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Cacareco,
um pacato rinoceronte, virou candidato de um bairro paulista que cresceu
demais: Osasco. A história de uma
autonomia (negada) e as 100.000 células para
vereador.
Dos 540 candidatos
que "ofereceram suas vidas em holocausto ao bem-estar público" concorrendo
às 45 cadeiras da Câmara Municipal de São Paulo, somente um - Cacareco -
conseguiu empolgar, de maneira espetacularmente inédita o eleitorado
paulistano. Sem prometer nada (ele não pode prometer: não sabe nem falar),
sem partido político definido - sua legenda poderia ser objeto de
confusões: PC (Partido Cacareco) e alguém ainda acabaria sem visto de
saída para países da banda de cá do mundo - enfim, com sua candidatura
lançada somente alguns dias antes do pleito, sua eleição está garantida. A
soma de seus votos é um recorde nas eleições municipais de São Paulo, pois
Cacareco, sozinho, totaliza muito mais do que a legenda mais poderosa. A
média do seu eleitorado mantém-se firme, com 20 a 30 votos por urna, em
todos os bairros, do mais pobre ao mais rico. Aliás, o fenômeno político
encarnado por Cacareco é algo que somente poderia ser explicado por algum
sujeito muito entendido em dialética: sua candidatura ganhou corpo no seio
da massa, de maneira espontânea, conquistou o restinho da classe média que
ainda não morreu de fome e atingiu as mais altas camadas da burguesia.
Ainda assim, tudo foi tentado contra ele: as "forças ocultas que tentam
combater as correntes populares" investiram, pelos jornais, rádios e TV,
numa campanha ruidosa, com o objetivo precípuo de evitar o ingresso do
"elemento perigoso ao regime" na versão paulista da Gaiola de Ouro. Tal
campanha ficou sem resposta. Cacareco não tinha acesso às fontes de
divulgação. Em compensação, ele também não se aborreceu: continuou sua
vidinha de "playboy" pobre (o tal que não joga damas de nenhum andar, mas
come e dorme e não faz nada). O seu comitê eleitoral continuou funcionando
no Jardim Zoológico de São Paulo, e Cacareco somente se desnorteou quando
um dos seus mais ferrenhos oponentes dedicou todo um editorial à sua
candidatura, no jornal mais conservador da capital paulista. Depois
Cacareco se zangou quando foi intentada (e conseguida) uma solução
extralegal e antidemocrática para sua candidatura: a altura dos
acontecimentos em que eleitor do Cacareco se portava como torcedor do
Santos F. C. - peito estufado e ar de "já ganhou" - as “forças ocultas”
conseguiram que o candidato popular fosse “exilado”, dois dias antes da
eleição, para o Rio de Janeiro. O "golpe" consumou-se na calada da noite,
mas a coisa não foi tão calada assim: sem mais aquela, enfiaram-no num
caminhão. Aí, sim, ele se danou. Ficou perigoso. Não só para o regime, mas
(e principalmente) para quem estava por perto. Mas o "Povo" e as "Classes
Oprimidas" foram magnificamente à forra e concederam, aproximadamente, cem
mil votos a Cacareco. Esse movimento original surgiu, agora se sabe, num
bairro dos mais populosos de S. Paulo: Osasco. Esse bairro crescera e
desejava agora a sua autonomia. Um típico caso de gigantismo. Houve um
legítimo movimento em prol da emancipação de Osasco. Com a proximidade das
eleições paulistas, já subiam a 300 os candidatos do famoso bairro.
Acontece que o Supremo Tribunal repudiou as pretensões dos cidadãos de
Osasco. Daí a reação original: 100 mil cédulas foram impressas e todas com
o nome do popular "Cacareco", como candidato. Afirma-se agora que o
movimento da gente de Osasco atingiu outras ruas e outros bairros. Virou
candidatura nacional. Com isso, Cacareco virou
"excelência".

Pode ser que
ele não chegue a tomar posse, mas se transformou no vereador que mais come
(sem aspas) no mundo. E quando Cacareco voltar do "exílio", o PC (Partido
do Cacareco, repetimos) "terá reservada para ele não uma simples vereança,
mas uma cadeira de deputado".
"O
Cruzeiro" - 24 de outubro de 1959 Texto de NEIL FERREIRA Fotos de
GEORGE TOROK (Do Bureau de "O Cruzeiro" em São Paulo) Música de
Fundo: Cacareco é o Maior Gravação de Risadinha - Carnaval de
1960
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