FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

 

 


Oficiais da FAB, inclusive os médicos, a bordo, quando se dirigiam dos Estados Unidos para a Itália.
Na primeira fila em pé, terceiro da esquerda para a direita, Maj. Ovídio Alves Beraldo.
Foto escaneada do livro "E FOI ASSIM... que a Cobra fumou" de Elza Cansanção.

OS OFICIAIS

Os clarins da vitória já tinham há muito soado. Apenas seu eco se repetia em nossos ouvidos. Tínhamos vencido, essa era a realidade de que nunca antes duvidáramos. Este livro foi escrito, dedicado ao zero da hierarquia, o pracinha, mas seria injusto se não contivesse um capítulo especialmente dedicado aos oficiais, aos homens que nos comandaram. O pracinha dirá logo: - Chegou a vez dos "estrelas". É justamente sobre os "estrelas" que quero falar. Posso agora fazê-lo de uma posição cômoda. Sou paisano, nenhum laço mais me prende a eles, a não ser a camaradagem respeitosa que me liga a todos os companheiros da FEB. A primeira figura a citar tem que ser naturalmente o ídolo de todos os soldados, o nosso comandante, Coronel Aguinaldo Caiado de Castro. O Coronel Caiado, ainda no Brasil, surpreendeu os soldados com a sua maneira de proceder. Treinou o regimento para uma guerra dura, fizemos muitas marchas forçadas pelos campos do Gericinó e Santa Cruz, em todas elas o primeiro a romper a marcha, a pé como nós, era o Coronel Caiado, e com ele todos os oficiais. Isso talvez pareça extraordinário a um civil comum, mas é que antes no Exército os oficiais iam a cavalo, e nesse treino de guerra o Coronel Caiado fazia que todos passassem pela mesma prova. Se algum dia vierem à luz da publicidade certas passagens da FEB, talvez o público possa bem compreender a ação do Coronel Caiado naquele inesquecível dia 12 de dezembro. Não serei eu, simples soldado naquele tempo, hoje um cidadão comum, desligado por completo dos círculos oficiais militares, que tenha a pretensão de dizer algo mais do que já foi dito em capítulos anteriores. Só aquele capítulo daria para um livro inteiro, a história do "absurdo de Bombiano". Nem todos os leitores deste livro compreenderão esta minha frase, mas todos que participaram dessa operação terão entendido perfeitamente o que eu quis dizer: - "Nem mesmo Bombiano quebrou a fibra e perturbou a serenidade do Coronel Caiado." Acho sinceramente que esse é o melhor elogio que posso fazer ao homem que me comandou em terras estranhas. Eu, simples pracinha, reconheço que nesse dia 12 de dezembro, um título de chefe foi mais merecido do que nunca. Nesta lista de estrelas deve, naturalmente, vir logo em seguida o Coronel Samuel Pires, subcomandante do regimento. Era o oficial que tratava da parte administrativa do regimento, e uma vez assumiu o seu comando em pleno front enquanto o Coronel Caiado era chamado para outro lugar. Isto é uma outra história, como diria Kipling... O Coronel Samuel, com o seu jeito calmo, de homem fino e educado, às vezes nem parecia militar, e o Coronel Caiado devido à sua posição de mando não podia em absoluto transigir. O Coronel Samuel tinha sempre uma dose de boa vontade e tolerância para cada caso. Se com o comandante a gente se perfilava todo, disposto a cumprir a ordem dada, mesmo com risco da própria vida, com o subcomandante Samuel, já às vezes tinha vontade de algum dia esquecer a disciplina e perguntar quando aquilo tudo acabaria, quando voltaríamos para casa. Todos os dois eram igualmente humanos, se um pelos deveres do cargo tinha que ser duro, sem no entanto jamais se esquecer de que também éramos seres humanos, uma das suas grandes qualidades, o outro, mais perto da tropa, dava a impressão de compartilhar de todas as suas aflições e sofrimentos. Dos comandantes de batalhão, havia o Major Uzeda do 1º Batalhão, que tinha tal mania de ordem e limpeza que em véspera de qualquer batalha seu batalhão mais parecia preparado para uma parada. Mas, o espírito combativo era o mesmo dos outros batalhões. Do Capitão Moziul, já tantas vezes referido nestas páginas, nada mais é preciso dizer. Foi meu capitão e meu amigo. O Major Sizeno, esse era o oficial mais popular. Contava-se nas fileiras que um dia pelo telefone ele disse a um general: -"Se meu batalhão continuar nessa posição eu irei para junto de meus soldados morrer com eles." Era bravo e amigo dos pracinhas. Do Coronel Franklin acho que nada se pode dizer que valham as crônicas onde estão registrados os feitos gloriosos do famoso 3º Batalhão do Regimento Sampaio. Lá o leitor verá que aquele batalhão que conquistou os maiores galardões era comandado por um legítimo herói: o Tenente-Coronel Franklin...
No comando do estado-maior do regimento havia o Major Coelho, sem dúvida um dos oficiais mais distintos com quem já trabalhei. Isso no Exército é bem fácil de perceber e sentir. Todas as vezes que minha equipe funcionou como ligação do S-4 (serviço de remuniciamento), nós tínhamos a certeza de que íamos trabalhar com um oficial de quem gostávamos. Isso era para compensar, porque muitas outras tivemos que servir com oficiais de amargar, como os classificavam os pracinhas. Mas era impossível querer que todos fossem finos no trato com a tropa; geralmente quanto mais graduado o oficial, melhor ele tratava o soldado. Não podia deixar neste despretensioso livro, que é mais uma história de soldados, de escrever um capítulo especial sobre os oficiais. Eles conosco também sofreram, vários tombaram no campo de luta, e eram dignos da tropa que comandaram. É claro que houve exceções, mas essas caíram no esquecimento. Nós, hoje, ex-pracinhas, não nos lembramos mais daqueles que não souberam nos comandar; mas por outro lado, não esqueceremos jamais de um Coronel Caiado, ou Samuel Pires; um Major Coelho, um Major Floriano, ou do bravo Tenente Moura, comandante do nosso pelotão de reconhecimento, que era o primeiro nas missões perigosas. Lembramos sempre com carinho o subtenente Adalberto, o homem que pagava os nossos vencimentos, e às vezes adiantava do próprio bolso. Do sargenteante Abdon, que era essa mistura impossível de sargento e amigo, uma das melhores almas que passaram pelo Exército. O tempo dirá se o julgamento dos pracinhas foi acertado e se acompanharmos a carreira desses homens, veremos que eles chegarão aos mais altos postos, apesar de tudo. Apesar da FEB ter sido quase esquecida, apesar do serviço de muitos desses homens não ter sido apreciado no seu devido valor, eles vencerão porque têm merecimento, tenacidade e fibra, e porque passaram a prova de fogo.
O Regimento Sampaio, o 1º de Infantaria, se foi considerado tropa de elite, deve muito ao seu comandante e oficiais que souberam honrar as tradições da unidade. Sinto-me perfeitamente à vontade em dizer que nós pracinhas, a maioria civis improvisados em guerreiros, soubemos acompanhar esses homens, não desmentindo jamais a tradição de glórias desse regimento.
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Joaquim Xavier da Silveira
"Cruzes Brancas"

 

Estampas retiradas do site http://www.brasilcult.pro.br/historia/feb/hist04.htm

A FAB NOS CÉUS DA ITÁLIA


Aviadores brasileiros
Imagem do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção

Não podemos deixar de dizer algumas palavras sobre os destemidos representantes da Força Aérea Brasileira que lutaram na Itália, alguns integrados na 1ª DIE, outros na poderosa aviação aliada, de que souberam ser dignos membros. A FAB. enviou ao Teatro de Operações na Itália, uma Esquadrilha de Ligação e Observação, que fazia parte da Artilharia Divisionária e o 1º Grupo de Caça, que era independente da FEB e pertencia ao "350th Fighter Group" (350º Grupo de Caça), grande unidade do "22nd Tactical Air Command" (22º Comando Tático Aéreo), sob as ordens do General Brigadeiro B .W. Chidlaw. A Esquadrilha de Ligação e Observação, ou simplesmente a ELO, era uma pequena unidade mista, composta de um Comandante, que foi o Cap. Av. João Afonso Fabrício Belloc, doze oficiais de Aviação, dez oficiais de Artilharia, dez mecânicos e vinte e duas praças. Os doze oficiais de Aviação foram o 1º Ten. João Torres Leite Soares, 2º Ten. João Ferreira da Cunha Filho, Aspirantes Darcy Pinto da Rocha Campos, Carlos Alberto Klotz, Eduardo Maia, Roberto Paulo Paranhos Taborda, Arnaldo Vissoto, Chafik Bittar, Cornélio Lopes Cançado, Joel Clapp, Francis Forsyth Flemming e Luís José Santos. A princípio a Esquadrilha se localizara em Pisa, mudando-se depois para Pistoia e finalmente para Soviano, próximo ao QG da Artilharia, onde ficou durante a maior parte da guerra. Utilizaram os pequenos aviões conhecidos vulgarmente pelo onomatopaico de "Teco-teco", ou sejam os "Pippers", L 5, que levavam o piloto e o artilheiro-observador. O Teco-teco é um frágil avião de turismo, improvisado em avião de guerra, porém inteiramente desarmado. Voa numa velocidade de 130 a 140 quilômetros por hora, com autonomia de três horas de vôo. Nenhum avião foi abatido, mas eram muito visados pelas armas anti-aéreas e alguns foram atingidos, com pequenas avarias. Quando chegavam perto das posições não eram molestados, pois o inimigo tinha medo de ser localizado. Eles sabiam que o frágil aviãozinho não possuía metralhadoras nem despejava bombas, mas estava em ligação telefônica com o QG e Grupos de Artilharia, para onde contava tudo o que via. A fumaça ou o clarão de um disparo denunciador era localizado com precisão, imediatamente relatado pelo artilheiro do ar ao artilheiro de terra e dentro de alguns minutos choviam as bombas naquela posição. E assim muitas vezes o Teco-teco passava sobre metralhadoras e canhões alemães, que ficavam quietos, encolhidos em suas "camouflagens", esperando que o "abelhudo" se distanciasse. Quando virava as costas, na certa era alvejado. Mas bastava uma rápida manobra do piloto, voltando-se para ver donde vinham os tiros e tudo silenciava. Ninguém desejava ser marcado pelos "olhos da Artilharia". Alguns pilotos da ELO , com alma de bombardeiros, não se conformavam de voar sobre as linhas inimigas, sem armas. De vez em quando levavam granadas de mão e até simples pedras, para mexerem com os alemães. A base de maior atividade da ELO foi durante o inverno, quando o Teco-teco era o principal e, às vezes, único meio de observação do inimigo, dadas as condições de clima e terreno. Houve ocasiões em que se mantinha constantemente um avião no ar, durante todo o dia, fazendo patrulha aérea, regulando os tiros de canhão, observando os movimentos inimigos. Voavam com qualquer tempo, com a neve, com chuva, naqueles desfiladeiros onde havia perigosas correntes de ventos, com densidades diferentes, que brincavam com o Teco-teco. Mas o pessoal não se incomodava e cumpria todas as missões que lhe eram designadas. Depois da guerra os aviadores da ELO tiveram uma grande vantagem com seus pequenos aviões, que passaram a exercer a função para a qual foram criados - o turismo, pousando aqui e ali, vendo tudo o que havia de interessante na bela Itália. O 1º Grupo de Caça foi criado em dezembro de 1943 e dele faziam parte 75 oficiais, seis enfermeiras e 376 praças, num total de 457 pessoas, sob o comando do Ten. Cel. Nero Moura. O núcleo principal de oficiais seguiu para os Estados Unidos em janeiro de 1944, onde durante cerca de dez meses de treinamento na Flórida (Gainsville e Orlando), no Panamá (Base de Aquadulce) e em Suffolk Field, próximo de New York, nossos pilotos receberam completa instrução nos aparelhos P-40 e P-47, transformando-se em perfeitos pilotos de caça. Dos Estados Unidos o Grupo seguiu diretamente para a Itália, no navio francês "Colombie", arrendado para transporte de tropas americanas. Desembarcou em Livorno a 6 de outubro de 1944, instalando-se em um campo vizinho de Tarquínia, onde hastearam a Bandeira Brasileira, no dia 14 de outubro. Foi ai que surgiu o símbolo da FAB na Itália, o famoso avestruz, com seu grito de guerra: "Senta a pua!" Após quase dois meses de permanência em Tarquínia, os aviadores se transferiram para a cidade de Pisa, em cujo aeroporto instalaram sua base, que aí permaneceu até o final da campanha. O "Albergo Nettuno", à margem do Rio Arno, era o melhor hotel de Pisa e nele passaram a morar os oficiais, sendo que as praças fizeram seu quartel em uma casa na margem oposta do rio. As seções administrativas funcionavam no quartel das praças e as técnicas no aeródromo. A par das atividades guerreiras, nosso pessoal da Aviação tinha seus divertimentos em Pisa, chegando a organizar o "Clube Copacabana", que se tornou famoso por suas festas, bastante freqüentadas pela sociedade pisana. A base de operações do 1º Grupo de Caça distava apenas vinte minutos de vôo das posições alemãs, o que facilitava o ataque aéreo. Como os alemães não dispunham pràticamente de aviação na Itália, os "caças" não tiveram oportunidade de exercer sua missão típica, sendo empregados como " caça-bombardeiros", lançando bombas de 500 libras, em bombardeio picado, e metralhando os objetivos em vôo rasante, até esgotar a munição de suas oito metralhadoras. Estradas de ferro, pontes, fábricas, oficinas, depósitos, posições de artilharia, etc., eram diariamente visados pelos nossos arrojados pilotos. Esses alvos eram em geral protegidos pela artilharia anti-aérea inimiga, canhões 88 e metralhadoras, que de vez em quando acertavam nossos aviões. Os Tens. Aviadores John R. Cordeiro, Oldegard Sapucaia, João Maurício de Medeiros, Aurélio Sampaio, Frederico Santos e Luís Lopes Dorneles, cujos aviões foram atingidos pelas metralhadoras anti-aéreas, pagaram com a vida seus brilhantes feitos. Além desses bravos pilotos, faleceram prematuramente, em conseqüência de acidentes em vôo, os Tens. Dante Isidoro Gastaldoni, nos Estados Unidos; Valdir Pequeno de Melo e Rolland Rittmeister, em Tarquínia, na Itália. Tiveram ainda os seus aparelhos abatidos, salvando-se porém, de pára-quedas, os Tens. Josino M. Assis, Ismael Mota, Roberto Brandini, Caps. Teobaldo Kopp e Joel Miranda, Tens. Danilo Moura, Oton Correa Neto, Marcos Coelho de Magalhães, e Armando de Sousa. Muitos desses oficiais tiveram aventuras verdadeiramente empolgantes, após descerem de pára-quedas sobre as linhas alemãs. O Ten. Danilo Moura conseguiu regressar às linhas aliadas, após caminhar duzentas e quarenta milhas e enganar a vigilância alemã, auxiliado em parte pelos "partigiani". O Cap. Teobaldo Kopp conseguiu refugiar-se junto aos "partigiani", na região de Parma, onde ficou até a chegada das tropas aliadas. O Cap. Joel Miranda sofreu uma fratura do braço, ao saltar de pára-quedas e ainda por cima um entorse do pé, apesar do que ainda pode fugir aos alemães e se esconder junto aos "partigiani", nas vizinhanças de Pádua, onde se tratou e permaneceu até o fim da guerra. O Ten. Roberto Brandini sofreu um ferimento do crânio, por estilhaço de granada, sendo operado pelos médicos alemães, indo, após várias peripécias, terminar em Bolzano, nos Alpes, donde foi recuperado. O Ten. Marcos Coelho de Magalhães na descida de pára-quedas teve fratura dos tornozelos, sendo recolhido a um hospital próximo de Reggio Emília, onde foi encontrado pelos aliados. Os Tens. Josino Maia de Assis e Oton Corrêa Neto sofreram as agruras dos campos de concentração de prisioneiros, sendo por fim libertados no campo de Moesburg, próximo da fronteira suíça. O Ten. Ismael Mota Pais também andou por vários campos de prisioneiros, indo parar em Stetin, na Prússia, onde foi libertado pelos russos, no final da guerra. Nestas linhas rápidas, não podemos descrever o quanto de sofrimento e heroísmo, de coragem e esforço dispenderam esses valentes brasileiros, para vencer com altivez e dignidade a situação humilhante de prisioneiros dos alemães em retirada. O trabalho executado pelo 1º Grupo de Caça, foi extraordinário e em seis meses de luta seus aviadores voaram 5 465 horas, realizando 445 missões, com 2 550 saídas individuais. A eficiência de seus ataques pode ser avaliada pelos seguintes resultados: 4 442 bombas lançadas, num total de 1 010 toneladas; 1180 200 cartuchos de munição disparados; 850 foguetes lançados; 25 pontes destruídas e 51 danificadas; 3 refinarias de gasolina destruídas e 2 danificadas; 31 depósitos de munição e combustível destruídos e 15 danificados; 19 embarcações pequenas destruídas; 149 edifícios destruídos e 104 danificados; 148 instalações em geral destruídas e 70 danificadas; 85 posições de canhões destruídas e 15 danificadas; 412 cortes de estradas de ferro; 13 locomotivas destruídas e 92 danificadas; 250 carros de estrada de ferro destruídos e 835 danificados; 2 aviões destruídos no solo e 9 danificados; 8 veículos blindados destruídos e 13 danificados; 1 084 veículos automóveis destruídos e 686 danificados; 79 veículos a tração animal destruídos e 19 danificados; um navio danificado. Esse ativo de guerra é motivo de orgulho para qualquer unidade aérea de elite. Se considerarmos porém o estudo comparativo dos feitos da aviação brasileira em relação aos outros esquadrões de "22nd Tactical Air Command", segundo uma estatística daquela importante unidade norte-americana, vemos que, embora o Grupo Brasileiro representasse apenas 5% do total da grande unidade, a percentagem de resultados obtidos foi bem maior, pois nossos pilotos realizaram 85% dos depósitos de munição danificados; 36% dos depósitos de gasolina danificados; 28% das pontes destruídas; 19% das pontes danificadas; 15% dos veículos automóveis destruídos e 13% dos danificados; 10% dos veículos de tração animal destruídos e 10% dos danificados. Os altos chefes militares norte-americanos reconheceram o grande valor do 1º Grupo de Caça Brasileiro e foram pródigos em elogios, dentre os quais transcrevemos o seguinte, do Gen. Robert Israel Júnior, recordando o memorável dia 22 de abril de 1945, durante a Ofensiva da Primavera: "Num mínimo de tempo se tornaram parte vital da guerra aérea contra os alemães na Itália e a eficiência de seu trabalho magnífico e constante atingiu o auge em 22 de abril de 1945; embora mais da décima parte de seu material aéreo se tivesse perdido ou danificado no correr do dia, os destemidos pilotos - alguns dos quais chegaram a voar três missões - constantemente voltavam a martelar o inimigo que se destroçava; e o pessoal de terra, não ficando atrás, executou trabalho sobre-humano, permanecendo a postos desde antes da alvorada até depois do crepúsculo, para manter no ar os aparelhos restantes. O 1º Grupo de Caça e a Esquadrilha de Ligação e Observação, parcela da FAB, pequena em seu tamanho, mas tão grande em seus feitos, foi uma brilhante afirmativa de nossa Aviação Militar e traçou nos céus da Itália um dos mais belos capítulos da Epopéia dos Apeninos.

"A Epopéia dos Apeninos"
José de Oliveira Ramos


O Brigadeiro Nero Moura
Foto escaneada do livro "Senta a Pua" - Rui Moreira Lima

NERO MOURA, O COMANDANTE

Um dia nos reuniu em Pisa, no Clube Senta a Pua, e sem enfeitar palavras nos falou: "Vocês são jovens e os jovens são irreverentes. Eu dei ordem aos sem- vergonhas do Gabinete para não censurarem as cartas de vocês. Pois bem, aqui tenho em mãos quatro fotocópias de cartas que eles me remeteram, em que vocês me criticam acremente. Felizmente o que vocês falaram de mim não me atinge e, por um simples motivo, o que foi dito é profundamente injusto. Vou queimá-las na frente de vocês (e acendeu o isqueiro queimando-as), mas aproveito para Ihes dar um conselho de mais velho e mais experiente também: somente se acusa alguém de alguma coisa se houver provas, se não, o máximo que se pode fazer é pensar, mas pensar baixo. Quero dizer-lhes ainda que vocês não foram traídos por mim, que já proibi que censurassem suas cartas, mas os áulicos estão em toda aparte, e é impossível alguém livrar-se deles. Continuo a pensar de vocês o que já tenho repetido várias vezes: nunca comandei nem nunca convivi com homens tão nobres. E só." E deu por terminada a reunião. Nós nos entreolhamos em silêncio, emocionados diante da lealdade e da atitude digna daquele homem. Eu era o autor de uma das cartas. Senti desmoronar o mundo em torno de mim. Após o incidente, seu tratamento conosco continuou o mesmo. Não mudou de cara nem alterou a rotina. O incidente morreu após a reunião. Com o passar do tempo, verificamos que fomos realmente precipitados em nosso julgamento. Aí está um traço do caráter deste homem. Exerceu o comando sem usar somente os galões. Comandou com o exemplo. A liderança era exercida em terra e no vôo. Quando nos comandava no ar, tínhamos a certeza de chegar ao alvo no minuto certo. Expunha-se ao fogo antiaéreo igualzinho aos seus tenentes. Muitas vezes desci com ele em locais como Casarsa, Isola di Scala e Legnago para realizar ataques rasantes. Os alemães lá em baixo deviam dizer entre eles: "Não atirem que é o Nero..." E realmente não se via nem se ouvia um tiro. Certa vez o Perdigão, nº 3 na esquadrilha, falou pelo rádio, quando ele desceu na região de Casarsa: "Jambock Brown 3, cuidado que isso aqui é Casarsa". - "Jambock Brown 3 estou ciente. E daí? Estás assustado feito coelho? Eles sabem em quem atiram", concluiu brincando. A missão foi realizada no dia 26 de abril de 1945. A. Brown voava com Nero, Rui, Perdigão e Paulo Costa. No regresso passamos na área de Casarsa a baixa altura e, incrível como pareça, não recebemos nenhum tiro. Aliás, nosso Comandante era um sujeito de sorte; por onde passava, os alemães não sacavam as "pistolas" do coldre. Na linguagem de hoje poderia ser chamado de um "cara quente". Realizou 62 missões. Foi distinguido com as mesmas condecorações que receberam seus pilotos. Nos arquivos do Grupo, em Santa Cruz, se ainda existirem os filmes de combate que trouxemos da Itália, os do Comandante Nero Moura chamam a atenção pela precisão do mergulho durante os bombardeios picados e os tiros de metralhadores a alvos terrestres. Foi justo e exigente conosco. A indisciplina de vôo nunca foi tolerada. Dava cadeia no duro. Não há no Grupo uma voz que se erga contra ele. Por escrúpulo, deixou de promover em campanha muitos companheiros do escalão terrestre. Não queria criar problemas com aqueles que fizeram a guerra aqui no Brasil, na defesa de nossas costas. Hoje ele acha que errou. Ao inferno com o escrúpulo! Para se ter uma idéia de como agiu nosso Comandante, basta dizer que não houve nenhum piloto condecorado com a Cruz de Bravura. Preferiu condecorar com essa medalha apenas os mortos em combate. Antes comunicou-nos sua decisão. Concordamos com ele por unanimidade. Mas agora, a frio, acho que alguns de nós mereceram essa condecoração. Dou como exemplo o Menezes, Canário, Lima Mendes, Keller, Goulart, Torres, Joel, Lara, Meirinha, Perdigão, Pessoa Ramos e Lafayette... Há mais. Perdoem-me os companheiros não citados, por deixar de incluí-los nesta relação. É que eu lembro de feitos dos acima alinhados que considero como atos de bravura. Fizeram aquele "algo mais" que me impressionou. Dos falecidos em combate, não há dúvida que todos fizeram jus à Cruz de Bravura. Este o motivo pelo qual o Coronel Nero não recomendou nenhum dos que sobreviveram para receber a Cruz de Bravura. Se desse a todos, os que aqui ficaram poderiam interpretar mal; se fizesse uma seleção, poderia cometer injustiças. Ao terminar a guerra, antes de embarcarmos para o Brasil, havia um crédito para o 1º Grupo de 19 Thunderbolts no Depósito de Nápoles. O Comandante recebeu instruções do Ministro da Aeronáutica para chegarmos ao Brasil voando. Arranjos foram feitos e a USAF concordou em nos entregar os dezenove P-47 em San Antonio, Texas. Decolamos de Kelly Field, Texas, terminando o deslocamento nos Afonsos. Trouxe-nos com segurança. Em cada base que chegávamos, ensaiávamos o show que daríamos no Rio de Janeiro. Durante esse deslocamento aéreo, Nero Moura mais uma vez demonstrou sua liderança. Chegamos ao Rio no dia 16 de julho de 1945. Céu azul! Céu de Brigadeiro! Quem viu o show ainda hoje o guarda na memória.

"Senta a Pua"
Ruy Moreira Lima

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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