FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA


Mal Sir Harold Alexander, Cmte do Teatro de Operações do Mediterrâneo, em visita ao QG da 1ª DIE em Porreta,
a 08/11/1944, entre os generais Willis Crittemberg, Mascarenhas de Morais e Zenóbio da Costa.
Foto de Kosself, do V Exército, escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos" - José de Oliveira Ramos

O BRASIL EM AÇÃO



 Na estrada de Porreta havia diversas cascatas geladas, que o frio transformara em estalactites de gelo.
Da direita para a esquerda: Cap. Hélio B. Brandão, Silvio de Melo Cahu e o motorista.
Foto escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos" - José de Oliveira Ramos

O ATAQUE: 12 DE DEZEMBRO

Nossa equipe, comandada pelo cabo Almeida, mais conhecido por "Gambia de Ouro", era composta de três homens: o cabo, Mário vulgo "Conforto" e eu. Saímos no jipe, em demanda do local onde devíamos instalar nosso rádio para o ataque. A estrada a princípio era ótima. Apesar da densa fumaça artificial, foi fácil dirigir no meio daquela confusão tremenda de tropas, canhões e tanques. O local estava marcado com uma cruz vermelha na nossa carta de campanha, e para chegar até lá era necessário abandonar a estrada. Assim fizemos. A princípio havia uma "mulatera", por onde o jipe seguiu facilmente. Mas, à medida que avançávamos, a trilha ia piorando, cada vez mais estreita e mais íngreme, os precipícios eram de meter medo, o jipe dançava no barro e a todo o momento o cabo dizia: - Este troço vai derrapar e cair por aí abaixo. Por fim, acabou a "mulatera", mas estávamos um bocado longe ainda da tal cruzinha vermelha marcada no mapa. Ir a pé com toda aquela tralha era duro. Resolvemos fazer estrada com o carro até a cruzinha vermelha. O bichinho subiu feito um cabrito, passamos por um córrego com uma queda d'água, demolimos cercas, colocamos pedaços de troncos para servir de calhas a fim de passarmos, fizemos de boi de carro tirando o jipe do atoleiro, tudo isso só para não andarmos a pé. Ao chegarmos ao ponto marcado pela cruzinha, havia duas casas. A primeira coisa que recebemos foi a censura de um oficial que lá se achava, pois tínhamos vindo de jipe calmamente por uma zona que estava ao alcance de tiro de fuzil inimigo. Só de preguiça. Mas valeu. Soldado de infantaria é assim: faz tudo para não andar a pé. Em pouco tempo ficamos sozinhos na casa, onde havia um casal e a filha, e nos instalamos muito confortavelmente. Colocamos a estação num canto e ficamos a beber vinho e a contar histórias do Brasil. Volta e meia a casa estremecia toda com alguma bomba. O terreno estava todo esburacado quando chegamos, e ficaria ainda muito mais antes de partirmos. Durante a noite, fomos despertados pelo barulho de vozes: sabíamos que ali só devia chegar tropa ao amanhecer e por isso pensamos que fossem alemães. Pulamos rápidos de fuzil na mão. Arredei um armário barrando a porta, enquanto o Almeida perguntava em italiano quem era. Eram brasileiros, um pelotão que se tinha extraviado. Depois de falarmos com o tenente, abrimos a porta e os pobres pracinhas, todos sujos de lama, vieram para perto do fogo se aquecer. O resto da noite passamos abrindo e fechando a porta. A todo momento chegava um extraviado. Como era a única casa na redondeza, sem falar numa pequena ao lado, para ela todos afluíram. Soubemos então que o comboio que os levara tinha sido atacado por avião. Era o comboio que partira pouco depois de nós, de Silla; por pouco também não participávamos da festa. Não houve mortes, só alguns feridos. O tenente Chaon era o comandante do pelotão. Rapaz simpático. De madrugada, matamos uns frangos dos italianos e fizemos um ótimo ensopado. Havia um soldado que tinha sido cozinheiro. Foi o melhor frango que comi em minha vida. Sentado num tamborete, com uma cozinha de galinha na mão, percorria com os olhos aquela turma alegre que estava brigando com o sargento. para ganhar o melhor pedaço. Todos sujos, barbados, mas alegres. Dali a poucas horas - não pude evitar esse pensamento sombrio - nem todos talvez estivessem com disposição para rir. Para alguns seria - quem sabe? a última refeição. Aqueles rapazes sadios e fortes iriam se expor a ficar mutilados bàrbaramente.. Não adiantava pensar nisso: não melhorava a situação. Eu também estava como eles. O pelotão saiu mas outros vieram. Aquela casa aos poucos foi se enchendo de gente. Veio um pelotão de morteiros, que tomou posição em volta da casa. O pobre lar do italiano parecia quartel: soldados por toda parte, uns dormindo pelos cantos, fios de telefone, uma balbúrdia. A noite passamos na escuta. Nenhum transmissor funcionou; havia um silêncio de morte, a calmaria que precede a borrasca. Somente vultos emergindo da sombra do "black-out". Pequenas turmas de telefonistas foram estendendo os fios. O meu amigo Laércio Xavier passou com o cabo Assis, carregando uma bobina de fio pesado nas costas. Pararam um bocadinho, demos um dedo de prosa e elogiamos o lugar onde colocáramos a estação. De fato, aproveitamos um desnível do solo sustentado por um muro de pedras. O lugar era um ângulo morto, e muito difícil de ser alvejado. Foi esse lugar que mais tarde nos salvou da morte. Tinha, porém, um inconveniente: as granadas, batendo nas pedras, faziam chover sobre nós pequenos calhaus que às vezes nos machucavam, mas só. Era muito melhor levar pedradas do que granadas, não há dúvida. As 5.30 horas da madrugada começou a festa. Da retaguarda, os canhões puseram-se a atirar incessantemente. Parecia dia. Bala de todo jeito, o céu marcado pelas traçantes que pareciam gigantescos dedos que iam apontando até o alvo. A enervante matraca das metralhadoras começou. É um riso sinistro, um riso de morte, algo de nervoso, histérico ou sádico. E, junto ao riso, a tosse seca dos morteiros. Procuramos comunicações. A princípio nossa 284 não quis funcionar, mas dentro em pouco estávamos no ar como as outras, transmitindo e recebendo mensagens. Quando amanheceu o dia,. a batalha já estava no auge. A claridade era nossa inimiga, porque os alemães, de cima, podiam tudo ver. Veio a resposta deles, e que resposta! Os alemães eram uns bambas em morteiros. Em pouco tempo as granadas começaram a cair em cima de nós: eles estavam limpando o terreno. As granadas iam caindo ao lado uma das outras, como que ciscando o chão. Foi um inferno. Não há palavras capazes de descrever uma batalha. É uma coisa que está acima do alcance dos homens. Ou a descrição nos termos secos e técnicos de um boletim de Estado-Maior, ou então pura fantasia de algum lírico, que nunca esteve na guerra. É impossível dar-se a impressão fiel de uma batalha. É como se quiséssemos descrever a história de muitas vidas, a história de muita mortes, de atos humanos que vão desde os mais mesquinhos até os mais nobres, a história desse egoísmo que nos invade a todo momento quando sentimos que estamos vivos, que ainda muito têm que morrer, mas que com certeza não seremos nós. Tudo isso, a par de um desprendimento formidável, que nos faz ficar inconscientemente sob o fogo da metralha, às vezes imóveis, sem nada poder fazer, talvez com vontade de sair daquele inferno, mas ficando, porque assim manda o dever, essa forma abstrata essa convenção humana, essa coisa impalpável, a honra, pela qual morremos. pela qual ficamos expondo os nossos miseráveis corpo a toda sorte de mutilações possíveis, a todos os sofrimentos, quase sempre sem ver quem nos atinge, sem nada podermos fazer para evitá-Ia. Não sei, mas quem quiser descrever uma batalha talvez tenha que começar assim: um punhado de homens fardados designados por um número, agrupados em uma unidade, saiu de sua trincheiras para dar aquilo que têm de mais caro, que nenhum deseja perder: a vida, em troca de três simples e frias palavras: Objetivo a atingir. Que mundo, que coisa não encerram essa palavras! Ao meu redor só havia destruição e morte, a morte que passava, assobiando pelas nossas cabeças e ia cair mais além. A granada é uma coisa interessante; ela vem assobiando, um assobio estridente, que, à medida que se aproxima, toma-se mais forte e grave, depois é um baque surdo. No lugar onde ela cai surge uma lua alaranjada, envolta de fumaça preta, vem depois o estrondo e a gente se sente sacudido pela concussão do ar, isto é, os mais felizes, porque os outros sentem as suas carnes rasgadas pelo estilhaços. É tudo brutal. A minha frente, ao lado, por toda parte, companheiros eram estraçalhados pelas granadas, e a única coisa que podia fazer era acender um outro cigarro, ficar olhando para a fumaça branca que subia, indo se misturar com a fumaça negra das explosões. Atento ao rádio, ouvia os outros transmissores dando e recebendo ordens no meio daquele inferno. Tudo frio, preciso, como se sempre tivéssemos feito aquilo, como se morrer e matar fosse tão natural. Pelas onze horas da manhã começamos a sentir que alguma coisa estava errada. O tedesco respondia a tudo com o mesmo vigor. Ao meio-dia começamos a ser duramente atingidos; tive a impressão de que tinham sido localizados, não só o rádio como também a posição dos morteiros, que estavam à nossa esquerda. A guarnição dos morteiros correu em busca de lugar seguro; nós, porém, tivemos que ficar junto ao rádio. Foi pedrada de todos os lados. O Mário "Conforto" perdeu até o frio que sentia, os estais foram rompidos, a antena velo ao chão. Era uma temeridade tornar a levantá-la, mas era preciso, e assim o fizemos. O Almeida e eu levantamos a antena, enquanto o Mário operava. Era esse o nosso ofício, conservar o rádio no ar apesar de tudo. Pelas duas e meia veio a ordem de retrair à base de partida. Foi um momento de tristeza, mas a ordem foi cumprida. A tropa retirou-se sob violento fogo de morteiro. Os alemães não perderam a oportunidade e nos castigaram duramente. Com o entardecer a coisa melhorou. Foi um entardecer triste, de um dia frio e enlameado, os homens acabrunhados, abatidos, alguns conservando o terror estampado na face. Os feridos eram aos poucos evacuados em maca, os mortos... para eles tudo tinha acabado. Recortando o horizonte, a figura sinistra de Monte Castelo, como um desafio, um pesadelo que nos atormentou todo o inverno... Não foi daquela vez que subimos ao seu cume.

"Cruzes Brancas - O Diário de um Pracinha"
Joaquim Xavier da Silveira


José Teixeira de Souza
Arquivo Cynthia Teixeira

EPISÓDIOS SEM HISTÓRIA

Após a conquista de Monte Castello, além do ajuste do dispositivo para o ataque seguinte, iniciou-se cuidadosa busca por toda a região, à procura dos corpos dos soldados desaparecidos nos combates anteriores. As equipes de salvamento, das quais faziam parte capelães militares, entre eles o reverendo Soren, se depararam com quadros pungentes que causaram forte impacto: soldados com os corpos intactos, ainda de arma na mão, jaziam na posição em que foram surpreendidos pela morte e conservados pela neve que caiu posteriormente aos combates. Quem percorreu aquela área certamente jamais se esquecerá do que viu. Dois episódios, entre muitos, merecem ser destacados. Perto do cume de Monte Castello, foi encontrado o corpo de um soldado morto por um tiro e que estava bem distante dos pontos mais avançados que a tropa brasileira atingira na jornada de 12 de dezembro. Em sua arrancada, ele transpôs as linhas inimigas até ser abatido. Que impulso moveu esse soldado, que atos de coragem e heroísmo praticou? Não se poderá saber nunca sua história, porque em sua volta só restaram mortos. A neve que conservou o corpo na posição exata em que tombou à frente do inimigo, quis resgatar do silêncio sem história esse exemplo do sacrifício e da coragem , do infante brasileiro. Identificado como José F. da Silva, da 3ª Companhia do I Batalhão do Regimento Sampaio, ele bem mereceu o título que lhe deram posteriormente: Conquistador Solitário de Monte Castello. Outro episódio com enorme conteúdo de dramaticidade ocorreu em Abetaia, região duramente disputada, ao sopé de Monte Castello. Em torno dessa posição, em semicírculo, foram encontrados 17 corpos de soldados brasileiros em posição de combate, com armas e granadas nas mãos, liderados por um sargento. No local em que foram abatidos permaneceram como marcos indicativos aos companheiros que viriam depois, para conquistarem a posição. O sargento era Luís Rodrigues Filho, do Regimento Sampaio. A princípio se supôs que todos fossem dessa unidade, mas pesquisas de identificação comprovaram que alguns pertenciam a outras unidades brasileiras que também participaram do ataque a Monte Castello. A descoberta aumentou a névoa do mistério que cercou esse episódio. O Coronel Nelson Rodrigues de Carvalho, em sua história do Regimento Sampaio, sugere que grupos de combate desgarrados, atraídos pelo fogo de Abetaia, lá se encontraram com outros e lutaram até a morte. O fato é inquestionável marca da bravura indômita do pracinha brasileiro: morrer atacando o inimigo. O acontecimento entrou assim para a história: "Os 17 de Abetaia."

"A FEB por um Soldado"
Joaquim Xavier da Silveira



José Teixeira de Souza, integrante do 1º escalão da FEB, em manifestação na Itália.
Arquivo Cynthia Teixeira

 

MEDO

Pois é, velhinho, é o que eu te digo: o que houve de mais importante em toda a guerra foi mesmo o medo. Tive medo ainda muito antes do nosso embarque. Eu namorava uma garota lá do bairro, filha de gente simples, e que a princípio não parecia ter grandes pretensões. Mas o raio da irmã de minha pequena arranjou noivo rico, vivia andando de automóvel e ganhando presentes caros. E eu lá com o meu empreguinho modesto, os meus ternos meio esgarçados, os meus sapatos de sola furada. E, depois da convocação, a coisa piorou. Ia visitar a garota, de vez em quando entrava em casa dela, mas era para ver a família se desmanchando em amabilidades com o noivo da irmã. Era Luciano pra cá, Luciano pra lá, enfim uma chaleiragem nojenta. E o Luciano a falar de negócios, de importação e exportação, a se fazer de importante, a dar palpites em política internacional. "Ora, vocês não vão embarcar nunca, é só farol." Mas eu tinha medo, muito medo. Ia embarcar e ia perder a minha Teresa. As coisas no quartel pareciam mesmo preparadas para um embarque próximo. Lembra-se daqueles exercícios na Vila Militar? Quando subi para o "navio" de madeira, por aquela escadinha de corda, e olhei para as casas lá embaixo, pequenas, pequenas, meu coração se apertou. Minha Nossa Senhora, os calafrios que passei! Depois, foi o embarque de verdade. No navio, tive muito medo de submarino. Acordava sobressaltado, não comia direito, enjoava muito, passei dias e dias jogado no catre, quase um trapo. E assim foi até começar a guerra de verdade, tudo era motivo para me atemorizar. Tomei parte no primeiro ataque ao Castelo, aquele que se fez com os americanos. Dei tiro, ouvi tiro, me deitei no chão por causa das granadas, o diabo, sempre assustado, sempre com medo. Depois, foi aquele ataque terrível de doze de dezembro. Nós estávamos de reserva, abrigados junto a umas casas, e vimos os homens de outro batalhão avançarem morro acima. Chapinhavam na lama, encolhidos, avançando sempre. Um companheiro me disse: "Está vendo? Não tem ninguém lá em cima. O tedesco já deu o fora. E pensar que essa glória era pra nós!" Olhei para o morro. Nossos homens já se aproximavam da crista, mais um pouco e o Castelo ia ser nosso. Mas qual, foi um tiroteio tremendo. Morteiros, fuzis, metralhadoras, uma barulheira infernal. E os nossos homens descendo o morro, as lurdinhas cantando, gente caindo. Depois, de noite, saía patrulha de carne, para recolher pedaços de gente na encosta do morro. Tomei parte em patrulhas. Tinha medo, mas ia cumprindo o que mandavam. Sentia-me abatido, desmoralizado. Companheiros meus tinham morrido, outros estavam na retaguarda, no hospital. O tenente que nos comandava foi evacuado por neurose de guerra. Um dia, quando estávamos saindo em patrulha, vimos o tenente trepado numa árvore, pensando que éramos tedescos. Ora, neurose de guerra, quem é que não tinha? E eu precisava ser evacuado, era difícil escapar com vida, daquele inferno. E como eu andava muito abatido mesmo, um dia tive um gesto de desespero. Estávamos na hora do rancho, reunidos em volta da cozinha. O capitão, o sargento da cozinha e mais uns oficiais discutiam. Tinham chegado jornais do Brasil e era um tal de Brigadeiro pra cá, general Dutra pra lá, enquanto nós esperávamos a comida. Pensei nuns caramelos tedescos que bem podiam cair ali e fiquei fulo da vida. Pulei para uma elevaçãozinha, tirei do cinto a granada de mão e gritei: "Sirvam já a comida, senão eu espatifo essa joça toda!" Alguém deu um pulo para me desarmar, um companheiro me segurou os braços. Mas não me evacuaram por neurose de guerra, não. Trataram logo de arranjar papel e tinta e fizeram uma big queixa de mim. Contaram o caso todo por escrito, tim-tim por tim-tim. Disseram que eu ia responder a conselho de guerra. Ora, que importava! Era, apesar de tudo, uma evacuação para a retaguarda. Depois, naturalmente, ia haver uma anistia. Fiquei esperando o tal conselho de guerra. Nisso, aconteceu o caso dos prisioneiros alemães. Saí numa patrulha noturna. Atingimos as casas que nos indicaram e devíamos regressar. Mas o sargento achou que, naquele povoado, não havia tedescos e resolvemos fazer uma patrulha de vinho. Entrei num daqueles casarões de pedra e, como parecia abandonado, fui procurando vinho em todos os quartos, enquanto o Rui, meu companheiro, continuava com a metralhadora em posição de atirar. Abrindo a porta de um dos quartos, ouvi um ruído de respiração. Corri o quarto com a lanterninha, quase velada pelos dedos, e vi quatro tedescos estendidos no chão, dormindo. Fiz sinal para o Rui (eu era cabo e devia comandar). Os rapazes foram acordados com uma rajada de metralhadora na parede. Levantaram-se assustados, mãos para cima, gritando: "Kamerad, Kamerad!" Conversamos com eles em italiano assassinado, demos-lhes cigarros. Perguntamos por outros alemães na vizinhança, e eles nos disseram que, na casa vizinha, dormiam mais quatro e que não havia nenhuma sentinela acordada. Vi logo que não era uma armadilha, os olhos assustados daqueles rapazes não me enganavam. O medo deles era ainda maior que o meu. E assim saímos para a rua, o Rui com a sua metralhadora, eu de fuzil e granada na mão, com os quatro tedescos na nossa frente, as mãos atrás da nuca. Fomos à outra casa, o Rui deu mais uma rajada na parede, e voltamos para a unidade em triunfo, trazendo na frente os oito rapazes aprisionados. Dias depois, o capitão mandou reunir a Companhia. Fez uma preleção sobre os deveres do militar, a necessidade de disciplina, etc. "Pronto - pensei - lá vem o tal conselho de guerra." Era a evacuação para a retaguarda, mas, apesar das possibilidades de anistia, e embora eu soubesse que meu castigo não podia ser severo (existia ou não existia, afinal de contas, a tal neurose de guerra?), a palavra conselho de guerra sempre nos dá uma sensação desagradável, como se a gente fosse enfrentar um pelotão de fuzilamento. Mas o capitão não falou mais em conselho de guerra. Leu uma citação em ordem do dia, pela qual eu era promovido a sargento, por ato de bravura, e me fez um grande elogio. Fiquei desnorteado, abobalhado, com vontade de perguntar: "E o conselho de guerra, capitão?" Mas, enfim, estava promovido, reabilitado, o herói do dia. Todos me davam parabéns, vinham me apertar a mão. Parecia até uma colação de grau. Depois, passei por um aperto maior. Escalaram-me para comandar uma patrulha. Fui falar com o capitão: "Por que não escala um sargento mais experiente? Olhe que a missão é muito séria". O capitão riu e disse que não podia ser, que eu devia comandar a patrulha. Mandou que escolhesse alguns soldados para me acompanharem. Olhei os homens, era quase tudo gente novata, recém-chegados do depósito de pessoal, todos com aquele medo particular, aquela angústia dos primeiros dias de front. Tive pena deles e perguntei quem queria me acompanhar. Um cabo me disse: "Eu vou com você" - e eu me dei por satisfeito. Saímos os dois, o cabo de metralhadora e eu com o meu fuzil e a minha granada de mão. O capitão subiu à torre da igreja, para observar nosso avanço. Progredimos pela encosta, onde se viam aqui e ali cadáveres brasileiros. Alcançamos o ponto marcado na carta e já nos preparávamos para voltar, quando, olhando para uma árvore, vi um tedesco de binóculo, espiando nossas posições. Fiz sinal para o cabo, a metralhadora cantou e o tedesco se despencou do galho. Nisso apareceu na crista do morro outro tedesco, correndo de mãos para o alto e gritando: "Kamerad, Kamerad, niente Kaputt". Fiz sinal para que o cabo não atirasse, mas não adiantava, ele estava muito assustado, e é difícil fazer parar um homem assustado, com o dedo no gatilho. A rajada pegou o alemão na cabeça. Depois, foi uma fuzilaria dos infernos, a encosta cheia de alemães. Não sei como, tive a inspiração de não correr morro abaixo. Em vez de ir para a estrada batida pelos tiros, nos deslocamos para a direita e demos um rodeio, antes de voltar à unidade. Mais tarde, nossos homens fizeram outro prisioneiro e soube-se que, no morro, havia setenta e seis alemães que queriam render-se e que só atiraram sobre nós, depois que matamos o companheiro deles, que vinha em missão de paz, que estava se rendendo. Pois bem, velhinho, tudo isso que eu te estou contando não foi nada, comparado com Montese. Entrei na cidade, à frente do meu Grupo de Combate, sempre com o meu fuzil e a minha granada de mão. Eu explicava para os meus homens: "Não fiquem ai todos juntos, andem sempre espalhados". Mas era tudo uma carneirada, ainda não sabiam dominar o instinto de se agacharem todos juntos, num canto, sempre que havia perigo. Uma metralhadora pipocou numa das janelas. Olhei para trás e vi meu Grupo de Combate reduzido a cacos, uns mortos, outros feridos. De doze homens, somente eu e o cabo estávamos de pé. Os padioleiros recolheram nossos feridos e nós dois continuamos atirando, caçando tedesco de casa em casa. Qual velhinho, quando me lembro de todas essas coisas, tenho vontade de correr, de me jogar no chão, de gritar socorro. É verdade que tudo acabou e que estamos esperando o embarque de volta, mas eu continuo com medo. Que é que eu vou fazer? Estava desempregado quando me convocaram, vou voltar aos meus sapatos furados e ao meu terno de mangas esgarçadas. Faz muito tempo que não recebo carta de Teresa, ela deve ter arranjado alguém, não tenho mais dúvida. Mas não importa, não posso mais voltar àquela vida. Ah, quando me lembro da cara de Luciano, com dentes muito brancos, me perguntando num canto da sala: "O que é que você acha? Minha noiva vai gostar deste reloginho como presente?" Não, tudo será diferente. Mas eu tenho medo, muito medo, velhinho.

"Guerra em Surdina"
Boris Schnaiderman


José Teixeira de Souza e companheiros na Itália
Arquivo Cynthia Teixeira

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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