FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 

AS PATRULHAS



1ª Divisão de Infantaria da FEB. Uma patrulha em ação nos Apeninos.
"A Intendência no Teatro de Operações da Itália"
Cel. Fernando L. Biosca

Patrulha do Sgt ONOFRE

Foi esta uma das primeiras patrulhas lançadas pela 1ª DIE depois do seu deslocamento para o vale do rio Reno. Embora não esteja compreendida dentro do período que examinamos, decidimos relatá-la tal a beleza da cena e a riqueza dos ensinamentos. Comandou-a o 3º Sargento Onofre Ribeiro de Aguiar, da 5ª Cia do 6º RI, que nessa época ocupava posições na região de Torre di Nerone. Era ele homem disposto e corajoso, consagrado como herói, mercê das suas façanhas anteriores, porém pouco instruído. Seu fuzileiro atirador, soldado Marcílio, era, entretanto, muito inteligente, e também corajoso como ele. Os demais não desmereciam os primeiros, formando um conjunto harmonioso e eficiente. Por volta das 10 horas da manhã de 8 de novembro, partiu a patrulha para o objetivo, tendo à testa o Sargento Onofre. Depois de algum tempo de progressão pela frente da 6ª Cia, deparou-se com uma resistência inimiga situada a 500 m a NE de Torre di Nerone. Tal foi a maneira sutil e habilidosa como progrediu, que não se deixou perceber nem pelos alemães, nem pelas próprias subunidades que se encontravam em posição na região. Ao aproximar-se da referida resistência, o próprio Sargento Onofre verificou que, no seu interior, havia dois homens juntos a uma metralhadora. Sem vacilações, determinou que o atirador ocupasse posições a fim de apoiá-los, enquanto ele, pessoalmente, acompanhado de alguns patrulheiros, iria aprisionar a guarnição alemã com as suas armas e bagagens. Ato contínuo, avançaram sorrateiramente ao encontro do inimigo, apanhando de surpresa os dois contemplativos alemães. Ao retraírem-se com os dois prisioneiros, o inimigo, alertado, procurou detê-los. Todavia, o fuzileiro atirador, atento respondeu prontamente ao fogo contrário, frustrando-lhe a tentativa. Surpresos com a troca de tiros à frente da posição, os observatórios da artilharia e dos morteiros, inclusive o de um GO inglês instalado nas imediações, fizeram desencadear os seus fogos em apoio à patrulha. Desvencilhada do perigo, retirou-se. Mas, ao invés de procurar abrigar-se diretamente atrás da 6ª Cia, que se encontrava próxima, desfilou pela frente da 4ª Cia, indo surgir, surpreendentemente, em Turziano, dando a impressão de que estava desorientada. Graças aos seus méritos pessoais e ao desassombro com que se conduziram nessa ação, o Sgt Onofre foi promovido ao posto de 2º Tenente e o soldado Marcílio ao de cabo. Nesta primeira narrativa nada temos a recriminar, salvo o fato do Sgt Onofre não ter se retirado diretamente para as posições da 6ª Cia, dirigindo-se, incompreensivelmente, na direção de Turziano. No mais, a patrulha agiu com muita audácia, sangue frio e iniciativa, dando mais uma eloqüente demonstração do valor do combatente brasileiro.

"O Brasil na Segunda Grande Guerra"
Ten. Cel. Manoel Thomaz Castello Branco


1ª Divisão de Infantaria da FEB. Uma patrulha em ação nos Apeninos.
"A Intendência no Teatro de Operações da Itália"
Cel. Fernando L. Biosca

Patrulha do Sgt PINHEIRO

Transcorriam tranqüilos os últimos dias do ano de 1944, quando a 8ª Cia do 11º RI recebeu ordens para lançar uma patrulha para C. d'Ercole a fim de observar a crista do espigão que, daí, ia ter ao ponto 1 118 do M. Gorgolesco e à região do colo entre S. Filomena e este mesmo ponto, por onde deveria progredir uma patrulha da 7ª Cia, com a missão de alcançar o já citado ponto, visando: localizar as armas inimigas que hostilizassem a patrulha da 7ª Cia; evitar quaisquer movimentos do inimigo que, a coberto da crista, procurassem envolvê-la; facilitar o seu retraimento, caso fosse ela fortemente hostilizada . A missão coube ao GC do 3º Sgt Nilo Morais Pinheiro, que se fez acompanhar dos seguintes homens: Cabo Cassemiro da Silva, Soldados Lair Teixeira de Souza, Mário Prates Teixeira, Ricardo Fantini, José Manoel Marcos e Aníbal dos Passos. As 14,30 do dia 29 de dezembro, em plena luz do dia, o que mais realça a epopéia destes bravos, a patrulha partiu rumo aos seus objetivos. Atingido C. d'Ercole, depois duma longa caminhada, procurou, para melhor observação, galgar o ponto mais elevado do espigão SE de M. Gorgolesco. Para isto subiu pelo caminho que, de C. d'Ercole, conduzia àquela região. Depois de percorrer uns 150 metros, um dos seus componentes encontrou pegadas recentes na neve, de sapatos ferrados. Alertou os demais elementos e prosseguiu, desviando-se agora a patrulha para a esquerda, seguindo o rastro assinalado. Adiante achou um canivete e mais à frente uma capa com perfurações, indícios concludentes da passagem do inimigo por aquela região ou da proximidade de uma das suas posições. Continuando pelo rastro, que bordejava um pequeno saliente do terreno, desenvolvendo-se quase em semicírculo, um dos homens divisou, então, no meio da vegetação, a seteira de um abrigo coberto com uma lona branca. Alertou toda a patrulha que, cautelosamente, cercou-o. Um dos soldados avizinhou-se da seteira, pelo lado e, com o cano do fuzil, levantou a lona. Dois homens que se tinham postado em frente lançaram, por ela, dentro do abrigo, duas granadas e imediatamente bordejaram-no por um e outro lado, atingindo as proximidades da entrada, de onde ordenaram à guarnição que saísse. Colhido de surpresa, o inimigo não ofereceu reação. Do interior do abrigo saíram imediatamente dois dos ocupantes; em seguida, com insistência, mais dois outros, estando um ferido. Ao se retirarem os dois últimos, o cabo da patrulha procurou vasculhá-lo, quando um quinto elemento, este sargento, avançou ao seu encontro com um canivete na mão. O cabo recuou, metralhando-o, vindo este até à saída do abrigo, onde recebeu segunda rajada, caindo morto. Neste momento, um dos prisioneiros, suboficial, tentou fugir, sendo agarrado por um dos soldados da patrulha que lhe aplicou um "balão", derrubando-o; em seguida, outro soldado o dominou, cessando aí a reação esboçada pelos prisioneiros. Logo após haver morto o sargento alemão, o cabo penetrou no abrigo quando, então, duas metralhadoras inimigas, situadas mais acima, abriram fogo, obrigando a patrulha a retrair-se, conduzindo os prisioneiros e o ferido. Na impossibilidade de remover o material e o armamento, que se achava em seu poder, inutilizou-os. O abrigo em questão era à prova de tiros de 105 mm e se achava localizado, aproximadamente, a 300 metros a SW de C. d'Ercole. Neste exemplo, tudo nos emociona e orgulha, desde o primeiro ao último lanço. Contudo, se meditarmos sobre a finalidade da missão que deveria ser cumprida, verificamos que a patrulha se desviou parcialmente dos seus objetivos. Ao invés de atacar o inimigo no seu próprio abrigo, deveria ter-se colocado, cautelosamente, nas imediações de C. d'Ercole, em condições de apoiar a ação da patrulha da 7ª Cia. Conseqüentemente, ficou prejudicado o emprego desta última, cujo lançamento só se deu na jornada seguinte.

"O Brasil na Segunda Grande Guerra"
Ten Cel Manoel Thomaz Castello Branco



 Apeninos - Estrada 64.
"A Intendência no Teatro de Operações da Itália"
Cel. Fernando L. Biosca

Patrulha do Ten REGUEIRA

De vários pontos da frente já haviam sido impulsionadas inúmeras patrulhas na direção das linhas inimigas, porém, nenhuma delas havia, até então, excedido a do 2º Ten Celio D'Alva Vieira Regueira, do 1º/1º RI, em arrojo e audácia. Compunha-se de dois GC da 2ª Cia e um da 1ª Cia, este último comandado pelo Ten. Carijó, que deveria apoiá-la no decurso da operação. Dez "partigiani" reforçavam-na. Sua missão era atingir o ponto 832 (583.212) e, se possível, o ponto 701 (586.212). Caso não encontrasse inimigo, deveria esforçar-se por estabelecer contacto quer em Casellina, quer em Geleto, devendo partir às 19,10 de 3 de janeiro pelo itinerário Casa M. di Bombiana - Falfare - Senneveglio - Oratio delle Sassane - Cota 832 (583.212), e regressar às 2,50 do dia seguinte. Após uma série de meticulosos preparativos e recomendações, que nunca eram supérfluos, o Ten Regueira arrancou com toda a sua patrulha em busca do contacto com o inimigo. Até Senneveglio tudo transcorreu bem, não havendo qualquer alteração. O Ten Carijó, com um dos GC, permaneceu na margem S do Marano, pronto a apoiá-la em qualquer emergência. Ao aproximar-se de Oratio delle Sassane, o Ten Regueira envolveu esta região com os dois GC que o acompanhavam e, em seguida, vasculhou as pequenas casas que ali existiam. Durante esta operação de limpeza soube, por intermédio de alguns civis, que nas proximidades havia um posto inimigo. Incontinenti procurou deslocar-se até esse local, acompanhado de um deles, que só o seguiu depois de intimidado pelo próprio Ten Regueira. O chefe dos "partigiani", de alcunha Totó, também se negou a segui-lo, alegando tratar-se duma região muito perigosa. Vencidas, porém, essas dificuldades, o Ten Regueira deslocou-se com os dois GC para o local indicado, apoiado pelo terceiro GC. Armados de sabres, facas de trincheira e granadas de mão galgaram, cautelosamente, a crista do espigão do ponto cotado 832, onde estava localizado o posto inimigo, com o civil à frente, seguido do Ten Regueira, Sgt Silla e soldados Amorim, Quintiliano e Temístocles. A pequena distância da posição a patrulha parou, tendo o Ten Regueira ordenado ao soldado Amorim que, em companhia do Guia, a reconhecesse seguramente. Ao chegar às proximidades de uma sentinela o civil, propositadamente ou não, exclamou em altas vozes: Sentinela tedesca! despertando-a. O soldado Amorim, sem perda de tempo, sacou da sua faca de trincheira, entrando em luta, abatendo-a, finalmente. Os alemães que se encontravam nas imediações, prestos correram em auxílio do companheiro, obrigando o soldado Amorim a retrair-se, apoiado pelo Sgt Silla que, por duas vezes, tentou acionar a sua sub-metralhadora, que falhou sucessivamente. Na iminência de perderem a vida lançaram, apressadamente, algumas granadas de mão sobre as posições inimigas, produzindo ferimentos nalguns homens, ao que tudo indicava. O inimigo, tão logo se refez, cobriu a patrulha com cerrado fogo de metralhadoras, "bazookas", submetralhadoras e granadas de mão, ao mesmo tempo que procurou envolvê-la por um dos flancos. Antes de iniciar o retraimento, o Ten. Regueira tentou ligar-se pelo rádio com o Ten Carijó afim de que, com o seu GC, procurasse cercar o inimigo. Entretanto, o rádio falhou, obrigando-o a retirar-se a coberto do grupo de tiro do Sgt Cipriano. Da refrega saíram feridos os soldados Benedito Ramos e João Pedro Amorim. Dirigindo-se ao Cmt do RI, em relatório datado de 7 de janeiro, o Cmt do 1º BI solicitou-lhe a atenção para os seguintes fatos: "A iniciativa, energia e coragem com que o 2º Ten Regueira comandou a patrulha. A ação do Ten Fredimio Trota que, como observador avançado da Artilharia, permaneceu até às 3 horas da madrugada do dia seguinte, atendendo a todos os pedidos de tiro do Cmt do BI, numa sã demonstração de alto espírito de cooperação e de perfeita compreensão da sua função, contribuindo, assim, para o pronto desencadeamento dos tiros de artilharia. A nítida compreensão do dever, a coragem e a iniciativa do 2º Sgt Silla de Aguiar Munguba. O espírito de camaradagem e de desprendimento do cabo Alcides Zaneta e do soldado Ribeiro dos Santos, transportando, sob barragem inimiga, os seus camaradas feridos. A coragem e a perfeita noção do cumprimento do dever do cabo Manoel Aires de Oliveira, permanecendo nas suas funções de Cmt da retaguarda, assegurando a retirada da patrulha, até o último elemento, recolhendo todo o armamento deixado pelos feridos, a despeito do forte tiroteio do inimigo. A coragem e a bravura do soldado João Pedro Amorim, demonstradas quando se lançou sobre o inimigo apenas armado de faca, matando-o". A atuação desta patrulha é um magnífico exemplo de coragem, iniciativa e ação de comando. Informado em Oratio delle Sassane de que os alemães encontravam-se mais além, não vacilou o Ten Regueira em prosseguir no seu movimento em busca do contacto, de acordo com o que estava expresso no texto da missão. Inteligente, prudente e frio, foi simplesmente preciso no cumprimento dos seus deveres, revelando-se mais um velho e experimentado patrulheiro do que um simples e modesto aprendiz.

"O Brasil na Segunda Grande Guerra"
Ten Cel Manoel Thomaz Castello Branco



Oficiais do Estado Maior da FEB em Montese, logo após a tomada da cidade pelas tropas brasileiras.
"A Intendência no Teatro de Operações da Itália"
Cel. Fernando L. Biosca

Patrulhas dos Sgts VIRGULINO e SANTINO

Ao amanhecer do dia 24 de janeiro de 1945, o Cap. Waldir Sampaio, Cmt da 5ª Cia do 1º RI, recebeu, no seu PC, em Lissano, a seguinte missão, transmitida pelo S.3 do 2º BI, via telefônica: "Consta que o inimigo abandonou a frente e retirou-se durante a noite. Em conseqüência, deveis lançar, imediatamente, patrulhas na direção de Castelnuovo e da Cota 720 (Existente a 1 500 m a E de Torre di Nerone)". O Cmt da Companhia ponderou, informando que o contacto havia sido mantido durante toda a noite e que, pela manhã, ainda havia indícios de que o inimigo permanecia na região. Uma vez, porém, confirmada a missão, determinou ao 3º/5ª Cia, em posição na região de Montecavalloro, e ao 3º/6ª Cia, que se achava em reforço à sua Cia, na de Boscaccio, que lançassem cada um uma patrulha, respectivamente, sobre Castelnuovo e Cota 720. Ambas deveriam reconhecer essas regiões. O terreno estava recoberto de espessa camada de neve, a manhã clara e radiante. Após rápidos e incompletos reconhecimentos, partiu o GC do Sargento Santino Assunção para Castelnuovo e o do Sargento Virgulino Loyola para a Cota 720. O observador avançado da artilharia junto à 5ª Cia e o Cmt do Pel de Morteiros da Cia mantiveram-se alertas. Durante o movimento, as silhuetas escuras das duas patrulhas destacavam-se nitidamente do terreno, facilitando a identificação pelos observatórios inimigos. A patrulha do Sgt Santino atingiu facilmente o objetivo, nada encontrando que revelasse a presença do inimigo na região. Todavia, a do Sgt Virgulino, ao ultrapassar a região de Precária, a caminho da Cota 720, foi apanhada por ajustados fogos de armas automáticas e morteiros, partidos de curta distância, matando uns, ferindo outros. O Cmt da Cia, que vinha acompanhando de perto a evolução dos acontecimentos, determinou imediatamente ao pelotão do Ten Deschamps que procurasse acolhe-la, indo ele ocupar posições em Precária, donde poderia perfeitamente desincumbir-se da missão. O deslocamento até essa região fêz-se sem novidades, entretanto, não conseguiu aproximar-se do local onde se encontrava detida a patrulha, devido a forte reação do inimigo. Nesta situação começaram, então, a surgir os primeiros sobreviventes da patrulha do Sgt Virgulino. Uns após outros, ao todo cinco, foram-se incorporando ao pelotão. Quatro, porém, não puderam retornar, permanecendo tombados no campo. Um deles era o próprio sargento. Os três outros, o cabo José Graciliano Carneiro da Silva e os soldados Clóvis Pais de Castro e Aristides José da Silva. Mais tarde, após a conquista de Castelnuovo, realizada a 5 de março, encontraram-se os seus corpos intactos num pequeno e singelo túmulo erigido pelos alemães junto às suas posições na Cota 720, como tributo à valentia e ousadia desses bravos. Sobre a terra fria e úmida, que os cobria, cravaram uma tosca cruz de madeira, com a seguinte legenda: "3 tapfere -Brasil - 24/I/45" (3 bravos - Brasil). O Sgt Virgulino, gravemente ferido, fora recolhido a um hospital alemão, só retornando ao convívio dos companheiros após o término da guerra. O Cmt do BI, ciente dessas ocorrências, determinou que a patrulha do Sgt Santino retornasse às suas posições. O retraimento realizou-se, inicialmente, sem alteração, porém, ao atingir as proximidades de Montecavalloro começaram a hostilizá-la. Prisioneiros alemães feitos posteriormente, informaram que ficaram surpresos e perplexos diante da audácia dos brasileiros ao investirem as suas posições em plena luz do dia. No emprego dessas duas patrulhas há dois fatos que merecem destaque especial. O primeiro prende-se à própria atuação dos homens que, embora certos de que o inimigo se encontrava nas posições, não se intimidaram diante das ordens recebidas, progredindo, durante o dia, pelas encostas frias e brancas do maciço de Castelnuovo, até tombarem sem vida sob o fogo, à queima roupa, das suas armas automáticas. O outro aspecto culminante que, num preito de admiração e respeito pela bravura dos seus adversários, ergueu, junto as suas posições, um modesto túmulo, onde sepultou os corpos sem vida de três gigantes brasileiros: Graciliano, Clóvis e Aristides. Fato idêntico reproduzir-se-ia, frente a Zocca, com os soldados Arlindo Lúcio da Silva, Geraldo Rodrigues e Geraldo Baeta, todos do 11º RI, o que de algum modo destrói muitas das acusações aleivosas assacadas contra os alemães. Nessa nova cruz encontrava-se a legenda: "Drei Brasilianische Helden" (três heróis brasileiros).

"O Brasil na Segunda Grande Guerra"
Ten Cel Manoel Thomaz Castello Branco


Antigo acesso de Silla a Bombiana
"Trinta e Cinco Anos Depois da Guerra"
Agostinho José Rodrigues

Patrulha do Sgt NORALDINO

As 5 horas de 24 de janeiro, saía o 3º Sargento Noraldino Rosa dos Santos, da 7ª Cia do 6º RI, à testa do seu GC, em cumprimento a espinhosa missão. Competia-lhe reconhecer campos de minas existentes entre Roncale e Sta Maria Villiana. Até Le Vigne, localidade situada a meio caminho, tudo transcorreu sem novidades porém, dali para frente as cousas complicar-se-iam porque se impunha o reconhecimento da região de Roncale, particularmente da casa de Boni, muito freqüentada por patrulhas alemãs. Segundo informações colhidas durante o percurso, o Cmt da patrulha soube que, no momento, estava desocupada. Entretanto, por precaução, dispôs os homens nas imediações, enquanto ele, em companhia dos soldados César Helou e Antonio Valentim, foi até à casa da esquerda, afim de reconhecê-la. Do seu interior partiam vozes de mulheres e de crianças, dando a impressão de que não havia realmente alemães na localidade. Enquanto o soldado Valentim postou-se frente a uma das janelas, o Sgt Noraldino e o soldado Helou contornaram-na pelo outro lado e invadiram-na por portas diferentes. Na primeira sala o Sgt Noraldino constatou a existência de vários capacetes de aço e agasalhos de lã, revelando que o inimigo deveria estar ali presente, ao contrário do que lhe haviam informado. O soldado Helou, por sua vez, foi atendido à entrada da outra sala por um soldado alemão alto, forte e louro. Perplexo com a presença do brasileiro, o alemão tentou falar, preferindo, porém, fechar bruscamente a porta, no que foi impedido pelo seu adversário, que o abateu com certeira rajada de metralhadora. Um outro, que se encontrava sentado junto a uma lareira, procurou defender-se, sendo igualmente metralhado. Nesse ínterim, ouviram ruídos de soldados noutros aposentos da casa, bem como nas casas vizinhas, o que os levou a se retirarem em direção às posições ocupadas pela patrulha, logo a seguir batida por fogos de três metralhadoras que ali se encontravam, imobilizando-a ao solo. Fogos de artilharia tentaram desaferrá-la, tendo sido, inclusive, lançado o grupo de combate do Sgt Joel Lopes, em seu apoio, conseguindo, a muito custo, libertar-se daquela difícil situação. Infelizmente, porém, nem todos puderam retornar às suas linhas, ficando tombados na "terra de ninguém" --os soldados Michel Jacob, morto durante a ação, e Djalma Correa, gravemente ferido. Movidos por elevados sentimentos de solidariedade, inúmeros soldados apresentaram-se, espontaneamente, ao Cmt da Cia, para recolher os companheiros, tendo sido organizada uma patrulha de salvamento, composta dos soldados Jorge César Helou, Walter Freire de Moraes, Marçal Marcondes e Firmino Fernandes que, imediatamente, retornou ao local onde se encontravam as vítimas. Após intensa expectativa, conseguiu atingir o seu objetivo, apoiada pela Artilharia e pelo Pelotão de Morteiros do 3º BI, encontrando Djalma Corrêa já sem vida. Cumpre-nos ressaltar, neste empolgante e comovente episódio, o espírito de solidariedade demonstrado pelos amigos de Djalma e Jacob, particularmente de Jorge César Helou que, voluntariamente, se ofereceu para retornar e guiar os seus companheiros nessa nobre e estóica missão. Não obstante os aspectos positivos da atuação da patrulha do Sgt Noraldino, devemos lembrar que não cumpriu integralmente a missão que lhe fora confiada, atingindo, apenas, a região de Roncale, onde havia um campo de minas, reconhecido pelo próprio Guia, durante o entrevero. Não houve erros nem incúria do seu Cmt. Apenas o inimigo reagiu vigorosamente, recalcando-a para as suas linhas ao preço de duas preciosas vidas, crescendo, assim, no reconhecimento e na admiração dos seus chefes e amigos.

"O Brasil na Segunda Grande Guerra"
Ten Cel Manoel Thomaz Castello Branco

 


Bombiana: entrada do túnel asqueroso que atravessava a colina sob o velho cemitério.
Um grupo de soldados prepara-se para partir, depois de consolidada a conquista de Monte Castelo.
"Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira"
Leonércio Soares

"Que troço é esse?!" inquiriu, encostando-se ao barranco, o soldado que saía pela boca do túnel. Carregava fitas metálicas da metralhadora ponto 50, para secarem-se ao sol da manhã do dia 23. Um som fino e cortante assobiou no ar, diferente do sibilar das bombas comuns. Depois de chiar acima dos telhados de Bombiana, estourou no alto. Um estourar menos estridente e mais irradiante. Uma chuva de balins despencou-se do céu, estalando e rebentando as telhas do vilarejo. "São shrapnells!!!..." Gritou um sargento, complementando: "Usem os capacetes de aço e protejam as costas!... " Cinco ou seis vezes os assobios e os estouros se repetiram. "Estranho: é a primeira vez que usam isto contra nós!" Voltou a falar o mesmo sargento. E, também, eram as últimas. As últimas bombas lançadas pela artilharia alemã, na região de Bombiana. Recuavam. Despediam-se dali. Passadas as precauções tomadas com as explosões dos shrapnells, um outro soldado, mirando a retaguarda, do alto do muro do cemitério, avisou, entusiasmado: Vejam!...!...Estão vindo!..." Vinham mesmo. Vinham de muitos caminhos. Caminhavam caminhos que se cruzavam; caminhos que adiante se abriam. Eram grupos; eram bandos. Pareciam uma procissão. Muitas procissões. Muitos romeiros. Saíam das dobras dos montes, do fundo dos vales, de trás das montanhas. Vinham. As estradas se coloriam. Roupas coloridas caminhavam. Vinham devagar. Alguns puxando, presos às cordas, vacas e burros; tangiam cabras e carneiros. Eram os refugiados. Retornavam. Tão logo as últimas bombas caíram sobre Bombiana, eles iniciavam a volta. O front, a guerra, distanciavam-se mais para o norte. Como eles ficaram sabendo disto? Quem os avisou? Intuição ou teriam assistido tudo? Os camponeses iam chegando e se distribuindo, em grupos, pelas estribações e tabuleiros das encostas. Vinham à procura do que restava de suas moradas, de suas chácaras, granjas e pomares. Voltavam à gleba generosa, ao seu pedaço de chão, ainda em tempo de ver o trigo se erguer da terra esburacada por bombas, assim que as chuvas da primavera chegassem. Havia uma triste alegria no rosto daquela gente que retornava. Meninos e meninas corriam, na agitação infantil, pelas colinas. Acenavam as mãos. Anunciavam a volta. Gritavam nomes; diziam coisas: "Giuseppe, Francesca, Anna Paola, Saviano, nós retornamos!" Calçavam sapatões enormes para os pequenos pés: coturnos militares, botas alemãs e combat-boots americanos. Vestiam blusas. Vestiam pedaços de uniformes. As populações de Bombiana, de Roncole, de Gambaiana, de Guanela, de Abetaia, de Vale, de tantos outros aglomerados serranos, estavam chegando. Chegavam. Paravam, por um momento, olhando consternados os estragos ou escombros de suas casas; as ruínas ou as paredes rachadas de suas igrejas, da escola e dos prédios da administração pública. Olhavam, compungidos, o cemitério, com parte do muro demolida e os túmulos de seus mortos arrebentados; os ossos - o sorriso das caveiras - espalhados sobre o solo. Mesmo diante de todas essas calamidades pareciam menos desgraçados do que deveriam estar. Conformavam-se. Reenterrariam os ossos de seus mortos; reconstruiriam as paredes e os telhados das igrejas; retocariam os estragos ou reergueriam de novo as suas casas. Estavam de volta e tinham muito o que fazer. Muito labor os aguardava. Enquanto os refugiados iam chegando, os últimos pelotões, que ali permaneciam, ajeitavam suas bagagens. A guerra os arrastava para mais distante. Iam deixar, enfim, após tantos dias que ali permaneciam, as imundícies, das posições do imundo túnel, aberto, bloqueando o chão do cemitério. No interior da gruta infecta, com a movimentação dos homens revolvendo e retirando seus materiais, agitava-se a intensa umidade sob a qual pairava o pó do mofo e o bafo das podridões de suores velhos e de velhos defuntos, tornando o ar pútrido irrespirável e sufocante. Iam partir. Suportar, haviam suportado da mesma forma que o ser humano suporta até aos extremos as provações, os castigos e as desgraças inevitáveis. Habituar-se, entretanto, a conviver com aquilo, era impossível. Preparavam-se para partir. E, estranhamente, ninguém se mostrava alegre e feliz com a partida. Movimentavam-se, maquinalmente, como seres apáticos e insensibilizados. Sabiam que estavam deixando um lugar asqueroso, mas não alimentavam nenhuma esperança de que coisas melhores os aguardassem adiante. Isto porque, enquanto houvesse guerra, enquanto estivessem marchando para outros fronts, a toda sorte de penúrias e de sofrimentos estariam sujeitos. Trocavam ou transferiam-se de infernos, simplesmente, sem se alegrarem nem se perturbarem com isto. As silhuetas dos homens aviventavam-se saindo do fundo escuro carregados de coisas: de mantas, de bornais, de equipamentos e de armas. Fora, sobre o barranco, estendiam, ao sol da manhã, os panos, as fitas metálicas de munição das metralhadoras, as cartucheiras, os pentes de balas e os carregadores. Estes objetos apresentavam-se umedecidos e embolorados. Era preciso arejar a carga antes da embalagem. "Lembrei-me... tenho algo para nós", disse o sargento Brigido, dirigindo-se para o interior do túnel. Quando voltou à superfície, trazia um embrulho compacto e, aparentemente, pesado. Explicou: "Havia esquecido preso à parede do abrigo. É um queijo e uma pessegada. Ganhei da enfermeira ao deixar o hospital de Convalescentes de Montecattine... Vamos! Reúna o pessoal!", falou, alertando o seu colega Moacir. "Isso não dá para todos. Coma você", retrucou o outro, desinteressadamente. "Dá, sim: uma fatia para cada um...", afirmou Brígido. E, enquanto falava, ia abrindo, com a faca de trincheira, uma caixeta de papelão recoberto de parafina. Dentro da caixeta, envolvida em papel amanteigado, a pasta de um tom esverdeado-escuro do doce, começou a aparecer...aparecendo próxima ao rosto do sargento, ele se ergueu, afastando-a, enojado. Como que chocado, esclareceu: "Isto não cheira o que deveria cheirar!... Perdeu o cheiro original do pêssego! Está cheirando terra! Está cheirando defunto!" Os soldados, em volta, após examinarem, entreolharam-se, confirmando: "Tanto o queijo quanto o doce, não têm cheiro: fedem!" "Veja, você", comentou, num desabafar de amarguras, o sargento Moacir: "Este pacote estava bem acondicionado; ficou apenas uns poucos dias, preso ao barranco, no canto do abrigo onde você dormia, Brigido. E, nesses poucos dias, todo o odor foi alterado, como que alterado também deva estar o próprio conteúdo..." Apanhou um pedaço do queijo e outro da pessegada, esmagando-os nos dedos. Mostrou: "Vê! eles se quebram, se esfarelam, decompostos. Apodreceram!" As palavras do sargento deixavam transparecer uma profunda repulsa por tudo que o rodeava. Indagou: "E nós, então?! como deveremos estar? Há mais tempo enfiados nesta terra, sem a proteção de um invólucro de papelão parafinado e sem estarmos enrolados em papel impermeável, estivemos, diretamente, em contato com a terra! Estamos com as roupas e o corpo impregnados do bafejo do cemitério, do bafejo de morte que irá nos acompanhar para o resto da vida!"

"Verdades e Vergonhas da Força Expedicionária Brasileira"
Leonércio Soares

Um Herói nunca morre!

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As Origens
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