FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

A Engenharia da FEB cumpriu o seu dever...

 


Gráfico demonstrativo de minas e armadilhas retiradas pelo 9º BE.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção

A PRIMEIRA GRANADA

As 12h 40min do dia seguinte, 20 de novembro, caiu a primeira granada de Artilharia inimiga sobre a área do PC da Companhia; as praças estavam se reunindo para a fila do almoço; uma debandada ocorreu em todas as direções, enquanto a concentração de tiros se realizava com toda a fúria e eficiência. O 3º disparo caiu bem em frente ao rancho, ouvindo-se os primeiros gritos, e instalando-se grande confusão. Outro tiro caiu perto do PC mas não houve impacto direto. Telefonei à Seção do QG na esperança de que fosse feita uma contrabateria sobre a Artilharia inimiga, porém, o resultado foi uma série enorme de perguntas, tais como calibre, direção de onde vinham os tiros, ângulo de incidência etc., como se eu estivesse em situação muito cômoda de observação e não diretamente sob os efeitos dos tiros. Dadas as informações, que no momento pude fornecer, desci ao andar térreo, onde estava o Posto de Saúde, transformado, agora, em Posto de Socorro. O bombardeio prolongou-se até às 13h 15 min, quando os boches deram por concluído o estrago que haviam feito. Acorriam ao térreo os feridos que não tinham sido transportados para a retaguarda. Poucos dias antes, ainda em Il Poggio, chegara à Companhia o 1º Ten. Médico Dr. Marcondes, voluntário, que fora preparado, como tantos outros, em cursos de emergência para a guerra. Já estava em plena atividade tratando dos feridos, que eram carregados, apresentando os ferimentos mais diversos. O arrebentamento da granada produz uma chuva de fragmentos de aço, maiores ou menores, que se espalham com grande velocidade, penetrando na carne, como se fossem lâminas afiadas. O sangue encharcava o chão, enquanto os feridos recebiam os primeiros socorros. Chegavam uns, com o sangue borrifando as paredes; outros pálidos e gemendo, com fragmentos invisíveis no corpo. O Dr. Marcondes tamponava aqui um ferimento profundo, imobilizava ali uma fratura, enquanto todos em volta ajudavam no que podiam, enfermeiros ou não, pois todos se encontravam diretamente envolvidos naquela tragédia e estavam solidários com os companheiros acidentados. Enquanto caíam os tiros, os oficiais ali presentes sabiam que estávamos com os pés sobre um vulcão. Numa das salas do subsolo estavam 2 500 quilos de TNT, de alto teor explosivo, acompanhados de complementos sensíveis ao choque, como espoletas comuns e espoletas elétricas, suficientes para servir de escorva à carga explosiva. Felizmente era pouca a probabilidade de um impacto direto sobre a carga, senão tudo em volta iria pelos ares. Por este motivo, além do terror causado pelas granadas que caíam, a cada explosão havia um alívio por não ter atingido a carga de explosivos. Aquela insuportável situação de agonia terminou após 35 minutos de bombardeio, findo os quais, não obstante todos os males, reinou uma sensação de alívio. Acompanhado pelo Ten. Viveiros corremos até a cozinha e arredores, para ver os estragos causados. Jaziam caídos os corpos inanimados dos soldados Waldemar Marcelino dos Santos e Joaquim Pires Lobo. Os cômodos estavam desertos, mas em cada um em que entrávamos, a perspectiva de encontrar outros corpos causava abalo. Então verificamos que durante o bombardeio, mesmo sob o fogo, os companheiros haviam socorrido os feridos mais graves, colocando-os sobre os jipes que passavam, para serem socorridos à retaguarda. Carregamos os dois mortos para um galpão de uma casa próxima, ocultando-os das vistas dos demais soldados. Caberia, agora, ao Pelotão de Sepultamento da Divisão, tratar de seus corpos inertes. Aquela carga fatídica deixou-nos emocionalmente prostrados; principalmente o Tenente que transportou o corpo do Soldado Lobo, que lhe era subordinado, morto praticamente antes de entrar em combate. Por casualidade no momento passava, de motocicleta, um oficial inglês; parou, abaixou-se sobre os corpos e disse, no seu idioma, simplesmente: "Mortos. Enterre-os no alto do morro". Tomou a motocicleta e partiu. Fiquei pensando quantos mortos já não teria visto aquele veterano da guerra que, provavelmente começara combatendo em Tobruk, nas areias do deserto, enfrentando o Afrika Corps, depois El Alamein, a grande ofensiva, a invasão da Sicília e que agora estava, no meio dos Apeninos, numa guerra que, para ele, já era rotina de anos e anos seguidos. Lançou-me um olhar imperturbável, talvez adivinhando que, para nós, era o primeiro morto e que muitos viriam, fatalmente. Por ironia do destino, naquele fatídico dia 20 de novembro, comemorava-se o "Thank's giving day", ou seja, o "Dia de Ação de Graças". Os soldados da 6ª Seção foram salvos por uma feliz providência do seu Comandante: ao descer para o rancho, vira cair a primeira granada, que emitiu uma fumaça colorida. Deu ordem a seu pessoal para subir e apanhar os capacetes de aço. Foi o tempo para caírem as granadas de enquadramento, seguindo-se o bombardeio com toda a eficácia. A 5ª Seção estava destacada em Silla, longe desses tristes acontecimentos. Regressamos ao PC da Companhia, onde estavam sendo atendidos os últimos feridos. O Dr. Marcondes trabalhava, imperturbável, sobre um lago de sangue; eram muitos os anos de experiência adquirida no Pronto Socorro do Hospital Sousa Aguiar, do Rio de Janeiro. O balanço final acusou dois mortos e onze feridos, alguns graves, como o caso do Cabo Aleixo, que perdeu uma perna e o soldado José Januario da Costa que veio a falecer no Hospital. O.impacto emocional atingira a todos. Mas o bombardeio poderia ser repetido e impunham-se algumas providências. Iniciou-se o transporte dos explosivos para os caminhões e, neles, para a retaguarda, sendo guardados a céu aberto, em Pavana, protegidos por lonas e guardando uma boa distância entre si, afim de ficarem em segurança. A lição tinha mostrado a necessidade de se adotar certos cuidados e cautelas. Posteriormente, tomamos conhecimento da ação relevante de várias praças que, durante o bombardeio, socorreram seus companheiros sob o fogo inimigo; são dignos de citação os seguintes nomes: 2º Sgt Pedro Argemiro de Araujo, Cabos Orlando Duarte Silva e Carlos Seifert e Soldados Arlindo Bibiano de Araujo, Célio Francisco Mendes Franco, Onofre Sousa, Hamilton Brandão e Manoel Dias Cunha. Todos receberam elogio especial em Boletim Interno do 9º BE. O cheiro de sangue entranhou-se naquelas paredes e assoalhos; não havendo como retirar o que se infiltrou nos buracos e frinchas existentes. Mudamos imediatamente a cozinha, a Seção de Comando e a 4ª Seção, que foram atingidas, para outras casas mais protegidas, pois estava evidente que tudo fora feito sob observação direta do inimigo. Ninguém mais ocupou aquelas casas fatídicas. Foi colocada uma tabuleta com o aviso: "Trecho sujeito a observação inimiga". Cerca de 200 metros antes do local em que nos encontrávamos, residia um padre com seus familiares. Segundo ele, preferiram conviver com as bombas, pois não tinham para onde ir. Mudamos o PC da Companhia para a casa do religioso, tendo em vista, também, a aproximação do inverno. Lá nos instalamos como foi possível. Durante o período em que lá permanecemos, diariamente, de dia e à noite, passavam sobre a casa, os tiros que os alemães endereçavam à cidade de Porreta, especialmente sobre o QG da Divisão, que vivia sob constante inquietação. Tivéramos nosso batismo de sangue em circunstâncias inesperadas. Porém, "na guerra como na guerra", diz o ditado popular, e tínhamos pela frente novos encargos. O Gen. Mascarenhas de Morais, ao ter conhecimento do desempenho das várias missões executadas pela 5ª Seção, citou, em Boletim Divisionário, como exemplo do cumprimento do dever e espírito de sacrifício, os 3º Sargentos Luiz Berto Mouro e Josué Dantas Martins e os Soldados Antonio Viegas, Geraldo Ribeiro da Silva e Antero Batista, como os que mais se distinguiram na retirada das minas próximas à localidade de Gaggio Montano.

"Quebra Canela"
Gen. Raul da Cruz Lima Jr.


Frente de Monte Castelo - Os engenheiros do 9º BE reparam a estrada Silla-Bombiana, removendo a lama e tapando
uma cratera de granada. Com galochas de borracha até a virilha, usam o capacete de aço, significando que a zona era batida 
por fogos de morteiros alemães. Essas estradas eram mantidas em tráfego o tempo todo, pois constituíam o eixo de deslocamento
dos regimentos de Infantaria. O casarão à esquerda é o PC de um Batalhão. Trabalhos do 5º Pelotão de Engenharia.
Imagem escaneada do livro "Quebra Canela" - Gen. Raul da Cruz Lima Jr.

O INVERNO
Fase de estabilização das operações

O tempo mudou, da noite para o dia. Bastaram as primeiras nevadas para que o quadro onde se desenrolavam as operações mudasse totalmente. A primeira manhã foi de encantamento; um sol muito débil iluminava o imenso lençol branco, que surgira como por encanto, tal como se um artista celeste em largas pinceladas tivesse criado aquela portentosa obra de arte, que se desenrolava diante de nós. A tudo envolvia, de um branco imaculado, desde os píncaros das montanhas até o mais profundo dos vales. A tropa comemorou o evento alegremente, travando, nos lugares mais protegidos, verdadeiras batalhas de neve, extravasando seu espírito brincalhão e sua admiração por aquele fenômeno desconhecido para a gente dos trópicos. Lá na frente, no fundo dos foxholes - buracos de raposa - ou simplesmente "bucos", o pracinha já não recebeu o inverno com tanto entusiasmo, pois ele veio alterar, para pior, sua vida já tão penosa e cheia de sacrifícios. Teve que se proteger da neve, forrando seu ninho com palha, cobrindo-o com materiais de circunstância. Forrou o galochão com jornais, tirando os borzeguins para evitar a gangrena do pé de trincheira. É bem verdade que já recebera, com antecedência, os uniformes de inverno, de lã, com roupa-de-baixo que o protegia da cabeça aos pés, capotes e capa branca, para dissimular-se na cor branca que, agora, tudo dominava. Para proteção imediata, recebeu e instalou redes de arame farpado, chapas metálicas, sacos de areia, armadilhas e minas, de modo que as posições avançadas se ouriçaram com artefatos de defesa, acrescidos da inventiva pessoal de cada um. Inventaram um sistema de alerta, feito com latas de ração, cheias de pedra, ligadas a arames quase imperceptíveis, que acusavam a passagem de qualquer elemento estranho. Sem se falar nos "very-light", que disparavam ao menor contato, alertando as guarnições. Era tempo de hibernar, porém, tomando-se todas as precauções. Nas casas aproveitadas, ou no que delas restara, para abrigo da tropa, foram instalados aquecedores de campanha, com suas chaminés, dando ao ambiente uma sensação de conforto e calor. Iniciara-se a estabilização da frente, tendo em vista a impossibilidade de movimentar grandes efetivos. Os dois lados eram forçados a uma trégua, imposta pelas condições meteorológicas. Paralelamente, estabeleciam-se medidas defensivas, com linhas de defesa em profundidade, para prevenir qualquer surpresa. A primeira dessas linhas ficava ao longo das primeiras posições e se aprofundava para a retaguarda, onde a Engenharia construía obstáculos previstos, para serem acionados, em caso de necessidade. Assim, pois, todas as pontes foram preparadas para a destruição. Como, geralmente, eram pontes Bailey, que substituíam as originais destruídas, calculava-se o corte, com explosivos, em duas ou três seções, simultaneamente, com fornilhos nos encontros, de modo a ampliar a brecha que seria aberta e dificultar a sua reconstrução. Todo o trabalho era executado o mais discretamente possível, guardando-se os explosivos nas proximidades, bem protegidos do tempo. Alguns campos minados foram lançados próximos às linhas de frente; uns funcionando como bloqueios em estradas ou em áreas de penetração de patrulhas inimigas; outros, extensos cobrindo possíveis vias de acesso de carros de combate. Em verdade, o primeiro campo minado, real, foi lançado em pleno inverno, na terra de ninguém, a que se delimita com as linhas inimigas e, como não poderia deixar de ser, instalado à noite. Para o lançamento deste campo, foi designada a 6ª Seção, sob o Comando do Ten. Vinhaes. O campo ficava situado no sopé do Monte Castelo, no flanco oeste da localidade de Bombiana; como proteção tinha, apenas, um castanhal. Era necessário tomar-se uma série de medidas, para não despertar a atenção inimiga. Treinamentos especiais foram feitos na retaguarda, para o lançamento noturno. As minas anticarro, M2 A1, que normalmente são pintadas de preto, foram repintadas de branco, cor da neve, assim como as minas antipessoal que ativariam o campo e teriam ação sobre os mineiros inimigos. Na noite do lançamento, a equipe do Ten. Vinhaes foi protegida por elementos de Infantaria, encarregados da defesa da área, que mantiveram vigilância durante todo o tempo da operação. Ao anoitecer, iniciou-se o trabalho de colocação das minas, que se prolongou por algumas horas, porém, com inteiro êxito. Se fossem lançadas somente minas anticarro, a operação teria sido muito facilitada; porém, a colocação, à noite, de minas antipessoal, para proteção efetiva do campo, revestiu-se de cuidados especiais, pois qualquer descuido seria fatal à própria equipe de lançamento. O campo tinha 200 metros de extensão, por 10 de largura, com, aproximadamente, 300 minas AC e AP. Considerando-se que as minas tiveram que ser enterradas na neve, o que enregelaria as mãos dos executantes, que tinham que lidar com pinos sensíveis de mecanismos mortais, pode-se imaginar a façanha realizada pela 6ª Seção. Ao amanhecer o dia, e com a neve caída, não restou nenhum vestígio que pudesse identificar o campo do lado inimigo. Do nosso lado apenas se via o arame farpado de seu limite anterior. Mediante acordo, algumas patrulhas de Infantaria, lançadas para identificar organizações inimigas nas encostas de Monte Castelo, levaram elementos de Engenharia, que esquadrinharam, por dentro, vários abrigos e casamatas abandonados e cheios de água. Nesta missão, que só poderia ser realizada sob a proteção da noite, distinguiu-se o Soldado Arlindo Bibiano de Araújo, agora promovido a cabo, pelas demonstrações de bravura e sangue-frio que, repetidamente, vinha demonstrando.

"Quebra Canela"
Gen. Raul da Cruz Lima Jr.


Ponte de emergência sobre o Rio Pó.
Foto de Horácio Coelho, escaneada do livro "A Epopéia dos Apeninos" 

CURRIOLAS

Numa destas "curriolas" - nome dado pelos soldados a operações ou aventuras perigosas - que se desenvolveu no mesmo dia em que se lançou um pequeno campo minado, na terra de ninguém, guardo o registro pitoresco do que fez aquele cabo: Inicialmente, localizou minas do tipo Stock. Eram minas de cimento, que possuíam uma carga central de explosivos, que era detonada, espalhando estilhaços, ao menor toque nos arames de tração a que estavam ligadas; estes seguiam um traçado linear na encosta da elevação. Depois de reconhecer uma casamata circular, com seteiras, desceu o morro, quando lhe falou o sargento de Infantaria, Comandante da patrulha: "Cabo, daqui você vai até aquela casa, onde os seus companheiros colocarão minas. Segue este cabo partizan como seu companheiro". Partizans eram os patriotas italianos que cooperavam com as tropas aliadas. "Seguimos na direção indicada; forneci granadas ao meu companheiro, e chegamos a um local, onde as casas, todas, foram bombardeadas; de súbito, caiu um torrão em minha cabeça. O que será ? Assustei-me. Depois, constatei que eram pombos que estavam de sentinela naquela casa... Entrei e vi, num canto, uma mesa e 5 galinhas. -"Partizan, veni qua". O companheiro veio e também viu. - "Unas galinhas. Bono, cercato la". Cercamos as galinhas; saltei em cima e peguei duas. Mas que zoada as outras fizeram! - "Escapato?" diz o partizan. - "Sim, sim", respondi, mas as duas estavam morrendo nas minhas mãos.- "Non, non", diz o partizan. "Enforcato?" - "Niente lavoro com galinha, capito?", disse para cortar o assunto. - "Que se já?" disse o italiano. - "Espetaremos qui". E assim ficamos esperando muito tempo. Já estava ficando impaciente, pois tinha esquecido da senha. Olhei para o lado das nossas linhas e vi quatro vultos. Falei ao partizan: - "Espetare qui, que me io andar via a encontro, capito?" - "Capito", respondeu. Parti em direção aos desconhecidos, protegendo-me de suas vistas; quando estava a uns 20 metros, pulei na frente, com a pontaria feita e dedo no gatilho. - "Quem é lá?" - "Saúde. Saúde", responderam. Eram soldados padioleiros, que foram recolher os cadáveres dos soldados mortos no combate anterior. Fui com eles até ao primeiro: estava ajoelhado, ao lado da estrada; bati no seu ombro: estava coberto de gelo. Trinquei os dentes de raiva. Falei aos meus botões: pode aparecer tedesco até no Inferno! Aproximamo-nos de outro: estava deitado, quase coberto pela neve. Falei aos padioleiros : - "A que distância ficam as nossas linhas?" - "A uns 200 metros". Perguntei sobre a senha e contra-senha. Também não sabiam. - "Azar o meu", pensei. - " A Infantaria sabe da volta de vocês"? - "Sabe", responderam. Disse ao meu companheiro partizan: - "Vamos andare via". De repente, vejo que o chão estava cheio de pegadas; dou alguns passos e vejo o local onde meus companheiros colocaram as minas. Examino uma: era preta! Bolas! Nós tínhamos pintado as minas de branco, logo, elas tinham que ser brancas. Procuro outra: era branca! Felizmente! Seguimos em direção às nossas linhas. Encontrei um arame atravessado, à altura do meu peito; na sua ponta, uma granada de mão! - "Nesta, eu quase caio"! Não muito distante encontramos as nossas linhas, onde um soldado perguntou: - "São patrulha?" - "Sim", respondi. Pedi um pouco de água. Deu-ma, embora parecesse estar desconfiado. Mais adiante, achei minha patrulha e, graças a Deus, estávamos em casa. Encontrei o Tenente Vinhaes que havia colocado minas em dois lugares diferentes, na frente das linhas da Infantaria. Já era alta madrugada e eu estava faminto. O Tenente levou-me de jipe. Foi fazer o relatório ao Capitão e ordenou que lhe fizesse, diretamente, a minha parte. Depois de tudo bem relatado, o Capitão disse ao Tenente: - "Dê uma lata de biscoitos e uns maços de cigarros a essa cambada." "Santas palavras", digo eu com meus botões. E assim terminou a narrativa da "curriola" do Cabo Bibiano, segundo suas próprias palavras. Apenas esqueceu de dizer onde deixara as galinhas aprisionadas.

"Quebra Canela"
Gen. Raul da Cruz Lima Jr.


Rio Pó - Itália. Da esquerda para a direita: Ten. Pacca, Cap. Raul, Cap. Julio, Ten. Asdrúbal.
Devido a grande atividade aérea aliada, os alemães construíam pontes flutuantes sobre o rio Pó, durante
a noite e as desmontavam ao amanhecer. Vê-se o encontro da 1ª margem e, ao fundo, o da 2ª margem.
Imagem escaneada do livro "Quebra Canela" - Gen. Raul da Cruz Lima Jr.

É o 3º Sargento Luiz Ribeiro Pires, morto em Monte Castelo. O seu nome foi citado, com merecido e excepcional destaque na Parte de Combate da 2ª Companhia de Engenharia, com data de 6 de março de 1945. Consta, sob o número 397, da relação dos mortos em combate. Tratava-se de ocupar durante a noite a localidade de Abetaia, por um pelotão do 2º Batalhão do 11º Regimento de Infantaria. Coube ao 6º Pelotão essa arriscada missão. O inimigo dispusera nas casas e circunvizinhanças suas terríveis armadilhas, responsáveis por várias baixas anteriores, que causavam grande inquietação na tropa. Mas era preciso limpar o caminho, inclusive para assegurar a progressão noturna dos carros. A área de Abetaia estava, além de tudo, sob o alcance do fogo adversário. "A noite, para proteção dos trabalhos de acesso, foi limpa de minas a estrada até o entroncamento das de Bombiana e Gaggio Montano". O Sargento Luiz Ribeiro Pires trabalhava na limpeza das casas de Abetaia, quando já a Infantaria e os carros tinham tido o aviso de que a progressão estava livre. Já havia ele vasculhado dois quartos da terceira casa sob inspeção, à procura de armadilha, quando fez funcionar, inadvertidamente, um detonador habilmente disfarçado pelo inimigo. Com grande despreendimento e a preocupação de acelerar a tarefa ingrata que lhe fora entregue, tornou-se vítima do traiçoeiro dispositivo, pagando com a vida a audácia que o impelira, na sua missão de engenheiro, a preservar a vida dos camaradas das outras Armas, para os quais devia abrir caminho, naquelas difíceis circunstâncias. Morreu soterrado sob os escombros de uma casa que não molestaria mais a progressão vitoriosa dos combatentes da FEB. O seu Pelotão teria que passar por tais vicissitudes. Era esse, de vez em quando, o preço caro das missões de acompanhamento, idênticas àquela que cumpria o pelotão do sargento Pires, em proveito do 2º Batalhão do 11º RI, no eixo Abetaia-Castello. Sua bravura e seu destemor, no cumprimento do dever, sobreexcederam a prudência própria dos que sabem que estão arriscando a vida. E ele bem o sabia, tanto que se havia destacado, pelas suas aptidões profissionais. Fora classificado na frente de toda a sua turma, em curso especializado que funcionara, pouco antes, em Dugenta (Itália) , durante o período de trégua defensiva que o inverno impusera às Operações. Trouxera-o o destino, de volta à sua Unidade, precisamente quando estava para ser desencadeado o ataque a Monte Castello. E ele não quis perder tempo em enfrentar as missões arriscadas que haveriam de caber à Engenharia: foi pessoalmente solicitar a sua inclusão entre os que deviam executá-las. Não foi, pois, o destino que lhe deu a glória de ser incluído entre os heróis da Engenharia da FEB. Ele mesmo a procurou. E insistiu em procurá-la, mesmo depois de liberado, com o seu Pelotão, para o repouso necessário, ao amanhecer do dia 21 de fevereiro, depois do intenso trabalho de uma jornada noturna, em limpeza de minas. Era considerado o melhor Sargento da sua Companhia. E trabalhava sempre com a máxima cautela, como conhecedor e perito especializado naquele processo de armadilhas que o inimigo empregou largamente na última guerra. Não se tratava, porém, naquela tarefa noturna que reclamara para si, apenas de preservar a sua vida contra a surpresa fatal de um dispositivo bem disfarçado. O que predominava no seu espírito, já fatigado da vigília estafante da noite anterior, era a missão a cumprir. E o tempo era limitado para cumpri-Ia. O mais importante era, para ele, abrir o caminho para a Infantaria e os carros, que deveriam progredir e ocupar Abetaia. Já eles tinham tido o sinal de "área limpa". Valia menos o risco de vida do engenheiro que o atraso da missão da tropa atacante, cujos elementos deveriam ser poupados a uma surpresa mortal, como aquela que terminou por vitimá-Io, no dia 21 de fevereiro de 1945. No dia seguinte foi possível descobrir, sob os escombros da casa destruída, o corpo inerte e inanimado do heróico Sargento Luiz Ribeiro Pires. Estava despedaçado pelos efeitos da explosão da armadilha alemã. O engenho mortífero da Engenharia inimiga impusera um pesado tributo à Engenharia Brasileira, mas não a impediu de cumprir a sua missão. Apenas comprovou o espírito de sacrifício e o desassombro com que os nossos engenheiros sabem cumprir o seu dever, diante do perigo. O Sgt Pires é um exemplo disso. Exemplo a ser recordado e exaltado, com respeito e com orgulho, por todos os que integram a Arma de Engenharia, sempre que seja relembrada a sua atuação gloriosa na Força Expedicionária Brasileira, durante a Campanha da Itália.

"História da Arma da Engenharia - Capítulo da FEB"
Gen. A. de Lyra Tavares


Frente de Monte Castelo - Após o inverno, formatura da 2ª Cia/9º BE, em Crociale,
para a entrega de condecorações e certificados de ferimento em combate a seus componentes.
À frente o Cmt do 9º BE, Cel. Machado Lopes, com oficiais do Batalhão
Imagem escaneada do livro "Quebra Canela" - Gen. Raul da Cruz Lima Jr.

A ENGENHARIA EM AÇÃO

Com obstáculos estabelecidos pela Engenharia e pelas próprias tropas, foi executado o Plano de Defesa da Divisão, elaborado por seu Estado-Maior, em íntima ligação com o Engenheiro Divisionário, que é o Comandante do Batalhão de Engenharia. Com a chegada do inverno, uma nova missão nos esperava: o Plano de Remoção da neve. Não podíamos deixar a neve acumular, sob pena de ser cortado, inteiramente, o tráfego nas estradas das montanhas. A Engenharia dos escalões superiores era dotada de máquinas especiais de remoção, porém, nós dispúnhamos apenas do bulldozer e de umas plainas improvisadas. A maior parte do trabalho era feita à mão, com largo emprego de areia e telas metálicas, que aumentavam o atrito dos pneus das viaturas, sem o que rolariam morro abaixo, de nada adiantando os freios. Por esse motivo, o nosso trabalho aumentou muito, enquanto outros companheiros podiam, em parte, beneficiar-se do mau tempo. Impunha-se um trabalho persistente, para que o tráfego jamais fosse impedido. Usamos de vários artifícios, até explosivos, para quebrar a camada de gelo, mas a solução estava mesmo no trabalho manual; as pás e as picaretas chegavam a partir ante a dureza do gelo. O esforço continuado obrigava as praças a tirarem os agasalhos, trabalhando sem camisa, no meio da neve o que causava admiração aos transeuntes, afundados em grossos abrigos e sob carapuças de lã. O frio tornava-se insuportável durante as nevascas; um vento cortante fustigava quando em movimento a viatura. O nariz e as orelhas eram os que mais doíam, apesar dos esforços em protegê-los. De volta aos estacionamentos, onde os aquecedores de campanha mantinham uma temperatura aconchegante, o aquecimento tinha que ser lento e gradual, para evitar dores nos ossos, principalmente nos dedos, com o restabelecimento da circulação. Nesta emergência, o sacrifício dos soldados de Engenharia foi dos maiores, talvez somente superado pelos infantes de sentinela nos seus rústicos e improvisados buracos de raposa. Sob este aspecto, fomos muito auxiliados pela Engenharia americana dos escalões superiores; aliás, é a regra da boa doutrina. Como se sabe, o apoio de uma Engenharia a outra, é dado por uma linha-limite de seus trabalhos, denominada LATE - Linha Avançada de Trabalhos de Engenharia, que como o próprio nome indica, limita até que linha a Engenharia de Corpo de Exército deve levar seus trabalhos à frente. Por exemplo: durante os ataques, esta linha avança para liberar a Engenharia Divisionária dos trabalhos à sua retaguarda, permitindo-lhe dedicar-se aos trabalhos mais avançados, à medida que o ataque progride. Esta oscilação é determinada, judiciosamente, pela Engenharia do escalão superior que, também, coloca à disposição do escalão subordinado -no caso o divisionário - materiais e equipamentos necessários ao bom desempenho das suas missões. Por exemplo: as pontes Bailey, que seriam construídas, eram depositadas ao pé da obra por Unidades de Pontes, no momento exato, para a Engenharia divisionária realizar o lançamento, o que muitas vezes era feito sob o bombardeio inimigo. Por esse motivo, durante todo o inverno, a Engenharia do IV Corpo de Exército avançou mais para dentro do nosso setor, aliviando-nos a tarefa, para que pudéssemos nos dedicar mais às estradas não asfaltadas que subiam os morros, que deveríamos manter em trânsito, a todo custo, não obstante o mau tempo e as borrascas de neve. Isto cumprimos durante toda a estação invernosa. Realizado o Plano de Barreiras e mantidas as estradas, restava-nos aprimorar e complementar a instrução, naqueles pontos onde notaram-se insuficiências do preparo técnico. A Divisão também aproveitou a fase de estabilização para instruir sua tropa. Dentro deste quadro, coube à Engenharia dar instrução sobre minas e armadilhas aos seus próprios elementos e às tropas de Infantaria. Enviou novas turmas para a Engineer School, situada em Dugenta - sul da Itália - para aprimorar seus conhecimentos na prática de Pontes e Minas, principalmente os novos modelos de minas plásticas que os alemães vinham empregando e que superavam totalmente o detector eletromagnético. Tal acontecimento sobrecarregou de forma extraordinária a ação dos mineiros. Antes, era suficiente passar os detectores; agora, eram praticamente abandonados. Tudo teria que ser feito, furando o chão com o sabre ou com bastões pontiagudos, para chegar ao contato das minas plásticas ou de madeira. As primeiras eram de uma engenhosidade infernal: todas as peças excluíam a presença de qualquer metal, até os seus detonadores eram químicos; cápsulas que, quando misturadas, explodiam. Além dos problemas já existentes, isto veio criar outros, de suma gravidade no que diz respeito até que ponto deveria, ou poderia, a Engenharia atuar em relação à tropa de Infantaria. Que sua instrução sobre o assunto era mais completa, não havia a menor dúvida; porém, até que ponto devia ser explorado é que provocou conflitos de interpretação. No front italiano, principalmente com a estabilização da frente, os alemães tiveram tempo suficiente para minar todas as regiões mais indicadas, inclusive substituindo seus efetivos pelas minas, inimigo invisível e tão mortal como o outro. Posteriormente, encontramos regiões praticamente ocupadas só por minas de todos os tipos: desde as mais rústicas, feitas de concreto, cimento ou madeira, até às mais sofisticadas, que eram as plásticas. Elas poupavam tropas de ocupação efetiva que, a distância, as batiam com seus fogos. Surgia, assim, um problema delicado: até quanto era lícito exigir o sacrifício das tropas de Engenharia, em proveito da progressão da Infantaria ? A doutrina indicava o emprego da Engenharia em trabalhos de remoção de minas, no interesse geral da Divisão ou do Regimento de Infantaria; devia abrir passagens em proveito do ataque, permitindo, principalmente, o fluxo de viaturas ou de carros de combate nas regiões de ruptura das frentes, onde a densidade de campos minados fosse maior. Teoricamente estava tudo certo, porém, na hora do ataque e da progressão, muitas vezes a coisa se complicava, gerando conflitos de jurisdição. Não se pode exigir que a Artilharia bata, com seus fogos, regiões fora de seu alcance; seja em distância, seja nos ângulos mortos, pois que foge às características de suas trajetórias. Há, assim, a impossibilidade técnica, que não pode ser questionada, e que termina quando ela declara esta circunstância. A situação poderá, então, ser remediada, substituindo-se o fogo pelo de outras armas mais indicadas para o caso. Já com a Engenharia, sob o aspecto da impossibilidade técnica, o argumento ficava sujeito à compreensão, maior ou menor, do problema apresentado. Concluídos os trabalhos imprescindíveis ao ataque, não só pela Engenharia de apoio, como pelos Pelotões de Minas dos Regimentos, a sorte do combate estava lançada, dependendo, principalmente, do combatente de Infantaria que, pela grande massa, representa sua força impulsora. A tropa de Infantaria não pode ficar na dependência da tropa de Engenharia para socorrê-la, ao topar com minas que são encontradas no decorrer do combate. Também deve ser objeto de apreciação sensata a simples informação de que o ataque não pode prosseguir por causa das minas. Sem dúvida, há, no combate, fases críticas que deverão ser solucionadas pelo escalão de ataque, com o sacrifício de vidas, o que é lamentável, mas que constitui uma decorrência normal da guerra. Portanto, não deve ser exagerado o problema, terrível sem dúvida, dos campos minados, pois todo o combatente é treinado para se defender e se proteger delas. As minas constituem um perigo permanente para o combatente de todas as Armas e Serviços, sendo objeto de instrução generalizada para toda a tropa. Por isto tudo é que o Batalhão de Engenharia encarregou-se de aperfeiçoar esta instrução no âmbito da Divisão, sem prejuízo da instrução ministrada pelos quadros das demais Armas.

"Quebra Canela"
Gen. Raul da Cruz Lima Jr.

Um Herói nunca morre!

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