FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

Torre de Nerone

 


Comboio da 1ª DIE em Torre di Nerone.
Arquivo Diana Oliveira Maciel

Torre de Nerone era uma região localizada entre Soprassasso e o Rio Marano, sendo Marano uma localidade do Vale do Reno, em cuja proximidade o Regimento Sampaio entrou em linha, ocupando o setor Marano-Riola. Em Nerone, segundo Mascarenhas de Moraes em "A FEB pelo seu Comandante", nos meses de novembro e dezembro, o inimigo realizou vários ataques.

 


Patrulha Brasileira em Torre di Nerone
Arquivo Diana Oliveira Maciel

Todos os febianos que participaram ativamente da Campanha da Itália, durante a 2ª Guerra Mundial, têm em suas memórias este ou aquele episódio que exigiu de cada qual o máximo de suas energias, de cautela, de ponderação, discernimento e sacrifício. A coragem de todos foi posta à prova desde o instante em que se iniciou a travessia do Atlântico e do Mediterrâneo, pois os alemães haviam esparramado uma quantidade acima do normal de minas submarinas em uma grande extensão daquelas águas, expondo o majestoso "General Mann" a enorme perigo durante os quinze dias de viagem que empreendeu do Rio de Janeiro até Nápoles. Vencidos todos aqueles riscos, primeira etapa do compromisso assumido pelo Exército Brasileiro para com as tropas aliadas, agora já em solo italiano, chegou a prova de fogo – o combate ao experiente e resoluto inimigo. O preparo físico, tático e psicológico durou aproximadamente dois meses e, a 15 de setembro de 1944, o 1º Escalão deslocou-se de Hospedaleto para o "front", nas proximidades de Pisa, a fim de substituir o 2º Batalhão do 370º Regimento de Infantaria americano. Durante o trajeto, a travessia do rio Arno foi feita por meio de balsas, pois suas pontes haviam sido danificadas pelos alemães.  Em princípio de novembro (1944), o II Batalhão do 6º Regimento de Infantaria (II/6º RI), da Força Expedicionária Brasileira (FEB), deslocou-se para a região de Porreta Terme e, na noite de 3 para 4, ocupou as posições localizadas nas proximidades da Torre de Nerone, passando o posto de observação (PO) a funcionar precariamente junto ao comando do batalhão em Costa de Áfrico. De imediato foram "agraciados" com rudes bombardeios da artilharia alemã, provavelmente localizada na região de Castelnuovo.  Em meados de dezembro, ainda sob impiedoso frio acompanhado de fortes chuvas, o pelotão de observadores rumou para a Torre de Nerone, localizada na cota 670, um local importantíssimo e sumamente estratégico, mas de enorme perigo por estar completamente desprotegido, exposto aos certeiros tiros dos alemães com fuzis munidos de lunetas. O posto de observação localizava-se num buraco (subsolo) da Torre, escavado durante a noite, com área de mais ou menos quatro metros quadrados, com pouco mais de um metro de altura, mal dando para se mexer em seu interior. As observações eram diuturnas, sem a menor trégua. Durante quase todo o implacável inverno o pelotão permaneceu na Torre de Nerone e, devido às dificuldades de acesso àquele local, de lá deslocava-se apenas uma vez por semana até o posto de comando (PC) do major comandante do Batalhão a fim de suprir-se de ração e água. A água que levava era distribuída para cada um dos companheiros e o conteúdo de um cantil tinha que ser rigorosamente dosado. Do local onde se encontrava o PC (Costa de Áfrico) até a Torre, era mais de uma hora de caminhada devido ao terreno ser escarpado e com um declive de mais ou menos 400 metros. A descida somente era possível depois das 21 horas, quando a escuridão era completa. Nossas patrulhas, morteiros, nossa artilharia pesada e até mesmo nossos valorosos irmãos da Força Aérea Brasileira tiveram um insano trabalho para rechaçar as investidas do inimigo e pressioná-lo para evacuar suas posições no imenso arco montanhoso por ele ocupado: montes Belvedere, Della Torracia, Castelnuovo di Garfagnana e Soprassasso. Do PO da Torre de Nerone mantinha-se constante comunicação com todas as companhias do II Batalhão, que eram rudemente atingidas pela artilharia alemã e que necessitavam saber a procedência daqueles disparos para responderem de imediato com contra-ataques. A vigilância se intensificava a cada chamado com angustiantes súplicas e alucinantes apelos para tentar descobrir a localização dos canhões, bem como das posições das metralhadoras – as célebres "lurdinhas"– dos alemães, metralhadoras estas que tinham condições de disparar mais de 1.200 tiros por minuto! Felizmente, dada a privilegiada localização do PO da Torre de Nerone, conseguiu-se identificar muitas das posições da artilharia inimiga e bloquear suas investidas. A Torre de Nerone foi para o pelotão que durante todo o rigoroso inverno ali permaneceu uma posição das mais perigosas. Mas de lá foi possível controlar a movimentação do inimigo e dos locais onde se encontravam seus canhões. Torre de Nerone foi uma perfeita cobertura para a Divisão Expedicionária Brasileira nos campos da Itália.

Dr. Flávio Villaça Guimarães, ex-combatente
Revista "O Expedicionário"

 


Coluna de Marcha da FEB
Arquivo Diana Oliveira Maciel

Não sei o que pensar, senão que seria ótimo que terminasse essa guerra. Estou no Quartel General e é duro ver os companheiros da nobre infantaria vivendo em "fox-hole", correndo um risco permanente, sofrendo, morrendo. Costuma-se dizer aqui, que só se morre 'na safra'. Há casos de homens que servem à retaguarda e que morrem na primeira vez que vão à frente. Outros que estão sempre expostos ao perigo e vão sobrevivendo. (...) No QG de Porreta, dois tenentes que regressavam da frente, saltaram do jeep e foram atingidos pelos estilhaços de uma granada que degolou também um soldado. Um Sub Tenente que subiu a Porreta, ao passar a ponte foi atingido por uma granada que o feriu e matou o motorista. E, assim, diariamente tomamos conhecimento dos nossos mortos, feridos e mutilados. É a guerra com toda a sua brutalidade. A frente está estabilizada agora, pela segunda vez, não há avanços nem recuos. Ocupamos as posições dominantes que tomamos dos alemães. Mas as patrulhas continuam a sair diariamente e a artilharia a distribuir anonimamente a morte. Entristece-nos saber que no Brasil se diz que estamos aqui passeando, fazendo turismo e gozando a vida. Mas, desta vez podem falar o que quiserem. Nada nos afeta. O moral da tropa é muito elevado. "A cobra está fumando".

Gen. Tácito Theóphilo Gaspar de Oliveira
"Rasgando Papéis - Reminiscências"


Guarnição de um obus 105mm e de morteiro pronta para entrar em ação
Foto escaneada do livro "Eu estava lá!" - Elza Cansanção Medeiros

A Ofensiva Brasileira

A ofensiva do IV Corpo de Exército, preliminar das operações decisivas de abril, deveria realizar-se na segunda quinzena de fevereiro com o concurso da 10ª Divisão de Montanha, americana, e da Divisão Brasileira. Tal operação contaria com o reforço da considerável Artilharia do V Exército e o valioso auxílio da Aeronáutica, inclusive da FAB. Assim, na manhã de 16 de fevereiro de 1945, uma conferência de altos chefes militares se realizou no QG do IV Corpo, em Lucca. Achavam-se presentes nessa reunião os generais Crittenberger, Mascarenhas de Moraes, George Hays e William Crane, respectivamente comandantes do IV Corpo de Exército, 1ª DIE, 10ª Divisão de Montanha e Artilharia do IV Corpo, assistidos por vários oficiais de menor patente. Foram apreciados nessa conferência os pontos mais importantes do ataque conjunto da 1ª DIE e 10ª Divisão de Montanha e combinados os entendimentos entre os chefes dessas duas Unidades. Desencadeou-se a ofensiva do IV Corpo na jornada de 19 de fevereiro. As suas primícias couberam aos valorosos montanheses do general Hays. Iniciou-se o ataque norte-americano às vinte e três horas do citado dia 19. Ao clarear da manhã seguinte, a 10ª Divisão de Montanha tomou de assalto o Monte Belvedere e, em seguida, conquistou o Gorgolesco. Às dezessete horas do dia 20 de fevereiro, conquistou Mazzancana, já bombardeada pelos aviões da FAB, num exemplo inesquecível de união entre os expedicionários do ar e de terra. Às cinco horas da manhã de 21 de fevereiro, a Divisão Brasileira iniciou seu ataque a Monte Castello. Apesar de ter sido detida a Divisão de Montanha diante do Monte Della Torraccia, os brasileiros, apoiados pela sua poderosa artilharia, continuavam a investir contra Monte Castello, que foi dominado por cerca de 17:20 daquele dia. A ação principal do ataque foi executada pelo Regimento Sampaio, coberto, no seu flanco direito, por um batalhão do 11º RI e no seu flanco esquerdo, ligado à 10ª Divisão de Montanha que atacava Monte Della Torraccia. A ação, desde a sua montagem, se desdobrou sob a direção imediata do general comandante da Divisão Brasileira, que dispunha, como reserva geral, de dois batalhões do 11º RI e do Esquadrão de Reconhecimento. Com a captura de tal elevação, escrevera a Força Expedicionária Brasileira o capítulo mais emocionante de sua vida. Monte Castello, resistindo durante três meses às investidas das armas aliadas, erigira-se a cidadela da presumida invencibilidade germânica. Para os Brasileiros, no entanto, representara um símbolo e um marco na vida de nossa tropa em terras de ultramar. Constituiu o índice do valor de nossa gente. Nos dias 23 e 24 de fevereiro teve lugar o encarniçado combate de La Serra, em que se empenhou o II/1º RI, cuja ação vitoriosa encerrou a primeira fase da Ofensiva do IV Corpo. Com um novo reajustamento no dispositivo das duas Divisões, ultima-se a segunda fase da referida Ofensiva com a limpeza do vale do Marano, levada a efeito pelo II/11º RI nas dias 3 e 4 de março. O ataque a Castelnuovo, a 5 de março de 1945, vai-se traduzir em mais uma vitória para o IV Corpo e para a Divisão Brasileira. A operação, preparada e conduzida pelo Chefe Divisionário, consistia, de um modo geral, em dois ataques combinados: o 6º RI progredindo ao longo da crista de Castelnuovo e pelo flanco da posição inimiga; o 11º RI procurando contornar o povoado já referido e cortar a retirada dos contrários pela estrada Castelnuovo-África. Pela madrugada e pela manhã do dia 5, os dois Regimentos conquistaram a sua base de partida e, por volta das 12 horas do mesmo dia, deram início ao ataque, por ordem do IV Corpo. A nossa artilharia apoiou e protegeu brilhantemente o desenvolver da ação. Ao cair da noite de 5 de março, cerca de 19 horas, penetravam vitoriosos em Castelnuovo os primeiros elementos do 6º RI. No dia seguinte, o general Crittenberguer comunicou que cessara a chamada "Ofensiva do IV Corpo", por ordem do V Exército. As forças do V Exército passariam a dispor de esplêndida base para desfechar o golpe final sobre Bolonha. Por sua vez, o IV Corpo liberava as comunicações dos vales do Silla e Reno das vistas e fogos do inimigo. O êxito da Ofensiva do IV Corpo de Exército promoveu um grande entusiasmo das tropas aliadas da Itália.

Marechal Mascarenhas de Moraes
"A FEB pelo seu Comandante"

 


Artilharia da FEB
Arquivo Diana Oliveira Maciel

De Dezembro a Fevereiro o V Exército, a que pertencíamos e que se achava sob o Comando do General Mark Clark, ficou como que estacionado e a sua ação restrita às atividades de patrulhas. Os alemães do alto do Castello dominavam a situação, numa visível superioridade topográfica. As patrulhas lançadas à frente, com a missão de reconhecer o terreno, descobrir posições inimigas ou fazer prisioneiros eram recebidas quase sempre a tiros de metralhadoras ou às vezes os tedescos empregavam o próprio morteiro. Não raras vezes os alemães mandavam também patrulhas às nossas posições as quais se encontravam com as nossas, resultando mortos, feridos e prisioneiros de ambos os lados. O serviço de patrulha é uma das mais penosas tarefas impostas a um soldado na guerra. Geralmente ela se compõe de um grupo de combate constituído de 13 homens, comandados por um 3º Sargento. Casos há em que a patrulha chega a ter o efetivo de 47 homens ou seja um pelotão, comandado por um tenente. A missão é variável; reconhecer o terreno, uma casa, uma localidade, descobrir emboscadas, fazer prisioneiros e pode ser tanto noturna como diurna. O soldado quando integra uma patrulha, seja qual for a missão, torna-se um homem cuja vida, mais do que nunca, está em jogo. O inimigo destaca elementos à frente, atocaiados, camuflados e espera; o manto da noite protegendo-os facilita-lhes a ação. A patrulha vem pelos morros, cautelosa, fuzis engatilhados, ouvidos atentos, passadas curtas, quase vacilantes... É comum, no inverno, a epidemia da tosse; o lenço já está na mão, pronto para abafar o ruído. Coração aos saltos, o homem procura conter a própria respiração e, se é à noite, o ouvido é que mais age, arguto, auscultando sempre. O inimigo, bem abrigado, coberto pelas trevas, armas em posição, aguarda. A patrulha aproxima-se, vem-lhe à boca das armas, cujos canos estão em riste, imóveis, à espera da caçada dantesca. As metralhadoras varrem o terreno e os tiros partem sobre os alvos móveis, os caminhantes da morte. Geralmente alguns são poupados para prisioneiros e fontes de informações; o restante, abatido, é despojado do material, do armamento e das suas próprias vestes. Foi o que algumas vezes aconteceu. Mas, os pracinhas eram intrépidos e não armavam emboscada; iam às barbas dos alemães, arrancavam-nos das furnas, das locas sinistras e tão surpreendedores se tornavam, tão imprevista era a ousadia, que chegavam a encontrar o inimigo em distrações viciosas, jogando cartas de baralho nos esconderijos de descanso.

"De São João Del Rei ao Vale do Pó"
1º Ten. Gentil Palhares

Um Herói nunca morre!

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As Origens
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