FORÇA EXPEDICIONÁRIA BRASILEIRA

 




Navios Brasileiros Torpedeados
Quadro escaneado do livro
"Eu estava lá"
Elza Cansanção Medeiros

Os alemães, herdeiros dos mais aguerridos povos, que desde a Antiguidade atuavam como bárbaros, e mais recentemente com a rigidez dos militaristas prussianos, não podendo conter as suas características bélicas, tentaram reviver as aventuras de 1870 e 1914. Para realizarem seus sonhos de dominar o mundo, contaram com a presença, em suas hostes, de um carismático megalômano austríaco, de origem judaica, Adolf Hitler. A presença daquele fanático, possuidor de um inegável poder de liderança de massas, à frente do governo da Alemanha, começou a inquietar os povos democráticos. A derrocada da Alemanha em 11 de novembro de 1918, com o término da Primeira Guerra Mundial, foi uma humilhação muito grande para os germânicos. Limitações impostas à Alemanha feriram o orgulho nacionalista e reacenderam os sonhos de retomada da posição de grande potência mundial que perdido em 1918. Vindo de soldado, Hitler se agigantou no cenário político e fundou o Partido Nacional Socialista. Como chanceler de Hindemburgo passou a adotar soluções drásticas, como o desligamento da Alemanha da Liga das Nações em 1933. Quando foi formado o gabinete de Von Papem, tendo como chefe Adolf Hitler, o III Reich foi implantado! Hitler passa a se intitular "Führer". De posse do poder, começa a fechar os partidos políticos, exceto o Nacional Socialista. Investe também contra os sindicatos, que passam a ser vigiados pela Gestapo. Inicia a perseguição aos intelectuais, judeus, religiosos, cientistas, direitistas, socialistas de esquerda, comunistas e a todas as minorias raciais. A partir de 1936, a Alemanha tornou-se uma ameaça à paz mundial, passando a desrespeitar compromissos assumidos e a trair os seus aliados da véspera. Todos estes desmandos passaram a preocupar os outros países, pois não se poderia prever o caminho que ela escolheria para atingir seus objetivos. Intensifica-se então o período de conquistas com a invasão da Polônia a 1°de setembro de 1939. Firmando o "Pacto de Aço" com Hirohito e Mussolini a 7 de abril de 1939, as tropas italianas invadem a Albânia, objetivo estratégico que passou a servir de base ao Eixo Berlim - Roma - Tóquio. Esta união com aliados de tanto valor veio complicar ainda mais a situação e ampliar a extensão do conflito. A América do Norte vê o perigo avizinhar-se e, em 1938, durante a Conferência Internacional de Lima, firma o acordo da Política de Boa Vizinhança, com todas as nações do continente, inclusive o Brasil. Até então estavam todos assistindo passivamente as derrotas sofridas pela França e o desespero da Inglaterra para sua sobrevivência. À medida que na Europa a situação evoluía, os compromissos assumidos nas Américas tornavam-se mais sérios. Elas procuravam manter uma posição de neutralidade de acordo com o espírito de Monroe: "América para os americanos". De início se mantiveram em posição de defensiva neutralidade, mas a posteriormente tiveram que reagir. O Pan Americanismo se fortalece através das conferências de Havana, do Rio de Janeiro e de Buenos Aires, onde os países signatários assumem o compromisso de que "todo atentado de Estado não americano contra a integridade ou inviolabilidade do território, contra a soberania ou independência política de um Estado americano, será considerado como ato de agressão contra os Estados que assinam esta Declaração". As vitórias do eixo eram retumbantes e, baseado nisto, em 1941 o Japão ataca traiçoeiramente os Estados Unidos em Pearl Harbour, deixando em pânico os povos do continente. Surge então em 1942, a primeira declaração conjunta dos aliados da América, na qual se comprometiam a empregar todo o seu potencial contra o eixo. Foram 26 os signatários, entre eles o Brasil. Entretanto, na realidade o que vimos foi que só o Brasil cumpriu rigorosamente o compromisso, cedendo de imediato as bases no nordeste para facilitar as comunicações com a África. O fato de nos termos engajado a fundo no sistema continental irritou os alemães, que em contrapartida deram início às represálias, desencadeando uma ação devastadora sobre nossa Marinha Mercante. A 15 de fevereiro de 1942, foi atacado o primeiro navio brasileiro e nenhum outro país sul-americano se manifestou. Pudemos comprovar isso pelo caso do cruzador alemão Graaf Spee, que abasteceu e fez reparos na Argentina, país simpatizante dos alemães. A partir daquela data os alemães passaram a torpedear nossos navios mercantes, num total de 33, além de uma barcaça. Perdemos no mar 975 vidas e mais de 117 000 toneladas, ou seja, cerca de 25% da tonelagem de arqueação de nossa Marinha Mercante. Enquanto a guerra se desenrolava na Europa e na África do Norte, pudemos manter uma certa tranqüilidade, mas com os sucessivos ataques aos nossos navios e a atuação da "quinta coluna" aqui no Brasil, os brios do povo se alevantaram, tornando-se impossível manter a população tranqüila. A reação eclodiu de norte a sul mostrando que os brasileiros, apesar de pacifistas, não são cordeirinhos, no momento oportuno reagem. O gigante, que estava adormecido, despertou. A opinião pública reagiu. A juventude foi para as ruas em comícios, exigindo o revide do Presidente Getúlio Vargas. Nossa soberania havia sido atingida! O Brasil, país pacifista por natureza, pois a única vez que se empenhou em uma guerra externa foi contra o Paraguai e apenas em defesa de seu território, foi arrastado pela conflagração européia não só pelos vínculos de solidariedade continental, mas também em revide às agressões diretas e indiretas feitas pelos nazi facistas. Premido pela população e pelos acordos assinados, Getúlio Vargas se viu obrigado a declarar no dia 22 de agosto de 1942, primeiro, o "Estado de Beligerância", e só em 31 de agosto de 1942 foi finalmente declarado "Estado de Guerra". A vingança dos alemães não tardou. Intensificaram os torpedeamentos. O submarino italiano Leonardo Da Vinci matou muitos brasileiros e foi na realidade o primeiro a atacar um navio nosso, seguido de um verdadeiro enxame de submarinos alemães, U-432, U-94, U-162, U-502, U-156, U-203, U-66, U-155 (este afundou dois navios) e U-507 que foi o maior assassino de brasileiros. Sob o comando de Harro Schacht, este submarino pôs a pique 5 navios e 1 barcaça, mas foi posto a pique por um de nossos aviões da base de Aratu. Continuando o desfile de submarinos em nossa costa, tivemos também o U-514 e o U-170 que afundaram 2 navios nossos, os U-516, U-163, U-518, U-513, U-590, U-185 e U-161 afundaram um navio brasileiro cada, e o Barbarigo, de nacionalidade italiana, esteve aqui três vezes, sendo que nas duas primeiras afundou um navio brasileiro de cada vez e ao retornar pela terceira vez foi atingido. O Archimedes, outro submarino italiano, esteve aqui e foi afundado pela nossa aviação, próximo ao Atol das Rocas. Encontram-se no fundo do mar, bombardeados por nossa aviação, os seguintes submarinos: U-164, U-507, Archimedes, U-128, (recentemente encontrado a 10 milhas da costa de Lagoa Azeda-Alagoas) U-590, U-513, U-662, U-598, U-591, U-199, U-161, U-604. Embora sem soçobrarem, foram também atingidos o Barbarigo, italiano, e nos dias 26 de agosto de 1942, 05 de abril de 1943 e 08 de maio de 1943 outros submarinos cujos números não possuímos. Toda a nação brasileira empenhou-se na guerra de uma forma ou de outra. A interrupção do tráfego naval e a carência quase total de rodovias que ligassem o norte ao sul fizeram com que os produtos de primeira necessidade fossem racionados. A falta de gasolina fez com que fossem engendradas novas alternativas, como o gasogênio e o álcool, mas mesmo assim os transportes eram escassos. A dificuldade em conseguir açúcar e farinha de trigo criou as filas, que até hoje proliferam para qualquer coisa. Toda a população brasileira, de uma forma ou de outra, deu a sua contribuição para o esforço de guerra e pagou o seu tributo. A participação efetiva em ato de guerra, entretanto, esteve a cargo das três Forças Armadas e da Marinha Mercante, que apesar de todos os reveses, continuou no tráfego para o abastecimento, algumas vezes comboiada e outras não, enfrentando os perigos sozinha. Nossa Marinha de Guerra era insuficiente para a vastidão de nossas costas. Em 1° de janeiro de 1939, possuíamos apenas: 2 Encouraçados, 2 Cruzadores, 6 Contratorpedeiros, 2 Contratorpedeiros já descomissionados, 1 Tender de contratorpedeiro sem valor militar, 4 Submarinos, 1 Tender de submarinos, 1 Navio-Escola, 4 Navios na flotilha de Mato Grosso, 2 Navios na flotilha do Amazonas, 3 Navios-mineiros antigos e adaptados, 4 Navios hidrográficos, 4 Navios-tanque , 2 Navios auxiliares que eram ex-mercantes e vários rebocadores. Era somente esta a disponibilidade do Brasil para a defesa de 7 408 quilômetros de costa. Com a efetiva entrada do país na guerra a partir de 31 de agosto de 1942, foram feitos os aprisionamentos de navios inimigos imobilizados nos nossos portos e, através da lei de "lend-lease", a nossa Marinha passou a ser reequipada. Foram criados os seguintes Comandos Navais:
- O do Norte, englobando: Acre, Amazonas, Pará, Maranhão e Piauí;
- O do Nordeste: Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas;
- O do leste: Sergipe, Bahia e Espírito Santo;
- O do Centro: Rio de Janeiro e São Paulo;
- O do Sul: Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul;
- O do Mato Grosso: Bacia Fluvial de Mato Grosso e Alto Paraná.
Com o advento da guerra submarina o perigo aumentou, pois os mesmos poderiam entrar nos portos e torpedear navios surtos. Então foi criada a Defesa Ativa, na qual tomavam parte todas as forças: marítimas, terrestres e aéreas. Para a defesa da entrada da Baía de Guanabara, foi colocada uma rede de aço da Ilha de Villegagnon à Boa Viagem, ficando as fortalezas da Barra encarregadas da maior proteção. No Recife o encouraçado São Paulo ficou amarrado ao molhe externo do porto e em Salvador a proteção era feita pelo encouraçado Minas Gerais coordenada com as baterias do Exército. Para as Ilhas Oceânicas corno Trindade foi deslocado um destacamento de Fuzileiros Navais e coube ao Exército defender Fernando de Noronha. Para Recife se deslocou a Esquadra do Atlântico Sul, comandada pelo Almirante Jonas H. Ingram. Nossa Marinha passou a ser reequipada e nosso pessoal, treinado. Recebemos vários navios que foram de pronto postos em ação. 0 trabalho de comboio foi magnífico. Nunca perdemos nenhum navio comboiado. Nossa Marinha de Guerra também teve perdas. O Vital de Oliveira foi torpedeado pelo U-861 , causando a morte de 100 militares. Quando retornava de uma patrulha, a Corveta Camacuã foi vítima do próprio mar. Ao adentrar a Barra do Recife, uma enorme vaga chocou com a lateral da embarcação e outra com o convés da popa, virando-a imediatamente. Seu comandante faleceu, assim como 1 oficial,1 taifeiro, 7 sargentos e 24 marinheiros. Outra grande tragédia de nossa Marinha de Guerra ocorreu com o Cruzador Bahia no dia 4 de julho de 1945, mas a mesma não ocorreu em conseqüência da guerra, pois para nós ela já havia terminado. Eram 9 horas da manhã quando houve uma pequena parada para o lançamento de um alvo e dentro de poucos minutos teria início o exercício de tiro. Às 10 h foram ouvidos disparos inopinados de metralhadora e em seguida uma tremenda explosão. Um dos projéteis da metralhadora havia atingido acidentalmente as bombas de profundidade que estavam no tombadilho. O navio dispunha somente de 17 balsas. Em cinco minutos naufragou o cruzador que levava 380 homens e as balsas não tinham capacidade para todos, não tinham água suficiente e os alimentos estavam deteriorados. A última esperança era a chuva que não vinha. Aos poucos alguns foram morrendo e outros, enlouquecidos, atiravam-se ao mar. Só depois de 4 dias foram resgatados pelo cargueiro inglês Balfe. De 7 balsas foram recolhidos 33 sobreviventes, sendo cinco agonizantes. De outras 10 balsas foram recolhidos apenas 8. Dos 380 homens, sobraram apenas 36.

"Eu estava lá"
Elza Cansanção Medeiros


Cruzador Bahia, antes da explosão
Foto escaneada do livro "Eu estava lá"
Elza Cansanção Medeiros

Getúlio Vargas, simpatizante do Eixo, não desejava que o Brasil entrasse na guerra ao lado das Democracias. Mas, o povo brasileiro, sobretudo após o afundamento de navios, com o trucidamento de brasileiros, apesar da ditadura do "estado novo", sob a liderança de defensores dos valores democráticos, saiu às ruas, em todo o País, pedindo a declaração de guerra ao nazi nipo fascismo. A mocidade tomou parte ativa naquela batalha admirável. Em Fortaleza, o movimento crescia, dia a dia. Comícios se sucediam na velha e querida Praça do Ferreira e em bairros afastados. Foi o período das denominadas Pirâmides. Era a convocação de todos para fornecerem tudo o que servisse para a indústria de guerra. Tudo isso ocorreu no início da década de quarenta, pois a guerra, como se sabe, iniciou-se em 1939. Em 1942, nossa geração foi convocada para o serviço ativo das Forças Armadas. Os moços que participavam de comícios e passeatas, exigindo a declaração de guerra ao Eixo, foram chamados aos quartéis. A vida de caserna, bem, recordam os convocados, como o cabo Stênio, era dura. A disciplina militar era rigorosa. Na verdade, era melhor discursar nas praças e gritar nas passeatas, que fazer instrução, praticar ordem unida e levar a efeito a terrível maneabilidade... A fuga foi grande. As facilidades surgiram, com os adiamentos de incorporação, além de problemas de saúde. Até que surgiu um aviso do Ministro da Guerra, permitindo o adiamento da incorporação daquele que provasse ser pai, mesmo de filhos espúrios. Não foi pequeno o número de "pais solteiros" que obtiveram a sonhada dispensa da convocação. Na mesma época, foi instalado, em Fortaleza, o N.P.O.R. (Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva), no qual ingressaram convocados que freqüentavam escolas superiores ou que tinham o curso secundário completo. Estes, também, deixaram as fileiras. Aquela convocação se destinava ao preparo de tropa para ser mandada ao território italiano, a fim de ser incorporada às fileiras da Força Expedicionária Brasileira, que integraria o Teatro de Operações do Mediterrâneo. As dispensas noticiadas ocorreram em todo o Brasil, e não apenas no nosso Ceará. Daí a FEB, de modo geral, somente contar com integrantes que se originavam das camadas mais humildes da sociedade. Em São Paulo, Getúlio Vargas teria mandado convocar grupo de moços pertencentes à classe alta, porque os escolhidos combatiam com firmeza (os paulistas, como sabido, nunca engoliram o ditador dos pampas), o "estado novo". Do Rio Grande do Sul, recordo, foi convocado um filho do Oswaldo Aranha, que caíra das graças do seu conterrâneo, a quem servira, desde 1930. Bem recordo, e com muita nitidez, que os convocados apresentaram-se, nos dois quartéis de Fortaleza (23° e 29° Batalhão de Caçadores), no dia 18 de agosto de 1942. Relembro, bem, essa data, pois nela ocorreu o "quebra-quebra", em Fortaleza. O povo, revoltado com o afundamento, no dia anterior, de navio brasileiro, que conduzia uma unidade de Artilharia, no qual morreram muitos cearenses, saiu às ruas, destruindo todos os estabelecimentos comerciais pertencentes às pessoas que, no seu entender, por sua origem racial, eram ligadas ao Eixo. Nós, os convocados, ficamos o dia inteiro nos quartéis, nada assistindo, o que lamentamos. Noticiou-se que o interventor, Prof. Francisco de Menezes Pimentel e a maioria dos seus secretários abandonaram a cidade deixando-a entregue ao furor popular. Não passou muito tempo, o ditador declarou guerra aos integrantes do Eixo. Todos os convocados que permaneceram nas fileiras foram submetidos a instrução rigorosa, certos, todos, de que iriam; mais cedo ou mais tarde, para a Itália. Em outubro de 1944, houve a dispensa de grande número de convocados. Saí do serviço ativo, nessa oportunidade. Recordo, muito bem, a data da minha saída: dia 26 de outubro do ano citado. Mas, o prazer demorou pouco tempo. Nos primeiros dias de dezembro do mesmo ano, ou seja, de 1944, fomos reconvocados. Na ordem de convocação era declarado: "os chamados deverão apresentar-se em três dias, sob pena de serem capturados como desertores"! Sinceramente, não ouvi falar em deserções. Todos se apresentaram nos locais indicados, na respectiva convocação. Aí, teve início a inspeção de saúde. Exames rigorosíssimos. Vieram, inclusive, oficiais-médicos do Rio de Janeiro. Após a inspeção de saúde, ficamos aguardando o dia do embarque para o Rio de Janeiro, de onde seguiríamos para a Itália, como, realmente, ocorreu. É preciso que se esclareça que as unidades militares do Ceará, Piauí e Estados do Norte integraram o terceiro escalão, ou seja, o último. Eu pertencia, então, ao contingente do Quartel-General da 10ª Região Militar. O embarque, pelo que se ouvia dizer, no meio dos soldados, ocorreria a qualquer dia, e à noite. De tal sorte, que fiquei, diariamente, juntamente com os outros companheiros dali, no Quartel-General da 10ª Região, prontos para o embarque. Até que chegou o dia "D"... No dia 24 de dezembro de 1944, no começo da noite, os pracinhas de Fortaleza embarcaram no navio "Itapé". Recordo, bem, que no dia 25, à noite, chegamos no porto do Recife. Naquela cidade, deveríamos aguardar, por três dias a vinda de dois navios que traziam as tropas do Norte (Maranhão, Pará e Amazônia). Em Recife, algo aconteceu que não posso deixar de narrar, nesta pequena nota. Um companheiro de Recife integrava a tropa transportada. Ele servia em Fortaleza e ia, como foi, para a FEB. Esse companheiro, cujo nome era Ivan Conde Ferreira, tinha autorização expressa do Comandante da 10ª Região Militar, para desembarcar no Recife, afim de visitar seus familiares. Pelo que se sabia, os demais viajantes deveriam permanecer no navio, sem o abandonarem um só momento. No dia 26, assim que o navio encostou no porto do Recife, eu me encontrava com alguns companheiros olhando a paisagem, quando chegou um major, cheio de alamares. Apresentei-me, e ele determinou que eu o levasse à presença do comandante da tropa transportada. O Major ingressou na cabine que servia de posto de comando, apresentando-se, como era de seu dever. Fiquei à porta ouvindo a conversa, com grande atenção. O Major, então, afirmou: "Senhor Coronel, o Ex. Sr. General da 7ª Região Militar determina a esse comando que nenhum soldado da tropa transportada deverá descer do navio, pois S. Exa. teme alguma arruaça". O comandante da tropa transportada, que era o Tenente-Coronel Florêncio José Carneiro Monteiro, que comandava o 23º Batalhão de Caçadores, sem pestanejar, disse: "Major, comunique ao seu comandante, que não sou subordinado de S. Exa. não estando sujeito às suas ordens. Pertenço à tropa da 10ª Região Militar, a cujo comando estou subordinado. Como comandante da tropa transportada, darei as ordens que me parecerem pertinente, assumindo, por elas, como chefe que sou, as respectivas responsabilidades. Acrescente, ainda, que não comando tropa indisciplinada. Estamos conversados. Pode retirar-se". O Major saiu rapidamente do navio e foi embora. O comandante mandou-me chamar o corneteiro. Mandou tocar comandantes de destacamentos. E, quando todos chegaram, determinou que autorizassem seus subordinados a deixarem o navio, devendo regressar, nas horas do rancho, os que não fizessem refeição fora, e obrigatoriamente até as 22:00 horas. E, assim, ficamos três dias na bela cidade do Recife. Somente íamos ao navio para comer (aqueles que não tinham dinheiro para o restaurante) e para dormir. Do Recife, após a chegada dos outros dois navios, devidamente protegidos por um comboio, para a defesa contra os submarinos, seguimos viagem, chegando no Rio de Janeiro, no dia 02 de janeiro de 1945.

Raimundo Pascoal Barbosa
Depoimento do livro "O Ceará na Segunda Grande Guerra"
Stênio Azevedo e Geraldo Nobre


Cruzador Bahia da Marinha de Guerra do Brasil, que explodiu quando
regressava de um comboio, logo após ter terminado a guerra.
Foto escaneada do livro "Eu estava lá"
Elza Cansanção Medeiros

 

O Quebra-Quebra
 
Após a notícia de novos afundamentos de navios brasileiros, por submarinos do Eixo, mesmo antes da declaração de guerra feita pelo governo brasileiro, em todo o país ocorreram ataques e depredações aos estabelecimentos comerciais que pertenciam a elementos nascidos nos países inimigos. Em Fortaleza não foi diferente. Em 18/08/1942, empresas como A Pernambucana, Casa Veneza, Bar Antarctica, Café Íris, o escritório de Marino Cunto e outros, foram devastados, aos gritos de “Morra a Itália” e “Morra a Alemanha”.
(...) As empresas e firmas comerciais que tinham algum envolvimento com o Eixo, passaram a publicar notas nos jornais, revelando-se brasileiras, ou compostas em sua diretoria por reservistas do Exército e da Marinha. O jornal “O Estado” registrou algumas destas notas. Em 20/08/1942, em primeira página, a Companhia Ítalo Brasileira de Seguros Gerais fez destacar:  “A Cia. Ítalo Brasileira de Seguros Gerais é GENUINAMENTE brasileira. Os seus acionistas e Diretores são brasileiros industriais e banqueiros de São Paulo, Srs.: Dr. Edgardo de Azevedo Soares, Dr. Alfredo Egydio de Souza Aranha, Dr. José da Silva Gordo e Dr. José Hermínio de Morais. A Filial do Ceará também é constituída de brasileiros, reservistas do Exército e da Marinha e dirigida pelos Srs.: Artur Vieira de Almeida, Mário Câmara Vieira e Edílson Nogueira Mota. A Cia. Ítalo Brasileira de Seguros Gerais, sendo como é, genuinamente brasileira e integrada nos ideais da causa das Democracias, publicamente externa a sua repulsa à tirania eixista e ao ultraje covarde de nossa soberania.” 
O famoso proprietário de restaurante, Ramon Romero, também encomendou uma nota à imprensa, no mesmo dia e no mesmo jornal: “Ramon Romero de Castro, proprietário do popular e conhecido Restaurant Ramon e arrendatário do Excelsior Hotel, torna público que sendo de nacionalidade espanhola se acha, no entanto, há 42 anos no Brasil. Este grandioso país é assim a sua segunda pátria e os atentados torpes e covardes contra bens e vidas brasileiras, levados a cabo pelos nazistas, só lhe causam profunda indignação, motivo porque exprime toda a simpatia e solidariedade irrestrita, ao ínclito Presidente Vargas e às altas autoridades incumbidas de reprimir a ação nefasta dos vândalos do Eixo. O Restaurant Ramon e o Excelsior Hotel não têm em seus quadros de empregados qualquer elemento nascido nos países que ora hostilizam o Brasil.”
Outras empresas como Lojas Brasileiras, Sambra, Sapataria Belém, Casa Raia, Loja “O Gabriel”, e muitas outras, destacavam em notas impressas sua solidariedade ao governo brasileiro. Os europeus de origem judaica, por seu sobrenome marcantemente estrangeiro, também eram perseguidos. Em 25/08/1942, o jornal “O Estado” publicou a nota: “Izaias Kligman, proprietário da Relojoaria Izaias à Rua Pará, 10 avisa ao público que além de ser polonês, reside no Brasil há mais de vinte anos, tendo-o como sua segunda pátria e que é uma vítima das atrocidades do Eixo, pois sua família, inclusive irmãos, foi dizimada pelos bárbaros nazistas.” 
Em 26/08/1942, em função da iminente declaração de guerra, mais uma vez o jornal “O Estado” registrou o cancelamento das comemorações do 11º aniversário do Ideal Club e de seu grande Baile de Gala:  “Ideal Club. A Diretoria comunica aos seus prezados consócios e exmas. famílias que, em virtude da situação criada no país pelos recentes e covardes torpedeamentos de navios brasileiros, o Ideal Club resolveu suspender temporariamente, a realização de suas reuniões dançantes, inclusive o Baile do dia 6 de Setembro próximo, comemorativo de seu 11º aniversário de fundação. Aproveita a oportunidade para tornar público que no seu quadro social não existem elementos naturais de qualquer dos países eixistas. Fortaleza, 25 de agosto de 1942.”

No Tempo do Black-Out 
 
Em 1942, foi realizado o primeiro black-out absoluto, em Fortaleza, apagando-se todas as luzes da cidade, num exercício de comportamento a ser seguido, simulando um ataque aéreo à cidade. A “Gazeta de Notícias” de 17/12/1942, publicou uma nota da Secretaria do Serviço de Defesa Passiva Anti-Aérea, em Fortaleza, datada de 16/12/1942 e assinada pelo secretário, José César Theóphilo de Vasconcelos, com visto do diretor Álvaro Nunes Weyne. Estipulava a nota que, em função do Estado de Guerra, o movimento de Fortaleza deveria ser encerrado às 22 horas; a iluminação pública não seria permitida a partir desta hora, principalmente na praia e centro da cidade. Dentre estas normas do black out, por tempo indeterminado, as que se referiam às residências, afirmavam: “Todas as vidraças, venezianas, etc. externas, deverão ser cobertas com papel ou fazenda preta, ou reforçadas com madeira, de modo que não haja filtração da luz.” Na noite de Natal deste ano, a “Missa do Galo” deixou de acontecer à meia-noite, em função das regras rígidas de iluminação noturna. Em 21/12/1942, o “Correio do Ceará”, anunciou: “Em conseqüência do black out adotado na cidade, pelo Serviço de Defesa Passiva Anti Aérea, Fortaleza quebrará este ano, uma tradição, não realizando as suas missas das 24 horas, em Natal tão a gosto do povo católico, e sempre concorridíssima. A providência porém não prejudicará o povo católico que no dia 25 poderá acorrer em massa para as igrejas, comemorando liturgicamente a data do nascimento de Cristo.” O “Correio do Ceará” de 17/12/1942, noticiou o “imponente baile” de reveillon do Ideal Club: “Prepara-se o Ideal Club para a realização, no próximo dia 31, às 23 horas, do seu tradicional Baile de Ano Novo, grande acontecimento social que congrega os altos círculos elegantes da Terra da Luz. O aristocrático grêmio presidido pelo Sr. João da Frota Gentil, está realizando uma série de importantes providências para que assegurem ao Baile do Ano Novo um êxito excepcional e um sucesso incomum. O Grande Baile de Ano Novo que o prestigioso grêmio diversional cearense realizará no dia 31 de dezembro encerrará brilhantemente as atividades do Ideal Club em 1942. A festa anunciada também assinalará condignamente a entrada do novo ano. O Baile de Ano Novo do Ideal Club terá início no dia 31 às 22 horas e para ele recebemos um convite assinado pelo Sr. João da Frota Gentil, presidente; Francisco Sabóia, secretário; Fernando Pinto, tesoureiro; Raul Cabral, José Meneleu Filho, Antônio Gentil e Meton Gadelha. É exigido para esta significativa festa, o traje a rigor.” O mesmo jornal, em 31/12/1942, anunciou que a festa ocorreria na sede da avenida João Pessoa, em função das leis do black-out, que impediam a iluminação do litoral. Este foi o último baile do Ideal Club nos primitivos salões; o último reveillon nas Damas, celebrado à meia luz.  “Apesar do black-out o Ideal Club realizará hoje à noite o seu tradicional reveillon. Não obstante as exigências rigorosas do black out total a que vem sendo submetida a cidade, desde alguns dias, não sendo permitido a iluminação em qualquer parte, por causa dos perigos que o fato poderia ocasionar, dada a incerteza do momento – não obstante isso, o Ideal Club vai realizar o seu tradicional reveillon da última noite do ano, com todo o esplendor dos anos anteriores. Para isso a sede do clube à Avenida João Pessoa passou por uma adaptação radical para a grande festa de hoje, de maneira que o mesmo, não contrariando as ordens das autoridades, possa se realizar num ambiente inteligentemente preparado, sem deslustrar o brilho do acontecimento, que será como sempre, uma das maiores sensações da temporada social da cidade. Compreendendo o esforço da atual diretoria, que tudo fez para não quebrar uma das mais gloriosas tradições do clube, a elegante família idealista comparecerá em massa ao grande Baile desta noite.” A obrigatoriedade de cumprimento das leis do black-out, permaneceu em vigência até 01/12/1943.

 Em Tempo de Guerra 
 
A guerra continuava. O mundo já tomava conhecimento das atrocidades cometidas por Hitler contra o povo judeu. Em Fortaleza, alguns imigrantes da Alemanha, publicaram no jornal “O Estado”, de 25/08/1943, um telegrama por eles dirigido ao Governo do Brasil, encaminhado ao Interventor Federal do Ceará e datado de 22/08/1943: “Os abaixo assinados judeus fugitivos da Alemanha em virtude da opressão e tirania impostas pelo nefando regime nazista, expatriados e refugiados neste generoso país, vem nesta data, quando se comemora o primeiro aniversário do dia em que a pacífica nação brasileira foi à guerra por agressores bárbaros e covardes, reiterar sua incondicional solidariedade ao Brasil, sua nova Pátria e baluarte da liberdade e dos direitos humanos. Unidos por laços indestrutíveis de gratidão e amizade ao grande povo brasileiro, querem expressar mais uma vez perante a Vossa Excelência, como mais alta autoridade no Ceará, seu apoio irrestrito e o desejo de colaborar sob a preclara chefia do grande presidente Dr. Getúlio Vargas, na luta contra o inimigo comum, o nazi-fascismo, externando ainda o sentir de que o sofrimento da nobre nação brasileira, repercute sinceramente nos corações dos que eram as primeiras vítimas da Alemanha Hitlerista. Viva o Brasil. Alfredo Cohn, Ernesto Goldschmidt, Guilherme Lilienfeld, Henrique Leibholz, Henrique Peltesohn, José Heymann e Otto Scharz.” 

Vanius Meton Gadelha Vieira
"Ideal Clube - História de uma Sociedade"

 

 

Um Herói nunca morre!

Simples História de um Homem Simples
As Origens
Força Expedicionária Brasileira
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Homenagens aos Heróis
Saudade
A vida felizmente pode continuar... 

 

 

 

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