FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

"A ENGENHARIA DA FEB NÃO DESCANSA"

 


Engenharia em ação sobre o Rio Arno
Foto escaneada do livro "100 Vezes responde a FEB"
Marechal José Machado Lopes

A ENGENHARIA DA FEB

Quem observasse o panorama da frente de batalha e zona vizinha, teria logo sua atenção despertada pela extraordinária atividade de certos grupos de soldados, dirigidos por oficiais calmos e pacientes, construindo pontes, reparando estradas ou retirando minas. Eram os soldados e oficiais do 9º Batalhão de Engenharia, cuja enorme soma de trabalhos e sacrifícios constitui verdadeira glória para a Engenharia Militar Brasileira. Arma e serviço, formada de operários que também eram combatentes, foi a Engenharia um dos fatores preponderantes de nossa vitória. O Serviço de Engenharia se compunha de Chefia, que foi exercida pelo competente engenheiro militar Cel. José Machado Lopes, cumulativamente com o comando do Batalhão de Engenharia; Seção de Engenharia da Divisão, dirigida pelo Adjunto do Serviço, Major Aristóbulo Codevilha Rocha; órgão de Execução - o 9º BE. Esta organização é das mais simples e eficientes. O fato de ser o Chefe do Serviço também Comandante do órgão de execução trouxe reais proveitos, tornando mais rápidas as decisões e a transmissão de ordens. O 9º BE se achava em Aquidauana, Estado de Mato Grosso, quando foi designado para integrar a FEB. Deslocou-se daquela guarnição longínqua para Três Rios e depois para a Capital Federal, onde completou seu efetivo e instrução. Grandes dificuldades houve para se conseguir uma instrução adequada, pela falta de material sobretudo no que se referia a minas, "booby-traps", explosivos, etc. Uma parte dos ensinamentos teve de ser ministrada na Itália. O BE embarcou no segundo escalão, a 22 de setembro de 1944, com exceção da 1ª Companhia, que seguira com o primeiro e iniciou seus trabalhos a 6 de setembro. Esta Companhia fez parte do "1st. Combat Team", ou seja o Destacamento da FEB ., que atuou no setor de Camaiore e Vale do Serchio. Ela foi a primeira fração da força brasileira a entrar em atividades bélicas, quando a 6 de setembro passou à disposição do IV Corpo e foi empregada no "front". Este é um fato curioso na história da FEB - a Arma de Engenharia teve o privilégio de iniciar a campanha, tomando uma dianteira de dez dias sobre as demais armas. Fazia parte da 1ª Companhia o 1º Tenente Paulo Nunes Leal, cuja figura merece um destaque especial, pelas altas qualidades que revelou no decorrer dos acontecimentos. Comedido e sóbrio, de mentalidade calma e metódica, dedicado e intrépido, o Ten. Paulo desde o início ao fim da campanha se mostrou fora do comum. Quando da tomada de Camaiore, entre os primeiros elementos a atingir aquela localidade, lá estava ele, à frente de um pugilo de seus decididos mineiros. Foi ele o primeiro oficial de engenharia a subir o Monte Castelo e, na rendição da 148ª Divisão Alemã, encontrava-se com seu Pelotão junto ao Esquadrão de Reconhecimento, na vanguarda de nossas tropas. 


Engenharia em ação: soldados da 1ª Cia do 9º BE, construindo uma ponte 
Bailey, próximo de Pisa (setembro de 1944)
Foto de Thompson do V Exercito, escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos"
  José de Oliveira Ramos

A 1ª Companhia trabalhou muito em setembro e outubro, construindo nove pontes tipo Bailey e uma de madeira; reparou e conservou vinte quilômetros de estrada; movimentou mil trezentos e vinte metros cúbicos de terra; empedrou quinhentos metros cúbicos e desobstruiu um túnel. Além dessa enorme produção, levantou, em outubro, 277 minas anti-tanques, 790 minas anti-pessoal e retirou dezenove cargas de destruição. Todo esse serviço para uma companhia apenas, durante menos de dois meses, demonstra que os soldados da Engenharia dormiram pouco e aproveitaram bem seu tempo. Durante os outros meses da campanha essa formidável capacidade de trabalho não decresceu, permitindo ao 9º BE apresentar ao fim da luta a seguinte folha de serviços: 17 436 metros de estrada construídos; 130 150 metros reparados; 36 480 conservados; 6 950 metros cúbicos de terra movimentados; 3 001 metros de empedramento; 1 túnel desobstruído; 95 bueiros construídos; 12 pontes Bailey e 6 de outros tipos construídas; 12 pontes diversas reparadas; 6 muros de arrimo construídos; 1 "Treadway" operado; 3 198 minas AT (Anti- tanques) retiradas; 615 minas AT colocadas; 1 709 minas AP (Anti-pessoal) retiradas; 39 minas AP colocadas; 196 "booby-traps" retirados; 102 "booby-traps" colocados; 209 cargas de destruição retiradas; executou uma destruição, projetou e preparou quinze; construiu três abrigos para Posto de Observação e sete obstáculos anti-carros; instalou 13 pontos de abastecimento de água, distribuindo 14 746 metros cúbicos de água; instalou sete unidades de banho, fornecendo 44 294 metros cúbicos de água para os mesmos; fez 49 reconhecimentos de Engenharia. 


Conduzindo víveres e água.
Foto de Horácio Coelho, escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos"
 José de Oliveira Ramos

Em suas missões táticas o 9º BE fez 14 acompanhamentos de Infantaria e sete de carros; praticou duas travessias do Rio Pó, em botes de assalto; distribuiu 31 532 mapas, 2 080 metros de rede extensível, 300 rolos de arame farpado, 176 500 sacos de areia, quase uma tonelada de pregos, 300 galões de tinta para "camouflagem", 13 720 metros de madeira esquadriada, 9 200 estacas de ferro, 1 290 seções de ferro corrugado, para abrigos e bueiros. No período do inverno os engenheiros muito trabalharam na remoção da neve, por meio dos "bull-dozzers" e arados de neve, adaptados às viaturas comuns. 


Conduzindo rações alimentares e água em trenós improvisados
Foto de Horácio Coelho, escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos"
  José de Oliveira Ramos

Levando em conta que a maior parte desses trabalhos foi executada em pleno "front"', muitas vezes sob o fogo inimigo em terreno montanhoso, sob a chuvarada do outono e a neve do Inverno, podemos avaliar o dispêndio de energia e o sacrifício dos homens do 9º BE, no desempenho de suas múltiplas missões. O Batalhão era composto de cerca de setecentos homens, divididos em três companhias de engenharia, uma de comando e serviço e um Destacamento de Saúde, dirigido pelo meu amigo e notável clínico Dr. Benjamim Rodrigues. O BE se multiplicou para dar cumprimento aos encargos tão variados, nas comunicações, minas e destruições, abastecimento de água, instalação de banheiros, serviços e instalações gerais, suprimento de material de engenharia e mapas. 


Ponte Bailey
Arquivo Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira

Nossa Engenharia acompanhou o ritmo da Engenharia Norte-Americana e no âmbito da Divisão satisfez plenamente a tudo que lhe foi exigido, indo além de suas possibilidades normais, para dar cumprimento às solicitações que lhe eram feitas. Imbuídos de grande espírito patriótico, os engenheiros deixavam transparecer seu amor ao Brasil em todos seus atos, como por exemplo ao dar os nomes às pontes que construíram: 7 de setembro, Entre Rios, Carioca, Lages, Lagoa Vermelha, Itajubá, Aquidauana, Cachoeira, Curitiba e outros, foram os nomes com que batizaram suas pontes, por onde nossas tropas transitavam em contínua avançada. Seis por cento do efetivo foram suas perdas, sendo trinta e quatro feridos e oito mortos, o que representa um pesado tributo. O Boletim Interno da 1ª DIE, no dia 4 de fevereiro de 1945, publicou o seguinte elogio do Gen. Mascarenhas de Moraes à Engenharia da FEB:

"A Engenharia da FEB não descansa. São múltiplas suas missões. A construção ou reparação de estradas, muita vez sob o fogo inimigo, que tem cobrado o tributo do generoso sangue brasileiro no soldado da arma das comunicações; na organização de zonas minadas, precedendo as posições da Infantaria, portanto sob eficaz alcance das armas inimigas; na limpeza dos eixos de progressão de carros de assalto; na construção de instalações para a tropa ou na organização dos meios de defesa das Armas e do Comando, a Engenharia Brasileira se tem distinguido como essencialmente combatente. E no seu trabalho diuturno, silencioso e produtivo, sem o menor temor às reações do adversário, por isso que sabe ser indispensável ao desempenho das missões das outras armas, tem uma grande e única preocupação: fazê-lo rápido e perfeito. Sabe a Engenharia que a rapidez e perfeição se completam, como inseparáveis, para o bom êxito das missões de combate. Sabe a Engenharia que esse bom êxito, que a tem acompanhado desde o início de sua atuação neste Continente e que a acompanhará até o fim, é o resultado da vontade de ser eficiente no conjunto da FEB. E' o resultado da feliz atuação de seus comandantes. Sabe, finalmente, que a vontade, só a vontade, servida por um material moderno e bem manejado, é o elemento essencial à consecução da Vitória do Brasil sobre os usurpadores da Liberdade, cujos clarões alvissareiros já se anunciam ao Mundo, para apontar-lhe o reto caminho da Paz dignificante, da Paz igualitária, da Paz tão ansiosamente aguardada. Soldados da magnífica Engenharia do Brasil, que bem trilhais os belos exemplos de vosso valoroso Patrono - o Gen. Villagran Cabrita! Continuai a produzir como o tendes feito até hoje e a vossa Pátria vos recompensará, com os agradecimentos pela vossa ação!" 

"A Epopéia dos Apeninos"
José de Oliveira Ramos


Construção - Ponte Bailey
Arquivo Diana Oliveira Maciel

"O 9º Batalhão de Engenharia de Combate foi a primeira tropa de engenharia a atravessar o Equador para lutar na Europa e também a primeira unidade do Exército Brasileiro a entrar em ação na Itália. Indicada para servir no 4º Corpo do V Exército no dia 4 de setembro entrou imediatamente em atividade e, a 7 de setembro, construiu na zona de combate uma ponte denominada Ponte da Independência, uma lembrança deste grande evento. Com a chegada do segundo e terceiro escalões, o Batalhão completou o seu efetivo e passou a operar no Vale do Reno com todos os elementos. No dia 12 de novembro de 1944, o Batalhão realizava tarefas diversas, algumas na zona de combate, como limpeza de campo de minas (minas anticarro e antipessoal), limpeza de booby-traps (armadilhas) espalhadas pelos alemães em toda parte, desobstrução de túneis, remoção de obstáculos que impediam o avanço das tropas. Outras tarefas eram realizadas perto da zona de combate ou na retaguarda, como construção de pontes, de passagens, desvios, desmontagens de dispositivos em carga de destruição. O grupo construiu e reparou estradas, instalando by-passes para melhorar o tráfego. Era uma cena comum em combate: o combatente avançado e o soldado de engenharia ajoelhados, removendo uma mina ou reparando passagens ou pontes. O combate prosseguia; a infantaria no ataque e a engenharia melhorando vias de acesso para a passagem de jipes, ambulâncias e carros de combate. O pessoal da engenharia era também o responsável pela distribuição de água potável para toda a tropa da Divisão. O serviço era muito importante, pois o soldado devia beber sempre água não contaminada. O batalhão instalou uma rede de pontos de abastecimento, onde a água era tratada e destilada. Outra tarefa era a distribuição de cartas topográficas da região onde atuava a FEB. Bem impressas e precisas, nas escalas de 1/25.000 e de 1/50.000, essas cartas eram fundamentais para os comandantes conduzirem com segurança sua unidade. O batalhão distinguiu-se sobretudo nos ataques a Monte Castelo, melhorando as estradas de acesso e desarmando minas antipessoal. Para se ter uma idéia dos trabalhos desenvolvidos pelo 9º Batalhão de Engenharia basta citar a construção, em plena campanha da Itália, de mais de 17 quilômetros, reparos em mais de 170 quilômetros, além da construção e conserto em mais de 30 pontes. O 9º Batalhão retornou ao Brasil em escalões e sua chegada foi marcada por incidentes. No dia 13 de agosto desembarcou o escalão 'B', a bordo do navio Pedro II, sob o comando do Tenente-Coronel Machado Lopes. O navio atracou às 9 horas. Não foi preparada nenhuma manifestação e, pior do que isso, havia até ordens impedindo o acesso das famílias e amigos ao cais. A despeito da presença do Ministro da Guerra a bordo, o Tenente-Coronel Machado Lopes usando o alto-falante do navio, declarou que a tropa voltava vitoriosa e não prisioneira. Em seguida, ele abandonou a unidade e, discretamente, dirigiu-se para sua casa. O Tenente-Coronel Machado Lopes relata ainda que o Ministro da Guerra justificou as medidas alegando segurança contra a ação de comunistas, mas ele refutou, dizendo que considerava a iniciativa uma ofensa aos que cumpriram heroicamente seu dever na guerra. Iniciara-se, já então, a campanha silenciosa para esquecer e anular a FEB. Pelo Aviso Ministerial nº 217 185, de 6 de julho de 1945, o efetivo do Batalhão ficou reduzido ao de Companhia, justificando-se essa redução como medida de economia. Pouco depois foi dissolvido e em seu lugar ficou o 14º Batalhão de Engenharia, com menor contingente. Em agosto de 1956, no mesmo dia 13, data de sua chegada ao Brasil, o 9º Batalhão de Engenharia de Combate foi restabelecido, através do Decreto nº 39 775. Em 1963, aproveitando-se o fato de que seu antigo Comandante, o General Machado Lopes, estava na chefia do Estado Maior do Exército, e, como Ministro da Guerra, outro ex-combatente, o General Nelson de Melo, o Batalhão teve restabelecido todo o seu efetivo, com a denominação de Batalhão Carlos Camisão, em homenagem ao herói da retirada da Laguna. O incidente aqui relatado enquadra-se nessa situação de fundo político. Foi o 9º Batalhão de Engenharia de Combate a primeira tropa a sofrer as conseqüências dessa medida, que se estendeu depois a outras unidades da FEB que por muito tempo ficaram esquecidas.

Comandante: Tenente-Coronel José Machado Lopes
Subcomandante: Major Afonso Augusto de Albuquerque Lima "

"A FEB por um Soldado"
Joaquim Xavier da Silveira

 


Construção de uma ponte Bailey sob fogo inimigo, pela 3ª divisão do 9º BE, durante a conquista de Monte Castelo.
De braçal branco, o Cel. José Machado Lopes, Cmt do BE, em palestra com outros oficiais.
Foto escaneada do livro "O Brasil na II Grande Guerra"
Ten. Cel. Manoel Thomaz Castello Branco

Na 2ª Guerra Mundial a arma de Engenharia integrou a FEB com seu 9º Batalhão de Engenharia de Combate que, na Itália, se encheu de glórias. O 9º BE Cmb, Batalhão Carlos Camisão, localizado na cidade de Aquidauana (Mato Grosso do Sul) e comandado na época pelo Cel. Eng. José Machado Lopes foi a primeira tropa brasileira a enfrentar o inimigo nazista, tendo a 1ª Cia. E Cmb, sob o comando do Cap. Eng. Floriano Möller, como a pioneira do combate que se iniciava. Por isso o capacete do primeiro alemão morto por um brasileiro é ostentado até hoje no corredor da Arma de Engenharia na Academia Militar de Agulhas Negras (AMAN). Traduzidos em números, nossa Engenharia realizou nos campos da Itália, os seguintes trabalhos, entre os mais importantes:

- Levantou 5000 metros quadrados de brechas ( passagens para homens e viaturas) em campos de minas;
- Construiu, reparou, melhorou ou conservou 850 Km de estradas;
- Construiu 95 bueiros;
- Construiu e reparou 32 pontes;
- Detectou e levantou minas em mais de 20 Km de estradas inimigas;
- Retirou 5200 minas inimigas;
- Colocou 1700 minas e armadilhas contra o inimigo;
- Acompanhou a Infantaria em 14 missões de combate;
- Realizou 56 reconhecimentos, além de travessias de cursos de água, desobstrução de túneis, distribuição de água, colocação de redes de arame, construção de abrigos e distribuição de cartas.

Uma  passagem muito interessante e que retrata a bravura e eficiência da Engenharia brasileira é a frase dita pelo comandante da FEB, o General Mascarenhas de Moraes, enquanto assistia de seu posto de observação em Salsomorela, as tropas repararem um trecho da estrada sob intenso fogo da artilharia inimiga. "Esses americanos são geniais" disse demonstrando entusiasmo. Na mesma hora o comandante do 9º BE Cmb respondeu: "Não são americanos; é a sua engenharia, meu general."


Engenharia em ação. Geraldo Mota é o primeiro soldado agachado, na frente da foto.
Arquivo Geraldo Silvia Mota

 

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