Café Filho, Presidente do Brasil

 


Café Filho em foto oficial, com a faixa presidencial
Reprodução de foto do livro Do Sindicato ao Catete, 1966, Livraria José Olympio Editora.

 

"Não há palavras que possam descrever a minha emoção. A notícia do gesto de desespero do Presidente da República atingiu-me como um raio. Toda a Nação deve estar, como eu, profundamente traumatizada por esta tragédia sem igual em nossa História. Jamais pensei em assumir a Presidência do meu País, por força de preceito constitucional, em condições de um cunho doloroso e chocante. O Brasil deve por de lado, nesta hora, quaisquer sentimentos políticos ou pessoais, para prestar ao Dr. Getúlio Vargas as homenagens póstumas de que ele é credor, pelos altos e inestimáveis serviços que prestou à Pátria. Sua Excelência não precisava recorrer a uma atitude tão extrema, que o País deve deplorar com a maior consternação. Dirigindo, neste momento penoso, as primeiras palavras à Nação, faço-o com a alma suspensa. Antes de quaisquer outras manifestações de minha parte, quero desde logo assumir o compromisso de empenhar todas as forças para dar aos humildes a proteção que foi sempre a preocupação máxima do Presidente Getúlio Vargas".

Primeira mensagem de Café Filho dirigida à Nação, logo após o anúncio do suicídio de Getúlio Vargas.

 


Ministério de Café Filho. Presentes o Cardeal Dom Jayme de Barros Câmara (à esquerda) e o Arcebispo-Auxiliar do Rio de Janeiro,
Dom Hélder Câmara (de pé, conversando com o General Henrique Teixeira Lott), tratando das providências oficiais para a realização,
no Rio de Janeiro, do Congresso Eucarístico Internacional.
Reprodução de foto do livro Do Sindicato ao Catete, 1966, Livraria José Olympio Editora.

Do Sindicato ao Catete


Relação do Vice-presidente com Getúlio Vargas - O crime da Rua Toneleros

O último Governo de Getúlio de Vargas, de que participei na qualidade de Vice-Presidente da República, atravessou muitas crises que, no entanto, não lhe constituíram exceção ou peculiaridade. O Brasil sempre viveu e vive, antes e depois de Vargas, em periódicas dificuldades e agitações, debruçado na perspectiva de ajustamentos incertos, em busca de soluções que, em fase de tentativas e experiências, arranham e inquietam a sensibilidade social. Nunca pertenci ao grupo de amigos íntimos de Getúlio. Estive ao lado da sua política apenas durante a Revolução de 1930, tornando-me, logo depois, seu adversário constante. Fiquei em 1950 na chapa presidencial que encabeçava, disputando a Vice-Presidência numa composição interpartidária das forças da oposição, após grande resistência dele e de vários dos dirigentes do P.T.B., que me confessaram, inclusive, haver recebido instruções para sabotar, nos Estados, a minha candidatura.(...) Vargas tinha para comigo deferências pessoais, porém prestigiava, não raro, no meu Estado, os meus adversários, o que mostra que não havia entre mim e ele nenhuma sincronização. 


31 de janeiro de 1951. Getúlio Vargas e Café Filho aclamados à entrada do Palácio Tiradentes, antes da solenidade da posse na sede do Congresso.
Reprodução de foto do livro Do Sindicato ao Catete, 1966, Livraria José Olympio Editora.

Na Vice-Presidência, todas as vezes em que manifestava de público a minha opinião, em discursos ou entrevistas, preocupava-me em fixar a linha de orientação que me separava dele. Sempre fiz questão de me conservar independente. Tratava-me o presidente com uma cordialidade elegante e eu procurava corresponder-lhe às cortesias, no interesse do próprio regime. Embora não pertencesse ao quadro dos seus amigos íntimos, creio que lhe dei, no auge do impasse da crise de agosto de 1954, tudo quanto estava ao meu alcance, no sentido de encontrar uma solução. No curso do mandato, nunca subtraí a Vargas a minha colaboração, preocupado em evitar qualquer crise. (...) Na crise de agosto de 1954, movia-me o desejo de propiciar a Vargas um desfecho pacífico e honroso, capaz de abrir caminho a uma política de desarmamentos dos espíritos. Daí a minha iniciativa, em que ofereci a única ajuda de que dispunha: o meu próprio cargo. A última vez que estive com ele foi na antevéspera da sua atitude de extremo desespero. Honrou-me, então, com as demonstrações do seu reconhecimento por minha conduta, não só naquela hora mas também no curso de seu governo. Teve palavras de gratidão e, ao despedir-me, renovou a firme disposição de manter-se em seu posto, com o sacrifício da própria vida. Ninguém lamentou mais que eu o terrível desenlace da crise de agosto de 1954. Depois dos momentos de traumatismo e estupefação que se seguiram à morte do Presidente, não houve quem não se curvasse diante da grandeza trágica do seu gesto, digno dos mais profundos sentimentos de dor e respeito. Pude apreciar de perto a preocupação de Getúlio com as condições de vida das massas trabalhadoras. Perdia-se, porém, nas iniciativas demagógicas influenciadas pelos íntimos. Estou certo de que, se não conseguiu no terreno da política social tudo o que pretendia realizar, não foi por falta de vontade de sua parte. Terá sido em virtude das dificuldades internas e dos reflexos da situação internacional, e pelas influências a que me referi. As dificuldades internas eram, sobretudo, de natureza econômica, a compor uma fisionomia cada vez mais carregada. Não me compete entrar no mérito dos acontecimentos para fazer um julgamento ou apontar inocentes e culpados, na crise de agosto de 1954. Limitar-me-ei a recapitular fatos que são do domínio público e a revelar aspectos inéditos, num subsídio aos depoimentos que já surgiram para a História. Se faço justiça a muitos aspectos da figura de Getúlio Vargas, por havê-los observado de perto e poder, assim, dar o meu testemunho, do ponto de vista político nada me prendia a ele. Eu tinha absoluta liberdade de proceder, e procedi sempre de acordo apenas com a minha consciência. Na manhã de 9 de agosto de 1954, segunda-feira – quatro dias após o atentado da Rua Toneleros – fui procurado ao telefone por Osvaldo Aranha. Desejava o Ministro da Fazenda de Vargas falar-me pessoalmente num encontro urgente. Como a afluência de pessoas, que o superlotava, tornasse o meu gabinete local inadequado, no momento, para uma conversa reservada, prontifiquei-me a ir ter com Osvaldo Aranha no Ministério da Fazenda. Ali o encontrei em companhia do Prof. Edgar Santos, Ministro da Educação e Cultura. Pálido, quase da cor dos cabelos de prata, disse-me à queima-roupa: - A situação é muito grave. Num tom de confidência desagradável, informou: - Aconteceu no Catete uma coisa terrível. Getúlio chamou Gregório à sua presença e o interpelou de maneira tão dura que o preto chorou. Interrompeu-se. Depois, sussurrou: - Tudo indica a participação do chefe da Guarda Pessoal no crime. Até o Getúlio aceita esta hipótese. Imagine... Aranha estava bem informado: íntimo do Presidente, com este palestrara várias vezes nos dias anteriores, no Catete e na casa dos Vargas, à Avenida Rui Barbosa. As notícias eram aziagas, porém Aranha, ao transmiti-las, era o causeur de sempre: versátil, meigo, fértil, homem viajado e vivido, acostumado ao fragor das crises e à voz baixa das combinações. - Tenho um plano capaz de evitar que suceda o pior... - Qual é? – perguntei-lhe, percebendo que ia chegar o verdadeiro (mas disfarçado) objetivo da conferência que promovera. - A fórmula consiste em você entrar imediatamente no exercício da Presidência da República e nela permanecer durante as investigações. - Ótima idéia – aplaudiu o Ministro Edgar Santos, como se já estivesse prevenido. Ponderei-lhes, com desconfiança nordestina: - Estamos diante de uma situação muito difícil, em grande parte agravada pela morosidade das providências. As acusações envolvem o Presidente, alguns de seus amigos e pessoas de sua família. Por fim, discordei reto: - Não, não vejo como possa a minha presença no governo ser uma solução. Além disso... Tencionava perguntar a Osvaldo Aranha: - Assumindo o governo, como poderei punir os membros da Guarda Pessoal e até familiares do Presidente, que é o que, por todas as maneiras, reclama a opinião pública? Não se queria o afastamento de Getúlio porque ele era o Presidente, mas porque, à sombra da autoridade presidencial, fora premeditado e executado um atentado político e estavam sendo apontados como responsáveis parentes seus e sua guardas. Não cheguei a formalizar estas razões a Aranha. Abriu-se a porta do gabinete e entrou, inesperado, José Américo de Almeida, Ministro da Viação, sobraçando uma pasta de couro. Vinha transbordante de papéis e curiosidades. Perguntava pelas novidades, dizendo-se desinformado. Estavam ali o Vice-Presidente e três membros do governo. Era a improvisação não oficial de uma reunião ministerial sincopada. (...) Regressando ao meu gabinete no último andar do Ministério do trabalho, encontrei-o repleto de parlamentares e jornalistas, impregnados de informações sombrias. As apreensões eram cada vez mais densas. Acentuava-se uma crise civil e militar. O motorista Nelson revelara o nome de um participante: Climério, membro da Guarda Presidencial. As diligências desembocavam no Catete, no interior da casa do Chefe de Estado. Depois da interpelação de Vargas, que Aranha me relatara, noticiou-se que Gregório ficou preso no Palácio do Catete e que, destronizado e em desespero, ameaçou suicidar-se. Políticos e militares passavam o dia em reuniões e a noite junto ao rádio e ao telefone, velando em revolucionárias madrugadas. Uma troca de comunicados era como o vento soprar fogo: as autoridades juravam ser implacáveis no apurar o crime e castigar os culpados. Setores das Forças Armadas, da imprensa e de várias entidades exigiam o imediato esclarecimento do fato sangrento. A idéia da renúncia de Vargas ganhava velocidade em certos círculos da opinião pública. A minha ascensão à Presidência despontava intermitente, como um relampejar no temporal. Havia o outro lado da moeda: o perigo de soçobrar regime na ditadura ou na baderna. Logo após o atentado de Toneleros, esperou-se que Getúlio amainasse a cólera pública substituindo o Chefe de Polícia. Lourival Fontes e eu, sugerimos ao Presidente o nome do General Nélson de Melo. A substituição só se fez no dia 10, com uma semana quase de atraso. Em vez de um general, vinha um coronel, Paulo Tôrres, por indicação do Ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, sem vínculo com as oposições e desconhecido fora da caserna. Era o enfermeiro que chegava tarde para operação: o tumor crescera demais. A Guarda Pessoal, constituída em sua maioria de profissionais do crime, fora extinta na véspera. Tombara como uma bastilhazinha sem glória. A sua dissolução tornara-se um imperativo, mas repercutiu de maneira desfavorável ao governo, por uma razão evidente: o ato de dissolução da Guarda era a confissão de que o crime fora arquitetado no Catete. Oficializava-se a conclusão de que havia por trás mandantes graúdos. O crime da Rua Toneleros, como fato policial, poderia ser assim resumido: pensando alvejar de morte Carlos Lacerda, os pistoleiros feriram-no, apenas, no tornozelo, indo as descargas fulminar na calçada o Major Rubens Vaz, da Força Aérea. No dia 11, recebi em campo neutro a visita de Lacerda. Através de um companheiro da Tribuna da Imprensa, Murilo Melo Filho, manifestara ele o desejo de conversar comigo. Respondi que o receberia no Senado. Objetou o emissário que seria preferível outro local. Naquele dia, ia almoçar com Olavo Galvão, diretor do Banco do Nordeste, em cujo apartamento, na Cinelândia, estaria por volta das quatorze horas. A entrevista poderia ser lá. À hora marcada, Lacerda chegou para o encontro. Veio uma cadeira de rodas empurrada por oficiais da Marinha. Não o tinha visto ainda depois do tentado. A palestra foi a princípio sobre as circunstâncias do crime; Lacerda fez, em seguida, uma análise da situação. Estivera com o General Zenóbio da Costa. Conviria – acrescentou – que eu desse a entender àquele oficial, por intermédio de alguém, que o manteria na pasta da Guerra se assumisse o Governo. Assim se abriria a possibilidade de cessar a resistência de Zenóbio em defesa de Getúlio. Neguei-me terminantemente e apresentei a Lacerda as razões da minha discordância. Não daria um passo para chegar ao poder. Nem me interessava a Presidência em condições tão difíceis. Muito menos através de tais expedientes. Acompanhava os acontecimentos. Se estes chegassem ao ponto de uma ameaça incontida às instituições, tomaria uma atitude. Não antecipei a Carlos Lacerda que se tratava da proposta, feita poucos dias depois, no sentido da renúncia de Getúlio juntamente com a minha. Assim nos despedimos. O jornalista saiu como entrara: nos braços dos militares, em meio de uma onda de curiosidade popular. No dia 12, Vargas viajou a Minas Gerais, onde proferiu um discurso inesperado, acusando e desafiando os adversários. - Gostei muito. Vossa Excelência passou de agredido a agressor – disse-lhe Gustavo Capanema, que era líder do Governo na Câmara dos Deputados. A resposta de Vargas ao comentário de Capanema exalava euforia: - Influência do clima. Este ar das montanhas faz bem à gente. Risonho e otimista, o Presidente disse aos jornalistas que não havia crise. Rechaçou a hipótese de ausentar-se do poder, onde se sentia firme e tranqüilo. De volta, ainda no aeroporto, incumbiu Lourival Fontes de me chamar. Iria nada menos que revelar a decisão de transmitir-me o Governo! Foi um lance desnorteador. Havia coincidência com a missão anterior de Osvaldo Aranha, ao acenar-me com o poder. Aconteceu numa sexta-feira 13 de agosto, horas depois da prisão de Alcino, matador do Major Vaz, cuja confissão envolvia Lutero Vargas, o filho mais velho do Presidente. Cheguei ao Palácio do Catete às dezessete horas. Vargas recebeu-me imediatamente e não me deixou falar sobre nenhum assunto, pois assumiu logo a iniciativa da conversa. Lembrou que me anunciara a sua visita à Bolívia. Mas não seria já. Acabava, no entanto, de tomar outra deliberação. - Vou passar-lhe o Governo – disse-me, com desconcertante surpresa para mim. Iria para a sua fazenda. Depois, de lá mesmo, faria a viagem à Bolívia. Em tom de cansaço e desprezo, acrescentou: - Talvez nem volte mais a isto.

 A crise de agosto

Depois da conferência, de manhã, com o líder Capanema e, no princípio da tarde, com os Ministros da Guerra e da Marinha, fui ao Catete. Cheguei ali por volta das 16 horas. Fui logo recebido pelo Presidente, apreensivo mas cordial. Não o deixei tratar de nenhum assunto. Desta vez, assumi o comando da conversa, entrando direto no motivo da visita. Não havia tempo a perder. Urgia uma solução, antes que os ímpetos juvenis da oficialidade mais impaciente e a pressão da opinião pública envolvessem os chefes militares mais serenos, fazendo a tropa sair dos quartéis para a rua. - Se eu fosse Presidente – disse a Vargas, pondo as cartas na mesa – também não aceitaria uma renúncia imposta. Dou-lhe razão. Mas a proposta que lhe trago é diferente. Reclama-se o seu afastamento e prega-se minha ascensão. Pois bem. Vamos sacudir a Nação com um gesto: fomos eleitos juntos na mesma chapa, renunciemos agora juntos no mesmo destino. Será um fato novo, capaz de cortar a agitação. Escolheremos para o governo uma pessoa de sua confiança, com a aceitação de todas ou, pelo menos, das principais agremiações partidárias, a quem caberá a missão de restabelecer a normalidade. O candidato para aquela sucessão temporária não poderia ter uma gestação lenta, natural. Não dispensaria combinações feitas com sentido de rapidez e socorro. E teria de ser um político anfíbio (entre governo e oposição), plástico em meio das forças beligerantes. Tive a precaução de levar engatilhados alguns nomes, como os de Osvaldo Aranha, José Américo, Alberto Pasqualini, Gustavo Capanema, Álvaro Alberto e Mascarenhas Morais, para a hipótese de uma indagação de Vargas a esse respeito. (...) A precaução de levar nomes engatilhados não teve serventia, não chegando eu a mencioná-los, de vez que a conversa não atingiu tal profundidade. - Você falou a alguém sobre esse assunto? – quis saber Getúlio, desconfiado, supondo, talvez, que eu estivesse concertado com algum escalão militar ou civil. - Apenas a três amigos seus: ao Deputado Capanema e aos Ministros da Guerra e da Marinha – respondi. – Não fui à Aeronáutica, porque o seu novo titular não parece ter controle dos comandados. Indaguei de Zenóbio e Guilhobel se estavam em condições de manter a ordem durante a transição, uma vez posta em prática a renúncia conjunta. De Capanema procurei saber se o Presidente dispunha, ainda, de suficiente força parlamentar. De todos esses colaboradores seus, bem como de outros, ouvidos anteriormente, só recolhi impressões negativas. É a razão da minha atitude. Creio que não lhe vale a pena exercer uma autoridade apenas teórica. E há de concordar comigo em que o País não deve continuar assim à beira da anarquia e da guerra civil. Tinha na minha lealdade um escudo a desafiar suspeitas. Getúlio escutou-me, pendurado, pelo olhar, ao teto do Palácio, numa reflexão mímica, que lhe era quase um cacoete ou uma evasão. Insisti. - Como sabe, sou um homem pobre. Renunciando, terei de enfrentar dificuldades até me reajustar. Constrange-me aludir a isto, mas quero demonstrar que procedo no caso unicamente por espírito público, em face dos perigos que rondam o Brasil e comprometem o seu conceito no exterior. Bastará de sua parte uma decisão idêntica, e cessará o tumulto, que já é quase uma insurreição. Em sua fazenda, o senhor desfrutará do descanso que lhe é impossível aqui. - Enganam-se os que me acreditam incapaz de renunciar – retrucou Getúlio. – Estou velho e esgotado. A situação é realmente difícil. Não contesto o quadro que me traçou. Posso largar isto definitivamente. Tinha na voz uma amargura tão intensa, que parecia um pranto seco. Pensou uns segundos e, com ironia, completou: - Irá buscar-me depois uma patrulha da Aeronáutica... - Isso, não! – discordei com veemência. - Em tudo isto há muita paixão. - Uma das condições de nossa renúncia será a garantia de que a sua pessoa ex-Chefe de Estado nada sofrerá. Eu mesmo me encarregarei de obter das oposições e das Forças Armadas este compromisso. Qualquer incompatibilidade pessoal cederá ao imperativo de restaurar a tranqüilidade pública. Vargas era de índole contraditória. Vislumbrando certa receptividade à minha proposta, procurei intensificar a exortação: - Lembre-se: não será uma renúncia forçada, mas espontânea e patriótica. A desordem está aí, como um círculo que se aperta em torno do seu governo, inquietando e parando a administração, com reflexos desfavoráveis em todos os setores de atividades. Ninguém domina os militares em rebelião, a não ser agravando os acontecimentos e provocando derramamento de sangue. Até no Catete já se realizam buscas. É nestas condições que lhe apresento uma fórmula para desarmar os espíritos e proporcionar-lhe um modo honroso de sair da encruzilhada. Ao aludir às buscas no Catete e à repercussão dos arquivos de Gregório, ali encontrados, tinha Vargas uns silêncios consternados, numa expressiva retórica muda. Movia a cabeça, aprovando os comentários que eu fazia e ruminando a tristeza, a revolta e a vergonha que sufocava, mas deixava transparecer nos vincos do rosto. Não me pareceu inútil, ao menos naquele momento, o metralhar dos argumentos. A melancolia em que se encontrava Getúlio, a sua depressão, a dor moral transbordante, as palavras de desalento, tudo indicava que, por sua vontade, não permaneceria no governo. Muito mais que o medo da F.A.B., era talvez a pressão de alguns amigos e familiares que o mantinha prisioneiro do poder que, de fato, já não dominava. (...) A mim, Getúlio não fez segredo do seu desencanto. Mostrara-se comovido, sobretudo ante a alusão à falta de solidariedade de muitos correligionários. Nem parecia o homem frio e insensível do retrato de tantos dos seus biógrafos e intérpretes. Disse-me: - Agradeço-lhe a colaboração. Compreendo a gravidade do momento. Não tenho apego a isto. Depois de ouvir alguns amigos, dar-lhe-ei uma resposta definitiva. Saí dali com a sensação de ter deixado alguém saturado de tudo e de todos. Não fixou prazo. Teve, ainda, jeito de encaixar uma das suas pilhérias. Despedimo-nos. A consulta aos amigos referia-se, por certo, aos parentes mais íntimos e aos poucos colaboradores que ainda lhe restavam fiéis. Sua disposição era claramente no sentido de aceitar a proposta da nossa renúncia. Dentro de algumas horas – pensei – estaríamos ambos sem mandato. Regressei ao apartamento como se já não fosse Vice-Presidente, faltando apenas arrumar ao papéis e tomar as providências finais para desocupar o cargo e anunciar o fato à Nação, numa declaração conjunta. Consolava-me a idéia de que estava prestando um serviço ao País e de que tanto eu como Vargas sairíamos bem da crise.(...) No domingo, 22 de agosto, fui chamado ao Catete. Desejava o Presidente receber-me às vinte horas. Longe estaria eu de imaginar que aquele seria o meu último encontro com o companheiro de chapa da campanha eleitoral de 1950. Cheguei ao Palácio pouco antes das oito da noite. Deixara o apartamento com vários visitantes: uns amigos, outros curiosos, mais ou menos conhecidos, jornalistas e pessoas que, em face dos boatos, jogavam na minha investidura. Recebeu-me apreensivamente o Chefe do Cerimonial, Embaixador João Coelho Lisboa, que me levou ao Gabinete do Presidente. De passagem, vi os jardins e algumas dependências transformados em trincheiras. Havia soldados por todos os cantos, ocultos na semi-escuridão, atrás das árvores, das colunas e dos sacos de areia. Uma praça de guerra, um arsenal. Os ajudantes de ordens e os funcionários moviam-se em incontido nervosismo. Fui informado que Getúlio conferenciava com o Marechal Mascarenhas de Morais. Logo depois, seria minha vez. Fiquei conversando com Benjamim Vargas. Ou melhor: fiquei a ouvi-lo. Estava agitado, de metralhadora em punho. Só falava em resistir até a morte. Em meio do excitado solilóquio de Benjamim, chegou o casal Amaral Peixoto, seguido de comitiva. Alzira Vargas, ao me ver, disparou esta bala envolta em sorriso:
- Como é, já veio assumir? Contra-ataquei, no mesmo tom: - Não, porque estou muito cansado... Seguiu-se um episódio até hoje inexplicado. O Marechal Mascarenhas de Morais, ao sair do gabinete de Getúlio, seu amigo, apertou-me a mão e me disse ao ouvido: - Vai tudo bem... Não compreendi o sentido das palavras de Mascarenhas. Bem? Tudo bem? Como e Por quê? Bem? Para quem? Para mim? Para o País? Para Getúlio? Aquele era o dia mais difícil do processo de agosto de 1954. De manhã, os brigadeiros haviam deliberado exigir a renúncia do Presidente como única maneira de estancar a insurreição. A decisão seria logo depois apoiada pelos almirantes e generais. Coubera exatamente a Mascarenhas trazer a Vargas o ultimato da F.A.B., que, aliás, não fora aceito. A recusa inflamaria ainda mais os ânimos na Aeronáutica, na Marinha e no Exército e o Ministro da Justiça não tardaria a propor medidas extremas: estado de sítio e prisão de chefes militares. Por que, pois, o Marechal Mascarenhas sisudamente leal a Vargas, vinha cochichar-me que tudo ia bem, quando a verdade era o contrário – tudo ia de mal a pior? Tão depressa Mascarenhas saiu, a família do Presidente e seus acompanhantes precipitaram-se ao gabinete em pressurosa arrancada, deixando-me sozinho. Retifico: não fiquei completamente isolado. À minha frente, fazendo-me companhia, avultava, já agora imóvel sobre a mesa, a metralhadora de Benjamim Vargas. Fixei olhar nela e pus-me a meditar. Que significa tal arma, em si mesma e como símbolo, naquele instante? Que representava para mim, para Getúlio, para a Nação? Seria um sinal de segurança do governo? Prenunciaria uma reação sangrenta? Ou teria servido apenas para me recepcionar? Estava engolfado nesses pensamentos, quando o Presidente me chamou, por intermédio do ajudante de ordens. Encontrei-o só. A família saíra por outra porta. A metralhadora ficara esquecida. Vargas acolheu-me com a cordialidade típica de suas maneiras, bem diversa do modo com que eu fora saudado na ante-sala. Delicado e firme, disse-me o Presidente: - Considerei com interesse a sua proposta de nossa dupla renúncia. Reconheço os seus bons propósitos e quero renovar os agradecimentos pelo seu gesto de colaboração; mas prefiro resistir no meu posto. Estou velho. Não tenho o que perder. Preocupado, realista e franco, respondi-lhe: - Lamento sinceramente que não se encontre uma fórmula capaz de beneficiar o País e permitir ao senhor esquivar-se do incêndio inevitável. A agitação está chegando ao clímax. Não há sinais de que o governo consiga manter a ordem nos quartéis e nas ruas. Aparentemente calmo e confiante, com dignidade, Getúlio me declarou: - Os ministros militares me asseguraram que manterão a ordem. Ficarei no poder. Faço questão que crime de Toneleros seja cabalmente apurado. Mais ousado, insisti, ainda que indiretamente, na minha fórmula: - Muito mais que o atentado, os arquivos de Gregório vêm abalando a opinião pública. Estão se divulgando fatos estarrecedores, sem nenhuma contestação. Evitando o último assunto, que envolvia o seu filho Maneco na compra de uma fazenda a Gregório e dando à sua deliberação um timbre definitivo, reiterou Getúlio: - Não renunciarei de maneira alguma. Se tentarem tomar o Catete, terão de passar sobre o meu cadáver. Retomando a palavra, tive a impressão de estar sacudindo um sonâmbulo: - Sua disposição pessoal é digna de respeito. Mas será infrutífera sem o apoio das Forças Armadas. Estas, divididas, não virão defendê-lo. Veja que não há, também, nenhum movimento popular em seu favor. Entre os seus correligionários, o que há é pânico. Getúlio teve uma reação mímica intraduzível. Queimei o último cartucho: - Presidente, todos estão na expectativa... - É, mas eu reagirei – interrompeu-me Getúlio. - Considero cumprido o meu dever nesta conjuntura da vida nacional. Não participarei de nenhuma conspiração que pretenda, de um modo ou de outro, arrebatar-lhe o poder. Uma vez recusada, em termos irrevogáveis, a minha sugestão, está claro que me sinto também desobrigado de renunciar. Caso o senhor deixe desta ou daquela maneira este Palácio, a minha obrigação constitucional é vir ocupá-lo. Em toda a conversa, Getúlio mostrara-se categórico, sem hesitações, afirmativo. Manteve-se assim até o fim: - Compreendo muito bem a sua atitude – disse-me ele. - Vejo que pretendeu cooperar numa solução. Mas daqui só me tirarão morto. O que eles querem é que eu não presida às eleições... Ergui-me e, já de pé, despedindo-me, com uma voz que refletia o malogro do meu esforço, pude apenas saudar Getúlio: - Adeus, Presidente. Ele, com um leve sorriso, retribuiu-me a saudação de partida: - Até logo. Não nos encontraríamos de novo. No tempo de trinta e seis horas, Vargas seria cadáver e eu o seu sucessor na Presidência da República. No Brasil, as coisas não acontecem ou acontecem demais. Na segunda-feira, 23 de agosto, convoquei o Senado para comunicar-lhe as gestões que fizera na tentativa de obter uma solução da crise através da nossa dupla renúncia. A sessão deveria ter sido secreta. Mas tornou-se pública porque vários senadores entenderam que a Nação precisava tomar conhecimento do assunto. O meu discurso de 23 de agosto não foi senão um corolário da atitude em prol da dupla renúncia. É ridículo pretender que o meu silêncio teria influído numa crise das proporções da de agosto de 1954 ou presumir que a sorte de Vargas dependia de um Vice Presidente inerme, num momento em que, segundo depoimento de Lourival Fontes, o problema fora colocado em termos de força material. Ao dirigir-me ao Senado, na tarde de 23 de agosto, os brigadeiros, almirantes e generais já tinham tomado posição contra Getúlio. Nenhum discurso iria alterar o rumo dos acontecimentos. Nem eu tinha por que esconder a minha atitude. Sentia-me, ao contrário, na obrigação de confessá-la. O próprio Getúlio recebeu o meu discurso no Senado sem mágoas e sem hostilidade. Limitou-se a comentar, como me revelou Lourival Fontes: - Precisamos reconquistar o Café. (...) O meu discurso não foi, como muitos queriam interpretar, o clássico tiro de misericórdia. Os tiros fatais ao governo de Vargas e responsáveis pela sua tragédia pessoal foram outros. Começaram os tiros na Rua Toneleros e culminaram no Catete, numa seqüência de fatos que tiveram o testemunho de toda a Nação, não se devendo esquecer o “mar de lama”, de que tanto se queixou o presidente, nem a última conversa deste com o irmão Benjamim, ao verificar que estava deposto. Foi depois dessa conversa com Benjamim, que Getúlio tomou a decisão do suicídio. Atravessou o corredor do Catete, que separava os seus aposentos do gabinete de trabalho, abriu uma gaveta, apanhou o revólver e tornou ao dormitório. Registro apenas para contestar a outra versão de que, cinco dias antes, em 19 de agosto, um ajudante de ordens retirara da mesa de Vargas para o susto de D. Alzira o bilhete que seria o grito de um cadáver: “À sanha dos meus inimigos, deixo o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter feito pelos humildes tudo o que desejava” A uma interpelação da filha sobre tão fúnebre despedida, teria tido Getúlio esta saída: - Não é o que estás pensando... Renunciaria, já me dissera ele, se soubesse que isto tranqüilizaria os brasileiros, permitindo-lhe voltar à quietude de sua fazendo no Rio Grande. Sentia-se exausto, farto e idoso para suportar tanta injustiça. Possuído pela idéia de que se pretendia humilhá-lo, reagiria, me afirmou. Dali só o tirariam morto. Getúlio sempre fora um misantropo, de alma solteira e intransitiva, em que a única réstia era o sorriso meramente epidérmico. A este homem é que fui oferecer a paz e a vida. E a mim ele se revelou, mais de uma vez, saturado do Governo e desejoso de descansar, com tendência até para não retornar mais. Se ele ofereceu o poder ao Ministro da Guerra, que não era o seu substituto legal, evidentemente buscava uma saída. Acontece apenas, que se tratava de um golpe, com todos os seus riscos, enquanto que minha solução seria constitucional e pacífica, sem dúvida bem melhor, pela sua amplitude e pelo seu cunho, do que a sugestão de José Américo na última reunião ministerial, no sentido da reunião isolada, cedida sob pressão. O que eu levava a Getúlio era não só a perspectiva de por fim à crise, mas também a continuidade de sua vida, quando ele falava em resistir. Para isto teria sido suficiente a aceitação da minha proposta. (...) O suicídio fez ressurgir do desgaste a figura de Vargas revestida de heroísmo. Mas até o dia 24 de agosto não houve nenhum movimento político, militar ou popular no sentido de salvá-lo. Tanto não houve, que se viu premido a eliminar-se. E ele, que teve o cuidado de elaborar com antecedência o bilhete do próprio punho e a carta que lhe é atribuída, não deixou uma palavra de gratidão e carinho para os discípulos que depois de sua morte começaram a alardear tanta fidelidade. Qual seria o sentimento de um homem que, ao despedir-se da vida, se lembra dos adversários e se enternece na mensagem aos humildes, mas não dirige uma expressão de reconhecimento e adeus aos que lhe privavam do convívio e lhe defendiam a causa? (...) Era mais de meia-noite de 23 para 24 de agosto. Afluíram à minha casa numerosas pessoas. Entre elas, o Senador Ivo de Aquino, líder de Vargas no Senado. Chamado ao telefone, Ivo voltou com ar alvissareiro e misterioso: - Querem a sua presença no Ministério da Guerra – comunicou-me. A resposta negativa confundiu o senador catarinense: - Mas, Café!? - É isto mesmo, Ivo. Não vou sob pretexto algum. Ao Ministério da Guerra não vou a chamado de ninguém. Ivo de Aquino retornou ao telefone. Falou com alguém. Depois investiu novamente sobre mim, em tom mais inocente: - Bem, um convite para ir a minha casa você aceita, não? - Para que? - Para conversar com uma pessoa. - Posso ir – aquiesci. Tratava-se, agora, de um encontro de cunho particular, em casa de um amigo com a responsabilidade de líder do governo entre os senadores. Atendendo à solicitação do Senador Ivo de Aquino, fui a sua residência. Quase ao mesmo tempo, chegava o General Mendes de Morais. Disse-me que a situação do Governo era extremamente difícil. Falou-me na possibilidade de uma solução constitucional imediata e desejou conhecer os meus pontos de vista, ante a hipótese de assumir o poder. Respondi-lhe que, a meu ver, o Presidente ia tentar reagir, pelo menos num esforço de resistência pessoal. Para mim, o problema só existiria se Vargas deixasse o Governo. Enquanto perdurasse a sua autoridade, eu a acataria. Negava-me a discutir o mais alto posto da República. Ponderei a Mendes Morais. - Getúlio manifestou-me confiança nos seus generais. Não quer sair. Ninguém terá coragem de atacar o Palácio com o Presidente lá dentro. Retrucou Mendes de Morais: - Podemos retirar a guarda militar do Catete e ele fica lá sozinho. Preferi não dar curso à conversa. Compreendendo, talvez, a minha recusa, o General não foi mais longe nas suas gestões. Comunicou-se com alguém pelo telefone e saiu. O que eu dissera a Mendes de Morais, já comunicara a Getúlio, conforme registrei, quando o Presidente recusou a minha proposta da dupla renúncia: vagando, por qualquer forma, o cargo eu iria ao Palácio do Catete ocupá-lo. Esta minha disposição, colocada nos termos acima, declarei-a ao Correio da Manhã, que a publicou em sua primeira edição extraordinária de 24 de agosto de 1954. A recusa de minha proposta desobrigara-me de quaisquer compromissos em relação à minha renúncia. Tanto Ivo de Aquino quanto Mendes de Morais tentaram desmentir alguns pontos de meu depoimento em relação ao episódio do meu encontro com o General na casa do Senador. As tentativas de desmentido confirmaram, porém, no essencial, o meu relato. O General Mendes de Morais confessou que o Governo de Getúlio não tinha mais salvação e que fora convidar-me, em nome das Forças Armadas, para tomar posse na Presidência. Significa isto claramente que a vontade de Vargas já não prevalecia, pois ele estava decidido a não sair do Catete, a não ser morto, o que aliás se confirmou. Ivo de Aquino, querendo construir uma justificação difícil, disse que o General Mendes de Morais me procurou para declarar que “a consumar-se o afastamento espontâneo de Getúlio” eu deveria assumir o Governo... Eu era substituto de Vargas por um imperativo do regime e não pela escolha de qualquer chefe militar, salvo se, pela força, se subvertesse a hierarquia constitucional. “Afastamento espontâneo de Getúlio” não haveria mais, à hora do encontro na residência do líder da Maioria do Senado. O eufemismo corre à conta de uma delicadeza histórica de Ivo de Aquino. O Presidente Getúlio Vargas estava, de fato, deposto. Retirei-me da residência de Ivo de Aquino com a sensação de profundo cansaço. Desejava dormir, mas encontrei meu apartamento mais cheio ainda. Chegavam ecos da sabatina ministerial. Os Ministros tinham sido acordados fora de horas para o último serão. Estavam, inconscientemente, costurando a mortalha de Vargas. (...) Amanhecia o dia 24 de agosto e eu não pudera repousar, emparedado pelos visitantes, que já era multidão – multidão compacta, nervosa, barulhenta. O ensardinhamento humano chegava ao auge. Até o apartamento vizinho, de uns parentes meus, fora invadido. Todo o segundo pavimento do edifício regurgitava. Havia presenças naturais de amigos, jornalistas e curiosos. Mas havia também os adesistas clássicos, os eternos girassóis políticos. Sentia-me cada vez mais exausto, enquanto aumentava a balbúrdia. Mal começava o dia e já era grande, também, lá embaixo, diante do edifício, a aglomeração popular, com as aclamações do estilo. Muitos em meu redor opinavam que já não devia levar em conta o pedido de licença. Considerava superada esta etapa. O que havia – argumentavam – era uma revolução na rua. Diziam que a nota oficial não fora bem recebida nos quartéis. Fazia-me surdo a essas impaciências e instigações. Eu estava dentro dum labirinto de abraços, de sugestões e de aplausos. A multidão queria arrastar-me. Uma parte desejava que eu seguisse logo para o Catete – evidentemente um absurdo. Resolvi empreender uma retirada para a casa do meu amigo e médico Raimundo de Brito, a fim de descansar um pouco e me esquivar daquelas manifestações que, embora eu não pudesse repelir, me constrangiam. No instante em que saía, com certa dificuldade, vi a aproximação de novos grupos, que traziam nos braços Carlos Lacerda, com o pé engessado. Separamo-nos após uma rápida troca de cumprimentos, ainda à entrada do apartamento. Dirigi-me ao automóvel de Raimundo de Brito. Lacerda, segundo me informaram mais tarde, ocupou, juntamente com outros oradores, o microfone de uma das emissoras, que se encontrava no local. Era visível a curiosidade dos que pretendiam saber para onde me encaminhava. Contaram-me que muitos, na suposição de que eu iria para o Catete, a fim de tomar posse, para lá correram... Depois de algumas voltas de despistamento no carro, entramos pelas portas do fundo da residência de Raimundo de Brito, em Copacabana. Raimundo aplicou-me uma injeção e dormi imediatamente. Estávamos entre cinco e seis horas do dia 24 de agosto de 1954.

Despertado pela notícia do suicídio de Vargas

Adormeci sob os efeitos da medicação sedativa e hipotensora. Cerca de duas horas mais tarde, pouco antes das nove da manhã, o telefone tocou – segundo me informaram. Era um aviso da minha família de que o General Caiado de Castro desejava falar-me com a maior urgência. No mesmo instante, de acordo com o que me contaram os que se achavam na Casa de Raimundo de Brito, o jovem José Félix – em cuja cama eu dormia – indiferente às ordens de silêncio e às advertências maternais de D. Inês, corria pálido pelas salas, num inquieto subir e descer de escadas, a gritar nervosamente: - Papai! Papai! O rádio está dando que o Presidente Getúlio se suicidou! A primeira reação de Raimundo de Brito e do meu secretário particular, Oséias Martins, foi de estupefação e descrença. Não, aquilo não era possível. Mas veio a confirmação, sucinta e tremenda: sim, Getúlio acabava de dar um tiro no coração. O Brasil era de repente palco da tragédia imensa e raríssima de um Chefe de Estado que se elimina, fazendo recordar o caso Balmaceda. Resolveram acordar-me. Sem saber, em pleno sono, tornara-me eu Presidente da República, dentro de um drama sem precedentes no País. Procuraram despertar-me devagar, dando-me a notícia aos goles, com uma cautela tanto maior quanto eu era portador de uma cardiopatia. Ao recolher-me para dormir, exausto e com a pressão elevada, fora examinado pelo cardiologista Aarão Benchimol, que comentara para seu colega Teobaldo Viana, segundo me contou Raimundo de Brito: - Como é que este coração vai suportar as responsabilidades de um governo numa situação como esta? Acordei meio tonto, ainda sob a ação de remédios, com o meu médico e meu secretário particular à cabeceira. Diziam-me que a situação, ao que parecia, se agravara. Havia mesmo certos boatos estranhos. Justificavam a iniciativa de despertar-me, informando que várias pessoas desejam falar-me sem demora. Continuou nesse tom a conversa, enquanto eu trocava de roupa. Começava a desconfiar que os dois tinham algo muito grave a comunicar-me, mas não pretendiam fazê-lo de uma vez. Não atinava o que seria, mas percebi nitidamente que me preparavam para ouvir uma notícia desagradável. Não chegaram a concluir a missão. Inopinadamente, irrompeu no quarto, chorando, o General Pinto Aleixo, Senador pela Bahia, a exclamar com voz embargada: - Café, nunca imaginei que você chegasse à Presidência da Republica em condições tão trágicas. Abraçou-me em lágrimas e, então, fiquei sabendo de tudo. O choque fez-me sentar de novo no leito, perplexo. Por alguns segundos, perdi a noção de quaisquer outros aspectos do fato, para lhe ver apenas o lado humano. A desesperada deliberação de Getúlio, a desgraça nacional que representava o suicídio de um Presidente da República, quem quer que ele fosse, com a circunstância de que se tratava de um homem intimamente ligado a história do País nos últimos trinta anos, sem dúvida a figura central de todo aquele período, que ali de algum modo se encerrava sombria e inesperadamente. Como o General Pinto Aleixo, não pude reprimir a emoção. Mas logo procurei reagir para enfrentar a dura realidade. Ao abalo incoercível, provocado pelo gesto de Vargas, seguia-se o sentimento das pesadas responsabilidades que, de súbito, desabavam sobre mim. Dei-me conta de que, em virtude da morte de Getúlio, estava automaticamente investido nas funções presidenciais por um imperativo da Constituição. Fôramos eleitos juntos pelo povo brasileiros e eu me tornava titular do cargo de maneira absolutamente legal, mas circunstâncias imprevistas e atordoantes, que alargavam ao máximo os meus deveres e as minhas preocupações. Não assumia um governo em ambiente de festa, ao som de clarins e em meio de flores, mas um poder amargo, em clima de luto, perigos e incertezas. Acabava de vestir-me, quando fui atender ao telefone o General Caiado de Castro, que me fez a comunicação oficial da tragédia com estas palavras: - Sentindo-se traído, o Presidente suicidou-se. Respondi-lhe que tomasse as primeiras providências protocolares, entre as quais se previa a permanência do corpo no salão nobre do Palácio do Catete. Replicou-me Caiado de Castro que a família Vargas já tinha resolvido colocar o ataúde no Gabinete Militar, na parte térrea, e dispensava quaisquer honras oficiais. Declarei-lhe que nesse caso atendesse a todas as exigências da família. E encerramos o curto diálogo. A recusa das homenagens fúnebres ao Presidente morto, por parte de seu sucessor, asseguradas em lei, era um sintoma expresso de hostilidade a quem não tinha culpa nenhuma dos acontecimentos e até oferecera a própria renúncia para evitar um desfecho sangrento. Indiferente ao tratamento que recebia, mandei levar ao Catete uma coroa de flores com os seguintes dizeres: “Homenagem de Café Filho a seu companheiro de 1950”. Como sucessor de Vargas, precisei traçar em pleno tumulto as diretrizes do meu Governo. Qualquer passo menos feliz de minha parte, poderia precipitar o Brasil numa catástrofe de proporções impensáveis. Rejeitada pela família de Getúlio a participação do novo Governo nos funerais, não havia por que me deter em suscetibilidades de caráter pessoal. Problemas de maior importância exigiam a minha atenção imediata. Eram para mim instantes decisivos, em que precisava lançar mão de todas as reservas de equilíbrio, capacidade de resolução rápida e coragem para não recuar em hipótese alguma. Urgia dominar a situação e avocar o comando dos acontecimentos. Já não podia parar. Não era mais simples espectador. Tinha agora obrigações a cumprir. Chegou ao meu conhecimento o bilhete de Getúlio: “À sanha dos meus inimigos, deixo o legado da minha morte. Levo o pesar de não ter feito pelos humildes tudo o que desejava.” Soube que estas palavras estavam sendo irradiadas a cada instante e compreendi logo o perigo que encerravam, como fonte de excitação subversiva e como estímulo a represálias por parte de algumas camadas do povo, nem sempre devidamente esclarecidas e geralmente inclinadas a se deixarem levar pela simplicidade espontânea e pura dos sentimentos. Procurei neutralizá-las através de uma nota oficial redigida em linguagem adequada ao momento. Assim, a primeira mensagem que dirigi à Nação, de par com a sincera manifestação de pesar pessoal, continha também um sentimento político, exprimindo já um esforço para evitar que o País afundasse na desordem.  Tratava-se de uma exortação tranqüilizadora, destinada a arrefecer os ânimos incitados pelo bilhete e conjurar quaisquer explorações sobre os propósitos do novo Governo, confirmados depois na manutenção do salário-mínimo e da legislação trabalhista, bem como nos critérios gerais por mim adotados na luta contra a inflação e a carestia de vida, em que se debatiam principalmente as classes pobres. Determinei que a minha mensagem tivesse ampla divulgação e fosse lida repetidamente nas emissoras com que pudesse contar o Governo que nascia. Deste modo, travou-se nos microfones a singular batalha entre o bilhete de Getúlio e a pequena proclamação do novo Presidente, num dia em que todo o Brasil estava ao pé do rádio. Mas, daí a pouco, surgiu no noticiário outra novidade: a carta atribuída a Vargas e apresentada como seu testamento político, que encerrava, inegavelmente, uma instigação revolucionária, passou a ser lida, também, quase sem interrupção, não só pelas emissoras vinculadas ao getulismo, mas igualmente da tribuna do Parlamento e nas ruas, em comícios de intensa agitação e evidente pregação subversiva. Responsabilizava pelo drama do Presidente não só seus adversários na política interna, mas também os Estado Unidos. Procurava, em suma, despertar o sentimento nacionalista dos brasileiros para uma reação. Era um estímulo ostensivo à pior das revoluções: a do ódio, a da vingança dos supostos oprimidos contra imaginários opressores, tendo como base uma aliança de nativistas e comunistas interessados na luta de dimensões imprevisíveis contra os estrangeiros. Às emoções da tragédia e à popularidade de Getúlio, galvanizada pelo salário mínimo, juntavam-se dois documentos como fatores de um incêndio que parecia difícil de impedir que se alastrasse. Não sei se alguém pode supor, além dos motivos notórios de sua atitude, quais os sentimentos íntimos que Vargas abrigava no momento de sua decisão extrema. Era incontestável que, tendo ou não tais intenções, o seu trágico gesto trazia, entre outras, estas conseqüências: uma ameaça direta à ordem e ao regime, ao lado das perspectivas de uma vindita esmagadora. (...) Em 24 de agosto, apoiado, apenas, no sentimento da minha responsabilidade, na minha formação democrática e na minha confiança nas armas naturais da lei, consolidei o meu Governo sem quaisquer medidas de exceção. No entanto, naquele dia, e não em 21 de novembro de 1955, a agitação palpitava, sintomaticamente, nas ruas. Nenhum outro homem no Brasil, além de mim, já assumiu a Presidência da República em circunstâncias mais penosas e agressivas. Dentro do Catete, o Presidente morto pelas próprias mãos. Do lado de fora, o pranto coral de milhares de pessoas, parecendo uma orfandade coletiva. No centro da cidade, turbas incendiárias, extravasando a sua fúria em atos de destruição e vindita. Chegavam-me notícias dos distúrbios nas ruas. Políticos contrários a Getúlio, como Carlos Lacerda, estavam sendo caçados num clima febril de sede de vingança. Grupos agressivos postavam-se diante de alguns jornais, em preparativos de empastelamento. Crescia a cada instante a tensão nervosa, admiti que a agitação apenas começava e se estenderia ao País. Vieram-me à lembrança acontecimentos históricos, desencadeados pelo delírio popular. Conhecia a índole pacífica dos brasileiros, mas não podia subestimar esse fatores: o ineditismo do suicídio de um Presidente, como fonte de emoções desconhecidas; a presença dos comunistas com sua técnica revolucionária; os efeitos subversivos do bilhete e da chamada carta testamento de Vargas e as perigosas transfigurações a que está sujeito o temperamento de qualquer povo em instante de exaltação coletiva. Todos os instantes haviam sido de exaltação, durante a crise de agosto. Na véspera, à noite, durante a derradeira reunião ministerial, o Catete exibia-se aberto e iluminado. Não eram luzes de alegria mas de vigília e alarme, sob as vistas da multidão reunida em sereno cívico nas cercanias. Nessa multidão, que não arredou pé da sua expectativa e viu clarear o dia defronte ao Palácio, foi instantânea e radical a metamorfose da atitude hostil. Gritavam pela renúncia de Vargas e dirigiam-lhe expressões pejorativas. Soprada a notícia da morte de trás daquelas paredes que espreitavam, as imprecações transmudaram-se em prantos. Não seria a simples psicologia das massas sob a influência do impacto da mutação do quadro. Era o sentimento de cada um, onde quer que se encontrasse inclusive sozinho e dentro de si próprio. Lembro-me, a propósito, de um homem abastado, das classes produtoras que, poucas horas antes, raivoso e ensandecido, se dispunha a ir ao Catete. - É preciso matar Getúlio! Horas depois, desesperado e inconsolável, banhado em lágrimas, soluçava o infortúnio: - Getúlio matou-se! Na situação criada pelo suicídio de Vargas, as piores surpresas poderiam advir. Mas isto, em vez de esfriar o meu ânimo, serviu de incentivo para que empunhasse com mão firme as responsabilidades inerentes ao cargo que o povo me confiara e a Constituição me assegurava, como legítimo sucessor do Presidente em caso de morte.
Diziam muitos que não me manteria um instante sequer no poder. Resolvi enfrentar o teste. (...) Havia indícios de que o meu Governo não fora imediatamente aceito, em certos círculos, como um fato consumado, nas primeiras horas após a tragédia. Em meio da perplexidade daqueles instantes, não faltou quem ficasse em atitude de dúvida e expectativa quanto à direção dos ventos... Desejei falar aos titulares das pastas militares, mas não foi possível localizar nenhum deles. Determinei às autoridades subalternas, encontradas naqueles Ministérios, que remetessem com urgência uma guarda para o Palácio das Laranjeiras, porém não fui atendido. Era um sinal de que, na prática, o regime estava ameaçado de um hiato de seu funcionamento. Vi nisto mais uma razão para que fizesse valer a minha autoridade. A não ser que fosse deposto, era o Presidente da República, independentemente de qualquer vontade militar ou civil. Somente um golpe de Estado poderia fazer prevalecer o não-reconhecimento da legitimidade do meu mandato. A manifestação de hostilidade dos Vargas, recusando a participação do novo Governo nos funerais de Getúlio, a ausência de colaboração militar naquelas primeiras horas, os incêndios e as arruaças, que lavravam numa série de violentas explosões, cujo desenvolvimento ninguém podia imaginar até onde iriam – tudo isto me deu a sensação de encontrar-me sem garantias. Pessoalmente, decidi enfrentar a conjuntura. Mas lembrei-me da minha família, constituída exclusivamente de senhoras e de uma criança, a cuja companhia eu não poderia voltar naquela manhã. Achei prudente retirá-la de casa, principalmente porque esta continuava a ser invadida por muita gente, em cujo meio, ao lado dos amigos, havia, também, alguns desconhecidos. Incumbi da missão o Senador Reginaldo Fernandes. Jandira recusou-se a sair. Habituara-se, desde os tempos iniciais de minha acidentada carreira política no Rio Grande do Norte, a solidarizar-se com o marido nas horas de dificuldades e perigo. Mas como Reginaldo insistisse e o apartamento, em virtude da avalanche de visitas, estivesse reclamando um trabalho de limpeza e arrumação, a família acabou concordando em que era, realmente, preferível passar o dia fora. Decidi seguir para o Palácio das Laranjeiras, mesmo desguarnecido. Atravessei quase sozinho as ruas virtualmente conflagradas. Chegara-me a informação de que nas Laranjeiras havia operários trabalhando. Estava, portanto, aberto e nele poderíamos penetrar com facilidade. O problema era aquele a cujo me encontrava: cruzar as ruas tumultuadas e estabelecer o Governo dentro de um ambiente revolucionário, numa sede destituída de qualquer serviço de segurança. Entrara no carro de Elmano Cardim, em companhia dele, de Bernardes Filho , Reginaldo Fernandes, Sérgio Marinho e do meu secretário particular Oséias Martins. Da minha comitiva, o Senador Artur Bernardes Filho era o único que estava armado. Recomendei ao motorista, um senhor português, que me parecia um tanto nervoso, que evitasse as aglomerações. Mas em breve fomos parar diante de uma feira na Rua Gago Coutinho, única via de acesso ao Palácio das Laranjeiras. O rádio continuava a divulgar um noticiário subversivo em torno do suicídio de Getúlio, do seu bilhete e da carta apresentada como sendo dele. Descrevia igualmente, as desordens que se verificavam não só no Rio de Janeiro, mas também em alguns Estados. As emissoras ligadas ao falecido conclamavam, abertamente, o povo à revolução.

Café Filho
Do Sindicato ao Catete, 1966, Livraria José Olympio Editora.

 


Governadores eleitos em 3 de outubro de 1950
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Da esquerda para a direita:   Raul Barbosa (Ceará), Ernani do Amaral Peixoto (Rio de Janeiro) e José Américo de Almeida (Paraíba), 
Fábio de Andrade, Café Filho, Álvaro Maia (ex-governador do Amazonas), Arnon de Melo (Alagoas), Munhoz da Rocha (Paraná) e Régis Pacheco (Bahia).
Reprodução de foto do livro Do Sindicato ao Catete, 1966, Livraria José Olympio Editora.

 

 

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