O Banco da Providência

 


Dom Hélder Câmara

 

Notícias do Banco da Providência

Acho que todo o Brasil já conhece a última invenção de D. Hélder Câmara: o Banco da Providência. Usando o “slogan” de que “ninguém é tão pobre que não tenha o que oferecer, ninguém é tão rico que não precise de ajuda”, o Banco recebe de quem queira dar (para depois distribuir com os necessitados), móveis, utensílios domésticos, instrumentos de trabalho, roupas, medicamentos etc; recebe, igualmente, donativos ou ofertas de serviços, horas de trabalho de qualquer profissional. Donativos ou trocas, pois cada “cliente” deve pagar o que recebe em futuras horas de serviço, ou outra qualquer forma de compensação a combinar. Para poder trabalhar, o BP organizou o seu serviço em carteiras, como outro banco qualquer. Veja agora um relatório já distribuído aos “acionistas”, onde se dá conta do movimento de algumas carteiras, nestes três meses:

Carteira de Roupas e Calçados: O BP recebeu 1.578 sacos de roupa, calçados e bolsas que, depois de recuperados (lavagem, consertos, ordenação) por instituições e particulares que com ele cooperam, foram distribuídos aos serviços sociais de 6 favelas, várias instituições de caridade e, particularmente, a mais de mil famílias.

Carteira de Alimentação: O sonho da direção do BP é manter essa carteira num ritmo regular de doações e recepção, a fim de poder garantir uma cota mensal de socorro aos que não ganham para comer. Assim mesmo, porém, a carteira já auxiliou a manutenção de 210 famílias.

Carteira de Educação: Neste começo de ano letivo, é das mais ativas. Até fim de fevereiro já conseguira encaminhar gratuitamente 131 crianças para internatos e 58 para externatos. E distribuiu grande quantidade de enxovais e uniformes. Mais não se fez porque o tempo foi pouco.

Carteira de Orientação Profissional: O BP explica que essa carteira não é uma agência de empregos: seu fim é ajudar os que, por motivo de doença, idade, defeito físico, têm dificuldade de encontrar trabalho. Muitas vezes, já estão entregues ao desespero, com as famílias na maior miséria, quando o BP os socorre. 378 pessoas foram entrevistadas e encaminhadas pelo BP, nestes três meses. 

Carteira de Saúde: Não dispõe de ambulatórios ou hospitais, claro. Destina-se a encaminhar enfermos para os serviços com os quais está entrosada. Mantém um pequeno serviço médico na sua sede (Palácio S. Joaquim, Largo da Glória) só para casos de emergência. Faz distribuição de remédios. (E pede remédios)

Carteira de Móveis e Utensílios: Tem grande movimento. Repara os móveis, cede-os, já mobiliou 3 casas de noivos, sem contar inúmeros clientes socorridos - particulares e instituições. Sofre um problema sério: transporte para recolher doações.

Carteira de Assistência Jurídica: Já atendeu a 110 casos - despejos, ações criminais, registro civil etc.

Ainda, pois, o BP de vento em popa, mas, eterno problema do crescimento, carece, inapelavelmente, de dinheiro. A carteira de empréstimos, neste pouco tempo, já distribuiu cerca de um milhão de cruzeiros. Note-se que não se cobram juros, o pagamento é sem prazo, em espécie ou em trabalho, mas insiste-se em emprestar, em vez de dar. É uma sutil distinção psicológica, importantíssima. E então, a fim de obter dinheiro, e sem onerar demais a generosidade dos que dão, nestes tempos de aperto, o BP bolou uma - como diremos? - vá lá, uma bossa-nova. O BP nos pede o que a gente ainda não tem e com que não conta: parte dos juros, apenas parte dos juros! dos nossos depósitos bancários. O BP está distribuindo formulários que o doador deve preencher, e no qual instrui o seu banco a transferir 25, 50, ou 100% dos juros de sua conta ao Banco da Providência. Para conseguir esses novos “acionistas”, o BP entrou em colaboração com o Rádio e a Tv e fará no dia 28 de março próximo - chamado o “Dia da Providência” - o maior programa de rádio e Tv já realizado na América do Sul, pois ficará no ar até que se chegue à cota de 50.000 acionistas, que é a sua meta. Os patrocinadores já concordaram em que todos os seus programas sejam dedicados ao Dia da Providência. - Em tempo: Não pede o BP os juros da sua conta bancária grande. Apenas o jurozinho da sua conta de movimento, que pode ser até de 100 cruzeiros, - dinheiro com que você não conta, porque é pouco e variável, e que não pesa de modo nenhum no seu orçamento anual.

Leitor meu irmão, vamos ajudar a bossa-nova de D. Hélder. Acho que vocês todos concordam em que é uma beleza esse sistema de fazer caridade com tal amplitude, e ao mesmo tempo respeitando a dignidade do socorrido: emprestar, em vez de dar esmolas. Tenho visto o BP funcionando, e posso garantir a vocês que é impressionante. Aliás não seria preciso esta minha afirmação para os interessar - quem sou eu, para servir de fiadora a um santo? Porém, o mais humilde pode dar o seu testemunho, e é isso que eu faço. Além do mais, com aquela energia espantosa que Deus lhe deu, se a gente não arranja depressa os acionistas que ele quer, além de nos obrigar a ficar escutando rádio sei lá por quanto tempo, aquele padre é muito homem para bolar coisa ainda pior - e traçar meta de meio milhão de acionistas, em vez dos singelos cinqüenta mil de agora...

Rachel de Queiroz
Revista "O Cruzeiro" - 2 de abril de 1960.


Dom Hélder e Madre Tereza de Calcutá

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