PRIMEIRAS DAMAS DO BRASIL DA DÉCADA DE 60

 

Primeira Dama vai ganhar novo nome

Um homem se despede do povo. É Juscelino Kubitschek de Oliveira. A 3 de outubro, quando quase 15 milhões de brasileiros escolhem o novo Presidente, ele começa a arrumar as malas para deixar o Governo. Ao seu lado está uma mulher. É Dona Sarah Kubitschek. Sua figura feminina - que se tornou popular com a instituição das Pioneiras Sociais - vai ser substituída por outra Primeira Dama. Quem será? Dona Leonor. Dona Eloá. Dona Antonieta. Três nomes. Três hipóteses. Cada uma delas representa uma possibilidade. Mas somente uma delas irá ao posto até agora ocupado por Dona Sarah. Seus maridos, candidatos, apresentaram programas de Governo. E elas, como Primeiras Damas em potencial, também têm suas idéias, seus planos, suas decisões. “O Cruzeiro” conversou com Dona Leonor, Dona Eloá e Dona Antonieta. Ouviu parentes. Ouviu amigos. Sabe o que cada uma pensa da assistência social. Como entendem a atuação da mulher na vida do País. E, sobretudo, como agem elas na vida do lar. O leitor, que soube escolher seu Presidente, pode saber agora qual a Primeira Dama que vai ter. Quem é o que faz, dentro e fora do lar.

 

Dona Leonor não gosta de gatos

Dona Leonor é dinâmica. Fundou e preside a Bandeira Paulista Contra a Tuberculose. Promoveu inúmeras campanhas para construção de hospitais e maternidades. É contra o “feminismo exaltado”, admitindo que a mulher trabalhe fora do lar sòmente para manutenção da família. Acha que a burocracia é o grande inimigo na assistência social. “Às vezes uma mãe precisa de leite para matar a fome de um filho, mas quando o leite chega a fome já matou a criança.” Conservadora nas instalações da casa (construção antiga onde reside há 25 anos), todos os seus móveis são de linhas clássicas, grande parte em jacarandá entalhado. As paredes são ornamentadas com pinturas acadêmicas, contra um fundo em tonalidade pérola. Não pretende deixar a velha casa, coisa que só fará obrigada pela “invasão” dos apartamentos que começam a subir a Rua Albuquerque Lins, cidade de São Paulo. Gosta de bichos, menos de gatos - “que parecem certos políticos: são infiéis, falsos, aduladores só quando lhes convém”. Em casa há dois cachorros, Pingo e Roy. Quatro papagaios, duas araras, nove canários. Dona Leonor tem quatro filhos, dois homens e duas mulheres, e doze netos que a visitam diariamente. Dispõe de um pequeno contingente de empregadas domésticas, ativas e inativas. A mais velha, chamada Maria, foi cozinheira durante 25 anos. Agora ganhou "aposentadoria", mas ainda circula na casa com os seus 70 anos. É Tuta para todos da família. A governanta, portuguesa Patrocínia, trabalha com os Barros há 23 anos. Dona Leonor gosta de acompanhar pessoalmente o preparo da comida e suas visitas à cozinha não são surpresa. Não suporta coquetéis e raramente faz refeições na sala de jantar: prefere uma pequena sala de almoço. Dona Paulina, sua secretária, recebe muitos convites para Dona Leonor comparecer a recepções. Quase sempre são recusados. Tôdas as manhãs ela visita alguns hospitais e, à tarde, invariavelmente, vai ver a mãe, Dona Elisa de Moraes Mendes, que conta 93 anos de idade. O problema da favela a preocupa e está empolgada com o livro escrito pela favelada Carolina de Jesus. Às vezes acompanha Adhemar em suas excursões políticas, que encara como missão em prol dos humildes.

Dona Eloá quer o fim das favelas

Dona Eloá acompanha Jânio Quadros em quase todas as viagens. Mas só faz vida social quando imposta pelos compromissos do marido. Orienta em pessoa os estudos da filha, Dirce Maria, no quarto ano ginasial do Colégio Sion paulista, onde também estudou. Foi Jânio quem pôs na filha o apelido de Tutu, prato preferido por ele. Dona Eloá se declara interessada pela assistência social e pelas entidades públicas ou particulares que a promovem. Acredita que a Legião Brasileira de Assistência, depois de moralizada, pode prestar grandes serviços à mãe e à criança desamparadas. O SAM, do Ministério da Justiça, é outra instituição que, no seu entender, deve ser recuperada. Vê com bons olhos a ação das Pioneiras Sociais, de Dona Sarah Kubitschek, pretendendo manter e ampliar seu raio de ação, se chegar a Primeira Dama. As favelas e os mocambos, pragas semelhantes, devem ser exterminadas. Construção de vilas para o operariado é providência que tem prioridade, em seus planos, bem como no programa do marido, com o aproveitamento dos recursos da Previdência Social e da Fundação da Casa Popular. É contra arranha-céus e edifícios de apartamentos. Em Brasília, Fortaleza, Belém, João Pessoa, Recife, Rio, São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte, planeja intensificar o combate à mortalidade infantil, atualmente com índices desanimadores. Está apavorada com o abandono da criança no Norte e Nordeste, quadro não muito diferente do que viu em Minas, Goiás e Mato Grosso. É apontada como possuidora de hábitos simples e modestos. Não gosta de luxar. Muitos dos seus vestidos e da filha são feitos em casa, por suas mãos. Faz tricô muito bem. Vai a teatro e cinema, tendo predileção pelo teatro nacional. Fala com todos, indistintamente. É considerada uma das audiências mais fáceis de São Paulo. E reconhecem-na como uma das maiores forças políticas da Capital paulista, notadamente nos bairros operários, embora não se interesse por qualquer partido nem por qualquer cargo eletivo. E nos comícios de Jânio, ela se tornou figura freqüente.

Dona Antonieta perde a matinê

Sítio é uma tranqüila localidade mineira. Lá nasceu o Marechal Lott. Lá nasceu também Dona Antonieta, a esposa. São primos, ela sobrinha e afilhada da mãe dele, Dona Batistina. Brincaram juntos, cresceram juntos, mas Dona Antonieta, muito jovem, casou com Antônio José Zeferino do Amarante Neto, outro primo. E ainda jovem também ficou viúva, com um filho. Veio para o Rio e começou a ensinar crianças, como professora da Prefeitura do antigo Distrito Federal. Com esse dinheiro, parco, educou o filho e sustentou o pai doente, Senhor Eudoro Lasthenes de Andrade. Deu aulas na Escola Equador, Vila Isabel, até 1946, quando se aposentou. Lott casara e também ficara viúvo. No dia 31 de julho de 1952, as portas da matriz de Teresópolis abriam-se para receber um casal maduro, mas sorridente: o então General Lott e sua prima, que, em solteira, tinha praticamente o mesmo nome de hoje - Antonieta Duffles Teixeira de Andrade. Ela e ele gostavam muito de cinema. Todas as quintas e sábados, de 2 às 4, estavam na matinê do “Miramar”, no Leblon. Metodicamente. Essa alegria acabou quando Lott assumiu o Ministério da Guerra, em 1954. Nunca mais houve matinê no “Miramar”. Agora, o ponto de contato era a música clássica. Em seu gabinete, o Marechal mantinha o rádio ligado para a “Roquete Pinto”. À noite, em casa, a família se reunia (ele tem 6 filhos do primeiro casamento) para ouvir uma dupla ao piano: Lott e Dona Antonieta. Até hoje tocam a quatro mãos, tendo sido aumentada a assistência com três netos. E rezam juntos depois de cada jantar. Em alguns serões, Lott lê e Dona Antonieta costura ao seu lado. É ela quem conserta as meias dos netos. Quem fez a renda de Irlanda para o casamento do filho, Major Duffles. A nora, Dona Nally, é sobrinha dela. Os Duffles casam na família. E muitas blusas distribuídas pelas Pioneiras Sociais saíram das mãos habilidosas de Dona Antonieta, que também é admirável cozinheira, mestre em quibebe de abóbora, couve à mineira e quitutes tradicionais. Prefere as cores sóbrias e não transige em questões de moral. Odeia a política. Não compareceu a um só comício do marido. “Se tiver de exercer atividades de Primeira Dama, será à minha revelia, porque prefiro a vida de casa”, confessa com sinceridade.

Reportagem de Eurilo Duarte
Revista "O Cruzeiro" - 15 de outubro de 1960
Música de Fundo: "Café Society" com Jorge Veiga

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