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A QUEDA DE JOÃO GOULART |
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A Batalha do Guanabara Durante um dia e uma noite, o Palácio da Guanabara e o
Governador Carlos Lacerda foram nomes que representaram a resistência
democrática na chamada “capital cultural e política” do País. Ninguém
pregou olho. As horas transcorreram em regime de sentinela bem acordada,
até que a vitória se desenhasse no céu do Rio. Os tanques do Exército
estavam no Largo do Machado. No Palácio da Guanabara, o Governador Carlos
Lacerda se mantinha em calma e em expectativa. Todo o secretariado
presente. 18,30 hs do dia 31 de março. O feriado escolar, depois de
estudado, teve sua decretação feita às 23 horas. Cerca de 300 oficiais das
diversas armas se dirigiram para o Guanabara, a fim de solidarizar-se com
o Governador. Meia-noite: sabe-se do movimento de tropas de São Paulo em
direção ao Rio de Janeiro. Junto à Igreja, um foguete (antitanque) é
montado em longarinas de asa de avião. Aos 5 minutos chega o Senador Artur
Bernardes Filho. O Governador se mantém em vigília e fala com o Jornalista
Jules Dubois, de Miami, Estados Unidos, e dá a notícia da adesão do Rio
Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo. Lacerda sai aos 35 minutos,
acompanhado apenas pelo general Mandim, responsável pela segurança de
Palácio, e inspeciona, até aos 55 minutos, os arredores. A uma hora da
manhã, começaram a cortar os telefones da linha 25, que serve ao
Guanabara, mas continuaram a funcionar três da linha 45,que passaram a ser
utilizados pelo Governador. Às 2,45 hs, corre em Palácio a notícia de que
os fuzileiros navais iriam atacar. A expectativa prossegue até às 5 horas,
quando entram mais 30 generais do Exército. Às 6,30h, nova notícia
promoveu atitude semelhante, logo relaxada por saber-se que se tratava de
um rebate falso. O dia 1° de abril estava claro. Às 7,55hs, o Governador
Carlos Lacerda recebe o Manifesto dos Generais, que iria ser lido após o
hasteamento da Bandeira Nacional, às 8 horas, através da Rádio
Inconfidência, de Minas Gerais. Às 8,30 hs, Juracy Magalhães entra em
Palácio e conferencia com Carlos Lacerda. Às 10,45h, o presidente do
Tribunal de Justiça, Dr. Vicente Faria Coelho, chega e conferencia com o
Chefe do Executivo. Às 13,15hs, entra em Palácio o Sr. Armando Falcão. As
notícias se aceleram. Às 16 horas, há o momento de maior emoção para o
Governador Carlos Lacerda: tanques do Exército, que se encontravam no
Palácio das Laranjeiras, estão agora guarnecendo o Palácio da Guanabara. O
Chefe o Executivo carioca, ao ouvir a notícia, chora e exclama:
O Carnaval da Vitória Foi uma reação
em cadeia. Anunciada a viagem do Presidente a Brasília e a vitória das
forças revolucionárias, milhares de pessoas saíam às ruas, gritando,
pulando, discursando também, num verdadeiro carnaval. Grupos mais
exaltados e tomados de fúria incendiaram o prédio da UNE, na Praia do
Flamengo, quando os dirigentes comunistas da entidade já haviam
desaparecido e abandonado a sua trincheira. Os mesmos grupos depredaram e
incendiaram a “Ultima Hora”, na Praça da Bandeira. Isso foi um pouco de
vingança e excesso condenável, pois a massa, o povo carioca, queria apenas
viver aquelas horas de vitória e não vingar-se daqueles que tinham sido
vencidos. O CARNAVAL O dia 1º de
abril foi de tráfego congestionado, avançado passo a passo, no Rio de
Janeiro. Especialmente na Zona Sul. Quase duas horas para ir de Copacabana
ao Leblon, percurso que se faz normalmente em meia hora. Madrugada de
colisões. Na praia de Botafogo três carros de passeio chocaram-se, em
horas diferentes, contra postes e árvores. No Flamengo, um carro estadual,
oficial, cujos ocupantes metralharam a sede da União Nacional dos
Estudantes, estava completamente danificado. Colidira com um poste, após o
atentado. Na Avenida Beira-Mar, duas Kombis chocaram-se contra um poste e
uma árvore. Um carro de praça incendiou-se na Avenida Brasil, do juiz
trabalhista Orlando Silva Oliveira, atropelava e matava uma doméstica na
Rua Haddock Lobo. Reportagem
da equipe de “O Cruzeiro” |
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Depoimentos de Magalhães, Adhemar, Lacerda e Juscelino, sobre a vitória da Revolução
O Governador
Adhemar de Barros em entrevista exclusiva cedida a “O Cruzeiro” – a
primeira desde a eclosão do movimento armado contra o governo do Sr. João
Goulart –, disse que dará combate sem trégua aos comunistas, caçando-os
onde estiverem, em qualquer ponto do território nacional. Visivelmente
eufórico, apesar do cansaço de muitas horas sem dormir, o Sr. Adhemar de
Barros começou dizendo que o movimento revolucionário por ele comandado em
São Paulo começou na noite de 31 de março de março, “para valer”. Antes,
durante e depois da crise, o Governador Lacerda esteve no centro dos
acontecimentos. E, como é de seu feitio, pronunciou-se diversas vezes com
a maior veemência. Na tarde do dia 1º de abril, anunciando ao povo a
vitória das forças comandadas pelo General Olímpio Mourão Filho, o
Governador da Guanabara fez declarações através do rádio, declarações que
constituem verdadeira súmula do que ele dissera até então. Depois de se
dirigir às donas de casa, pedindo-lhes que se mantivessem calmas, o
Governador passou a analisar o Sr. João Goulart, seu Governo e as causas
que determinaram a necessidade do seu afastamento. - “De herdeiro de
alguns hectares de terra, transformou-se, em poucos anos, em proprietário
de mais de 550 mil hectares – uma área igual a quatro vezes e meia o
território da Guanabara.” E prosseguiu: “Associado do Sr. Wilson
Fadul (que por isso foi ser Ministro da Saúde, e não porque seja um
cientista), em quatro anos, com dinheiro do Banco do Brasil, e com
dinheiro cuja origem não explica, o Sr. João Goulart transformou-se num
dos homens mais ricos deste País, com três bois por hectare em suas
fazendas. O Sr. João Goulart é um leviano que nunca estudou – e não
estudou porque não quis, não é porque não pôde. E agora, no Governo do
País, queria levar-nos ao comunismo.” Explicando que discordara da
investidura do Sr. João Goulart na Presidência da República, mas terminara
aceitando-a, disse o Governador Lacerda: “Eu o conhecia bem. Mas, como
bom democrata, submeti-me à vontade da maioria, quando entrou em vigor a
fórmula do Parlamentarismo. Mas o Sr. João Goulart não queria governar.
Adulava, de dia, os trabalhadores que condenava ao desemprego, de noite. O
Sr. João Goulart jurou fidelidade ao Parlamentarismo, para logo em seguida
impor o plebiscito, e todo o povo votou. Eu não votei porque achava que o
plebiscito era uma palhaçada, e repito que era. Quem quiser fazer
reformas deve ter a honestidade de dizer que as fará sem reformar a
Constituição. Há necessidades de se fazer reformas, e eu acho que se pode
fazer isso sem se mexer na Constituição. Mas o Sr. João Goulart não queria
isso. Montou um dispositivo sindical nos moldes fascistas, com dinheiro do
Ministério do Trabalho, dinheiro roubado do imposto sindical, roubado do
salário dos trabalhadores, para pagar as manifestações de bandeirinhas e
as farras dos homens do Ministério do Trabalho. Ao mesmo tempo, começou a
criar dificuldades para a Imprensa, para os jornais, para o rádio e a
televisão, iniciando um processo de escravização dos homens livres que
fazem a imprensa do nosso País. Depois de criar as dificuldades, o Sr.
João Goulart oferecia-se para resolvê-las, enquanto dava curso ao processo
de entreguismo do Brasil à Rússia. O Sr. João Goulart foi o maior
entreguista que já teve este país.” Continuando seu discurso, acusou o
ex-Presidente Goulart de iniciar o solapamento da autoridade militar,
entregando os comandos militares a gente sem prestígio nas Forças Armadas.
“O desprestígio” – disse Lacerda – “atingiu a todos os setores
do Governo, os Ministérios Civis e a própria Casa Civil da Presidência,
onde estava Darcy Ribeiro, um instrutor de tupi-guarani, que acabou reitor
da Universidade de Brasília sem jamais ter sido professor”. Dizendo
que os brasileiros honrados que votaram em João Goulart não tinham dado
seu voto ao comunismo (“portanto Jango enganou o povo”), Lacerda
fez referências elogiosas aos Generais Castelo Branco e Mourão Filho,
atacando em seguida o Almirante Aragão (“sem condições para ser
almirante”), e aludindo ao Cabo José Anselmo: “A Marinha é tão ruim
que um cabo pode ser estudante de Direito. Em nenhuma Marinha do Mundo,
nem nos Estados Unidos, nem na Rússia – um cabo tem tempo para estudar
Direito. E o Sr. João Goulart acobertou, patrocinou, estimulou toda essa
gente, jogando marinheiro contra soldado, farda contra farda, classe
contra classe, brasileiro contra brasileiro. Assim, não era
possível que Marinha, Aeronáutica e Exército suportassem mais tamanha
impostura e tamanha carga de traição.” E concluiu: “Deus é bom.
Deus teve pena do povo”. Dizendo que a legalidade é anticomunista mas não é
antipopular, o ex-Presidente Juscelino Kubitschek, candidato do PSD ao
Palácio do Planalto em 1965, afirmou em entrevista exclusiva a “O
Cruzeiro” que a hora é de grandeza democrática, e que o Brasil precisa de
reformas contra os privilégios e contra os extremismos. A palavra do líder
que esteve, também, no centro dos últimos acontecimentos é decisiva para o
desarmamento dos espíritos, agora que o País volta à paz e ao trabalho. -
"É com o pensamento voltado para Deus, grato à sua proteção ao Brasil e
ao seu povo, que saúdo a nossa gente pela restauração da paz, com
legalidade, com disciplina e com a hierarquia restauradas nas Forças
Armadas. No auge da crise, quando era próxima a possibilidade de
derramamento do generoso sangue brasileiro, o apelo à paz, com legalidade,
disciplina e hierarquia, tinha de ser ouvido. E foi ouvido. A paz está
mantida. A legalidade engrandecida. A disciplina e a hierarquia
rejuvenescidas. Mais do que nunca o Brasil precisa de paz: nos espíritos e
nos corações. A mente clara, para pensar sem ódios e sem rancores. A
convalescença terá de ser curta, sem radicalizações e sem
ressentimento. Não manteremos a paz da Democracia representativa com
sentimentos de vingança e rancores condenáveis. A hora é de grandeza
democrática. De grandeza da própria Democracia. De volta à rota do
progresso pela criação da riqueza e da multiplicação das oportunidades de
viver melhor. Sem progresso não haverá liberdade para alcançar a justa
distribuição da riqueza. Continuaremos a socializar o escasso. A paz não
exclui, todavia, a vigilância democrática. O perigo comunista não estava,
como se viu, no comportamento do povo e dos trabalhadores, ordeiros e
democratas. O perigo comunista estava na infiltração em comandos
administrativos. A vigilância democrática não significa, porém, a
oficialização em qualquer ponto do território nacional do liberticídio, do
desrespeito às liberdades individuais e associativas. E muito menos
daquelas liberdades que mais de perto se relacionam com as aspirações
populares e com os direitos associativos, com os sindicatos libertados de
influências políticas de cúpula. A legalidade é anticomunista, mas não é
antipopular. A legalidade democrática deverá estar aberta, em todos os
seus canais de comunicação, ao livre curso dos debates. A legalidade
democrática abre também a possibilidade de recolocar o problema das
reformas de base. As reformas realmente democráticas, dentro da ordem
social e econômica. Reformas que elevem o padrão de vida do povo, nos
campos e nas cidades, significando socialização da riqueza, com a
preservação integral do princípio da propriedade privada, que cumpre
estender e generalizar, dando prioridade aos que nada possuem. Não temos
dúvida em afirmar que a Democracia só será consolidada e enriquecida com a
conquista permanente da devoção popular. A legalidade democrática nos
conduzirá às eleições. Será a continuidade do regime, já restaurado com a
posse, pelo Congresso, do meu eminente companheiro de partido, o
Presidente Ranieri Mazzilli. O ritual democrático está firme. É preciso,
agora, que os fins que ele simboliza sejam realizados pela ação dos
brasileiros lúcidos e tolerantes. O Brasil das reformas é o Brasil
democrático, contra privilégios e contra extremismos. É o Brasil sem
frustrações. Esperançoso, rico e mais
justo". |
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Saber Ganhar AGORA, eles sabem que a sua espada não é de pau, meu
velho Capitão, e eu volto o pensamento até aquele quarto da casa paulista,
onde as suas mãos trêmulas escreviam a história deste país, dizendo-me:
“Péter plus haut que son cul”. |
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