FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 


Pracinhas brasileiros 
Foto escaneada do livro "Trinta Anos Depois da Volta" - Gen. Octávio Costa

PRIMEIRO CONTATO COM A TERRA E O POVO ITALIANO

Após três dias de uma calma e agradável viagem pelo "Mare Nostrum", na manhã de 6 de outubro, quatorze dias depois de havermos deixado a Baía de Guanabara, entrávamos na Baía de Nápoles. Às sete horas da manhã passamos pela Ilha de Capri, tão pitoresca e romântica, divisando seus contornos escarpados, as pequenas vilas de Marina Piccola e Marina Grande. Alguma daquelas casas dependuradas nos cimos abruptos, seria por certo a vivenda de Axel Munthe. Algum daqueles recôncavos por certo esconderia a entrada da Gruta Azul. Um dia, se tudo corresse bem, haveríamos de esclarecer esses pontos, num repousante e encantador passeio pela "Isola de Capri". Afinal o navio atracou ao cais de Nápoles. A primeira parte de nossa jornada terminara otimamente. Havíamos vencido o oceano e ali estávamos, prontos para saltar em terra e subirmos pela península acima, até onde os alemães estivessem, para lhes darmos combate. Todo mundo andava pelos conveses, admirando Nápoles. Então, aquele era o tal Vesúvio? Ora vejam só! O Vesúvio! Todos sabem que o Vesúvio fica em Nápoles e se estávamos em Nápoles, nada mais natural do que avistar o Vesúvio. Mas ninguém se cansava de olhar para o célebre vulcão, que aliás estava farto de ser admirado pelos turistas do mundo inteiro. Não ligava a menor importância a nós. Nem se dignava a lançar uma fumacinha de saudação aos brasileiros, que vinham de tão longe. Alguns nem acreditavam que aquele morro fosse mesmo o Vesúvio. Uma cousa ficou logo estabelecida: não se comparava a beleza da Guanabara com a de Nápoles e só mesmo o natural exagero do italiano poderia ter criado a frase "veddere Napole e poi morire". Víamos Nápoles e ninguém se julgava satisfeito, a ponto de desejar morrer, nem mesmo sabendo que ia para os campos de batalha. A zona portuária mostrava os sinais dos bombardeios aéreos. Muitos prédios em ruínas e muitos cascos de navios emborcados ou semi-afundados. O resto da cidade nos parecia intacta. Próximo do cais se avistava o Castelo Angioino e no fundo, dominando o cenário, San Martin. A alegria da chegada foi logo abafada pela notícia de que ninguém desembarcaria em Nápoles. Iríamos passar diretamente dos navios transportes para as barcaças de invasão e prosseguir a viagem para Livorno. Ficamos três dias presos a bordo, vendo Nápoles por um óculo, ou melhor, de binóculo. Raros felizardos puderam ir à terra, entre eles meu amigo Horácio Coelho, fotógrafo do Estado Maior do Exército. Com parte de tirar fotografias, ele andou passeando pela cidade e nos trouxe uvas e figos de Taranto, além de notícias de terra. Havia grande carestia de vida. Um quilo de carne custava oitenta cruzeiros e um par de calçado mil cruzeiros. Não se encontrava leite nem manteiga e a escassez de outros alimentos e roupas era grande. A tripulação americana teve permissão para descer, em excursões turísticas. Encomendei pelo meu amigo Lindquist, o radiologista de bordo, com quem fizera boa camaradagem, vistas e "recuerdos" de Pompéia, Herculano e outros arredores de Nápoles, por onde ele foi passear. Recebemos a visita de alguns brasileiros que moravam na cidade, entre eles os Generais Washington Vaz de Melo, Boanerges Lopes de Sousa, Francisco Paula Cidade e Valdemiro Gomes Ferreira, do Conselho de Justiça, o Prof. Estelita Lins, do 48º Hospital Geral e outros. Três dias passamos ali, naquela vidinha de bordo, apreciando a carga e descarga do navio, feita por estivadores italianos, comandados pelos americanos. No dia 9 começaram a se alinhar, uma ao lado da outra, entre os dois transportes, as barcaças de invasão LCI (Landing Craft Infantary), as mesmas que tomaram parte na invasão do sul da França, meses antes. Para ela nos mudamos com toda a bagagem, agora acrescida de mais vinte e cinco quilos da cama rolo e da barraca. O transbordo da tropa começou às treze horas e terminou à uma hora da madrugada. Enquanto nos acomodávamos nos LCI, os " Gen. Mann" e "Gen. Meiggs" recebiam novas tropas, que iam noutra direção, talvez em férias para a América, talvez lutar em outras frentes. Na manhã do dia 10 de outubro, zarpou o comboio de cinqüenta e seis barcaças, em bela formação de três filas, transportando os dez mil brasileiros do segundo escalão, através do mar Tirreno, em direção a Livorno, que os ingleses chamam de Leghorn. "Essas barcaças têm o fundo chato, correm muito e são pequenas, jogando horrivelmente. Os grandes transatlânticos não jogavam nada e neles ninguém havia enjoado". Mas nas barcaças a cousa era diferente. Era de amargar. Os "valientes", que já se julgavam velhos "lobos do mar" se revelaram miseravelmente. Houve alguns que quase morreram de tanto enjoar e não arredaram a cabeça do travesseiro. Nunca haveríamos de esquecer aquelas trinta horas de enjôo. No entanto a viagem era maravilhosa para quem conseguisse controlar o estomago. Vínhamos margeando a costa italiana e avistando as ilhas de Ischia, Pongani, de Elba, o Castelo Volturno, as vilas de Fogliano, Nettuno, Ardea, Piombino, San Vicenzo, Cecina, Vada, Castiglioncello. A manhã de 11 de outubro foi uma bonita manhã de sol, com o céu azul, que havia sucedido a um temporal, inclusive uma tromba d'água, que desabara em nossa frente, felizmente sem nos atingir. Se fosse nos tempos antigos, haveríamos pensado que o temporal tinha sido obra dos deuses, a pedido dos alemães, que teriam exclamado, como nos dias da viagem de Enéas, por aquelas mesmas águas: "Gens inimica mihi Tyrrhenum na vigat aequor". Ao ver a tromba d'água, vieram-nos à mente os belos versos de Virgílio, descrevendo o temporal que desencadeou sobre os barcos de Enéas: "...ac venti, velut agmine facto, qua data porta, ruunt, et terras turbine perflant. Incumbuere mari, totumque, a sedibus imis." "E os ventos, como em esquadrão cerrado, se precipitam pela porta que se lhes oferece, e levantam com seus redemoinhos nuvens de pó. Correm a tropel ao mar e o revoltam até seus mais profundos abismos, o Euro, o Noto e o Africo, cheios de tempestades, atirando à costa enormes ondas". Júpiter e Netuno porém estavam de nosso lado e afastaram para longe os furiosos Euro, Noto e o Africo, não permitindo que eles destroçassem os LCI. O mar entretanto ficou encapelado e balançava os navios, em todos os sentidos, de lado, de popa à proa, de todo jeito. Além do "balancé", havia para agredir nossos estômagos a bóia de bordo - ração C (meat and vegetable) fria. Só mesmo umas latas de suco de tomate e de laranja é que salvaram um pouco a situação. Para alguns foi esta a fase pior da guerra e, mais tarde, quando alguém falava em LCI, muitos sentiam arrepios na espinha e um frio no estomago. O conforto vinha decrescendo na razão direta do quadrado da distância e nos lembrávamos com saudades dos transportes grandes. Com aqueles o mar Tirreno não teria brincado daquela maneira. Afinal, ao meio dia, avistamos Livorno e à tarde estávamos atracados. Uma pequena parte da tropa ainda desembarcou neste mesmo dia, mas o grosso do pessoal pernoitou a bordo, descendo no dia 12 de manhã. Estava assim terminada a travessia marítima. Saltávamos em solo italiano, a poucos quilômetros do "front", para iniciar a segunda etapa. Fomos nos juntar ao primeiro "Combat Team", completar o efetivo da Divisão Expedicionária, ocupar o setor que nos fosse designado e desempenhar as missões que nos coubessem. O dia estava chuvoso e o desembarque se fez na lama. Uma grande fila de caminhões americanos, dirigidos por pretos, os quais faziam parte das Companhia de Caminhões (Truck Company), órgãos de Exército, se achava à nossa espera. Arcados sob o peso da bagagem (os carregadores continuavam a primar pela ausência) lá íamos enchendo sucessivamente os "G.M.C.", que seguiam em comboio, pela estrada Livorno-Pisa, em demanda da Área de Estacionamento nº 3 (Staging Area number 3). Começava aí o verdadeiro caleidoscópio, a sessão viva de Cineac, a que iríamos assistir durante tantos meses, como espectadores e atores ao mesmo tempo. A estrada Livorno - Pisa era um dos trechos mais movimentados, pois Livorno era, depois de Nápoles, o principal porto de desembarque de material bélico. Dali os suprimentos se espalhavam por todo o teatro de operações, em milhares de viaturas. Em Livorno estavam localizados grandes depósitos de víveres, munições e toda espécie de material bélico. Apesar desse porto distar apenas oitenta quilômetros de Spezzia, que era uma base aérea e naval ainda em poder dos alemães, os americanos não tiveram dúvida em se instalarem à vontade, dada sua absoluta superioridade aérea. Não obstante isso a proteção anti-aérea da cidade era completa. Inúmeros balões cativos formavam uma grande rede protetora da zona portuária. Baterias anti-aéreas se espalhavam por todo lado. Numerosos depósitos de bombas fumígenas se localizavam nos pontos estratégicos, prontas para lançar uma cortina de fumaça que esconderia os alvos em poucos minutos. Mas ,a principal proteção contra os ataques aéreos estava no campo de aviação de Pisa. Centenas de aviões de caça ali repousavam, aguardando o primeiro sinal para voarem em perseguição a algum avião inimigo que se aventurasse por aquelas bandas. Sob os escombros dos hangares destruídos do aeroporto de Pisa, os aviadores americanos se instalaram e organizaram uma poderosa base aérea. Ali estavam também os valentes representantes da FAB, os destemidos aviadores brasileiros, que tanto valor e heroísmo demonstraram. 


Pracinhas brasileiros na Itália.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

Neste primeiro contato com a terra italiana, íamos presenciando a destruição das cidades e vilas e tínhamos a primeira impressão sobre aquele povo que sofria as conseqüências da derrota e havia caído num verdadeiro caos político, ideológico e econômico. Não se notava entre o povo nenhum ressentimento contra os aliados. Ou porque respeitassem e temessem nossas tropas, ou porque vissem com a nossa chegada o fim do domínio alemão e fascista e portanto o fim da guerra, o fato é que éramos bem recebidos. Além do mais, nós lhes trazíamos muitas coisas boas, tão desejadas e que havia tanto tempo não tinham - chocolate, cigarros, açúcar, sabão, etc. Pelas estradas por onde passávamos, íamos encontrando crianças, velhos, mulheres e mesmo homens fortes e moços, pedindo: " Cigarette! Ciocolate !" E nossos soldados iam atirando cigarros e chocolate, entre gritos e risos, achando aquilo muito interessante.


Acampamento na "Stanting Area nº 3", em Pisa.
Foto escaneada do livro "Epopéia dos Apeninos - José de Oliveira Ramos

Afinal chegamos à "Staging Area nº 3", situada nas proximidades de Pisa, na "Tenuta de San Rossore", vasta propriedade dos reis da Itália. Nós, que vínhamos preparados para o pior, tivemos uma sensação de alívio, quando encontramos o acampamento organizado, com as barracas armadas, as cozinhas funcionando, as instalações higiênicas prontas, graças ao pessoal do Primeiro Escalão. Começamos então a receber o material de acampamento - cama de campanha, mosquiteiro, velas, fósforos, etc. e fomos nos ajeitando. Em cada barraca ficavam em média dois a quatro oficiais. O acampamento se estendia por um campo retangular, ao longo de uma estrada, ladeada de pinheiros. À entrada se localizou o QG da Artilharia Divisionária, com as barracas do Gen. Cordeiro de Faria e seu Estado Maior. Depois seguiam as unidades do QG, os Grupos de Artilharia e as unidades de Infantaria. Os soldados armaram suas barracas, de dois em dois, recobertas pelos mosquiteiros. No meio do acampamento foram instalados os chuveiros, com água aquecida. As refeições, em número de três, obedeciam ao seguinte horário: café às oito horas, almoço às onze e jantar às cinco da tarde, horário esse que foi religiosamente seguido, desde o primeiro ao último dia de nossa permanência na Itália, com as chuvas do Outono, as neves do Inverno e o calor do Verão. É um fato notável na organização do Serviço de Intendência, pois nunca houve uma falha ou atraso no fornecimento de gêneros alimentícios ou no preparo das refeições, quer nas unidades de frente, quer nas da retaguarda. Foi um funcionamento matemático, perfeito. Vimos e aprendemos os hábitos norte-americanos de acampamento, que já conhecíamos do Brasil, no período de treinamento. As refeições eram servidas em fila, que passava diante da cozinha. Vínhamos com os pratos de alumínio e caneca, recebendo os alimentos, café, chá ou suco de frutas, pão, etc. Comia-se sentado no chão, na capota de algum "jeep", num banco improvisado. Terminada a refeição, outra fila se formava, diante dos três camburões de água fervente, para lavar a "louça", que era mergulhada sucessivamente na água com sabão, água com desinfetante e água limpa. Os pratos, talheres e caneca eram em seguida abanados ao ar, para secar. Esse processo era rápido e higiênico. Próximo à cozinha havia grandes latas para os restos, que eram removidos pelo serviço de lixo. Ao lado de cada barraca havia um caixote para lixo e os comandantes de sub-unidades eram responsáveis pela absoluta limpeza da área de sua tropa. Soldados e oficiais eram obrigados a se barbearem diariamente. Pasta e escova de dentes, laminas, sabão de barba, sabonetes, enfim todo material de higiene pessoal era distribuído periódica e fartamente. Aquele tipo de guerreiro antigo, cabeludo, barbudo e sujo havia desaparecido. A guerra não devia interferir com os bons e sadios hábitos de asseio corporal. Pela manhã se via todo pessoal de cara ensaboada, diante dos espelhos dependurados na porta ou nos cantos das barracas, fazendo a barba. Os chuveiros tinham uma concorrência permanente e os barbeiros das unidades tosavam os pracinhas sem cessar. 


Pracinhas brasileiros recebendo cuidados de barbearia 
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

A bordo havíamos treinado a lavar nossa própria roupa. Mas ninguém se acostuma com o que é ruim e logo entramos em contato com as lavadeiras italianas, a que delegamos esse agradável mister. As "lavandaie" vinham buscar a roupa no acampamento e preferiam o pagamento em "robba dà mangiare" ou "cigarette" e era indispensável o fornecimento de sabão, cousa que havia desaparecido do mercado italiano. Além da freguesia da roupa, havia outra grande freguesia. Eram crianças, mulheres e velhos que vinham buscar as sobras de nosso farto rancho. O brasileiro, com sua índole bondosa, se penalizava em ver a miséria daquela gente e, de bom grado, estabeleceram o fornecimento das sobras. Desde o primeiro dia nasceu espontaneamente a Liga dos "PM" (Porta-Mangiare), instituição essa que funcionou sempre, em todas as unidades. Uns simpatizavam com as crianças, outros se apiedavam dos velhos e havia (em maior número já se vê) os que preferiam auxiliar as moças. A Liga dos PM tinha um serviço de entrega a domicílio e, após as refeições, sobretudo após o jantar, viam-se os membros da Liga saírem dos quartéis ou acampamentos, com embrulhos debaixo do braço, contendo vários petiscos para a "fiddanzata", "carameli per i bambini" e "cigarette per Papa". O modo de se travar relações com as famílias era o mais variado, contando com as naturais facilidades que o ambiente de guerra proporciona. A cerimônia era abolida e o método direto era o mais aplicado, por ser prático e rápido. Inicialmente ninguém se conhecia nas vilas e cidades onde chegávamos, de maneira que não podíamos esperar as apresentações de estilo. Qualquer incidente servia de pretexto para o início de uma relação e não faltavam motivos para incentivar uma camaradagem. De todas as unidades da FEB houve duas que se sobressaíram pela rapidez de infiltração entre as famílias italianas - foram à Cia. de Manutenção e a Banda de Música. Esta última era assombrosa. Vinte e quatro horas depois de chegar a Banda em qualquer lugar já se podiam ver os músicos inteiramente à vontade nas casas da vizinhança, "de dentro", como se fossem velhos conhecidos. Talvez a afinidade pela arte lhes valesse como uma apresentação e o simples fato de passar com um trombone ou um violão sob o braço atraísse a atenção e simpatia, abrindo-lhes as portas. Naturalmente eles logo aprenderam a falar "Io sono un musicista". O resto era fácil. Diziam mesmo que, se deixassem, a Banda se infiltraria pelo norte acima e tomaria Bolonha muito mais depressa do que a Infantaria. Houve um amigo meu que levou umas latas de leite condensado do Rio, como reserva para algum aperto. Chegando lá, porém, ele se convenceu de que não teria oportunidade de precisar de suas latas, pois nos forneciam bastante leite. Resolveu vende-las a algum italiano ou trocá-las por alguma mercadoria. Ofereceu-as numa loja a uma senhora, que lhe deu o endereço de uma parente, que estava com criança pequena, precisando de leite e que pagaria bom preço. Chegando ao tal endereço, meu amigo teve uma surpresa. Era uma pobre família. O pai da criança havia desaparecido com a guerra, não se sabendo de seu paradeiro. A mãe, muito magra e pálida, morava em companhia de seu pai, um velho cego, que andava guiado por um cão policial. Diante daquela cena, meu amigo resolveu dar as latas de presente, desistindo da negociata que pretendia fazer. E ainda prometeu levar pão e açúcar, o que fez durante muitos dias, entrando para a Liga dos PM. Os que o viam sair com o embrulho debaixo do braço, caçoavam com ele, calculando que seria para alguma "bella signorina". Só eu sabia de sua bondade para com um pobre cego e uma anêmica e desnutrida mãe, com o filhinho ao colo.

"Epopéia dos Apeninos"
José de Oliveira Ramos


Aeroporto de Pisa (16/10/1944). Da esquerda para a direita: Gen. Mascarenhas, Gen. Cordeiro de Faria,
Gen. Eurico Gaspar Dutra (Ministro da Guerra) e Gen. Olímpio Falconière.
Foto de Thompson do V Exército, escaneada do livro "Epopéia dos Apeninos - José de Oliveira Ramos

 

A "Staging Area" foi o ponto de encontro do pessoal dos dois escalões, primeiro e segundo. Esse encontro aliás foi um pouco decepcionante para nós. Todos esperavam uma recepção mais cheia de calor e entusiasmo. Tal não se deu porém. O pessoal do 1º Escalão nos recebeu com uma certa frieza e reserva, como se tivéssemos ido estragar a festa. Dir-se-ia que eles não quisessem repartir as glórias da campanha que haviam iniciado. Mostravam-se vagos nas informações ou as davam com ar de superioridade. Veteranos que eram, nos tratavam como calouros, ainda não iniciados nos segredos da guerra. Esse estado de cousa entretanto foi passageiro. Em breve a confraternização era geral. Já não havia mais primeiro, nem segundo, nem terceiro escalões. Éramos todos da FEB, irmanados nos mesmos princípios, formando um todo homogêneo, norteado pelos mesmos ideais de vitória. Desde os primeiros dias de chegada, principiamos a receber o material bélico, armamento, viaturas, enfim tudo de que precisávamos para entrar em ação. Receber aquele vasto material, reconhecê-lo, conferi-lo, treinar os homens em seu manejo, tal foi o grande trabalho desenvolvido na "Staging Area". À medida que as unidades iam completando seu equipamento, seu armamento e sendo considerada em condições de tomar destino, iam desocupando a área, que dentro de um mês já estava deserta, pronta para receber outras tropas. 


Visita do Gen. Eurico Gaspar Dutra (Ministro da Guerra) ao acampamento da FEB.
Foto de Thompson do V Exército, escaneada do livro "Epopéia dos Apeninos"

No dia 16 de outubro recebemos a visita do General Eurico Gaspar Dutra, que inspecionou a tropa formada na alameda de pinheiros, em frente ao acampamento. Nosso Ministro da Guerra passou quase toda a manhã na Área, assistindo ao almoço, em companhia dos Generais Mascarenhas de Moraes, Olímpio Falconière e Cordeiro de Faria. Na semana seguinte tivemos a visita do General Mark Clark, que foi inspecionar a tropa recém-chegada do Brasil e que se incorporava ao 5º Exército, sob o seu comando. Estávamos em pleno outono, estação essencialmente chuvosa. Aguaceiros enormes tornavam desagradável a vida de acampamento. A impermeabilização da lona das barracas evitava que a água passasse de cima para baixo, mas não evitava que ela subisse do chão para cima, sob a forma de umidade, que tudo invadia. O QG da Divisão e várias unidades se localizaram em bosques de pinheiros, próximos à Área de estacionamento. Nesses bosques a umidade era permanente e, com o movimento das viaturas o lamaçal era cada vez maior, o que aumentava o mal estar. Foi duro esse período, pois chegáramos havia poucas semanas e nossa adaptação teve de se fazer em condições bastantes desfavoráveis. Foi então que pudemos sentir a verdade do provérbio popular nos quartéis - "o soldado é superior ao tempo". Nunca me esqueço do espetáculo daquelas tardes chuvosas, em que nossos soldados voltavam de marchas e exercícios, inteiramente encharcados e enlameados. E eles não voltavam para casa, onde pudessem tomar um bom banho e trocar uma roupa limpa e um calçado seco. Tinham de se recolher às suas pequenas barracas, onde mal se podiam mexer, deitados no chão úmido. E aquilo ainda não era nada. O pior estava para vir. Durante o dia, com o movimento e as preocupações do serviço, ainda se tolerava o acampamento. À noite é que tudo piorava. A escuridão aumentava a sensação de umidade e frio. Mais o silêncio e o desconforto da cama-rolo, sobre a estreita cama de vento, na qual tínhamos de passar as longas noites de outono e inverno, tudo aquilo era penoso e acabrunhante. Vinha-me à lembrança a história da senhora de um major, muito ciumenta, que sabendo a designação do marido de uma sua amiga para a FEB, lhe telefonou imediatamente: "Olhe, fulana, não deixe seu marido ir. A guerra é um pretexto para a pouca vergonha. Você não imagina, em cada barraca de oficial há seis bailarinas". À fraca luz de um toco de vela, eu procurava pelo menos uma bailarina, para amenizar o ambiente, mas o que via era o Ten. Paulino de um lado e o Ten. Caminha do outro, ambos com formas e jeitos que não lembravam nem mesmo um bailarino, quanto mais uma bailarina. A realidade era bem outra e as bailarinas só apareciam nas barracas depois que adormecíamos, em nossos sonhos. Todos pagaram tributo à chuvarada, porém, os que mais sofreram foram os médicos, enfermeiras e doentes do Hospital de Evacuação de Pisa, o "38th. Evacuation Hospital", que estava localizado nos arredores da célebre cidade da Torre Inclinada, às margens do Rio Arno. Na noite de 2 de novembro de 1944, as grandes chuvas nas cabeceiras do rio de Dante, trouxeram uma enchente brusca e inesperada, que em poucas horas inundou completamente o Hospital, onde se encontravam centenas de doentes e feridos.

"Epopéia dos Apeninos"
José de Oliveira Ramos

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