FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

A VITÓRIA
Como tudo aconteceu...

 

A fase inicial das operações

Como o grupamento tático formado pelo 6º RI houvesse chegado à Itália quase três meses antes da maior parte da 1ª DIE, tornou-se impositivo fazer a FEB atuar, inicialmente, com apenas um terço de sua força operacional. O grupamento passou a chamar-se Destacamento FEB, sob o comando do General de Brigada Euclydes Zenóbio da Costa, diretamente subordinado ao 4º Corpo de Exército norte-americano.  Na noite de 15 para 16 de setembro, substituindo um batalhão americano que perdera o contato com o inimigo, o Destacamento FEB inicia suas operações em clima de marcha para o combate. Embora começássemos a operar em fase extremamente favorável, diante de inimigo rarefeito e em retirada, devíamos atuar, em uma larga frente, a cavaleiro do divisor de águas entre o mar Tirreno e o rio Serchio, em terreno acidentado e rochoso, em que teríamos de reencontrar o contato com o inimigo a fim de garantir segurança ao flanco oeste do V Exército. Atuando com muita prudência e certa lentidão, devido ao compreensível nervosismo de combatentes estreantes, os dois batalhões de 1º escalão, o 1º e o 2º do 6º RI, atingiram na jornada de 16 de setembro de 1944 a linha Monte Comunale - Il Monte, tendo se apossado de pequenas localidades, chamadas Massarosa, Bozzano e Quiesa, inquietados apenas por esporádicos fogos de artilharia inimiga. Atuando com espírito ofensivo e, aos poucos, ganhando velocidade, a tropa brasileira foi avançando para o norte, sem maiores dificuldades, até obter seu primeiro êxito de alguma expressão ao apossar-se, a 18 de setembro, da cidadezinha de Camaiore, de cerca de 5.000 habitantes, sob forte oposição de fogos de artilharia e morteiros, e levando de roldão pequenas resistências. Avançara sobre Camaiore um destacamento especial, formado por pelotões de fuzileiros e metralhadoras, de reconhecimento e de carros de combate norte-americanos, comandado pelo Capitão Ernani Ayrosa da Silva. Na jornada do dia 20, nas ações de estreitamento do contato, fizemos os primeiros prisioneiros e sofremos nossas baixas iniciais. Depois de perdermos cerca de seis dias diante do Monte Prano, tomamos posse da elevação e começamos a infletir para o vale do rio Serchio, que bem se prestava à ação retardadora realizada pelos alemães. Seguiu-se, já na nova zona de ação, a captura das localidades de Fornachi, Barga e Gallicano e, afinal, o ataque a San Quirico e Lama di Sotto, realizado na jornada de 30 de outubro, e cuja posse por nossas forças constituíra uma ameaça a Castelnuovo di Garfagnana, por onde passava uma transversal rodoviária de importância vital para a movimentação das reservas. Depois do ataque difícil mas bem sucedido, sofremos, na madrugada de 31 de outubro, poderoso contra-ataque, empreendido por forças especiais. Extenuados pelas longas marchas em terreno montanhoso e já tendo se habituado a enfrentar adversários sempre em retirada, nossos homens não tomaram as medidas de segurança necessárias à consolidação de posições recentemente conquistadas, sendo surpreendidos pela aparição de soldados alemães que ainda não tinham visto, pois se tratava de combatentes de elite, reservados para as ações de contra-ataque. Além de cedermos terreno, voltando às posições iniciais de onde partíramos, tivemos a lamentar a primeira perda em nosso quadro de oficiais, com a morte do Tenente José Maria Pinto Duarte. Terminavam ali as operações do Destacamento FEB, nas quais tivemos 290 baixas e conseguimos o saldo positivo de 40 km de vitoriosos avanços, de 208 prisioneiros capturados e de uma experiência que haveria de servir-nos para o resto da campanha.

No vale do pequeno Rio Reno

No dia 30 de outubro de 1944, o General Mark Clark, reunido no Passo de Futa (40 km ao Sul de Bolonha), discutiu com os seus comandantes de corpos de exército e divisões a situação do V Exército e as futuras operações. Tendo em vista as enormes dificuldades que vinha encontrando, especialmente na frente do II Corpo, pela fraqueza de seus efetivos diante da reação ainda vigorosa do inimigo, resolvera suspender temporariamente a investida sobre Bolonha, reajustar o dispositivo geral de suas forças de forma a descansar as divisões do II Corpo, retirar a divisão brasileira do vale do rio Serchio e levá-la para o vale do pequeno rio Reno, a cavaleiro da estrada 64. Pretendendo retomar a ofensiva ainda em dezembro, antes da chegada do inverno, atribuía ao IV Corpo, a que pertencíamos, o encargo de realizar operações preliminares para melhorar as condições de partida da ofensiva geral. Para cumprir as novas missões, o General Mascarenhas assumiu o comando de todas as tropas de sua Divisão, a 1 de novembro, desfazendo, então, o Destacamento FEB que, entre os dias 4 e 9, trocou a frente de combate de Castelnuovo di Garfagnana pelo setor situado entre os rios Reno e Panaro. Plantada nos contrafortes da cordilheira, entre o paredão das montanhas e a costa do Adriático, a cidade de Bolonha é a grande porta de acesso à riquíssima planície do Pó e caminho para o Passo de Brenner, na fronteira com a Áustria. Conquistar Bolonha era vencer a batalha da Itália. As forças aliadas procuravam investir sobre aquele importante nó rodoferroviário por três direções: a leste, a rota 9, a cargo dos ingleses do VIII Exército, investindo-o frontalmente; e, por oeste, o V Exército com o II e o IV Corpos, respectivamente, a cavaleiro das estradas 65 e 64. Havia já três meses que americanos e ingleses acometiam Bolonha inutilmente, suportando rigorosos contra ataques e sofrendo as mais severas perdas. Esse era o quadro da frente italiana quando a FEB começou a atuar totalmente reunida: ataques dizimados, divisões inteiras necessitando de descanso; frio, lama e sangue, desalento e dor. As posições brasileiras no rio Reno, por onde corria a rota 64, ficavam nas encostas de um arco de elevações, em cujas partes dominantes os alemães possuíam posições fortificadas: Belvedere, Gorgolesco, Monte Castelo, Della Torracia, Torre di Nerone, Soprassasso. Oblíquas em relação à estrada, as elevações descortinavam e dominavam todos os nossos movimentos, sendo necessário manter geradoras de fumaça em permanente funcionamento para proteger-nos das vistas e dos fogos do adversário. Nessa privilegiada situação topográfica e tática, em que o Monte Castelo era a parte mais sensível, funcionando como uma espécie de charneira, combatia a aguerrida 232ª Divisão de Infantaria Alemã. Guarnecendo uma frente que variou entre 15 e 20 km de largura, já de si bastante para a defesa por uma só divisão, teríamos também que atuar ofensivamente, não só para melhorar as condições de partida da futura ofensiva, mas também para aliviar a frente de Bolonha, onde as perdas aliadas eram alarmantes. Tratava-se de fazê-lo pressionando o adversário em outras partes da frente, forçando-o a retirar alguns meios, que combatiam na defesa da grande cidade, para os setores ameaçados. Impunha-se, pois, atacar as posições fortificadas do inimigo em nosso setor; atacar incessantemente, em um pedaço daquela frente extensíssima que também devíamos defender. Atacar do sopé para o cume fortificado, ainda sem a necessária experiência de combate; realizando ações frontais, sem meios suficientes; sem o apoio de blindados, pouco próprios para o combate na montanha e que se atolariam no lodo daqueles dias; na lama e no frio, arrastando-se sob o castigo de pesados capotões e enormes galochas; e sem a ajuda e o conforto da aviação, ausente daqueles terríveis céus de novembro e dezembro de 1944. Cada soldado brasileiro tombado nas encostas do Monte Castelo poupava o sangue de muitos combatentes de Bolonha e permitia a recuperação de tantos outros que, desde a Sicília, ou mesmo o Norte da África, vinham pagando o seu tributo. Chegara a nossa vez de participar diretamente da luta pela causa da liberdade. No quadro dessa defensiva agressiva, atacamos Monte Castelo quatro vezes - a 24, a 25 e 29 de novembro e a 12 de dezembro - e quatro vezes fracassamos, por insuficiência de meios para aquela larga frente e por terem sido ataques frontais a posições fortificadas. Tendo em vista as peculiaridades da situação, a Divisão, ao invés de empregar centralizadamente os seus regimentos, acionava diretamente os seus batalhões. Assim é que, a 24 e 25 de novembro, um batalhão do 6º RI atacou juntamente com a Task Force 45 norte-americana; no dia 29, o grupamento de ataque estava formado por um batalhão de cada regimento; e, a 12 de dezembro, operamos com dois batalhões do 1º RI e dois do 11º RI. Por duas vezes o soldado brasileiro chegou quase a dominar o morro sinistro, mas não conseguiu firmar-se nas posições conquistadas. De ataque para ataque crescia a soma de nossas perdas e sacrifícios e, também, de nosso heroísmo e valia. Monte Castelo não caíra, mas a missão estava sendo bem cumprida, pois, pressionados no vale do Reno, os alemães traziam, apressadamente, da área de Bolonha para a nossa frente, a 114ª Divisão Ligeira. O preço dessa contribuição era o grande passivo de mortos e feridos, a crescente fama da inexpugnabilidade de Monte Castelo e o visível declínio do poder combativo e do estado moral de nossa tropa. Em um dos batalhões do 1º RI que não conseguira firmar-se nas posições conquistadas, surgira uma questão disciplinar entre um comandante de companhia e seu comandante de batalhão, que o processaria pelo "não cumprimento do dever em presença do inimigo". Esse estado de espírito chegou a contagiar e a alastrar-se a outras unidades. Substituído o batalhão do 1º RI por um outro do 11º, este não resistiu, emocionalmente, ao assédio de uma patrulha de combate alemã, em sua primeira noite na frente de operações, de 2 para 3 de dezembro; foi acometido pelo pânico e abandonou suas posições, reocupadas, na manhã seguinte, por um batalhão do já experimentado 6º RI. Diante do ocorrido com o 1º e o 11º RI, o General Mascarenhas decidiu afastar três de seus capitães, e, em decisão exemplar, fazer a unidade que sofrera pânico participar do próximo ataque a Monte Castelo. Isso aconteceu a 12 de dezembro, quando o ataque uma vez mais fracassou, por diversas circunstâncias, apesar do bom desempenho da tropa. Os comandos brasileiro e americano bem souberam compreender o desgaste de nossas tropas que, em circunstâncias normais, seriam retiradas da frente, a fim de preparar-se, à retaguarda, para as futuras missões. Mas isso não poderia se passar com a única Divisão brasileira, porque seria retirar o Brasil do campo da luta. Com a chegada do inverno, estabilizaram-se as operações, devendo a 1ª DIE defender seu setor mantendo agressivo contato com o inimigo. Foi a fase vivida de 13 de dezembro a 18 de fevereiro, de extraordinária importância para os destinos da FEB. Era a pausa de que necessitavam os comandos para reorganizar e instruir. Era a hora dos Capitães, inexcedíveis em seu papel de verdadeiros condutores da tropa. Eles puderam realizar, afinal, na própria frente de combate, nossa verdadeira preparação para a guerra, que não se concretizara nas áreas de treinamento da Itália e muito menos no Brasil. Nas longas vigílias geladas, repelindo investidas, suportando o castigo da experimentada artilharia alemã ou indo, em patrulhas, às posições inimigas, nosso soldado acreditou em si mesmo e esperou sua hora de avançar. Forjava-se, ali, o instrumento de combate que nos levaria aos melhores dias e à vitória final.

A ofensiva preliminar

Tão logo melhoraram as condições climáticas, decidiu o comando da IV Corpo retomar a ofensiva para apossar-se do arco montanhoso que dominava a rota 64, que de Pistóia ia a Bolonha por Vergato. Seria uma operação preliminar de outra, de ampla envergadura, a ser desfechada, quando viesse a primavera.O nome do plano do IV Corpo, "Encore", que, se sabe, em francês, significa ainda, bem revela as marcas deixadas pelos sucessivos ataques fracassados. A ação ofensiva seria iniciada pelo ataque de flanco da 10ª Divisão de Montanha sobre a crista Belvedere - Gorgolesco - Della Torracia, devendo a 1ª DIE atacar, em um segundo tempo, sobre Monte Castelo - La Serra, empregando, pela primeira vez, todo um regimento, o 1º RI, a quem caberia o esforço principal, coberto o flanco direito pelo 2º batalhão do 11º RI. A 10ª Divisão de Montanha fora especialmente preparada para a guerra de montanha: era integrada por montanheses, estava equipada com material especializado e realizara seu adestramento nos Montes Rochosos americanos. Além disso, sua iniciação na realidade da guerra fora realizada de forma lenta e gradual, com uma adequada inoculação do combate feita ao lado de nossa 1ª DIE, participando de patrulhas durante o inverno. Eram, assim, duas tropas extremamente solidárias e confiantes, uma na outra. A 10ª Divisão de Montanha iniciou seu ataque na noite do dia 19 de fevereiro e na manhã seguinte conquistou o Monte Belvedere surpreendendo totalmente os alemães, que, no entanto, reagiram vigorosamente à tomada de Gorgolesco, com poderosos contra-ataques. O ataque brasileiro iria processar-se, desta feita, em conjunção com poderosas forças aliadas, em direções convergentes e com apoio de blindados norte-americanos, e de aviação, inclusive do nosso Grupo de Caça. Na noite de 20 de fevereiro, o 1º batalhão do 1º RI, o mesmo que tivera problemas depois do ataque do dia 29 de novembro, ultrapassou tropa norte-americana em Mazzancana, e, juntamente, com o 3º/1º RI, à sua direita, lançou-se sobre o Monte Castelo, enquanto o 2º/11º RI avançava em direção a Abetaia, cobrindo o flanco do ataque principal. Diante da obstinada reação inimiga, muitas foram as alternativas da luta na jornada de 21 de fevereiro, caracterizadas pelas dificuldades encontradas pelo 1º Batalhão com o atraso inicial da 10ª Divisão da Montanha violentamente contra-atacada pelos defensores do Monte Della Torracia devido a naturais flutuações da frente de combate. Ao final da tarde, o 1º RI, principalmente por intermédio de seu 1º Batalhão, dominava inteiramente o Monte Castelo, encerrando o capítulo que mais marcara a sensibilidade dos soldados brasileiros durante toda a campanha. De posse dos Montes Castelo e Della Caselina, nossas tropas prosseguiram seu avanço, cabendo ao 2º/1º RI o êxito maior, com o ataque e conquista de La Serra na noite do dia 23, vindo a alcançar, na jornada do dia 25, ao lado do 2º/11º RI, a linha Roncovecchio - Senevegli que caracterizava, para nós, o fim da 1ª fase do Plano "Encore". Tendo em vista facilitar a continuação do avanço da 10ª Divisão de Montanha na direção de Castel D'Aiano, a 1ª DIE reajustou seu dispositivo, tomando a si a responsabilidade de manter um setor subdividido em duas frentes. a fim de proporcionar, no centro, um corredor para a atuação da 10ª, cujo impetuoso avanço pelo divisor entre o Reno e o Panaro nos imporia a continuada cobertura dos flancos da Divisão Americana, operações de limpeza no vale do Marano e sucessivos reajustamentos do dispositivo. A leste, no vale do Reno, competia à 1ª DIE apoderar-se de ponto forte alemão localizado no Monte Soprassasso, um saliente de pedra, enquistado em nossas linhas, que, no inverno, infernizara a vida dos brasileiros, e Castelnuovo di Vergato, que também dominava a rota 64. A manobra realizada pela 1ª DIE, taticamente brilhante, consistiu no isolamento do ponto forte de Soprassasso e na convergência de dois ataques sobre Castelnuovo: o principal desbordava o saliente pelo flanco oeste, audaciosa e surpreendente investida do 6º RI ao longo das cristas, enquanto os 1º e 2º batalhões do 11º RI realizavam a fixação frontal do inimigo. Castelnuovo completava, assim, a 5 de março, o papel de Monte Castelo nessa ofensiva limitada que permitira ao IV Corpo conquistar alturas, observatórios e boas linhas de partida, indispensáveis à grande ofensiva da Primavera. Terminadas as operações do Plano "Encore", o IV Corpo reajustou seu dispositivo, tendo a 1ª DIE sido substituída por tropas americanas no eixo da estrada 64 e assumido responsabilidades de extenso setor, compreendido entre Capella di Ronchidos e Sassomolare, com vistas sobre o vale do Panaro e tendo em frente o baluarte de Montese, importante nó de estradas e elevações. Aí. vivemos, de 6 de março a 14 de abril, um período de defensiva agressiva, caracterizado por intensa atividade de patrulhas e pelo elevado moral da tropa brasileira, já então formada por combatentes aguerridos e experimentados. Em uma dessas patrulhas, tivemos a lamentar a perda do 3º Sargento Max Wolff Filho, do 1º/11º RI, que, em ações anteriores, já se havia consagrado como um dos maiores heróis da FEB e merecido a promoção ao oficialato por ato de bravura, a primeira então concedida. O Sargento Wolff morreu à frente de seus homens, comandando um pelotão que realizava uma patrulha de reconhecimento e combate, episódio narrado, brilhantemente, pelo jornalista Joel Silveira, um dos feitos mais relevantes de nossos correspondentes de guerra.

A Ofensiva da Primavera

A Ofensiva da Primavera, na Itália, começaria, a 10 de abril, com uma ação preliminar, do VIII Exército, para limpar a planície existente a leste do Bolonha. O ataque principal, a cargo do V Exército, previsto para iniciar-se no dia 12, mas retardado pelo mau tempo para 14, desembocaria das montanhas e capturaria ou isolaria Bolonha. De posse de Bolonha, os dois exércitos cercariam todas as forças do sul do rio Pó, transporiam o rio e conquistariam Verona. No âmbito do V Exército, o esforço principal caberia ao nosso IV Corpo, com a 10ª Divisão de Montanha irrompendo pelo divisor entre os rios Reno e Panaro, tendo à direita a 1ª Divisão Blindada, que, pela estrada 64, avançaria sobre Bolonha, e, à esquerda, a 1ª DIE, a quem competiria cobrir o flanco da 10ª e estar preparada para perseguir o inimigo em retirada. A participação da 1ª DIE a 14 de abril, dia inicial da ofensiva, compreendeu uma fase inicial, com o lançamento de fortes patrulhas destinadas a capturar a linha Casone - II Cerro - Possessione - Cota 745, e uma segunda fase, de ataque propriamente dito, que pretendia romper a posição inimiga e conquistar a região de Montese - Cota 888 - Montelo. O esforço principal coube ao 11º RI, em seus 3º e 1º batalhões em 1º escalão, coberto, à direita, pelo 1º RI. Coube a uma das companhias do 1º Batalhão do 11º RI, aquele que vivera o episódio do pânico na noite de 2 para 3 de dezembro, o audacioso feito de assaltar Montese, levando o êxito a todo no nosso dispositivo de ataque, naquele terrível primeiro dia de ofensiva, em que os resultados alcançados pelos brasileiros foram bem mais favoráveis que os das outras Divisões do IV Corpo. Registre-se, a propósito, fato bem comprovador do senso de humor dos brasileiros. Havendo, no tempo da guerra, um samba popular com um verso que dizia "Laurindo desceu o morro chorando", o batalhão do pânico passou a ser conhecido, em toda a FEB, como o "Laurindo". Pois bem, ao apossar-se de Montese, depois do mais difícil e sangrento combate da campanha da FEB, os soldados daquele batalhão exclamavam, em desabafo e desagravo, que o "Laurindo" tinha subido o morro. A notável tomada de Montese custou caro aos nossos combatentes, pois, temendo que Montese fosse a chave da ofensiva, e cuidando ver nos carros de combate norte americanos, que apoiavam a ação da FEB, o próprio desembocar da Divisão Blindada, o nazista desfechou sobre Montese conquistada a maior concentração de artilharia desde a cabeça de ponte de Anzio. E livres desse castigo, argumento reservado para opor-se ao esforço principal, e que afinal nos coube como preço de haver chegado a Montese, lá se foram, nos dias seguintes, a Montanha e a Blindada, irresistíveis, para o vale do Pó, enquanto mais dura e sangrenta se tornava a luta nas alturas em volta de Montese, Montebufone, Serreto e Paravento. O sucesso do ataque da Montanha e da Blindada, a partir de 16 de abril, acarretou a ruptura das posições inimigas e abriu caminho para a retomada do livre movimento, nas direções de Zocca e do médio Panaro. Iria iniciar-se a grande perseguição empreendida pelo IV Corpo. Rompida a frente, o comando da 1ª DIE, na tarde de 19 de abril, lançou o 1º Esquadrão de Reconhecimento, a nossa cavalaria mecanizada, primeiro para o vale do rio Panaro e, depois de conquistada a cidade de Zocca, para o além-norte desse importante nó rodoviário. Ao amanhecer do dia 22 de abril, a 1ª DIE recebia as missões de avançar, sobre o vale do rio Pó, na direção noroeste; cobrir o flanco do IV Corpo e bloquear a retirada dos alemães, dos Apeninos para o norte e nordeste. Era a FEB de repente espalhada pelas estradas e cidades do mapa do norte da Itália, depois de haver disputado durante meses, com sofrimento e sangue, cada palmo do chão lamacento ou gelado do Monte Castelo. Considerando que a 1ª DIE, ao contrário das outras divisões, não era totalmente motorizada e que o IV Corpo não tinha como suprir suas necessidades de transportes, o General Mascarenhas decidiu aproveitar as viaturas orgânicas da artilharia divisionária no transporte das tropas de infantaria. Com o Esquadrão de Reconhecimento realizando a missão típica de cavalaria mecanizada e a infantaria bem impulsionada pelo comando da 1ª DIE, a 23 alcançou-se o rio Serchio; a 24 e 25 o rio Enza; a 26 e 27 a região de Colecchio; e finalmente, a 28, Fornovo di Taro, onde se travou um pequeno combate, resultado no feito espetacular da rendição da 148ª DI alemã, de remanescentes da 90ª Divisão Panzer e da Divisão Bersaglieri Itália, no dia 29 de abril de 1945. As glórias maiores desse episódio couberam ao Esquadrão de Reconhecimento e ao 6º RI. Aquele pequeno esquadrão de cavalaria detectou o inimigo em Collechio e, audaciosamente, exigiu sua rendição, até que o comandante do 6º RI, como vanguarda da 1ª DIE, antes de desferir o ataque final a Fornovo di Taro, enviou um ultimatum ao comando alemão para que se rendesse incondicionalmente ao comando das tropas regulares do Exército Brasileiro, que estavam prontas para atacar mas que desejavam poupar inúteis sacrifícios. Na noite do dia 29, o chefe do Estado-Maior da 148 chegava ao posto de comando brasileiro para os entendimentos finais da rendição de quase 15 000 homens com todo o equipamento de suas divisões. Nesse feito espetacular, os soldados do 6º RI reviam os adversários que haviam infligido seu primeiro revés, no terrível contra-ataque da madrugada de 30 de outubro, melancólicos remanescentes do famoso "Afrika Korps" de Rommel. Ao tempo em que o avanço da 1º DIE cercava o inimigo, que procurava se retirar para o norte, na vasta área compreendida entre os Apeninos e o mar Tirreno, unidades do IV Corpo. aprofundaram, na jornada de 25 de abril, sua cabeça de ponte no rio Pó e se lançaram na direção de Verona. Os êxitos do IV Corpo resultaram no recrudescimento das atividades dos "partigiani", os "maquis" italianos, que deflagraram a insurreição final, e, nos últimos dias de abril e primeiros de maio, levaram o terror às cidades do norte da Itália, principalmente a Milão, na impiedosa caça aos fascistas, culminando na eliminação do próprio Mussolini. Nos últimos dias de abril, enquanto o 6º RI ainda estava às voltas com os problemas da rendição das divisões inimigas, o restante da 1º DIE ocupava a região de Alessandria e daí se lançava para o norte e noroeste articulado em grupamentos táticos. O GT 1, substituindo tropas da 34ª DI americana, ocupou Piacenza e Castelvetro. O GT 11, precedido pelo Esquadrão de Reconhecimento, chegou a Turim. no dia 2 de maio, encontrando-a convulsionada pelo terror desencadeado pelos "partigiani", e se lançou, no mesmo dia, à ligação, em Susa, na fronteira franco-italiana, com a 27ª Divisão do Exército Francês. O fim da guerra na Itália, a 2 de maio, lá os encontrou. Nesse ponto, o mais na vanguarda de todas as forças brasileiras, estavam os soldados daquela companhia do 1º/11º RI, que mais sofrera a noite do pânico em difícil momento da campanha, os "Laurindos" que haviam aprendido a subir o morro. Espalhados pelo mapa do norte da Itália, todos os combatentes da FEB sentiam haver bem cumprido o mandato que o povo lhes confiara para o desagravo de nossos navios afundados e das vidas perdidas no mar.

"Jornal da Guerra" - General Octavio Costa
O Globo Expedicionário

 


O Gen Otto Freter Pico, o último comandante alemão a se render
é escoltado pelo Gen. Falconière da Cunha .
Foto escaneada do livro "Mascarenhas de Moraes - Memórias" - I Volume

A rendição dos exércitos alemães na Itália constituiu o fator determinante no aceleramento do fim da guerra na frente ocidental da Europa. Em seu avanço irresistível, o 15º Grupo de Exércitos, formado pelo 5º Exército dos Estados Unidos e pelo 8º Exército da Grã-Bretanha, penetrou fundamente no Vale do Pó, espraiando-se em direção ao Passo de Brenner, ameaçando diretamente o território da Áustria, tornando impossível qualquer ação defensiva. O papel da Força Expedicionária Brasileira foi da maior importância nas operações que asseguraram o avanço da 10ª Divisão de Montanha norte-americana, uma grande unidade de alto poder agressivo. Graças ao eficiente desempenho das Forças Aliadas na península italiana, sob o comando do General Mark Wayne Clark, foi possível decretar o fim da luta no chamado "teatro de operações" do Mediterrâneo, apressando a cessação total da guerra no continente europeu. O legendário Stars and Stripes, impresso nas oficinas de I/ Messagero, em Roma, e distribuído em todas as frentes daquele teatro de operações, publicava no dia 3 de maio de 1945, sob a assinatura do Sargento Howard Taubman, correspondente do Estado-Maior do Quartel-General das Forças Aliadas, o relato histórico da rendição dos exércitos alemães na Itália e em parte da Áustria. Pela importância do documento, pelo momento em que foi escrito e pela exatidão histórica que transmite, resolvemos incluí-lo neste relato sobre a participação do Brasil na II Guerra Mundial.

A RENDIÇÃO

"Os exércitos alemães na Itália e em parte na Áustria se renderam - total e incondicionalmente. A longa, cruenta e exaustiva campanha da Itália foi coroada com a vitória. Na área onde os Aliados ocidentais fizeram sua primeira brecha na Fortaleza Européia de Adolf Hitler, a luta chegou ao fim com a rendição de toda uma frente. Esta frente abrange não apenas o resto da Itália, onde os derrotados alemães vêm batendo em retirada desordenadamente, mas também a área ocidental da Áustria. Os alemães que defendem as províncias austríacas de Vorarlberg, Tirol, Salzburgo e partes da Caríntia e Estíria, renderam-se ao poderio aliado no Teatro do Mediterrâneo. Isto significa que conquistamos cidades vitais como Innsbruck e Salzburgo, sem luta. Significa que as Forças Aliadas ocuparam o território austríaco num raio de 10 milhas de Berchtesgaden, onde Hitler construiu o que pensava ser uma inatingível fortaleza pessoal, nos contrafortes dos Alpes, que levaria meses e até anos para ser atingida. Significa que a falência da política agressiva e das armas alemãs fizeram com que um líder militar prussiano da velha guarda, como o Cel.Gen. Heinrich von Vietinghoff, e um nazista convicto como o Gen. SS Karl Wolff, ambos comandantes neste front que se rendeu, ignorassem a ordem de Hitler e Himmler: lutar até o fim. Significa que em outras frentes onde os alemães contam com outras concentrações de força poderão decidir fazer o mesmo. Pode ser que, aqui na Itália, onde os Aliados realizaram sua mais árdua e sistemática luta, tenha sido mostrado aos comandantes alemães, a maneira de acabar a matança inútil. Mas, acima de tudo, a rendição na Itália significa que os bravos combatentes dos 5º e 8º Exércitos, que lutaram para abrir caminho na escalada dos Apeninos, não mais precisam continuar a dolorosa tarefa de conquistar as montanhas que conduzem ao Passo de Brenner para penetrarem na Áustria. Significa, também, que os pilotos das Forças Aéreas Aliadas no Mediterrâneo não mais precisam mergulhar nos corredores de fogo antiaéreo em torno do Passo de Brenner, ou em outras estreitas passagens entre os Alpes, que os alemães defendiam com mortífero fogo antiaéreo. Os documentos de rendição foram assinados na tarde de domingo, dia 29 de abril, logo após as 14 horas, numa sala fortemente protegida no Palácio Real, em Caserta. Os termos estabeleciam a deposição de armas o mais tardar na quarta-feira, dia 2 de maio, ao meio-dia, hora média de Greenwich (14 horas, hora da Itália). Os signatários foram um tenente-coronel alemão, representando o General von Vietinghoff, e um major alemão, representando o General SS Wolff; o Tenente-General W. D. Morgan, Chefe do Estado-Maior do Quartel-General das Forças Aliadas, assinou como representante do Comandante Supremo Aliado, Marechal de Campo, Sir Harold R. L. G. Alexander. Com a assinatura dos documentos de rendição, as forças inimigas, estimadas entre 600 mil e 900 mil homens, depuseram armas e se tomaram prisioneiras. Com uma simples assinatura, os Aliados na Itália selaram sua vitória definitiva. De um só golpe eles colheram o que poderá vir a se constituir na maior captura de prisioneiros da guerra jamais efetuada, e a maior área de território controlada pelo inimigo, sem uma batalha sequer. A rendição realizou-se com o pleno conhecimento dos Chefes de Estado e Chefes de Estado-Maior, não somente em Washington e Londres, mas também em Moscou. Nossos aliados soviéticos foram informados de cada passo das negociações, e seus representantes estiveram presentes entre as testemunhas da assinatura dos documentos de rendição. Pode ser agora revelado que o primeiro indício do desejo de rendição surgiu antes de começar o ataque arrasador do 15º Grupo de Exércitos, sob o comando do General Mark W. Clark, no Vale do Pó. Aparentemente, aquele primeiro sinal de interesse não era sério. O sucesso esmagador da ofensiva aliada na Itália acelerou os anseios dos alemães em se renderem na Áustria. Alguns dias antes da assinatura efetiva, os comandantes alemães receberam mensagem dos líderes aliados, dizendo que estavam prontos para negociar a rendição. Desde o início ficou estabelecido que os termos seriam de rendição total e incondicional. No domingo, dia 29 de abril, dois oficiais alemães em trajes civis foram trazidos de avião até o Quartel-General das Forças Aliadas, onde chegaram às 16 horas. Após uma série de discussões, os termos de rendição foram formalizados. Às 14 horas do domingo os documentos já estavam prontos para as assinaturas. Para registrar o acontecimento histórico, seis jornalistas e radialistas representando a imprensa mundial, escolhidos por sorteio. Viajamos sigilosamente de avião saindo de Roma. Disseram-nos que a viagem talvez fosse para vermos o território recém-libertado. Imaginamos, também, que talvez fosse alguma espécie de convocação para comunicado oficial. Tornou-se necessário o mais absoluto sigilo, visto que, pelos termos da rendição, ordenava-se que os alemães fornecessem informações vitais sobre suas instalações, antes que os documentos entrassem efetivamente em vigor. Antes dos termos serem inteiramente executados, havia sempre o sério perigo de que o Alto Comando Nazista pudesse descobrir o que havia no ar e interviesse para interromper o cumprimento dos termos. Pelos termos do documento de rendição, von Vietinghoff, o Comandante Supremo alemão no sudoeste, deporia as armas em todo o território sob o seu comando. Isto incluía toda a Itália, até a longínqua região a leste do Rio Isonzo. Não incluía, contudo, a cidade de Trieste, que se localiza a leste de Isonzo e estava sob o comando do General Lehr, Comandante alemão do sudeste. O General SS Wolff, Comandante Supremo da SS e da Polícia e General Plenipotenciário da Wehrmacht na Itália, concordou em renunciar a toda resistência nas províncias austríacas sob seu controle. A assinatura dos termos da rendição levou exatamente 12 minutos. Centenas de milhares de combatentes e milhares de milhas quadradas de território mantido pelo inimigo foram conquistados numa sala medindo apenas 48 metros quadrados. A assinatura foi com rigorosa simplicidade e com precisa rapidez militar. Realizou-se no .gabinete do General Morgan. Quando os correspondentes entraram na sala, às 13h45min, dois fotógrafos já se encontravam lá: uma para fotos e outro para filmagem. Foram instalados oito poderosos refletores. Obviamente, era um gabinete de um chefe militar. Em uma parede, um enorme mapa do Vale do Pó. Em outra, um mapa detalhado mostrava a cidade de Viena e suas redondezas, com alfinetes marcando o curso da batalha que se travava em direção à capital austríaca, desde o dia 4 de abril, quando os russos ali chegaram, até o dia 13 de abril, quando finalmente foi totalmente libertada. Em uma terceira parede havia um mapa do Mediterrâneo. À direita, estava colocada uma escrivaninha. Ao fundo, duas poltronas encostadas contra a parede. Uma comprida e polida mesa de conferência permanecia em diagonal, quase no centro da sala, com uma cadeira em cada cabeceira. Em cada ponta da mesa jazia um tinteiro e, ao lado dele, canetas de madeira lustrosa, com penas novas. O teto reluzente era decorado em azul-claro e marrom. Obviamente, a decoração fora executada durante o regime fascista de Mussolini. As armas das províncias foram pintadas no melhor estilo fascista. A peça central da decoração do teto continha duas fasces (feixe de lictor) - símbolo do esmagado estado e partido fascistas de Mussolini - e o agora irônico slogan latino: "Incipt Novus Ordo" (A Nova Ordem Começa). No chão, dois tapetes um tanto gastos e nas paredes cortinas brancas que refletiam o clarão dos refletores. Num canto permanecia a câmara de filmar, pronta para fazer o registro da cena. Alinhados contra a parede, os correspondentes começavam a fazer anotações. Às 13h55min, um jovem coronel americano vistoriou os tinteiros, retirando-se satisfeito após constatar que havia tinta bastante para a missão a cumprir. Às 14h05min, um grupo de oficiais aliados - americanos, ingleses e russos - entrou pela porta principal. Todas as forças aliadas - de terra, mar e ar - estavam representadas. Os oficiais se colocaram do lado oposto ao nosso. O General Morgan entrou por último e ficou de pé por trás da cadeira, numa extremidade da mesa. Às 14h08min, os dois oficiais alemães entraram por uma porta lateral, escoltados por um coronel americano e um tenente-coronel inglês .Os alemães permaneceram empertigados na outra extremidade da mesa, oposta ao General Morgan. O tenente-coronel alemão representando von Vietinghoff era alto, de cabelo louro rarefeito e uns fios de bigode. De olhar apático e sem brilho, como se tentando disfarçar seus sentimentos, ele parecia uma versão hollywoodiana de um oficial prussiano. O major alemão, emissário de Wolff, era baixo, moreno, de aparência agressiva. Suas faces eram rubras, como a mostrar que poderia tornar-se áspero. Seu semblante denotava um ar de dissimulado nervosismo. Várias vezes, quando o fotógrafo se aproximava, ele gesticulava energicamente, mas logo recompunha-se. Ele se esforçava para manter o seu papel: o de um perfeito representante das fanatizadas tropas SS nazistas. Os dois alemães estavam à paisana, elegantemente trajados, como se tivessem sido vestidos por um magazine da Bond Street de Londres, ou pela Brooks' Brothers, de Nova York. Usavam paletós esporte xadrez, sendo que a jaqueta do coronel tinha um xadrez mais vistoso - e calças de mescla cinza, camisas cinza, gravatas azul-marinho e sapatos marrons. Mesmo em trajes civis, embora se pudesse imaginá-los perfeitamente à vontade em qualquer varanda de um clube campestre, não se pareciam com homens que fizessem amigos e influenciassem pessoas com facilidade, sem coagi-las. O General Morgan, de pé por trás de sua cadeira, abriu a sessão, declarando: - Presumo que os senhores estão preparados e investidos de poderes para assinar os termos do acordo de rendição. Estou certo? O coronel prussiano alto respondeu em alemão: - Ja. O General Morgan repetiu a pergunta ao major SS, que não entendia inglês. Um intérprete traduziu a pergunta para o alemão e o major respondeu: - Jawohl. O General Morgan prosseguiu: - Fui investido de poderes para assinar este acordo em nome do Comando Supremo Aliado, cujos termos deverão vigorar a partir do meio-dia de 2 de maio, hora média de Greenwich. Agora peço aos senhores para assinarem e eu assinarei depois. O coronel prussiano, falando num alemão truncado e rápido, interveio: - Peço permissão para reiterar, antes de assinar, o ponto por mim levantado durante as negociações, ou seja, de que pessoalmente estou indo além dos meus poderes, mas presumo que o meu Comandante em Chefe, von Vietinghoff, aceitará. Mas não posso assumir toda a responsabilidade. O intérprete repetiu estas palavras em inglês, e o General Morgan respondeu: - Eu aceito. Falando com firmeza e pausadamente, o General Morgan disse: - Fica entendido que, se aceitos, estes termos passarão a vigorar ao meio-dia, em 2 de maio, hora média de Greenwich. Certo? O coronel alemão respondeu: - Jawohl. O major alemão confirmou: - Ja. - Peço-lhes agora que assinem os documentos - falou o General Morgan. O coronel prussiano assentou-se e assinou rapidamente as cinco vias do documento, sendo seguido pelo major SS. Dois minutos foi o tempo que eles consumiram para a rendição em nome de seus comandantes. O General Morgan sentou-se à outra extremidade da mesa e assinou, tendo os oficiais aliados, de pé, por trás dele, como observadores. Ele levou apenas um minuto. Às 14h15min a missão estava cumprida. O general Morgan levantou-se e falou: - Passo às mãos dos senhores três cópias, uma das quais em alemão. As cópias restantes guardo para entregar ao Comandante Supremo Aliado e aos Governos Aliados. A seguir, entregou as três cópias ao Cel. E. J. Bastion, Jr . (EUA), secretário do Marechal de Campo Alexander. O Cel. Bastion enxugou com o mata-borrão as assinaturas, enquanto o Tenente-Coronel J . G. Sweetman, oficial inglês, entregava cópias aos alemães. A seguir, o Cel. Bastion recolocou sua caneta-tinteiro no bolso; fora ela a usada, no lugar daquelas colocadas sobre a mesa. Um dos correspondentes murmurou mais tarde: - Maldita caneta-tinteiro! Eu ia tentar carregar uma das outras, caso elas tivessem sido usadas. O seu colega replicou: - E eu também! Após os alemães receberem suas cópias, parecendo conter meia dúzia de folhas cada uma, o General Morgan falou: - Muito obrigado, cavalheiros. Agora peço-lhes que se retirem. Os alemães se retiraram às 14h17min, acreditando que fossem voltar aos seus comandos naquela tarde. O General Morgan dirigiu-se para os correspondentes e respondeu sucintamente a algumas perguntas. Com relação aos termos, afirmou que "são, efetivamente, para rendição completa e incondicional". Descreveu as áreas comandadas pelos generais vencidos e arriscou uma estimativa sobre o número de homens que se encontravam sob seu comando. Falando sobre o território ocupado, afirmou: - Isto nos coloca praticamente em Berchtesgaden. Entre os oficiais aliados que testemunharam a assinatura dos documentos de rendição encontravam-se: Major General L. L. Lemnitzer (EUA), Chefe Interino do Estado-Maior do Quartel General das Forças Aliadas; Brigadeiro General W. C. Mc Mahon, Chefe Auxiliar do Estado Maior, do 15º Grupo de Exércitos, representando o General Mark Clark; Vice Almirante H. A. Packer (inglês), Chefe do Estado Maior, representando o Comandante em Chefe no Mediterrâneo, Almirante Sir Andrew Cunningham; Vice Almirante S.S. Lewis (EUA), Chefe do Estado Maior das Forças Navais Americanas no Mediterrâneo; Vice Marechal do Ar G. V. H. Baker, Chefe do Estado Maior da I RAF no Mediterrâneo; Major General C. C. Chauncey (EUA), Chefe do Estado Maior, MAAF; Major General T. S. Airey (inglês), Chefe Auxiliar do Estado- Maior, G2, Quartel General das Forças Aliadas; Major General Daniel Noce (EUA), Chefe Auxiliar do Estado Maior, G3, Quartel General das Forças Aliadas; Brigadeiro General A. J. Mc Chrystal (EUA), Chefe da Seção de Informações, Notícias e Censura, Quartel General das Forças Aliadas; Tenente General, Sir Brian H. Robertson, Oficial Chefe Administrativo, Quartel General das Forças Aliadas; Major General A. P. Kislenko, representante soviético para a Comissão Aliada na Itália; Tenente M. Vraevsky, do Estado-Maior do General Kislenko; Tenente Coronel W. M. Cunningham (inglês), Assistente Militar do Marechal de Campo Alexander. Os demais homens de imprensa e de rádio eram: Hebert G. King, UP, e Winston Burdett, CBS (americanos); Hubert O. Harrison, da Reuter; Patrick Smith, da BBC, e Bill Taylor, da Union Jack (ingleses).

"A Luta dos Pracinhas"
Joel Silveira e Thassilo Mitke


Rendição da 148ª Divisão Alemã.
Foto escaneada do livro "Mascarenhas de Moraes - Memórias" - I Volume

62ª Pergunta: Como se processaram os primeiros entendimentos para a rendição?

Resposta: Estava a tropa nazi-fascista impossibilitada de romper o cerco que lhe impunha a 1ª DIE. Suas últimas tentativas sobre Segalara haviam fracassado com pesadas baixas. O Cel. Nelson de Mello aproveitando o oferecimento espontâneo do Vigário de Naviano Di Rocci - Dom Alessandro Cavalli - enviou aos alemães às 9:00 horas do dia 28 de abril o seguinte ultimatum:

"Para poupar sacrifícios inúteis de vida, intimo-vos a render-vos incondicionalmente ao Comando das Tropas Regulares do Exército Brasileiro, que estão prontas para vos atacar. Estais completamente cercados e impossibilitados de qualquer retirada. Quem vos intima é o Comando da Vanguarda da Divisão Brasileira que vos cerca. Aguardo dentro do prazo de duas horas a resposta do presente ultimatum.
a) Nelson de Mello, Coronel."

As 11:45 horas recebia o Cel. Nelson de Mello a resposta concebida nos seguintes termos:

"Depois de receber instruções do Comando Superior, seguirá resposta.
a) Major Kuhn."

63ª Pergunta: Como, quando e onde se renderam os nazi-fascistas?

Resposta: Por volta das 22:00 horas do dia 28 de abril o Maj. W. Khun acompanhado de mais dois oficiais cruzou as linhas brasileiras em Gaiano e foi conduzido ao PC do Cel. Nelson de Mello, onde declarou-se autorizado pelo Gen. alemão Otto Fretter Pico, comandante da 148ª Divisão Alemã, a entrar em entendimento com o Comando Brasileiro, para a rendição. Comunicado o auspicioso fato ao Gen. Mascarenhas de Moraes, foram enviados ao PC do Cel. Nelson de Mello, o Cel. Floriano de Lima Brayner, Chefe do E. M. da 1ª DIE e Ten. Cel. Castello Branco, chefe da Secção de Operações. Precisamente às 0:00 hora do dia 29 de abril, no PC do Cel. Nelson de Mello em Collecchio, os nazi-fascistas aceitavam a rendição incondicional de suas tropas e solicitavam apenas amparo para os seus 800 feridos e condescendência para o seu Gen. Otto Fretter Pico e igual tratamento para o Gen. italiano Mario Carlone, comandante dos Bersagliere.

64ª Pergunta: Quais as instruções do V Ex. ao Cmt. 1ª DIE sobre a rendição?

Resposta: Ciente da rendição das tropas nazi-fascistas na região de Fornovo o Comandante do V Ex. transmitiu ao Gen. Mascarenhas de Moraes a seguinte instrução:

"Ampla liberdade de ação para o Cmt. da FEB no quadro da alternativa de aprisionar a 148ª Divisão Alemã ou destruí-la."

"100 Vezes responde a FEB"
General José Machado Lopes


Enfermeiro alemão acompanhando prisioneiros feridos.
Foto escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos"
José de Oliveira Ramos

65ª Pergunta: Quais os primeiros elementos a se entregarem?

Resposta: As 13:00 horas do dia 25 de abril, conforme combinado, um comboio de 18 ambulâncias, repletas de feridos, alguns em estado grave, apresentava-se ao posto de recepção. Cerca das 17:00 horas uma enorme coluna motorizada conduzindo tropa alemã, atingia a estrada Fornovo-Collecchio. A apresentação da tropa e seu respectivo material prosseguiu noite adentro. As 18:30 horas do dia 29 apresentou-se o Gen. Mario Carlone, Comandante da Divisão Bersaglieri. As 18:00 horas do dia 30, com a apresentação do Gen. alemão Fretter Pico, comandante da 148ª Div. encerrava-se a capitulação. Hoje, na Igreja de Naviano Di Rossi, há uma lápide de mármore, onde se lê:

HONRA E GLÓRIA SOBRE ESTAS AMENAS COLINAS
SOBRE A SUPERVISÃO DO GRANDE MARECHAL J. B. MASCARENHAS DE MORAES E O COMANDO DO VALOROSO CORONEL NELSON DE MELLO E COM A ZELOSA PARTICIPAÇÃO CRISTÃ O INTRÉPIDO SACERDOTE DOM ALESSANDRO CAVALI ARCIPRESTE DE NAVIANO DI ROSSI COM O INTUITO DE SALVAR VIDAS HUMANAS E EVITAR HORRORES DE DESTRUIÇÕES NOS DIAS 27-28-29-30 DE ABRIL DE 1945 AS FORÇAS ARMADAS BRASILEIRAS (FEB) CERCARAM E IMPUSERAM A RENDIÇÃO INCONDICIONAL ÀS TROPAS ALEMÃS COM PLENA E TRIUNFANTE VITÓRIA.
ANO DE 1965

66ª Pergunta: Qual o efetivo e a que unidade pertenciam os prisioneiros?

Resposta: Foram feitos ao todo 14 779 prisioneiros na região de Fornovo, os quais pertenciam, em sua maioria à 148ª Divisão Alemã e os demais à Divisão Itália {Bersagliere), à 90ª Divisão Ponzer Grenadier (alemã), ao IV Batalhão de Montanha (alemão) e a um Batalhão de Camisas Negras (Italiano). O aspecto da tropa era bom, muito bom mesmo; de um modo geral cerca da metade era de veteranos, com a idade oscilando entre os 30 a 40 anos e a outra de jovens com 20 e menos anos. Grande parte dos chefes de maior graduação e muitos outros oficiais tinham sido comandados de Von Rommel, conforme atestava o distintivo do Afrika-Korps, que traziam no punho esquerdo.

"100 Vezes responde a FEB"
General José Machado Lopes


Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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