PIQUETE - CIDADE PAISAGEM
História

A Tradicional Festa de São Miguel

 


Teto da antiga Matriz de São Miguel, hoje Capela das Almas.
Foto de Lety

A Festa de São Miguel Arcanjo

Não sabemos precisar quando a devoção a São Miguel chegou a Piquete. Sabemos que em 1864 a comunidade piquetense se organizou e, por meio de uma petição, conseguiu de D. Sebastião Pinto do Rego, bispo de São Paulo, autorização para a construção de uma capela sob a invocação de São Miguel, no bairro lorenense do Piquete. Em março de 1875, foi criada a Freguesia de São Miguel do Piquete, primeiro passo para sua emancipação à condição de Vila, o que ocorreria em 7 de maio de 1891. Com a elevação da Vila à categoria de cidade, em 19 e dezembro de 1906, São Miguel foi declarado seu padroeiro, ficando estabelecido o dia 29 de setembro para as comemorações. 


A imagem de São Miguel Arcanjo deixa a sua Matriz, para a procissão comemorativa do Padroeiro.
Foto publicada no Jornal "O Estafeta".

A partir de então, tradicionalmente, logo nos primeiros dias de setembro, a população se mobilizava. A proximidade da festa era notada pelo aparecimento de rifas e jogos esportivos em benefício das obras da igreja. Corriam a cidade moças arrecadando prendas ou vendendo rifas de diferentes objetos, a fim de angariar fundos. Com a mesma finalidade, eram afixados no comércio programas de jogos de futebol entre o Esporte Club Estrela e o seu principal adversário, o Esporte Club Hepacaré, da vizinha cidade de Lorena. Também eram distribuídos cartazes conclamando para a tradicional Corrida Ciclística de São Miguel.


A largada da corrida ciclística de São Miguel de 29/09/1950 ocorreu na Praça da Bandeira. Percorreu a rua Com. Custódio, passando pela Estação da Estrela, Praça. Duque de Caxias, ruas Mestre Targino Cunha e Cel. Almir, retornando à Praça. O vencedor foi “Zito”, que recebeu como prêmio uma bicicleta.
Foto publicada no Jornal "O Estafeta".

No decorrer do mês de setembro, sob a supervisão dos festeiros, as preparações se intensificavam. Por volta do dia 20, iniciava-se a quermesse em benefício da festa. Essa quermesse, ansiosamente esperada ao longo do ano, era a sensação da temporada e atraía muitas crianças para as barraquinhas, com rifas de coelhinhos, pescarias etc. A criançada vibrava com o “porquinho-da-índia” que, assustado, se refugiava em uma das casinhas numeradas, para alegria do portador do bilhete de mesmo número. Mas, o que fazia o movimento diário era a presença dos jovens que, na quermesse, encontravam ambiente agradável. Havia, também, um serviço de alto-falante que noticiava fatos sociais de interesse da população. Por meio das músicas que ofereciam, os rapazes se declaravam às moças, e vice-versa. Dessa maneira, muitos relacionamentos e novas famílias eram iniciados. Essas quermesses eram concorridas. Aconteciam após a novena, que, cada noite, era abrilhantada por um orador convidado. 


O antigo Largo da Matriz, local de todas as festividades religiosas, com seu coreto ao centro.
O primeiro nome deste local foi Praça Gen. Fructuoso Mendes, mudando em 1932 para
Praça Dr. João Pessoa e, atualmente, Praça Professora Leonor Guimarães.
Foto escaneada do álbum "Coisas Findas" da FCR.

No dia da festa, 29 de setembro, a população acordava com foguetes e pela Euterpe Piquetense, que percorria as principais ruas da cidade. A FPV determinava ponto facultativo aos seus operários que, em grande número, compareciam, com seus familiares, para participar da missa solene celebrada pelo bispo diocesano. Esse dia era marcado, também, pelo regresso dos filhos de Piquete que estudavam ou trabalhavam em outras cidades. Vinham passar o dia com seus familiares. Num ambiente de alegria, em cada casa saboreava-se um almoço especial. À tarde, em torno das 13h, ocorria a disputada prova ciclística “Cidade de Piquete”, concorrendo atletas não somente do município, mas de vários pontos do Vale do Paraíba. As calçadas ficavam cheias de pessoas para assistir ao espetáculo e eventuais tombos. Terminada a prova e entregues os prêmios aos vencedores, as pessoas retornavam às suas casas, para se preparar para a procissão. Dessa maneira, a partir das 16h, as famílias, elegantemente trajadas, se dirigiam à igreja Matriz. Era notória a afluência de moradores dos bairros rurais. Muitos chegavam pela madrugada e se hospedavam com amigos e parentes. Da procissão participavam Irmandades, Congregações, Cruzadas Eucarísticas, estudantes, soldados do Contingente, a Banda de Música e a população em geral. O andor do padroeiro era, muitas vezes, conduzido pelo prefeito, delegado, vereadores, oficiais da FPV e pessoas de destaque na sociedade. Após o andor, vinha o bispo diocesano, acompanhado pelos festeiros. Com o término da procissão e as bênçãos de São Miguel, o último dia da quermesse estendia-se até altas horas. Havia um baile comemorativo que rompia a madrugada. No dia seguinte, os festeiros contabilizavam os lucros e prestavam contas ao vigário. Por muitos anos, foi assim que os piquetenses festejavam seu anjo protetor, São Miguel Arcanjo.

Jornal "O Estafeta", setembro de 2009
Piquete, SP


Saída de uma procissão da Matriz de São Miguel, hoje, Capela das Almas. Foto da década de 20.
Foto escaneada do álbum "Coisas Findas" da FCR.

A Força da Tradição

O fator cultural está na raiz da união de todas as comunidades humanas. Povos capazes de manter e preservar tradições e valores demonstram-se sempre muito fortes e tendem a perenizar-se com mais vigor que aqueles nos quais as tradições inexistem ou são mais frouxas. Daí a  importância de ações continuadas de valorização de nossas tradições. Todo mês de setembro, quando comemoramos nosso padroeiro São Miguel Arcanjo, reafirmamos essa importância. Apesar das mudanças que os tempos modernos inexoravelmente trazem, a força das tradições permanece e é ela o cimento que fortalece nossos laços de cidadania. Essa força vem desde a construção da antiga Capela de São Miguel, ainda no século 19. Sempre foi grande a participação dos fiéis nos trabalhos comunitários. Quando, no passado, ficamos por muitos anos sem vigário na paróquia, a fé e as tradições da comunidade foram mantidas devido ao empenho de homens e mulheres que devotaram parte de suas vidas não só a obras da Igreja, mas também a trabalhos sociais. É sempre bom lembrar os exemplos de José Vieira Soares, Zequinha Meirelles, Joaquim Sacristão, Joaquim Vaz, João Ramos, José Gomes de Souza, Zé das Moças, Leonor Guimarães, Mariquinha Ferreira, Nair Porfírio, Maria Lucas... São todos exemplos vivificantes de compromisso com a fé.


Paroquianos de Piquete.
Foto publicada no Jornal "O Estafeta".

Atualmente, dentro do projeto de evangelização rumo ao Novo Milênio, a Igreja Católica reafirmou a importância do resgate e da preservação de nossa cultura popular, indo ao encontro de nossas raízes, pois o processo de evangelização só se dá com o diálogo entre o evangelizador e a comunidade portadora de cultura. Nesse intercâmbio, o Evangelho é acolhido no cotidiano da vida do povo, de modo que ele possa “expressar suas experiências de fé em sua própria cultura”. A isso chamamos de “inculturação”. É essencial, portanto, o resgate, em nossas festas populares, do lado popular folclórico – além das procissões, as quermesses com seus festeiros, leilões, bandas de música etc., pois esses eventos sempre fizeram parte da “alma piquetense”.

AC
Jornal "O Estafeta", setembro de 2009
Piquete, SP


Imagem original de São Miguel Arcanjo, migrou pelos dois templos.
Foto de Lety

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