da família Rattacaso que lá nos abrigamos. A saúde de meu pai piorava dia a dia, indicando que um derrame cerebral estava em curso. Faleceu, poucos dias após, em data de 1° de setembro, na Casa de Saúde São Raimundo. O quebra-quebra produzira a sua primeira vítima mortal. O velório e sepultamento transcorreram em ambiente de tristeza e solidão. Fora as pessoas da família, pouquíssimos amigos. Detalhe importante, naquele dia ainda se encontravam presos vários italianos e alemães, pois a Polícia que de modo geral não proporcionara quase nenhuma segurança no que tange à vida, integridade e patrimônio das famílias em questão, foi de rara diligência em efetuar a prisão daqueles que passaram a ser tratados (inclusive os da geração brasileira) como "espiões do Eixo", e recursos não lhe faltaram pois, àquela época, tínhamos a Polícia Especial, Guarda Civil e Guarda de Trânsito, sem se falar nas Delegacias de Polícia existentes. A Polícia Civil foi a grande ausente. Aliás, aquele 18 de agosto foi caracterizado por ausências. A guarnição do Exército estava acampada em Maranguape e oferecia naquele dia um churrasco ao então interventor federal Dr. Francisco de Menezes Pimentel. Somente restou a nós todos uma grande decepção e um misto de dor e desolação por algo que nos soava como inteiramente injusto e despropositado. Pessoalmente, entendo que a versão da história oficial que nos é apresentada não corresponde à realidade do que, verdadeiramente, ocorreu com os fatos determinantes daquela eclosão de ódio.

Fortaleza, 18 de fevereiro de 1998.
ÂNGELO RATTACASO JÚNIOR

Ângelo Rattacaso Júnior - Bacharel em Direito exerce as elevadas funções de Auditor da 10ª Circunscrição Judiciária Militar, sediada em Fortaleza. Sua família estabeleceu-se nesta capital em 1895, procedente da Itália, na mesma época da imigração do compatriota Francisco Di Ângelo De Francesco, da Casa Veneza. Ângelo Rattacaso preferiu o ramo da panificação e massas alimentícias, fundando a Fábrica Italiana, com produção de alta qualidade, comprovada com a Medalha de Prata obtida na Exposição da Indústria Nacional de 1908, assim como pelo estabelecimento de uma filial, na Praça do Ferreira, 201, especializada em confeitaria e, anos depois, vendida à firma R. Feijó & Cia., cujo titular era o espanhol Rudezindo Nocelo Feijó. Com a denominação de Padaria Italiana, a matriz continuou a funcionar na Rua General Bezerril, 194 a 206 (na época). A mencionada transação comercial ocorreu um ano antes do "quebra-quebra", depois do qual a depredada Fábrica Italiana foi reaberta como Padaria Nordestina, pelo dito Feijó.

"O Ceará na Segunda Grande Guerra"
Stênio Azevedo e Geraldo Nobre


Navio da Marinha de Guerra também torpedeado pelos alemães
Foto escaneada do livro "Eu estava lá"
Elza Cansanção Medeiros

Sob a ótica puramente profissional, é evidente que o Exército brasileiro estava despreparado. Disso ninguém duvidava, e Dutra tinha sobre seus ombros a imensa responsabilidade de manter a disciplina do Exército que, em período recente, sofrera enorme desgaste em sua disciplina, com as revoluções na década de 20 e as revoltas e atos ocorridos durante os anos 30, quando inúmeros sargentos tiveram proeminente participação, descontentes com sua situação na tropa e, portanto, facilmente atraídos pelos profissionais da agitação. Tudo isso se refletia no preparo da tropa e no seu aparelhamento técnico. A diretriz máxima do General Dutra era impor disciplina e coesão, treinando os subordinados para o desempenho eficiente de suas funções. Discreto, equilibrado em atitudes e decisões, não era homem de arroubos ou de simpatias gratuitas; sua passagem pela Presidência da República demonstrou esses traços de caráter. Já o General Góis Monteiro era uma pessoa de cultura e inteligência reconhecidas por todos, mas era dado a arroubos e simpatias. Afirmar hoje que um ou outro tinham matizes de simpatia em relação aos países do Eixo, com base em decisões que tomaram, escudados em pontos de vista militares, como o da objeção ao rompimento diplomático, seria uma ilação temerária. No depoimento de contemporâneos que privaram com os dois chefes militares, não se encontra nenhuma declaração formal de que qualquer um deles tenha tomado decisões de importância levados por simpatias pessoais. Nunca se pode saber o que vai pelo íntimo de alguém, mas os depoimentos e algumas decisões permitem dizer que, se o General Góis Monteiro não era contra a FEB, também não demonstrou nenhuma simpatia. Os próprios norte-americanos, atentos aos problemas de bastidores, não acreditam que o General Góis Monteiro cultivasse, ainda que intimamente, sentimentos pró-nazistas. Em 1º de julho de 1940, portanto antes de Pearl Harbour, em relatório do oficial de ligação do Departamento de Estado, foi dito que o General Góis Monteiro poderia ter simpatias pelo povo alemão, não sendo, no entanto, pró- nazismo. Os trabalhos da III Reunião chegaram ao fim. O Chanceler Oswaldo Aranha teve o indiscutível apoio do representante do México, que se transformou também num dos líderes do encontro. Apesar dos antagonismos surgidos inesperadamente na alta esfera do Governo, da campanha movida pela quinta-coluna e das manobras de bastidores realizadas pelos representantes das nações do Eixo, o Brasil, em 28 de janeiro, pela voz do seu Chanceler Oswaldo Aranha, rompeu relações diplomáticas com o Japão, pela agressão a território americano, e com a Alemanha e Itália, por terem declarado guerra aos Estados Unidos, em solidariedade aos japoneses. Foram então providenciados os passaportes dos membros das respectivas missões diplomáticas. As missões brasileiras na Itália e Alemanha tiveram seus direitos respeitados, com o Governo dos dois países cumprindo a convenção que dispõe sobre os casos de rompimento. Idêntica atitude não teve o Governo japonês: os funcionários brasileiros em Tóquio sofreram constrangimentos e vexames, incompatíveis com as normas diplomáticas. O Brasil se alinhou em caráter definitivo com as nações aliadas, mas internamente uma minoria atuante, que se opunha à atitude tomada, procurava protelar todo e qualquer esforço de cooperação entre o país e os Estados Unidos. Nessa luta, a primeira figura visada era o Chanceler Oswaldo Aranha, a quem procuravam desgastar, buscando de todas as maneiras retirá-lo do Ministério das Relações Exteriores.

"A FEB por um Soldado"
Joaquim Xavier da Silveira



Populares empunhando cartazes de repúdio ao regime nazista
Foto escaneada do livro "O Brasil na II Grande Guerra"
Cel. Manoel Thomas Castello Branco

Enquanto muitos brasileiros, filhos de alemães, lutavam com a FEB na Itália, as suas famílias aqui no Brasil, como foi o caso dos pais de um cabo de nossa Companhia, eram vítimas de multidões enfurecidas que, além de chamá-los de traidores e "quinta-colunas", chegaram a depredar e até mesmo a saquear os seus bens.

Nós Estivemos Lá"
José Dequech


Repúdio popular aos ataques nazistas - Rio de Janeiro
Foto escaneada do livro "O Brasil na II Grande Guerra"
Cel. Manoel Thomas Castello Branco

 

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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